O 25 de Abril e a Avenida Ribeira das Naus ou do Arsenal

A Avenida da Ribeira das Naus foi o palco de momentos tensos na manhã de 25 de Abril de 1974, com o pelotão de RC 7 às 7H30 horas, a fragata Almirante Gago Coutinho posicionada no Tejo às 9 horas e as tropas do major Pato Anselmo cerca de meia hora depois a confrontarem-se com os militares do Movimento das Forças Armadas.

As forças da EPC – Escola Prática de Cavalaria comandadas pelo capitão Maia (como nesse dia foi denominado) assumiram o controlo da Praça do Comércio e artérias adjacentes antes das 6 da manhã. Às 7:30 horas chegou à Avenida da Ribeira das Naus um pelotão de reconhecimento Panhard do RC 7 – Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo  tenente-coronel Ferrand de Almeida que acabou por se render meia hora depois. Às 9 horas, tomou posição intimidatória no Tejo a  fragata Almirante Gago Coutinho mas até ao meio-dia, quando se afastou para o Mar da Palha, nunca abriu fogo. A artilharia do Movimento das Forças Armadas, estacionada no Cristo-Rei, também recebeu ordens do Posto de Comando para afundar a fragata caso esta abrisse fogo. A partir das 9:35 horas dois carros de combate M47, comandados pelo major Pato Anselmo, tomaram posições na Avenida da Ribeira das Naus e outros dois na Rua do Arsenal, mas cerca de uma hora depois essas tropas passaram-se para o Movimento dos Capitães, graças ao civil e ex-alferes miliciano Fernando Brito e Cunha. De seguida,  o brigadeiro Junqueira dos Reis dirigiu as tropas  que lhe restavam da Rua do Arsenal para a Avenida da Ribeira das Naus e ordenou ao alferes miliciano Fernando Sottomayor (do RC 7) que abrisse fogo sobre Salgueiro Maia mas este recusou obedecer pelo que foi detido. Repetiu a ordem ao cabo apontador José Alves Costa mas este fechou-se dentro do carro de combate. O oficial-general foi então para a Rua do Arsenal mas todos os cabos se recusaram a abrir fogo. Às 10:20, o capitão Tavares de Almeida, o major Jaime Neves e os alferes milicianos Maia Loureiro e David e Silva negociaram a rendição do major Pato Anselmo na Avenida da Ribeira das Naus, e esta acabou por acontecer.

Tanto a Avenida da Ribeira das Naus como a Rua do Arsenal foram palco de acontecimentos tensos no dia 25 de Abril de 1974. Também ambos os topónimos partilham a mesma origem: o Arsenal da Marinha, descendente das tercenas de D. Manuel I.

A doca seca do Arsenal da Marinha foi atulhada em 1939 para permitir a construção da Avenida da Ribeira das Naus, paralela à Rua do Arsenal. Este novo arruamento teve topónimo atribuído em 1948, pelo Edital municipal de 22 de junho.

A zona marginal do Tejo, entre a Praça do Município e a Igreja da Conceição Velha, era a Ribeira até que com D. Manuel I passou a ser o local das tercenas onde se construíram os navios necessários, a ponto de o rei  ter mandado construir o seu Paço mesmo ao lado para melhor verificar esses trabalhos. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo naval mas a sua reconstrução iniciou-se logo em 1759, sob o traçado de Eugénio dos Santos.  Durante muito tempo o local foi conhecido como Ribeira das Naus, sendo extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus, depois designado Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910 ficou apenas Arsenal da Marinha. Em 1936, o Arsenal começou a ser transferido para as instalações navais do Alfeite e terminou a sua laboração em 1939 quando se começou a construir a Avenida da Ribeira das Naus.

