A Rua Marcelino de Mesquita na 2ª fase do Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O médico, dramaturgo e jornalista Marcelino de Mesquita  foi perpetuado numa artéria do Bairro dos Aliados na sua 2ª fase de atribuição de topónimos, através do Edital municipal de 31 de março de 1932.

Marcelino de Mesquita ficou na Rua nº 6 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Egas Moniz à Rua Barão de Sabrosa, e o mesmo Edital fixou o nome do jornalista e escritor Alberto Pimentel (Rua nº 3) e do diretor da Real Fábrica das Sedas José Acúrcio das Neves (Rua nº 7).

Já antes, por uma deliberação camarária de 1925 que nunca teve Edital, o Jardim das Amoreiras passou a designar-se Jardim Marcelino Mesquita, já que o homenageado vivera e falecera na Rua das Amoreiras.

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

Marcelino António da Silva Mesquita (Cartaxo/01.09.1856 – 07.07.1919/Cartaxo) aos 15 anos morava num quarto na Rua da Rosa e estudou na Escola Académica, na Politécnica e tendo morado também num hotel do Largo de São Paulo acabou por se formar em Medicina em 1885 na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa mas apesar de ter publicado um livro de poemas intitulado Meridionais (1882) sempre dedicou particular atenção foi ao teatro, tendo começado com a comédia em cinco actos Pérola – Episódio da vida académica (1885), que  por ter a prostituição e  a boémia como tema provocou escândalo, a que se seguiram O Senhor Barão (1887) e  o drama histórico Leonor Teles (1889), que foi o seu primeiro êxito, e posteriormente transformou num romance histórico, sendo ainda de destacar A Noite do Calvário (1903) impedida pela comissão de censura de subir a palco, Margarida do Monte (1910) prefaciado por Teófilo Braga e os inúmeros êxitos de crítica e de público que conseguiu, quer em Portugal quer no Brasil.

Em 1886, ano do seu 1º casamento, fixou-se no Cartaxo onde exerceu clínica e comprou a tipografia Cartaxense e o jornal O Povo do Cartaxo, mudando-lhe o nome para O Cronista, vendendo tudo dois anos depois para vir residir em Lisboa, para a Rua das Amoreiras nº 198, e nesta cidade fundou e dirigiu o jornal satírico A Comédia Portuguesa (1888) e o diário Portugal (1891), bem como foi o diretor literário da Parodia: comedia portugueza (1903- 1907), que em 1903 se fundiu  com a A Paródia (1900-1902) de Rafael Bordalo Pinheiro, para além de ter colaborado em Ribaltas e Gambiarras, Jornal do Domingo, O Branco e Negro, A Imprensa, Serões, Revista do Conservatório Real de Lisboa e Revista de turismo.

Da sua participação política recorde-se que foi deputado do Partido Regenerador pelo Círculo da Guarda (1890 a 1892), participou no movimento do opositor ao Ultimatum de 1890, recusou a condecoração proposta pelo rei D. Carlos (1899) informando ser republicano, ministrou um curso de Ciências Naturais no Centro Escolar Republicano do Cartaxo (1907) e em em 1918, integrou  a embaixada de intelectuais enviada por Portugal ao Brasil.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do irmão de Florbela, o Tenente Espanca, no Bairro de Londres

A capa de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A 1ª página de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A Rua Tenente Espanca  no Bairro de Londres homenageia o irmão da poetisa Florbela Espanca, Apeles Espanca, que foi consagrado nas placas toponímicas de Lisboa no próprio ano da sua trágica morte a pilotar um avião que se despenhou no Tejo, afundando-se.

