Anda comigo ver a Praça José Queirós

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A Praça de Moscavide e a Praça José Queirós

Freguesias do Parque das Nações e dos Olivais 
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1973 que a Praça  na confluência das Avenidas Infante D. Henrique, Dr. Francisco Luís Gomes e Dr. Alfredo Bensaúde se denomina oficialmente Praça José Queirós  mas a sua denominação vulgar de Praça de Moscavide ainda não se perdeu totalmente.

A Praça de Moscavide nasceu no final da década de trinta do séc. XX.  Datado de 1938  encontramos no Arquivo Municipal o projeto de construção de um novo arruamento entre o Aeroporto e Moscavide, com início na saída de Lisboa entre a Portela e a Encarnação para terminar no nó que será a Praça de Moscavide e mais tarde, em 1941, sabemos que já está executada porque a adjudicação do 2º troço da Avenida Infante D. Henrique refere-o entre o Poço do Bispo e a Praça de Moscavide. A Praça de Moscavide é também dada como referência de limites para o estudo da urbanização da célula A da zona de Olivais Norte de 1959-1960.

A Praça de Moscavide, como era vulgarmente conhecida, passou a ter a denominação oficial de Praça José Queirós pelo Edital de 15 de fevereiro de 1973 mas um contrato de 27 de julho desse ano referia que era para a instalação de um « posto abastecedor de combustíveis líquidos, sito na Praça de Moscavide, actualmente denominada Praça José de Queirós.»

Freguesias do Parque das Nações e dos Olivais – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Hoje a Praça José Queirós é território das Freguesias dos Olivais e do Parque das Nações. Desde 1973 homenageia o pintor José Queirós (Lisboa/13.07.1856 – 31.07.1920),  discípulo de Columbano e de Malhoa que também se tornou um especialista de cerâmica portuguesa. Foi um dos fundadores do Grémio Artístico que viria a originar a Sociedade Nacional das Belas Artes, membro da Sociedade Promotoras de Belas Artes em Portugal (1873 a 1887) e da secção de Arqueologia lisbonense da Associação de Arqueólogos Portugueses, a  que presidiu de 1920 a 1925 e ainda, conservador do Museu  Nacional da Arte Antiga em 1911.

Refira-se que já 41 anos antes, pelo Edital municipal de 19 de abril de 1932,  o nome de José Queirós havia sido dado à Rua B do Casal de Sete Rios, arruamento constante do projeto de melhoramentos para o Casal de Sete Rios, aprovado na sessão de  Câmara de 1 de novembro de 1928 mas que foi um arruamento que nunca saiu do papel e foi executado.

Freguesias do Parque das Nações e dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida do Aeroporto que passou a Avenida Almirante Gago Coutinho

A Avenida do Aeroporto nos anos 50 do séc. XX
(Foto: Mário de Oliveira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ainda hoje se chama Avenida do Aeroporto à Avenida Almirante Gago Coutinho – em homenagem ao aviador entretanto falecido – mas quando se começou a pensar num aeroporto para Lisboa a artéria era conhecida como prolongamento da Avenida Almirante Reis e depois dele implantado, passou a denominar-se Avenida do Aeroporto para, volvidos 13 anos, ser designada como Avenida Almirante Gago Coutinho, topónimo que 23 anos mais tarde o escritor Mário de Carvalho colocou no título de uma obra sua – A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho e outras histórias (1983) – mesmo que meia dúzia de anos depois, em dezembro de 1989, a Avenida tenha sido encurtada para ceder uma parte à nova Alameda das Comunidades.

Na década de vinte do século Vinte começou a falar-se da necessidade de um aeródromo para Lisboa e a sua construção foi mesmo decidida em março de 1928, para a Portela de Sacavém, considerada a localização «ideal, dada a ausência de aglomerados urbanos circundantes e, simultaneamente, a proximidade do centro da cidade (5km) e do porto fluvial». Todavia,  só na década de trinta se começou a construir  o Aeroporto e só na década seguinte abriu ao tráfego, em 15 de outubro de 1942.

