A junção das Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande ocorreu há um século

Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O Campo Grande, que hoje pertence às Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar, tem este topónimo fixado desde há 100 anos, através da publicação do Edital municipal de 19 de janeiro, o 2º Edital de toponímia de 1916, que assim juntou as Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande num único topónimo.

Chamado anteriormente Campo de Alvalade, este sítio foi escolhido durante séculos para a edificação de solares nobres e algumas vezes destinado à concentração de tropas, como as que D. Sebastião levou para Alcácer Quibir. O arvoredo que transformou o Campo Grande num dos parques mais aprazíveis de Lisboa foi mandado plantar no reinado de D. Maria I.

O Campo Grande nas primeiras décadas do séc. XX (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Campo Grande nas primeiras décadas do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nove anos depois da junção as Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande, voltaram a ser topónimos separados pelo Edital de 07/05/1925. A Rua Ocidental do Campo Grande, apesar de já não existir  formalmente, passou a denominar-se Avenida Sacadura Cabral. Nesse mesmo ano, à Rua Oriental foi dado nome de outro aviador através da Avenida Óscar Monteiro Torres (por deliberação camarária de 02/06/1925) e já uns meses antes (por deliberação camarária de 15/02/1925) a Rua do topo norte do Campo Grande tinha ficado com a denominação de Rua António Stromp. Só que no ano seguinte, na sessão da Câmara de 26/08/1926 (e edital de 14/09/1926)  foi resolvido manter no Campo Grande a sua antiga denominação de Campo Grande.

Passados mais nove anos, uma nova deliberação da Câmara de 16/05/1935, fez com que as antigas Ruas do Oriental e Ocidental do Campo Grande passassem a denominar-se como o mesmo topónimo do jardim do local: Campo 28 de Maio. Esta decisão foi reafirmada no edital de 02/10/1939 tornando público o despacho da Presidência segundo o qual foi rectificada a deliberação da Câmara de 16/05/1933 e o edital de 18/05/1935, que atribuiu a denominação de Campo 28 de Maio às antigas Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande, passando a referida denominação de Campo 28 de Maio a substituir a de Campo Grande, que compreendia as antigas Ruas Oriental e Ocidental, depois Avenida Óscar Monteiro Torres e Sacadura Cabral, o próprio parque e ainda a Rua António Stromp.

Já na década de quarenta do século XX, o Edital municipal de 23/12/1948, voltou a denominar como Campo Grande o então Campo 28 de Maio. Na década seguinte, a antiga Praça Mouzinho de Albuquerque também foi integrada no Campo Grande, por edital municipal de 23/03/1954. E nos anos 80 do século XX, após a morte de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, a edilidade chegou a equacionar dividir novamente o Campo Grande em duas artérias para os homenagear mas acabou por criar uma solução alternativa.

Freguesias das Avenidas Novas, Alvalade e Lumiar                                           (Planta: Sérgio Dias)

A primeira Rua de 1916 : Frei Manuel do Cenáculo na Penha de França

Freguesia da Penha de França

Freguesia da Penha de França                                                                                      (Foto: Sérgio Dias)

Há cem anos, o primeiro topónimo atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa foi a Rua Frei Manuel do Cenáculo, na Penha de França, através do Edital de 8 de janeiro de 1916.

(Foto do quadro: Arquivo Municipal de Lisboa)

(Foto do quadro: Arquivo Municipal de Lisboa)

O homenageado é Manuel de Villas-Boas Anes de Carvalho (Lisboa/01.03.1724- 26.01.1814/Évora), conhecido como Frei Manuel do Cenáculo, que se notabilizou enquanto arcebispo de Évora, pensador iluminista e criador de bibliotecas.

Enquanto jovem frequentou as lições do Padre João Baptista da Congregação do Oratório (1737-1740) e aos 16 anos vestiu o hábito de franciscano da Ordem Terceira. Depois teve também aulas com Frei Joaquim de São José, que lhe deu uma orientação mais moderna e coincidente com uma movimentação intelectual de crítica da Escolástica. Doutorou-se em Teologia na Universidade de Coimbra em 26 de maio de 1749 e foi nomeado lente de Artes do Colégio de São Pedro de Coimbra (1746-1749), vindo depois a reger uma cadeira de teologia (1751 a 1755) na Universidade, instituição onde mais tarde foi também mentor da Junta Reformadora (1772).

Frei Manuel do Cenáculo que chegou a desempenhar as funções de Superior provincial da Ordem Terceira de São Francisco, na sua viagem a Roma de 1750 conheceu bibliotecas que o influenciarão na sua dedicação a esta área, nomeadamente como dinamizador da reconstrução da Real Biblioteca Pública e da Biblioteca Pública de Évora (1775).

Foi uma  figura de relevo do iluminismo em Portugal, caracterizando-se o seu pensamento filosófico por matematismo, gosto do real e  crítica moderada da escolástica, de acordo com os seus estudiosos Hernâni Cidade e Francisco da Gama Caeiro. Tornou-se uma referência no círculo político e intelectual português que lhe valeram sucessivas nomeações por parte de D. José I e do Marquês de Pombal:  Presidente da Real Mesa Censória (1768) e consequentemente, participação na organização do ensino através da sua função neste organismo que lhe permitiu dinamizar a abertura de escolas em zonas rurais, sobretudo no Sul do País, em 1771; Bispo de Beja (1770 a 1795), instituindo um curso de humanidades e de teologia no seu paço episcopal onde também instalou uma biblioteca e um museu e em 1779  mandou escolher alguns rapazes das famílias pobres da zona entre Campo de Ourique e o Algarve para serem instruídos em Beja e depois instruírem aquela localidade da sua diocese de onde provinham, para além de ter fundado a Academia Eclesiástica de Beja (1793);  Presidente da Junta de Providência Literária criada para tratar da reforma dos estudos, Preceptor do Príncipe Herdeiro D. José, Príncipe da Beira (todos em 1770); e ainda, Presidente da Junta do Subsídio Literário (1772).

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

O Largo do Calhariz e a exposição de 1916 de Amadeu Sousa Cardoso

O Largo do Calhariz no início do séc. XX (Foto: Alexandre Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Largo do Calhariz no início do séc. XX
(Foto: Alexandre Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

De 4 a 18 de Dezembro de 1916 Amadeu de Sousa Cardoso expôs em Lisboa 113 obras, acompanhadas de um manifesto de Almada Negreiros, na sede da Liga Naval de Lisboa, no Palácio Calhariz-Palmela, no Largo Calhariz, no espaço que nos dias de hoje é uma agência da Caixa Geral de Depósitos.

O Largo do Calhariz é um troço da seiscentista Estrada da Horta Navia, também denominada Estrada de Santos e este topónimo deriva da residência no local dos Morgados do Calhariz, conforme relata Norberto Araújo«Encontramos-nos na artéria conhecida em tôda a Lisboa pelo “Calhariz”, rua e sítio dêste título, e que tem origem no Palácio dos Sousas Calharizes, como diz o vulgo e como se encontra em livros antigos. É este edifício, à direita, com um pequeno jardim adjacente, e que ocupa todo o quarteirão confinado entre as Ruas do Calhariz, da Atalaia, Travessa das Mercês e Rua da Rosa.»

O Palácio dos Sousa Calhariz foi mandado erigir em 1703 pelo senhor do Morgado do Calhariz, D. Francisco de Sousa Calhariz (1631- 1711). Sofreu em 1842-44 restauros e ampliações da responsabilidade do arqº Giuseppe Cinatti, a mando de  D. Pedro da Sousa Holstein, 1º duque de Palmela e conde de Calhariz.  De 1952  até 1961 voltou a ter obras, traçadas pelo arqº Cândido Teixeira de Melo, e uma anexação ao Palácio Sobral, isto após os Morgados do Calhariz, entretanto mais conhecidos como Duques de Palmela, o terem vendido em 1947 à Caixa Geral de Depósitos para lhe servir de sede, a que sucedeu também em 1969 a obra do arco de ligação entre os dois palácios sobre a Rua da Rosa.