Apeles Espanca faleceu no dia 6 de junho de 1927 e 24 dias após a sua morte, em 30 de junho de 1927 a edilidade lisboeta deliberou atribuir o seu nome à Rua C do Bairro de Londres e assim foi fixado pelo Edital municipal de 7 de julho de 1927. A artéria escolhida atravessa a Avenida Santos Dumont, um pioneiro da aviação de nacionalidade brasileira que foi perpetuado em Lisboa ainda em vida, pelo Edital de 2 de abril de 1923. A artéria paralela à Rua Tenente Espanca, a Rua B do Bairro de Londres, veio a consagrar o 1º aviador civil português, 17 anos após a morte deste por despenhamento no Tejo, como  Rua Dom Luís de Noronha, pelo Edital de 1 de dezembro de 1930.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Apeles Demóstenes da Rocha Espanca (Vila Viçosa/10.03.1897 – 06.06.1927/Lisboa) frequentou o Liceu Nacional André Gouveia em Évora, onde no 1º centenário da Escola, em 1941, expuseram a sua pintura modernista. Fez os preparatórios para a Escola Naval em Coimbra e terminou o Curso da Escola Naval sendo então graduado Aspirante de Marinha em 19 de agosto de 1917. Alcançou o posto de 1º Tenente em 1926, ano em que navegou entre Portugal e o Brasil, bem como para o então Congo Belga (hoje, República Democrática do Congo). Em 1927 passou a frequentar o 2º curso de pilotagem do Centro de Aviação Naval de Lisboa com os Tenentes Aires de Sousa, Armando de Roboredo, Cardoso de Oliveira, Ferreira da Silva, Namorado Júnior e Paulo Viana.

Apeles Espanca foi também um pintor modernista, de óleos e aguarelas, cuja obra chegou a ser em parte publicada na revista Ilustração Portuguesa.

Morreu aos 30 anos, em 1927, quando  num num voo de treino para tirar o brevet de piloto-aviador, a bordo do hidroavião Hanriot 33, se despenhou no rio Tejo, afundando-se entre Porto Brandão e a Trafaria e sem nunca ter sido encontrado o seu corpo.

Florbela Espanca (também consagrada numa artéria lisboeta pelo Edital 19/07/1948) dedicou-lhe o livro Máscaras do Destino, que abre com o conto «O Aviador», escrito em fins de 1927 e publicado postumamente em 1931, bem como o soneto «In Memorian» , inserido em Charneca em Flor, também publicado em 1931:

In memoriam

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, “Il Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! — E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

 

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Actor João Rosa no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O ator João Rosa, foi o terceiro elemento de uma família ligada ao teatro a entrar na toponímia lisboeta, perpetuado na Rua nº 1 do Bairro dos Aliados ao Areeiro ou Quinta do Bacalhau, logo no início do ano de 1926, com a legenda «Artista dramático/ Século XIX».

Na sequência da deliberação camarária de 30 de dezembro de 1925 foi publicado o Edital municipal de 27 de janeiro de 1926 e João Rosa passou a integrar a toponímia de Lisboa, tal como o seu irmão  Augusto estava já consagrado  desde o Edital de 17/03/1924  na antiga Rua do Arco do Limoeiro, onde viveu e ainda antes, pelo edital de 18/11/1913, o pai de ambos, João Anastácio Rosa, na rua que ligava a Avenida Álvares Cabral com a Rua de São Bernardo.

Só seis anos mais tarde, o Edital de 31/03/1932 pegou nos arruamentos do projeto aprovado em sessão de 07/04/1928 para atribuir os topónimos que originariam o Bairro dos Atores, a saber, a Rua Actor Isidoro, a Rua Actriz Virgínia, a Rua Lucinda do Carmo, bem como a Rua Actor Epifânio e a Rua Rui Chianca (que nunca foi executada neste local) e ainda a Alameda Dom Afonso Henriques e a Avenida D. João I (também não executada).

Branco e Negro, 21 de junho de 1896

Branco e Negro, 21 de junho de 1896

Filho mais velho do ator João Anástacio Rosa, João Anastácio Rosa Junior (Lisboa/18.04. 1842 – 15.03.1910/Lisboa) apesar de ter frequentado o curso de Pintura da Academia de Belas Artes decidiu ser um ator e assim se estreou no Porto em 1862, ao lado do pai, na peça Jóias de Família de César de Lacerda. Em Lisboa, subiu ao palco pela primeira vez  no São Carlos em 1863, no espetáculo Ricardo III, no papel de Scroop. Com o seu irmão Augusto e Eduardo Brazão fundou a Companhia Rosas & Brazão que dirigiu o Teatro D. Maria II durante 18 anos e onde foi uma das principais figuras, começando a 31 de outubro de 1863, na peça Sabina Maupin . Em Lisboa apresentou-se ainda no Teatro do Ginásio (1872 – 1874), no Teatro da Trindade (de 1874 a 1875), no Teatro Variedades (em 1875), no Teatro do Príncipe Real (de 1875 a 1876), regressou ao D. Maria II (1876 a 1898) e finalmente, de 1898 a 1906, terminando aos 63 anos a interpretar A Ceia dos Cardeais de Júlio Dantas numa récita em benefício do irmão.

