Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

A Rua Maestro Pedro de Freitas Branco na rua onde viveu

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Freitas Branco, que hoje faria hoje 120 anos, foi acolhido como topónimo na antiga Rua da Fábrica das Sedas, arruamento onde o maestro viveu muitos anos , na sequência de um pedido da Juventude Musical Portuguesa e do Sindicato Nacional dos Músicos.

Foi cinco anos após o falecimento do músico que o Edital municipal de 10 de maio de 1968 atribuiu o topónimo Rua Maestro Pedro de Freitas Branco, com a legenda «1896 – 1963», na Rua da Fábrica das Sedas, a unir a Rua Gustavo de Matos Sequeira à  Rua da Escola Politécnica.

Pedro António da Costa de Freitas Branco (Lisboa/31.10.1896 – 24.03.1963/Lisboa) nasceu na Calçada da Quintinha e viveu  a maior parte da sua vida no nº 23 da Rua Fábrica das Sedas, onde veio a falecer. Aos 7 anos iniciou-se no violino para além de ter estudado harmonia e contraponto com Tomás Borba e o seu irmão Luís de Freitas Branco. Em 1924, abandonou o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico para se dedicar à música e foi estagiar regência de orquestra em Londres (1925-1927). De regresso,  fundou em 1928 a Companhia Portuguesa de Ópera Lírica, no Teatro São João do Porto e notabilizou-se como chefe de orquestra nos Concertos Sinfónicos de Lisboa, no Tivoli (1928 a 1932).  E após o convite do próprio Maurice Ravel, em 1932, para dirigir em Paris o concerto nº 1 do compositor alcançou renome internacional e fixou-se em Paris, de 1933 a 1937, para dirigir diversas orquestras francesas e europeias.

Pedro de Freitas Branco somou ainda o trabalho na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, desde a sua criação em 1934, tendo-a dirigido até falecer. Acumulou ainda com a regência de Ópera no Teatro Nacional de São Carlos, tanto mais que nos anos 40 e 50, também nessa área fez carreira internacional, com  cantores como Beniamino Gigli, Giuseppe di Steffano e Victoria de los Angeles, ou instrumentistas como o pianista Wilhelm Kempff. Também até 1961 dirigiu igualmente a Orquestra Sinfónica de Lisboa, à frente da qual estreou em Portugal muitas obras de compositores do século XX como Bartók, Luigi Dallapiccola, Paul Hindemith,  Prokofiev, Ravel, Richard Strauss e Stravinski.

Escreveu ainda o livro História da Música Popular em Portugal (1947), revelando a história e a dinamização cultural criada pelas filarmónicas, bandas civis e sociedades de recreio portuguesas. E ainda editou gravações históricas, como a do Concerto para Violoncelo em ré menor, de Edouard Lallo, com Guilhermina Suggia e a London Symphony Orchestra (1946) e aquelas em que perpetuou compositores portugueses como Luís de Freitas Branco e Viana da Mota, mas só dois receberam o Grand Prix du Disque da Academia Charles Cros: em 1954 com obras de Maurice Ravel e em 1962 com obras de Manuel de Falla.

Pedro de Freitas Branco, casado com a pianista Marie Antoinette Levêque, foi ainda agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada no grau de Cavaleiro (1931) e de Comendador (1939). Também a Câmara Municipal de Lisboa, mesmo antes de o colocar na toponímia da cidade, já no ano anterior o homenageara através da colocação de uma lápide no prédio onde ele vivera na então Rua da Fábrica das Sedas.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do violinista Luís Barbosa no Beato

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

O alfacinha Luís Barbosa, considerado o melhores violinista da sua geração, dá nome a uma artéria do  Beato desde 1979, com a legenda «Músico/1887 – 1952».

A Rua Luís Barbosa nasceu do Edital municipal de 19/06/1979 no arruamento de ligação à Rua Dr. Manuel Espírito Santo, situado entre os Impasse 2 e 3. Este Edital fixou os topónimos dos arruamentos da Quinta do Ourives, colocando também o nome do bibliotecário e historiador António Joaquim Anselmo e figuras das artes como o escultor Faustino José Rodrigues, o pintor José Rodrigues e o barítono Francisco de Andrade (arruamento entretanto desaparecido e bem, já que desde a publicação do Edital de 20/10/1955 este cantor lírico estava fixado numa artéria de Alvalade).

