A Travessa do merceeiro da Ajuda e vereador de Belém

Freguesia da Ajuda

Vitorino de Freitas que está perpetuado numa Travessa da Ajuda, por deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, foi o dono de uma mercearia nessa  freguesia e também exerceu funções como vereador da Câmara Municipal de Belém no século XIX.

Belém existiu como concelho na segunda metade do séc. XIX, de 11 de setembro de 1852 a 18 de julho de 1885, tendo depois o seu território sido integrado no concelho de Lisboa e consequentemente, a sua toponímia. A edilidade belenense era composta pelas freguesias de São Pedro de Alcântara, Nossa Senhora do Amparo de Benfica, São Lourenço de Carnide,  Santa Isabel, São Sebastião da Pedreira e Menino Jesus de Odivelas, tendo esta última sido a única a não passar passar para o concelho de Lisboa mas antes para o de Loures. A Câmara Municipal de Belém teve Alexandre Herculano como o seu primeiro presidente, sucedendo assim à freguesia de Santa Maria de Belém, criada em 1833, que por seu turno tinha substituído o Bairro Administrativo de Belém, instituído em 1813.

Todavia, a Travessa de Vitorino de Freitas, que liga a Calçada da Ajuda à Rua da Bica do Marquês, resultou já de uma deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, tendo sido o necessário Edital publicado em 4 de maio de 1901, para substituir o anterior topónimo de Travessa da Ilha das Cobras. A primeira deliberação camarária da Câmara Municipal de Lisboa, emitida em 1899 foi retificada depois duas vezes, em 19 de julho de 1900 e em 2 de maio de 1901, após o que saiu o Edital e assim, a Planta Topográfica de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Correia de Sá já a inclui.

O pouco que hoje se sabe de Vitorino de Freitas resume-se a ter sido o proprietário de uma mercearia na Ajuda e ter exercido funções de vereador da Câmara Municipal de Belém antes de 1862, se considerarmos que no Largo da Luz, em Carnide, se encontra uma inscrição em pedra onde se pode ler, em maiúsculas, «Praça de Nossa Senhora da Luz mandada edificar pela Camara Municipal de Belém. sendo Presidente João António de Souza e Vereadores Manuel José Gonçalves. Pedro Augusto Franco. D. Sebastião da Silva Pessanha. Faustino José de Freitas. José António Capucho. Francisco Evangelista Pacheco. 1862». Talvez tenha sido o Vitorino José de Freitas (ou familiar) de quem encontramos no arquivo Municipal de Lisboa uma escritura de venda de terreno firmada em 11 de julho de 1901 para construção de jazigo no 3º Cemitério, que era o da Ajuda.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Publicação municipal de toponímia sobre Padre Joaquim Aguiar

A publicação municipal de toponímia referente ao Padre Joaquim Aguiar, distribuída hoje no decorrer da inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar, na freguesia dos Olivais, já está on-line.

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Inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar

Rua Padre Joaquim de Aguiar – Freguesia dos Olivais
(Foto: Sérgio Dias)

Amanhã,  sábado, às 9:30 horas, a Sr.ª Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, acompanhada da Sr.ª Presidente de Junta de Freguesia dos Olivais, Rute Lima, procederão à inauguração da Rua Padre Joaquim Aguiar.

O Padre Joaquim Aguiar Joaquim António de Aguiar (Penedono- Castainço/03.01.1915 – 01.10.2004/Lisboa) distinguiu-se como pedagogo, já que tendo professado vida religiosa na Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Missionários Claretianos) e recebido a ordenação sacerdotal na Sé Catedral do Porto a 4 de agosto de 1940, conseguiu com o seu  dinamismo e espírito empreendedor fundar  o primeiro Colégio Universitário em Lisboa, o Colégio Universitário Pio XII, que abriu portas em 1957.

