O Beco da Bolacha e a Rua do industrial Eduardo Costa

Argus, julho de 1907

Argus, julho de 1907

O Beco da Bolacha na Freguesia da Estrela e a Rua Eduardo Costa na Freguesia da Penha de França partilham em comum a memória da industrialização da zona da Pampulha, na área das bolachas e biscoitos.

O Beco da Bolacha abre-se frente ao nº 5 da Rua Ribeiro Sanches, na freguesia da Estrela, e terá sido nesta Rua que houve uma fábrica de bolachas que deu nome ao Beco. Segundo Pastor de Macedo, de acordo com o seu Ficheiro Toponímico (propriedade do Gabinete de Estudos Olisiponenses), terá sido a fábrica de José Maria de Moira, transcrevendo o olisipógrafo o seguinte anúncio publicado na Gazeta de Lisboa de 22 de dezembro de 1817 : «Participa-se ao público que a antiga Fabrica de bolacha e biscoito, do fallecido José Maria de Moira, sita na rua nova de S. Francisco de Paula nº1 [ desde 1913 é a Rua Ribeiro Sanches], continua a trabalhar de Janeiro de 1818 em diante por conta de Francisco de Paula de Moira e Companhia; e estes esperão que os Senhores Proprietários de Navios e mais Pessoas que costumavão prover-se deste mantimento, na antiga Fabrica, lhes continuem a dar listas do que precisarem, na certeza que serão bem serviços, tanto na promptidão como na boa qualidade.» 

E é posterior a 1818 a referência escrita que encontramos ao Beco da Bolacha, inscrita na planta n.º 48 do Atlas da carta topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de setembro de 1856.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Beco da Bolacha – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

Eduardo Costa, morador e industrial do Bairro da Pampulha, dá nome a uma Rua lisboeta na Freguesia da Penha de França – a  Rua nº 4 do Vale Escuro – desde  a publicação do Edital de 23 de março de 1954 e foi quem em 1875 criou a Fábrica de Bolachas e Biscoitos da Pampulha. Talvez se chame Eduardo António Costa porque em 18 de novembro de 1872 foi esse o nome de quem pediu à Câmara uma vistoria a um telheiro na Travessa dos Brunos à Pampulha, artéria onde ficava o último piso da fábrica e a morada de Eduardo Costa.

Segundo a publicidade da própria empresa, a Fábrica da Pampulha foi fundada em 1875 por Eduardo Costa, mas já estaria lá o seu embrião em 1872, de acordo com uma reportagem do semanário Branco e Negro desse ano. Em Lisboa, terá sido uma das principais mas foi mesmo a primeira a fabricar em Portugal bolacha de alto relevo.  A Fábrica da Pampulha situava-se na Cruz da Rocha, entre a Travessa dos Brunos (na Pampulha) e a Rua 24 de Julho (hoje, Avenida 24 de Julho). Estava instalada num edifício próprio de 5 pisos, num terreno inclinado, pelo que a matéria prima entrava pelo piso térreo na 24 de Julho e no 5º piso acondicionavam-se as bolachas em caixas que saíam pela Travessa dos Brunos. No topo estava a casa de morada de Eduardo Costa, «uma vivenda deliciosa» como classificava a reportagem de Branco e Negro de 30 de janeiro de 1898  que também relata que na Fábrica da Pampulha trabalhavam 21 mulheres e 31 homens. Em 10 de março de 1902 O Ocidente noticiava que lá trabalhavam 60 pessoas de ambos os sexos, que diariamente produziam 600 quilos de bolacha, sendo exportadas por mês, para África, Brasil e Índia, cerca de 30 mil quilos. Chegaram a ser produzidas cerca de 400 variedades de bolachas e biscoitos, sendo a Maria a especialidade da casa.

A Fábrica da Pampulha tinha ainda em Lisboa um depósito na Rua dos Retroseiros 32/34 (é a que hoje conhecemos como Rua da Conceição) e uma filial no Porto, na Rua D. Pedro, 143-145. Conseguiu ainda vários prémios como na Exposição Industrial de Filadélfia (1876) e na de Paris (1878), para além de uma medalha de mérito da Associação Promotora da Indústria Fabril de Viena de Áustria, bem como no nosso país foi premiada na Exposição Agrícola de Lisboa (1884) e  recebeu a medalha de ouro da Exposição Industrial Portuguesa (1888).

