A rua do mercador quatrocentista a quem D. Afonso V arrendou a costa africana

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Fernam Gomes perpetua na Encosta do Restelo o nome do mercador do séc. XV a quem D. Afonso V arrendou a exploração comercial da costa africana pela contrapartida de avanço na exploração de novos territórios no litoral de África.

O topónimo foi fixado na Rua BM1 à Encosta do Restelo pelo edital municipal de 19/10/1964, somando-se aos inúmeros topónimos de navegadores, missionários, e bandeirantes que desde a década de quarenta do século XX caracterizam a toponímia da zona, centrada na Expansão Portuguesa, tendo recebido a legenda «Navegador do Século XV».

Pelo mesmo edital fixaram-se no local mais 10 topónimos, todos de navegadores do século XV, a saber, Álvaro Esteves que até navegou com Fernão Gomes, Gonçalo Nunes, Gonçalo Velho Cabral, João Coimbra, João Fernandes Labrador, Jorge Álvares, Paulo da Gama, Pedro de Barcelos, Pero de Alenquer e Tristão Vaz, dando assim o edital municipal cumprimento ao parecer da Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 27 de maio de 1960, no qual se enunciava que «A Comissão começou por se ocupar, novamente, do processo nº 3545/60, no sentido de os arruamentos do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo serem todos denominados com nomes de figuras relacionadas com a nossa Epopeia Marítima, tendo, para o efeito, visitado aqueles arruamentos e o Bairro residencial.»

Fernam Gomes, também grafado como Fernão Gomes da Mina, foi o mercador a quem D. Afonso V por carta de 12 de abril de 1455 tornou recebedor dos resgastes da Guiné, fosse de mouros fosse de mercadorias. Consta que já antes  servira D. Afonso V em Ceuta e  João de Barros refere-o também na conquista de Alcácer Ceguer (1458).

Mas foi de novembro de 1468 a 1 de junho de 1473 que vigorou o contrato de arrendamento da Costa da Guiné em que o rei D. Afonso  V lhe arrendou por 5 anos, depois prolongado por mais um ano, o exclusivo do comércio do golfo da Guiné, com a obrigação de pagar uma renda anual de 200 mil réis e de ir explorando 100 léguas da costa da África por ano, a sul da Guiné, a partir da Mata de Santa Maria, tendo até 1475 alcançado o cabo de Santa Catarina e as ilhas do golfo da Guiné.

A documentação conhecida refere-o como escudeiro da Casa Real pelo menos desde 4 de setembro de 1469, sendo dois anos depois, aquando da conquista de Arzila, armado cavaleiro da Casa Real. A 14 de dezembro de 1472 recebeu autorização para ele e os seus acompanhantes usarem espadas e todas as outras armas, enquanto durasse o contrato de arrendamento com a Coroa. Terão trabalhado com Fernão Gomes os cavaleiros de D. Afonso V João de Santarém e Pêro Escobar (que em 1471 descobriram a região onde se viria a erguer o forte de S. Jorge da Mina onde conseguiram o primeiro resgate de ouro), Soeiro da Costa, Fernando Pó (que chegou à Baía de Biafra e descobriu a ilha que ficou com o seu nome, agora Bioko) e Rui de Sequeira, bem como os pilotos Álvaro Esteves e Martim Fernandes, e ainda os navegadores Pedro de Sintra, Lopo Gonçalves e Lopo de Sequeira (passaram a linha do Equador, atingindo o Gabão e descobrindo as ilhas de S. Tomé, Príncipe e Ano Bom).

Também foi concedido a Fernão Gomes o monopólio do comércio da malagueta (ou pimenta-da-guiné), por mais 100 mil réis anuais, produto que era então um popular substituto da pimenta. Por outro lado, a Coroa reservava para si o monopólio da revenda do marfim, ao preço de 1500 réis por quintal, que Fernão Gomes teria que ceder integralmente a Martim Eanes de Boaviagem, a quem o rei concedera o exclusivo da venda deste produto em Portugal.

Aliás, os propósitos mercantis foram neste contexto evidentes, a ponto de se terem sido perpetuados nas designações atribuídas pelos navegadores às partes da Costa da Guiné que iam explorando, identificando-as pelas principais mercadorias que aí se obtinham através do comércio com os nativos: Costa da Malagueta (Libéria), Costa do Marfim, Costa do Ouro (Gana) e Costa dos Escravos (Togo e Benim).

