A Rua do irmão de Florbela, o Tenente Espanca, no Bairro de Londres

A capa de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A 1ª página de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A Rua Tenente Espanca  no Bairro de Londres homenageia o irmão da poetisa Florbela Espanca, Apeles Espanca, que foi consagrado nas placas toponímicas de Lisboa no próprio ano da sua trágica morte a pilotar um avião que se despenhou no Tejo, afundando-se.

Apeles Espanca faleceu no dia 6 de junho de 1927 e 24 dias após a sua morte, em 30 de junho de 1927 a edilidade lisboeta deliberou atribuir o seu nome à Rua C do Bairro de Londres e assim foi fixado pelo Edital municipal de 7 de julho de 1927. A artéria escolhida atravessa a Avenida Santos Dumont, um pioneiro da aviação de nacionalidade brasileira que foi perpetuado em Lisboa ainda em vida, pelo Edital de 2 de abril de 1923. A artéria paralela à Rua Tenente Espanca, a Rua B do Bairro de Londres, veio a consagrar o 1º aviador civil português, 17 anos após a morte deste por despenhamento no Tejo, como  Rua Dom Luís de Noronha, pelo Edital de 1 de dezembro de 1930.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Apeles Demóstenes da Rocha Espanca (Vila Viçosa/10.03.1897 – 06.06.1927/Lisboa) frequentou o Liceu Nacional André Gouveia em Évora, onde no 1º centenário da Escola, em 1941, expuseram a sua pintura modernista. Fez os preparatórios para a Escola Naval em Coimbra e terminou o Curso da Escola Naval sendo então graduado Aspirante de Marinha em 19 de agosto de 1917. Alcançou o posto de 1º Tenente em 1926, ano em que navegou entre Portugal e o Brasil, bem como para o então Congo Belga (hoje, República Democrática do Congo). Em 1927 passou a frequentar o 2º curso de pilotagem do Centro de Aviação Naval de Lisboa com os Tenentes Aires de Sousa, Armando de Roboredo, Cardoso de Oliveira, Ferreira da Silva, Namorado Júnior e Paulo Viana.

Apeles Espanca foi também um pintor modernista, de óleos e aguarelas, cuja obra chegou a ser em parte publicada na revista Ilustração Portuguesa.

Morreu aos 30 anos, em 1927, quando  num num voo de treino para tirar o brevet de piloto-aviador, a bordo do hidroavião Hanriot 33, se despenhou no rio Tejo, afundando-se entre Porto Brandão e a Trafaria e sem nunca ter sido encontrado o seu corpo.

Florbela Espanca (também consagrada numa artéria lisboeta pelo Edital 19/07/1948) dedicou-lhe o livro Máscaras do Destino, que abre com o conto «O Aviador», escrito em fins de 1927 e publicado postumamente em 1931, bem como o soneto «In Memorian» , inserido em Charneca em Flor, também publicado em 1931:

In memoriam

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, “Il Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! — E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

 

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Tomás Cabreira

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Cabreira que foi vereador na 1ª gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa e  ministro das Finanças em 1914 ficou perpetuado no Bairro da Bélgica, pelo Edital municipal de 30 de junho de 1926, com a legenda «Engenheiro Distinto e Republicano Indefectível».

Foi por esse Edital municipal que nasceu há 90 anos o Bairro da Bélgica, hoje mais conhecido como Rego ou Bairro de Santos. Coube a Tomás Cabreira a Rua B do Bairro da Bélgica, entre a Avenida Santos Dumont e a Rua Particular Neves Piedade que viria a ser a Rua Filipe da Mata no ano seguinte, pelo Edital de  6 de agosto de 1927, perpetuando outro vereador da primeira vereação republicana da CML. A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica havia sugerido à autarquia lisboeta, em 10 de maio de 1926,  que fossem atribuídos nos arruamentos do Bairro nomes alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do já sucedido no Bairro de Inglaterra em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 fixou o Cardeal Mercier na Rua E do Bairro do Bélgica ( o arcebispo e primaz da Bélgica que publicou em 1915 uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) e o general Leman na Rua D (militar que defendeu Liége contra o invasor alemão e acabou prisioneiro de guerra), e nas restantes artérias colocou ainda o Presidente da CML de 1923 a 1925 (Albano Augusto Portugal Durão) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, sendo que neste local da cidade estas duas últimas nunca passaram do papel.