Eduardo Costa era amigo de Alfredo Keil pelo que não se estranhará que a Fábrica de Bolacha e Biscoito da Pampulha tenha feito de oferta aos seus clientes, em março de 1890, de um retrato de Serpa Pinto e de um rótulo de A Portuguesa, além de ter criado as bolachas Serpa Pinto e A Portuguesa. A produção também exaltou valores da cultura nacional como as Bolachas de Santo António, do Ator Taborda (1898), as Garrett  (1902) ou uma bolacha comemorativa da ópera Dona Branca (composta por Alfredo Keil sobre o poema narrativo de Garrett), para além das caixas dedicadas a Gomes Freire de Andrade ou a Bocage (1905 ?). Curiosamente, os seus produtos também veicularam valores republicanos através dos Biscoitos Republicanos, das Bolachas 5 de Outubro (1911) e  das Bolachas Bernardino Machado.

A Fábrica da Pampulha também foi pioneira em ofertas aos clientes para divulgação da marca, como uma bolacha em porcelana, os calendários anuais, como temas como a Partida de Vasco da Gama para a Índia, D. Filipa de Vilhena armando os filhos para a guerra, a Entrada das tropas liberais em Lisboa no ano de 1833 (1903) com retrato de Eduardo Costa e o mês de Março dedicado a Bernardino Machado cuja aniversário era a dia 28, ou ainda O Marquês de Pombal promovendo a reedificação de Lisboa (1906).

Eduardo Costa terá falecido antes de 1911, já que o brinde desse ano mencionava «Fábrica da Pampulha/Eduardo Costa Sucessores» e era um cartaz alusivo à implantação da República, com um civil armado montando guarda sobre destroços e símbolos quebrados da Monarquia e uma fotografia da Praça dos Restauradores.

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Rua Eduardo Costa – Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A  Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata foi inaugurada em 12 de outubro de 1907 e a Primeira Guerra foi um dos períodos em que a sua laboração aumentou, sendo conhecida a artéria onde estava sediada como Rua da Fábrica de Material de Guerra, pelo que houve necessidade de oficializar o topónimo perpetuando no local a memória de mais de 8 décadas da Fábrica neste local, o que ocorreu através da publicação do Edital municipal de 06/05/2015.

No sítio da antiga Real Vidreira (1798) e da Oficina de Pirotecnia (1869) foi construída, de 1904 a 1908, a Fábrica de Material de Guerra, que apesar de inaugurada em 1907 apenas entrou em funcionamento no dia 15 de julho de 1908, produzindo munições de artilharia na dependência do Arsenal do Exército e ostentado a denominação oficial de Fábrica de Projécteis de Artilharia, embora fosse vulgarmente conhecida como Fábrica de Braço de Prata.

A partir de 1912 a Fábrica ganhou também uma importante oficina de espingardas e depois, com a entrada de Portugal na I Grande Guerra gerou-se uma enorme produção embora ao mesmo tempo se tenha assistido à saída de quase todos os seus engenheiros e operários especializados, mobilizados que foram para equipas de reparação e apoio do material bélico durante o conflito. Com o fim da guerra em 1918 a fábrica passou a um  período de produção reduzida.

Em 1927, com o fim do Arsenal do Exército autonomizou-se esta Fábrica e fruto de uma reformulação legislativa, passou à designação de Fábrica de Munições de Artilharia, Armamento e Viaturas, satisfazendo a partir de 1937 as forças armadas portuguesas e as encomendas de países estrangeiros, que tiveram um substancial aumento por via da Guerra Civil Espanhola e da II Guerra Mundial. A partir de 1947, passou a designar-se como Fábrica Militar de Braço de Prata e beneficiou com a entrada de Portugal na NATO e a ajuda financeira do chamado Plano Marshall de 1949-1950. A partir de 1961, com o despoletar da Guerra Colonial, houve novo incremento da laboração para centenas de milhares de espingardas automáticas, morteiros, metralhadoras, munições e outros equipamentos para as Forças Armadas Portuguesas, bem como para exportação, sobretudo para a República Federal da Alemanha.

