A Rua de São Bernardo de Claraval na cerca do Convento de São Bento

Freguesias de Campo de Ourique e da Estrela
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

São Bernardo, um dos santos louvados pela Ordem de São Bento, passou também a topónimo numa das ruas construídas na antiga cerca do Convento de São Bento, que hoje reconhecemos como a artéria que liga a Calçada da Estrela à Avenida Álvares Cabral.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa, o topónimo desta rua terá sido estabelecido em 1793, conforme se pode ler na seguinte passagem: «Esta Travessa de Santa Quitéria (1759), tal como a Rua de Santo Amaro, as Travessas de Santa Gertrudes (hoje Rua Teófilo Braga), de S. Plácido, de Santa Escolástica (hoje Rua dos Ferreiros), de Santo Ildefonso (tôdas datando de 1763), e a Rua de S. Bernardo, trinta anos mais moderna que as anteriores, foram talhadas na cêrca do Convento de S. Bento; os nomes, postos pelos frades, são dos santos da sua Ordem».

No século seguinte, em 1859, parte desta via, junto com as Travessas de Santo Amaro e de Santa Iria,  passaram a constituir um arruamento único com a denominação de Travessa de Santo Amaro, conforme está no Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro. Em 1878, a Rua de São Bernardo ainda terminava na Travessa de Santa Quitéria , uma vez que só a partir de 1889 se começou a traçar a abertura da artéria que veio a ser a Avenida Álvares Cabral, onde nos nossos dias finda a Rua de São Bernardo.

Freguesias de Campo de Ourique e da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O homenageado é São Bernardo de Claraval a quem D. Afonso Henriques doou em 1153,  assim como à Ordem de Cister, um vasto território de 44 mil hectares.  Bernardo de Claraval ou de Fontaine (França- Dijon /1090 – 1153/  Abadia de Claraval – França) foi o maior impulsionador da Ordem de Cister e uma das personalidades eclesiásticas mais influentes do século XII , como abade cisterciense, santo e Doutor da Igreja. Vinte e um anos após a sua morte, em 18 de julho de 1174, foi canonizado por Alexandre III, sendo 20 de agosto o seu dia, que por isso mesmo é o feriado municipal de Alcobaça. Sete séculos depois, em 1830 foi declarado Doutor da Igreja por Pio VIII.

Refira-se que no séc. XVII, em 18 de setembro de 1664, D. Afonso VI  fez um Decreto a ordenar que os tribunais encerrassem  no feriado de São Bernardo.

São Bernardo está também na toponímia de Alcabideche, Aveiro, Coimbra, Grândola, Lamego, Mafra, Mangualde, Manteigas, Marco de Canavezes, Ourém, Pontinha, Portalegre, Porto,  Salvaterra de Magos, São Pedro do Sul, Sátão, Setúbal, Tarouca e Viseu.

A Rua de São Bernardo em 1968
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

 

 

 

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A Avenida da Igreja de São João de Brito

A Avenida da Igreja em 1959
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Avenida que a partir do Campo Grande dá acesso à Igreja de São João de Brito, construída entre 1951 e 1955, desde a publicação do Edital municipal de 19 de julho de 1948 que é a Avenida da Igreja.

Este arruamento dividia os grupos 1 e 2 do Sítio de Alvalade e mais tarde, será já como Avenida da Igreja que fará também de linha divisória entre as freguesias do Campo Grande e de São João de Brito, quando esta última freguesia for criada em 7 de fevereiro de 1959, pelo Decreto-Lei nº 42142. Hoje, toda a Avenida da igreja é pertença da Freguesia de Alvalade.

O Edital de 1948 atribuiu mais 19 topónimos, nas ruas do Sítio de Alvalade identificadas com os números 1 a 19: Rua Afonso Lopes Vieira, Rua Branca de Gonta Colaço, Rua Fernando Caldeira, Rua Rosália de Castro, Rua Alberto de Oliveira, Rua João Lúcio, Rua Antónia Pusich, Rua Fausto Guedes Teixeira, Rua Eugénio de Castro, Rua Violante do Céu, Rua Fernando Pessoa, Rua Luís Augusto Palmeirim, Rua António Patrício, Rua Bernarda Ferreira de Lacerda, Rua Eduardo Vidal, Rua Camilo Pessanha, Rua Guilherme de Azevedo, Rua Mário de Sá Carneiro e Rua Florbela Espanca.

