A Rua do jornalista que fez o «Novo Dicionário de Calão»

13 out afonso praça

O jornalista Afonso Praça, autor do Novo Dicionário de Calão e do romance O Coronel que Morreu de Sentido: A História de Um Bravo Militar Contada em Prosa de Jornal e Versos de Cego, bem como de uma escrita carregada de humor, está perpetuado na toponímia do Restelo, desde que o Edital  de 10/02/2004 o colocou no arruamento entre a Rua Alda Nogueira e o Impasse C, nas proximidades da rua com o nome de outro jornalista, Alberto Vilaverde Cabral.

Nascido transmontano, Afonso Emílio Praça (Felgar/13.10.1939 – 02.05.2001/Lisboa) foi um inconfundível artesão da escrita que viveu em Lisboa mais de 40 anos conhecendo como poucos os meandros desta cidade que fez sua; um cronista que usou amiúde Lisboa como cenário; um gastrónomo dos sabores e aromas da identidade portuguesa e um jornalista profundamente conhecedor da língua portuguesa. Licenciado em Filologia Românica, trabalhou como jornalista nas revistas Flama, Vida Mundial e Visão bem como nos jornais Diário de Lisboa, República e Jornal de Letras, para além de ter dirigido o Jornal de Educação (1977), o mítico Sete e o semanário humorístico Bisnau (1983) e, ainda ter fundado O Jornal (1975) e dado a sua colaboração a inúmeros periódicos regionais.

Afonso Praça foi também Presidente do Sindicato dos Jornalistas (1974-75), membro da direção da Casa da Imprensa e ainda professor na Escola Superior de Comunicação Social (1976-77), na Escola Secundária dos Olivais (1980-81), em Cursos para Estrangeiros da Faculdade de Letras de Lisboa e também em diversos cursos de formação em Comunicação.

O autor do Novo Dicionário de Calão (2001), produziu ainda outras obras de que se destacam Um Momento de Ternura e Nada Mais- Tópicos de Capricórnio (crónica,1995), O Coronel que Morreu de Sentido: A História de Um Bravo Militar Contada em Prosa de Jornal e Versos de Cego (romance, 1996), Receitas Afrodisíacas e Desenhos Eróticos (com desenhos de Francisco Simões, 1997) e Festas e Comeres do Povo Português (em colaboração com Maria de Lourdes Modesto, 1998-99).

Como conhecido amante da gastronomia portuguesa, Afonso Praça foi também o autor do programa televisivo Portugal de Faca e Garfo mas também colaborou nos programas Terra a Terra Minha Gente, Memória de Um Povo, Cartas na Mesa, Jornais e Jornalistas, Faz de Conta (com Raul Solnado), para além de ter sido o Altíssimo Júri no concurso Um, Dois, Três, assim como jurado no Quem Conta um Conto (com Mário Zambujal). Fez também incursões no cinema, com a adaptação do romance de Manuel Mendes intitulado Pedro: romance de um vagabundo, em co-autoria com Fernando Assis Pacheco,  para o guião de base de Pedro Só (1972) de Alfredo Tropa,  no qual também representou um pequeno papel e, oito anos mais tarde, o mesmo cineasta convidou-o a encarnar o sacerdote do filme Bárbara (1980).

Freguesia de Belém (Foto: lávai um e lá vão dois)

Freguesia de Belém

Anúncios

A Rua do autor de comédias e «E Pluribus Unum» Félix Bermudes

O Domingo Ilustrado, 04.10.1925

O Domingo Ilustrado, 04.10.1925

Félix Bermudes, o autor de comédias muitas vezes em parceria com João Bastos e Ernesto Rodrigues, que foi também desportista e benfiquista criador da divisa E Pluribus Unum, dá o seu nome a uma Rua de Marvila, que era o Impasse 4 à Rua Doutor José do Espírito Santo, desde a publicação do Edital de 31 de agosto de 1993.