Em 1980, a Fábrica Militar de Braço de Prata  foi absorvida pela Indep – Indústrias Nacionais de Defesa, E.P., que por sua vez foi introduzida em 1996 no grupo Empordef – Empresas Portuguesas de Defesa e, ainda nessa década, desativada.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa da Fábrica dos Pentes das manufaturas pombalinas

travessa-da-fabrica-dos-pentes placa

Freguesia de Santo António – Placa Tipo II

A Travessa da Fábrica dos Pentes guarda na memória de Lisboa, na zona das Amoreiras,  a Colónia Fabril das Amoreiras que em 1759 o Marquês de Pombal ali instalou.

De acordo com o delineado por Pombal, todas as fábricas dependiam da Junta de Comércio e a fábrica de pentes de marfim foi fundada em 1764, por um francês, de nome Gabriel de La Croix, que depois a passou a um tal Francisco del Cuoco.

O Marquês de Pombal delineou um plano para o Real Colégio das Manufacturas ou Colónia Fabril das Amoreiras determinando a instalação de uma fábrica de sedas, uma de pentes, uma de relógios, e outras de caixas de papelão, de vernizes, de cutelarias, de botões, de lacre e de tapeçarias, para além de aulas de estuque e desenho, fazendo ligação com a fábrica de louça, situada um pouco mais abaixo, no Rato.

Em 1919  (Foto: Anselmo Franco, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1919
(Foto: Anselmo Franco, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ainda hoje subsiste também na toponímia de Lisboa a Travessa da Fábrica das Sedas, na mesma Freguesia de Santo António.

Outras três fábricas pombalinas chegaram também a ser registadas na toponímia alfacinha mas foram alteradas na suas denominações.  A Travessa da Fábrica das Sedas passou por edital do Governo Civil de Lisboa de 05/08/1867 a denominar-se Travessa das Fábricas das Sedas às Amoreiras e, doze anos depois, o Edital municipal de 08/06/1889 tornou-a Travessa das Amoreiras até hoje.

A Calçada da Fábrica da Louça que na primeira metade de Setecentos era a Azinhaga do Rato, depois de ver corrigido o seu traçado passou a ser conhecida como Calçada da Fábrica da Louça, por referência à Fábrica da Louça do Rato e, depois o Edital municipal de 07/06/1924 consagrou neste arruamento Bento da Rocha Cabral (Paradela de Guiães-Sabrosa/29.01.1847 – 29.04.1921/Lisboa), o benemérito que doou parte da sua fortuna e o prédio com o nº 14 neste arruamento para criar o Instituto de Investigação Científica com o seu nome, que foi inaugurado no ano seguinte.

A Rua da Fábrica das Sedas, por Edital municipal de 10 de maio de 1968 passou a designar-se Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, na sequência de um pedido da Juventude Musical Portuguesa e do Sindicato Nacional dos Músicos, considerando até que foi no nº 23 desta rua que viveu e morreu o homenageado.

Freguesia de Santo António

Freguesia de Santo António

O Largo da Fábrica de Xabregas ou do Black

Placa Tipo II

Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo da Fábrica da Fiação de Xabregas, perpetua a memória desta Fábrica fundada em 1854 na zona Oriental de Lisboa, desde a publicação do Edital de 10/02/2004 que juntou em arruamentos próximos fábricas icónicas da industrialização desta zona da cidade.

Este Edital espelha que as artérias junto à Rua Carlos Botelho, na freguesia do Beato,  foram escolhidas para consagrar as fábricas desta zona de Lisboa: a Rua D passou a Largo da Fábrica de Fiação de Xabregas, a Rua E a Largo da Fábrica de Tecidos Oriental, a Rua B e a Rua F a Rua da Fábrica de Estamparia, a Rua G a Rua da Fábrica de Tecidos Lisbonenses e a Rua A e a Rua C a Rua da Fábrica das Moagens.