Fernão Gomes foi agraciado pelo rei com o  apelido Mina (Carta régia de 29 de Agosto de 1474) e um brasão de armas em escudo de prata,  com três cabeças de negros com colares e argolas de ouro nas orelhas e nas faces, para além de ter sido nomeado membro do Conselho Real em 1478.

Na sua vida privada, Fernam Gomes  casou-se em Lisboa com Catarina Leme, filha bastarda do mercador flamengo Martim Leme, «O Velho».

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

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A Guerra Colonial nascida há 56 anos, também no tabuleiro da Toponímia de Lisboa

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A Guerra Colonial que se iniciou há 56 anos, em fevereiro de 1961, para além de decorrer em Angola, Guiné e Moçambique até ao 25 de Abril de 1974 , também se jogou no tabuleiro da toponímia de Lisboa, onde o Estado Novo fixou as suas mensagens de defesa do Império Colonial.

Em 1947, os britânicos concederam a independência indiana e o primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, exigiu a  integração da Índia Portuguesa na União Indiana. A resposta do Governo também foi dada através da Câmara Municipal de Lisboa, logo no ano seguinte, através do Edital municipal de 29 de abril de 1948, que colocou no Plano de Urbanização da Encosta da Ajuda, em Belém, as Praças de Damão, Dio e Goa, assim como mais 6 topónimos todos ligados à Expansão Portuguesa na Índia: a Avenida da Índia e a Avenida Dom Vasco da Gama, a Rua Soldados da Índia, a Rua Dom Cristóvão da Gama, a Rua Dom Lourenço de Almeida e a Rua São Francisco Xavier.

E nos anos sessenta e a edilidade lisboeta passa a contemplar na sua toponímia, como revelam as legendas dos topónimos, os «Heróis da Ocupação» e os «Heróis do Ultramar», nas freguesias que ainda tinham alguns arruamentos sem denominação e assim, na Ajuda passou a constar a Rua General Massano de Amorim/Governador Ultramarino/Herói da Ocupação, tal como na Ajuda e Belém ficou a Rua General João de Almeida/Herói do Ultramar (ambos os topónimos pelo Edital de 28/10/1960 ). A terminar o ano, pelo Edital 21/12/1960 , fixou-se em São Domingos de Benfica a Rua Major Neutel de Abreu/Herói do Ultramar.

O ano de 1961 começou com o assalto ao Santa Maria em 22 de janeiro, como forma de protesto contra a falta de liberdade cívica e política em Portugal, preparada por Henrique Galvão e Humberto Delgado e levada a cabo pelo primeiro com 20 elementos da DRIL (Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação) que o transformou em paquete Santa Liberdade, tendo as televisões e os jornais de todo o mundo divulgado o acontecimento. A edilidade atribuiu em 15 de fevereiro de 1961 o nome do piloto que faleceu nesse acontecimento, João Nascimento da Costa, numa rua do Beato, a que juntou nas proximidades, em junho a Rua Engº Maciel Chaves, com a significativa presença nestas inaugurações do então presidente da CML, António Vitorino França Borges, bem como divulgação na Revista Municipal.

Onze dias antes, a 4 de fevereiro de 1961, o MPLA (Movimento Popular e Libertação de Angola) tinha atacado a prisão de São Paulo e uma esquadra da polícia, em Luanda, tendo sido mortos 7 polícias, enquanto no norte de Angola, a UPA (União das Populações de Angola) desencadeou vários ataques contra a população branca e assim Angola foi o primeiro país a  iniciar a luta armada organizada contra o domínio português.

Ainda em 1961, pelo Edital de 10 de novembro, são colocados na toponímia alfacinha mais dois Heróis do Ultramar: a Rua General Justianiano Padrel na freguesia de S. Vicente e o Largo Alferes Francisco Duarte, na Penha de França.

E a 18 de dezembro, a União Indiana invadiu os territórios de Goa, Damão e Dio, quase sem resistência dos soldados portugueses face à disparidade das forças em contenda. Salazar tinha avisado o governador do Estado Português da Índia, General Vassalo e Silva por telegrama que «Não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, assim como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». O General Vassalo e Silva  que aceitou a rendição só 53 anos depois teve o seu nome numa rua de Lisboa, em 2014.

A 23 de janeiro de 1963, a luta armada alargou-se à Guiné-Bissau, com o ataque do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) ao quartel de Tite, no sul do país. A partir do mês seguinte, pelo Edital de 13 de fevereiro de 1963, os arruamentos de uma nova urbanização, Olivais Norte, receberam os nomes de 4 militares, todos com a legenda «Morto em Angola ao Serviço da Pátria – 1961»: a Rua General Silva Freire, a Rua Alferes Barrilaro Ruas, a Rua Sargento Armando Monteiro Ferreira e a Rua 1º Cabo José Martins Silvestre.