Refira-se ainda que no mesmo ano de 1948, pelo Edital de 29 de Abril, foram atribuídos mais topónimos evocativos do antigo Império Português, mas em Belém, onde em 1940 havia decorrido a Exposição do Mundo Português. Foram atribuídos a Praça do Império, a Avenida da Índia, a Praça de Goa, a Praça de Damão, a Praça de Dio, a Rua Soldados da Índia, assim como topónimos de figuras ligadas à Expansão Portuguesa, como navegadores – Avenida Dom Vasco da Gama, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Fernão Mendes Pinto -, representantes das autoridades de Portugal – Rua Dom Lourenço de Almeida, Rua Tristão da Cunha – , historiadores da época – Rua Damião de Góis, Rua Fernão Lopes de Castanheda -, bem como cientistas – Rua Duarte Pacheco Pereira – e missionários – Rua São Francisco Xavier – e o próprio rei dessa época do Império Português com a Praça Dom Manuel I. Refira-se que ainda em 1948, a 29 de dezembro, a edilidade lisboeta colocou uma lápide nesta Avenida da Ribeira das Naus na qual se podia ler «Neste local construíram-se as naus que descobriram novas terras e novos mares e levaram a todo o mundo o nome de Portugal».

(Foto: Flama, 3 de maio de 1974)

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Na próxima terça-feira, dia 23 de abril, inauguração do Largo Frederico Valsassina

Largo Frederico Valsassina – Freguesia de Marvila

Na próxima terça-feira, dia 23 de abril, às 10: 30 horas, será inaugurado o Largo Frederico Valsassina, junto à entrada principal do Colégio Valsassina, com a presença de Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,  bem como de familiares do homenageado.

Conforme a Vereadora Catarina Vaz Pinto refere na nota introdutória da brochura sobre Frederico Lúcio de Valsassina Heitor (Lisboa/17.07.1930 – 07.05.2010/Lisboa), a edilidade «orgulha-se de homenagear Frederico Valsassina Heitor pelo seu projeto educativo de base humanista, justamente no ano em que se comemoram os 120 anos da criação do Colégio Valsassina e passados setenta anos sobre a aquisição da Quinta das Teresinhas, sede do respetivo estabelecimento de ensino. O Largo Frederico Valsassina é o reconhecimento do seu legado como educador e docente, pedagogo peculiar e humanista com reflexo na cidade de Lisboa e no país.»

A Rádio Marconi e a Rua de São Julião

Largo de São Julião
(Diário Popular, 25 de abril de 1974)

Cerca das 5H45 as forças da EPC, comandadas por Salgueiro Maia, instalaram-se  na Praça do Comércio, assumindo simbolicamente o poder dos Ministérios e cercando outros pontos estratégicos próximos, como a Rádio Marconi, Viena de nome de código.

No dia 25 de abril de 1974, a coluna da EPC- Escola Prática de Cavalaria comandada por Salgueiro Maia, chega à Baixa de Lisboa, cerca os ministérios e ocupa a Praça do Comércio (Toledo, de nome de código), bem como outros pontos estratégicos da zona, como o Banco de Portugal na Rua do Comércio e a Rádio Marconi, na paralela Rua de São Julião. Ao Posto de Comando instalado na Pontinha comunicou Salgueiro Maia «maior de Charlie Oito ao Posto de Comando: Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena.» Conforme  Salgueiro Maia declarou na altura ao jornalista Adelino Gomes,  «Estamos aqui para derrubar o Governo».

Viena era o nome de código da sede da Rádio Marconi, instalada no nº 131 da Rua de São Julião desde 1925  e  por extenso denominada  Companhia Portuguesa Rádio Marconi, SA., uma empresa de telegrafia e de satélite portuguesa. A CPRM – Companhia Portuguesa de Rádio Marconi foi constituída a partir do contrato de concessão celebrado entre o governo português e a Marconi Wireless Telegraph Company Limited , com  estatutos publicados em 18 de julho de 1925. A sua preponderância nas comunicações sem fios tornou-a um alvo estratégico.