Alma Nova, março de 1929

Alma Nova, março de 1929

Tomás António da Guarda Cabreira ( Tavira/23.01.1865 – 04.12.1918/Tavira) foi militar, engenheiro, professor e político. Como seu pai, ingressou no Exército, em 1881, e atingiu o posto de Coronel em 1918. Formou-se também em Engenharia Civil pela Escola do Exército, em 1893, e a partir daí passou a docente das disciplinas de Química Mineral e de Química Orgânica na Escola Politécnica, tendo até publicado Princípios de Estereoquímica (1896) e feito doutoramento em 1916. Foi ainda vogal da Comissão de Explosivos e vogal da Academia de Ciências de Lisboa, tendo ainda, em 1907, fundado a Universidade Popular de Lisboa.

Enquanto político, Tomás Cabreira, republicano e maçónico, fundou o Grupo Republicano de Estudos Sociais,  deputado pelo Algarve na Assembleia Nacional Constituinte (1911), senador da República (1912) e ministro das Finanças (1914), época em que deu a lume A Contribuição Predial e O Problema Financeiro e a sua Solução (ambos em 1912). Destaque-se que foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa de 1909 a 1912, na Presidência de Anselmo Braamcamp Freire, tendo como colegas vereadores outros nomes presentes na toponímia de Lisboa como Augusto José Vieira, Barros Queirós, Francisco Grandela ou Miguel Ventura Terra.

Depois de 1914 abandonou a carreira política e o Partido Democrático, de que era dirigente, e fundou a União da Agricultura, Comércio e Indústria, onde exerceu os cargos de vice-presidente e de presidente e ainda editou Posto Agrário e Ensino Móvel (1915), Crédito Comercial e Industrial (1915), O Problema Tributário Português (1916-1917), A Defesa Económica Portuguesa (1917), O Algarve Económico (1918) e postumamente, A Política Agrícola Nacional (1920).

Esteve também ligado ao jornalismo por diversos cargos na Associação dos Jornalistas de Lisboa e na Associação da Imprensa Portuguesa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Presidente da CML, Portugal Durão, no Bairro da Bélgica

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Albano Augusto Portugal Durão,  o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1923 a 1925, passou a ser o topónimo das Ruas C e G do Bairro da Bélgica, com a legenda «Insigne Colonial/1871 – 1925», desde a publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica sugeriu à autarquia lisboeta em 10 de maio de 1926  que fossem atribuídos nos arruamentos do seu Bairro topónimos alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do sucedido dez anos antes no Bairro de Inglaterra, em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 aí fixou os belgas Cardeal Mercier (arcebispo primaz da Bélgica que em 1915 publicou uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) – na Rua E do Bairro do Bélgica –  e General Leman (heróico defensor de Liège) – na Rua D – , colocando nas restantes artérias Tomás Cabreira (republicano que foi ministro das Finanças em 1914), o então último Presidente da CML  (Albano Augusto Portugal Durão que presidiu à edilidade de 1923 a 1925) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, que neste local nunca passaram do papel.

Cerca de 6 anos mais tarde, pelo Edital camarário de 12/03/1932, foi dado à Rua A o nome Rua Dr. Álvaro de Castro, em homenagem àquele que comandara o Corpo Expedicionário Português a partir de 1916 e se demitira aquando da vitória de Sidónio Pais.

Rua Portugal Durão Albano

Albano Augusto Portugal Durão (Sertã/22.03.1871 – 13.11.1925/Lisboa) assentou praça na Marinha  em 1887 e em 1918, já era capitão-tenente. No decurso da sua vida militar, participou em campanhas em terras de África, como  o reconhecimento dos territórios de Milange, Namulia e Lomue, bem como desempenhou cargos civis de relevo, como o de administrador dos Transportes Marítimos do Estado e da Companhia da Zambézia, para além de diretor de Minas em Tete (Moçambique), e ainda, como membro do Conselho Fiscal do Banco Industrial Português.