Félix Bermudes (Porto/04.07.1874- 05.01.1960/Lisboa) destacou-se como escritor teatral de mérito, somando 105 peças, sobretudo em comédias como o Leão da Estrela, operetas e revistas, muitas vezes em parceria com Ernesto Rodrigues e João Bastos de tal forma que a imprensa os cognominou «Parceria», como aconteceu no caso das comédias O Conde Barão, O Amigo de Peniche, A Bicha de Rabiar, Arroz Doce, ou O Quadro das Lendas estreada no Teatro Apolo em 1914 ou, só com Ernesto Rodrigues, a revista Cocorocócó que em 1912 foi exibida no Teatro Avenida. Em 1933 escreveu o texto da opereta O Timpanas com música de Frederico de Freitas.

É também seu e de Ernesto Rodrigues e João Bastos o guião do filme O Leão da Estrela (1947), realizado por Arthur Duarte, bem como de João Ratão (1940), ambos escritos primeiro como comédias. Foi também um 12 fundadores da Editora Cinematográfica que em 1934 lançou a revista Cine.

Félix Bermudes foi ainda o tradutor de peças americanas e alemãs e do poema «If» de Rudyard Kipling bem como dos Versos Doirados dos Pitagóricos, para além de ter sido um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (hoje, Sociedade Portuguesa de Autores) e,  o seu 2º presidente, de 1928 até 1960, tendo em 1958 lançado o boletim Autores.

Todavia, Félix Bermudes foi também na sua essência um desportista, tendo cultivado modalidades tão díspares como o atletismo, o ciclismo, a esgrima,  o futebol, o hipismo, o remo, o ténis, e o tiro, em que foi campeão nacional e representou o país nos Jogos Olímpicos de 1920 e 1924.

Foi também fundador do Sport Lisboa e Benfica, sócio nº5, e  em 1906, com Cosme Damião, evitou o desmoronamento do clube, contribuindo com dinheiro próprio para o efeito. Exerceu vários cargos diretivos, como vogal da Direção do Benfica a partir de 26 de fevereiro de 1909 e foi eleito Presidente deste Clube por 3 vezes: em 15 de julho de 1916,  em 18 de julho de 1930 e em 18 de janeiro de 1945 (mas não tomou posse em 1930). Nos seus mandatos, o Benfica obteve 3 vitórias consecutivas no Campeonato de Lisboa (1915/16 a 1917/18) e, em 1945, sagrou-se campeão nacional para além de ter resolvido o problema da sede da Avenida Gomes Pereira, através da compra do edifício por 700 contos, a liquidar em 15 anos. Ainda no clube da Luz foi da sua autoria a sugestão para a bem conhecida divisa E Pluribus Unum eautor da letra do primeiro Hino do Benfica, Avante, Avante p`lo Benfica, com música de Alves Coelho, composto por ocasião do 25º aniversário do Clube (1929) , que acabou censurado pelo Estado Novo em 1942.

Félix Bermudes teve ainda um único irmão, o arquiteto Adães Bermudes, e foi pai de Cesina Adães Bermudes, ambos  incluídos também na toponímia lisboeta.

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila

Freguesia de Marvila

A Rua da mulher de teatro Maria Matos

Maria Matos por Amarelhe

Maria Matos e Mendonça de Carvalho por Amarelhe

Maria Matos, grande senhora do teatro português, protagonista de comédias e autora de peças, passou a denominar a Rua F, à Quinta do Charquinho, 14 anos após o seu falecimento, em 1966.

E assim Maria Matos e Adelina Abranches ficaram na toponímia de Benfica, no Bairro do Charquinho, pelo Edital de 10 de novembro de 1966, a partir de uma sugestão inserida no jornal O Século, de 31/10/1962 .

No filme « Costa do Castelo» (194£)

Como Mafalda no filme « Costa do Castelo» (1943)

De seu nome completo Maria da Conceição de Matos Ferreira da Silva (Lisboa/29.09.1886-19.09.1952/Lisboa), desenvolveu uma notável carreira enquanto atriz, escritora dramática e professora.