A Rua de São Julião é uma artéria pombalina resultante do reordenamento urbanístico da Baixa lisboeta após o terramoto de 1755, que se estende da Rua da Padaria ao  Largo de São Julião, sendo este último confinante com a Rua do Comércio e a Praça do Município. Este topónimo foi atribuído pelo decreto régio de 5 de novembro de 1760  – o primeiro diploma a instituir topónimos na cidade -, junto com a determinação de neste arruamento se instalarem os algibebes, os vendedores de fatos já feitos ao invés dos alfaiates que os faziam por medida.

De acordo com Norberto de Araújo esta artéria teria como antepassada a rua de San Gião referida  no Pranto de Maria Parda do teatro vicentino. Já segundo Luís Pastor de Macedo, começou este arruamento a ser referido com o nome oficial de São Julião em 1762, e em 1781, era mais conhecido como rua ou travessa dos Algibebes.

Tanto a Rua como o Largo de São Julião, são topónimos resultantes da proximidade à igreja medieval de São Julião, na qual, de acordo com a tradição oral, terá sido batizado Pedro Julião, também conhecido como Pedro Hispano e que se tornou o Papa João XXI, em 20 de setembro de 1276. Esta igreja de São Julião foi paróquia do Paço da Ribeira mas ruiu com o terramoto o que obrigou à sua reedificação, que decorreu de 1802 até 1810. No século  XX  o templo passou a propriedade do Banco de Portugal, sendo agora o Museu da Moeda, após a adaptação traçada pelo arquiteto Gonçalo Byrne.

A Rua de São Julião
(Flama, 3 de maio de 1974)

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O Banco de Portugal e a Rua do Comércio

(Imagem: República, 25 de abril de 1974, 3ª edição )

Cerca das 5:45 as forças da EPC comandadas por Salgueiro Maia instalaram-se  na Praça do Comércio, assumindo simbolicamente o poder dos Ministérios e cercando outros pontos estratégicos próximos, como o Banco de Portugal, Bruxelas de nome de código.

No dia 25 de Abril, a coluna da EPC- Escola Prática de Cavalaria comandada por Salgueiro Maia, chega à Baixa de Lisboa, cerca os ministérios e ocupa a Praça do Comércio (Toledo, de nome de código), bem como outros pontos estratégicos da zona, como o Banco de Portugal na Rua do Comércio e a Rádio Marconi, na paralela Rua de São Julião. Instruendos da Escola Prática de Cavalaria pertencentes ao 5º pelotão de atiradores tomaram posição entre a Praça do Município, Rua do Comércio e  Largo de São Julião. Ao Posto de Comando instalado na Pontinha comunicou Salgueiro Maia «maior de Charlie Oito ao Posto de Comando: Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena.» Conforme  Salgueiro Maia declarou na altura ao jornalista Adelino Gomes,  «Estamos aqui para derrubar o Governo».

A Rua do Comércio, sede do Banco de Portugal – banco central da República Portuguesa – nasceu como Rua Nova de El Rei, pelo primeiro diploma de toponímia de Lisboa, de 5 de novembro de 1760, e passou a ser a Rua do Comércio pelo primeiro Edital de toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, após a implantação da República em Portugal, em 5 de novembro de 1910.

O decreto régio de D. José I de 5 de novembro de 1760 consagrou as denominações da Baixa Pombalina e nele foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. No século seguinte, por Edital municipal de 8 de junho de 1889, foi retirado o atributo «Nova» e passou a denominar-se Rua de El Rei. E finalmente, pelo primeiro Edital camarário de 5 de novembro de 1910, um mês após a implantação da República, tornou-se a Rua do Comércio e assim ficou até aos nossos dias.

Em Lisboa, como no resto do país, as placas toponímicas serviram o propósito de divulgação dos valores e figuras republicanas, pelo que se procurou na época substituir os topónimos relacionados com a Monarquia. Assim, temos nesse primeiro Edital de 1910, em Lisboa, a Rua do Comércio a substituir a Rua de El Rei, a Avenida Almirante Reis a renomear a Avenida Rainha Dona Amélia, a Avenida Cinco de Outubro a ser a nova denominação da Avenida António Maria de Avelar, a Avenida Miguel Bombarda a tomar o lugar da Avenida Hintze Ribeiro, a Avenida da República a ficar na Avenida Ressano Garcia, a Avenida Elias Garcia a substituir a Avenida José Luciano, a Praça Afonso de Albuquerque a renomear a Praça D. Fernando, a Rua dos Fanqueiros a ser a nova designação da Rua da Princesa e a Rua da Prata a tomar o lugar da Rua Bela da Rainha.