Cinco anos depois do Aeroporto estar em funcionamento, ponderando a edilidade atribuir o nome de Avenida do Aeroporto à primitiva Avenida Alferes Malheiro, a Comissão Municipal de Toponímia foi de parecer na sua reunião de 3 de fevereiro de 1947  que o topónimo fosse antes dado ao prolongamento da Avenida Almirante Reis, entre a Praça do Areeiro e o Aeroporto da Portela, o que se veio a concretizar pelo Edital municipal de 17/02/1947.

Nove anos depois, em 1956 o Aero-Club de Portugal sugeriu à Câmara atribuição do nome «Avenida Gago Coutinho – Sacadura Cabral» à Avenida do Aeroporto. Porém, a Comissão Municipal de Toponímia discordou porque « deverá seguir-se a orientação até agora adoptada de só se consagrarem na toponímia da cidade nomes de individualidades que tenham falecido há alguns anos, lembrando, entretanto, que o nome de Sacadura já se encontra atribuído a uma avenida da capital.»

Passados três anos,  em 18 de fevereiro de 1959 faleceu Gago Coutinho, e no dia seguinte o vereador Dr. Baêta Henriques interveio na reunião de Câmara para que  o nome de Gago Coutinho fosse dado à Avenida do Aeroporto e apesar da Comissão de Toponímia contrapor que  fosse «atribuído a uma praça ou avenida de maior projecção do que a Avenida do Aeroporto e, possivelmente, junto ao Tejo, na freguesia da Ajuda ou Alcântara, onde aquele ilustre homem de ciência nasceu e viveu a maior parte da sua vida e partiu para a grande viagem que lhe deu renome Universal» o Edital municipal de 2 de janeiro de 1960 mudou o topónimo Avenida do Aeroporto para Avenida Almirante Gago Coutinho, com a legenda «Sábio e Herói da Navegação Aérea». Finalmente, mesmo no final do ano de 1989 a Avenida Almirante Gago Coutinho ficou com menor dimensão, já que o troço desta Avenida compreendido entre a Praça do Aeroporto e o Edifício do Aeroporto de Lisboa passou a denominar-se Alameda das Comunidades Portuguesas, pelo Edital municipal de 9 de dezembro de 1989.

Gago Coutinho por Amarelhe, no Sempre Fixe de 27 de maio de 1926

Carlos Alberto Viegas Gago Coutinho (São Brás de Alportel ou Lisboa/17.02.1869-18.02.1959/Lisboa), registado na lisboeta freguesia de Belém como tendo nascido a 17 de fevereiro de 1869 e que durante largo tempo viveu na Madragoa, na Rua da Esperança, foi um almirante da Marinha Portuguesa, geográfo e cartógrafo que fez também incursões na História Náutica a partir de 1925,  que se notabilizou como pioneiro da aviação, sobretudo por ter realizado com Sacadura Cabral a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, de 30 de março a 17 de junho de 1922, no hidroavião Lusitânia.

A partir de 1917, incentivado por Sacadura Cabral que entretanto conhecera em Moçambique, tentou adaptar à aeronavegação os processos e instrumentos da navegação marítima, tendo criado em 1919 o famoso sextante de bolha artificial que ostenta o seu nome,  comercializado pela empresa alemã Plath. E foi para testar essas ferramentas de navegação aérea que Sacadura Cabral e Gago Coutinho realizaram em 1921 a travessia aérea Lisboa-Funchal.

Membro do Grande Oriente Lusitano da Maçonaria Portuguesa, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa e pela Faculdade de Engenharia do Porto, bem como Medalha de Ouro da Sociedade de Geografia de Lisboa, Gago Coutinho foi também agraciado com a Ordem Militar de Avis (1919, 1920 e 1926), a Ordem Militar da Torre e Espada (1922), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1922), a Ordem do Império Colonial (1943), a Ordem Militar de Cristo (1947), para além de ser topónimo em inúmeras localidades portuguesas e brasileiras, de que mencionamos como exemplo Avenidas em Montemor-o-Novo e na brasileira de São Paulo; Largos em Carnaxide, Loulé, Sesimbra, Sines, Vila Viçosa; Praças no Barreiro, Mação, Moura, Sacavém e em Salvador da Bahia ou Santos; Ruas em Albufeira, Caldas da Rainha, Casal de Cambra, Coimbra, Faro, Lagos, Maia, Matosinhos, Montijo, Olhão, Pinhal Novo,  Quarteira, São Brás de Alportel, Setúbal, Vendas Novas, ou no Brasil em Campinas, Cuiabá, Curitiba, Londrina, Recife, Rio de Janeiro, São José do Rio Preto, São Paulo ou Uberlândia, para além de uma Rua na moçambicana Maputo e outra em Las Palmas, nas Ilhas Canárias; assim como Travessas na Covilhã,  Ermesinde, Marco de Canavezes, Nisa, Quinta do Conde, Trofa ou Valongo.