Republicano membro do Partido Democrático, iniciou-se na política como ministro da Agricultura de Bernardino Machado, em 1921, sendo exonerado a seu pedido em 19 de maio. No ano seguinte foi eleito deputado por Lisboa, funções que exerceu até 1925, e sendo também Ministro de António Maria da Silva nos seus 2º e 3º governos, na pasta das Finanças ( de 6 de fevereiro a 26 de agosto de 1922, por ter pedido a demissão ) e depois, na dos Negócios Estrangeiros, entre 1 de julho e 1 de agosto de 1925. Portugal Durão foi também Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no período de 5 de abril de 1923 até à sua morte em 13 de novembro de 1925.

Ainda no âmbito da participação de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal Durão foi vogal da Comissão Executiva da Conferência da Paz e foi agraciado com a comenda da ordem Militar de Avis (1919).

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do republicano Elias Garcia

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República cerca de 1906 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República 
(Foto: Alberto Carlos Lima, cerca de 1906, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra traçou em 1902 três prédios de rendimento para o republicano Joaquim dos Santos Lima,  na esquina da Avenida José Luciano nº 62 (a partir de 5 de novembro de 1910 passou a ser a Avenida Elias Garcia ) com a Avenida Ressano Garcia nº 46 (Avenida da República também desde 05/11/1910).

O republicano José Elias Garcia que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1878 passou a dar nome à Avenida José Luciano pelo Edital municipal de 5 de novembro de 1910, o primeiro de toponímia após a proclamação da República, que incluiu mais 9 topónimos destacando-se os que homenagearam a implantação da República – Avenida da República e Avenida Cinco de Outubro– e figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

Elias_Garcia José

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa) foi um político republicano que foi deputado, vereador da edilidade alfacinha com o pelouro de instrução pública (entre 1872 e 1890) em que estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, do desenho de ornato,do canto coral das escolas e as bibliotecas populares, bem como foi até o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia foi ainda professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), bem como jornalista, tendo fundado diversos jornais republicanos como O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862), e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Também colaborou na revista de pedagogia Froebel, dirigida por Feio Terenas.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Desde 1853 Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-94 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Viriato da Maternidade de Ventura Terra

Duas obras de Ventura Terra: a Maternidade Alfredo da Costa (à esquerda) e o Hotel Aviz (à direita) em 1959 (Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Maternidade Alfredo da Costa (à esquerda) , uma obra de Ventura Terra
(Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, 1959, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Viriato é a morada da Maternidade Alfredo da Costa, traçada por Ventura Terra em 1908, e o topónimo uma homenagem a um «Herói Lusitano/Faleceu no ano 140, antes da nossa era», em resultado do Edital municipal de 7 de agosto de 1911 da vereação republicana.

A Rua do Viriato foi atribuída à antiga Rua Barros Gomes – um ministro da monarquia constitucional e diretor do Banco de Portugal que introduziu o imposto de selo -, seguindo a norma da toponímia da I República de substituir os nomes de figuras ligadas à monarquia por outras personalidades republicanas ou figuras heróicas e históricas. E assim a toponímia da capital passou a guardar memória do Chefe militar lusitano do século II a. C. que sucessivas vezes derrotou o exército romano invasor, até morrer assassinado por traidores, que se venderam a troco de uma recompensa.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A iniciativa da construção da maternidade vem de 1908, ano em que Miguel Ventura Terra pensou para Lisboa a primeira maternidade concebida e construída de raiz. Mas só em 1914 começou a ser construída e apenas em 31 de maio de 1932 foi inaugurada com o nome do médico obstetra Alfredo da Costa que tinha esta obra como sonho de vida e pela qual lutara, para em 5 de dezembro finalmente abrir ao público. Foi seu fundador e primeiro diretor o Professor Augusto Monjardino que desde 2011 dá nome ao jardim fronteiro a esta maternidade.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Rodrigo da Fonseca do Liceu Maria Amália

O Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho em 1958 (Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho em 1958
(Foto: Salvador de Almeida Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na Rua Rodrigo da Fonseca, que homenageia um político da Regeneração, está o Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, que foi o último a ser traçado por Miguel Ventura Terra, depois do Liceu Pedro Nunes  na Avenida Álvares Cabral e do Liceu Camões na Praça José Fontana.