A 9 de setembro, os Olivais Norte acolheram mais 2 mortos ao serviço da Pátria mas desta vez na Índia: a Rua Capitão Santiago de Carvalho/ Morto em Damão ao serviço da Pátria – 1961 e a Rua Capitão-Tenente Oliveira e Carmo/ Morto em Dio ao Serviço da Pátria – 1961. E ainda nesse ano, pelo Edital de 13 de dezembro, em São Domingos de Benfica, é atribuída a Rua Conde de Almoster/Herói do Ultramar/1858 – 1897.

Em 1964, na Freguesia do Beato, é atribuído o Largo Honório Barreto, em memória de um Governador da Guiné do séc. XIX lá nascido, pelo Edital de 23 de julho. E em 25 de setembro desse mesmo ano, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) inicia a luta armada com o ataque a Chai, em Cabo Delgado. Em novembro, o Edital de dia 26, coloca o o Furriel João Nunes Redondo, com a legenda «Morto na Guiné ao serviço da Pátria – 1963» e o Sargento José Paulo dos Santos com a a legenda «Morto em Angola ao Serviço da Pátria – 1963» em ruas de Olivais Norte.

Três anos passados, pelo Edital de 14 de junho acrescentam-se à toponímia lisboeta mais 3 Heróis do Ultramar – Rua Coronel Bento Roma (em Alvalade), Rua General Farinha Barão, Rua General Garcia Rosado (em Arroios) a que se vão somar pelo Edital de 4 de julho, 14 cidades e vilas de Moçambique em Olivais Sul.

A 10 de Abril de 1969, ainda em Olivais Sul, 11 cidades de Angola são feitas topónimos. No ano seguinte, pelo Edital de 31 de março, são homenageados dois médicos militares com a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt/ Brigadeiro-Médico (Avenidas Novas) e a Rua Dr. José Baptista de Sousa/Coronel Médico (Benfica). E a 11 de julho são colocadas em Olivais Sul as guineenses cidades de Bafatá, Bissau e Bolama, bem como a cabo-verdiana Cidade da Praia, a timorense Cidade de Dili e a indiana Cidade de Margão.

A 9 de fevereiro de 1971, a zona de Olivais Sul vai ainda acolher a angolana Rua Cidade de Negage. E ainda nesse ano, o  Edital municipal de 15 de março, instalou a Avenida dos Combatentes a percorrer as freguesias de Alvalade, São Domingos de Benfica e Avenidas Novas, e o de 22 de junho, colocou mais 10 Heróis do Ultramar, falecidos em combate, em Olivais Velho, Benfica e Alcântara: Rua Major Figueiredo Rodrigues; Rua Alferes Mota da Costa; Largo Américo Rosa Guimarães; Rua Alferes Carvalho Pereira; Rua Alferes Santos Sasso; Rua Furriel Galrão Nogueira;  Rua José dos Santos Pereira; Rua José da Purificação Chaves; Rua Manuel Correia Gomes e a Rua Manuel Maria Viana.

Após o 25 de Abril de 1974, e sendo um dos 3 «Dês» do Programa do MFA o de Descolonizar, a toponímia de Lisboa também refletiu essa mudança alterando a denominação da Praça do Ultramar para Praça das Novas Nações, pelo Edital de 17 de fevereiro de 1975, o 2º edital de Toponímia da Câmara de Lisboa após o 25 de Abril.

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A Avenida e a Praça de Dom João II, o Príncipe Perfeito

Praça Príncipe Perfeito - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Praça Príncipe Perfeito – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

D. João II, «Príncipe Perfeito» de cognome, é topónimo de duas artérias do Parque das Nações, herdadas da Expo 98: a  Avenida D. João II, que corre paralela à Rua do Pólo Sul, e nasce na Praça Príncipe Perfeito para desembocar na Via do Oriente.

No âmbito da requalificação urbana resultante da Expo 98 «Os Oceanos: um património para o futuro», a Câmara Municipal de Lisboa oficializou pelo Edital de 16/09/2009 os topónimos escolhidos pela organização do evento para figurarem nos arruamentos no decorrer da exposição, já que na altura em que se tornaram território administrativo do concelho de Lisboa já possuíam prédios construídos e causaria transtornos e custos aos residentes a mudança de topónimo.

Esta herança toponímica que Lisboa acolheu integra referências aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos de diversas nacionalidades, da literatura e da banda desenhada, assim como figuras de relevo para Portugal, escritores portugueses ou obras suas de alguma forma ligadas ao mar e ainda, alguns biotopónimos.

Avenida D. João II - Freguesia do Parque das Nações (Foto: Sérgio Dias)

Avenida D. João II – Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

D. João II (Lisboa- Paço das Alcáçovas/03.03.1455 – 25.10.1495/Alvor), 13º rei de Portugal, de 1481 a 1495, filho de D. Afonso V e de D. Isabel de Coimbra, casou com sua prima direita D. Leonor de Viseu em 1471 e caracterizou o seu reinado pelo empenho em restabelecer a eficácia do poder central e restaurar as finanças públicas por um lado, enquanto por outro, defendeu a política de exploração atlântica, dando prioridade à busca de um caminho marítimo para a Índia, tanto mais que já desde 1474 dirigia a política atlântica de expansão portuguesa.

Foi D. João II que após ordenar as viagens de Bartolomeu Dias e de Pêro da Covilhã, e  na sequência da recusa em apoiar Cristóvão Colombo, delineou em 1494 o plano da primeira viagem à Índia para ser executada por Estêvão da Gama e negociou com os Reis Católicos o Tratado de Tordesilhas que dividiu o controlo do mundo entre Portugal e Espanha, já com o Brasil – oficialmente descoberto em 1500 – na metade portuguesa. A totalidade das descobertas portuguesas do reinado de João II permanece desconhecida já que muita informação foi mantida em segredo por razões políticas e arquivos desse período foram destruídos no Terramoto de 1755.

D. João II foi a efígie nas notas de mil angolares (do Banco de Angola) de 1 de junho de 1944, bem como das de 500 escudos do Banco de Portugal de 25 de janeiro de 1966.

A Avenida D. João II e a Praça Príncipe Perfeito - Freguesia do Parque das Nações (Planta: Sérgio Dias)

A Avenida D. João II e a Praça Príncipe Perfeito – Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Bartolomeu Dias do Cinema Belém Jardim

O Cinema Belém Jardim na Rua Bartolomeu Dias em 1953 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Bartolomeu Dias estabelecida em Belém desde 1911, sobre a Rua do Bom Sucesso, acolheu em 1925 nos nºs 25 e 27 o Cinema Belém Jardim que funcionou como tal até ao ano de 1968.

A antiga Rua Direita do Bom Sucesso passou a  Rua do Bom Sucesso por Edital municipal de 8 de junho de 1889 e mais tarde, pelo Edital de 7 de agosto de 1911 ganhou a denominação de Rua Bartolomeu Dias. A legenda «Navegador/Século XV» foi colocada cerca de 46 anos depois, por proposta de 4 de junho de 1957 da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia.

Em junho de 1925 abriu portas nesta artéria o Cinema Belém Jardim que veio a fechar em 1968, embora a partir de 1954  tenha sofrido com a concorrência do moderno Cinema Restelo, na Avenida Torre de Belém.  No entanto, encerrou no decorrer da II Guerra Mundial, para servir de depósito de cereais com destino à Suíça.  O Cinema Belém Jardim estava situado entre a fábrica de artigos de borracha Repenicado & Bengala que ocupava os nºs 21 e 23 e 29 a 33 do arruamento e este conjunto de edifícios da Rua Bartolomeu Dias foi demolido entre 1989 e 1990, por ocasião das obras para a construção do Centro Cultural de Belém.

Bartolomeu Dias no Museu Militar (Foto: José Pascoal)

Bartolomeu Dias no Museu Militar
(Foto: José Pascoal)

Bartolomeu Dias, descendente de Dinis Dias e sobre o qual se ignora onde e quando nasceu foi um navegador português, a quem D. João II entregou o comando de duas caravelas, para ir colher notícias do Prestes João, em 1486. Entre várias peripécias descobriu primeiro a angra dos Ilhéus (hoje, baía de Spencer) e o cabo das Voltas; a tripulação não quis passar além do que apelidaram Rio do Infante e a acabaram por dobrar o cabo  a que Bartolomeu Dias deu o nome de Tormentoso e D. João II substituiu por Boa Esperança (1487) . Já em 1500, Bartolomeu Dias acompanhou Pedro Álvares Cabral na viagem à Índia em que se descobriu o Brasil.