A Avenida Almirante Gago Coutinho nos dias de hoje – Freguesias do Areeiro e de Alvalade

Sete Rios e Humberto Delgado

Palhavã e Sete Rios em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Sítio de Sete Rios, do antigo Termo de Lisboa, ganhou quatro anos após o 25 de Abril – em 1979 – uma Praça de homenagem a Humberto Delgado, o General Sem Medo assassinado pela PIDE em 1965, embora ainda hoje essa artéria seja conhecida como Largo ou Praça de Sete Rios, ou apenas Sete Rios, topónimo que foi reforçado na memória dos lisboetas de 1959 a 1995 pela estação de Metropolitano de Sete Rios.

Raúl Proença, no seu  volume inaugural do seu Guia de Portugal, publicado em novembro de 1924, escreve que «O lugar de Sete Rios surge então na confluência de duas estradas, uma para Oeste, chamada hoje rua de Campolide, que leva à estrada deste nome, e outra para Este, que constitui a travessa das Laranjeiras.» Refira-se que pelo menos até à década de quarenta do séc. XX o sítio de Sete Rios era ocupado  maioritariamente por quintas e terrenos de cultura.

A origem do topónimo pode estar relacionada com a presença de um braço da  Ribeira de Alcântara no local, misturado com o mágico número sete,  um número de perfeição, presente na toponímia galego-portuguesa em bicho de sete cabeças, no sete fôlegos do gato, nos sete ofícios, sete ventos, sete mares ou sete partidas do mundo, tanto mais que a maior quinta do sítio de Sete Rios se denominava Quinta dos Milagres. Esta Quinta ligava-se à Quinta das Furnas pela Azinhaga dos Milagres.

Certo é que no séc. XVIII já encontramos Sete Rios em diversos documentos municipais : num Aviso para que se consertem as calçadas que dão acesso a Nossa Senhora das Necessidades, à ponte de Alcântara e à de Sete Rios (1727); na petição de João do Outeiro, mestre calceteiro, que consertara a estrada que vai de Sete Rios para Belas, para que lhe paguem o que se encontra em falta (1743); num pedido de  Silvestre de Faria Lobo para ser autorizado a fazer o prolongamento de um muro na sua quinta em Sete Rios (1779).

No séc. XIX, em 1838 aparece já mencionada a Estrada de Sete Rios que vai para Campolide. Em 1904 foi em Sete Rios instalado o Jardim Zoológico de Lisboa, no antigo parque do Palácio Farrobo ou seja, em grande parte da Quinta das Laranjeiras e inaugurado em maio do ano seguinte. Em 1927 e 1928 foi delineado um plano de novos arruamentos no Casal de Sete Rios, que era da Casa Cadaval, entre a Estrada e a Travessa das Laranjeiras, Estrada de Benfica e Linha Férrea de Cintura que aprovado na sessão de Câmara de 1 de novembro de 1928. Vinte anos depois, a planta da cidade de 1948 assinala Sete Rios como um dos pontos de referência da cidade. Em  1959 foi inaugurada a estação do Metropolitano Sete Rios que só em 1995 seria remodelada e mudado o nome para Jardim Zoológico. Nos anos cinquenta foi elaborado um projeto de canalização da Ribeira de Alcântara, entre Campolide e a Travessa de São Domingos de Benfica, incluindo o braço de Sete Rios sendo em 1961 construído o Caneiro de Alcântara – Sete Rios, ano em que também foi tirado algum terreno ao Jardim Zoológico para a construção de uma praça em Sete Rios. Nessa praça foi instalada a partir de 1963 a central de camionagem de Sete Rios, e no ano seguinte a autarquia adjudicou a instalação de bocas de rega nas placas ajardinadas da Praça.