Ventura Terra neste seu projeto de 1913 seguiu as mais modernas normas pedagógicas e higiénico-sanitárias das construções escolares da 1.ª República: ginásio, campos de jogos, átrio e escadaria central, amplos espaços com galerias para Salão Nobre, Sala do Conselho, Biblioteca e Casa do Reitor. Porém, a falta de verba arrastou a conclusão da obra sendo o estabelecimento inaugurado apenas 20 anos depois, no ano escolar de 1933/34, tendo sido o Arqº António do Couto como continuador de Miguel Ventura Terra que procedeu à conclusão da obra.

Por seu turno, a Rua Rodrigo da Fonseca também nasceu mais de 20 anos após o falecimento de Rodrigo da Fonseca Magalhães, na que era a Azinhaga do Vale de Pereiro, por Edital municipal de 04/03/1884, unindo a Rua do Salitre à Rua Marquês de Fronteira.

Freguesia de Santo António, Campolide e Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António, Campolide e Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Rodrigo da Fonseca Magalhães (Condeixa-a-Nova/24.07.1787 – 11.05.1858/Lisboa) foi um político liberal e importante figura da Regeneração. Quando em 1807 se deu a  invasão francesa comandada por Junot ele frequentava os cursos de Teologia, de Filosofia e de Matemática na Universidade de Coimbra e alistou-se no Batalhão Académico. Depois de execução de Gomes Freire (1817) foi para o Brasil, onde em 1821 fundou o primeiro jornal político que apareceu em Pernambuco: Aurora Pernambucana. Voltou a Portugal em 1822 e a 12 de agosto foi nomeado oficial da Secretaria da Justiça. Em 1828 voltou a exilar-se, desta feita em Inglaterra, onde também redigiu dois jornais: a Aurora e o Paquete de Portugal. Só regressou  de vez a Portugal após o desembarque do Mindelo. A partir daí enveredou por uma carreira política como Conselheiro de Estado, deputado, par do Reino, diversas vezes ministro (Ministro e secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino em 1835/36, 1839/41 e 1851/56), tendo até publicado alguns dos seus discursos políticos que marcaram a história parlamentar portuguesa.

Com Almeida Garrett fundou em 1846 o Grémio Literário, na Rua Ivens, e foi sócio emérito da Academia das Ciências de Lisboa, sócio do Conservatório de Lisboa e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Rodrigo da Fonseca foi ainda agraciado com a a Cruz n.º 4 das Campanhas da Guerra Peninsular, a Ordem da Torre e Espada, a Ordem de Cristo, e o título de fidalgo cavaleiro da Casa Real, por alvará de 2 de agosto de 1835. E quando faleceu aos 71 anos, na casa onde residia na Rua dos Navegantes, foi sepultado no Cemitério dos Prazeres.

Freguesia de Santo António, Campolide e Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António, Campolide e Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

A Rua Aboim Ascensão, benemérito da 1ª creche e 1º lactário lisboetas

Rua Aboim Ascensão - Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Rua Aboim Ascensão – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Arqº Miguel Ventura Terra projetou o primeiro lactário e a primeira creche lisboeta, no Largo do Museu de Artilharia, nº 2, uma iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão que para o efeito fundara a Associação Protetora da Primeira Infância e em Lisboa dá nome a uma Rua (que antes foi Azinhaga) e a uma Travessa.

Aboim Ascensão fundou em 1901 a Associação Protetora da Primeira Infância (APPI) e no ano seguinte o Ministério das Obras Públicas doou-lhe uma sede e terreno, tendo sido traçado por  Ventura Terra o plano de requalificação do edifício Sede e a construção da Vacaria que permitira leite sempre fresco para a criação do 1º lactário e 1ª creche alfacinhas.

