A Rua Gervásio Lobato do humor de «Lisboa em Camisa»

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A memória do alfacinha autor de Lisboa em Camisa, célebre na cidade-capital oitocentista pelo riso que provocava, está desde 1932 numa artéria de  Campo de Ourique através da Rua Gervásio Lobato, que liga a Estrada dos Prazeres à Rua Freitas Gazul, vizinha do lado do arruamento de outro nome do humor em palco que é a Rua André Brun, ambos topónimos saídos do mesmo Edital municipal de 12 de março  de 1932, cabendo a Gervásio a Rua Particular nº 1 aos Prazeres  e a André a Rua Particular nº 2 aos Prazeres.

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De seu nome completo Gervásio Jorge Gonçalves Lobato (Lisboa/23.04.1850 – 26.05.1895) ficou muito conhecido no seu tempo, pelas plateias do Teatro Ginásio e pelo acontecimento que foi para a comédia oitocentista o seu Lisboa em Camisa, publicado  primeiro em folhetim de jornal – no jornal O Progresso (de 11 de novembro de 1880 a 1 de março de 1881) e depois, no jornal O Fígaro (de 5 de fevereiro a 28 de maio de 1882)- e só depois em livro, publicado em 1882 pela Empreza Litteraria de Lisboa, no qual fazia humor com os  ridículos e manias da pequena e média burguesia lisboeta do fim do século que circulava pelas ruas do Chiado e da Baixa.

Contudo, Gervásio Lobato também trabalhou com afinco como funcionário público, jornalista e professor de Declamação na Escola Dramática do Conservatório de Lisboa. Gervásio Lobato concluíra o Curso Superior de Letras e a cadeira de Direito Internacional na Escola Naval com o intuito de seguir a carreira diplomática mas a sua vocação era o jornalismo e permaneceu em Lisboa, tanto mais que  aos 15 anos já havia fundado com alguns condiscípulos um jornal literário, A Voz Académica. Garantia a base do seu sustento como segundo oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino mas com Pinheiro Chagas fundou o Diário da Manhã – antes era A Discussão e foi depois Correio da Manhã-, onde se distinguiu como folhetinista, género muito em voga na época, tendo sido A Comédia de Lisboa o título do primeiro que publicou, em 1878, ainda com o pseudónimo Gilberto.

Ao longo da vida colaborou em inúmeros periódicos  como Braz TizanaCorreio da NoiteDiário IlustradoDiário de NotíciasGazeta de Portugal, Gazeta Literária, A Illustração PortuguesaRecreioRibaltas e GambiarrasO Século, A Semana de Lisboa, para além de ter dirigido a revista O Occidente, ou fundado com Teixeira de Vasconcelos e outros o Jornal da Noite, assim como O Contemporâneo com Salvador Marques e Sousa Bastos.

Como escritor,  Gervásio Lobato construiu-se como aquele que nas suas obras retratava a vida na capital portuguesa nessa época, destacando-se Lisboa em Camisa, que o realizador Herlander Peyroteo adaptou para uma série de televisão, com 15 episódios, em 1960. A sua fama cresceu por ser o dramaturgo de comédias que agradavam ao público do Teatro do Ginásio- o nascido  Theatro do Gymnasio, em 1846, na Rua Nova da Trindade-, no qual iam surgindo ano após ano, interpretadas por grandes valores como o ator Vale. Também foi um grande êxito O Comissário de Polícia em exibição em 1890, oferecendo o Teatro Ginásio ao público um cartaz da peça da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro e que foi adaptada ao cinema pela Invicta Films (em 1914) e por Constantino Esteves (em 1953). Foi até na representação de O Festim de Baltasar (1892), com fins caritativos, no São Carlos, que Gervásio Lobato foi agraciado pelo Rei com o oficialato da Ordem de Santiago.

A sua primeira comédia foi o O Rapto de um Noivo, em 1 acto, feita com Maximiliano de Azevedo, que subiu à cena no Teatro Dona Maria II. Seguiram-se em 1873, já para o Ginásio, Debaixo da Máscara e também No Campo. Depois, foram inúmeras peças originais suas, adaptações ou traduções que encheram os palcos portugueses do último quartel do séc. XIX, contabilizando Luiz Francisco Rebello 25 peças originais e 115 traduções e imitações, em pouco mais de 20 anos, como Sua Excelência (1884) ou As Noivas do Eneias (1892), para além de operetas como Cocó , Ranheta e Facada. Também publicou novelas e romances de que salientamos A Primeira Confessada (1881), Os Invisíveis de Lisboa (1886-1887) que teve êxito também no Brasil, Os Mistérios do Porto (1890-1891) ou O Grande Circo (1893).

Na sua vida particular, casou com Maria das Dores Pereira d’Eça Albuquerque, de quem teve filhas e residiu durante muitos anos na Travessa do Convento das Bernardas, na Madragoa, assim como na Travessa do Pombal, que em 29/12/1880 passou a ser a Rua da Imprensa Nacional. Faleceu aos 45 anos, na sua casa na Rua das Amoreiras, nº 102.

Gervásio Lobato está também presente na toponímia dos concelhos de Almada (Charneca da Caparica), Seixal (Arrentela)e Sintra (Massamá).

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Delfim de Brito Guimarães, o escritor e editor da Guimarães Editores

Freguesia de Campolide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O escritor e editor Delfim de Brito Guimarães está como topónimo de uma rua Campolide desde 1995, passados 62 anos sobre a sua morte, tendo a edilidade seguido a proposta da Casa do Concelho de Ponte Lima, já que o homenageado se afirmava limiano de afeição.