Amadeo em data entre 1908 e 1918

Amadeo em data entre 1908 e 1918

Antes desta venda passaram pelo Palácio do Bairro Alto várias instituições em regime de inquilinato, nomeadamente, a Academia Real de Fortificação (em 1796 e 1811 ou 1803 a 1806); a Câmara Eclesiástica no andar nobre (até 1830); a Contadoria Fiscal da Tesouraria Geral das Tropas ( na década de 30 do séc. XIX); a Companhia de Ferro (após as obras de 1842-1844); no nº33 o Talho nº 138 (em 1878) que depois será a Barbearia Calharix Lda. (1933 – 1944);o Ministério dos Negócios Estrangeiros (de 1882 a 1892),   o estabelecimento de Luiz Vítor Rombert nos nº 30 a 32 (a partir de 1908) que foi trespassado a Casimiro Braga em  1942  e era de H. Santos  de 1945 a 1948; a Liga Naval Portuguesa (1914- 1929); a firma A. Figueiredo e Compª no nº 34 (1914) que depois será de A. Lopes Maia (1927 – 1947); o estabelecimento de móveis Paixão Carvalho Lda.nos nº 27 e 28 (1928-1945);  a firma de Marques e Rodrigues no nº30 (1930) e no nº29 o estabelecimento de Luiz Borges  (1929 -1931) que depois será a sede do Automóvel Clube de Portugal (1935 – 1956).

Freguesia da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Amadeu de Sousa Cardoso nascida em 1988 sobre a Rua Bocage

na Freguesia de Alcântara

Freguesia de Alcântara                                                                (Foto: José Carlos Batista)

Amadeu de Sousa Cardoso foi fixado na toponímia alfacinha setenta anos após a sua morte, no arruamento que liga a Rua dos Lusíadas à Rua João de Barros, através do Edital de 29 de fevereiro de 1988, naquela que era a Rua Bocage desde a deliberação camarária de 08/07/1892 e ainda antes, as Ruas nºs 7 e 8 do Bairro do Casal do Rolão, em Alcântara.

Conforme se pode ler na acta da reunião da Comissão de Toponímia de 17 de fevereiro de 1988, o Vereador Vítor Reis sugeriu o nome de Amadeu de Sousa Cardoso para identificar um arruamento citadino, e a Comissão de Toponímia então presidida  pelo Vereador Comandante Pinto Machado «Atendendo a que existem em Lisboa dois arruamentos ambos evocando a memória do poeta Bocage [o cientista na Avenida Barbosa du Bocage e o poeta na Rua Bocage], e que não se justifica essa duplicação toponímica»,  foi de parecer que a Rua Bocage em Alcântara se passasse a denominar Rua Amadeu de Sousa Cardoso. Mais tarde, em 1996, por proposta de Appio Sottomayor na Comissão Municipal de Toponímia voltou Manuel Maria Barbosa do Bocage a Lisboa com a denominação inequívoca de Rua Poeta Bocage.

Amadeo em 1913

Amadeo em 1913

Amadeo de Souza-Cardoso e pela grafia moderna Amadeu de Sousa Cardoso (Amarante-Manhufe/14.11.1887 – 25.10.1918/Espinho), foi um desenhador, caricaturista e pintor da primeira geração de modernistas portugueses. Aos 18 anos, matriculou-se em Arquitetura na Academia de Belas-Artes de Lisboa e manifestou também a sua arte no desenho, sobretudo como caricaturista.