A Praça Marechal Humberto Delgado – Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas

Após o 25 de Abril de 1974 a Câmara recebeu diversas solicitações para que Humberto Delgado, morto há 9 anos atrás, fosse nome de rua e assim, Humberto da Silva Delgado (Torres Novas – Brogueira/05.05.1906 – 13.02.1965/Villanueva del Fresno -Espanha), que fora assassinado por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco, passou através do Edital municipal de Edital de 02/02/1979, após o parecer favorável do Estado-Maior General das Forças Armadas, a estar na Praça General Humberto Delgado, oficialmente  inaugurada em outubro desse ano. Mais tarde, em 1990, quando ocorreu a promoção póstuma de Humberto Delgado a Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional, no dia 5 de outubro, também o topónimo foi atualizado para Praça Marechal Humberto Delgado, através do Edital municipal de 13 de dezembro de 1990, ocorrendo a cerimónia de inauguração das novas placas toponímicas em 18 de janeiro do ano seguinte.

Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O pombalino Largo do Caldas e o Largo Adelino Amaro da Costa dos anos 80

O traçado pombalino para o Palácio de João Rodrigues Caldas no Terreiro do Ximenes, assinado pelo Conde de Oeiras (depois Marquês de Pombal) e por De Blasco.

O Largo Adelino Amaro da Costa, dado nos anos 80 do séc. XX, é o topónimo oficial do pombalino Largo do Caldas que continua a persistir na memória dos lisboetas.

Pelo menos desde XVI existia no espaço deste arruamento o palacete da família do castelhano Rodrigues Caetano Ximenes,  que em 1476 tinha vindo para Portugal, pelo que chamava ao local Chão de Alcamim mas também Terreiro ou Terreirinho do Ximenes. Segundo Norberto de Araújo o arruamento também foi denominado como Praça da Bela Vista e um pouco antes do Terramoto como Largo do Conde de São Vicente.

Pelo menos desde 1858 seria designado como Largo do Caldas, uma vez que assim consta no levantamento topográfico de Lisboa de Filipe Folque. O topónimo deriva do Palácio urbano pós-terramoto, dos irmãos João e Luís Rodrigues Caldas, edificado entre 1765 e 1775 onde antes fora o Palácio do Ximenes, sendo o traçado desenhado a tinta da china e aguarela assinado pelo Conde de Oeiras (título de 1759 que após a criação do título Marquês de Pombal, em 1769, passou a ser subsidiário deste) e  de Blasco (seria Miguel Ângelo de Blasco ?…). O palácio com uma planta em L irregular, na frente virada para o Largo do Chão do Loureiro, foi edificada em 1766 uma ermida pública sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, cuja autorização de culto foi dada a 1 de dezembro de 1766. Os irmãos  Caldas Rodrigues – João e Luís (Viana do Castelo – Badim/22.03.1721 – 25.05.1787) eram contratadores gerais de tabacos do reino.

Segundo Luís Pastor de Macedo, a partir de 1766 morou no Palácio pombalino dos Caldas o francês Jácome Ratton,  industrial amigo e admirador de Pombal e lá lhe nasceram três dos seus filhos.

No séc. XX, coabitando com as irmãs Caldas Machado e por cedência destas, viveu também num quarto no 3º andar, desde 1927, o padre Francisco Rodrigues da Cruz, conhecido como Padre Cruz, que ali  faleceu com 89 anos de idade em 1949, sendo que passados 10 anos e no âmbito do centenário do nascimento do Padre Cruz, a edilidade lisboeta tenha descerrado uma lápide comemorativa no prédio. Por morte das três últimas proprietárias – as irmãs Maria da Assunção, Joana Francisca e Catarina-, solteiras e sem filhos, o Palácio passou por herança para o Seminário dos Olivais.

Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa (Lisboa/18.04.1943 – 04.12.1980/Camarate), Ministro da Defesa quando faleceu no desastre de aviação que também vitimou o Primeiro-Ministro Francisco Sá Carneiro, veio dar o seu nome ao Largo do Caldas desde a publicação do Edital de 5 de abril de 1982. Uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980, para serem atribuídos os nomes de ambos os políticos a ruas de Lisboa, tendo a Comissão Municipal de Toponímia sugerido para o efeito, em 13 de janeiro de  1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar a designação de locais do então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira que sugeriu a alteração de denominação do antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa e, da  antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro.

Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico em 1966, Adelino Amaro da Costa foi também sub-Diretor e Diretor do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação (1973 – 1974) tendo em 1974 sido um dos fundadores do Centro Democrático Social (CDS), com Diogo Freitas do Amaral,  e o seu primeiro secretário-geral.  De 1975 a 1980 foi deputado e líder do Grupo Parlamentar do CDS (1976 – 1978), Ministro de Defesa Nacional no Governo presidido por Sá Carneiro e com ele faleceu  quando ambos se deslocavam ao Porto para um comício de campanha eleitoral para as presidenciais desse ano.

O Largo Adelino Amaro da Costa – Freguesia de Santa Maria Maior

A antiga Praça do Areeiro e Francisco Sá Carneiro

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde 1982 que a Praça do Areeiro – cerca de um ano e meio após a trágica morte de Francisco de Sá Carneiro – se denomina oficialmente Praça Francisco Sá Carneiro, embora a maioria da população a continue a designar pelo antigo topónimo fixado em 1947, a ponto de a Comissão Municipal de Toponímia no seu parecer de 11 de novembro de 1994 ter aditado à legenda  deste topónimo «Antiga Praça do Areeiro».

Cronologicamente, o Edital municipal de 17/02/1947 instituiu que «a via pública situada no término da Avenida Almirante Reis, conhecida por Praça do Areeiro, toma a referida denominação», sendo o topónimo derivado da antiga Quinta do Areeiro que Júlio Silva Pinto ainda em 1908 representava na sua planta de Lisboa.  Após a morte do então Primeiro-Ministro, Francisco Sá Carneiro, em 4 de dezembro de 1980 a deliberação camarária de 22 de dezembro de 1980 e o consequente Edital municipal de 5 de abril de 1982 alteraram a denominação Praça do Areeiro para Praça Francisco Sá Carneiro, cuja legenda é desde 1994 a seguinte: «1934 – 1980/Antiga Praça do Areeiro».

No seguimento das dramáticas mortes de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, que na época eram o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa, foi aprovada por maioria na reunião de Câmara de 22 de dezembro de 1980 uma proposta dos vereadores da Aliança Democrática  para serem atribuídos os seus nomes a ruas de Lisboa. A Comissão Municipal de Toponímia sugeriu para o efeito, em 13 de janeiro de 1981, as duas alamedas interiores do Campo Grande. Todavia, acabou por vingar o local sugerido pelo então Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. João Martins Vieira, que mudou a antiga Praça do Areeiro para Praça Dr. Francisco Sá Carneiro e o antigo Largo do Caldas para Largo Dr. Adelino Amaro da Costa.  Em 19 de julho de 1991, data do 57º aniversário de nascimento de Francisco Sá Carneiro, foi inaugurado na praça como o nome deste político um monumento em sua homenagem, da autoria de Mestre Soares Branco, conseguido através de subscrição pública lançada pelo jornal O Dia .

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro (Porto/19.07.1934 – 04.12.1980/Camarate), advogado que se empenhou com paixão numa carreira política, foi fundador e o primeiro Secretário Geral do PPD (Partido Popular Democrático) em maio de 1974. Em 1979, o já então denominado PSD (Partido Social Democrata), por coligação com o CDS e o PPM, formaram a AD (Aliança Democrática) que através das eleições legislativas intercalares alcançou o governo do qual Sá Carneiro foi primeiro-ministro (o VI Governo Constitucional) até falecer, com 46 anos, vítima de um controverso acidente aéreo.