A Casa do Concelho de Ponte Lima solicitou que o nome de Delfim Guimarães, filho de um limiano e que muito tempo viveu nela, fosse atribuído a um arruamento de Campolide, nas imediações da sua sede, proposta com que a Câmara Municipal de Lisboa concordou e assim atribuiu a Rua Delfim de Brito Guimarães ao troço da Rua A à Avenida José Malhoa, compreendido entre a Rua Basílio Teles e a Avenida José Malhoa, pelo Edital municipal de 17 de fevereiro de 1995.

Na Ilustração Portuguesa de 17 de janeiro de 1910

Delfim de Brito Monteiro Guimarães (Porto/04.08.1872 – 06.07.1933/Amadora), nascido na Rua do Bonjardim nº 184 como terceiro dos seis filhos do limiano, comerciante e jornalista Delfim José Monteiro Guimarães Júnior e de Maria Júlia Moreira de Brito Barreiros, foi um poeta, novelista, dramaturgo, crítico, tradutor,  investigador literário, e o fundador com Libânio da Silva, em 1899, da Livraria-Editora Guimarães Editores na Rua da Misericórdia, que assim começou por designar-se Guimarães, Libânio e C.ª.

Com dezoito anos, em 1890, veio para Lisboa, acompanhando a mudança da família, e começou a trabalhar como guarda-livros – hoje diríamos contabilista-,  n’ O Século e aí se manteve dez anos mas foi obrigado a retirar-se por à Administração desagradar a sua atividade literária. Fundou então a Guimarães Editores que grande serviço prestou à cultura portuguesa, nomeadamente pelos autores estrangeiros que trouxe aos portugueses em cuidadas traduções, construindo uma chancela que ainda hoje existe integrada no grupo Babel.

Lançou-se como escritor em 1893, com poemas em Alma Dorida, Poemas em Prosa dedicado à sua mãe, bem como com Lisboa Negra, versos que dedicou à Capital e à sua difícil adaptação a ela. No ano seguinte, por morte do pai, heróico soldado liberal, jornalista e editor de Alberto Pimentel, administrou e reorganizou a revista Mala da Europa, para mais tarde ter a sua Arquivo Literário, de 1922 a 1928.

Publicou ainda, entre outros, a poesia de Confidências (1894) e Evangelho (1895), Sonho Garrettiano” (1899), o poema inspirado em ambientes medievais e de cariz romântico intitulado A Virgem do Castelo (1901), a peça escrita com D. João da Câmara Aldeia na Corte (1901), a comédia Juramento Sagrado (1902), bem como Outonais  (1903), o romance O Rosquedo: scenas da vida da província – Ponte do Lima – Minho (1904),  o livro de contos Ares do Minho (1908), A Alma  Portuguesa (1913), O Livro do Bebé (1917) ilustrado por Raquel Roque Gameiro, Aos Soldados Sem Nome (1921), Asas de Portugal (1922), A Paixão de  Soror Mariana (1926) ou a peça em um ato em verso Sol da nossa terra (1932).

Chegou a usar o pseudónimo Castro Monteiro para as publicações literárias e como investigador e crítico literário, foi inovador e polémico. Desde «A Viagem por Terra do Sr. João Penha» (1892), passando por  Saudades: história de menina e moça (1905), até quando escreveu sobre os poetas limianos Diogo Bernardes e Agostinho Pimenta, tendo-se confrontado com o seu amigo João Gomes d’Abreu sobre o primeiro ou quando publicou Trovas de Crisfal, de Bernardim Ribeiro (1908) que o fez entrar em polémica com Teófilo Braga.  Também evocou os os poetas limianos da sua eleição, sobretudo Diogo Bernardes, Frei Agostinho da Cruz e António Feijó em Ponte de Lima – Minha Avozinha.

Como tradutor produziu Flores do mal: interpretação em verso de poesias de Carlos Baudelaire (1909), parte da  Graziella de Lamartine, A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho e o Romance duma rapariga russa de Henry Gréville.

Politicamente, Delfim Guimarães era de filiação republicana e maçónica, tendo participado no debate das cores e dos símbolos da bandeira nacional. No início do século XX, foi Administrador do Concelho de Ponte de Lima e depois de se fixar na Amadora foi um dos principais impulsionadores da Liga dos Melhoramentos da Amadora.

Na sua vida particular, casou em 1895,  aos 23 anos, com Rosina Vieira da Cruz e foi pai de oito filhos, tendo sepultou uma sua filha, precocemente falecida, no cemitério de Ponte de Lima.

Foi feito Cavaleiro (1908) e Comendador (1919) da Ordem de Santiago da Espada  e retratado em carvões de Carlos Reis e de Veloso Salgado, aguarelas de Alfredo Morais e de Roque Gameiro, e ainda em caricaturas de Francisco Valença e de Sebastião Sanhudo. Para além de Lisboa, Delfim de Brito Guimarães está também na toponímia da Amadora ( Parque Delfim Guimarães, atribuído em 1937), no Porto e em Ponte de Lima.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua José Gomes Ferreira para quem está espantado de existir

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Aquele que no seu Panfleto Mágico ousou avisar  «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir» – o escritor José Gomes Ferreira -, desde o próprio ano da sua morte que está perpetuado na artéria de Campo de Ourique que liga a  Rua Joshua Benoliel à Avenida Engº Duarte Pacheco.

Falecido a 8 de fevereiro de 1985, José Gomes Ferreira, diplomata, compositor, escritor e poeta recebeu três dias depois da sua morte uma deliberação da edilidade alfacinha para ser um topónimo lisboeta, sendo fixado pelo Edital de dia 21 desse mês no arruamento construído no prolongamento da Rua D. João V, entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Engº Duarte Pacheco, também identificado como Rua A da Urbanização das Amoreiras.