Estudou  Piano, Canto e Arte Dramática no Real Conservatório de Lisboa, fazendo exame final com a peça Rosas de Todo Ano escrita para ela por Júlio Dantas e, concluiu o seu curso de teatro com o 1º Prémio da Arte de Representar, em 1907. Nesse mesmo ano estreou-se no palco do Teatro D. Maria II, na peça Judas e logo no ano seguinte tornou-se «societária» daquele palco com Eduardo Brazão, Ferreira da Silva e Adelina Abranches. Em 1912, mudou-se para a companhia de Lucinda Simões, no Teatro Ginásio e, para a comédia. Casou com o ator Francisco Mendonça de Carvalho em 1913, com quem fundou a empresa teatral Maria Matos – Mendonça de Carvalho, e com teve uma filha, Maria Helena Matos, que também viria a ser atriz e,  foi nessa companhia do casal que interpretou centenas de obras, especialmente do género farsa, e assim se tornou um verdadeiro ídolo das plateias onde estiveram sediados, primeiro no Teatro Ginásio e depois, no Avenida. Para além de digressões pelo país e Brasil, Maria Matos também subiu aos palcos alfacinhas do Teatro Apolo, Variedades, Politeama e Trindade.

Esta mulher do teatro também sentiu necessidade de ser ela a escrever as próprias peças a levar à cena como Escola de Mulheres (1937), Direitos de Coração (1937), A Tia Engrácia (1936), para além de ser autora de outra obra – Dizeres de Amor e Saudade (1935). Postumamente, foram ainda publicadas As Memórias da Actriz Maria Matos (1955).

Maria Matos, a partir de 1940 foi também professora do Conservatório Nacional de Lisboa nas cadeiras de Estética Teatral e de Arte de Dizer, até ao ano de 1945 em que se demitiu.

Maria Matos ficou também célebre no cinema, em filmes como O Costa do Castelo (1943), A Menina da Rádio e  Um Homem às Direitas (ambos em 1944) ou As Pupilas do Senhor Reitor (1935) , a Varanda dos Rouxinóis (1939) ou ainda, A Morgadinha dos Canaviais  e Heróis do Mar (ambos em 1949).

Foi ainda agraciada com um louvor publicado no Diário do Governo pelos serviços prestados ao Teatro (1915), o Hábito de Santiago da Espada (1934) e, em 22 de 0utubro de 1969, abriu em Lisboa o Teatro com o seu nome.

Freguesia de Benfica

Freguesia de Benfica

Pedro Bandeira próximo de José Galhardo em ruas do Lumiar

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A partir de uma sugestão da Sociedade Portuguesa de Autores para que Pedro Bandeira e José Galhardo, ambos escritores e membros da direção da SPA, integrassem a toponímia de Lisboa foram os nomes destes atribuídos, por Edital de 11/11/1983, no Impasse 4.1 e no Impasse 4, da Urbanização da Quinta do Lambert, na freguesia do Lumiar.

Pedro Álvaro Bandeira (Porto/05.05.1871 – 21.02.1945/Lisboa) nascido na portuense freguesia de Cedofeita foi um escritor que viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Poeta de feição popular, humorista e escritor teatral de abundante produção, tornou-se sobretudo conhecido pelos seus Monólogos que entre 1915 e 1937 somaram 15 edições.

Do seu teatro destaquem-se as comédias e revistas  O Pílulas: vaudeville em 3 actos (1899), Revista de Carnaval (1901), Corações Devotos (1902), Sogra do seu marido! (1921), Pilha de Nervos (1921), Pirilampos (1934), O Periquito da menina (1936), Já cá canta (1937), Rapsódia de fados (1937), Brincos de princesa (1939),  Os escoteiros: disparate em 1 acto (1942), Jôgo das damas (1943), Bombas de Santo António (1943),  A minha loira favorita (1943) e, as operetas Castelos no ar (1932) ou 5 de Outubro (1940). 

Refira-se ainda que em 1933 Pedro Bandeira também redigiu o prefácio de Trovas de amor  de Jaime Lúcio, assim como que foi condecorado com as Ordens de Santiago de Espada, de Cristo e de Jerusalém e exercia, à data da sua morte, o cargo de Secretário-Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Freguesia do Lumiar

Freguesia do Lumiar

A Rua do Cardoso do Ginásio

Freguesia de Arroios - Placa Tipo IV

Freguesia de Arroios – Placa Tipo II                                                                                 (Foto: Sérgio Dias)

Cem anos após o seu nascimento, O Cardoso do Ginásio, ator exímio em comédia, teve o seu nome perpetuado na toponímia de Lisboa, numa rua de Arroios, junto ao primeiro núcleo de topónimos de atores  na cidade ali fixado desde o ano de 1932.