A Igreja de S. João de Brito que foi inaugurada em 2 de outubro de 1955, estava já traçada pelo arqº  Vasco Morais Palmeira em 1951 e no ano seguinte iniciou-se a construção do templo, com fundos provenientes da venda da Igreja da Conceição Nova (demolida em 1951), de onde veio também parte do espólio para a nova igreja.  João de Brito havia sido canonizado em 22 de junho de 1947 e nesse mesmo ano os CTT lançaram um selo comemorativo do 3º centenário do seu nascimento.

O Bairro de Alvalade estava projetado desde 1945 pelo arquiteto urbanista municipal Faria da Costa e a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, criada no ano de 1943, foi sugerindo os topónimos para este novo bairro que foi nascendo nas décadas de quarenta e de cinquenta, alterando a feição arrabaldina desta zona da cidade.

A Avenida da Igreja em 1958
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua Beata Ascensão Nicol junto às Missionárias Dominicanas do Rosário

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A fundadora das Missionárias Dominicanas do Rosário, a Beata Ascensão Nicol, está desde 2009 como topónimo da artéria onde está sediada esta congregação em Lisboa, seguindo o pedido que fizeram à edilidade lisboeta.

Com a legenda «Fundadora das Missionárias Dominicanas do Rosário/1868 – 1940», está a Rua Beata Ascensão Nicol a ligar a Rua da Vila de São Martinho à Rua Baldaque da Silva, desde a publicação do Edital municipal de 30 de janeiro de 2009, no arruamento antes identificado como Rua I à Rua Perez Fernandez.

Florentina Nicol Goñi (Espanha-Tafalla/1868 – 24.02.1940/Pamplona – Espanha), nascida numa família de comerciantes de Navarra, tomou o nome de Ascensão do Coração de Jesus em 1886, nas Dominicanas de Huesca e foi a primeira missionária a penetrar na selva peruana amazónica, depois de atravessar os Andes, onde criou uma escola para meninas em 1913 e cinco anos depois, fundou a Congregação das Missionárias Dominicanas do Rosário, em Lima, pautando a sua missão pelo desenvolvimento integral da pessoa, sobretudo dos mais pobres e abandonados.

Na gradual internacionalização da sua Congregação Ascenção do Coração de Jesus veio a Portugal em 1933, para também aqui a instalar, embora só em 1968 tenha tido assento em Lisboa, dedicando-se desde então ao acolhimento e ajuda a freiras de países lusófonos ao passarem por Portugal, apoio a estudantes universitárias, acolhimento em creche e ensino pré-escolar .

Foi beatificada em 14 de  maio de 2005, a primeira beatificação do Papa Bento XVI, que declarou Madre Ascensão do Coração de Jesus Nicol Goñi  «como uma das maiores missionárias do século XX.»

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Beco dos Lóios para não ser Beco das Cabras

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Beco dos Lóios, que faz a ligação da Rua de Santa Marinha à Rua do Salvador, foi o topónimo escolhido para substituir o topónimo Beco das Cabras, por deliberação camarária de 23 de agosto de 1922 e consequente Edital municipal de 17 de outubro de 1924.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo afirma que «A sua categoria primitiva foi a de travessa – ‘rua q vay junto á travessa dos Cabras’ – e a primeira vez que nos aparece nos registos paroquiais de S. Tomé é em 1705 [no Livro de Óbitos]. Ainda não sabemos que Cabras – apelido ou alcunha – deram o nome à serventia». Ou seja, o primitivo topónimo resultava do nome de gente conhecida localmente. Mas já em 1812 o Padre Carvalho Costa,  na sua Corografia Portuguesa, menciona este arruamento como Beco das Cabras, tal como está na planta de 1858 de Filipe Folque e assim ficou até lhe ser mudado o nome para Lóios, aproveitando uma relativa proximidade ao Largo dos Lóios.

Refira-se que por este mesmo Edital de 1924 também o Beco do Monete passou a ser a Travessa da Madalena, por proximidade à Rua da Madalena. Parece assim ter existido uma vontade municipal de mudar os topónimos que nasceram a partir de alcunhas de moradores locais para os referenciar antes a uma artéria próxima, que nestes dois casos foi de categoria religiosa.