José Gomes Ferreira (Porto/09.06.1900-08.02.1985/Lisboa), nasceu na portuense Rua das Musas, filho do empresário e benemérito Alexandre Ferreira, que chegou a ser vereador republicano na Câmara lisboeta na Primeira República, veio morar para Lisboa aos 4 anos de idade. O seu pai estabeleceu-se no Lumiar e foi quem doou as suas propriedades para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio. José estudou nos liceus Camões e Gil Vicente e também se dedicou a ser compositor, chegando a ter a sua obra Idílio Rústico estreada pela orquestra de David de Sousa, no Politeama. Em 1919 integrou o Batalhão Académico Republicano e depois de licenciado em Direito em 1924 seguiu carreira como Cônsul de Portugal na Noruega,  em Kristiansund, até 1930.

De regresso a Lisboa colaborou em inúmeras publicações como a Presença, a Seara NovaDescobrimentoGazeta Musical e de Todas as Artes, Imagem,  Ilustração Senhor Doutor,  para além de sob o pseudónimo de  Álvaro Gomes ter traduzido filmes. Em 1945-1946, colaborou com outros poetas neorrealistas no álbum das Heróicas compostas por Fernando Lopes Graça, sendo sua a letra de «Jornada».

Para a sua carreira literária é um marco o dia 8 de maio de 1931 em que de rajada escreveu o poema «Viver sempre também cansa», que João Gaspar Simões fez publicar logo na Presença. Já antes, na juventude, editara os livros de poesia  Lírios do Monte (1919) e Longe (1921) mas foi depois de 1931 que se dedicou ao ofício de ser escritor.  Na escrita poética salientamos do que deu a lume Poesia I (1948), Poesia III (1961) que foi Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, Poesia V (1973), Poeta Militante I, II e III (1978) com prefácio de Mário Dionísio.Também gravou discos com a sua poesia: Poesia (1969) e Poesia IV (1971) na Philips, Poesia V (1973) na Decca / Valentim de Carvalho e Entrevista 12 – José Gomes Ferreira (1973) na Guilda da Música/Sassetti.

Na prosa, José Gomes Ferreira publicou entre outros, O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens (1950), O Mundo Desabitado (1960),  Os segredos de Lisboa (1962), o panfleto mágico As Aventuras de João Sem Medo (1963) do Plano Nacional de Leitura, os contos Tempo Escandinavo (1969), O Irreal Quotidiano – histórias e invenções (1971), Gaveta de Nuvens – tarefas e tentames literários (1975), O sabor das Trevas – Romance-alegoria (1976), as crónicas Intervenção Sonâmbula (1977), Coleccionador de Absurdos (1978), Caprichos Teatrais (1978) e O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial (1980).  Somou ainda livros de memórias como A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim (1965) que recebeu o Prémio da Casa da Imprensa, Imitação dos Dias – Diário Inventado (1966), Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II (1980), Passos Efémeros – Dias Comuns I (1990) ou Dias Comuns – Derrota Pairante (2018).

Como cidadão exerceu funções de Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores em 1978 e no ano seguinte,  nas eleições legislativas intercalares, foi candidato da APU- Aliança Povo Unido pelo círculo de Lisboa e no ano de 1980 tornou-se militante do PCP. Nesta cidade, ficou ligado à Rua Heliodoro Salgado assim como às suas moradas na Rua Marquês de Fronteira e na Avenida Rio de Janeiro e na sua vida pessoal, foi pai do arquiteto Raul Hestnes Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Em 1978 foi agraciado com a atribuição do seu nome à Escola Secundária de Benfica projectada pelo seu filho arquiteto e a CML colocou uma placa evocativa no prédio da sua última morada em 1990, deu o seu nome dado à Mata de Alvalade e no ano do centenário do seu nascimento, através da Videoteca produziu o documentário Um Homem do Tamanho do Século. José Gomes Ferreira recebeu também o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981) e da Ordem da Liberdade (1985), a distinção de cidadão de mérito de Odemira (1981) e o seu nome consta também da toponímia dos concelhos do Porto, Almada (Charneca da Caparica, Laranjeiro), Amadora (Reboleira), Barreiro (Lavradio, Santo António da Charneca), Beja, Benavente (Samora Correia), Braga, Cascais (São Domingos de Rana), Coimbra, Entroncamento, Gondomar (Baguim do Monte), Évora, Loures (Santo Antão do Tojal, São João da Talha, Unhos), Moita (Alhos Vedros, Baixa da Banheira, Moita, Vale da Amoreira), Montemor-o-Novo, Montijo, Odivelas (Famões, Póvoa de Santo Adrião), Oeiras (Algés), Portimão, Seixal (Arrentela, Corroios), Sesimbra, Setúbal, Sintra (Agualva-Cacém, Mem Martins), Trofa, Vila Franca de Xira ( Forte da Casa, Póvoa de Santa Iria) e Vila Nova de Gaia.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O seu poema escrito na noite de 8 de maio de 1931 foi:

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

 

A Rua de Nuno Bragança de «A Noite e o Riso» e de «Os Verdes Anos»

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Nuno de Bragança, o autor de A Noite e o Riso e argumentista de Os Verdes Anos,  desde 1986 é o topónimo de um arruamento de Belém, na sequência da Proposta nº 34/85, aprovada por maioria na reunião da Câmara de 11 de fevereiro de 1985, quatro dias após a morte do escritor que estava quase a completar 56 anos de idade.

Depois, o Edital municipal de 3 de novembro de 1986 determinou que fosse a Rua A à Rua Tristão Vaz a ser a Rua Nuno Bragança, em Belém, e Alexandre O’Neill também ficou como topónimo de uma artéria de Alcântara por este mesmo Edital.