Contudo, Aboim Ascensão só 30 anos após esta fundação e um ano após o seu falecimento passou a integrar a toponímia de Lisboa. Em Alvalade, existia uma Azinhaga dos Coruchéus que por Edital municipal de 30/12/1931 passou a ser designada como  Azinhaga Aboim Ascensão e no ano seguinte, o Edital de 03/11/1932 mudou-lhe a categoria para Rua. Dezoito anos depois a Rua Aboim Ascensão foi aumentada já que o Edital de 14/06/1950 incluiu a Rua Luís Augusto Palmeirim neste arruamento. E vinte anos mais tarde, a artéria ganhou a legenda « Benemérito/1859 – 1930», de acordo com um parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 15/05/1970, que foi homologado pelo Presidente da CML, à época o General França Borges.

Muito próximo, no arruamento paralelo ao Campo Grande entre a Rua Aboim Ascensão e a Rua Afonso Lopes Vieira,  e com a mesma legenda, existe também a Travessa Aboim Ascensão que era antes a Rua Ferreira de Castro, atribuída pelo Edital municipal de 04/12/1981. No entanto, a Associação dos Amigos de Ferreira de Castro, solicitou à CML que a homenagem se concretizasse em arruamento de maior dignidade, tendo a Comissão Municipal de Toponímia dado parecer favorável pelo que Ferreira de Castro seguiu para a Rua “E” da Malha N1 de Chelas  e ali ficou a Travessa Aboim Ascensão, desde o Edital de 28/02/1984.

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03 (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A APPI no Largo do Museu de Artilharia, em 1902/03
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rodrigo António Aboim de Ascensão (Faro/23.08.1859 – 22.01.1930/?) foi um oficial do exército que desenvolveu a sua carreira sobretudo na Guarda Fiscal onde ingressou em 1877 mas também se dedicou à filantropia. Foi coronel da Guarda Fiscal e fundador em Lisboa do Cofre da Previdência da Guarda Fiscal e do Museu das Apreensões (depois, Museu Aduaneiro), bem como fundador da Associação Protetora da Primeira Infância (1901) que instituiu vários lactários na capital e da Associação de Beneficência e Instrução do Campo Grande (1907), para as crianças em idade escolar. Em 1931, por iniciativa de um grupo de amigos foi erigido um busto seu  em bronze, da autoria de Raul Xavier, no jardim da APPI.

Após a sua morte, deixou em testamento um legado para fundar em Faro, sua terra natal, a instituição que foi designada como Refúgio Aboim Ascensão, de apoio social para crianças e idosos, o que se concretizou em 1932. Rodrigo Aboim de Ascensão foi distinguido com as comendas da Ordem de Benemerência e de Isabel, a Católica, e com as ordens de Santiago de Espada e de São Bento de Avis.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua dedicada a D. José Trazimundo, Marquês de Fronteira

Palacete Henrique Monteiro Mendonça na Rua Marquês de Fronteira cerca de 1909 (Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Palacete Henrique Monteiro Mendonça na Rua Marquês de Fronteira, cerca de 1909
(Foto: Paulo Guedes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Palacete Henrique Monteiro Mendonça, nos nºs 18/28 da Rua Marquês de Fronteira, foi delineado por Ventura Terra em 1902 e mereceu o Prémio Valmor de 1909, sendo que quando recebeu o galardão já a artéria onde estava inserido se designava Rua Marquês de Fronteira, em homenagem a D. José Trazimundo.

Construído por Rafael da Silva Castro, o palacete incluiu escultura de Jorge Pereira, cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, cantaria de José António d´Almeida e Pardal Monteiro e aquecimento da Jacquemet,Mesnet&Cie. de Paris. Henrique José Monteiro Mendonça era alguém que tinha feito fortuna com café em São Tomé e Príncipe e cuja família manteve o palacete até aos anos setenta do século XX, tendo passado este ano para a posse da Comunidade Ismaelita.

Ali próximo, o palacete do escultor e pintor Artur Prat no nº 3 da Avenida António Augusto Aguiar, também resultou do risco de Miguel Ventura Terra  e teve a Menção Honrosa do Prémio Valmor de 1913. Em 1935 foi o prédio adquirido em hasta pública pela Associação dos Engenheiros Civis Portugueses, mas com a criação da Ordem dos Engenheiros no ano seguinte passou a ser a sua sede. Também no nº 134 desta Avenida António Augusto de Aguiar a Casa José Miguéis foi obra traçada por Miguel Ventura Terra em 1902.