Por sua vez, o Largo dos Lóios, «um pequeno largo que datava de 1677, ano em que fora regulado pela Câmara a pedido dos frades» conforme esclarece Norberto de Araújo, nasceu dos frades lóios do Convento de São Paulo e de Santo Elói ali implantado. Este Convento de Santo Elói foi fundado em 1284 pelo 10º bispo de Lisboa, D. Domingos Jardo, tendo cerca de 1442 sido convertido em Casa dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista, S. Clemente e Santo Elói. O Convento foi quase pulverizado aquando do terramoto e em 1834, quando da extinção das ordens  religiosas ainda não estava concluída a sua reconstrução pelo que o terreno acabou por mais tarde servir para lá se instalar a 5ª Companhia da Guarda Municipal, mais tarde Guarda Nacional Republicana.

O topónimo Lóios está também presente em Agualva-Cacém, na Caparica, Évora, Lavradio, Nelas e Santo Antão do Tojal.

Freguesia de São Vicente (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua São Francisco Xavier em Belém

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

São Francisco Xavier, padre, missionário e santo, conhecido pelos epítetos de Apóstolo do Oriente e Santo Padroeiro de Goa, é o topónimo de um arruamento de Belém desde 1948, especificamente, do Plano de Urbanização da Encosta do Restelo.

A Rua São Francisco Xavier foi atribuída pelo Edital municipal de 29 de abril de 1948 à Rua VI do Plano de Urbanização da Encosta do Restelo  ou Encosta da Ajuda, fazendo a ligação da Rua Dom Lourenço de Almeida à Rua Soldados da Índia. Por este mesmo Edital,  o primeiro da edilidade lisboeta a fixar em Belém memórias dos lugares e figuras referentes à Expansão Portuguesa, para além da Rua da Alcolena (um topónimo tradicional da zona derivado do Casal de Alcolena) foram mais os seguintes 20 topónimos: Praça do Império, Avenida da Índia, Avenida Dom Vasco da Gama, Praça de Damão, Praça de Dio, Praça de Goa, Praça Dom Manuel I,  Rua Damião de Góis, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Dom Lourenço de Almeida, Rua Duarte Pacheco Pereira, Rua Fernão Mendes Pinto, Rua Fernão Lopes de Castanheda, Rua Tristão da Cunha e Rua Soldados da Índia.

Na época, este Edital tem ainda o significado de ser também o primeiro a responder com a manutenção da política colonial. Em 1947, os britânicos concederam a independência indiana e o primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, exigiu a  integração da Índia Portuguesa na União Indiana. A resposta do Governo português também foi dada através deste Edital de toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, logo no ano seguinte.

Imagem de São Francisco Xavier trazida de convento de Diu (Foto: António da Silva Fernandes Duarte, 1969, Arquivo Municipal de Lisboa)

Francisco Xavier (Espanha- Pamplona/07.04.1506 – 03.12.1552/ilha de Sanchoão – China) após conhecer em Paris Inácio de Loyola, na Sorbonne, torna-se padre jesuíta e D. João III incumbe-o em 1541 de evangelizar o Oriente e nessa missão percorreu Goa, Comorim, Manapar e Cochim e depois, as ilhas de Madrasta, Maçacar, Malaca, Molucas, Ceilão, Amboíne e Moro. Foi nomeado Superior da Companhia de Jesus de toda a Missão da Índia Oriental, desde o Cabo da Boa Esperança até à China.

Nos milhares de quilómetros que palmilhou, São Francisco Xavier visitou mais de cinco dezenas de reinos, fundou Igrejas, reorganizou as missões, foi exemplo de solidariedade cristã, tendo sido venerado por milhões de pessoas e canonizado pelo Papa Gregório XV em 1622, sendo o seu dia celebrado a 3 de dezembro.