Nuno Bragança (Lisboa/12.02.1929 – 07.02.1985/Lisboa),  foi o autor de 3 livros fundamentais pela sua linguagem inovadora: A Noite e o Riso (1969), Directa (1977) e Square Tolstoi (1981), que traçam um olhar violento mas cheio de amor pela procura da liberdade e pelas pessoas. São ainda obras suas o livro de contos Estação (1984) e o póstumo Do Fim do Mundo (1990) , tornando-o um escritor de culto, que a si próprio se qualificava como um prático de escrever, com uma obra literária reduzida em número mas relevante em originalidade e qualidade.

De seu nome completo Nuno Manuel Maria Caupers de Bragança,  frequentou Agronomia mas foi Direito o curso que concluiu em 1957, ainda no Palácio Valmor, no Campo dos Mártires da Pátria. Em paralelo, era praticante de boxe e pioneiro de caça submarina em Portugal, tendo sido cofundador do Centro Português de Actividades Subaquáticas. Também publicou os seus primeiros textos literários no órgão da Juventude Universitária Católica: o jornal Encontro. Aliás, com António Alçada Baptista, João Bénard da Costa e Pedro Tamen integrou o denominado catolicismo progressista e foi cofundador da revista O Tempo e o Modo, em 1963, na qual escreveu assiduamente.

Nuno Bragança também trabalhou para Rádio nos anos 50, tendo escrito a peça nonsense radiofónica  A Morte da Perdiz,  em colaboração de Pedro Tamen, Nuno Cardoso Peres e Maria Leonor, assim como O Guardador de Porcos, uma sátira a Salazar escrita com M. S. Lourenço, Luís de Sousa Costa e Manuel de Lucena.

Escreveu ainda inúmeras críticas cinematográficas na 1ª série de O Tempo e o Modo, onde também organizou um dossiê sobre Belarmino, e deixou muito crítica de cinema em inúmeros jornais desde o Expresso ao Diário de Lisboa, tanto mais que o seu amor ao cinema o levara de 1956 a 1959, a fundar e dirigir, um cineclube: o Centro Cultural de Cinema. E foi o argumentista da adaptação e diálogos do filme Os Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha, o filme inaugural do Cinema Novo. Em 1970, com Gérard Castello-Lopes, Fernando Lopes e Augusto Cabrita também assinou o documentário Nacionalidade Português sobre a emigração portuguesa em França e que foi estreado em Portugal três anos depois.

Nuno Bragança era funcionário do Estado, no Fundo de Desenvolvimento de Mão de Obra, onde participou na organização do Serviço Nacional de Emprego e, em 1968, aceitou ir para Paris exercer as funções diplomáticas de delegado português na O.C.D.E. e, posteriormente, de consultor de um estudo sobre os problemas de emprego nos países membros subdesenvolvidos. Refira-se que Nuno Bragança a partir da década de 60  era militante do MAR – Movimento de Acção Revolucionária e ao fixar-se em Paris aproximou-se do grupo conhecido como Brigadas Revolucionárias, de Isabel do Carmo e de Carlos Antunes. Regressou a Portugal em 1973.

Na sua vida pessoal, gostava de vinho tinto, de comer e de cozinhar e fez casal, sucessivamente, com Maria Leonor da Fonseca de Matos e Góis Caupers, a psicanalista Maria Belo e Maria Madalena Batalha Pestana.

Foi agraciado pelo Presidente da República Jorge Sampaio, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1998), com o documentário U Omãi que dava pulus (2008) de João Pinto Nogueira e está presente na toponímia dos concelhos de Almada (Charneca da Caparica), Beja, Oeiras (Porto Salvo), Porto, Seixal (Arrentela, Corroios) e Sesimbra.

A Rua Augusto Abelaira da Cidade das Flores

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O romancista Augusto Abelaira, que se estreou em 1959 com A Cidade das Flores, passou a ser o topónimo da Rua Projectada A do PER Rego, quatro anos após o seu falecimento, através do Edital de 23 de abril de 2007.

Augusto José de Freitas Abelaira ( Cantanhede -Ançã/18.03.1926 – 04.07.2003/Lisboa), começou a sua vida literária em 1959 com Cidade das Flores, numa  edição de autor, já que na época nenhuma editora arriscou publicar um romance situado na Florença de Mussolini. Dos seus 13 livros publicados como romancista e mais  3 como dramaturgo foram distinguidos As Boas Intenções (1963) com o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências,  Enseada Amena (1966) com o Prémio de Romance de IV Encontro da Imprensa Cultural, Sem Tecto entre Ruínas (1978) com o Prémio Cidade de Lisboa e o seu último romance publicado em vida, Outrora Agora (1996), uma homenagem a Fernando Pessoa, recebeu o Grande Prémio Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Municipal Eça de Queirós da Câmara Municipal de Lisboa e ainda o Prémio P.E.N. Clube Português de Ficção.

Os seus outros títulos foram as peças A Palavra É de Oiro (1961), O Nariz de Cleópatra (1962) e Anfitrião, Outra Vez (1980), assim como os romances Os Desertores (1960), Bolor (1968), o monólogo Ode (quase) marítima (1968) com desenhos de Maria Keil, o livro de contos Quatro Paredes Nuas (1972), O Triunfo da Morte (1981), O Bosque Harmonioso (1982), O Único Animal Que publicado primeiro no Jornal de Letras de 16/03/1982 a 29/03/1983, Deste Modo ou Daquele (1990) e o romance póstumo Nem Só Mas Também (2004).

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras de Lisboa, Augusto Abelaira foi também professor do ensino secundário ao longo de cinco anos, nos liceus lisboetas Dom João de Castro e Pedro Nunes. Foi também tradutor  de 1961 a 1996, sendo de destacar o seu trabalho em  A Roda da Fortuna de Roger Vaillant, O Tambor de Günter Grass, A Segunda Guerra da Indochina de Wilfred G. Burchett, O Doutor Jivago de Boris Pasternak e O Declínio da Idade Média de Johan Huizinga. Refira-se também os seus breves ensaios, como os que publicou na Gazeta Musical e de Todas Artes sobre Fernanda Botelho,  João José Cochofel, José Gomes Ferreira ou Urbano Tavares Rodrigues, para além de ter escrito os prefácios de Puta de Prisão: a prostituição vista em Custóias (1982) de Isabel do Carmo e Fernanda Fráguas e de De Noite as Árvores são Negras (1987) de Maria Isabel Barreno.

Finalmente, Abelaira teve uma forte ligação à comunicação social já que integrou a redação da revista Almanaque,  dirigiu a revista Seara Nova (1968-1969) e a revista Vida Mundial (1974-1975), assinou a  rubrica «Entrelinhas» no diário O Século  (a partir de janeiro de  1974), foi cronista em O Jornal com «Escrever na água» (1978-1992) bem como no Jornal de Letras com «Ao pé das letras» (1981 a 1996). Após o 25 de Abril de 1974, integrou a direção de Programas da RTP (1977-1978) e foi membro do Conselho de Imprensa e da Alta Autoridade para a Comunicação Social.

Augusto Abelaira foi ainda Presidente da Associação Portuguesa de Escritores no biénio 1978-1979. Já antes se havia mostrado um cidadão empenhado e crítico na luta contra o regime salazarista, participando em  movimentos  de oposição e chegou mesmo a ser detido em 1965, por como presidente do júri, ter atribuído o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores ao angolano José Luandino Vieira – que estava então preso no Tarrafal-  pelo seu Luuanda. Neste contexto, ficou proibido de ser docente no ensino particular.

O nome de Augusto Abelaira está presente também na toponímia de Ançã (Cantanhede), Oeiras e Vale de Milhaços.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Retalhos da vida de Fernando Namora numa Rua de Telheiras

Freguesias de Carnide e do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O escritor e médico Fernando Namora, autor de Retalhos da Vida de um Médico, logo no ano seguinte ao seu falecimento passou a ser o topónimo da até aí identificada como Rua A do estudo de urbanização da Quinta de Santo António a Telheiras, ficando a ligar a Rua Prof. Francisco Gentil à Rua do Seminário desde a publicação do Edital Municipal de 17 de julho de 1990.

Capa da revista Ilustração de 22 de dezembro de 1975

Fernando Gonçalves Namora (Condeixa/15.04.1919 – 31.01.1989/Lisboa) foi um médico que se construiu também como escritor. Começou a sua carreira literária a solo com poesia –  Relevos (1937) onde se notam a influência do grupo da Presença – e o seu terceiro livro de poesia, Terra, iniciou em 1941 a colecção Novo Cancioneiro, uma iniciativa neorrealista nascida nas tertúlias coimbrãs de José João Cochofel. Contudo, o seu primeiro prémio – o Prémio Almeida Garrett – obteve-o com o romance As Sete Partidas do Mundo (1938). São também obra sua que aqui destacamos Fogo na Noite Escura (1943), Casa da Malta (1945),  As Minas de S. Francisco (1946), Retalhos da Vida de um Médico (1949-1963),  A Noite e a Madrugada (1950), Deuses e demónios da medicina (1952) que foi Prémio Ricardo Malheiros, O Trigo e o Joio (1954), Domingo à Tarde (1961) que foi Prémio José Lins do Rego e sobretudo, Rio Triste (1982) que foi galardoado com o Prémio Fernando Chinaglia, o Prémio Fialho de Almeida e o Prémio D. Dinis.

Refira-se que várias da suas obras passaram às telas cinematográficas. Retalhos da Vida de um Médico realizado por Jorge Brum do Canto (1962) foi mesmo selecionado para o Festival de Berlim e foi adaptado para série televisiva (1979-1980) por Artur Ramos e Jaime Silva. Manuel Guimarães, com Manuel da Fonseca levou o Trigo e o Joio para um filme (1965), no mesmo ano em que António Macedo realizou Domingo à Tarde, selecionado para o festival de Veneza. Artur Ramos  voltou a pegar neste escritor em A Noite e a Madrugada (1985) e no ano seguinte, com adaptação de Dinis Machado para televisão, em Resposta a Matilde. Vítor Silva também fez a curta metragem O Rapaz do Tambor (1990).

Como médico,  Fernando Namora exerceu na sua terra natal, na Beira Baixa (na aldeia de Monsanto permaneceu entre outubro de 1944 e outubro de 1946) e no Alentejo, até se fixar em Lisboa, no Instituto Português de Oncologia. Ao longo da sua vida também foi ensaísta de temáticas diversas e pintou, tendo mesmo em 1938 alcançado o Prémio Mestre António Augusto Gonçalves.

Fernando Namora foi condecorado com a Medalha de Ouro da Societé d’Encouragement au Progrés (1979) e com a Grã Cruz da Ordem do Infante (1988). Em 1981, foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura, pela Academia das Ciências de Lisboa e pelo PEN Clube.