Foi ainda professor de Declamação no Conservatório Nacional, a partir do ano letivo de 1885/1886 e pelo menos até ao ano de 1891/1892, onde patenteou a sua vasta cultura e os seus profundos conhecimentos de teatro antigo e moderno.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vassalo herói Egas Moniz no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Notável e Leal Guerreiro/Século XII» foi Egas Moniz inscrito na Rua nº 2 do Bairro dos Aliados ao Areeiro ou Quinta do Bacalhau, por deliberação camarária de 30/12/1925  e Edital de 16 de janeiro de 1926.

O próprio Edital justifica a atribuição «(…)tendo em consideração que na formação da nacionalidade foram praticados por alguns portugueses actos de tanta grandeza moral, que são e continuarão a ser o legitimo orgulho da nossa raça; que entre todos se destaca, pela beleza do gesto, o acto praticado por Egas Moniz, indo junto do Rei de Leão oferecer a sua vida e da sua esposa e filhos, como resgate da promessa que o seu grande patriotismo não lhe deixava cumprir (…) e que o nome de tão grande vulto, esquecido nas paginas da Historia, bem merece ser exposto numa das arterias da cidade à admiração das gerações presentes e futuras(…)».

A Alameda Dom Afonso Henriques nascerá seis anos mais tarde, em 1932, nas proximidades da Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Egas Moniz de Riba Douro  (1080?-1146), rico-homem de uma das grandes famílias do Entre Douro e Minho, foi a quem Henrique de Borgonha confiou a educação do seu filho Afonso Henriques, que viria a ser o 1º Rei de Portugal.

Numa época em que os laços de parentesco e os laços de vassalagem faziam da fidelidade pessoal o mais sagrado princípio da vida social e política, eram importantes as histórias exemplares, como a de Egas Moniz enquanto modelo heróico do vassalo, que terá sido difundida provavelmente durante o reinado de D. Afonso III, porque nessa altura os monges de Paço de Sousa, onde estava o túmulo de Egas Moniz, mandaram fazer outra sepultura com novos baixos-relevos que já representavam a jornada do herói a Toledo para se oferecer como vítima ao imperador.

Segundo a lenda, quando em 1127 o rei de Leão, Afonso VII, veio cercar o seu primo D. Afonso Henriques na cidade de Guimarães, com forças muito superiores, reconheceram os cavaleiros portugueses que o seu rei não poderia resistir-lhe. Foram por isso ter com o rei de Leão, e pediram-lhe que levantasse o cerco, prometendo que D. Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem e por essa promessa ficou responsável Egas Moniz. Como se sabe D. Afonso Henriques não cumpriu a promessa, nomeadamente invadindo a Galiza e saindo vitorioso, e voltando à lenda foi Egas Moniz  a Toledo, acompanhado pela sua esposa e seus dois filhos, todos com uma corda ao pescoço, oferecer as suas próprias vidas ao rei de Leão, o que fez com que Afonso VII lhe perdoasse.

Certo é que Egas Moniz casou por duas vezes, tendo tido 7 filhos e 2 filhas,  e cerca de 1135 sucedeu ao seu irmão Ermígio Moniz como mordomo-mor, o cargo mais importante junto do rei e ainda recebeu deste enormes doações em terra, ficando possuidor de 21 domínios e de cavaleiros vassalos ao seu serviço.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do republicano João de Menezes

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

João de Menezes, deputado e ministro da República, deu nome à Rua 4 do Bairro dos Aliados em 1926, com a legenda «Precursor do Regime Republicano/Século XIX» devido ao seu envolvimento no 31 de Janeiro.

