O Largo do Salvador, o convento e o seu arraial

Freguesia de Santa Maria Maior

Durante este mês de junho o Largo do Salvador é um palco das Festas de Lisboa’19, centro do arraial organizado pelo Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, que aqui está sediado no que em tempos foi a igreja do Convento do Salvador, construído sobre a ermida de Jesus Salvador da Mata que deu a origem ao topónimo.

Encontramos o Largo do Salvador na confluência da Rua do Castelo Picão,  Rua da Regueira e Rua Guilherme Braga, tal como nas proximidades a Rua e o Beco com o mesmo topónimo e todos colhem a sua denominação do antigo sítio do Salvador da Mata, da Lisboa medieval logo após a conquista da cidade aos mouros (1147), da primitiva ermida de Jesus Salvador da Mata que evolui para ser a igreja paroquial de São Salvador em 1189 e em 1209 foram criadas em Alfama as Freguesias do Salvador e a  de São João da Praça.

O olisipógrafo Norberto de Araújo esclarece que «Estamos no Largo do Salvador. E do Salvador – porquê? Neste sítio, que no comêço da Lisboa era de todo silvestre, em encosta que acompanhava pelo exterior uma parte da muralha moura, apareceu – segundo rezam as lendas – em certa manhã, espetado no chão do matagal, um crucifixo, e perto dêle uma imagem de N. Senhora com o Menino. Milagre era; naquêle tempo devoto, primeiros anos após a conquista, a notícia correu célere por Lisboa. Logo se ergueu uma ermidinha a Jesus Salvador da Mata, porque mata cerrada era tudo isto por aqui. A ermida teve, pouco depois de erguida, grande concorrência de mulheres penitentes que junto dela fizeram um Recolhimento, já levantado em 1240. O sítio foi-se desbravando, povoando, dando uma pequena freguesia, o que se explica, porque a Ermida era do priorado.» 

O pequeno recolhimento das Beatas de São Salvador da Mata deu origem à fundação do Convento feminino do Salvador em 1391/1392, da Ordem dos Pregadores, pelo bispo do Porto D. João Esteves, no espaço que hoje é do Largo do Salvador. O Convento também foi denominado do Santíssimo Rei Salvador de Lisboa, de São Salvador e do Santo Rei Salvador. Em finais do séc. XVI foi a vez de ser também construído neste Largo o Palácio dos Condes de São Miguel ( ou Palácio dos Condes de Arcos de Valdevez) que se ligou ao Mosteiro pelo denominado Arco do Salvador, estrutura que resistiu ao Terramoto de 1755.

O Mosteiro encerrou em 1884 por morte da última freira e a igreja desvinculada do culto. O Largo do Salvador teve obras de remodelação em 1961, no âmbito da reestruturação de Alfama. A parte da igreja foi entregue à Junta de Freguesia local que por sua vez cedia o espaço ao Centro Cultural Dr. Magalhães Lima desde a sua fundação em 5 de outubro de 1975. Na outra parte do antigo mosteiro feminino dominicano hoje lá encontramos o Hotel Convento do Salvador.

Freguesia de Santa Maria Maior

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O Arraial da Calçada da Bica Grande

Calçada da Bica Grande – Freguesia da Misericórdia

Pela Calçada da Bica Grande, Beco dos Aciprestes e Travessa do Cabral, prolonga-se o Arraial das Festas de Lisboa 2019 promovido pelo Marítimo Lisboa Clube, coletividade fundada no dia 1 de outubro de 1944, e que também logo em em 1952 foi responsável pela organização da Marcha da Bica conseguindo o seu primeiro 1º Prémio, que repetiu em 1955 e 1958, bem como em 1963 ex-aequo com Marvila, assim como em 1992 e 2003.