Refira-se que além das suas funções religiosas, particularmente como primeiro Secretário da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos (1954 a 1970), a ligação a estabelecimentos de ensino foi uma constante. Criou o Instituto Superior de Cultura Católica (1961) em cuja direção participou e leccionou; organizou o  Instituto Superior de Ciências Psicopedagógicas (1962) que também dirigiu como em paralelo o executou de igual modo no Instituto Superior da Pastoral; foi professor encarregado das cadeiras de Ética e História do Cristianismo no Instituto de Ciências Sociais e Políticas bem como dos cursos de Assistentes Sociais e Administração Ultramarina na Universidade Técnica de Lisboa  (1968 a 1978); professor convidado da Faculdade de Filosofia da Universidade de Pontifícia de Salamanca (1978 a 1980); professor da cadeira de Ideologias Políticas em Portugal nos séculos XIX e XX no curso de pós graduação da Universidade Livre de Lisboa (1980 a 1982); integrou a organização e lançamento da Universidade Internacional de Lisboa (1982 a 1984), onde lecionou a cadeira de Introdução à Universidade e até 1989 dirigiu o Instituto Pré Universitário Internacional da mesma; e encarregou-se da cátedra de História Medieval Política e Institucional da Universidade Autónoma de Lisboa (1986 a 2000).

A Câmara Municipal de Lisboa já em 1982 lhe atribuiu a Medalha de Prata de Mérito Municipal.

Freguesia dos Olivais
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua e a Travessa da família de mercadores Possolo

Rua do Possolo em 1969, destacando-se o pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Casa Fotográfica Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que de acordo com Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo.

A Rua  e a Travessa do Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867.

O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo no pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Mário Marzagão)

Segundo Norberto de Araújo, os Possolo foram uma família de ricos negociantes italianos do séc. XVII, que  ali residiram no seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo” (impresso em 1892), que numa 2ª edição acrescentou (1673 a 1896). Segundo ele, a quinta Possolo foi edificado após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades.

Refira-se finalmente que na esquina da Rua do Possolo  com a Rua de Santana à Lapa está ainda hoje o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Praça de São Paulo, do obelisco e dos quiosques

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Na confluência da Rua de São Paulo, Rua da Ribeira Nova, Rua Nova do Carvalho e Travessa de São Paulo, encontramos a Praça com a invocação do mesmo apóstolo, que chegou até a ser o nome da freguesia, e que desde 1849 conta com um chafariz em forma de obelisco e desde o final do séc. XX, também com quiosques.

O nome deriva da Igreja de São Paulo que no centro da Praça foi edificada no séc. XV, provavelmente em 1412, de acordo com uma inscrição latina incrustada no templo, sendo que os alvarás para instituição da freguesia de São Paulo são de 1566 e de 1568. O terramoto de 1755 que destruiu grande parte desta zona ribeirinha, fazendo milhares de mortos, destruiu também a Igreja que foi substituída em 1768 por uma nova, traçada pelo Arq.º Remígio Francisco de Abreu, a poente da original e virada a nascente.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. (…) Remonta ao quinhentismo, extra-muros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes» e avança que «A velha igreja paroquial de S. Paulo já existia em 1572, seguramente [por estar representada na estampa de Braunio datada desse ano] , mas a inscrição latina colocada sobre a porta do templo antigo deixa entender que a igreja fora construída em 1412».

Em 1609, uma postura publicada no porto de Belém no dia 27 de abril , refere já as Praças de São Paulo e do Corpo Santo, bem como a Praça do Pelourinho Velho e a Rua Nova.

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Dois elementos icónicos desta praça rodeada de prédios pombalinos são o seu chafariz em forma de obelisco e os seus quiosques, todos nela inseridos no decorrer do séc. XIX.

O chafariz era um pedido insistente dos moradores para melhor abastecimento de água na freguesia, pelo menos desde 1821, atendendo ainda às muitas instituições presentes ao seu redor, como a setecentista Casa da Moeda assim como a realização de uma feira no local. Finalmente, em 1848 os fregueses pediram à Câmara Municipal de Lisboa a construção do chafariz, com água encanada do Chafariz da Esperança e os vereadores aprovaram a construção do chafariz, com a água do Chafariz  do Loreto, aproveitando para o efeito o projeto setecentista de Reinaldo Manuel dos Santos com adaptação ao gosto da época pelo Arq.º Malaquias Ferreira Leal, tendo sido inaugurado em 29 outubro de 1849, como Chafariz nº 28, sendo desde o início estabelecido que a bica do lado da frontaria da igreja apenas servisse «as gentes do mar».