Foi pelo Edital de 21/12/1960 que nasceu a Rua Actor António Cardoso,  na Rua Particular à Rua Morais Soares, com início na Rua Morais Soares e fim na Rua José Ricardo. Refira-se que esta artéria desemboca na Rua José Ricardo, também evocativa de um ator, fica nas proximidades de mais topónimos de gente do teatro, a saber, Rua Ângela Pinto, Rua Eduardo Brazão, Rua Ferreira da Silva, Rua Actor Joaquim de Almeida, Rua Joaquim Costa, Rua Lucinda Simões, Rua Rosa Damasceno, Rua Actor Vale, e justamente a zona ficou conhecida como Bairro dos Atores que assim nasceu a partir do Edital de 12 de março de 1932.

O Palco, 20 de fevereiro de 1912

O Palco, 20.02.1912

António José Ferreira Cardoso (Lisboa/05.04.1860 – 03.08.1917/Lisboa) foi um ator cómico, conhecido por O Cardoso do Ginásio, ou O Cardoso do Chiado, por ter trabalhado 34 anos no Teatro do Ginásio. Estreou-se em público ainda como amador no ano de 1878, na comédia Casamento por Anúncio, na Sociedade Guilherme Cossoul, então sediada na Rua da Oliveira ao Carmo e, foi contratado para o Teatro do Rato, onde em 1881 já estava na comédia musical Zé Povinho. Foi  no Theatro do Gymnasio, a partir de 1883 que se afirmou como um grande actor cómico, género a que o seu físico volumoso dava particular ajuda e lhe granjeou grande popularidade, em peças de Gervásio Lobato, Eduardo Schwalbach, João Bastos ou André Brun, entre outros.

Esporadicamente, também assentou arraiais no palco do Trindade, como para interpretar O Brasileiro Pancrácio (1883) e integrou algumas sociedades artísticas nas épocas de verão nos palcos do Teatro da Rua dos Condes, do Avenida e do então Dona Amélia (hoje São Luiz).

No cinema, foi o protagonista de  Chantecler Atraiçoado,  curta-metragem que em 1910 estreou o estúdio da Empreza Cinematographica Ideal.

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios

Freguesia de Arroios

Bocage duas vezes em Lisboa

Manuel Maria Barbosa du Bocage num coisa da Fábrica da Pampulha

Manuel Maria Barbosa du Bocage num folheto da lisboeta Fábrica da Pampulha

Manuel Maria Barbosa du Bocage, conhecido pelo seu espírito irónico e satírico, tem na sua relação com a toponímia de Lisboa também uma histórica algo jocosa que o fez migrar de Alcântara para a zona de Carnide-Lumiar.

Em 8 de julho de 1892 a Câmara Municipal de Lisboa deliberou na sua sessão de câmara a atribuição do topónimo Rua Bocage às Ruas nºs 7 e 8 do Bairro do Casal do Rolão. Na mesma deliberação e no mesmo bairro de Alcântara decidiram também fixar Gil Vicente (na Rua nº 9) e Filinto Elísio (Rua nº 2 ). Todavia, no final dos anos 80 supôs-se que a Rua Bocage e a Avenida Barbosa du Bocage, dedicada a um primo em segundo grau do poeta sadino, se referiam à mesma pessoa e resolveu-se eliminar do mapa alfacinha a Rua Bocage transformando-a pelo Edital de 29/02/1988 em Rua Amadeu de Sousa Cardoso.

E assim ficou Lisboa sem o seu Bocage mais de 8 anos, até o Edital de 24/09/1996 o recolocar no Impasse FG da Quinta dos Inglesinhos, à Avenida das Nações Unidas, desta feita para evitar equívocos e, por proposta de Appio Sottomayor na Comissão Municipal de Toponímia, como Rua Poeta Bocage/1765 – 1805.