O mundo rural de Xabregas e Beato transformou-se a partir da extinção das ordens monásticas em 1832-34 e, a instalação das primeiras unidades industriais no que haviam sido edifícios religiosos, fez com que no final do séc. XIX nas fábricas do Beato laborassem entre 800 a 1000 operários.

A Fábrica de Fiação de Xabregas foi fundada em 1854 no Beco dos Toucinheiros, perto da Fonte da Samaritana, e os seus proprietários – Alexandre Black e John Scott Howard – mandaram edificar para os seus trabalhadores, em 1867 e 1877, as primeiras vilas operárias de Xabregas.  Assim se entende que a Fábrica também fosse conhecida como fábrica da Samaritana ou fábrica do Black, em referência ao engenheiro fundador.

Em 1854, começaram as obras da fábrica em terrenos arrendados ao Hospital de S. José, tendo-se concluído em 1857, o edifício rectangular, com 3 pisos e com todos os apetrechos para a mecanização da fiação de algodão. A sua laboração começou em 1858, depois de se constituir em Companhia de Fabrico de Algodões, uma unidade mecanizada de fiação de algodão. Em 1877, um incêndio criou condições para se renovar também com tecelagem mecânica. Ali trabalhavam 150 pessoas, cumprindo um horário médio de 12 horas diárias e, na última década do século XIX, ocupava 513 operários. De acordo com os Inquéritos Industriais de 1881 e 1890, o auge desta fábrica terá sido no final do século XIX. Entre 1932 e 1934 foi integrada na Sociedade Têxtil do Sul, Lda., mantendo a fiação e a tecelagem juntas, até à data do último incêndio, em 1948, altura em que fornecia os Grandes Armazéns do Chiado.

Freguesia do Beato

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Rua d’Os Merinos de Belém

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Placa Tipo IV

No local onde a Fábrica Carp laborou mais de 70 anos ergueu-se já neste século o Condomínio Infante de Sagres, tendo num dos seus arruamentos – Rua B à Rua Bartolomeu Dias –  a edilidade lisboeta  perpetuado esta memória industrial da zona de Belém, através do Edital de 14/07/2004, como Rua da Fábrica Carp.

Em Belém, a Fábrica Carp era conhecida como «Os Merinos», por ser especializada em merinos, isto é na produção de lanifícios de lã dessa raça de carneiros. Esta fábrica foi fundada por Émile Carp no século XIX, e produzia tecidos e confecções a partir da lã de carneiros merinos nas proximidades da Vila Correia. Émile Carp também construiu para os seus trabalhadores uma vilazinha no Monte Estoril, para lhes servir de colónia de férias.

Freguesia de Belém

Freguesia de Belém

A rua mais doce de Lisboa

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na freguesia de Marvila

Chamava-se Rua Direita do Açúcar até o Edital de 08/06/1889, que cortou a palavra «Direita» em muitas artérias da cidade, a transformar em Rua do Açúcar.

Este topónimo deve-se ter fixado na memória da cidade gerado pela presença de uma fábrica de açúcar existente nesta rua, num dos prédios colocados a seguir à Quinta da Mitra. Em 1763, esta indústria pertencia a um súbdito inglês, Christian Smith que morava na Quinta do Bettencourt, e ainda laborava nos finais do século XVIII.

Antes do final do séc. XVIII, estabeleceram-se em Marvila as primeiras indústrias, de sabão, de curtumes, de trefilaria na Quinta dos Alfinetes e esta refinação de açúcar. No dealbar do séc. XX, continuava-se a verificar a instalação de unidades fabris desde a Rua do Açúcar até Braço de Prata e, na Rua do Açúcar encontravam-se a fábrica de cortiça de Narciso Villallonga e a  fábrica da Companhia Nacional de Fósforos.

Nesta Rua do Açúcar está também construído o palácio da Mitra, com classificação municipal, construído em finais do séc. XVII e que foi residência dos prelados de Lisboa. No século seguinte, o  1º Cardeal Patriarca de Lisboa promoveu algumas alterações e, em 1973 parte do Palácio passou a ser a sede do Grupo Amigos de Lisboa.