O nome deste escritor integra também a toponímia de Condeixa-a-Nova, Abrantes, Albufeira, Alcabideche, Alhos Vedros, Almada (Caparica, Charneca da Caparica ), Alverca do Ribatejo, Amadora, Baixa da Banheira, Barreiro (Santo António da Charneca, Barreiro), Beja, Borba, Braga, Bragança, Loures ( Bobadela, Camarate), Castelo Branco, Coimbra, Estoril, Évora, Fafe (Fafe, Regadas ),  Faro, Ferreira do Alentejo ( Canhestros, Figueira dos Cavaleiros ), Gondomar ( Rio Tinto, São Cosme), Idanha-a-Nova, Lagos, Loulé, Loures (Loures, Prior Velho, Santa Iria de Azóia, São João da Talha, São Julião do Tojal  ), Lousã, Maia ( Pedrouços, Vermoim), Mangualde, Marvão, Massamá, Moita,  Montemor-o-Novo, Odivelas ( Odivelas, Famões, Póvoa de Santo Adrião, Ramada), Oeiras, Ovar, de Palmela, Pavia, Póvoa de Santa Iria, São Domingos de Rana, Santa Maria da Feira ( Arrifana, Fiães ), Seixal (na Amora, Arrentela, Corroios ), Sabugal, Salvaterra de Magos, Sesimbra (Quinta do Conde,Sesimbra),  Setúbal, Torres Vedras, Trofa (São Mamede Coronado), Valongo, Vila Franca de Xira, de Vila Nova de Famalicão, Vila Nova de Gaia (Arcozelo, Vila Nova de Gaia).

Freguesias de Carnide e do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Correia Garção, o homem do teatro novo da Arcádia Lusitana

A Rua Correia Garção em 1938
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1912, por deliberação camarária de 12 de setembro e consequente Edital de dia 20, foi atribuído o topónimo Rua Correia Garção no arruamento «sem denominação que liga a Calçada da Estrela com a Rua de S. Bento, no ponto da muralha de suporte de terraplano do Parlamento» para homenagear um dos fundadores da Arcádia Lusitana.

Pelo mesmo Edital municipal foi-lhe dada a legenda «Poeta Arcádico do século XVIII» mas 34 anos depois, em reunião de 16 de dezembro de 1946, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia foi de parecer que esta fosse suprimida e o Presidente da CML concordou e homologou essa decisão no dia 20 de dezembro desse mesmo ano.

Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Pedro António Correia Garção (Lisboa/29.04.1724-10.11.1772/Lisboa) teve como pai um alto funcionário dos Negócios Estrangeiros (Filipe Correia da Serra) e uma mãe descendente de franceses (Luísa Maria da Visitação Dorgier Garção de Carvalho). Estudou no Colégio dos Jesuítas de Lisboa e a partir de 1742 frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra mas regressado à sua terra natal, em Lisboa se tornou escrivão na Casa da Índia, e entre 1760 e 1762, redator da Gazeta de Lisboa, um importante registo da vida da corte e da sociedade de setecentos.

Correia Garção foi um dos fundadores em 1756 da Arcádia Lusitana, onde usava o pseudónimo de Corydon Erimantheo e  nela teve um papel de relevo na defesa do modelo de composição clássica inspirada. Garção procurou manter aceso o espírito de inovação e modernidade com que a Arcádia fora criada, bem como apostar na renovação do teatro, para o que escreveu duas dissertações sobre o carácter da tragédia e assinou duas peças: Teatro Novo e a Assembleia ou Partida. A primeira, quando  subiu à cena do Teatro do Bairro Alto em 1766 não foi bem acolhida. A segunda, foi reposta em Lisboa várias vezes no século XX: em 1933, pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro e em 1965, pelo GTL – Grupo de Teatro de Letras, bem como em 1982, o Teatro da Cornucópia usou esta peça e outros textos de Correia Garção no espectáculo O Labirinto de Creta. Ambas as comédias de Garção fizeram  parte da campanha árcade para a criação de um teatro nacional fundado em modelo clássico, para uma depuração do gosto artístico por oposição ao barroco e uma  aproximação da literatura ao real quotidiano e à vida social.

As obras completas de Correia Garção foram publicadas postumamente pelo seu irmão, em 1778, incluindo Obras Poéticas e Discursos Académicos.

Foi casado desde 1751 com uma senhora de grande fortuna, Maria Ana Xavier Fróis Mascarenhas de Xande Salema, e faleceu aos 48 anos na prisão do Limoeiro, onde estava desde 1771, por ordem do Marquês de Pombal, por motivos até hoje não explicados.

Correia Garção está também homenageado na toponímia de Custóias (Matosinhos), Charneca da Caparica (Almada), Damaia (Amadora), Odivelas, Queijas e São Brás (Amadora).

Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Vitorino Nemésio, das ilhas, se bem me lembro

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Vitorino Nemésio da açoriana Ilha Terceira, escritor e professor da Faculdade de Letras, de rosto conhecido pelo seu programa televisivo Se bem me lembro, está desde o ano do seu falecimento perpetuado numa artéria da freguesia de Santa Clara.

Foi pelo Edital municipal de 20 de novembro de 1978 que passou a ser o topónimo da Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, o mesmo que colocou na Rua A o também escritor Jorge de Sena.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário e escritor.