(Imagem: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

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O Aeroporto da Portela e a Avenida Almirante Gago Coutinho

Nova Iorque era o nome de código do Aeroporto que foi controlado às 4:20 pela coluna da EPI-Escola Prática de Infantaria, comandada pelo capitão Rui Rodrigues, incluindo o Aeródromo Base nº 1 (Figo Maduro). O capitão Costa Martins emitiu um comunicado NOTAM, interditando o espaço aéreo português e desviando o tráfego para os aeroportos de Las Palmas e Madrid.

Em 25 de Abril de 1974, o Aeroporto de Lisboa ficava no final da Avenida Almirante Gago Coutinho, topónimo de homenagem ao pioneiro da aviação e alfacinha que viveu na Rua da Esperança – Carlos Alberto Viegas Gago Coutinho (Lisboa/17.02.1869-18.02.1959/Lisboa) -, que tentou adaptar à aeronavegação os processos e instrumentos da navegação marítima, tendo criado em 1919 o famoso sextante que ostenta o seu nome e que, com Sacadura Cabral, realizou de 30 de março a 17 de junho de 1922, a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Assim era Avenida Almirante Gago Coutinho desde a publicação do Edital municipal de 2 de janeiro de 1960, com a legenda «Sábio e Herói da Navegação Aérea».

Em 23 de julho de 1956, o Aero-Club de Portugal sugeriu à  Câmara Municipal de Lisboa a atribuição do nome Avenida Gago Coutinho – Sacadura Cabral à Avenida do Aeroporto mas, seguindo as regras usuais da toponímia lisboeta tal não foi possível, uma vez que o almirante ainda estava vivo e Sacadura Cabral já era topónimo de uma artéria da capital desde a publicação do Edital de 14 de setembro de 1926. No dia seguinte ao falecimento de Gago Coutinho, o Vereador Dr. Baêta Henriques sugeriu em reunião de Câmara a atribuição do seu nome à Avenida do Aeroporto, o que após vários trâmites se concretizou pelo Edital municipal de 2 de janeiro de 1960.

Como topónimo, havia sido antes a Avenida do Aeroporto, atribuída por Edital municipal de 17 de fevereiro de 1947 à via pública no prolongamento da Avenida Almirante Reis que começava na Praça do Areeiro e findava junto do edifício do Aeroporto da Quinta da Portela de Sacavém, traçado por Francisco Keil do Amaral.  No final  do ano de 1988, justamente o seu troço final, o troço da Avenida Almirante Gago Coutinho compreendido entre a Praça do Aeroporto (vulgarmente conhecida como Rotunda do Relógio) e o Edifício-Gare do Aeroporto de Lisboa, passou a denominar-se Alameda das Comunidades Portuguesas pelo Edital municipal de 9 de dezembro de 1988.

Já no nossos séc. XXI, pelo Edital de 6 de maio de 2015, Gago Coutinho passou a ser mais um topónimo duplicado em Lisboa  por herança da Expo 98 – à semelhança de Fernando Pessoa -, através da Praça Gago Coutinho ao Parque das Nações. Também o Aeroporto de Lisboa, inicialmente construído na periferia da cidade, na época em que Lisboa terminava no Areeiro, se encontra hoje envolvido pelo espaço urbano e desde 15 de maio de 2016 que se denomina Aeroporto Humberto Delgado, o General Sem Medo, opositor de Salazar, que em campanha eleitoral para a Presidência da República disse em conferência de imprensa sobre o seu opositor «Obviamente, demito-o».