No âmbito da Expo 98  os arruamentos do evento ficaram com topónimos ligados aos oceanos pelo que quando o concelho de Lisboa recebeu este território passou a somar também o Largo Bartolomeu Dias ao Parque das Nações.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da família de navegadores de apelido Corte Real

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Rua Washington à Rua Franklim foi atribuída a Rua dos Cortes Reais, à Rua 5 do Bairro América, na época uma nova urbanização erguida na antiga Quinta das Marcelinas à Rua do Vale de Santo António, por deliberação camarária de 25 de novembro de 1918 e Edital municipal de 17 de outubro de 1924,

De igual forma foram preenchidas as restantes artérias do Bairro América com topónimos relacionados com o continente americano, quer com figuras republicanas de prestígio quer com portugueses considerados heróis pelas explorações que os levaram a esse continente: «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin [Benjamin Franklin, estadista norte-americano fulcral na independência das 13 colónias inglesas para a construção dos estados americanos]; o nº 2, rua Washington [ o primeiro presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes[navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918».

Tendo havido um engano no nome desta artéria aquando da publicação do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 foi o mesmo corrigido pelo Edital de 2 de dezembro de 1927 especificando que «onde se lê ‘Rua de Costas Reais’, deve lêr-se ‘Rua dos Côrtes Reais’».

A Rua dos Cortes Reais em 1969 (Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Cortes Reais em 1969
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Vasco Anes da Costa, cavaleiro honrado de Tavira e contemporâneo do rei D. João I teve nos seus filhos a origem dos primeiros Corte Real, família distinta de navegadores dos séculos XV e XVI.

O seu filho João Vaz Corte-Real (Faro/c. 1420 – 1496/Angra do Heroísmo) ligou o seu nome ao descobrimento da Terra Nova, cerca do ano de 1472, o que o colocaria a desembarcar cerca de vinte anos antes de Colombo nas costas da América do Norte. Organizou ainda outras viagens que o terão levado até à costa da América do Norte, explorando desde as margens do Rio Hudson e São Lourenço até ao Canadá e Península do Labrador. Em 1474 foi nomeado capitão donatário de Angra do Heroísmo, cargo que acumulou com o da Ilha de S. Jorge, a partir de 1483.

Depois, três dos seus filhos com Maria da Barca – Gaspar Corte-Real, Miguel Corte-Real e Vasco Anes Corte-Real – continuaram o seu espírito de aventura tendo os dois primeiros desaparecido no seguimento de expedições marítimas, entre 1500 e 1502. Gaspar fez em 1500 a sua primeira viagem à Terra Nova, então chamada Terra Nova dos Bacalhaus ou Terra dos Corte-Reais e partiu  numa segunda expedição ao Continente Americano em 1501 e desapareceu. O irmão Miguel (nasceu cerca de 1450), partiu em 1502 em busca dele e também nunca mais foi visto.  O seu desaparecimento deu origem a pesquisas e teses controversas, como a do seu naufrágio nas costas da Nova Inglaterra, onde teria encontrado as populações índias e gravado em latim a epígrafe da  Pedra de Dighton em 1511, com escudos em V e cruzes idênticas às das caravelas portuguesa e os dizeres MIGUEL CORTEREAL pela vontade de DEUS aqui CHEFE dos ÍNDios 1511. O irmão Vasco Anes Corte Real (nasceu em   1465) foi proibido pelo rei D. Manuel  de procurar os irmãos, herdando os cargos do seu pai: alcaide-mor de Tavira e capitão da ilha de São Jorge.

João Vaz Corte-Real teve ainda as filhas Iria Corte Real ( nasceu em 1440), Joana Vaz Corte Real (nasceu em 1465 como o irmão Vasco), Isabel Corte Real e um outro filho, Lourenço Vaz Corte Real.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida Álvares Cabral do Liceu Pedro Nunes

O Liceu Pedro Nunes em 1909 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Liceu Pedro Nunes em 1909
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Liceu Pedro Nunes nasceu do traço do Arqº Miguel Ventura Terra em 1906, n’ «a Avenida que deve ligar o Largo da Estrella com o antigo Largo do Rato, hoje Praça do Brazil» com a denominação de Avenida Álvares Cabral dada pelo Edital municipal de 18/11/1910, e o Lyceu Central de Pedro Nunes abriu no dia 17 de novembro de 1911.

Miguel Ventura Terra delineou mais dois outros Liceus lisboetas, a saber, o Liceu Camões, construído entre 1907 e 1909 na Praça José Fontana, e o  Liceu  Maria Amália Vaz de Carvalho (1913) na Rua Rodrigo da Fonseca que por falta de verba durou tantos anos a ser construído  que acabou por ser concluído pelo Arqº António Couto.