Foi pela deliberação da Comissão Executiva da Câmara de 12 de junho de 1926  e Edital municipal de dia 26 do mesmo mês que assim foi fixado, junto com a Rua Casimiro Freire na Rua 5, com a legenda «Apóstolo da instrução popular/Século XIX». Já antes, por deliberação camarária de 30 de dezembro de 1925 e Editais de 16 de janeiro e de 27 de janeiro de 1926 haviam sido colocados no Bairro dos Aliados Egas Moniz  na Rua 2 e o Actor João Rosa na Rua 1.

João de Menezes em 1900

João de Menezes em 1900

João Duarte de Menezes (Lisboa/22.04.1868 – 08.04.1918/Lisboa), formou-se em Direito na Universidade de Coimbra entre 1886 e 1895 e foi advogado em Lisboa e Porto, jornalista e deputado, sendo  desde 1881 um dos vultos importantes do partido republicano. Manifestou-se contra o Ultimato inglês, nas páginas do jornal A Pátria e participou no 31 de Janeiro, no Porto, tendo mesmo por causa dos seus ideais políticos sido preso por três meses no Limoeiro, em Lisboa. Pertenceu ainda à Maçonaria, iniciado em 1892 na loja Simpatia, com o nome de Oberdank.

Colaborou em vários jornais republicanos, como nos periódicos portuenses Voz Pública (de 1896 a 1899) e O Norte, que fundou em 1900.  Em 1903 fundou em Lisboa O Debate e foi secretário da redação do  A Luta (1910), dirigido por Brito Camacho. Foi eleito deputado  em 1906, 1908, 1910 e 1911 bem como Diretor-geral da instrução secundária em 1910 e 1911, para além de ter sido Ministro da Marinha (3 de setembro a 12 de novembro de 1911) no governo de João Chagas e em 1914, presidente do Supremo Tribunal Administrativo.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Tomás Cabreira

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Cabreira que foi vereador na 1ª gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa e  ministro das Finanças em 1914 ficou perpetuado no Bairro da Bélgica, pelo Edital municipal de 30 de junho de 1926, com a legenda «Engenheiro Distinto e Republicano Indefectível».

Foi por esse Edital municipal que nasceu há 90 anos o Bairro da Bélgica, hoje mais conhecido como Rego ou Bairro de Santos. Coube a Tomás Cabreira a Rua B do Bairro da Bélgica, entre a Avenida Santos Dumont e a Rua Particular Neves Piedade que viria a ser a Rua Filipe da Mata no ano seguinte, pelo Edital de  6 de agosto de 1927, perpetuando outro vereador da primeira vereação republicana da CML. A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica havia sugerido à autarquia lisboeta, em 10 de maio de 1926,  que fossem atribuídos nos arruamentos do Bairro nomes alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do já sucedido no Bairro de Inglaterra em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 fixou o Cardeal Mercier na Rua E do Bairro do Bélgica ( o arcebispo e primaz da Bélgica que publicou em 1915 uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) e o general Leman na Rua D (militar que defendeu Liége contra o invasor alemão e acabou prisioneiro de guerra), e nas restantes artérias colocou ainda o Presidente da CML de 1923 a 1925 (Albano Augusto Portugal Durão) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, sendo que neste local da cidade estas duas últimas nunca passaram do papel.

Alma Nova, março de 1929

Alma Nova, março de 1929

Tomás António da Guarda Cabreira ( Tavira/23.01.1865 – 04.12.1918/Tavira) foi militar, engenheiro, professor e político. Como seu pai, ingressou no Exército, em 1881, e atingiu o posto de Coronel em 1918. Formou-se também em Engenharia Civil pela Escola do Exército, em 1893, e a partir daí passou a docente das disciplinas de Química Mineral e de Química Orgânica na Escola Politécnica, tendo até publicado Princípios de Estereoquímica (1896) e feito doutoramento em 1916. Foi ainda vogal da Comissão de Explosivos e vogal da Academia de Ciências de Lisboa, tendo ainda, em 1907, fundado a Universidade Popular de Lisboa.