Os quiosques instalados na Praça terão sido dois, a fazer fé nos registos fotográficos e documentais.

Sabe-se que aquele conhecido como Quiosque Castanheira, no lado oposto à Igreja, nasceu cerca de 1870, com alvará atribuído em 1881, como propriedade da família Castanheira, ostentando colunas dóricas em ferro forjado e painéis de vidro pintado a ouro sobre grená onde se publicitavam as bebidas populares do estabelecimento:  capilé, gazosa, pirolito e castanheira. Em 2013, foi vendido pela família Castanheira à cadeia Quiosque de Refresco.

Sabemos também que em 1884 António Joaquim Fernandes arrendou terrenos para a colocação de dois quiosques, sendo um na Praça dos Remolares e outro na Praça de São Paulo. Desconhecemos a sua localização mas talvez fosse o mais próximo da igreja já que no ano seguinte surgem requerimentos do Juiz Francisco S. Carneiro e outros, bem como dos paroquianos da freguesia de S. Paulo, ambos a apelarem para que «seja removido para outro local mais próprio, o quiosque que foi colocado no largo de S. Paulo, frente à Igreja» porque «irá causar ajuntamentos à porta da referida igreja». De igual forma se conhece que, em agosto de 1907, três pessoas de apelido Grima trespassaram a exploração de um quiosque na Praça de S. Paulo a João Gomes da Costa, o qual, em março do ano seguinte o trespassou a Rosa da Cruz.

Esta Praça de São Paulo foi remodelada em 1913 quando a Freguesia passou a ter a denominação de Marquês de Pombal, situação que durará até 1959, ano em que voltará a designar-se São Paulo até em 2012, para desde então integrar o território da Freguesia da Misericórdia.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do Vintista Silva Carvalho e da Panificação Mecânica em Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

No centenário da Revolução de 1820, a edilidade lisboeta fez a junção da Rua de São Luís e da Rua de São João dos Bem Casados mais o Largo da Páscoa para dedicar uma rua a José da Silva Carvalho, um dos fundadores do Sinédrio e impulsionador da Revolução Vintista,  artéria na qual firmou tradições no séc. XX a Panificação Mecânica, instalada no nº 209 de hoje, fazendo esquina para a Rua de Campo de Ourique.

Foi por deliberação camarária de 20 de setembro de 1920 e Edital de 16 de outubro que as Ruas de São Luís e de São João Bem Casados junto com o Largo da Páscoa passaram a constituir um único arruamento designado Rua Silva Carvalho, com a legenda «Um dos Iniciadores da Revolução de 1820/1782 – 1856». Recorde-se que o movimento liberal Vintista eclodira no Porto em 24 de agosto de 1920, com Silva Carvalho a integrar a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, mas em Lisboa o movimento só foi desencadeado em setembro, a dia 15, e só em 28 de setembro os governos do Porto e de Lisboa se uniram-se numa única Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, com o encargo de organizar as eleições para as Cortes Constituintes.

No entanto, pelo menos desde o início do séc. XX existira já uma outra artéria dedicada a Silva Carvalho que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915, pelo que no centenário da Revolução de 1820, voltou o 1º Presidente do Supremo Tribunal de Justiça à toponímia de Lisboa. Na planta de janeiro de 1911 de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia é visível a Rua José da Silva Carvalho a correr em paralelo ao Parque Eduardo VII desde o Quartel de Artilharia nº 1 ao Quartel do Vale do Pereiro. Na documentação municipal encontram-se documentos que referem a Rua José da Silva Carvalho em 1901, na planta de construção da Rua Marquês da Fronteira; em 1903, numa venda de terrenos que a menciona como o acréscimo de antiga Rua de Entre Muros e, de fevereiro a novembro de 1915 no projeto de remodelação das ruas Castilho, Rodrigo da Fonseca, Artilharia Um, Joaquim António de Aguiar e Parque Eduardo VII.