Após a implantação da República em Portugal, o  1º Edital da edilidade lisboeta sobre toponímia foi em 5 de novembro de 1910, tendo sido atribuídos os topónimos Praça do Brasil ao Largo do Rato  e, Praça do Rio de Janeiro à Praça do Príncipe Real. A  circunstância de Hermes da Fonseca, Presidente da República Federativa do Brasil, tendo então o Rio de Janeiro como capital,  ter estado em Lisboa nos dias 4 e 5 de outubro, possibilitou ao Brasil a condição de ser o primeiro país a reconhecer o novo regime em Portugal. E assim ganha sentido que o 2º Edital  de toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, datado de 18 de novembro de 1910 denomine a artéria que nascia na então Praça do Brasil com o nome do navegador português que oficialmente primeiro chegou às Terras de Vera Cruz: Pedro Álvares Cabral. Refira-se ainda que para a construção desta Avenida foi necessário demolir em 1930 o Teatro do Rato, conforme proposta aprovada por unanimidade do vereador Quirino da Fonseca na sessão de 9 de janeiro de 1930, onde se indicava que «Estando a ultimar-se a Avenida Alvares Cabral entre a Rua do Sol ao Rato e o Largo da Estrela, achando-se no leito dessa Avenida o Teatro do Rato, cuja construção a titulo precario foi autorisada em sessão de 9 de Março de 1922, tenho a honra de propôr que nos termos da clausula 2ª do respectivo contracto sejam intimados os concessionarios ou seus  representantes a demolir o referido teatro no prazo de 90 dias», bem como foram expropriados prédios da Travessa de Santa Quitéria, da Rua de São Bernardo, da Praça do Brasil e da Rua das Amoreiras.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro Álvares Cabral (Belmonte/1467 ou 1468 – 1520 ou 1526/Santarém), partiu de Lisboa em 9 de março de 1500,  ao comando da segunda armada para a Índia, com uma tripulação de experientes navegadores, como Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e Gaspar de Lemos, para além de padres, soldados e comerciantes. Intencional, como parece indicar a linha de repartição do Tratado de Tordesilhas, ou não, certo é que se desviou da rota para a Índia e arribou ao Brasil, após o que seguiu para a Índia a 3 de maio de 1500. Por este feito foi-lhe erguido um monumento no Rio de Janeiro e outro em Lisboa, justamente na Avenida que tem o seu nome e na Rotunda fronteira ao Liceu Pedro Nunes.

Finalmente, destacamos por ordem alfabética, os nomes de alunos do Liceu Pedro Nunes que também estão presentes na toponímia de Lisboa: Bento de Jesus Caraça, Carlos Botelho, o  Prof. Barahona Fernandes, Ribeirinho e o Ten. Coronel Ribeiro dos Reis. A que acrescem como professores desta escola, Rómulo de Carvalho ou António Gedeão e o Prof. Delfim Santos.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

As Ruas das Especiarias do Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações (Fotos: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações
(Fotos: Sérgio Dias)

Os portugueses partiram para os Oceanos em busca de especiarias nos séculos XV e XVI, num tempo em que estas eram fundamentais para a conservação dos alimentos e essa ligação está retratada na toponímia do Parque das Nações com 5  arruamentos: a Rua da Pimenta e as Travessas do Açafrão, da Canela,do Gengibre e da Malagueta.

Estes topónimos são uma herança da Expo 98, em Lisboa, subordinada ao tema Os oceanos: um património para o futuro, em que os arruamentos do evento foram nomeados com topónimos ligados aos Oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e da banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a obras de escritores portugueses e ainda alguns ligados à botânica. Com o regresso dos terrenos à posse da Câmara foram oficializados 102 topónimos pelo Edital de 16/09/2009 e mais 60 pelo Edital de 06/05/2015.

A Rua da Pimenta, que une a Rua do Bojador ao Cais das Naus, fixa na toponímia uma das principais especiarias que a descoberta do caminho marítimo para a Índia permitiu aos portugueses comercializar, tal como a canela e o gengibre. Até aí os comerciantes de Veneza e Génova detinham o monopólio das especiarias através de uma rota terrestre e cobravam por elas preços exorbitantes. Não é assim de estranhar que todas estas Travessas referentes a especiarias façam a ligação do Passeio das Tágides à Rua da Pimenta. Resta acrescentar que o monopólio do comércio da canela esteve nas mãos dos portugueses no século XVI e passou para os holandeses, quando estes expulsaram os portugueses do Ceilão em 1656, e depois, passou para as mãos dos ingleses, a partir de 1796, quando esses ocuparam a ilha.