A Travessa

A Bica é um conjunto urbano seiscentista e setecentista que como freguesia foi destacada da freguesia dos Mártires  em 1566, como Freguesia de São Paulo, que hoje é parte da freguesia da Misericórdia. A Calçada da Bica Grande, toda em escadinhas, que sobe da Rua de São Paulo até à Travessa do Cabral e nessa subida abre à direita o Beco dos Aciprestes. De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo Bica Grande e Bica Pequena podem ter sido apenas denominações dadas com o sentido de Calçada Grande e Calçada Pequena, o que até se ajusta à largura e extensão das serventias. Certo é que Filipe Folque no seu Atlas de Lisboa de 1856 já a menciona como Calçada da Bica Grande. Em 1909 foram reformadas as escadas e o cano de esgoto desta Calçada, o mesmo em que datado de 4  de junho, encontramos um pedido de autorização de José Tavares, como presidente da comissão organizadora dos festejos a Santo António, São João e São Pedro, para construir um coreto na Calçada da Bica Grande.

Travessa do Cabral, surge referida em 1706 na Corografia Portuguesa do padre Carvalho da Costa, como Rua do Cabral, mas em 1856, no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, já figura com o topónimo que conhecemos hoje. Norberto de Araújo explica que o homenageado é o bacharel Manuel Rodrigues Cabral, que nasceu no final do século XVI e morreu em 1632, que seria morador no local apontando, sem garantir certeza, como o seu solar de residência o prédio no nº 35 que torneja para a Calçada da Bica Pequena e ostenta um pórtico nobre. Por seu turno, a investigadora Graça Índias Cordeiro, defende que o topónimo se deve ao embaixador espanhol Cabral. Nesta artéria, no séc. XX, também viveu António Alçada Baptista.

O Beco

E finalmente, junto ao nº 34 da Calçada da Bica Grande nasce o Beco dos Aciprestes, identificado em 1856 por Filipe Folque como Beco do Acipreste. Eventualmente, pode o topónimo ter sido originado pela residência no local de um Arcipreste, o pároco que numa diocese tem poder superior ao dos restantes párocos, e ter havido uma corruptela gráfica. Na Gazeta de Lisboa de 29 de julho de 1829, refere-se uma propriedade foreira da Sé de Lisboa neste arruamento – o nº 1 com os nºs 3 e 4 da Calçada da Bica Grande -, sendo o foro de «80 reis e huma gallinha». Outra hipótese pode ser a proximidade a um cemitério nas suas redondezas, por ser frequente usarem este tipo de árvores.

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Cordoeiros, Santo Antoninho e um arraial na Bica

O Largo de Santo Antoninho (à esquerda) e a Rua dos Cordoeiros (à direita)

No mês de Santo António e dos Santos Populares, encontramos um dos arraiais da Bica a espraiar-se justamente pelo Largo de Santo Antoninho e também pela Rua dos Cordoeiros, promovido pelo Grupo Desportivo Zip Zip, uma associação nascida em 17 de agosto de 1974, com sede na Rua dos Cordoeiros nºs 9 a 15.

O Largo de Santo Antoninho existe na confluência da Calçada da Bica Pequena, Rua dos Cordoeiros e Travessa da Bica Grande, atravessado pelo Elevador da Bica desde que este foi  inaugurado no dia 28 de junho de 1892. As memórias paroquiais de 1758, da freguesia de São Paulo, «cituada esta freguezia em hua praya, da qual se descobre a villa de Almada, e as povoações de Casilhas, Fonte da Pipa, e parte de Caparica», na situação após Terramoto já mencionam este arruamento, mas como Terreirinho de Santo António. Depois, algures no séc. XIX mas ainda antes da implantação do funicular o Terreirinho passou a Largo e Santo António a Santo Antoninho. Em 1852, no traçado de um prédio no n.º 2 a 5 que João Venâncio Nunes pretendia acrescentar, surge como Largo do Terreirinho de Santo Antoninho. Na planta de 1856 de Filipe Folque é já Largo de Santo Antoninho tal como em 12 de abril de 1875, a deliberação de câmara para lhe colocar a cortina do lado ocidental e uma grade de ferro o refere também como Largo de Santo Antoninho.