(Foto: Flama, 3 de maio de 1974)

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O Regimento de Transmissões e a Rua dos Sapadores Mineiros de Engenharia

Em menos de 24 horas foram montados quatro quilómetros de cabo, com apoio dos capitães Veríssimo da Cruz, Madeira e furriel Cerdoura, para garantir que a partir de 24 de abril,  no Regimento de Transmissões, se escutassem as redes de comunicação da GNR, Legião, PIDE/DGS e PSP e se tivessem escutas telefónicas permanentes ao Ministro e Subsecretário de Estado do Exército, Chefe do Estado Maior do Exército e Ministro da Defesa. As operações foram dirigidas pelo capitão Fialho da Rosa. 

Em 15 de abril de 1974 foi autorizada pelo Estado Maior do Exército a montagem de uma linha telefónica militar direta entre o Regimento de Transmissões – na Rua de Sapadores – e o Regimento de Engenharia n° 1 – na Pontinha, onde vai funcionar o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas-, a partir da proposta assinada pelo então tenente-coronel Garcia dos Santos. Depois, uma equipa chefiada pelo furriel Cerdoura, montou essa linha em menos de 24 horas para garantir que a partir de 24 de Abril, numa operação dirigida pelo capitão Fialho da Rosa se pudesse assegurar escutas às comunicações da GNR, Legião Portuguesa, PIDE/DGS e Polícia de Segurança Pública,  assim como dos Ministros da Defesa e Ministro do Exército, Subsecretário de Estado do Exército e Chefe do Estado Maior do Exército.

Já a Rua dos Sapadores nasceu no final do século XIX num bairro operário embora o seu topónimo guarde uma memória militar, a do quartel dos Sapadores Mineiros.

Foi por deliberação camarária de 8 de julho de 1892 que foram atribuídas denominações aos arruamentos do Bairro Operário à Calçada dos Barbadinhos. Assim, a Rua dos Sapadores foi a designação para a Rua A, tal como o foi Rua dos Operários para a Rua B, Pedro Alexandrino para a Rua C, Machado de Castro para a Rua D, Bartolomeu da Costa para a Rua E e Afonso Domingues para a Rua F. Note-se o relevo que se quis dar a várias artes, através do pintor Pedro Alexandrino, do escultor Machado de Castro, do militar especialista em fundição Bartolomeu da Costa e do arquiteto Afonso Domingues.

Até poucos anos antes, em 1889, segundo Norberto de Araújo, a artéria denominava-se Rua dos Quatro Caminhos e dos Sapadores, sendo o topónimo derivado de um quartel lá existente, esclarecendo o olisipógrafo o seguinte:
«Na primeira metade do século do Terramoto [séc. XVIII]  já aqui havia um aquartelamento, embora de reduzida superfície: era o Regimento da Segunda Armada, aos Quatro Caminhos, e, em boa verdade, não consegui saber a que correspondia aquela designação do regimento. No século passado [isto é, no séc. XIX], e durante longos anos, esteve aqui o Regimento de Engenharia, fazendo-se por várias vezes obras e ampliações, sempre restritas. Em 1911, pela reorganização do Exército, subdividiu-se a arma de engenharia, ficando neste quartel os Sapadores Mineiros. Fizeram-se então novas ampliações, e ergueu-se êste edíficio que vês, corpo central de comando, recuado um pouco de frente, para alargamento da nova Rua de Sapadores (1912-1913). Em 1927, após a revolução de 7 de Fevereiro, os Sapadores saíram e entraram os Telegrafistas.»

Em 1969
(Foto: Artur Inácio Bastos, Arquivo Municipal de Lisboa)

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O Comando Geral da Legião Portuguesa e o Largo da Penha de França

O Quartel-general da Legião Portuguesa, foi ocupado pelas 14H00,  por uma força da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, saída do Terreiro do Paço e comandada pelo major Jaime Neves, evitando qualquer tentativa de oposição ao MFA.