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

O 7º marquês de Fronteira, D. José Trazimundo, foi perpetuado pelo Edital municipal de 3 de outubro de 1903 na então «Via pública situada entre a Avenida Duque de Ávila e a Rua D. Carlos de Mascarenhas.»

D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (Lisboa/04 ou 11.01.1802 – 19.02.1881/Lisboa), 8º conde da Torre, 5º marquês de Alorna e 7º marquês de Fronteira foi um militar que fez toda a campanha das lutas liberais, tendo-se reformado no posto de marechal-de-campo. Logo em 1820 foi ajudante  de campo do  general Sepúlveda, em cujo estado-maior se conservou até à queda do governo constitucional. Não tendo aderido à Vilafrancada acabou preso na Torre de Belém , após o que obteve licença para sair do reino, e percorreu parte da Europa com a sua mulher, apenas regressando depois de ser outorgada a Carta Constitucional, em 1826. Foi  ajudante de campo do general Conde de Vila Flor na Ilha Terceira, desembarcou no Mindelo (8 de julho de 1832) e participou na batalha de Ponte Ferreira e das Antas. Acompanhou o Duque de Terceira na expedição ao Algarve e Alentejo, e esteve na batalha de Cacilhas (23 de julho de 1833) e desembarque em Lisboa (24 de julho de 1833).

Foi também par do reino (a partir de 1826), deputado por Lisboa (1837), deputado por Bragança (1838), governador civil de Lisboa (com pequenas interrupções, de 12 de maio de 1846 a 1 de maio de 1851),  mordomo-mor da Casa Real (1861),  mordomo-mor da casa da rainha D. Maria Pia (1862) e ainda publicou as suas Memórias do Marquês da Fronteira e Alorna.

 

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas e de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

Ventura Terra na Rua Alexandre Herculano

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Ventura Terra pode ser encontrado por três vezes na Rua Alexandre Herculano – um topónimo de 1882 – já que nesta artéria deparamos no nº25 com a obra de Ventura Terra que foi  o Prémio Valmor de 1911, no nº 57  com a própria casa do arquiteto e exemplo da Arte Nova também galardoada com o Prémio Valmor (1903) e ainda, com a terceira obra que é a Sinagoga de Lisboa (1904), também designada como Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança.

Ali bem próximo, no nº  37 da Rua Duque Palmela, está outra vez o traço de Ventura Terra, no prédio do Comendador Emílio Liguori, de 1902.

Alexandre Herculano que foi Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855) teve o seu nome atribuído pela 1ª vez em Lisboa cerca de 4 meses após a sua morte, por edital do Governo Civil de Lisboa de 18 de janeiro de 1878,  mas 9 anos depois, o Edital municipal de 10 de janeiro de 1888,  alterou o topónimo para Rua Fradesso da Silveira, e ainda hoje assim se mantêm na Freguesia de Alcântara, evitando assim duas ruas com o mesmo nome em Lisboa já que mais ou menos seis antes a deliberação camarária de 6 de maio de 1882 atribuíra o topónimo Rua Alexandre Herculano à artéria perpendicular à Avenida da Liberdade dirigida para o Largo do Rato, ao mesmo tempo que também instituía nesta zona a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Mouzinho da Silveira, a Rua Passos Manuel (depois Rua Rosa Araújo pelo Edital de 19/04/1887) e a Praça do Marquês de Pombal.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa/28.03.1810 – 13.09.1877/Vale de Lobos) foi sobretudo um escritor e historiador, considerado o introdutor do Romantismo em Portugal como Almeida Garrett e um  renovador do estudo da História de Portugal, mas também um político que terminou a sua vida como agricultor e afamado produtor do azeite «Herculano», negócio que acabou por vender à Jerónimo Martins.