Curioso é encontrarmos nos documentos municipais, em 1903 e 1905, pedidos de autorização para realizar festas no arruamento, no mês de junho. Em 6 de junho de 1903 é um termo que assina Bento Fernando Lopes, como representante dos moradores do Largo de Santo Antoninho, obrigando-se às condições com que lhes foi concedida a autorização para vedar o mesmo largo e abrir buracos no chão para a ornamentação dos festejos. Em 20 de maio de 1905 é um termo assinado por Bellmiro dos Santos, como representante do Grupo Recreativo do Largo de Santo Antoninho, solicitando  licença para vedar um recinto no mesmo largo e colocação de um coreto e mastros para a promoção de bailes durante o mês de junho.

Já a Rua dos Cordoeiros que liga o Largo de Santo Antoninho à Calçada Salvador Correia de Sá, parece ser uma artéria pelo menos do final do século XVI, já que o Sítio da Bica, na vertente das encostas de Santa Catarina e das Chagas, foi cavado por efeito de um desmoronamento de terras restrito ao local, ocorrido em 22 de julho de 1597 e que se repetiu 25 anos mais tarde. Na planta de 1856 de Filipe Folque está registada a Rua dos Correeiros a terminar na  Calçada de São João Nepomuceno. Os cordoeiros que fabricavam cordas para velas e bandeiras ficaram perpetuados em diversa toponímia lisboeta, enumerando Luís Pastor de Macedo as artérias de Lisboa que evocaram este ofício: «Os cordoeiros ou as cordoarias deram o nome, em Lisboa, às seguintes serventias públicas, pelo menos: à travessa da Cordoaria, na freguesia de Santo Estêvão, nos meados do século XVI, às ruas da Cordoaria Nova e da Cordoaria Velha na freguesia dos Mártires, esta última já classificada de Velha em 1477, à rua dos Cordoeiros que ainda existe compartilhada pelas freguesias de Santa Catarina e de S. Paulo, e à rua dos Cordoeiros em Pedrouços que também mantém ainda este nome. Sabemos ainda que os cordoeiros, em 1821, abancavam no terreiro de S. Pedro de Alcântara e que em 1552 havia na cidade 25 tendas daquele ofício». Refira-se ainda que a existência da Cordoaria Nacional, antiga Real Fábrica da Cordoaria da Junqueira, criado pelo Marquês de Pombal por decreto de 1771.

Freguesia da Misericórdia

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Lisboa Mistura no jardim da quinta dos fósseis pré-históricos

Freguesia do Lumiar

Hoje é último dia do Lisboa Mistura 2019  que desde dia 8 de junho tem decorrido no Jardim da Quinta das Conchas, espaço cuja toponímia  decorre de vestígios aí encontrados, fósseis calcários do Miocénico lisboeta ( ou seja, de cerca de 20 a 7 milhões de anos atrás), como sucedeu no Alto das Conchas, em Marvila, e onde  no séc. XVI nasceu uma quinta agrícola.

Lisboa Mistura é um festival com músicos internacionais do Médio Oriente, da América do Norte e de África, assim  como grupos comunitários, de diferentes gerações e proveniências culturais, para celebrar a comunidade urbana e a diversidade que integra o ADN de Lisboa. Pela primeira vez realiza-se na Quinta das Conchas, na Freguesia do Lumiar, depois de ter tido como palcos o Castelo de São Jorge, o Largo do Intendente Pina Manique ou a Avenida da Ribeira das Naus.

 

A Quinta das Conchas está perpetuada na Rua da Quinta das Conchas e no parque ou jardim da Quinta das Conchas. Os fósseis pré-históricos definiram o nome do lugar e em meados do século XVI aí nasceu a Quinta de Afonso de Torres, sabendo-se que já em 1520 era um morgadio deste rico negociante de origem espanhola. Sucederam-se vários proprietários na Quinta das Conchas de que se destaca no final do séc. XIX,  em 1897, Francisco Mantero, um dos grandes exploradores das roças de café de São Tomé – que dá nome a uma Rua dos Olivais tal como seu filho, Mantero Belard, dá a uma Rua de Santa Clara -, que somou a parte rústica da Quinta das Conchas à sua Quinta dos Lilazes, onde a sua residência reproduzia o modelo  da mansão colonial, e incluindo um grande lago artificial,  com duas pequenas ilhas nas quais plantou palmeiras, em homenagem às ilhas de São Tomé e Príncipe.

Contudo, no século XX, a área desta Quinta foi mais utilizada pela então muito recente indústria cinematográfica, uma vez que  em 1920 foi nela fundada  a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor e doze anos depois, em 1932, foi a vez da Tobis Portuguesa adquirir parte da Quinta para aí edificar os seus estúdios. Em 1966, os descendentes de Francisco Mantero transferiram para a Câmara Municipal de Lisboa a gestão da Quinta que recebeu obras de requalificação em 2005 que mereceram o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura desse ano.

Freguesia do Lumiar

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A Rua dos Santos à Campolide

Rua de Campolide – Freguesias de Campolide e de São Domingos de Benfica

A extensa Rua de Campolide, que hoje se estende da Rua do Arco do Carvalhão à Avenida Columbano Bordalo Pinheiro,  acolhe o arraial  Santos à Campolide no renovado Parque Urbano da Quinta do Zé Pinto, até ao  próximo dia 16 de junho.

A Rua de Campolide nasceu como tal por uma deliberação camarária de 30 de janeiro de 1908 na via até aí conhecida como Estrada de Campolide. Antes fora designada como Cruz das Almas, por referência à Ermida da Cruz das Almas, fundada no local em 1756. Mais rigorosamente, a Rua de Campolide é a soma da antiga Cruz das Almas do pós-terramoto que passou a ser Estrada de Campolide, junto com a Estrada de Campolide de Cima e a Estrada de Campolide de Baixo.

Na crónica da conquista de Lisboa aos mouros já aparece referido Campolet ou Campolit, embora tenha aumentado a intensidade do povoamento a partir do século XVIII, com a chegada de gente para a construção do Aqueduto. O olisipógrafo Norberto de Araújo escreveu nas suas Peregrinações em Lisboa, publicadas nos anos 30 do século XX, que «Não significa isto, porém, que Campolide não fosse povoado desde há duzentos anos, mas com carácter rústico arrabaldino – aprazível sítio -, e em aglomerados soltos, dos quais o mais assinalado se encontrava no prolongamento da estrada, agora Rua de Campolide, muito além das barreiras (hoje ponto terminal da linha dos eléctricos), sensivelmente no trôço de encosta, entre o actual edifício das Irmãzinhas e o Quartel de Caçadores 5, no local das casas de Estêvão Pinto. No século XVIII, contido entre quintas muradas, estrada de passagem obrigatória – Campolide existia sem definição nem classificação. Algumas das suas casas, hoje de pé ou transformadas atestam quanto te digo».

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A Avenida sonhada por Rosa Araújo e as Marchas Populares criadas por Leitão de Barros

Freguesias de Santo António e de Santa Maria Maior

A Avenida da Liberdade, o sonho de Rosa Araújo dotar Lisboa com um boulevard parisiense, concretizado no último quartel do séc. XIX, veio a ser palco do desfile das Marchas Populares a partir de 1934, evento criado por Leitão Barros  dois anos antes no Parque Mayer.

José Gregório Rosa Araújo (Lisboa/1840-1893/Lisboa), enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa defendia a abertura na cidade de uma grande Avenida ao estilo parisiense e concretizou esse sonho entre 1879 e 1886, destruindo o famoso Passeio Público, elegante jardim fechado, tomando o topónimo Avenida da Liberdade o lugar do Passeio Público e das Ruas Oriental e Ocidental do Passeio, por deliberação camarária de 18 de agosto de 1879. Na Câmara a escolha desta opção foi renhida mas as obras de demolição começaram no dia 24 de julho de 1879 e nos últimos dias de 1882 as grades do Passeio Público começaram a ser arrancadas. O traçado desta Avenida da Liberdade, aprovado entre 1877 e 1879 pela Câmara Municipal de Lisboa, retomou propostas urbanísticas anteriores que conceberam a Avenida como prolongamento do Passeio Público, mas com limite na futura Rotunda do Marquês de Pombal.

Com 90 metros de largura e 1273 de comprimento, a Avenida da Liberdade foi inaugurada em 1886, no mesmo ano em que as ruas Barata Salgueiro e Castilho foram calcetadas e iluminadas e, no dia 25 de maio desse ano foi ela o palco de um grande desfile com Infantaria e Cavalaria que o futuro rei D. Carlos quis mostrar à sua noiva no dia do casamento.

No princípio do séc. XX, este novo boulevard que herdara algumas árvores e estatuária do Passeio Público, era já palco de passeios de domingo da burguesia lisboeta e a área escolhida para edifícios de prestigiados arquitetos. Em 1922, instalou-se o Hotel Tivoli, traçado por Norte Júnior e, dois anos depois foi a vez do Cinema Tivoli, de Raúl Lino. Em 1 de julho de 1936, inaugurou-se o Hotel Vitória, da autoria de Cassiano Branco, o arquiteto do Éden Teatro. Quatro anos mais tarde, em 24 de setembro de 1940, foi o jornal Diário de Notícias que se mudou das suas instalações do Bairro Alto para o alto da Avenida da Liberdade, sob um traçado do Arqº Pardal Monteiro.

Em 1932

Em 1932, Leitão de Barros, o «pai das marchas populares», criou esse novo evento em forma de concurso e publicitou-o no jornal que dirigia, o Notícias Ilustrado. Nesse ano, apenas os núcleos bairristas ( ou ranchos, como então eram designados) do Alto do Pina, Bairro Alto e Campo de Ourique desfilaram no Capitólio, no Parque Mayer. Campo de Ourique, com os seus trajes minhotos, foi o vencedor desta 1ª edição. A Marcha do Alto do Pina obteve o  prémio da categoria Pitoresco e a Marcha do Bairro Alto ganhou o prémio Alegria. As Marchas Populares foram a resposta de Leitão de Barros ao desafio de Campos Figueira de Gouveia ( diretor do Parque Mayer), de garantir  um espetáculo capaz de mobilizar a atenção dos lisboetas.

Em 1934, assim como no ano seguinte, o olisipógrafo e então vereador Luís Pastor de Macedo era o responsável pelas Festas da Cidade na autarquia lisboeta e participaram então 12  bairros e 800 marchantes, cada um com a sua marcha inspirada num costume local ou característica do seu bairro. Ao desfile das Marchas Populares desde a Praça do Comércio até ao Parque Eduardo VII, já assistiram 300 mil pessoas. No ano seguinte, em 1935, já estava criada uma Comissão Executiva das Festas de Lisboa e pela primeira vez  todas as marchas cantaram uma composição comum – a Grande Marcha de Lisboa -, sendo a primeira Lá Vai Lisboa, de Raúl Ferrão e Norberto de Araújo, tendo-se sagrado vencedora a Marcha de Benfica, para além da Madragoa ter apresentado uma Marcha Infantil.