Enquanto político, Tomás Cabreira, republicano e maçónico, fundou o Grupo Republicano de Estudos Sociais,  deputado pelo Algarve na Assembleia Nacional Constituinte (1911), senador da República (1912) e ministro das Finanças (1914), época em que deu a lume A Contribuição Predial e O Problema Financeiro e a sua Solução (ambos em 1912). Destaque-se que foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa de 1909 a 1912, na Presidência de Anselmo Braamcamp Freire, tendo como colegas vereadores outros nomes presentes na toponímia de Lisboa como Augusto José Vieira, Barros Queirós, Francisco Grandela ou Miguel Ventura Terra.

Depois de 1914 abandonou a carreira política e o Partido Democrático, de que era dirigente, e fundou a União da Agricultura, Comércio e Indústria, onde exerceu os cargos de vice-presidente e de presidente e ainda editou Posto Agrário e Ensino Móvel (1915), Crédito Comercial e Industrial (1915), O Problema Tributário Português (1916-1917), A Defesa Económica Portuguesa (1917), O Algarve Económico (1918) e postumamente, A Política Agrícola Nacional (1920).

Esteve também ligado ao jornalismo por diversos cargos na Associação dos Jornalistas de Lisboa e na Associação da Imprensa Portuguesa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Luís Filipe da Mata

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Paladino da Liberdade e da Instrução Popular/Século XIX» foi Luís Filipe da Mata inscrito na toponímia do Bairro da Bélgica, por deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e Edital de 6 de agosto do ano seguinte, na  Rua Particular Neves Piedade ao Bairro da Bélgica, antes também conhecida apenas por Rua Neves Piedade.

De acordo com documentação do Arquivo Municipal de Lisboa esta rua foi traçada em 1912 por José da Silva Moura, prevendo-se uma largura de 15 metros e corrend0 da Estrada das Laranjeiras até à Estrada de Palma de Cima, no Rego, junto aos apeadeiros dos Caminhos de Ferro. Também outro vereador da primeira gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa, Tomás Cabreira, deu nome a uma artéria do Bairro da Bélgica, por via da publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

 

Luís Filipe da Mata sentado no centro (Foto: Bernardino Machado, de Miguel Sá-Marques)

Luís Filipe da Mata ao centro, sentado
(Foto: gentil cedência do blogue Bernardino Machado)

O homenageado na Rua Filipe da Mata é Luís Filipe da Matta (Lisboa/15.08.1853 – 25.10.1924/Lisboa),  um comerciante, funcionário público e promotor da educação laica que foi também Vereador da primeira gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa, de 1 de novembro de 1908 a 29 de janeiro de 1913, quando era Anselmo Braamcamp Freire Vice-Presidente e depois Presidente da edilidade. Coube-lhe ainda ser o promotor do primeiro Congresso Municipalista de Lisboa, que se realizou nos Paços do Concelho, entre 16 e 21 de abril de 1909, contando com a presença de 158 câmaras municipais.

Filipe da Mata defendeu e promoveu o ensino laico, apoiando a criação de várias escolas primárias públicas, nomeadamente, integrando o grupo fundador da Escola-Oficina nº 1 (1905), no Largo da Graça, onde se aplicaram  novas metodologias pedagógicas inspiradas  no Movimento da Escola Livre e na Escola Moderna de Francisco Ferrer; colaborando no desenvolvimento do Asilo de São João e  sendo vice-presidente do Vintém das Escolas.

Também enquanto comerciante envolveu-se no associativismo como membro da direção das Associações Comercial de Lisboa e Comercial dos Lojistas de Lisboa, bem como da comissão instaladora da nova Associação dos Lojistas em 1907,  para além de ter integrado a comissão de reforma das alfândegas e a comissão revisora das pautas aduaneiras. Foi ainda  vice-presidente da comissão executiva do monumento ao Marquês de Pombal tendo até na ocasião publicado um livro de sonetos anti-jesuíticos, que intitulou A Canalha (1899), cuja venda revertia para a execução do monumento.