Formado em Direito pela Universidade de Lisboa em julho de 1956, Francisco Sá Carneiro exerceu advocacia no Porto e dirigiu a  Revista dos Tribunais a partir de 1961. Viveu por muitos anos em Lisboa, na Rua Dom João V, já que nos anos do fim do marcelismo, de 1969 a 1973,  foi deputado independente da chamada Ala Liberal, propondo com o deputado Pinto Balsemão uma Lei de Imprensa que reduzia a Censura (1970), assim como uma revisão constitucional (1970) num projeto conjunto com Mota Amaral, acabando mesmo por se confessar social-democrata e renunciar ao cargo de deputado em 26 de janeiro de 1973. Após o 25 de Abril foi ministro sem pasta no I Governo Provisório de Adelino da Palma Carlos, deputado à Assembleia Constituinte e depois na Assembleia da República, sendo o líder da bancada parlamentar do PPD/PSD.

A título póstumo foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1981), da Ordem Militar da Torre e Espada (1986) e da Ordem da Liberdade (1990), bem como com uma Sessão Solene de homenagem na Assembleia da República(1990), a Medalha de Ouro da Ordem dos Advogados (2006) e a Ordem do Infante D. Henrique (2017), para além de o seu nome ter sido dado ao Aeroporto Internacional da sua cidade natal (1990).

A Praça do Areeiro nos anos 40 do séc. XX
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Rua de São Francisco de Paula e a Rua Presidente Arriaga

A Rua de São Francisco de Paula cerca de 1910
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Presidente Arriaga, homenagem ao 1º Presidente da República Portuguesa constitucionalmente eleito, no arruamento onde ele residira e de onde saiu o seu funeral em 1917, foi um topónimo atribuído pela edilidade lisboeta em 1920, embora para os mais antigos seja ainda conhecida como Rua de São Francisco de Paula por via da Igreja da mesma invocação.

A artéria começou por ser a Rua Direita de São Francisco, topónimo derivado da Igreja de São Francisco de Paula ali fundada em 1719 por  Frei Ascenso Vaquero. Em 1753 e 1754, Frei Francisco de Paula era o Vigário Geral do Convento de São Francisco de Paula e o templo teve obras de melhoramentos, segundo o traçado do arqº Inácio de Oliveira Bernardes e torres atribuídas a Diogo Azzolini,  a expensas de D. Mariana Vitória, mulher de D. José I, cujo túmulo da oficina de Machado de Castro foi colocado na capela-mor e está classificado como Monumento Nacional.

Em 1758, no Cartulário de Plantas e Edifícios da Nova Cidade depois do Terramoto já encontramos alçados de Manuel da Maia para a Rua Nova de São Francisco de Paula que é a denominação que encontramos ainda em 1854 em documentos municipais de prospetos de prédios.

Em 1857 e 1858, na planta de Filipe Folque e em prospetos de prédios o arruamento surge designado como Rua Direita de São Francisco de Paula, situação que se mantém de 1879 a 1881 na planta de  Francisco e César Goullard,  num auto de vistoria a uma chaminé e no levantamento topográfico de Francisco Goullard.

Terá sido no final da década de oitenta do séc. XIX que o topónimo passou a ser Rua de São Francisco de Paula, já que  assim está mencionada em 1887 num orçamento para substituição da cantaria e reconstrução do empedrado dos passeios e valetas da rua, bem como no romance Os Maias de Eça de Queirós, publicado em 1888,  como morada da Casa do Ramalhete.

Em 1920, três anos após o falecimento de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta/08.07.1840 – 05.03.1917/Lisboa) nesta artéria onde morava, a Câmara Municipal de Lisboa atribuiu a Rua Presidente Arriaga, por deliberação camarária de 28 de abril e Edital municipal de 18 de maio, com a a extensa  legenda de «Primeiro Presidente da República Portuguesa Eleito pela Assembleia Nacional Constituinte em 24 de Agosto de 1911/Nasceu em 08.07.1840 e Morreu em 05.03.1917».

Freguesia da Estrela
(Foto: José Carlo Batista)

O Largo de São Roque ou do Cauteleiro que é o Largo Trindade Coelho

O Largo Trindade Coelho no início do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Começou por ser o Largo de São Roque no séc. XVI. No final dos anos 80 do séc. XX com a colocação no local de uma estátua em homenagem aos cauteleiros passou a ser conhecido como Largo do Cauteleiro e ponto de encontro para incursões na noite do Bairro Alto, mas desde 1913  que o Largo de São Roque se denomina oficialmente Largo Trindade Coelho.

Quando no ano de 1509 grassava  uma grande peste em Lisboa o rei D. Manuel I mandou erguer junto ao cemitério próximo do Convento da Trindade uma ermida a que chamou de São Roque para albergar uma relíquia do santo, oriunda de Veneza. Em 1553 os jesuítas tomaram conta desta ermida e em 1555 iniciaram a construção de um majestoso templo para a substituir nascendo assim a Igreja de São Roque que passou para o topónimo e assim nasceu o Largo de São Roque.

Em 1913 a edilidade alfacinha substituiu alguns hagiotopónimos (topónimos com nomes de santos) por outros relacionados com o regime republicano. As alterações na toponímia foram recorrentes nos anos seguintes ao 5 de outubro de 1910, tendo a primeira ocorrido logo a 5 de novembro desse mesmo ano, data em foram substituídos dez topónimos ligados à monarquia.  Pelo Edital municipal de 18 de outubro de 1913 tiveram lugar as seguintes modificações: o Largo de São Carlos passou a denominar-se Largo do Directório; o Largo do Espírito Santo passou a Largo de Ernesto Silva;  o Largo de Santa Bárbara passou a Largo 28 de Janeiro; a Rua de São José passou a Rua Alves Correia e o Largo de São Roque passou a Largo Trindade Coelho. Note-se que já desde o Edital de 18/11/1910 a Rua Larga de São Roque tinha passado a ser a Rua do Mundo, em  homenagem ao jornal republicano aí sediado, pelo que faz sentido que o largo do seu topo, o antigo Largo de São Roque tenha passado três anos depois a ser o Largo Trindade Coelho que nos jornais defendeu os ideais republicanos mesmo que se tenha suicidado antes de ver implantada a República cujos valores perfilhou e defendeu.

José Francisco de Trindade Coelho (Mogadouro/18.06.1861 – 09.06.1908/ Lisboa), formado em Direito em Coimbra começou por exercer advocacia nessa cidade ao mesmo tempo que começava a escrever nos jornais sob pseudónimo e até fundou  duas publicações: Porta Férrea e Panorama Contemporâneo. Camilo Castelo Branco admirava-o literariamente e conseguiu que ele  ingressasse na magistratura, como Delegado do Procurador Régio na comarca de Sabugal, indo depois para Portalegre, onde fundou dois jornais: Gazeta de Portalegre e Comércio de Portalegre. Depois,  já em Lisboa coube-lhe a tarefa ingrata de fiscalizar a imprensa da capital aquando do Ultimatum e abalado pelas críticas transferiu-se para Sintra (1895) e prosseguiu a sua carreira jurídica em vários tribunais.

Como escritor, Trindade Coelho publicou o livro de contos Os Meus Amores (1891) e o de memórias de Coimbra In Illo Tempore (1902), para além de obras de cariz social como a Cartilha do Povo (1901), o Manual Político do Cidadão Português (1906), o ABC do Povo  (1901) que foi um livro adotado oficialmente nas escolas públicas, bem como mais três Livros de Leitura (1903 a 1905). Também deu a lume obras jurídicas como Recursos Finais em Processo Criminal e Anotações ao Código e Legislação Penal e conseguiu uma presença importante em jornais para além da já referida, com os pseudónimos Belisário e José Coelho, escrevendo nos jornais Portugal, Branco e NegroNovidades, Repórter, O Progressista, O Imparcial, Tirocínio, Beira e Douro, Jornal da Manhã e Diário Ilustrado para além de ter ainda fundado a Revista de Direito e Jurisprudência e a Revista Nova, onde publicou as crónicas «Folhetos para o Povo», tendo através da escrita contribuído para divulgar as ideias republicanas.