Placa Tipo IV (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias)

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal/15.09.1765 – 21.12.1805/Lisboa), «Magro, de olhos azuis, carão moreno», também conhecido como Elmano Sadino da Nova Arcádia, viveu em Goa, Damão e Macau, até regressar a Lisboa em 1790, frequentar o Café Nicola no Rossio da cidade e, viver a partir de 1801 no n.º 25 da Travessa André Valente, ao Bairro Alto.

Bocage publicou apenas os três volumes das suas Rimas, de 1791 a 1804, embora os seus versos eróticos e burlescos tenham circulado abundantemente em edições clandestinas. As suas temáticas predominantes fixaram-se na desilusão amorosa e nas dificuldades materiais e pode Bocage ser considerado o maior poeta português do séc. XVIII.

Não é também menor a sua obra como tradutor, mesmo que menos conhecida. As suas versões de textos clássicos latinos, de autores como Virgílio e Ovídio, caracterizam-se por rigor e originalidade, o que também sucedeu nas suas traduções da língua francesa de escritores da época, como Voltaire, La Fontaine, Lesage, Florian, Lacroix, d’Arnaud, Delille e Castel.

Em 7 de agosto de 1797, o Intendente Pina Manique mandou-o prendê-lo por desrespeito ao rei e à Igreja, primeiro no Limoeiro (até 14 de novembro), depois nos calabouços da Inquisição no Rossio e a partir de 17 de fevereiro de 1798 no Real Hospício das Necessidades, a cargo dos Oratorianos, de onde só saiu em liberdade no último dia desse ano.

Freguesia de Carnide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Carnide e Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Carnide

Freguesias de Carnide e Lumiar

A Rua do pintor Bernardo Marques dos Domingos de Lisboa

bernardo marques 1969

O algarvio Bernardo Marques que se estreou como artista plástico no III Salão dos Humoristas Portugueses e nos anos vinte tinha a crónica «Os Domingos de Lisboa», desde a década de 80 do século passado que integra a toponímia alfacinha.

Bernardo Marques nascido algarvio mas que na maior parte da sua vida residiu em Lisboa, primeiro no nº 6 da Calçada dos Caetanos (Rua João Pereira da Rosa a partir do Edital de 26/01/1963)  e depois, até ao final da sua vida, na Rua da Quintinha, entrou pela 1ª vez na toponímia alfacinha pelo edital de 12/08/1982, para denominar justamente a Rua da Quintinha. Contudo, os moradores protestaram a alteração, conforme se constata no edital de 23/11/1982,  e voltou a denominar-se Rua da Quintinha «por se ter reconhecido ser do interesse das populações locais, a Rua Bernardo Marques retoma a sua anterior denominação». E assim, só volvidos 19 anos e no âmbito das comemorações do seu centenário Bernardo Marques voltou à toponímia de Lisboa, desta feita no Impasse à Rua 8 do Alto do Lumiar, pelo edital de 03/01/2001.

Placa de evocativa de Bernardo Marques no prédio com o nº 6 da Rua João Pereira da Rosa

Placa  evocativa de Bernardo Marques no prédio com o nº 6 da Rua João Pereira da Rosa

Bernardo Loureiro Marques (Silves/21.11.1898 – 28.09.1962/Lisboa) que se estreou em 1920 com 15 desenhos no III Salão dos Humoristas, em Lisboa, distinguiu-se como pintor e ilustrador, numa obra em que amplamente representou Lisboa, sobretudo a cidade modernista dos anos 20 que o convidava à anedota pictural por ser uma Lisboa mundana e provinciana, revelando no seu traço a influência de Georg Grosz.  De 1925 a 1929, também manteve no Diário Notícias uma crónica semanal intitulada «Os Domingos de Lisboa», bastante irónica e impiedosa.