Iniciado no Grande Oriente Lusitano em 1880, na Loja Tolerância de Lisboa, e a partir de 1897 na Loja José Estêvão, Filipe da Mata foi Presidente do Conselho da Ordem em 1895-1899, 1903-1906 e 1916-1917. Ao longo da sua vida também desempenhou cargos no Partido Republicano como representante dos republicanos nos corpos gerentes da Coligação Liberal, na comissão que promoveu a grande manifestação liberal de 2 de julho de 1907, como tesoureiro da Junta Liberal, tesoureiro da Comissão Administrativa do Diretório do Partido Republicano e seu Secretário eleito em diversos Congressos, deputado de 1913 a 1915 e senador ao Congresso da República em 1915-1917. Após a implantação da República, Filipe da Mata  foi  ainda vogal suplente do Conselho Superior de Administração Financeira do Estado (após 20 de abril de 1911), Provedor da Assistência de Lisboa (1913 -1915), presidente da Comissão de Subsistências do Ministério do Fomento (16 de janeiro de 1915 a 12 de fevereiro de 1915) e durante o Sidonismo foi preso.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Presidente da CML, Portugal Durão, no Bairro da Bélgica

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Albano Augusto Portugal Durão,  o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1923 a 1925, passou a ser o topónimo das Ruas C e G do Bairro da Bélgica, com a legenda «Insigne Colonial/1871 – 1925», desde a publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica sugeriu à autarquia lisboeta em 10 de maio de 1926  que fossem atribuídos nos arruamentos do seu Bairro topónimos alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do sucedido dez anos antes no Bairro de Inglaterra, em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 aí fixou os belgas Cardeal Mercier (arcebispo primaz da Bélgica que em 1915 publicou uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) – na Rua E do Bairro do Bélgica –  e General Leman (heróico defensor de Liège) – na Rua D – , colocando nas restantes artérias Tomás Cabreira (republicano que foi ministro das Finanças em 1914), o então último Presidente da CML  (Albano Augusto Portugal Durão que presidiu à edilidade de 1923 a 1925) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, que neste local nunca passaram do papel.

Cerca de 6 anos mais tarde, pelo Edital camarário de 12/03/1932, foi dado à Rua A o nome Rua Dr. Álvaro de Castro, em homenagem àquele que comandara o Corpo Expedicionário Português a partir de 1916 e se demitira aquando da vitória de Sidónio Pais.

Rua Portugal Durão Albano

Albano Augusto Portugal Durão (Sertã/22.03.1871 – 13.11.1925/Lisboa) assentou praça na Marinha  em 1887 e em 1918, já era capitão-tenente. No decurso da sua vida militar, participou em campanhas em terras de África, como  o reconhecimento dos territórios de Milange, Namulia e Lomue, bem como desempenhou cargos civis de relevo, como o de administrador dos Transportes Marítimos do Estado e da Companhia da Zambézia, para além de diretor de Minas em Tete (Moçambique), e ainda, como membro do Conselho Fiscal do Banco Industrial Português.

Republicano membro do Partido Democrático, iniciou-se na política como ministro da Agricultura de Bernardino Machado, em 1921, sendo exonerado a seu pedido em 19 de maio. No ano seguinte foi eleito deputado por Lisboa, funções que exerceu até 1925, e sendo também Ministro de António Maria da Silva nos seus 2º e 3º governos, na pasta das Finanças ( de 6 de fevereiro a 26 de agosto de 1922, por ter pedido a demissão ) e depois, na dos Negócios Estrangeiros, entre 1 de julho e 1 de agosto de 1925. Portugal Durão foi também Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no período de 5 de abril de 1923 até à sua morte em 13 de novembro de 1925.

Ainda no âmbito da participação de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal Durão foi vogal da Comissão Executiva da Conferência da Paz e foi agraciado com a comenda da ordem Militar de Avis (1919).