No ano seguinte (1906) viajou para Paris, na companhia de Francisco Smith, e acabou por se instalar no Boulevard Montparnasse , onde reforçou a sua inclinação para o desenho e a caricatura que  publicou n’ O Primeiro de Janeiro (1907) e na Ilustração Popular (1908-1909). Arrendou um estúdio no 14, Cité Falguière que se tornou também espaço de tertúlias com artistas emigrados como Manuel Bentes, Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Domingos Rebelo e  Francisco Smith. No final de 1908 conheceu Lucia Pecetto (Lyon/23.07.1890-23.03.1989/Paris) –  com quem casará em 1914 no Porto- e começou a frequentar as classes do pintor espanhol Anglada-Camarasa, para além de mudar o seu estúdio para a rue des Fleurus, num espaço contíguo ao apartamento de Gertrude Stein. Em 1910 fez uma estadia de três meses em Bruxelas investigando as pinturas dos primitivos flamengos e no ano seguinte expôs trabalhos no Salon des Indépendants de Paris (também em 1912 e 1914) e aprofundou a sua amizade com Amedeo Modigliani, tendo realizado uma exposição conjunta no novo atelier de Amadeu perto do Quai d’Orsay, na rue du Colonel Combes. Amadeu aproximava-se cada vez mais das vanguardas e de artistas como Brancusi, Archipenko, Diego Rivera, Juan Gris ou Max Jacob.  Em 1912, publicou o álbum XX Dessins e expôs no Salon d’Automne a que voltou em 1914. Em 1913, convidado por Walter Pach, integrou com 8 trabalhos a Exposição Internacional de Arte Moderna Armory Show (Nova Iorque, Chicago e Boston),  ao lado de Braque, Matisse ou Duchamp. Nesse mesmo ano voltou a Montparnasse, para novo estúdio na rue Ernest Cresson e participou  no I Herbstsalon de Berlim. Em 1914,  Amadeo veio passar o verão em Manhufe como costumava, após uma passagem por Barcelona para visitar o escultor León Solá onde conheceu Gaudí, sendo  surpreendido pelo deflagrar da I Guerra que o impedirá de regressar a Paris, tal como sucedeu a Robert e Sonia Delaunay que ficaram em Vila do Conde, tendo em conjunto pensado criar uma Corporation Nouvelle para promover exposições internacionais itinerantes, para além de através de Almada Negreiros ter conhecido o grupo dos Futuristas lisboetas, reunidos inicialmente em torno da revista Orpheu e assim em 1917 publicou três obras na revista Portugal Futurista, mas a edição foi apreendida.

Em 1918 contraiu uma doença de pele que lhe atingiu o rosto e as mãos impedindo-o de trabalhar e, trocou Manhufe por Espinho, na tentativa vã de escapar à epidemia de Gripe Espanhola à qual acabou por sucumbir nesse ano. A sua morte antes de completar 31 anos de idade ditou o fim abrupto de uma obra pictórica em plena maturidade e, de uma carreira internacional promissora, conduzindo a que o seu nome só alguns anos após a sua morte ganhasse em Portugal a importância e o reconhecimento que possuía no estrangeiro e muito graças à divulgação do seu trabalho por Almada Negreiros.

Em 1935, foi criado o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso para o Salão Anual de Arte Moderna e em, 1957 José Augusto-França publicou a primeira monografia sobre ele e em 1968 a Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu 5 obras de Amadeo que hoje está representando no Museu Municipal Amadeu de Sousa Cardoso em Amarante, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian e no Museu de Arte Contemporânea/Museu do Chiado.

Placa Tipo II

Placa Tipo II                                                            (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Alcântara (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias)

Amadeu de Sousa Cardoso e a toponímia de Lisboa em 1916

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Amadeu de Sousa Cardoso realizou uma exposição em Lisboa em Dezembro de 1916 cuja réplica voltará a esta cidade em janeiro de 1917, razão para elegermos este pintor para tema deste mês.