A sua obra impressa passou por capas, ilustrações e vinhetas nos jornais ABC, ABC a Rir, O Sempre Fixe, O Século (1921), Notícias Ilustrado (1929 a 1931) e Diário de Notícias, bem como pelas revistas Ilustração (de 1926 a 1934), Ilustração Portuguesa, Imagem, Kino, GirassolEuropa (1924), Civilização (1928 a 1930) e até na ilustração de livros de Eça de Queirós, Cesário Verde e Aquilino Ribeiro e David Mourão-Ferreira. Foi diretor gráfico da revista turística Panorama (1941-1949) e da Colóquio (1959-1962), tendo também sucedido a Luís de Montalvor na direção artística e técnica da Editorial Ática.

bernardo marques Paragem_A

Mas também se empenhou como cenógrafo e figurinista, para teatro e cinema, como na peça Soror Amor (1928) e nos filmes Ver e Amar (1930) ou O Trevo de Quatro Folhas (1936), ambos de Chianca de Garcia e, ainda foi consultor artístico do filme Rapsódia Portuguesa (1958) de João Mendes.

Bernardo Marques foi também o autor da decoração da parede de fundo do Café A Brasileira (1925) , no Chiado e, de outras na Exposição Colonial de Paris (1931), nas Festas da Cidade de Lisboa (1934 e 1935), no pavilhão português da exposição internacional parisiense (1937) e nas feiras de Nova Iorque e São Francisco (1939), no Pavilhão da Colonização da Exposição do Mundo Português (1940) e nas Feiras da Indústria Portuguesa, de 1949 a 1951.

Como pintor, em vida apenas expôs em mostras coletivas , embora possa ser considerado o maior paisagista da sua geração e, as suas individuais foram todas póstumas. Encontra-se representado no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Fundação que também o galardoou com o Prémio de Aguarela e Desenho da Gulbenkian (1957). Bernardo Marques foi ainda agraciado com o Prémio de Desenho da Exposição Iconográfica das Pescas (1955), o Prémio de Desenho no Salão Mar Português (1957) e o Prémio Especial de Pintura do Salão de Almada (1958) e, os CTT lançaram um selo comemorativo do centenário do seu nascimento, assim como a Câmara Municipal de Lisboa dois dias antes do centenário, em 19 de novembro de 1999,  descerrou uma placa evocativa no prédio da Rua João Pereira da Rosa onde ele residiu.

Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar

Freguesia de Santa Clara

António Aleixo numa artéria dos Sete Céus

antónio aleixo

António Aleixo, poeta popular de quadras de cariz moral e muitas vezes humorístico, tem o seu nome numa rua do Bairro dos Sete Céus desde o ano de 1987.

O topónimo nasceu por sugestão de uma carta de Manuel Cabaço, sugerindo os nomes de António Aleixo, Adriano Correia de Oliveira, João Lourenço Rebelo, Joaquim Cordeiro, Maria Júdice da Costa,  e Vasco de Lima Couto  para identificarem os arruamentos do Bairro dos Sete Céus. O Edital de 30/01/1987 fixou nos arruamentos do Bairro, para além António Aleixo (no Impasse 6) , os nomes do compositor João Lourenço Rebelo, do fadista Joaquim Cordeiro, da cantora Maria Júdice da Costa e dos poetas Ruy Cinatti e Vasco de Lima Couto.

António Aleixo (Vila Real de Santo António/18.02.1889 – 16.11.1949/Coimbra) foi um poeta popular,  cauteleiro e cantor popular de feira em feira, que nos deixou quadras sentenciosas e satíricas como : Sei que pareço um ladrão/Mas há muitos que eu conheço/Que sem parecer o que são/São aquilo que eu pareço ou Uma mosca sem valor/poisa, c’o a mesma alegria,/na careca de um doutor/como em qualquer porcaria.

A poesia daquele que ficou conhecido como poeta cauteleiro caracteriza-se por um tom dorido, irónico e até um pouco puritano de moralista, com a grande espontaneidade de quem sabendo ler não detinha qualquer  outra formação literária e trabalhou em inúmeros lugares como cantor popular de feira em feira (a partir de 1912), tecelão (1912 a 1919) , polícia (1922),  cauteleiro e vendedor de gravatas (1931-1933) e até servente de pedreiro (1928- 1930) em França.

O seu primeiro livro, Quando Começo a Cantar, começou-se a vender no dia 25 de abril de 1943, então domingo de Páscoa, por iniciativa do Circulo Cultural do Algarve e, as suas quadras encontram-se reunidas em mais três  livros:   Auto da Vida e da Morte (1948), Este Livro que Vos Deixo (1969) e Inéditos de António Aleixo (1978).

Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara

A Rua do realizador de O Pai Tirano sem inclemência nem martírio

antoniolopesribeiro

António Lopes Ribeiro, o realizador de  filmes humorísticos como O Pai Tirano ou A Vizinha do Lado e, irmão mais velho de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), desde o ano 2000 que dá o seu nome à Rua A da Urbanização do Parque das Conchas, no Lumiar, nas proximidades do local onde se sediou a sua produtora, que estava fronteira aos estúdios da Tóbis, ficando assim próximos vários símbolos da cinematografia portuguesa.

Aconteceu pelo Edital  de 31/05/2000, em resultado de uma sugestão inserta na moção de pesar subscrita pelo Presidente da CML – então, Dr. Jorge Sampaio – e aprovada por unanimidade. Refira-se que nesta mesma freguesia a toponímia consagrou igualmente a Tóbis Portuguesa bem como os cineastas Manuel Costa e Silva e Manuel Guimarães.

Pioneiro do cinema sonoro português, o alfacinha António Filipe Lopes Ribeiro (Lisboa/16.04.1908 – 14.04.1995/Lisboa) estreou-se em 1928, aos vintes anos, com o documentário Bailando ao Sol, apoiado nas visitas que efectuara aos estúdios alemães e russos no final do período mudo. Sobre a cidade Lisboa fixou-nos na retina muitas curtas metragens, como Exposição do Mundo Português (1941), Cortejo Histórico de Lisboa (1947), Lisboa de Hoje e de Amanhã (1948), Lisboa vista pelas suas crianças (1958) e as longas-metragens que ao longo de gerações se mantiveram populares como O Pai Tirano (1941) ou A Vizinha do Lado (1945).

Da sua extensa filmografia contam ainda inúmeros documentários encomendados por organismos estatais e pela Câmara Municipal de Lisboa e outros filmes de carácter mais dramático como Gado Bravo (1934), A Revolução de Maio (1937), Amor de Perdição (1943),  Frei Luís de Sousa (1950) e O Primo Basílio (1959). Lopes Ribeiro foi também o produtor dos filmes Aniki-Bobó de Manoel de Oliveira, O Pátio das Cantigas» do seu irmão Ribeirinho, ambos em 1942  e, Camões (1946) de Leitão de Barros.

Foi ainda presidente do Sindicato dos Profissionais de Cinema (1938- 1943 e 1957), diretor de jornais de atualidades como o Jornal Português e Imagens de Portugal, fundador do Senhor Doutor (1932), das revistas Imagem (1928), Kino (1930) e Animatógrafo (1933), para além de crítico cinematográfico sob o pseudónimo de «Retardador» onde se destaca a sua 1ª publicada no Sempre Fixe, a sua página no Diário de Lisboa a partir de 1927 e que foi a primeira num jornal diário e, o ter representado Portugal no IV Congresso da Crítica em 1937, em Paris.

No teatro, fundou a companhia Os Comediantes  de Lisboa (1944) e o Teatro do Povo (1952), sendo de realçar que me 1959 apresentou em Lisboa as primeiras peças de Ionesco.

Refira-se ainda que António Lopes Ribeiro realizou muitas traduções e da sua própria lavra publicou as coletâneas de poemas O Livro de Aventuras (1939) e O Livro das Histórias (1940), bem como as compilações de crónicas Esta Pressa de Agora (1963) e Anticoisas e Telecoisas (1971).

Na Rádio foi Diretor de Música Mecânica da Emissora Nacional (1935 a 1937) e exibiu um programa semanal dedicado ao jazz.

Na televisão, António Lopes Ribeiro foi o rosto do programa Museu do Cinema que de 1957 a 1974 passou semanalmente na RTP, acompanhado ao piano por António Melo, que regressou em 1982. Era também ele o autor do poema A Procissão declamado e popularizado na RTP por João Villaret. E ainda de 1959 até aos inícios da década de 70 era responsável pela tradução e legendagem de filmes estrangeiros. Finalmente, em 1984/85 integrou o elenco de Chuva na Areia, a 2ª telenovela portuguesa.