Depois, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial, acabaram por forçar a algum interregno, à excepção apenas de 1940 – com a celebração dos Centenários da Independência- assim como de  1947, com a comemoração do 8.º Centenário da Conquista de Lisboa aos Mouros. As Marchas Populares regressaram em 1950 e o olisipógrafo e jornalista Norberto de Araújo voltou a participar na organização das mesmas assinando a letra da Grande Marcha desse ano, interpretada por Amália Rodrigues, A Noite de Santo António, com música de Raúl Ferrão. O evento começou também a ter a assistência de altos dirigentes do Estado e a ser apadrinhado por vedetas da rádio e do teatro, para cada marcha. Em 1952, o percurso do desfile passa a ser o que temos hoje:  da Praça Marquês de Pombal à Praça dos Restauradores. Voltou a instabilidade na realização do evento e o desfile da Marchas só ocorreu sem interrupções de 1963 a 1970, sendo nesse último ano que a  a televisão começou a transmitir o evento. São também deste período o aparecimento dos carros alegóricos (1965) e das «mascotes» – crianças que acompanham a marcha vestidas como os marchantes – (1969), assim como a primeira vez da Marcha Infantil da Voz do Operário (1966) que depois só voltou a partir de 1990. As Marchas Populares tornaram-se  uma iniciativa em declínio na década de setenta e  após o 25 de Abril até se interromperam para voltarem depois em 1979, para novas intermitências até voltarem de forma regular a partir de 1988.

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A Rua do Arraial da ASA

Freguesia de Alcântara

A Academia de Santo Amaro, responsável por dar nome à Rua onde está sediada é também responsável pelo Arraial popular que ali vai decorrer no âmbito das Festas de Lisboa 2019.

Conhecida popularmente como ASA, a Academia Recreativa de Santo Amaro está sediada no nº 9 da artéria que desde a publicação do Edital municipal de 28 de julho de 1958 ostenta o seu nome, doze anos após o nascimento da associação.

Este arruamento que faz a ligação da Travessa do Conde da Ribeira à Calçada de Santo Amaro era antes catalogada como Rua A à Calçada de Santo Amaro ou ao Alto de Santo Amaro, ou ainda como Rua A à Travessa Conde da Ribeira e o seu topónimo resultou da aprovação da proposta do então vereador Sóphera Costa, apresentada na reunião da câmara de 22 de maio de 1958.

 

O bairro do Alto de Santo Amaro era a zona onde residia grande parte do operariado envolvido na industrialização de Alcântara, na passagem do século XIX para o século XX. Para a fruição dos residentes e com a participação dos próprios nasceu em 1868 a Sociedade Filarmónica Esperança e Harmonia, assim como nas primeiras décadas do século XX, aconteceram também a Sociedade Filarmónica Alunos de Harmonia e o Grupo Dramático e Musical Apolo. Quando em 1943 um plano de urbanização levou à demolição das sedes dos Alunos da Harmonia e do Grupo Apolo criou-se um processo de fusão destas três associações, que culminou na fundação em 10 de março de 1946 de uma nova coletividade: a Academia Recreativa de Santo Amaro que aproveitou para o seu nome o do local, o Alto de Santo Amaro, por sua vez derivado da presença no local da Capela de Santo Amaro desde 1549.

A Academia Recreativa de Santo Amaro dedica-se essencialmente a promover ocupações de caráter cultural e recreativo, com particular incidência no Teatro e nos Arraiais dos Santos Populares, sendo que estes ali começaram em junho de 1955, como uma forma de angariação de fundos para a nova Sede que viria a ser inaugurada em fevereiro do ano seguinte.

Freguesia de Alcântara

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A Rua Prof. Pais da Silva e o Arraial do Bairro Padre Cruz

Freguesia de Carnide

O lisboeta historiador de arte e pioneiro na defesa do Património Cultural, Jorge Henrique Pais da Silva, recebe na sua rua alfacinha um Arraial popular, no decorrer deste mês de junho, no largo que se abre junto ao Auditório Natália Correia,  promovido pela Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas do Bairro Padre Cruz.