Na sua carreira académica foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado como Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e Ceará, sendo também sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa. Cumpriu o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919 e concluiu o liceu em Coimbra, em 1921. Inscreveu-se em Direito em Coimbra mas, três anos mais tarde, trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte, passou para o curso de Filologia Românica. Em 1930 transferiu-se para a Faculdade de Letras de Lisboa onde concluiu, em 1931, o curso de Filologia Românica, e desde logo começou a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Também foi professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, pontificou na revista Presença a partir de 1930 e tanto foi poeta como cronista ou romancista. É o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956) tendo sido o seu primeiro livro de poemas: Canto Matinal (1916). Na poesia, destaquem-se também Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003), tal como na ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de 1970 a 1975, onde de postura e forma descontraída, durante meia hora em horário nobre, discorria sobre mentalidades e cultura em geral. Mas na comunicação social tinha uma história longa: fundou e dirigiu Estrela d’Alva. Revista Literária Ilustrada e Noticiosa (1916), a Revista Portugal (1937) e dirigiu o jornal O Dia entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976; com Branquinho da Fonseca e Gaspar Simões fundou a revista Tríptico (1924) e com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima, Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927); foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), em O Diabo (1935), regularmente com uma rubrica no Diário Popular (1946), na revista Vértice (1947) e também regularmente na revista Observador (1971).

Foi agraciado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961) e da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978). Foi ainda Prémio Nacional de Literatura em 1965 e Prémio Montaigne em 1974.

Está também homenageado na toponímia de sul a norte de Portugal: em Abrantes, Albufeira, Alcabideche, Alhos Vedros, Amadora, Amora (Seixal), Arcozelo, Arrifana (Santa Maria da Feira), Azeitão, Baixa da Banheira, Beja, Braga, Campo Maior, Carcavelos, Cascais, Charneca da Caparica, Coimbra, Corroios, Eixo (Aveiro), Entroncamento, Ermesinde, Esmoriz, Estoril, Évora, Famões (Odivelas), Fânzeres (Gondomar), Ferreira do Alentejo, Figueira da Foz, Fontinhas (Praia da Vitória), Gaio-Rosário, Loures, Lousã, Maia, Mangualde, Matosinhos, Mem Martins, Montijo, Odivelas, Oeiras, Ovar, Palmela, Parede (Cascais), Pinhal Novo, Portalegre, Porto, Porto Martins (Praia da Vitória), Póvoa de Santa Iria, Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), Queluz, Quinta do Conde (Sesimbra), Ramada (Odivelas), Regadas (Fafe), Rio de Mouro, Rio Tinto (Gondomar), São Mamede Coronado, Samora Correia, São Domingos de Rana, São João da Madeira, São João da Talha (Loures), São Julião do Tojal (Loures), Sobrado (Valongo), Sobreda (Almada), Trofa, Valbom (Gondomar), Vila Nova da Barquinha, Vila Praia de Âncora, Vilar de Andorinho (Vila Nova de Gaia) e Vilar do Paraíso (Vila Nova de Gaia).

A Rua Cavaleiro de Oliveira, o setecentista autor proibido pela Inquisição

Freguesia de Arroios
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Francisco de Oliveira, conhecido como Cavaleiro de Oliveira, funcionário da Coroa no século XVIII e escritor proibido pela Inquisição, é desde a publicação do Edital municipal de 17 de outubro de 1924 o topónimo de uma Rua de Arroios que hoje une a Rua Morais Soares à Praça Olegário Mariano.

Note-se que  já Camilo o pretendera biografar mas foi na primeira metade do séc. XX que a sua biografia foi publicada por Jordão de Freitas, Aquilino Ribeiro e o Prof. Gonçalves Rodrigues, com acesas polémicas nessa época.

Francisco Xavier de Oliveira (Lisboa/21.05.1702 – 18.10.1783/Hackey – Inglaterra),  filho de José de Oliveira e Sousa  e de Isabel da Silva Neves, ficou conhecido como Cavaleiro de Oliveira por tradução de Chevalier d’Oliveira, nome que ele a si próprio atribuiu depois de ter sido feito Cavaleiro da Ordem de Cristo, em 11 de dezembro de 1729.  O seu pai fora Contador dos Contos do Reino e Secretário em embaixadas, como a de Utreque e de Viena, o que facilitou que  fosse admitido como funcionário do Tribunal dos Contos do Reino, na qualidade de Oficial, aos 14 anos. Como a sua família, Francisco Xavier de Oliveira era bastante considerado em Lisboa. Em 25 de fevereiro de 1730 casou com Ana Inês de Almeida.

Em 1734 foi destacado para substituir o seu pai que falecera,  como Secretário da Embaixada Portuguesa em Viena. Contudo, desde o início o embaixador Conde de Tarouca não o apreciou  e fez antes seu Secretário um arquiteto milanês, dispensando-o oficialmente uns três anos depois, em 1737. No ano seguinte, em 26 de junho de 1738 casou em Viena com Maria Eufrosina de Puechberg Enzing. Passou seis anos a tentar exercer a função de secretário da embaixada portuguesa e reclamou mas nunca foi empossado, por razões nunca expostas.

Em 1740, arruinado, partiu para a Holanda, onde começou a publicar, em francês, assumindo-se como escritor sem mecenas: Memoires de Portugal (1741), Memórias das viagens de Francisco Xavier de Oliveira (1741), 3 tomos de Cartas Familiares, Históricas, Políticas e Críticas: Discursos Sérios e Jocosos (1741- 1742), e Viagem à ilha do amor escripta a Philandro (1744) que é comum aceitar-se como uma tradução livre de uma obra de 1664, anónima mas atribuída ao abade Paul Tallemant.

Em 1744 fixou residência de exilado em Londres e um pouco antes, o Inquisidor Frei Manuel do Rosário proibiu a entrada de todos os seus livros em Portugal. O embaixador português em Londres, o futuro Marquês de Pombal, também não simpatizou com ele e o Cavaleiro de Oliveira fez amizade com um pastor anglicano que lhe permitiu sobreviver economicamente. Casou numa igreja anglicana em 1 de fevereiro de 1746, com Françoise Hammon, de origem luterana, e abjurou da fé católica em  junho de 1746. Pouco depois do nascimento de uma filha, foi preso por dívidas e cumprida a pena (21 meses e dez dias) passou a receber uma pensão do Príncipe de Gales.