José da Silva Carvalho (Dianteira- Stª Comba Dão/19.12.1782- 05.11.1856/freguesia de Santa Isabel – Lisboa), licenciado em Direito em 1805  seguiu a carreira de magistrado em Recardães e depois no Porto, cidade onde fundou com Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges e João Ferreira Viana o Sinédrio, a partir do qual se forjou a Revolução de 1820 com a ajuda dos militares. Foi depois membro da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e Justiça e da Segurança Pública (1821-1822) e ainda Ministro de Estado (1822). Durante o miguelismo – quer em 1823 quer em 1828-, emigrou para Inglaterra  e voltou para o cerco do Porto, assumindo depois a pasta da Fazenda (1832-1835), da Marinha e Ultramar (1833) e a da Justiça (1832-1834). Foi também  o 1.º Presidente Presidente do Supremo Tribunal de Justiça empossado a 14 de setembro de 1833 e até 1836, cargo que voltou a exercer em 1840-1844 e 1847-1856. Foi também deputado de 1834 a 1836 e, novamente, duas vezes Ministro da Fazenda (1835 e 1836). Exila-se pela 3ª vez, durante o Setembrismo, entre 1836 e 1838. Regressado em 1838, volta a ser deputado até 1842. Refira-se ainda que foi nomeado Par do Reino mas recusou sempre títulos de nobreza por ser Maçon.

Nesta artéria de Campo de Ourique existia desde o início do séc. XX a Companhia de Panificação Lisbonense que em 1915 passou a ser propriedade da Nacional (Companhia Nacional de Moagem). Em 1941, o estabelecimento já era da Companhia Industrial de Portugal e Colónias que o arrendou em 1958 à Panificação Mecânica Lda. O edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público,tem características de Arte Nova,  no exterior e no interior, com articulação de vidro e ferro na fachada, motivos naturalistas como o trigo e azulejos da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A rua do mercador quatrocentista a quem D. Afonso V arrendou a costa africana

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Fernam Gomes perpetua na Encosta do Restelo o nome do mercador do séc. XV a quem D. Afonso V arrendou a exploração comercial da costa africana pela contrapartida de avanço na exploração de novos territórios no litoral de África.

O topónimo foi fixado na Rua BM1 à Encosta do Restelo pelo edital municipal de 19/10/1964, somando-se aos inúmeros topónimos de navegadores, missionários, e bandeirantes que desde a década de quarenta do século XX caracterizam a toponímia da zona, centrada na Expansão Portuguesa, tendo recebido a legenda «Navegador do Século XV».

Pelo mesmo edital fixaram-se no local mais 10 topónimos, todos de navegadores do século XV, a saber, Álvaro Esteves que até navegou com Fernão Gomes, Gonçalo Nunes, Gonçalo Velho Cabral, João Coimbra, João Fernandes Labrador, Jorge Álvares, Paulo da Gama, Pedro de Barcelos, Pero de Alenquer e Tristão Vaz, dando assim o edital municipal cumprimento ao parecer da Comissão Municipal de Toponímia, na sua reunião de 27 de maio de 1960, no qual se enunciava que «A Comissão começou por se ocupar, novamente, do processo nº 3545/60, no sentido de os arruamentos do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo serem todos denominados com nomes de figuras relacionadas com a nossa Epopeia Marítima, tendo, para o efeito, visitado aqueles arruamentos e o Bairro residencial.»

Fernam Gomes, também grafado como Fernão Gomes da Mina, foi o mercador a quem D. Afonso V por carta de 12 de abril de 1455 tornou recebedor dos resgastes da Guiné, fosse de mouros fosse de mercadorias. Consta que já antes  servira D. Afonso V em Ceuta e  João de Barros refere-o também na conquista de Alcácer Ceguer (1458).

Mas foi de novembro de 1468 a 1 de junho de 1473 que vigorou o contrato de arrendamento da Costa da Guiné em que o rei D. Afonso  V lhe arrendou por 5 anos, depois prolongado por mais um ano, o exclusivo do comércio do golfo da Guiné, com a obrigação de pagar uma renda anual de 200 mil réis e de ir explorando 100 léguas da costa da África por ano, a sul da Guiné, a partir da Mata de Santa Maria, tendo até 1475 alcançado o cabo de Santa Catarina e as ilhas do golfo da Guiné.

A documentação conhecida refere-o como escudeiro da Casa Real pelo menos desde 4 de setembro de 1469, sendo dois anos depois, aquando da conquista de Arzila, armado cavaleiro da Casa Real. A 14 de dezembro de 1472 recebeu autorização para ele e os seus acompanhantes usarem espadas e todas as outras armas, enquanto durasse o contrato de arrendamento com a Coroa. Terão trabalhado com Fernão Gomes os cavaleiros de D. Afonso V João de Santarém e Pêro Escobar (que em 1471 descobriram a região onde se viria a erguer o forte de S. Jorge da Mina onde conseguiram o primeiro resgate de ouro), Soeiro da Costa, Fernando Pó (que chegou à Baía de Biafra e descobriu a ilha que ficou com o seu nome, agora Bioko) e Rui de Sequeira, bem como os pilotos Álvaro Esteves e Martim Fernandes, e ainda os navegadores Pedro de Sintra, Lopo Gonçalves e Lopo de Sequeira (passaram a linha do Equador, atingindo o Gabão e descobrindo as ilhas de S. Tomé, Príncipe e Ano Bom).

Também foi concedido a Fernão Gomes o monopólio do comércio da malagueta (ou pimenta-da-guiné), por mais 100 mil réis anuais, produto que era então um popular substituto da pimenta. Por outro lado, a Coroa reservava para si o monopólio da revenda do marfim, ao preço de 1500 réis por quintal, que Fernão Gomes teria que ceder integralmente a Martim Eanes de Boaviagem, a quem o rei concedera o exclusivo da venda deste produto em Portugal.

Aliás, os propósitos mercantis foram neste contexto evidentes, a ponto de se terem sido perpetuados nas designações atribuídas pelos navegadores às partes da Costa da Guiné que iam explorando, identificando-as pelas principais mercadorias que aí se obtinham através do comércio com os nativos: Costa da Malagueta (Libéria), Costa do Marfim, Costa do Ouro (Gana) e Costa dos Escravos (Togo e Benim).

Fernão Gomes foi agraciado pelo rei com o  apelido Mina (Carta régia de 29 de Agosto de 1474) e um brasão de armas em escudo de prata,  com três cabeças de negros com colares e argolas de ouro nas orelhas e nas faces, para além de ter sido nomeado membro do Conselho Real em 1478.

Na sua vida privada, Fernam Gomes  casou-se em Lisboa com Catarina Leme, filha bastarda do mercador flamengo Martim Leme, «O Velho».

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

Publicações municipais de toponímia sobre a revista Seara Nova e o pintor Sousa Pinto

As publicações municipais de toponímia referentes à Rua Seara Nova e à Rua Sousa Pinto, hoje distribuídas no decorrer das inauguração oficiais destes arruamentos, na Freguesia de Santo António, já estão online.

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Da Rua do Corpo Santo do «British Bar» à Rua do bombeiro Bernardino Costa

Freguesia da Misericórdia                                                                                                              (Foto: Sérgio Dias)

A antiga Rua do Corpo Santo, que desde 1919 alberga o British Bar, passou no ano de 1920 a homenagear o bombeiro Bernardino Costa que em 1871 tinha salvo duas mulheres num incêndio ocorrido num prédio desta artéria.

A Rua do Corpo Santo, de acordo com a deliberação da Comissão Executiva da Câmara de 20 de setembro de 1920 passou pelo Edital municipal de 29 desse mês a designar-se Rua Bernardino Costa. A Câmara Municipal de Lisboa quis assim homenagear Bernardino António da Costa (01.04.1836 – 27.11.1908), o 1º Patrão do Corpo de Bombeiros Municipais que em 20 de julho de 1871 fizera dois heróicos salvamentos justamente nesta artéria, ao subir pela empena do prédio em chamas e conseguir resgatar duas mulheres que se encontravam num dos andares superiores. Bernardino Costa ingressara nos Bombeiros Municipais em 1854 e aí se manteve em funções durante 46 anos, tendo sido galardoado com a Ordem da Torre e Espada.