José Luiz Barbosa (Lisboa/23.05.1887 – 03.10.1952/Lisboa),  começou os seus estudos musicais com o seu pai, com menos de 4 anos de idade e aos 5 já ganhava a vida tocando em cafés. A condessa de Edla, viúva de D. Fernando, protegeu-o custeando a despesa com o seu ingresso como aluno do Conservatório de Lisboa, mas este viu-se forçado a interrompê-los, dos 8 aos 17 anos, voltando a prosseguir os estudos depois com o professor e violinista Júlio Cardona, que foi o seu grande mestre, tendo também recebido lições do professor do Conservatório Alexandre de Bettencourt de Vasconcelos. Ficaram memoráveis as suas interpretações, com orquestras dirigidas por David de Sousa, Joaquim Fernandes Fão, Viana da Mota ou Pedro de Freitas Branco, dos difíceis concertos de Marc Bruch, Mendelssohn, Paganini, Saint-Saens e Tartini. A sua composição para violino e piano Romance, uma deliciosa peça de encore, característica do repertório dos violinistas concertistas do princípio do séc. XX, ficou também muito conhecida e curiosamente, Luís Barbosa casou com uma sua discípula que depois optou por ser pianista e os seus filhos foram o violinista Vasco Barbosa e a pianista Grazie Barbosa.

Luís Barbosa fez parte do Quarteto de Cordas da Emissora Nacional, com o qual interpretou praticamente todo o reportório clássico para esta formação e com o violoncelista Fernando Costa interpretou, em primeira audição em Portugal, o duplo concerto de Brahms para violino e violoncelo.

Luiz Barbosa foi ainda professor, tendo sido seus discípulos nomes como César Lobo, Fausto Caldeira, Herberto de Aguiar e foi agraciado com a Ordem de Sant’iago da Espada em 5 de outubro de 1928.

Freguesia do Beato (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Francisco Baía que foi de Alvalade para São Domingos de Benfica

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Francisco Baía, pianista e professor do Conservatório de Música de Lisboa, teve direito a ser nome de rua em Lisboa por duas vezes: primeiro em Alvalade (1970) e depois, em São Domingos de Benfica (1971).

Conforme a Ata da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 23 de dezembro de 1970 (Ata nº 98), face a um «Despacho de Sua Excelência o Presidente [ o Engº Santos e Castro] solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» a Comissão considerou  que «num futuro próximo a Rua O da Malha Um de Chelas será uma das mais importantes artérias de Lisboa, a Comissão, tendo em vista o despacho de Sua Excelência o Presidente, sugere que a mesma passe a denominar-se Avenida José Malhoa/Pintor/1855 – 1933 e que a actual Rua José Malhoa (em Alvalade) e o seu prolongamento constituam um único arruamento que se denominará Rua Francisco Baía/1861 – 1931

Contudo, na Ata seguinte, a Ata nº 99, e sem referir  justificação alguma, a Rua José Malhoa passou antes a ser a Rua General Pimenta de Castro e, a Rua Francisco Baía foi para a Freguesia de São Domingos de Benfica por via do Edital municipal de 9 de fevereiro de 1971, colocada na Rua D à Rua dos Soeiros, a ligar hoje a  Rua dos Soeiros à Rua Maestro Jaime Silva (Filho).

Partitura de Francisco Baía editada cerca de 1800 (Foto: Biblioteca Nacional)

Partitura de Francisco Baía editada cerca de 1889- 1891
(Foto: Biblioteca Nacional)

Francisco Jorge de Sousa Baía (Funchal/1861 – 1931/Lisboa) foi um pianista e professor da Escola de Música do Conservatório de Lisboa, até à sua aposentação. Foram suas alunas Elisa Baptista de Sousa Pedroso e Cândida de Freitas, entre outros.

Francisco Baía foi também um valor da música portuguesa para piano, tendo publicado diversas partituras como A Brisa : fado para piano (cerca de 1889 a 1891) dedicada a Alexandre Rey ColaçoQuermesse: valsa para piano dedicada à Real Associação das Creches, Fado Chic (cerca de 1900),  Fadinho Liró (1900) dedicado à sua filha Maria do Carmo, Preâmbulo em Sol bemol : para piano (1907). Foi também um compositor de teatro musical .

Em 1918, junto com Tomás Borba e Augusto de Oliveira Machado foi Delegado do Conservatório de Lisboa para eleger o senador eleito pelas artes visuais, música e teatro ao Congresso da Nova República, de Sidónio Pais, em que foi eleito Júlio Dantas.

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Tomás Borba, o pedagogo da modernidade do Canto Coral

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Cinco anos após a sua morte foi Tomás Borba colocado como topónimo de uma rua do Bairro do Arco do Cego, homenageando o compositor e pedagogo que inovou na pedagogia da Música em Portugal, particularmente através da introdução do Canto Coral nas escolas.

A Rua Tomás Borba era o troço da Rua Gomes Leal «a poente do novo Edifício escolar», conforme indica o Edital municipal de 03/12/1955 e hoje une a Rua Costa Goodolfim à Rua Stuart Carvalhais.  A construção de um novo edifício escolar, inicialmente previsto para ambos os sexos terem aulas separados, acabou por entrar em funcionamento no ano letivo de 1938/39 antes como um liceu feminino. E assim a construção do Liceu Filipa de Lencastre partiu em dois diversas artérias do Bairro do Arco do Cego, pelo que foi necessário renomear uma metade de cada um desses arruamentos e foi num dessas metades que nasceu a Rua Tomás Borba.

Tomas Borba

Thomaz Vaz de Borba (Angra do Heroísmo/23.11.1867 – 12.02.1950/Lisboa) era desde 1890 um sacerdote católico, amigo dos também açorianos Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, que veio para Lisboa em 1891, estudar  no Real Conservatório Nacional (de 1891 a 1895) e também  no Curso Superior de Letras (de 1893 a 1896), tendo concluído ambos os cursos.

Exerceu o sacerdócio como prior da paróquia dos Mártires, em pleno Chiado, mas também como Comissário da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo onde desenvolveu obra na música religiosa, tendo por sua iniciativa sido adquirido para a Capela da Ordem o primeiro órgão pneumático de fabrico moderno.

Em paralelo, o Padre Tomás Borba exerceu também a docência e após a implantação da República foi nomeado vogal do Conselho Superior de Instrução Pública, no que foi o 1º representante do ensino da música em tal órgão. De 1901 a 1937 foi Professor de Harmonia no Conservatório Nacional, onde se tornou também o 1º professor a reger a cadeira de História da Música, a partir de 1911. Lecionou também no Liceu D. Maria Pia (1914) ao mesmo tempo que era regente do Orfeão do Liceu da Lapa. Foi ainda docente de Solfejo e Canto Coral na Escola Normal Primária de Lisboa (1916), introduzindo os métodos de solfejo entoado e de ginástica rítmica para incentivar a sua introdução destas disciplinas nas escolas portuguesas. Tomás Borba foi ainda o diretor da Academia de Amadores de Música, onde conjugou modernidade e tolerância, já que aí  acolheu Fernando Lopes Graça quando este  estava proibido de ensinar pela PIDE. Para além de Lopes Graça foram seus  discípulos  Francine Benoït, António de Lima Fragoso, Luís de Freitas Branco, Pedro de Freitas Branco, Rui Coelho ou Ivo Cruz.

Como compositor, a obra de Tomás Borba compreende música sacra, como  Te Deum (1898), Requiem, Coros Religiosos, algumas missas, motetes e canções sacras, bem como música profana como ciclos de peças para piano, sonatas para violino e piano assim como danças portuguesas.

Tomás Borba merece ainda  ser recordado pelo seu importante trabalho na área difusão musical, através das suas edições, como os 3 volumes de Escola Musical, Toadas da Nossa Terra (1908), os 4 volumes de Canto Coral nas Escolas (1913), Exercícios graduados de solfejo : para uso das escolas primárias, colégios, liceus, etc. (1915), Solfejos, Canções e Cânones Adequados ao Programa de Canto Coral nos Liceus (1935),   o Manual de Harmonia (1937), e os 2 volumes do  Dicionário de Música (1956-1958), preparado fundamentalmente por Fernando Lopes Graça mas que apareceu com o nome de Tomás Borba para proteger o primeiro.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Moleirinha – Música de Tomás Borba. Letra de Guerra Junqueiro. Intérprete: Maria de Lurdes Resende. Suporte musical: Orquestra de Joaquim Luís Gomes

A Rua Santos Pinto, compositor do Hino a Saldanha

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Escritor Musical/1815 – 1860» foi fixado em 1925 o nome do alfacinha Francisco dos Santos Pinto na Rua nº 3 do então Novo Bairro da Lapa, um compositor, violinista e trompista  que politicamente era um liberal ferrenho tendo por isso composto um Hino ao Marechal Saldanha em 1851.

Por esse mesmo Edital municipal de 8 de junho de 1925 foram também dados nomes de compositores às Ruas nº 1 e nº 2 do mesmo Bairro, a saber, a Rua Joaquim Casimiro – homenageando neste caso um miguelista ferrenho de meados do século XIX e rival de Santos Pinto-, e a Rua Maestro António Taborda, que desenvolveu a sua carreira na Banda de Música da Guarda Nacional Republicana.

Santos Pinto Francisco dosFrancisco António Norberto dos Santos Pinto (Lisboa/06.06.1815 – 30.01.1860/Lisboa) começou desde cedo a ganhar a vida através da música, recebendo para cantar em festas de igreja. Aprendeu a tocar violino, trompa e clarim. Iniciou os seus estudos musicais com Teotónio Rodrigues, cantor da Capela da Bemposta, estudou violino com José Maria Morte e trompa com Justino José Garcia, mestre de banda das Reais Cavalariças, a que Santos Pinto viria também a pertencer em 1830, com apenas 15 anos. No início das guerras civis de 1832 era Francisco santos Pinto primeiro corneta na Banda da Guarda Real da Polícia. Estudou Harmonia com Eleutério Franco Leal, e mais tarde, com Manuel Joaquim Botelho. Pela mesma altura, mas um pouco depois, integrou a orquestra do Teatro de São Carlos até que em 1838 se estreou como compositor do bailado Adoração do Sol e no ano seguinte, era clarim supranumerário na orquestra da Real Câmara.

A partir de 1845 ficou como o compositor (mais ou menos permanente) do recém-inaugurado Teatro de D. Maria, para o qual irá compor cinco anos depois, A casa misteriosa, uma espécie de ópera cómica. Ainda nesse ano, aquando da visita do pianista Franz Lizt a Lisboa, Santos Pinto dedicou-lhe a sua 8ª Sinfonia (ou Abertura), fazendo-se mesmo retratar com a partitura num quadro que hoje se encontra no Museu da Música em Lisboa. A partir de 1849 iniciou também funções de docente do Real Conservatório de Lisboa, onde foi seu discípulo Guilherme Cossoul, como professor de Instrumentos de Latão e, em 1857, alcançou a  coroa de glória da sua carreira ao passar a ser o maestro diretor do São Carlos.

Francisco dos Santos Pinto foi um autor sobretudo de teatro cómico, de opereta, de teatro musical, de revista, fundando a sua carreira no entretenimento musical de grande apelo público. Compôs música para mais de 20 bailados e musicou cerca de 30 peças teatrais, tal como escreveu 35 aberturas para orquestra e algumas peças de música sacra e hinos patrióticos como a Marcha que compôs em homenagem aos voluntários da Carta (1844). Santos Pinto foi bastante interventivo na vida social e política do seu tempo, manifestando-se como simpatizante do Cartismo e da Maçonaria, não apenas ao compor hinos alusivos a ambos, para além das  Odes Maçónicas, o que se prende também com o ter sido fundador de duas importantes instituições musicais paramaçónicas: a Associação Musica 24 de Junho e a Academia Melpomenense.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da Constança que era a pianista Nina

Freguesia de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A pianista Constança Marques Pereira que preferia ser conhecida como Nina Marques Pereira, está perpetuada numa artéria de Benfica, na sequência de uma sugestão do jornal O Século, tendo sido fixada na  Rua Projetada à Avenida Gomes Pereira pela publicação do Edital municipal de 25/10/1971, com a legenda «Pianista/1911 – 1968».

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De seu nome completo Constança Carlota Prazeres Marques Pereira (Goa/21.02.1911 – 25.08.1968/Lisboa), arribou a Lisboa em 1928 e concluiu o Curso Superior do Conservatório Nacional com 20 valores, em 1931, tendo sido aluna do mestre António Duarte da Costa Reis. Foi depois bolseira do Instituto de Alta Cultura em Paris, onde fez o Curso de Virtuosidade como discípula  de Alfred Corlot.

Tornou-se uma pianista muito aclamada, sobretudo como solista da Orquestra Sinfónica Nacional, sob a regência dos maestros Pedro de Freitas Branco, Pedro Blanc ou Jaime Silva (Filho). Tocou em Paris, Londres, Lourenço Marques e outras cidades africanas, nos Açores,na Madeira, no Conservatório do Porto, no Rivoli, na Sociedade de Música de Câmara, no São Carlos, no Trindade de Lisboa ou no Pavilhão dos Desportos, a convite da Câmara Municipal de Lisboa.  Deu ainda concertos em Espanha, Suíça, Bélgica e Holanda, privilegiando sempre os compositores nacionais como Domingos Bomtempo, Francisco António de Almeida ou Viana da Mota.

Na rádio, executou para a Emissora Nacional as 32 sonatas de Beethoven e também transcrições para piano de obras de cravistas portugueses, assim como também cumpriu vários contratos com a BBC londrina. Em paralelo com a sua carreira de pianista, Nina  organizou também Festivais de Música no Funchal (1964), em Lisboa (1966) e no Porto (1967) para além de ter abraçado o projeto de ensino artístico Pássaro Azul, no Parque Infantil das Necessidades, dirigido por Fernanda de Castro, onde foi  uma das professoras como Arminda Correia (na Música), Águeda Sena e Ana Máscolo (na Dança),   Eunice Muñoz e Carmen Dolores  (Teatro) ou Sarah Afonso (Pintura), entre outras.

Foi distinguida com os Prémios Oficial do Conservatório (1932), Beethoven(1933), Viana da Mota  e o Oficialato da Ordem de Santiago da Espada (1967).

Faleceu na sua casa na Rua Padre António Vieira, nº 1 – r/c esqº, em Lisboa.

Freguesia de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

Maria Albertina, voz do vira Tricanas de Ovar e do fado de Lisboa, numa rua do Bairro da Cruz Vermelha

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A partir de uma solicitação do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar,  a edilidade promoveu a junção da Rua  C com o Largo C do Bairro Municipal da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar, para fazer nascer a Rua Maria Albertina, cerca de três meses após o falecimento desta cantora, conhecida tanto por interpretar viras como As Tricanas de Ovar como por fado de Lisboa, mas também  famosa em Lisboa por integrar o elenco de operetas e revistas.

A Rua Maria Albertina, foi atribuída pelo Edital municipal de 25 de junho de 1985, com a legenda «Cantadeira/1909 – 1985», e  nos dias de hoje liga a Rua Maria Margarida à Avenida David-Mourão Ferreira. Na época da atribuição deste topónimo, o Bairro Municipal da Cruz Vermelha – nascido em janeiro de 1967- era conhecido popularmente como o Bairro das Marias já que contava em exclusivo com topónimos com «Maria»: a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias, bem como as Ruas Maria Emília, Maria Teresa, Maria Helena, Maria Ribeiro, Maria Carlota e Maria Margarida, de que hoje apenas restam estas duas últimas. Mantendo a tradição, a edilidade lisboeta acrescentou no ano 2000 mais três topónimos com Maria, e todos ligados ao Fado: Rua Maria Alice, Rua Maria do Carmo Torres e Rua Maria José da Guia.

A fadista  Maria Albertina Soares de Paiva (Ovar/05.01.1909- 27.03.1985/Lisboa),   conhecida simplesmente como Maria Albertina, viveu grande parte da sua vida na capital, onde o seu talento de cançonetista e de intérprete de opereta e de revista atingiu assinalável êxito.

Maria Albertina começou por cantar Fado de Coimbra ainda na sua terra natal e após ter sido descoberta pelo maestro Macedo de Brito, estreou-se como cantadeira em Lisboa, em 16 de julho de 1931,  no Teatro Maria Vitória, na opereta História do Fado,  ao lado de Berta Cardoso e Maria das Neves. Logo no ano seguinte ganhou em julho o prémio Guitarra de Ouro, num concurso organizado pelos jornais Diário de Notícias e O Século no Capitólio tal como em setembro alcançou o prémio  Capacete de Ouro; em 1936 venceu o concurso Qual a mais famosa artista do teatro português? e ainda conseguiu o título de Melhor cantadeira  num concurso da Rádio Luso. Ainda nos anos 30 inaugurou o Retiro da Severa no Luna Parque e em 1934 tornou-se também atriz na revista Vista Alegre, na qual encenou com Carlos Ramos o célebre quadro de Malhoa O Fado, a que se seguiram em 1935 os sucessos de Viva a folia!,  Bola de neveO RapaSardinha assada e no ano seguinte, À vara largaFeira de Agosto, a opereta Coração de AlfamaHá festa na MourariaMaria RitaÁgua vai em 1937.

Cantou também nos teatros Ginásio, Maria Vitória, no Grémio Alentejano e no Maxim’s, no Solar da Alegria e no Salão de Chá do Café Chave d’Ouro, em esperas de touros em Vila Franca de Xira, e também em casas particulares como a da Duquesa de Palmela, do banqueiro Ricardo Espírito Santo e nos palácios do Conde da Torre e de Fontalva, para além de digressões pelo Brasil, Argentina, Espanha, E.U.A, Canadá e Paris.

Os seus maiores sucessos musicais foram Voz do Povo,  Fado Meu Filho e Bailarico Saloio e sobretudo,o vira  Tricanas de Ovar (de Aníbal de Nazaré e de Lopes Costa) criado para o teatro de revista e que em 1966 o  locutor Jorge Alves exibiu no programa da RTP Melodias de Sempre.  Em 1998, foi editado em CD uma compilação de 16 faixas  das suas músicas.

Em 1941 Maria Albertina entrou na Grande Marcha de Lisboa e a partir da década 60, e durante mais de 20 anos, cantou no Restaurante Típico O Faia, na Rua da Barroca nºs 54-56, no Bairro Alto.

No cinema, participou em A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo, cantando o fado mouraria Fado dos beijos quentes; em Bocage (1936) para cantar Bailarico Saloio e ainda integrou o elenco de Vendaval Maravilhoso (1949), ambos filmes de Leitão de Barros.

Refira-se finalmente que Maria Albertina foi mãe do locutor Cândido Mota.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua de Gazul discípulo de Cossoul

Freguesia de Campo de Ourique (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

Francisco Freitas Gazul, compositor da passagem do séc. XIX para o XX e discípulo de Guilherme Cossoul, está perpetuado numa rua de Campo de Ourique, desde a publicação do Edital municipal de 02/06/1958 que o colocou na Rua Projetada à Rua Gervásio Lobato, ficando a ligar a Rua Sampaio Bruno à Estrada dos Prazeres, a partir de uma solicitação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses.

Freitas Gazul em O Palco - Revista Teatral, 5 de maio de 1912

Freitas Gazul em O Palco – Revista Teatral, 5 de maio de 1912

Francisco de Freitas Gazul (Lisboa/30.09.1842  – 20.10.1925/Lisboa), filho do músico Francisco Gazul, distinguiu-se como professor de música, violoncelista, contrabaixista, bem como maestro e compositor de música litúrgica, de câmara e  de operetas.  A partir de 1856, estudou no Conservatório de Lisboa  Rudimentos Musicais com Filipe Real (recebeu a medalha de ouro), Violoncelo com João Jordani e também com Guilherme Cossoul, assim como Harmonia, Contraponto e Fuga com  Monteiro d’ Almeida, pelo que não se estranha que depois se tenha feito professor de Rudimentos Musicais na mesma Escola, sendo de realçar que Viana da Mota foi seu aluno.

Quando Guilherme Cossoul foi nomeado diretor da Orquestra de São Carlos, em 1859, chamou Freitas Gazul para seu assistente. Em 1867  ficou em primeiro lugar na vaga para 2º violoncelo nas óperas e 1º nos bailados. Em 1875 esteve como maestro-ensaiador no Teatro de São João (no Porto), onde ensaiou e dirigiu várias óperas como Linda de Charmonix, Guilherme Tell, Barbeiro de Sevilha, Baile de Máscaras, Othello ou a Traviata. Regressado a Lisboa passou a trabalhar no Teatro da Rua dos Condes, onde musicou operetas e várias paródias.  Como compositor, destaquem-se a sua 2ª Sonata (1870), a Sonatina e La Première Jeunesse.  Francisco Palha contratou-o depois para o Teatro da Trindade, para compor música para várias operetas. Destaque-se ainda que Freitas Gazul compôs um hino à Carta, já que era partidário de Costa Cabral, bem como uma ópera em quatro actos, Frei Luís de Sousa, a partir do texto homónimo de Almeida Garrett que subiu ao palco do São Carlos em 19 de março de 1891.

Freitas Gazul foi ainda autor de dois livros, um de exercícios de solfejo e outro de rudimentos musicais, sendo o primeiro ainda usado nos dias de hoje nas bandas de música. Existiu em Lisboa uma Sociedade Filarmónica Francisco Freitas Gazul.

Freguesia de Campo de Ourique (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Fado Armandinho

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Armando Freire, guitarrista de fado e criador do Fado Armandinho, que Artur Paredes muito considerava usando para isso a imagem de que era uma renda tudo o que ele tocava, está desde 2005 presente na toponímia de Lisboa a partir de uma proposta de Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

A proposta de Appio Sottomayor foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 2 de maio de 2005, tendo ainda a Comissão emitido parecer de que a homenagem se estendesse aos fadistas Fernando Farinha e Fernando Maurício, e assim estas propostas foram aprovadas em sessão de câmara de 20 de maio de onde resultou o consequente Edital municipal de 01/08/2005 que fixou a Rua Armandinho na   Via 2 à Rua do Vale Formoso de Cima, junto com a Rua Fernando Farinha (Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima)  e a Rua Fernando Maurício (Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima), todos próximos e todos na freguesia de Marvila onde já estava colocado o primeiro fadista a aparecer na toponímia de Lisboa: Alfredo Duarte (Marceneiro).

armandinho_0001-2Armandinho tinha como nome de registo civil Armando Augusto Salgado Freire (Lisboa/11.10.1891-21.12.1946/Lisboa)  e nasceu no Pátio do Quintalinho junto à Rua das Escolas Gerais, tendo-se distinguido como excelente executante da guitarra portuguesa, criador de estilos e compositor de fados que se tornaram imortais tais como o Fado Armandinho (a sua primeira composição, de 1910), o Fado do Bacalhau (para teatro de revista), o Fado do Cívico (para a  revista Torre de Babel em 1917), o Fado Conde da Anadia, o Fado Estoril, o Fado Fontalva, o Fado Peniche (que se tornou um hino para os que aí estavam presos), o Fado Mayer ou o Fado São Miguel (composto nos Açores no Natal de 1933), entre muitos outros. Armandinho fez a ponte entre duas eras do Fado: a do séc. XIX de conotação marginal e trágica e a do séc. XX de grande popularidade do género.

Em 1914, já Armandinho tocava de ouvido e tornou-se discípulo do célebre Luís Petrolino após o que se estreou como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, embora tenha mantido em paralelo outros trabalhos  como sapateiro, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira.

O seu estilo fez escola e nela se filiaram outros grandes nomes como Carvalhinho, Fontes Rocha, Jaime Santos, José António Sabrosa, José Marques Piscalareta,  José Nunes, Raúl Nery ou Salvador Freire. As suas interpretações na guitarra tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

A guitarra – alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.
Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.

Armandinho, considerado génio da guitarra portuguesa pelo seu dedilhar exímio, acompanhou inúmeras vozes fadistas das décadas de vinte e trinta do séc. XX, quer em palcos, quer em casas de fado como o Solar da Alegria ou o Café Luso, quer em gravações discográficas, como Adelina Ramos, Alberto Costa,  Ângela Pinto, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Maria do Carmo Torres, Maria Vitória ou a Santa do Fado Ercília Costa.  Foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora de Portugal nos anos 20 do séc. XX e percorreu também  casas particulares, como as da Família Burnay, Fontalva ou Castelo Melhor.

Em 1926, Armandinho fez a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel, tendo gravado 6 composições. E dois anos depois, gravou um conjunto de Fados, variações em tons diferentes e uma marcha, no Teatro São Luiz, para um 78 rpm. Refira-se ainda que Armandinho foi em 1927  um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, onde procedeu à  recolha de muitas melodias de Fado indexadas pelos seus autores o que permite nos nossos dias termos acesso a essas melodias. Em 1930, Armandinho também abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados, onde tocou durante alguns anos.

Armandinho faleceu na sua casa, na Travessa das Flores, junto ao Campo de Santa Clara, tendo o  jornal Guitarra de Portugal feito capa do sucedido sob a ideia do Fado de luto.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)