Alexandre Herculano nasceu no Pátio do Gil (memória de um António Rodrigues Gil) na Rua de São Bento, onde foi colocada uma lápide em 26 de abril de 1910 para o assinalar e aqui  também residiu o arquiteto Manuel Caetano de Sousa, irmão da avó materna de Herculano. Começou a estudar com os padres Oratorianos de S. Filipe Nery, no Convento das Necessidades, mas após a cegueira do seu pai em 1827 não conseguiu seguir para a universidade e em  1830 seguiu escolheu a Aula de Comércio, a que acrescentou um curso de Diplomática  e estudos de francês, italiano, inglês e alemão. Com a a Revolução Liberal interrompeu os estudos e pelo seu envolvimento na Revolta  de 21 de agosto de 1831 do 4 de Infantaria contra o governo miguelista foi mesmo obrigado a emigrar para Inglaterra. Depois juntou-se ao exército liberal de D. Pedro IV na Ilha Terceira, onde conheceu Garrett, desembarcou no Mindelo e participou no cerco do Porto. Ajudou a organizar a Biblioteca Pública do Porto e voltou a Lisboa para dirigir a revista Panorama, de que foi também redator principal de 1837 a 1839 e depois, a partir de 1842. Alexandre Herculano foi agraciado como cavaleiro da ordem da Torre e Espada em 1839 e a partir desse ano passou a dirigir as bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda, nomeado pelo rei D. Fernando. Em paralelo, para somar ao seu romance O Pároco de Aldeia (1825) e à poesia de A Harpa do Crente (1837), foi publicando algumas das sua obras de que destacamos os 2 volumes de Lendas e Narrativas (entre 1839 e 1844), a peça Os Infantes em Ceuta (1842), o romance histórico Eurico, o Presbítero (1842), a sua História de Portugal (1846 – 1853) que introduz em Portugal  a historiografia científica, O Monge de Cister (1848) e História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859).  A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o sócio efetivo em 1852 e encarregou-o da recolha dos Portugaliae Monumenta Historica  (documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país), investigação a que se dedicou em 1853 e 1854 e cuja publicação decorreu de 1856 a 1873.

Alexandre Herculano foi ainda preceptor do futuro rei D. Pedro V, deputado por um dos círculos do Porto em 1840, bem como vereador e depois Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855), após o que foi um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856. Conhecido pela sua posição anticlerical Herculano participou na redação do primeiro Código Civil português (1860-1865) e chegou a propor a introdução do casamento civil a par do religioso.

Em 1867 casou com D. Mariana Meira e retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos (Azoia de Baixo – Santarém) dedicando-se quase exclusivamente à agricultura e, já que 21 dos seus 40 hectares de terra eram olival, produziu o azeite «Herculano» que ganhou medalhas de cobre, prata e ouro em Exposições Internacionais, e cujos direitos de comercialização vendeu em 1876 à Jerónimo Martins.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

De uma Rua do Campo Grande para Alvalade foi Lopes de Mendonça

Henrique Lopes de Mendonça (Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça
(Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nascido lisboeta na então Rua dos Calafates, Henrique Lopes de Mendonça foi o autor da letra de uma Marcha contra o Ultimatum inglês, com música de Alfredo Keil, intitulada A Portuguesa, que após a implantação da República veio a ser o Hino Nacional  e, por duas vezes, o seu nome foi pensado para ruas de Lisboa, primeiro no Campo Grande (em 1932) e depois, no ano do centenário do seu nascimento, em 1956, ficou em definitivo numa artéria de Alvalade.

A sua ligação à gastronomia prende-se com a sua participação no livro Cozinheiro dos Cozinheiros (1870), de Paulo Plantier, para o qual enviou a receita de uma sopa que lhe lembrava Urbano de Castro, também membro do Corpo Redatorial da Revista do Conservatório Real de Lisboa, com o desejo «que os seus leitores a alcunhem de deliciosa».

Na toponímia alfacinha, Henrique Lopes de Mendonça foi primeiro colocado na Rua A do projecto aprovado em sessão camarária de 13/10/1927 delimitado entre a Rua Ocidental do Campo Grande e o Hipódromo, através do Edital de 12/03/1932, como Rua Lopes de Mendonça, ficando na Rua B, Francisco Mantero (hoje na Freguesia dos Olivais); na C, Ernesto Vasconcelos e, na D, Aires de Ornelas (hoje numa Praça da Penha de França). Mas só se fixou em definitivo através do Edital de 26/05/1956 na Rua 31 do Sítio de Alvalade, a que foi acrescentada a legenda «Escritor/1856 – 1931», seguindo o parecer da Comissão de Toponímia da sua reunião de 15/05/1970, homologado pelo Presidente da Câmara municipal de Lisboa.

Refira-se ainda que o jardim da Praça José Fontana, também é conhecido como Jardim Henrique Lopes de Mendonça, provavelmente a partir de uma deliberação de câmara de 1925 mas a edilidade não terá oficializado este topónimo com Edital.

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa/12.02.1856 – 24.08.1931/Lisboa) foi um alfacinha nascido no Bairro Alto, oficial da Armada Portuguesa, escritor e dramaturgo que fez a letra do Hino Nacional e casou em 1880 com Maria Amélia, uma das quatro irmãs de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Foi oficial embarcado entre 1874 e 1886, tendo navegado por Cabo Verde, São Tomé e Angola, e até apresentado a sua candidatura a Deputado por Luanda por força dos seus ideais republicanos.

Ingressou em 27 de Outubro de 1871  na Armada Portuguesa e aí alcançou o posto de Capitão de Mar-e-Guerra, para além de se ter dedicado à história naval e publicado Estudos sobre Navios Portugueses nos Séculos XV e XVI (1892) ou O Padre Fernando Oliveira e a sua obra náutica (1898). Em 1887 coadjuvou Andrade Corvo na publicação dos estudos sobre as possessões ultramarinas e foi ainda membro das Comissões Oficiais dos Centenários de Colombo e de Vasco da Gama.

Foi também professor da Escola Prática de Artilharia Naval, então instalada a bordo da Fragata D. Fernando II e Glória, assim como das cadeiras de Geografia, História e Literatura da Escola de Belas Artes de Lisboa (entre 1901 e 1929) e entre 1897 e 1901 foi ainda Bibliotecário da Escola Naval.

Como escritor e dramaturgo, Lopes de Mendonça iniciou a sua carreira em 1884 com a peça A Noiva, no palco do teatro D. Maria II, a que se seguiu A Morta (1888), que foi  galardoada com o prémio D. Luís I da Academia de Ciências de Lisboa. Deixou quase uma centena de obras literárias de teatro como Afonso de Albuquerque (1897) ou A crise do teatro português (1901). Também escreveu poesia, por vezes com os pseudónimos Lusos ou Ele, e romances como Os orfãos de Calecut (1894). Por ocasião do Ultimato Inglês de 1890, escreveu para a música de Alfredo Keil, a marcha A Portuguesa que, em 1910 o Governo da República adoptou como Hino Nacional, trocando apenas a palavra «bretões» por «canhões». Em 1916 foi também nomeado pelo Governo para a comissão que propôs as versões definitivas e oficiais para piano, canto, orquestra e banda do Hino Nacional. Refira-se ainda que Lopes de Mendonça era  membro eleito da Academia das Ciências de Lisboa desde 1900 e veio a ser seu presidente em 1915 , tal como dez anos depois,  em 1925, integrou o grupo de fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores.

No ano do centenário do seu nascimento foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa  não apenas com a atribuição do seu nome a uma rua de Alvalade mas também através da colocação de uma lápide no prédio nº 120 da Rua do Diário de Notícias, onde nascera,  e uma exposição comemorativa no  Palácio Galveias.

E se quiserem experimentar a sopa de Lopes de Mendonça é seguir a sua receita:

«Coza-se uma porção de batatas. Faça-se um refogado com azedas, e misture-se-lhe a água em que se cozeu peixe. Junte-se-lhe o polme de batata, e deixe-se ferver um pedaço. Tem-se já pronto ovo cozido, cortado aos quadradinhos, azeitonas sem caroços, ervilhas ou feijão verde (havendo), camarão cozido e, já se sabe, convenientemente descascado. Isto tudo se junta ao caldo, depois de tirado do lume. E, em seguida, come-se.»

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)