Da Praça do Comércio saíram duas forças da Escola Prática de Cavalaria de Santarém: uma força comandada por Salgueiro Maia para o Quartel da GNR no Largo do Carmo e outra, dirigida por Jaime Neves – com forças do Regimento de Cavalaria 7, Regimento de Lanceiros 2 e Regimento de Infantaria 1-, para o Comando da Legião Portuguesa, no nº 1 do Largo da Penha de França. As instalações da Legião – com o nome de código Marrocos – foram ocupadas às 14 horas evitando assim qualquer oposição ao movimento.

Este Largo da Penha de França, na confluência da Rua da Penha de França e da Rua Marques da Silva, tem a sua origem no próprio topónimo do sitio: a Penha de França. Um escultor de imagens sacras ou imaginário, de seu nome António Simões,  encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez a promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. Já regressado a Portugal, chamou Senhora da Penha de França (crê-se que por invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória, na  Baixa de Lisboa. Depois, o escultor lá conseguiu erguer uma Ermida, no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, e foi nessa Ermida ainda em construção, em 1597, que foi acolhida a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França, sendo apenas no ano seguinte que ficou terminado o seu templo. Em 1604, começou a construir-se no sítio uma nova Igreja, bastante maior e até com Casa Conventual que ficou terminada em 1635, sendo esta que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

O sítio foi habitado pelo menos desde a época muçulmana, memória que parece ter ficado na Calçada do Poço dos Mouros, ou até em períodos anteriores, uma vez que a toponímia portuguesa usa muitas vezes a palavra «Mouro» e seus derivados para locais ocupados ainda em períodos neolíticos ou para assinalar gente de diferentes culturas.

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O Quartel da EPAM, a RTP e a Alameda das Linhas de Torres

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Pelas 02H50, saiu da Escola Prática de Administração Militar uma força com o objetivo de ocupar os estúdios da  Rádio Televisão Portuguesa, na Alameda das Linhas de Torres, ao Lumiar. Estiveram envolvidos cerca de 100 militares, comandados pelo capitão Teófilo Bento.

Na madrugada do dia 25 de abril de 1974, após a audição de Grândola, Vila Morena de José Afonso, foi controlada a EPAM – no nº 179 da Alameda das Linhas de Torres -, de onde saiu uma força de 130 homens comandada pelo capitão Teófilo Bento, que ocupou Mónaco com êxito e sem incidentes, isto é, ocupou os estúdios da RTP, no nº 44  da mesma Alameda das Linhas de Torres, impedindo a sua utilização pelas forças do regime e colocando-os ao serviço do MFA, que passou a transmitir regularmente pelas 19:00, com a imagem e a voz de Fernando Balsinha e de Fialho Gouveia. Na madrugada do dia 26 de abril é através da RTP que se transmite a proclamação ao país da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General António de Spínola.

Esta Alameda das Linhas de Torres, que hoje vai do Campo Grande à Estrada da Torre, nasceu após a implantação da República, através do Edital municipal de 7 de agosto de 1911, na artéria que era a Alameda do Lumiar, para homenagear na memória do local os combatentes das Linhas de Torres Vedras, erguidas em 1810 para defender militarmente Lisboa das invasões francesas e tanto mais que este arruamento fazia a ligação com a Estrada para Torres Vedras. O mesmo Edital de 1911 também homenageou Neves Costa, engenheiro militar que participou no estudo das mesmas.

As Linhas de Torres Vedras ou simplesmente Linhas de Torres  integram o conjunto de fortificações da península de Lisboa que no contexto da Guerra Peninsular foram concebidas para impedir um exército invasor de atingir a capital ou, em caso de derrota, permitir a retirada, em segurança, do Exército Britânico. A ordem para a sua construção foi dada em outubro de 1809,  por Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso, sendo o Coronel Richard Fletcher o oficial do exército de Wellington responsável pelos trabalhos de engenharia. Já em 1807, Junot encarregara o coronel de engenharia Vincent de estudar a defesa de Lisboa e na execução dessa tarefa esteve o major de engenharia José Maria das Neves Costa. Após a expulsão das tropas francesas foram feitas diligências pelas autoridades portuguesas no sentido de fazer o levantamento topográfico que servisse de base aos trabalhos da defesa de Lisboa, comissão em que esteve novamente Neves Costa, que já em 1801 publicara Observações sobre o plano de ataque e defesa do reino de Portugal em relação à sua Geografia e topografia. Refira-se ainda que na Terceira Invasão Francesa as Linhas de Torres Vedras impediram o exército de Massena de atingir Lisboa e acabaram por provocar a sua retirada de Portugal.