No Largo Trindade Coelho, por ser a morada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi inaugurada em 18 de novembro de 1987 – dia do 204º aniversário da Lotaria Nacional – uma estátua de bronze em homenagem aos cauteleiros, da autoria de Fernanda de Assis, que acabou por dar uma nova denominação popular ao arruamento, que começou a ser conhecido como o Largo do Cauteleiro.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Rossio e o Dom Pedro

O Rossio no século XVI

Rossio é sinónimo de um espaço largo para fruição e convívio da população pelo que não se estranha que ainda hoje a Praça Dom Pedro IV seja conhecida como Rossio.

De acordo com José Pedro MachadoRossio é o «nome próprio dado a vários campos ou largos citadinos de Portugal, antigamente – como, por exemplo, ainda hoje, o de Évora –, fora das muralhas ou cerca urbana; neles se realizavam, e ainda realizam, feiras; o mesmo se deu com o Rossio (Praça D. Pedro IV) de Lisboa. Primitivamente, depois do terreno desbastado e preparado, serviam os rossios para semeadura de cereais, para hortas ou para pastagem de gados da comunidade. Assim se tornaram pontos de reunião dos moradores e centros comerciais. » Por isto, um pouco por tudo o país encontramos Rossios de que são ainda hoje exemplo os Largos do Rossio na Aguieira, em Aveiro,  na Gafanha da Nazaré, na Guia de Leiria, em Lagos, Mangualde, Mem Martins ou São João das Lampas do concelho de Sintra, para além da povoação Rossio ao Sul do Tejo do concelho de Abrantes. Em Lisboa também ainda temos hoje o antigo Rossio de Palma na freguesia de São Domingos de Benfica e por herança da Expo 98 ficaram o Rossio dos Olivais e o Rossio do Levante, na freguesia do Parque das Nações.

Rossio foi também a denominação original desta artéria lisboeta hoje contida na confluência da Rua da Betesga, Rua Augusta, Rua dos Sapateiros, Rua Áurea, Calçada do Carmo, Rua do Amparo e Praça Dom João da Câmara. Em 1419 já aparece referida numa postura em que o corregedor, os vereadores, o procurador e os homens bons da cidade de Lisboa proíbem o lançamento de esterco, terras e outras sujidades no Rossio da cidade. No séc. XVIII o espaço  já surge denominado como Praça do Rossio até que há pouco mais de 180 anos, por decreto governamental de 31 de outubro de 1836, passou a designar-se Praça de Dom Pedro, denominação que o Edital municipal de 26 de março de 1971 alterou para Praça Dom Pedro IV para evitar equívocos e que a Ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 19 de março de 1971 esclarece «Que a nomenclatura da Praça de D. Pedro seja alterada para: Praça de D. Pedro IV», pelo simples motivo de «Já que assim consta dos letreiros ali afixados há longo tempo e ainda porque dessa forma melhor se identifica a figura histórica homenageada».

Este Rei  também surge na toponímia de Felgueiras, Queluz e Valongo como D. Pedro IV enquanto no Brasil aparece como D. Pedro I na toponímia da Baía, de Goiânia, Minas Gerais, Paraíba ou Rio de Janeiro o que não se estranha já que reinou em ambos os países.  O homenageado é D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, que recebeu os cognomes de O Libertador e Rei Soldado, de seu nome completo Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Serafim de Bragança e Bourbon (Palácio de Queluz/12.10.1798 – 14.09.1834/Queluz), filho de D. João VI e da sua esposa, D. Carlota Joaquina. Tendo a coroa portuguesa fugido das invasões francesas residiu no Brasil entre 1807 e 1831. Por força da Revolução Liberal de 1820 no Porto os seus pais regressaram a Portugal e foi nomeado regente em 1821. No ano seguinte, declarou a independência do Brasil, face ao domínio português. Assim, foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, no período de 7 de setembro de 1822 (O grito do Ipiranga) a 7 de abril de 1831, ano em que abdicou para assumir a coroa portuguesa, como D. Pedro IV, em defesa dos direitos da sua filha, D. Maria da Glória, que virá a ser a rainha D. Maria II (Rio de Janeiro/04.04.1819 – 15.11.1853/Lisboa), e que significativamente dá nome ao Teatro instalado na Praça D. Pedro IV, tendo este aberto as suas portas em 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha D. Maria II.

Praça Dom Pedro IV hoje (Freguesia de Santa Maria Maior)