Entretanto, já desde a década de 80 do século XX que se desenvolviam esforços para a construção de uma Igreja Paroquial dedicada a São Francisco Xavier no Alto do Restelo, que era então freguesia de São Francisco Xavier e daí resultou a atribuição da Praça de São Francisco Xavier à rotunda na confluência da Avenida Ilha da Madeira com a Rua Antão Gonçalves e com a Rua Carlos Calisto, pelo Edital municipal de 16 de dezembro de 2004, estando assim São Francisco Xavier duas vezes na toponímia de Lisboa.

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

São Francisco Xavier está também presente na toponímia de Algueirão-Mem Martins, Barcarena, Buraca, Calheta, Carcavelos, Chaves, Coimbra, Mirandela, Estremoz, Fafe, Fernão Ferro, Ferrel, Gafanha da Nazaré, Leça do Balio, Loures, Lourinhã, Massamá, Montijo, Nazaré, Paio Mendes, Palmela, Pinhal Novo, Ponta Delgada, Pontinha, Porto, Póvoa de Santo Adrião, Rio de Mouro, Rio Tinto, Sacavém, Santa Iria de Azóia, São Domingos de Rana, São João da Madeira, São Julião do Tojal, Setúbal, Trofa, Viana do Castelo, Vila Nova de Famalicão e Viseu.

Freguesia de Belém
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Beco da Mitra junto ao Palácio da Mitra

Em 2014 – Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Beco da Mitra recebe o seu nome da proximidade ao Palácio da Mitra ou Palácio Patriarcal de Marvila, já que nasce na Rua do Açúcar, na esquina com o seu nº 66, e o Palácio, uma construção do séc. XVII que foi residência dos prelados de Lisboa, se situa na Rua do Açúcar nº 64.

É justo supor que este pequeno arruamento surgiu junto do Palácio da Mitra no séc. XX , uma vez na planta de Lisboa de 1908 ainda não surge mencionado o topónimo mas apenas nesta zona da cidade estão a Linha Férrea do Norte e Leste, a Rua do Açúcar, a Rua António Maria Tavares, a Quinta da Quintinha e o Rio Tejo. Mais tarde, este topónimo já aparece mencionado: em 1941, no Guia das Ruas de Lisboa da Tipografia Gonçalves e a Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 22 de janeiro de 1945, confirmou esta nomenclatura.

A Mitra de Lisboa já no séc. XIII era detentora de bens em Marvila, tanto mais que as terras dos mouros nessa zona lhe tinham sido doadas. Já o Palácio da Mitra remonta ao princípio do século XVII e sofreu obras de restauro nos séculos XVIII (1716 a 1744) e XIX, tendo ficado conhecido por ser a residência de D. Tomás de Almeida (Lisboa/1670 – 1754/Lisboa), o 1º Patriarca de Lisboa, no período de  1716 a 1754. Note-se que a grade da porta em ferro do palácio ostenta iniciais, sendo que  T.C.P. quer dizer Tomás Cardeal Patriarca e P.D.L.  é Prelado da Diocese de Lisboa, assim como o portão principal exterior de acesso ao Pátio do Palácio está encimado pelo brasão dos Almeidas.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Em 1834, com a lei da extinção das ordens religiosas, este Palácio da Mitra foi incorporado na Fazenda Pública e, em 1902 foi comprado por  António Centeno que, por seu turno, o vendeu a um seu sócio para aí instalar a Fábrica Seixas de Metalurgia e Fundição, com escritórios nos salões e a fábrica nas cocheiras, empresa que acabou extinta em 1925. Em abril de 1930, a Câmara Municipal de Lisboa comprou o palácio, terreno e anexos, tendo instalado no terreno o Asilo da Mitra (inaugurado em 1933) e no palácio, a Biblioteca Municipal (inaugurada em 1934). Mais tarde, em 1941, também o Museu da Cidade foi instalado no palácio, onde se manteve até 1973 e, a partir de 1975, o andar inferior foi cedido para sede do Grupo «Amigos de Lisboa».

Em Portugal, «da Mitra» integra a toponímia de Évora, Gondomar, Guarda, Mafra, Óbidos e Santa Marta de Penaguião.

Em 2014 – Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Alameda do Beato António

Freguesia do Beato
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Alameda do Beato deve o seu nome ao Convento do séc. XVI que ali foi mandado erguer por Filipe I, sob a coordenação do  cónego Frei António da Conceição, que depois foi beatificado.