Em 1751 publicou Amusement  Périodique, traduzido em 1922 por Aquilino Ribeiro como Recreação Periódica,  no qual traçou um conjunto de traços anedóticos sobre a corte portuguesa de D. João V e fez proposições heréticas para a Fé católica e a Inquisição. Após o Terramoto de 1755 defendeu que foi um castigo divino em Discours pathétique au sujet des calamités présentes arrivées en Portugal. Adressé à mes compatriotes et en particulier a Sa Majesté Très-Fidèle Joseph I, Roi de Portugal (1756), obra com tradução inglesa no mesmo ano e a proibição de leitura e circulação pelo Santo Ofício – por denúncia do dr. Joaquim Pereira da Silva Leal, membro da Academia Real da História –  que acabou por se estender a todas as suas obras. O Cavaleiro de Oliveira, dito herege, foi condenado a ser queimado em estátua, no mesmo auto da fé de 20 de setembro de 1761 em Lisboa, em que o padre Gabriel Malagrida padeceu a horrível morte pela fogueira. No ano seguinte respondeu com Le Chevalier d’Oliveyra brulé en effigie comme hérétique. Comment et Pourquoi? Anecdotes et Réflexions sur ce Sujet, données au Public par lui-même. Já em 1757 havia respondido com Suite du Discours Pathétique: ou Réponse aux Objections et aux Murmures que cet Ecrit s’est attiré à Lisbonne. Adressée aux Portugais par le Chevalier d’Olyveira, Auteur du Discours qu’il défend.

Em 1767, usando um anagrama dele próprio dá a lume Reflexões de Félix Vieyra Corvina de Arcos, Cristão Velho Ulissiponense, com uma forte crítica à Inquisição, a práticas da Igreja e em defesa da liberdade de consciência.

Muito se falou também da sua vida galante, tanto mais que ele próprio se vangloriou nos seus escritos do seu amor por uma freira de Santa Mónica, uma cigana e uma judia que chegou a ser presa pela Inquisição.

Cavaleiro de Oliveira é também topónimo em Cascais, no Laranjeiro (Almada) e em Oliveira do Hospital.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

David Mourão-Ferreira, o «escrevivente» do amor feliz, na toponímia de Lisboa

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, professor, ensaísta, cronista, tradutor e crítico literário, assim era David Mourão-Ferreira que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras porque, como ele dizia, tinha «o ofício de escreviver»: precisava de viver para escrever e de escrever para viver.

David Mourão-Ferreira começou por ser o topónimo de uma Rua lisboeta através do Edital Municipal de 18 de novembro de 2003, aquela que hoje conhecemos como Rua da Quinta das Conchas, mas por se entender que o escritor devia estar consignado num arruamento de maior extensão passou o seu nome para uma Avenida – que era a Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar, também na freguesia do Lumiar, pelo Edital de 22 de julho de 2005, ficando a unir a Rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves ao Eixo Central. 

Com David Mourão-Ferreira são dez os escritores que estão homenageados em Avenidas de Lisboa: Carlos Pinhão, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro, José Régio, Júlio Dinis, Miguel Torga, o Poeta Mistral e Vergílio Ferreira.

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, apesar das suas múltiplas facetas ficou mais conhecido como o poeta do amor  e da sensualidade. Nasceu e viveu até aos 15 anos no bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo –  Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Meae ou A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade  (1973),  Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e uma antologia erótica: Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) com o Prémio Ricardo Malheiros, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) premiada pela Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) que recebeu o  Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras. Refira-se ainda  Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras que David Mourão-Ferreira gravou com a sua voz.

Com o contributo determinante de Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, destacando-se Barco Negro (1954), AbandonoEspelho Quebrado, SombraAnda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, fez também letras para  Simone de Oliveira, Francisco Pessoa, Mercês da Cunha Rego, Dário de Barros ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação e de um processo judicial, por ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Colaborou em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a Seara Nova onde em 1945 publicou os seus primeiros poemas-, para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954)  que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na Emissora Nacional foi o autor de Música e Poesia nos anos 60, década em que para a RTP fez Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia, assim como nos anos 70, O Dom de Contar.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo dele o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao  Pen Club Português (1991).

Do primeiro casamento nos anos 50, com Maria Eulália , sobrinha de Valentim de Carvalho, teve dois filhos: David João e Adelaide Constança. Em 1966 voltou a casar, com Maria do Pilar de Jesus Barata.

Foi agraciado como Chevalier de L´Ordre des Arts et des Lettres (1973), a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1976), como Grande Oficial (1981) e a Grã-Cruz (1996) da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, o título de Cidadão Honorário de Cascais e a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Oeiras (1996), o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1996) e a abertura da Cátedra David Mourão-Ferreira na Universidade italiana de Bari (2005).

Em Lisboa, dá também o seu nome a uma biblioteca na freguesia do Parque das Nações. O escritor integra também a toponímia de Alcabideche, Alhos Vedros, Amadora, Amora (Seixal), Barcarena, Beja, Braga, Caparica, Cascais, Corroios, Eixo (Aveiro), Évora, Fafe, Faro, Odivelas, Pombal (Leiria), Portimão, Póvoa de Santa Iria, Prior Velho, Quinta do Anjo, Regadas (Braga), Rio Tinto, Santa Iria de Azóia, Santarém, Santo António dos Cavaleiros, São Domingos de Rana, São Julião do Tojal, Sesimbra, Sobreda (Almada), Vialonga e Vila Nova da Barquinha.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)