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da família de navegadores de apelido Corte Real

Freguesia de São Vicente (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Rua Washington à Rua Franklim foi atribuída a Rua dos Cortes Reais, à Rua 5 do Bairro América, na época uma nova urbanização erguida na antiga Quinta das Marcelinas à Rua do Vale de Santo António, por deliberação camarária de 25 de novembro de 1918 e Edital municipal de 17 de outubro de 1924,

De igual forma foram preenchidas as restantes artérias do Bairro América com topónimos relacionados com o continente americano, quer com figuras republicanas de prestígio quer com portugueses considerados heróis pelas explorações que os levaram a esse continente: «Que se denomine Bairro America, o bairro em construção na Quinta das Marcelinas na rua do Vale de Santo Antonio e que os respectivos arruamentos tenham as designações seguintes: o nº 1, rua Franklin [Benjamin Franklin, estadista norte-americano fulcral na independência das 13 colónias inglesas para a construção dos estados americanos]; o nº 2, rua Washington [ o primeiro presidente dos Estados Unidos da América]; o nº3, rua Ruy Barbosa [político e jornalista brasileiro que defendia o princípio da igualdade das nações]; o nº 4, rua Bolivar [Simon Bolívar que combateu o domínio espanhol na América do Sul, comandando as revoluções que promoveram a independência da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia]; a nº 5, rua do Costa Reais [refere-se à Rua dos Cortes Reais, família de navegadores portugueses que empreenderam navegações para o continente americano]; o nº 6, rua Fernão de Magalhães [o primeiro navegador a fazer uma viagem de circum-navegação], e o nº7, rua Alvaro Fagundes[navegador português do século XVI que explorou a costa austral da Terra Nova]. Deliberação camararia de 25 de Novembro de 1918».

Tendo havido um engano no nome desta artéria aquando da publicação do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 foi o mesmo corrigido pelo Edital de 2 de dezembro de 1927 especificando que «onde se lê ‘Rua de Costas Reais’, deve lêr-se ‘Rua dos Côrtes Reais’».

A Rua dos Cortes Reais em 1969 (Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Cortes Reais em 1969
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Vasco Anes da Costa, cavaleiro honrado de Tavira e contemporâneo do rei D. João I teve nos seus filhos a origem dos primeiros Corte Real, família distinta de navegadores dos séculos XV e XVI.

O seu filho João Vaz Corte-Real (Faro/c. 1420 – 1496/Angra do Heroísmo) ligou o seu nome ao descobrimento da Terra Nova, cerca do ano de 1472, o que o colocaria a desembarcar cerca de vinte anos antes de Colombo nas costas da América do Norte. Organizou ainda outras viagens que o terão levado até à costa da América do Norte, explorando desde as margens do Rio Hudson e São Lourenço até ao Canadá e Península do Labrador. Em 1474 foi nomeado capitão donatário de Angra do Heroísmo, cargo que acumulou com o da Ilha de S. Jorge, a partir de 1483.

Depois, três dos seus filhos com Maria da Barca – Gaspar Corte-Real, Miguel Corte-Real e Vasco Anes Corte-Real – continuaram o seu espírito de aventura tendo os dois primeiros desaparecido no seguimento de expedições marítimas, entre 1500 e 1502. Gaspar fez em 1500 a sua primeira viagem à Terra Nova, então chamada Terra Nova dos Bacalhaus ou Terra dos Corte-Reais e partiu  numa segunda expedição ao Continente Americano em 1501 e desapareceu. O irmão Miguel (nasceu cerca de 1450), partiu em 1502 em busca dele e também nunca mais foi visto.  O seu desaparecimento deu origem a pesquisas e teses controversas, como a do seu naufrágio nas costas da Nova Inglaterra, onde teria encontrado as populações índias e gravado em latim a epígrafe da  Pedra de Dighton em 1511, com escudos em V e cruzes idênticas às das caravelas portuguesa e os dizeres MIGUEL CORTEREAL pela vontade de DEUS aqui CHEFE dos ÍNDios 1511. O irmão Vasco Anes Corte Real (nasceu em   1465) foi proibido pelo rei D. Manuel  de procurar os irmãos, herdando os cargos do seu pai: alcaide-mor de Tavira e capitão da ilha de São Jorge.

João Vaz Corte-Real teve ainda as filhas Iria Corte Real ( nasceu em 1440), Joana Vaz Corte Real (nasceu em 1465 como o irmão Vasco), Isabel Corte Real e um outro filho, Lourenço Vaz Corte Real.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias)