A Rua Maestro Raúl Ferrão da popular tendinha

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Raúl Ferrão, o compositor da lisboeta A tendinha celebrizada por Hermínia ou Amália, está perpetuado numa Rua do Bairro de Santa Cruz de Benfica, desde 1969 e dezasseis anos após a morte do maestro.

A sugestão de topónimo partiu do próprio Presidente da CML de então, António Vitorino França Borges, tendo o  Edital municipal de 10 de abril de 1969 atribuído a Rua Maestro Raúl Ferrão à Rua 6 do Bairro de Santa Cruz. O mesmo Edital também deu topónimo às restantes ruas do Bairro de Santa Cruz, correspondendo à solicitação da Junta de Freguesia de Benfica já feita em 25 de março de 1966, tendo sido escolhidos para o efeito o nome de 2 militares, 4 atores, 7 jornalistas e escritores, um escultor, um médico e um benemérito, a saber: a Rua Comandante Augusto Cardoso, a Rua Coronel Campos Gonzaga, a Rua Actor Alves da Cunha, a Rua Actor Estêvão Amarante, a Rua Actor Nascimento Fernandes, a Rua Actor Vasco Santana, a Rua Alfredo Pimenta, a Rua Dr. Cunha Seixas, a Rua Eduardo Schwalbach, a Rua Helena de Aragão, a Rua Irene Lisboa, a Rua Jaime Brasil, a Rua Moreira de Almeida, a Rua Júlio Vaz Júnior, a Rua Dr. José Alberto de Faria e a Rua Albino Sousa Cruz.

Raul Ferrão (Lisboa/25.10.1890 – 30.04.1953/Lisboa) era um oficial de artilharia que em paralelo desenvolveu uma carreira de compositor e maestro de música ligeira produzindo para centenas de revistas, operetas, marchas populares e até para alguns filmes como a Canção de Lisboa (1933), a Maria Papoila (1937), Aldeia da Roupa Branca e Varanda dos Rouxinóis (ambos de 1939). Os seus dois temas mais populares foram o fado «A Tendinha» e a canção «Coimbra» (também conhecida como «Avril au Portugal»), que ainda hoje nos assomam à memória. Todavia, também foram êxitos na época inúmeros fados ou canções da sua autoria como «Adeus», «O Balãozinho»«Campino», «Canção de Alcântara», «Carta de um Soldado», «O Cochicho»«Fado das Caldas», «Fado do Marinheiro», «Fado da Melancia», «Lá vai Lisboa»«Lisboa não sejas francesa»«Madragoa», «Maldito Fado», «Maria Severa», «Não Gosto de Ti», «Rosa Enjeitada», «Só à noitinha»ou «Velho Friagem» .  Somou também as vozes de Alberto Ribeiro, Amália, Beatriz Costa, Carlos Ramos, Fernando Farinha, Hermínia, José Pracana, Júlia Barroso, Lucília do Carmo, Maria Clara, Maria da Fé, Maria Teresa de Noronha, Max, Nuno da Câmara Pereira ou Vicente da Câmara, como intérpretes das suas composições.

Raúl Ferrão foi um militar de carreira que frequentou o Colégio Militar e alcançou o posto de tenente-coronel do Exército, tendo sido ainda professor na Escola de Guerra (1917 e 1918), depois de ter cumprido comissões de serviço em África durante a I Guerra Mundial. Foi agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito Industrial (1932) e a Comenda da Ordem Militar de Avis (1935), assim como recebeu em 1945/1946 o Prémio Filipe Duarte do SNI  por «Menina Lisboa» da opereta A Invasão (juntamente com José Galhardo e Mirita Casimiro) e em 1946/1947, o Prémio Del Negro por «Trapeiras de Lisboa» incluída na revista Canções Unidas, para além de em Coimbra existir uma Rua Raúl Ferrão.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Canção do Mar original, por Carlos Fernando

A Canção do Mar, com letra de  Frederico de Brito e música de Ferrer Trindade, foi concebida à volta do ano de 1953 e originalmente foi cantada por Carlos Fernando, membro de um conjunto musical da Linha de Cascais. Foi assim que chegou a um programa da manhã do Rádio Clube Português.

Em 1954 estava em Lisboa o realizador francês Henry Vernueil a rodar parte do seu Os Amantes do Tejo e convidou Amália a participar com um pequeno papel e cantando dois fados: uma versão suave e inócua de Mãe Preta do brasileiro Caco Velho com o título de Barco Negro, e a Canção do Mar mas com uma nova letra realizada por David Mourão-Ferreira, intitulada Solidão, versão que não se tornou popular e a Canção do Mar original é que seguiu caminho sendo alvo de versões dos brasileiros Agostinho dos Santos (1956) e Almir Ribeiro (1957).

Letra da Canção do Mar de Frederico de Brito:
Fui bailar no meu batel
Além no mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo
Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração
Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar…contigo

A Rua do Britinho da revista, do fado e da Canção do Mar

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Frederico de Brito, conhecido como Britinho, nome de autor do teatro de revista e do fado e  figura muito querida em Lisboa, tem desde 2009 o seu nome perpetuado numa Rua da freguesia de Santa Clara, com a legenda «Compositor e Poeta/1894 – 1977», a partir da proposta de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

A Rua Frederico de Brito foi fixada na Rua A à Azinhaga da Cidade (junto à Estrada de São Bartolomeu) pelo Edital municipal de 16/09/2009, que colocou também nesta área do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a actriz Glicínia Quartin e o encenador Artur Ramos.

Joaquim Frederico de Brito (Oeiras-Carnaxide/15.09.1894-24.03.1977/Lisboa) foi um poeta e compositor famoso pela sua rapidez de composição que escreveu mais de um milhar de letras e compôs algumas centenas de músicas. Distinguia-o também a alcunha carinhosa de Britinho, usada sobretudo no mundo do fado, ao qual se ligara desde os 8 anos de idade, quando morava com a família em Alcântara,  já que após ler Lira do Fado de Avelino de Sousa, escreveu versos que o seu irmão mais velho – João de Brito – cantava em festas de amadores. São êxitos seus a Canção do MarCanoas do Tejo cantada por Carlos do Carmo, a Janela virada para o Mar celebrizada por Tristão da Silva, ou ainda Carmencita interpretada por Amália, para além do Fado do Britinho, Fado dos Sonhos, Biografia do Fado, Não digam ao fado, em vozes como as de Beatriz da Conceição, Carlos RamosFernanda Maria ou Lucília do Carmo. Em paralelo, Frederico de Brito também colaborou intensamente com o jornal Guitarra de Portugal assim como foi diretor e editor do jornal O Galarim.

Por outro lado, de 1934 a 1969, tornou-se também autor de marchas para os bairros de Lisboa, de que são exemplo maiores É raparigas, com música de Raul Ferrão para a Marcha de Benfica de 1934 ou a Marcha de Marvila de 1964, com música de Ferrer Trindade. O Britinho produziu poemas para as marchas dos bairros da Ajuda, Alcântara, Alfama, Alto do Pina, Bairro Alto, Benfica, Bica, Campo de Ourique, Campolide, Castelo, Graça, Madragoa, Marvila, Mouraria, Olivais, Santa Catarina e São Vicente.

Frederico de Brito foi também  o autor de inúmeras músicas e poemas para o teatro de revista, onde se estreou em 1935, no Anima-te Zé, no palco do Teatro Maria Vitória, onde ficou famoso o tema Soldado do Fado, com letra sua e música de Frederico Valério. Além deste palco a sua obra também passou no Éden, no Variedades e no ABC. Refira-se ainda que  participou como cantor na opereta História do Fado de Avelino de Sousa, tal como Alfredo Marceneiro.

E durante muitos anos, juntou à sua paixão uma ocupação: de estucador, de motorista de táxi em Lisboa e ainda, de empregado da Companhia de Petróleos Atlantic que viria a ser a BP. O táxi também o inspirou para em 1930 publicar Musa ao Volante: quadras, com prefácio de Albino Forjaz de Sampaio.  Dois anos depois também lançou Terra Brava: versos, desta feita com uma carta prefácio de Teixeira de Pascoais.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Maestro Frederico de Freitas, autor do fado Rua do Capelão

Freguesia de São Domingos de Benfica                                             (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Maestro Frederico de Freitas, autor das partituras dos filmes A Severa (1931) e Fado (1948), passou a ser o topónimo de uma Rua de São Domingos de Benfica três anos após o seu falecimento, sendo o 1º filme sonoro português sobre a 1ª fadista que o tornou popular e nele pontuou o seu fado Rua do Capelão, ainda hoje uma memória muito presente no imaginário português.

A Rua Maestro Frederico de Freitas, que une a Rua Cidade de Rabat  à Rua Augusto Pina, foi atribuída pelo Edital municipal de 11 de novembro de 1983 na Rua 2 (entre a Rua Augusto Pina e a Rua dos Soeiros), também identificada como Prolongamento da Rua Augusto Pina, artéria onde desde 1972 estava sediada a então Escola Preparatória Prof. Delfim Santos, a partir de uma solicitação da Sociedade Portuguesa de Autores, que além do nome de Frederico de Freitas propôs os escritores Pedro Bandeira e José Galhardo, assim como o ator Paulo Renato, tendo sido todos incluídos no mesmo Edital.

Frederico Guedes de Freitas (Lisboa/15.11.1902- 12.01.1980/Lisboa) notabilizou-se como compositor, maestro, pedagogo, musicólogo e crítico musical. Revelou-se um músico abrangente e eclético, do fado à música erudita. Somou música erudita, como por exemplo, Concerto para Flauta,  Hino Asas AtlânticasMissa SoleneQuarteto ConcertanteRibatejo  ou Suite Medieval, com música produzida para cinema, teatro ou dança. Adicionou ao património musical português tanto música de câmara como Quinteto de sopros ou Dez Canções Galegas como música sinfónica ( A Lenda dos BailarinosSuite Africana ou Sinfonia Os Jerónimos ), música para comédias, óperas, operetas, revistas (1927 – 1937) e até filmes como Pátio das Cantigas ou As Pupilas do Senhor Reitor (de Leitão de Barros como A Severa), de 1930 e até 1947, fazendo música tanto destinada ao público do Parque Mayer como ao do Teatro Nacional de São Carlos.

Funcionário da  Emissora Nacional entre 1935 e 1975, como Segundo Maestro da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional,  tanto colaborou em 1940 nas comemorações da celebração do Estado Novo  como esteve na fundação da Sociedade Coral de Lisboa (1940-1949) para apresentação de obras do repertório coral sinfónico. Depois, na Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto (1949-1953), dirigiu as primeiras audições no Porto de obras de Fernando Lopes Graça, um resistente musical durante o Estado Novo. Acresce que Frederico de Freitas foi o compositor português de música sacra mais destacado do século XX, autor de As Sete Palavras de Nossa Senhora, tal como foi o responsável por orquestrar A Portuguesa e Grândola Vila Morena. A sua versatilidade revela-se no índice do seu catálogo musical que junta Bailado, Música de Câmara, Música para Cinema, Música Coral, Harmonizações, Hinos, Música para Instrumento Solista, Música de Cena, Ópera, Opereta, Música Sinfónica, Orquestrações, Música de Teatro de Revista, Vaudeville, Voz e Piano. Registe-se ainda que Frederico de Freitas também exerceu  funções de chefe de orquestra no Brasil, na Bélgica, em Espanha, França, Holanda, Itália e Suíça.

Frederico de Freitas  foi  ainda docente de Canto Coral, a partir de 1924, no Liceu Camões (onde fora aluno em 1913 e 1914) e no Liceu Gil Vicente, assim como desde  1967, ensinou Composição, Contraponto e Fuga no Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa. Na dança, também trabalhou como diretor musical e compositor na Companhia de Portuguesa de Bailado Verde Gaio fundada pelo Secretariado de Propaganda Nacional/SPN (1940 – 1950), assim como compôs música para dança para o seu amigo de juventude e coreógrafo Francis Graça durante a década de 1940. Somou ainda a direção musical da delegação portuguesa da His Master’s Voice na transição para a década de 1930 e a função de crítico musical no jornal Novidades, sendo ainda autor de vários estudos como «O fado, canção da cidade de Lisboa» ou «O fado veio do Brasil».

Refira-se que Frederico havia iniciado os seus estudos de música com a sua mãe, a pianista Elvira Cândida Guedes de Freitas e a partir de 1915 no Conservatório Nacional em Lisboa. Morou na Rua do Prior Coutinho, entre a Rua de Santa Marta e a Rua do Passadiço. Em 1918, aos 16 anos, compôs as suas primeiras obras – Duas Ave Marias –, cuja primeira audição pública ocorreu em 1922.  Concluiu o curso de Composição no Conservatório Nacional em 1925, e foi seleccionado para Pensionista do Estado no estrangeiro nesse mesmo ano, o que lhe possibilitou a realização de viagens a vários países europeus em 1927 e 1928.

Foi um dos mais empenhados membros da Sociedade Portuguesa de Autores, em cuja fundação participou quando tinha 23 anos (era então denominada Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses) e da qual foi mais tarde Presidente de Honra. Frederico de Freitas foi também agraciado, por ordem cronológica, com  Prémio da CML para a Sonata Violino e Violoncelo (1924), o Prémio Nacional de Composição Carlos Seixas (1926), o Prémio de Composição Domingos Bomtempo ( 1935), a Comenda de Santiago de Espada (1967), o seu nome dado ao Auditório da SPA (1981).

Em 2010,  o espólio do compositor Frederico de Freitas foi doado à Universidade de Aveiro pela filha do compositor, Elvira de Freitas, tendo dois anos depois sido também instituído o Prémio de Interpretação Frederico de Freitas/Universidade de Aveiro.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do mestre de música Marcos Portugal

Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Mestre de Música de princesas e príncipes, Marcos Portugal ficou perpetuado na antiga Rua da Conceição, a ligar a Praça das Flores à Rua da Imprensa Nacional, num dos primeiros Editais municipais de toponímia após a implantação da República.

Pelo Edital de municipal de 7 de agosto de 1911, junto com mais 43 topónimos, a antiga Rua da Conceição que pelo Edital do Governo Civil de 01/09/1859 se tornara Rua de Nossa Senhora da Conceição passou a ser a Rua Marcos Portugal, com a legenda «Músico Compositor/1762-1830». Todavia, após a criação da Comissão Municipal de Toponímia na edilidade lisboeta, em 1943, foi esta Comissão de parecer que a legenda fosse  suprimida, na sua reunião de 16/12/1946, o que foi homologado pelo Presidente da Autarquia em 20/12/1946.

O homenageado é Marcos António da Fonseca Portugal (Lisboa/24.03.1762 – 07.01.1830/Rio de Janeiro) que se distinguiu como organista, maestro e prolífico compositor, com mais de 70 obras dramáticas, cerca de 40 óperas e mais de 140 obras religiosas, tendo ficado conhecido no estrangeiro como Marco Portogallo.

Marcos António estudou composição desde os 9 anos, com João de Sousa Carvalho, no Seminário da Patriarcal de Lisboa, assim como canto e órgão. A partir de 1782, Marcos Portugal iniciou uma longa colaboração com a Família Real, desde a encomenda de música religiosa para as festividades nas Capelas Reais. Aliás, as suas 3 obras sacras mais conhecidas mantiveram-se no repertório durante cerca de um século: a Missa Grande (c. 1790), as Matinas da Conceição (1802) e o Te Deum (1802). De 1783 a 1792  foi organista e compositor da Sé Patriarcal de Lisboa, acumulando com o lugar de Mestre de Música do Teatro do Salitre, a partir de 1784 ou 1785, onde compôs vários entremezes, óperas portuguesas com libretos italianos traduzidos e elogios para festejar os aniversários de Pessoas Reais.

Em 1792 partiu para Itália, onde compôs 21 óperas, cujo sucesso rapidamente lhe granjeou fama internacional. Depois de uma breve visita a Lisboa em 1795, voltou em 1800, época em que se tornou professor dos príncipes, mestre do Seminário da Patriarcal e maestro do Real Teatro de S. Carlos até ao Carnaval de 1807, ano em que se destacou pela enorme quantidade de obras religiosas que compôs utilizando os 6 órgãos de Mafra, numa altura em que o Príncipe Regente (futuro D. João VI) e a corte residiam no Palácio.

Em novembro de 1807, quando as tropas de Napoleão entraram na capital portuguesa, Marcos Portugal permaneceu em Lisboa, reescrevendo a ópera Demofoonte para o aniversário do Imperador francês a 15 de agosto de 1808 e depois, até janeiro de 1811, foi intermitentemente maestro no Real Teatro de S. Carlos. O Príncipe Regente chamou-o para o Rio de Janeiro, onde a Família Real residia desde março de 1808 e para lá foi em 11 de junho de 1811, nomeado Mestre de Música de Suas Altezas Reais e Compositor Real oficial. Dedicado sobretudo à música religiosa, recebeu a Comenda da Ordem de Cristo em 1820, na data de aniversário do Príncipe Pedro. Quando a Corte portuguesa retornou a Lisboa, em 1821, Marcos manteve-se ao serviço do seu aluno, o Príncipe Pedro, que viria a ser D. Pedro I, o Imperador do Brasil, pelo que em setembro de 1822 compôs o Hino da Independência do Brasil e a 10 de dezembro de 1824 foi confirmado como Mestre de Música das princesas.

Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

A Rua Maestro Pedro de Freitas Branco na rua onde viveu

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Freitas Branco, que hoje faria hoje 120 anos, foi acolhido como topónimo na antiga Rua da Fábrica das Sedas, arruamento onde o maestro viveu muitos anos , na sequência de um pedido da Juventude Musical Portuguesa e do Sindicato Nacional dos Músicos.

Foi cinco anos após o falecimento do músico que o Edital municipal de 10 de maio de 1968 atribuiu o topónimo Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, com a legenda «1896 – 1963», na Rua da Fábrica das Sedas, a unir a Rua Gustavo de Matos Sequeira à  Rua da Escola Politécnica.

Pedro António da Costa de Freitas Branco (Lisboa/31.10.1896 – 24.03.1963/Lisboa) nasceu na Calçada da Quintinha e viveu  a maior parte da sua vida no nº 23 da Rua Fábrica das Sedas, onde veio a falecer. Aos 7 anos iniciou-se no violino para além de ter estudado harmonia e contraponto com Tomás Borba e o seu irmão Luís de Freitas Branco. Em 1924, abandonou o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico para se dedicar à música e foi estagiar regência de orquestra em Londres (1925-1927). De regresso,  fundou em 1928 a Companhia Portuguesa de Ópera Lírica, no Teatro São João do Porto e notabilizou-se como chefe de orquestra nos Concertos Sinfónicos de Lisboa, no Tivoli (1928 a 1932).  E após o convite do próprio Maurice Ravel, em 1932, para dirigir em Paris o concerto nº 1 do compositor alcançou renome internacional e fixou-se em Paris, de 1933 a 1937, para dirigir diversas orquestras francesas e europeias.

Pedro de Freitas Branco somou ainda o trabalho na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, desde a sua criação em 1934, tendo-a dirigido até falecer. Acumulou ainda com a regência de Ópera no Teatro Nacional de São Carlos, tanto mais que nos anos 40 e 50, também nessa área fez carreira internacional, com  cantores como Beniamino Gigli, Giuseppe di Steffano e Victoria de los Angeles, ou instrumentistas como o pianista Wilhelm Kempff. Também até 1961 dirigiu igualmente a Orquestra Sinfónica de Lisboa, à frente da qual estreou em Portugal muitas obras de compositores do século XX como Bartók, Luigi Dallapiccola, Paul Hindemith,  Prokofiev, Ravel, Richard Strauss e Stravinski.

Escreveu ainda o livro História da Música Popular em Portugal (1947), revelando a história e a dinamização cultural criada pelas filarmónicas, bandas civis e sociedades de recreio portuguesas. E ainda editou gravações históricas, como a do Concerto para Violoncelo em ré menor, de Edouard Lallo, com Guilhermina Suggia e a London Symphony Orchestra (1946) e aquelas em que perpetuou compositores portugueses como Luís de Freitas Branco e Viana da Mota, mas só dois receberam o Grand Prix du Disque da Academia Charles Cros: em 1954 com obras de Maurice Ravel e em 1962 com obras de Manuel de Falla.

Pedro de Freitas Branco, casado com a pianista Marie Antoinette Levêque, foi ainda agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada no grau de Cavaleiro (1931) e de Comendador (1939). Também a Câmara Municipal de Lisboa, mesmo antes de o colocar na toponímia da cidade, já no ano anterior o homenageara através da colocação de uma lápide no prédio onde ele vivera na então Rua da Fábrica das Sedas.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do violinista Luís Barbosa no Beato

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

O alfacinha Luís Barbosa, considerado o melhores violinista da sua geração, dá nome a uma artéria do  Beato desde 1979, com a legenda «Músico/1887 – 1952».

A Rua Luís Barbosa nasceu do Edital municipal de 19/06/1979 no arruamento de ligação à Rua Dr. Manuel Espírito Santo, situado entre os Impasse 2 e 3. Este Edital fixou os topónimos dos arruamentos da Quinta do Ourives, colocando também o nome do bibliotecário e historiador António Joaquim Anselmo e figuras das artes como o escultor Faustino José Rodrigues, o pintor José Rodrigues e o barítono Francisco de Andrade (arruamento entretanto desaparecido e bem, já que desde a publicação do Edital de 20/10/1955 este cantor lírico estava fixado numa artéria de Alvalade).

José Luiz Barbosa (Lisboa/23.05.1887 – 03.10.1952/Lisboa),  começou os seus estudos musicais com o seu pai, com menos de 4 anos de idade e aos 5 já ganhava a vida tocando em cafés. A condessa de Edla, viúva de D. Fernando, protegeu-o custeando a despesa com o seu ingresso como aluno do Conservatório de Lisboa, mas este viu-se forçado a interrompê-los, dos 8 aos 17 anos, voltando a prosseguir os estudos depois com o professor e violinista Júlio Cardona, que foi o seu grande mestre, tendo também recebido lições do professor do Conservatório Alexandre de Bettencourt de Vasconcelos. Ficaram memoráveis as suas interpretações, com orquestras dirigidas por David de Sousa, Joaquim Fernandes Fão, Viana da Mota ou Pedro de Freitas Branco, dos difíceis concertos de Marc Bruch, Mendelssohn, Paganini, Saint-Saens e Tartini. A sua composição para violino e piano Romance, uma deliciosa peça de encore, característica do repertório dos violinistas concertistas do princípio do séc. XX, ficou também muito conhecida e curiosamente, Luís Barbosa casou com uma sua discípula que depois optou por ser pianista e os seus filhos foram o violinista Vasco Barbosa e a pianista Grazie Barbosa.

Luís Barbosa fez parte do Quarteto de Cordas da Emissora Nacional, com o qual interpretou praticamente todo o reportório clássico para esta formação e com o violoncelista Fernando Costa interpretou, em primeira audição em Portugal, o duplo concerto de Brahms para violino e violoncelo.

Luiz Barbosa foi ainda professor, tendo sido seus discípulos nomes como César Lobo, Fausto Caldeira, Herberto de Aguiar e foi agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada em 5 de outubro de 1928.

Freguesia do Beato (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Francisco Baía que foi de Alvalade para São Domingos de Benfica

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Francisco Baía, pianista e professor do Conservatório de Música de Lisboa, teve direito a ser nome de rua em Lisboa por duas vezes: primeiro em Alvalade (1970) e depois, em São Domingos de Benfica (1971).

Conforme a Ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 23 de dezembro de 1970 (Ata nº 98), face a um «Despacho de Sua Excelência o Presidente [ o Engº Santos e Castro] solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» a Comissão considerou  que «num futuro próximo a Rua O da Malha Um de Chelas será uma das mais importantes artérias de Lisboa, a Comissão, tendo em vista o despacho de Sua Excelência o Presidente, sugere que a mesma passe a denominar-se Avenida José Malhoa/Pintor/1855 – 1933 e que a actual Rua José Malhoa (em Alvalade) e o seu prolongamento constituam um único arruamento que se denominará Rua Francisco Baía/1861 – 1931

Contudo, na Ata seguinte, a Ata nº 99, e sem referir  justificação alguma, a Rua José Malhoa passou antes a ser a Rua General Pimenta de Castro e, a Rua Francisco Baía foi para a Freguesia de São Domingos de Benfica por via do Edital municipal de 9 de fevereiro de 1971, colocada na Rua D à Rua dos Soeiros, a ligar hoje a  Rua dos Soeiros à Rua Maestro Jaime Silva (Filho).

Partitura de Francisco Baía editada cerca de 1800 (Foto: Biblioteca Nacional)

Partitura de Francisco Baía editada cerca de 1889- 1891
(Foto: Biblioteca Nacional)

Francisco Jorge de Sousa Baía (Funchal/1861 – 1931/Lisboa) foi um pianista e professor da Escola de Música do Conservatório de Lisboa, até à sua aposentação. Foram suas alunas Elisa Baptista de Sousa Pedroso e Cândida de Freitas, entre outros.

Francisco Baía foi também um valor da música portuguesa para piano, tendo publicado diversas partituras como A Brisa : fado para piano (cerca de 1889 a 1891) dedicada a Alexandre Rey ColaçoQuermesse: valsa para piano dedicada à Real Associação das Creches, Fado Chic (cerca de 1900),  Fadinho Liró (1900) dedicado à sua filha Maria do Carmo, Preâmbulo em Sol bemol : para piano (1907). Foi também um compositor de teatro musical .