Na gastronomia alfacinha usa-se a canela nos Pastéis de Belém, no Arroz Doce e nas Farófias; a pimenta nos Caracóis, nos Peixinhos da Horta, nas Pataniscas de Bacalhau, na Fava Rica, no Bife à Marrare, no Bitoque, nas Iscas com Elas; e a malagueta nos Pipis.

Freguesia do Parque das Nações (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

 

A I Guerra na Toponímia do Bairro América

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

Os Estados Unidos da América declararam guerra à Alemanha em abril de 1917 e no ano seguinte findou a I Guerra Mundial. Em Lisboa, 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne (11 de novembro), a deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, denominou um novo bairro,  construído entre 1915 e 1920 na antiga Quinta das Marcelinas, como Bairro América e as suas artérias com os nomes de dois norte-americanos e de outras figuras ligadas ao continente americano.

Já antes mesmo da assinatura do armistício, por deliberação camarária de 19 de setembro e edital de 24 de setembro de 1918, Lisboa homenageara numa Avenida o então Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Woodrow Wilson.

A deliberação municipal especificou «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin [Benjamin Franklin, estadista norte-americano fulcral na independência das 13 colónias inglesas para a construção dos estados americanos]; o nº 2, rua Washington [o 1º Presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, fundou a República da Bolívia e procurou implantar a República dos Estados Unidos do Sul com a junção da Bolívia, Venezuela e Colômbia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se aos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes [navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918». O Edital municipal foi publicado 6 anos mais tarde, em 17 de outubro de 1924, justificando «Por não terem sido publicados, em devido tempo, os respectivos editais, e por cumprir a esta Comissão Executiva dar execução ás deliberações do Senado Municipal».

Refira-se ainda que os arruamentos Rua Bolívar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C, à Rua General Justiniano Padrel.

Já as Escadinhas do Bairro América, que ligam a Rua Washington à Rua Rui Barbosa, foram um topónimo atribuído 14 anos depois dos anteriores, pelo Edital de 28/12/1932,  tomando a denominação do Bairro.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Fernão do Estreito de Magalhães

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Fernão de Magalhães nasceu de uma deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, com mais 6 topónimos, todos referentes a figuras ligadas ao continente americano, num novo bairro que estava a ser construído na Quinta das Marcelinas e que a edilidade denominou como Bairro América, quando tinham passado 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne que pôs fim à I Guerra Mundial e, no ano seguinte ao da entrada dos Estados Unidos da América no conflito.

Aliás, a ideia da toponímia do Bairro América ser uma homenagem a republicanos e à república federativa dos Estados Unidos da América pela ajuda na I Guerra também surge da leitura da ata dessa sessão camarária em que se elucida que «Os Srs. Manuel José Martins Contreiras, Dr. João José da Silva e Fernão Boto Machado, proprietários da Quinta das Marcelinas, na Rua Vale de Santo António, 30, requereram a esta Câmara que lhes fosse dado ao Bairro que ali estão construindo, a denominação de Bairro da América, a exemplo do que já foi feito para os bairros da Bélgica e da Inglaterra [parceiros na I Guerra] e que os arruamentos tivessem as seguintes denominações: nº 1:Rua Franklin, nº2: Washington, nº3: Rui Barbosa, nº4: Bolívar, nº5: Dos Cortes Reais, nº6: de Fernando de Magalhães, nº7: de Álvaro Fagundes.»

O correspondente Edital municipal só foi publicado cerca de seis anos mais tarde, em 17 de 0utubro de 1924, e acrescente-se que os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática, embora, em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado à toponímia lisboeta para dar nome à Rua C à Rua General Justiniano Padrel.

Freguesia de São Vicente - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Fernão de Magalhães (Porto?Sabrosa?Vila Nova de Gaia? Ponte da Barca?/c. 1480 – ?.04.1521/Cebu- Filipinas) que deu nome ao Estreito que é a maior passagem natural entre o Atlântico e o Pacífico foi o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação, ao serviço de Castela, para chegar às Molucas e permitiu assim novos elementos para a cartografia.

Alistou-se na armada que foi à Índia comandada por D. Francisco de Almeida em 1505, participou na batalha naval de Diu de 1509 e na conquista de Azamor  em 1513, para além de ter conhecido  Francisco Serrão, futuro feitor das ilhas das Molucas, através do qual teve informações sobre a localização daquelas ilhas.