António Lopes Ribeiro recebeu o Prémio Paz dos Reis pelo documentário A Inauguração do Estádio Nacional (1944), o Grande Prémio do Secretariado Nacional de Informação por A Vizinha do Lado (1945), a Ordem de Santiago e Espada (1940) e a Ordem de Mérito Civil de Espanha.

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar

Freguesia do Lumiar

A Avenida do poeta Guerra Junqueiro

Freguesia do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta Guerra Junqueiro tinha uma veia satírica que demonstrou em A Morte de D. João (1874), na sátira anticlerical A Velhice do Padre Eterno (1885) e na sátira política Finis Patriae (1890) feita após o ultimato inglês, e enquanto topónimo, o seu nome substituiu o de um Presidente da República a partir de 1933.

A edilidade lisboeta pelo Edital municipal de 18 de julho de 1933 fez nascer a Avenida Guerra Junqueiro naquela que era a Avenida do Dr. António José de Almeida (que ali estava desde a publicação do Edital de 12/11/1929),  ao mesmo tempo que remeteu o topónimo desse Presidente da República para o prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida Manuel da Maia.

Alma Nova, setembro de 1923

Alma Nova, setembro de 1923

De seu nome completo Abílio Manuel Guerra Junqueiro ( Freixo de Espada à Cinta/17.09.1850  – 07.07.1923/Lisboa), era licenciado em Direito por Coimbra  e foi um dos intervenientes na Questão Coimbrã. Foi em Coimbra que começou a sua carreira literária no jornal literário A folha e aí criou amizade com alguns dos melhores escritores e poetas do seu tempo, grupo que ficou conhecido como Geração de 70.

Guerra Junqueiro começou o seu percurso laboral como funcionário público, tendo sido secretário-geral do Governador Civil dos distritos de Angra do Heroísmo e de Viana do Castelo.

Já em Lisboa, também integrou em 1888 o grupo «Vencidos da Vida»,  juntamente com Eça de Queirós e Oliveira Martins, entre outros e, foi colaborador em prosa e em verso, de jornais políticos e artísticos, como A Lanterna Mágica, O António Maria, Diário de Notícias, Atlântida, Branco e Negro, A Ilustração Portuguesa,  Jornal do domingo, A Leitura, A Mulher, O Ocidente, A República Portuguesa e Serões.

Como escritor, para além das sátiras já referidas escreveu Vozes sem Eco (1867), Baptismo de Amor (1868) com prefácio de Camilo Castelo Branco, Contos para a infância (1875), A Musa Em Férias (1879), A velhice do padre eterno (1885), Os Simples (1892), Os Pobrezinhos, Vitória da França (1870), Espanha Livre (1873), A Pátria (1896), Oração ao Pão (1902), Oração à Luz (1903),  Gritos da Alma (1912) e foi  o poeta mais popular da sua época e o mais típico representante da chamada Escola Nova.

Como poeta panfletário que era ajudou a criar um ambiente revolucionário propício à implantação da República e a sua carreira política começou-a como deputado em 1878 e 1879 pelo círculo de Macedo de Cavaleiros e pelo Partido Progressista, assim como em 1890, o foi também pelo círculo de Quelimane. Em 1891 aderiu ao Partido Republicano e em  1908 foi candidato do Partido Republicano pelo Porto. E após a implantação da República foi embaixador de Portugal na Suíça, no período de 1911 a 1914.

Abílio Guerra Junqueiro viveu no nº 54 da Rua Silva Carvalho. Ficou sepultado no Mosteiro dos Jerónimos até em 1966 ser  trasladado para o Panteão Nacional. Depois, em 1968 teve ainda direito em Lisboa a uma estátua da autoria de Lagoa Henriques, no jardim da Praça de Londres, próximo da Avenida lisboeta a que dá o seu nome.

Na década de 50 do séc. XX (Foto: Antonio Castelo Branco,  Arquivo Municipal de Lisboa)

Na década de 50 do séc. XX
(Foto: António Castelo Branco, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia do Areeiro

Freguesia do Areeiro