Inicialmente,  dada a sua configuração, esta artéria era vulgarmente conhecida por Largo do Beato e é com essa denominação que aparece na planta de Filipe Folque de 1858, tal como sucede na planta municipal de calçadas e canalizações de 1871. Já na planta de 1908 que Silva Pinto executou para a CML é referida como Alameda do Beato e era o local onde no início do século XX se realizavam arraiais, conforme se encontra na documentação municipal.

O Convento do Beato António, como ficou conhecido, passou para a toponímia em redor e assim está ainda hoje na Rua do Beato ( freguesias de Marvila e do Beato ), na Travessa da Alameda do Beato ( freguesia do Beato ), na Travessa do Olival ao Beato ( Beato ) e até a própria denominação da Freguesia onde se insere esta Alameda.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O homenageado neste topónimo é o Frei António da Conceição (Évora/1520 – 1602/Lisboa), que após a beatificação ficou conhecido como Beato António e foi neste sítio o responsável pela construção do novo Convento de S. Bento de Xabregas, a mando de Filipe I. Terá sido tão importante o seu papel que o próprio mosteiro ficou conhecido pelo nome de quem dirigiu a obra.

Desde o séc. XV que existia neste local uma Ermida de S. Bento, propriedade dos frades de Alcobaça no no reinado de D. João I. Em 1461, para dar execução ao testamento da sua falecida esposa D. Afonso V mandou construir no local um hospício-convento que entregou aos religiosos de Vilar de Frades, da Congregação dos Lóios, conhecido até aos finais do século XVI como Convento de São Bento de Enxobregas. Mais tarde, oriundo do Convento dos Lóios de Évora veio Frei António da Conceição dirigir a construção de um sumptuoso convento sobre o primitivo edificado. Segundo a tradição, o frade ganhou fama de milagreiro por ter conseguido erguer a  obra com poucos recursos monetários. Como após falecer, o frade ganhou estatuto de homem santo vindo a ser beatificado no século XVIII, tanto o convento como o sítio passaram a denominar-se Beato António.

Em 1622 ficou pronto o panteão da família dos Condes de Linhares numa nova capela-mor deste templo. O convento quase não foi atingido pelo terramoto de 1755 e acolheu os religiosos do vizinho Convento dos Lóios, passando também a sede da paróquia de São Bartolomeu ao Castelo. Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, o templo foi convertido em hospital militar, embora tenha ardido pouco depois, em 1840. O que ficou de pé foi adquirido pelo industrial João de Brito que aí montou um armazém de vinhos, uma oficina de carpintaria e tanoaria e ainda, uma fábrica de moagem a vapor, que a partir de 1849 a Rainha D. Maria II autorizou que usasse como nome de marca «A Nacional».

Nos últimos anos do século XX, o espaço do convento começou a ser usado em eventos de índole cultural e social.

(Foto: Henrique Cayolla, sem data, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

A Rua da Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes

A Rua dos Navegantes em 1945
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Irmandade do Senhor Jesus dos Navegantes e de Nª Sr.ª da Caridade  do Convento da Esperança fez nascer neste arruamento a Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes e da Senhora da Caridade e o nome serviu de topónimo para identificar a artéria, no formato reduzido de Rua dos Navegantes.

A Ermida do Senhor Jesus dos Navegantes e da Senhora da Caridade, que hoje vemos de fachada virada à Rua da Bela Vista à Lapa, foi erguida neste arruamento dois anos após o Terramoto de 1755, por licença do cardeal patriarca D. José de 1757, num estilo rococó e com azulejos a decorar a nave. Porém, Norberto de Araújo defende que a Rua dos Navegantes já existiria com este nome em 1715, por via da Capela já aqui existir, mandada construir pela Confraria da Caridade, sendo que  após o incêndio que sofreu por mor Terramoto de 1755, um casal de fiéis conseguiu salvar as imagens – do Senhor Jesus dos Navegantes e da Senhora da Caridade – que passaram assim para nova Ermida construída em 1757.