Regressado ao continente mas desagradado com D. Manuel I foi em 1517, acompanhado do cosmógrafo Rui Faleiro, oferecer ao Rei de Castela a possibilidade de atingir as Molucas por mares não reservados aos portugueses no Tratado de Tordesilhas de 1494 e provar que aquelas ilhas com especiarias se situavam no hemisfério castelhano. Fernão de Magalhães  partiu em setembro de 1519 e a sua armada – para a expedição, que disponibiliza uma esquadra de cinco naus. Providos de uma tripulação de 265 homens,-  fez escala nas Canárias, alcançou a costa da América do Sul, continuou para sul  e atingiram o porto de S. Julião à entrada do estreito de Magalhães, no dia 1 de novembro, pelo que inicialmente foi chamado como Estreito de Todos os Santos. Aí fizeram cinco meses de paragem e depois encontraram a saída do estreito, iniciaram a travessia do Oceano Pacífico, que demorou cerca de quatro meses, arribando às Filipinas em março de 1521, mas Fernão de Magalhães foi morto em Cebu, vítima de uma emboscada.

Fernão de Magalhães recebeu homenagens por ter sido o primeiro Europeu a ver um pinguim, através do Pinguim-de-magalhães, bem como com referências astronómicas como as Nuvens de Magalhães e as crateras lunares  e as marcianas de Magalhães.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)

 

Manuel Godinho de Herédia, o cartógrafo da Península malaia dos tempos filipinos

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Manuel Godinho de Herédia,  cartógrafo luso-malaio a quem o rei Filipe I nomeou como «Descobridor e Adelantado da Nova Índia Meridional», está desde a publicação do Edital municipal de 15/06/1960 na Rua 14 do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo.

O Bairro das Casas Económicas da Encosta da Ajuda começou por ter toponímia numérica nas suas 22 artérias, fixada pelo edital municipal de 03/12/1951, como era prática habitual nos bairros sociais. Cerca de nove anos depois, o  edital camarário de 15/06/1960 substituiu essas denominações em números por topónimos relativos a figuras da Expansão Portuguesa dos séculos XV a XVII e assim, a Rua 14 do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo passou a homenagear Manuel Godinho de Herédia (Malaca/1558 ou 1563 – c. 1623/Goa), por vezes também grafado como Manuel Godinho de Erédia ou como Emanuel Godinho de Erédia.

O ananás desenhado por Manuel Godinho de Heredia na sua Suma

O ananás desenhado por Manuel Godinho de Herédia na sua Suma

Herédia,  que foi educado pelos jesuítas, empenhou-se em descobrir a Austrália, que ele designava como «ilha do Ouro» e que já nas lendas malaias tinha um papel destacado, embora se ignore se concretizou ou não este plano. A sua ideia era de que a ilha do Ouro se encontrava a noroeste da Austrália que hoje conhecemos, alicerçado nas leituras que fizera de Ptolomeu, Marco Polo e Ludovico di Varthema, bem como nos relatos de viagens malaias coevas, acidentais ou deliberadas, ao sudeste de Timor. Em 1594, Filipe I nomeou-o «Descobridor e Adelantado da Nova Índia Meridional» e, por volta de 1602, o então vice-rei da Índia, Aires de Saldanha, até destacou navios e homens para a viagem de descoberta mas a eclosão de guerras locais levou a que Manuel de Godinho fosse chamado como soldado e engenheiro militar e supõe-se que mais não se terá avançado.

Certo é que foi professor de matemática e se dedicou à geografia e cartografia do Oriente, tendo delineado várias cartas das Índias Orientais e da Ásia, as plantas das praças conquistadas, e é muito possível que em Goa tenha conhecido o cartógrafo Fernão Vaz Dourado. Para além disto, registou os povos, animais e plantas dos locais que percorreu em texto e desenhos. Em Goa, também copiou as cartas que lhe chegavam por marinheiros e construiu um dos  primeiros levantamentos da península malaia. Deixou publicadas, entre outras, por vezes com a referência cosmógrafo-mor, as obras Miscelânea (1610), Plantas de praças das conquistas de Portugal, feitas por ordem de Rui Lourenço de Távora, vizo-rei da India (1610), Discurso sobre a Província do Indostan chamada Mogûl ou Mogôr com declaração do Reino gozarate, e mais Reinos de seu destricto (1611), Suma de Arvores e Plantas da India Intra Ganges (1612) onde apresenta um catálogo ilustrado das plantas do Sudeste Asiático, Declaracam de Malaca e da India Meridional com Cathay (1613), Carta da Ilha de Goa (1616), Livro de Plataformas das Fortalezas da Índia (c. 1620).

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)