A Capital, 26 de abril de 1974

 

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A Emissora Nacional e a Rua do Quelhas

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Ocupada pelas 3h15 por uma Companhia da Carreira de Tiro da Serra da Carregueira, com cerca de 100 militares comandados pelos capitães Luís Pimentel e Frederico Morais, para servir como emissora de reserva do MFA e evitar que o regime a pudesse utilizar em seu favor.

No dia 25 de Abril de 1974, estava instalada no nº 2 da Rua do Quelhas a Emissora Nacional, a antena de rádio pública em Portugal, ali sediada desde a sua inauguração oficial no dia 4 de agosto de 1935, tendo a ocupação de Tóquio sido confirmada ao Posto de Comando do MFA às 3:15 horas. Às 8:30 foi lido pela primeira vez na Emissora Nacional, um comunicado do MFA.

Quelhas era o nome pelo qual era conhecido D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, proprietário de uma quinta naquele lugar e na qual morava, do qual, de acordo com Norberto de Araújo, deriva o topónimo que foi dado ao Caminho Novo após o terramoto de 1755. Segundo o olisipógrafo, «Depois do terramoto é que começou a chamar-se-lhe Rua do Quelhas, o tal D. Francisco de Sousa que por aqui fôra grande senhor. Por essa época começou o verdadeiro povoamento lento e seguro deste sítio, a justificar a urbanização do começo do século passado [refere-se ao séc. XIX]».

O Caminho Novo, ainda de acordo com Norberto de Araújo, fora obra do Machadinho – José Pinto Machado – na Quinta do Quelhas: «Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho- diminuitivo que nasceu do apelido do fidalgo -, foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 – “Caminho Novo” – na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o “Quelhas”, quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pinto Machados.»

Na segunda metade do séc. XIX, um Edital do Governo Civil de Lisboa de 16 de janeiro de 1863, fez a Rua do Quelhas aumentar de tamanho já que uma parte da Travessa do Pasteleiro (a compreendida entre as esquinas do Caminho Novo e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas) foi incorporada na Rua do Quelhas.

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O 25 de Abril e a Rua do Arsenal

(Foto: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

Local de confrontos entre forças revoltosas da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e de forças fiéis ao regime, do Regimento de Cavalaria 7. Entre as 07H00 e as 10H30, distinguiu-se o tenente Alfredo Assunção, ao procurar negociar com os opositores, mantendo-se sereno, mesmo depois de ter sido agredido por um oficial das forças do regime.

 

Este topónimo fixou na memória de Lisboa a presença no local do Arsenal da Marinha. Os estaleiros das Tercenas navais  mandados construir por D. Manuel I foram destruídos pelo Terramoto de 1755 mas logo foi determinada a sua reconstrução, sob o risco de Eugénio dos Santos, que se iniciou em 1759.  Durante muito tempo o local foi conhecido como Ribeira das Naus, sendo extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus, depois Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910, apenas Arsenal da Marinha. Manteve-se em laboração até 1939, ano em que a sua doca seca foi atulhada por motivo da abertura da Avenida da Ribeira das Naus, apesar de já desde 1936 tivesse começado a transferência do Arsenal para as instalações navais do Alfeite.

O arruamento começou a ser a Rua dos Arcos Cobertos, com uma configuração diferente. Após o Terramoto ficou conhecido como Rua Direita do Arsenal e ainda assim surge em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, para depois perdurar até hoje como Rua do Arsenal, tal como já em 1907 se assinala nas plantas de Silva Pinto.

(Foto: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

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