No mesmo Edital, a edilidade também lhe juntou a legenda «Valoroso Bombeiro Português/1836 – 1908», mas esta acabou por ser suprimida da placa toponímica por parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 17/11/1947, homologado pelo Vice-Presidente da Câmara em 28/11/1947. Refira-se  ainda que por esse mesmo Edital de 29/09/1920 foram também atribuídas a Rua Dr. Estêvão de Vasconcelos, a Travessa do Desembargador e as Escadinhas da Oliveira.

Sobre os antecedentes toponímicos desta Rua Bernardino Costa, de acordo com uma planta do centro histórico de Lisboa anterior ao Terramoto de 1755 (copiada por Carlos Jorge no séc. XX) era a Rua Direita da Praia. Em março de 1856, Filipe Folque já a designa como Rua do Corpo Santo tal como o faz Francisco Goullard em 1881, no seu levantamento topográfico, e  de igual forma Júlio Silva Pinto, em 1908.

Já o  British Bar que está instalado nos nºs 52-54 da Rua Bernardino Costa, consta do Inventário Municipal inserido na Lisboa Pombalina. A designação do estabelecimento foi dada por António Prazeres, para a inauguração de 17 de fevereiro de 1919, já que antes era a Taverna Inglesa, ali  estabelecida desde os fins do século XIX, sendo então frequentada por súbditos britânicos, portugueses dedicados aos transportes marítimos e marinheiros. No séc. XX, o British Bar passou também a ser frequentado por escritores e artistas, como por exemplo, os pintores e ilustradores Carlos Botelho e Bernardo Marques ou o escritor José Cardoso Pires. No seu interior, destaca-se  uma fotografia da comemoração do final da II Guerra Mundial, tirada à frente do bar, e o relógio inglês do final do séc. XIX que dá as horas ao contrário porque os seus ponteiros funcionam no sentido da rotação da terra. Em 1983, Alan Tanner também usou o espaço para filmagens do seu A Cidade Branca.

Finalmente, registamos  as observações que Norberto de Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa produziu sobre este arruamento : « Ora vejamos esta Rua Bernardino Costa (1922) antiga Rua do Corpo Santo, e que foi de seu cômeço a Rua Larga da Ribeira das Naus. (…) encontra-se um velho ‘Restaurante’ – a ‘antiga Casa José Bento’ –, que data de 1850 (…) dá-nos no trôço contíguo à Praça [ do Duque de Terceira ] a particularidade dos bars, de tipo inglês, (…) O ‘English Bar’, nos nºs 42 e 44 data, neste aspecto actual, de 1937, pois havia desaparecido, como ‘bar’ em 1921, quando José Tavares, que estava à frente da casa, foi fundar no nºs 52 e 54 o ‘British Bar’».

Freguesia da Misericórdia                                                                             (Planta: Sérgio Dias)

Inauguração da Rua Seara Nova e da Rua Sousa Pinto

Na próxima 2ª feira, dia 22 de maio,  às 11:30 horas, a Srª Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, procederá à inauguração dos novos arruamentos da Quinta do Mineiro, na Freguesia de Santo António: a Rua Seara Nova e a Rua Sousa Pinto.

A revista Seara Nova foi fundada em Lisboa em 1921, por figuras do então denominado Grupo da Biblioteca Nacional, como Raúl Proença, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Tomás Conceição Silva, Faria de Vasconcelos e outros, tendo o 1º número saído para a rua no dia 15 de outubro de 1921, com capa do pintor Tomás Leal da Câmara. A partir dessa data atravessou  todo o século XX influenciando gerações sucessivas.

O pintor José Júlio de Sousa Pinto (Angra do Heroísmo/1856 – 1939/Pont-Scorff – França) foi um notável pintor dos séculos XIX e XX, vivendo entre França e Benfica, que se impôs pelos seus quadros do quotidiano da Bretanha do oeste francês, das terras paternas de Valongo e Francelos como temas, ligando a escola de Paris à pintura portuguesa, tendo a sua obra sido muito premiada,  sobretudo do último quartel do séc. XIX até ao primeiro do séc. XX, e representada no  Musée d’Orsay em Paris, Museu Nacional Soares do Reis, Museu Grão Vasco e Museu de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, entre muitos outros nacionais e estrangeiros.

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)