A única exposição em Portugal em vida de Amadeu ocorreu em 1916 e apresentou-se primeiro no Porto, de 1 a 12 de Novembro de 1916, no Jardim do Salão Passos Manuel, com 114 obras e intitulava-se Abstraccionismo.  Em Lisboa, esteve na Liga Naval de Lisboa, de 4 a 18 de Dezembro de 1916, com 113 obras, já sem título e acompanhada por um texto/manifesto de Almada Negreiros. Em ambos os certames recebeu a hostilidade do público incluindo agressão física ao pintor.  Fernando Pessoa e Almada Negreiros defenderam-no publicamente reconhecendo-o como o pintor mais significativo do seu tempo e no ano seguinte Almada dedicou-lhe mesmo o livro K 4 o Quadrado Azul.

Assim, os topónimos deste mês serão o Largo do Calhariz, onde se  encontrava a Liga Naval de Lisboa e hoje é uma agência da Caixa Geral de Depósitos; os arruamentos dedicados aos pintores seus amigos Domingos Rebelo, Eduardo Viana e Francisco Smith; bem como os topónimos atribuídos pela Câmara Municipal de Lisboa no decorrer do ano de 1916:

Amadeo cerca de 1916

Amadeo cerca de 1916

Rua Frei Manuel do Cenáculo

Campo Grande às Ruas Oriental e Ocidental do Campo Grande

– Rua da Fraternidade Operária

–  Travessa das Amoreiras a Arroios

– Travessa das Freiras a Arroios

Travessa Possidónio da Silva

 incorporação de mais troços na Rua Pascoal de Melo

– a manutenção da Rua Direita de Marvila

Largo dos Defensores da República ao Largo da Egreja

– os cinco arruamentos do Bairro de Inglaterra

Rua Carlos José Barreiros

– as Ruas da Freguesia da Ajuda ainda não oficializadas

Largo da Cantina Escolar

Largo das Palmeiras

– seis arruamentos da Penha de França

A Ascensão do Quadrado Verde e a Mulher do Violino (Óleo s/ tela), 1916

A Ascensão do Quadrado Verde e a Mulher do Violino (óleo sobre tela), 1916

A Rua Flores do Lima nascida a 7 de julho e o Quarteto das 4 salas e 4 filmes

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa9

O cinema Quarteto, na Rua Flores do Lima, em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal de Lisboa)

A obra Flores do Lima  da autoria de Diogo Bernardes, impressa em 1597,  deu origem em 1961 à Rua Flores do Lima que justamente tem entrada a partir da Rua Diogo Bernardes,  no Bairro de São Miguel da Freguesia de Alvalade, e na qual esteve sediado de 1975 até 2007 o cinema Quarteto, obra do empenhado Pedro Bandeira Freire para toda a cidade.

A Rua Diogo Bernardes foi atribuída pelo Edital municipal de 6 de março de 1952 e nove anos mais tarde,  os moradores de um arruamento paralelo à Avenida Estados Unidos da América cujo acesso se fazia a partir dessa artéria pediram a atribuição de denominação ao mesmo, tendo a Comissão Municipal de Toponímia proposto «que o referido arruamento se denomine: Rua Flores do Lima, porque Flores do Lima é o título de um livro da autoria de Diogo Bernardes, que teve várias edições», o que se veio a verificar pelo Edital municipal de 7 de julho de 1961.

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O cinema Quarteto,obra do Arqt.º Nuno San-Payo, foi inaugurado no nº 16 da Rua Flores do Lima em 21 novembro de 1975, com 716 lugares e apresentando-se como o 1º complexo de salas de Lisboa,  característica justamente realçada  no slogan que usava: «4 Salas / 4 Filmes.». Foi gerido pelo cinéfilo Pedro Bandeira Freire, garantindo uma atmosfera de cinefilia com exibições exclusivas. Ficaram memoráveis as famosas maratonas de 24 horas de cinema, a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto, o ter dado a conhecer em Portugal o realizador Martin Scorcese com Taxi Driver  (a partir de 15 de abril de 1977),e a estreia de All That Jazz (1979) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, sendo o maior êxito de sempre deste cinema, propriedade de Pedro Bandeira Freire e do seu sócio, o escritor Almeida Faria. O Quarteto albergou ainda numa das suas salas, em 1981, a Cinemateca, devido a um incêndio que destruiu o edifício da Rua Barata Salgueiro.

Encerrou no dia 16 de novembro de 2007, por ordem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) que invocou falhas de segurança, sobretudo no combate a incêndios. Pedro Bandeira Freire faleceu 5 meses depois, a 17 de abril de 2008, aos 68 anos de idade. Em 2014, o edifício passou para a Igreja da Plenitude de Cristo, de protestantes evangélicos.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

O Apolo 70 na Avenida do autor d’As Pupilas do Senhor Reitor

O cinema Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977 (Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

O cinema Estúdio Apolo 70 na Avenida Júlio Dinis em 1977
(Foto: Vasques, Arquivo Municipal)

A artéria do início do séc. XX – primeiro Rua e depois Avenida – que perpetua em Lisboa o escritor portuense Júlio Dinis, autor de As Pupilas do Senhor Reitor e criador do romance campesino, acolheu em 1971 o cinema Estúdio Apolo 70, no Drugstore do mesmo nome, simbolizando a sua modernidade com a colagem à chegada do homem à Lua no Programa Apollo, que na 5ª missão tripulada – Apollo 11 – conseguiu  realizar a primeira alunagem, no dia 20 de julho de 1969.

Júlio Dinis começou por ser topónimo lisboeta com a categoria de Rua, através da deliberação camarária de 4 de fevereiro de 1909, passando a Avenida dezasseis anos depois, pelo Edital municipal de 8 de junho de 1925, que também tornou Avenidas as Ruas António de Serpa, Barbosa du Bocage, Elias Garcia, João Crisóstomo e Visconde de Valmor.

 em 26 de maio de 1971 foi inaugurado no nº 10 A da Avenida Júlio Dinis o Drugstore Apolo 70, com o nome que se dava então na Europa aos centros comerciais. No dia seguinte, abriu nele uma sala de cinema com 300 lugares, o Estúdio Apolo 70, planificado pelo Arqº Augusto Silva e decorado por Paulo Guilherme. A programação estava a cargo de Lauro António (entre 1969 e 1985) que escolheu como filme de estreia O Vale do Fugitivo, de Abraham Polonsky, um western que era uma metáfora da guerra do Vietname. O cinema fechou em 1990 e o seu espaço foi ocupado por um restaurante.

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Branco e Negro, 13 de setembro de 1896

Júlio Dinis é o pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Porto/14.11.1839-12.09.1871/Porto) mas que se notabilizou sobretudo pela escrita, considerado cultor da transição entre o romantismo e o realismo, através dos títulos As Pupilas do Senhor Reitor (1867), publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do PortoUma Família Inglesa (1868), também publicado no ano anterior em fascículos no Jornal do Porto; A Morgadinha dos Canaviais (1868); as novelas Serões da Província (1870); Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871). Postumamente, foram acrescentados à sua obra impressa os volumes Poesias (1873), Inéditos e Esparsos (1910) e Teatro Inédito (1946-1947). No decorrer do séc. XX  os seus romances foram diversas vezes adaptados ao cinema e mais tarde, também à televisão.

Formado em medicina na Escola Médica do Porto,em 27 de julho de 1861,  passou a maior parte da sua vida entre o Porto e Ovar, e por ter contraído tuberculose não chegou a exercer medicina e ocupou-se com a escrita, tendo também publicado textos literários em A Grinalda,  O Jornal do Comércio, Semana de Lisboa e Serões. Contudo, foi lente substituto no corpo docente da Escola Médica-Cirúrgica do Porto. Júlio Dinis também usou o pseudónimo de Diana de Aveleda, com que assinou pequenas narrativas ingénuas como Os Novelos da Tia Filomena e o Espólio do Senhor Cipriano (1862 e 1863), assim como  pequenas crónicas no Diário do Porto.