O olisipógrafo refere mesmo que  «Havia no Convento da Esperança, desde quási o seu comêço, uma Irmandade do Senhor Jesus dos Navegantes e de Nª Sr.ª da Caridade, com capela própria. Sobreveio o Terramoto, e os irmãos, tudo gente do mar, como o eram os da Irmandade de Nª Srª da Esperança, levaram as suas imagens, em grande procissão, para o Campo das Trinas – descampado como a palavra o diz. Só em 1757 se fêz erguer esta pequena Ermida, logo objecto de devoção dos marítimos. Á entrada da Ermida, de ambos os lados da porta, vêem-se legendas contando a história da irmandade e a da transferência das imagens para êste sítio.» 

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Nos painéis de azulejos da capela,  o primeiro grupo localizado na capela-mor, evoca a caridade da Nossa Senhora através da representação das Bodas de Canã, de um lado e a Piedade do Senhor através da representação da Pesca Milagrosa, do outro. O segundo grupo de painéis mostra a aflição dos fiéis junto à Igreja aquando do Terramoto e a Condução das Imagens da nova capela em procissão.

Em 1898, a Igreja dos Navegantes desta artéria teve uma significativa campanha de restauro. Nos dias de hoje, esta Rua dos Navegantes liga a Rua de Borges Carneiro à Rua de João de Deus, ambos topónimos atribuídos do último quartel do séc. XIX.

Navegantes como topónimo – antecedido ou não de Senhor ou Senhora dos – é recorrente, sobretudo por todo o litoral do país, estando presente na toponímia de Abrantes, Albufeira, Alverca do Ribatejo, Angra do Heroísmo, Armação de Pêra, Belas, Camarate, Carvoeiro (Lagoa), Cascais, Colares, Costa de Caparica, Covelo (Gondomar), Ericeira, Figueira da Foz, Gafanha da Nazaré, Lourinhã, Murtosa, Paço de Arcos, Peniche, Porto, Porto Salvo, Santa Cruz da Graciosa, Santa Maria da Feira, São João da Talha, Setúbal, Sintra, Tavira, Valpaços, Vieira de Leiria, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia ou Vila Nova de Santo André.

A Rua dos Navegantes em 1945
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa do Convento de Jesus aberta no século XVII

Freguesia da Misericórdia (Foto: NT do DPC)

Esta Travessa do Convento de Jesus, que hoje vemos a ligar o Largo do Dr. António de Sousa Macedo ao Largo de Jesus, foi aberta no século XVII e teve topónimo oficializado pelo Edital municipal de 17 de outubro de 1924 que regista «que se conserve egualmente a designação travessa do Convento de Jesus que lhe foi dada pelo publico»,  fazendo este topónimo , tal como o Largo de Jesus, referência à proximidade ao Convento de Jesus ali erguido no século XVII.

Esta artéria foi aberta em 1678 e o topónimo foi dado pela população local por ir direitinha à fachada do Convento da Ordem Terceira de Jesus. Tal como a Travessa da Arrochela, surgem nas informações e plantas delineadas pelos serviços municipais a partir de maio de 1889, para servir o Liceu Passos Manuel que ali ia ser construído, sendo mencionadas como «uma delas com início no largo de São Bento até à calçada do Combro» ou «entre o largo das Cortes e a calçada do Combro»  e  uma outra « com início na calçada do Combro até à rua do Arco de Jesus [ em 1844 é referida como Rua do Arco do Marquês por desembocar na Rua Formosa do Palacete Pombal e desde 1924 é a Rua da Academia das Ciências]». Em 1856, Filipe Folque menciona-a no seu Atlas como Rua do Convento de Jesus e em 1883, Francisco Goullard no seu levantamento topográfico, já designa este arruamento como Travessa do Convento de Jesus.

Antes, de acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo « (…) Este sítio era de cardos, inculto por consequência, – ‘cardais’ lhe chamavam – e a tal ermida, assistida de um ermitão, encostava-se a uma casa de um tal Luiz Rodrigues e de seu irmão, que fizeram aos religiosos da Ordem Terceira de S. Francisco doação de sua propriedade logo que aermida foi entregue ao franciscano, em 1582. Principiou a ação dos religiosos num pequeno hospício (1595) mas em 1615 construiu-se o grande templo do Convento que sucedera ao modesto hospício, sendo inaugurado em 1632» o Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de São Francisco.