A Rua Prof. Pais da Silva, que se estende da Rua Professor Almeida Lima até à Estrada da Circunvalação, resultou da sugestão da Profª Maria Calado, que na época era a representante da Universidade Técnica de Lisboa na Comissão Municipal de Toponímia e foi concretizada na Rua C da Nova Urbanização do Bairro Padre Cruz através do Edital municipal de 19 de Fevereiro de 1992. O mesmo Edital colocou nos outros novos arruamentos do Bairro mais 3 professores catedráticos, a saber,  na Rua A o filólogo Prof. Lindley Cintra , na Rua D o catedrático de Medicina Legal Prof. Arsénio Nunes  e na Rua F, o Prof. Almeida Lima, fundador da prática da neurocirurgia em Portugal.

Jorge Henrique Pais da Silva (Lisboa/08.07.1929 – 23.09.1977/Lisboa), historiador de Arte e professor universitário que delineou o 1.º Congresso Internacional de Defesa do Património Cultural e Natural – realizado em Alcobaça em 1978 – que potenciou um  boom de associações de defesa do património em Portugal, assim como traçou grande parte do organigrama do que seria o futuro Instituto Português do Património Cultural, começou a sua carreira como professor liceal (1956-1958). Depois foi docente da Escola Superior de Belas Artes do Porto (1959-1966), da Faculdade de Letras do Porto (1965-1966) e da Faculdade de Letras de Lisboa (1966-1967), tendo ainda dirigido a ESBAP em 1970. Realizou ainda cursos de expansão universitária no Museu Nacional de Arte Antiga e na Fundação Calouste Gulbenkian, onde foi também diretor-adjunto do Serviço de Belas-Artes.

As suas pesquisas e investigação centraram-se no  Renascimento, e sobretudo do Maneirismo, em especial no campo da Arquitetura, dentro do país e no estrangeiro, mormente em Itália. Em paralelo, pugnou pela modernização da investigação em Portugal no domínio da História da Arte, em concorrência com a comunidade científica internacional. Do conjunto da sua obra publicada salientamos Notas sobre a arquitectura dos Jesuítas no espaço português (1961), Em torno da arquitectura setecentista portuguesa : Barroco e Rococó (1974), Estudos sobre o Maneirismo (1983), O Pretérito Presente – Para Uma Teoria da Preservação do Património Histórico- Artístico (1984) e os dois volumes de Páginas de História da Arte (1986). Refira-se ainda o Dicionário de Termos de Arte e Arquitectura, editado em 2004,  obra sua que permaneceu inacabada devido à sua morte prematura mas que foi organizada e completada pela Profª Maria Margarida Calado para publicação.

O Prof. Pais da Silva foi académico efetivo da Academia Nacional de Belas Artes, na Cadeira nº 5, sucedendo ao Arqtº Carlos João Chambers Ramos em 9 de dezembro de 1970.

Freguesia de Carnide

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A Rua das Azáleas e o Arraial do Bairro da Boavista

Freguesia de Benfica

A Rua das Azáleas vai acolher o Arraial  Popular do Bairro da Boavista nas Festas de Lisboa’19, promovido pela ARMABB – Associação Recreativa de Moradores e Amigos do Bairro da Boavista, criada em 2001 e hoje sediada no nº 4 da Rua das Magnólias.

A Rua das Azáleas que começa na Rua Rainha Dona Catarina foi o topónimo atribuído ao arruamento resultante da junção da Rua 10 A com a Rua 11 A do Bairro da Boavista pelo Edital municipal de 6 de outubro de 2005.

O Bairro da Boavista, rodeado pela IC19 e o Parque Florestal do Monsanto,  é um bairro social criado entre 1939 e 1941, que como outros criados em Lisboa da década de quarenta aos anos setenta  – de que são exemplos o Bairro das Furnas (1946), o Bairro do Charquinho (1961), o Bairro Padre Cruz (1961), o Bairro das Pedralvas (1963), o Bairro da Cruz Vermelha (1966),   os Bairros da Musgueira Norte e Musgueira Sul e o Bairro da Horta Nova (1973), – seguiram o contorno periférico da cidade, próximo da Estrada Militar, aproveitando o baixo valor desses solos.