Em 1918, junto com Tomás Borba e Augusto de Oliveira Machado foi Delegado do Conservatório de Lisboa para eleger o senador eleito pelas artes visuais, música e teatro ao Congresso da Nova República, de Sidónio Pais, em que foi eleito Júlio Dantas.

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Tomás Borba, o pedagogo da modernidade do Canto Coral

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Cinco anos após a sua morte foi Tomás Borba colocado como topónimo de uma rua do Bairro do Arco do Cego, homenageando o compositor e pedagogo que inovou na pedagogia da Música em Portugal, particularmente através da introdução do Canto Coral nas escolas.

A Rua Tomás Borba era o troço da Rua Gomes Leal «a poente do novo Edifício escolar», conforme indica o Edital municipal de 03/12/1955 e hoje une a Rua Costa Goodolfim à Rua Stuart Carvalhais.  A construção de um novo edifício escolar, inicialmente previsto para ambos os sexos terem aulas separados, acabou por entrar em funcionamento no ano letivo de 1938/39 antes como um liceu feminino. E assim a construção do Liceu Filipa de Lencastre partiu em dois diversas artérias do Bairro do Arco do Cego, pelo que foi necessário renomear uma metade de cada um desses arruamentos e foi num dessas metades que nasceu a Rua Tomás Borba.

Tomas Borba

Thomaz Vaz de Borba (Angra do Heroísmo/23.11.1867 – 12.02.1950/Lisboa) era desde 1890 um sacerdote católico, amigo dos também açorianos Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, que veio para Lisboa em 1891, estudar  no Real Conservatório Nacional (de 1891 a 1895) e também  no Curso Superior de Letras (de 1893 a 1896), tendo concluído ambos os cursos.

Exerceu o sacerdócio como prior da paróquia dos Mártires, em pleno Chiado, mas também como Comissário da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo onde desenvolveu obra na música religiosa, tendo por sua iniciativa sido adquirido para a Capela da Ordem o primeiro órgão pneumático de fabrico moderno.

Em paralelo, o Padre Tomás Borba exerceu também a docência e após a implantação da República foi nomeado vogal do Conselho Superior de Instrução Pública, no que foi o 1º representante do ensino da música em tal órgão. De 1901 a 1937 foi Professor de Harmonia no Conservatório Nacional, onde se tornou também o 1º professor a reger a cadeira de História da Música, a partir de 1911. Lecionou também no Liceu D. Maria Pia (1914) ao mesmo tempo que era regente do Orfeão do Liceu da Lapa. Foi ainda docente de Solfejo e Canto Coral na Escola Normal Primária de Lisboa (1916), introduzindo os métodos de solfejo entoado e de ginástica rítmica para incentivar a sua introdução destas disciplinas nas escolas portuguesas. Tomás Borba foi ainda o diretor da Academia de Amadores de Música, onde conjugou modernidade e tolerância, já que aí  acolheu Fernando Lopes Graça quando este  estava proibido de ensinar pela PIDE. Para além de Lopes Graça foram seus  discípulos  Francine Benoït, António de Lima Fragoso, Luís de Freitas Branco, Pedro de Freitas Branco, Rui Coelho ou Ivo Cruz.

Como compositor, a obra de Tomás Borba compreende música sacra, como  Te Deum (1898), Requiem, Coros Religiosos, algumas missas, motetes e canções sacras, bem como música profana como ciclos de peças para piano, sonatas para violino e piano assim como danças portuguesas.

Tomás Borba merece ainda  ser recordado pelo seu importante trabalho na área difusão musical, através das suas edições, como os 3 volumes de Escola Musical, Toadas da Nossa Terra (1908), os 4 volumes de Canto Coral nas Escolas (1913), Exercícios graduados de solfejo : para uso das escolas primárias, colégios, liceus, etc. (1915), Solfejos, Canções e Cânones Adequados ao Programa de Canto Coral nos Liceus (1935),   o Manual de Harmonia (1937), e os 2 volumes do  Dicionário de Música (1956-1958), preparado fundamentalmente por Fernando Lopes Graça mas que apareceu com o nome de Tomás Borba para proteger o primeiro.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Moleirinha – Música de Tomás Borba. Letra de Guerra Junqueiro. Intérprete: Maria de Lurdes Resende. Suporte musical: Orquestra de Joaquim Luís Gomes