Júlio Dinis ainda foi duas vezes para a Madeira, considerada na época um lugar eficaz para a cura da tuberculose, mas acabou por falecer antes de completar 32 anos de idade, como antes acontecera a sua mãe e aos seus 8 irmãos.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

A Rua do pintor romântico Francisco Metrass e as duas vidas do cinema Europa

Grupo de artistas. Em primeiro plano, da esquerda para a direita, José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Augusto Metrass; em segundo plano João Cristino da Silva e Tomás da Anunciação e Vitor Figueiredo Bastos (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em baixo da esquerda para a direita: José Rodrigues, António Manuel da Fonseca, Francisco Metrass; em cima: João Cristino da Silva, Tomás da Anunciação e Vítor Bastos
(Foto: José Leitão Bárcia, depois de 1890, Arquivo Municipal de Lisboa)

O romântico pintor Francisco Metrass   foi colocado numa artéria do Bairro de Campo de Ourique em 1880 e já no séc. XX foi nela que se ergueu o Cinema Europa que foi também Europa Cinema.

Por deliberação camarária de 23 de agosto de 1880 e consequente Edital de 30 de agosto, Rua Francisco Metrass foi o topónimo dado à  3ª rua nova aberta paralelamente à Rua Ferreira Borges ou Rua nº 4 aberta nos terrenos da antiga Parada de Campo de Ourique, em memória do pintor que falecera 19 anos antes. Por esse mesmo Edital municipal foi também colocado na Rua nº 3 o pintor Tomás da Anunciação, falecido no ano anterior, bem como a Rua do Quatro de Infantaria (na Rua nº 1 ) e a Rua Ferreira Borges (na Avenida de Campo de Ourique).

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

Cinema Europa na década de 30 do séc. XX

 

Numa esquina da Rua Francisco Metrass abriu portas em 14 de fevereiro de 1931 o Cinema Europa, traçado pelo Arqº Raul Martins e que se tornou um dos edifícios emblemáticos de Campo de Ourique. Em 1936 foi modificado na fachada e no interior, segundo um plano do Arqº João Carlos Silva mas acabou por ser demolido em 1957. No seu lugar foi construído em 1958 o Europa Cinema, esboçado pelo Arqº Antero Ferreira e com uma escultura em alto-relevo na fachada, da autoria de Euclides Vaz, com 843 lugares à disposição. Assim, funcionou como sala de cinema até 1981 e em 2010 foi demolido.

Europa Cinema após 1957

Europa Cinema após 1958

Francisco Augusto Metrass ( Lisboa/07.02. 1825 – 14.02.1861/Funchal) foi um pintor da época romântica que ingressou   aos 11 anos, em 1836, como aluno voluntário da Academia das Belas Artes de Lisboa, onde foi colega de Tomás da Anunciação, Manuel Maria Bordalo Pinheiro e João Cristino da Silva e teve como professores Joaquim Rafael e António Manuel da Fonseca. Dedicava-se sobretudo à pintura de retratos até partir em 1844 para estudar para Roma, com os pintores de origem alemã do Grupo dos Nazarenos Cornelius e Overbeck, e pintar Jesus acolhendo as crianças. No regresso, empenhou-se sobretudo na pintura histórica mas face à falta de reconhecimento vendeu toda a sua obra a um corretor de leilões e estabeleceu-se a tirar retratos na zona do Cais do Sodré. Voltou depois a partir, para Paris, onde estudou as obras de Rubens, Rembrandt e Van Dyck. De volta a Portugal em 1853, com melhor técnica, o rei D. Fernando comprou-lhe o quadro Camões na Gruta de Macau e a sua obra passou a ser admirada pelo grande público e, a partir do ano seguinte exerceu também como professor de pintura histórica na Academia de Belas Artes.  O seu quadro Só Deus (1856), foi considerado a mais poderosa imagem do romantismo português.

Francisco Metrass morreu aos 36 anos de idade, vítima de tuberculose e a sua obra está representada no Museu do Chiado/ Museu de Arte Contemporânea.

Freguesia de Campo de Ourique                                                                                 (Planta: Sérgio Dias)