A toponímia deste Bairro da Boavista é essencialmente composta por denominações de plantas e nomes de rainhas portuguesas e como foram assim sendo conhecidos pelos moradores a Câmara Municipal de Lisboa oficializou estes topónimos. Quando houve uma reorganização urbanística e crescimento do Bairro da Boavista criou-se a necessidade de nomear seis novos arruamentos e a Comissão Municipal de Toponímia sugeriu para o efeito os nomes das espécies vegetais Acácias, Azáleas, Azevinho, Begónias, Buganvílias e Magnólias, que passaram a ser os topónimos atribuídos pelo Edital municipal de 6 de outubro de 2005.

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As Ruas do Arraial do Centieirense

Freguesia do Parque das Nações

A Rua da Centieira e a Avenida de Pádua vão ser o palco do Arraial Popular promovido pelo Grupo Recreativo Centieirense e a Junta de Freguesia do Parque das Nações, no local em que ambas as artérias se encontram.

O Grupo Recreativo Centieirense está sediada na Rua da Centieira nº 88 e foi constituído enquanto associação recreativa em 9 de outubro de 1975.

Freguesia do Parque das Nações

A Rua da Centieira é um topónimo que deve derivar da Quinta da Centieira que ali existiu, tal como havia uma Estrada da Centieira junto a esta quinta e à Quinta Ché, conforme surge na planta topográfica de Lisboa de Silva Pinto, de 1907. A Rua da Centieira é a parte da Estrada da Centieira que sobreviveu enquanto arruamento.

Nessa planta de 1907 podemos ver que outros topónimos desta zona eram a Estrada do Patacão, a Rua do Vale Formoso de Cima, a Quinta dos Paios -que era propriedade de Henrique Bastos-, a Quinta do Brincão, a Quinta do Desterro, a Quinta Nova, a Rua Direita dos Olivais, a Azinhaga do Casal das Rolas, a Rua do Vale Formoso de Baixo, o Casal das Rolas, a Azinhaga dos Manicotes, a Quinta dos Manicotes, a Quinta dos Ingleses e a Quinta do Vale Formoso de Baixo, delineando assim o carácter rural do local.

Por diversas escrituras municipais sabemos também que entre 1906 e 1917 se procedeu ao alargamento da Centieira fosse ela ainda Estrada ou já designada Rua, tendo cedido terrenos para esse efeito Henrique Bastos. Em 1932, para alargamento da Rua da Centieira, também cederam terrenos à Câmara José Lopes Júnior – da sua Quinta Ché – e Albino Marques e sua mulher. E depois, nos anos cinquenta, percebemos a industrialização do arruamento com venda de terreno à UTIC – União de Transportadores para Importação e Comércio (1953) e à SACOR – Sociedade Anónima de Combustíveis e Óleos Refinados (1958) que estava na zona de Cabo Ruivo desde 1940, ao mesmo tempo que a edilidade – em 1956 – comprava prédios e o Pátio Joaquim Pereira a Joaquim Pereira Junior  e a Maria das Dores Pereira.

Segundo José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, centieira é topónimo de diversos locais em Portugal e deriva de uma ave denominada centieiro, que é também nome de uma localidade no Bombarral.

Já a Avenida de Pádua foi atribuída pelo Edital  municipal de 10 de novembro de 1966 no arruamento de acesso ao Cemitério dos Olivais, também conhecido como Rua E, mas desconhecem-se as razões dessa escolha. A única Ata da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia que menciona o assunto é a de 7 de novembro de 1966, na qual apenas se expressa o seguinte : « Processos números 13184/65, 13852/65, 14032/65 e 14052/65, originados por requerimentos de Sociedade Lorilleux-Lefranc [ empresa produtora de tintas para processos gráficos, vernizes e secantes, sediada no lote 67 desse arruamento]e outros, solicitando que seja atribuída denominação definitiva ao arruamento de acesso ao Cemitério dos Olivais. A Comissão foi de parecer que à referida artéria seja atribuído o nome de Avenida de Pádua.»

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