Sofreu remodelações após o terramoto, de 1757 a 1795, com risco do arquiteto Joaquim de Oliveira e o acrescento de uma nova casa: a Livraria. Após a extinção do Convento em 1834, o Hospital de Jesus manteve as suas funções ligadas à saúde, a igreja do antigo convento passa a servir de igreja paroquial das Mercês e a zona conventual  passou a pertencer à Academia das Ciências de Lisboa, onde também foram instalados o Curso Superior de Letras e os Serviços Geológicos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Refira-se ainda que foi em terrenos da antiga cerca do Convento de Jesus que em 1906 se começou a construir o Liceu Passos Manuel que foi inaugurado no ano letivo de 1911/12, tendo sido a Travessa do Convento de Jesus alinhada em julho de 1911.

E em dezembro de 2010 foi atribuída a classificação de Conjunto de Interesse Público ao Convento de Nossa Senhora de Jesus, Igreja de Nossa Senhora de Jesus, Academia das Ciências, Museu Geológico, Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora de Jesus e Hospital de Jesus.

 

A Rua de São Gens, o bispo dos bons partos de Lisboa

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Num dos arruamentos do Bairro Novo do Monte, na Graça, erguido nos primeiros anos do séc. XX, a Rua de São Gens perpetua o bispo de Lisboa ainda do período da Olisipo romana que foi martirizado neste local e cuja cadeira se acreditava fornecer um bom parto.

Esta artéria que forma um ângulo recto, a sul da Rua da Senhora do Monte, foi atribuída pelo Edital municipal de 18 de dezembro de 1903, o mesmo que atribuiu a Rua da Senhora do Monte à via pública definida entre a Rua da Graça e o Largo do Monte. Foram esta ruas construídas por António Higino de Magalhães Mendonça, conforme escritura de 21 de junho de 1901, que as entregou prontas à Câmara Municipal de Lisboa em 31 de janeiro de 1903.

De acordo com Norberto de Araújo «O Bairro do Monte, urbanizado, data de 1902, embora anteriormente existisse na sua Calçada [Calçada do Monte], no seu alto de S. Gens, e num ou noutro arruamento impreciso.(…) Data desta época o Bairro (novo) do Monte, definindo-se, em plano de urbanização, as Ruas de S. Gens e da Senhora do Monte, esta já existente antes, como natural descida do alto de S. Gens à Rua da Graça.»

Imagem relacionadaFoi a São Gens, bispo de Lisboa quando esta era a romana Olisipo, celebrado a 8 de maio, que foi consagrada a Ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, porque de acordo com a tradição teria sido nesse local que o religioso fora martirizado. O olisipógrafo Norberto de Araújo precisa que «A Ermida não assentava neste sítio; ficava nas faldas do Monte, já chamado de S. Gens, a cair sôbre as Olarias e a Bombarda futuras, e logo ao ser construída serviu de casa de oração aos eremitas de Santo Agostinho, que junto dela fizeram erguer umas casas para habitação, e um Hospício, que se chamou Eremitério de S. Gens.» mas no século seguinte, «(…) em 1243, a proprietária dêste sítio, uma D. Suzana, muito piedosa, cedeu-lhes terreno para melhor pousio e mais decente ermida. Levantou-se então um pequeno Convento com a Igrejinha de S. Gens, para a qual veio a cadeira de pedra, onde era tradição que se sentava o santo bispo quando doutrinava, e que se conservava no primitivo santuário.»

O olisipógrafo fala ainda sobre a devoção popular a este santo Genesius (em latim), sobretudo na esperança de um bom parto, de que até a rainha esposa de D. João V se terá servido: «Em 1291, os frades agostinhos levantaram a sua imponente casa na Graça, saindo daqui, mas continuando a ermida na sua posse. S. Gens era objecto de devoção popular. As mulheres, em transe de maternidade, vinham sentar-se na velha cadeira, com fé no bom sucesso, prática que foi seguida até pela Rainha D. Maria Ana de Áustria, em 1723.»

São Gens consta também da toponímia de Alvaiázere, Amares, Arganil, Braga, Cartaxo, Castelo Branco, Fafe, Fundão, Gondomar, Lamego, Matosinhos, Montemor-o-Velho, Ourém, Penafiel, Sabugal, Santarém, Serpa, Trofa, Valongo, Vila do Conde, Vila Verde e Viseu.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)