Manuel Godinho de Herédia, o cartógrafo da Península malaia dos tempos filipinos

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Manuel Godinho de Herédia,  cartógrafo luso-malaio a quem o rei Filipe I nomeou como «Descobridor e Adelantado da Nova Índia Meridional», está desde a publicação do Edital municipal de 15/06/1960 na Rua 14 do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo.

O Bairro das Casas Económicas da Encosta da Ajuda começou por ter toponímia numérica nas suas 22 artérias, fixada pelo edital municipal de 03/12/1951, como era prática habitual nos bairros sociais. Cerca de nove anos depois, o  edital camarário de 15/06/1960 substituiu essas denominações em números por topónimos relativos a figuras da Expansão Portuguesa dos séculos XV a XVII e assim, a Rua 14 do Bairro de Casas Económicas da Encosta do Restelo passou a homenagear Manuel Godinho de Herédia (Malaca/1558 ou 1563 – c. 1623/Goa), por vezes também grafado como Manuel Godinho de Erédia ou como Emanuel Godinho de Erédia.

O ananás desenhado por Manuel Godinho de Heredia na sua Suma

O ananás desenhado por Manuel Godinho de Herédia na sua Suma

Herédia,  que foi educado pelos jesuítas, empenhou-se em descobrir a Austrália, que ele designava como «ilha do Ouro» e que já nas lendas malaias tinha um papel destacado, embora se ignore se concretizou ou não este plano. A sua ideia era de que a ilha do Ouro se encontrava a noroeste da Austrália que hoje conhecemos, alicerçado nas leituras que fizera de Ptolomeu, Marco Polo e Ludovico di Varthema, bem como nos relatos de viagens malaias coevas, acidentais ou deliberadas, ao sudeste de Timor. Em 1594, Filipe I nomeou-o «Descobridor e Adelantado da Nova Índia Meridional» e, por volta de 1602, o então vice-rei da Índia, Aires de Saldanha, até destacou navios e homens para a viagem de descoberta mas a eclosão de guerras locais levou a que Manuel de Godinho fosse chamado como soldado e engenheiro militar e supõe-se que mais não se terá avançado.

Certo é que foi professor de matemática e se dedicou à geografia e cartografia do Oriente, tendo delineado várias cartas das Índias Orientais e da Ásia, as plantas das praças conquistadas, e é muito possível que em Goa tenha conhecido o cartógrafo Fernão Vaz Dourado. Para além disto, registou os povos, animais e plantas dos locais que percorreu em texto e desenhos. Em Goa, também copiou as cartas que lhe chegavam por marinheiros e construiu um dos  primeiros levantamentos da península malaia. Deixou publicadas, entre outras, por vezes com a referência cosmógrafo-mor, as obras Miscelânea (1610), Plantas de praças das conquistas de Portugal, feitas por ordem de Rui Lourenço de Távora, vizo-rei da India (1610), Discurso sobre a Província do Indostan chamada Mogûl ou Mogôr com declaração do Reino gozarate, e mais Reinos de seu destricto (1611), Suma de Arvores e Plantas da India Intra Ganges (1612) onde apresenta um catálogo ilustrado das plantas do Sudeste Asiático, Declaracam de Malaca e da India Meridional com Cathay (1613), Carta da Ilha de Goa (1616), Livro de Plataformas das Fortalezas da Índia (c. 1620).

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua Comandante Fontoura da Costa, das tábuas náuticas e descobrimentos

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Investigador histórico e cartógrafo/1869 – 1940» foi o Comandante Fontoura da Costa colocado na toponímia de Lisboa, através do Edital de 13/11/1967, na via que era referenciada como Rua Terceira T.E. ou arruamento projetado entre a Estrada Militar e a Estrada do Desvio, ou ainda, arruamento B da Zona adjacente à Calçada de Carriche e Estrada do Desvio.

A Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa analisara em 16/05/1958 um ofício da Comissão Executiva do 5º Centenário da Morte do Infante Dom Henrique, solicitando que fossem atribuídos a arruamentos de Lisboa os nomes dos historiadores dos Descobrimentos Luciano Pereira da Silva, Professor António Barbosa, Comandante Fontoura da Costa, Comandante Quirino da Fonseca e Henrique Lopes de Mendonça. Mais tarde, em 22/05/1967, a Comissão tomou conhecimento de um pedido de Henriqueta Vasconcelos Sousa Coutinho para que o nome do Comandante Abel Fontoura da Costa fosse dado a um arruamento. E finalmente, na reunião da Comissão de 03/11/1967, ao analisar uma notícia do Diário de Lisboa, de 27 de Setembro, criticando a falta de denominação dos arruamentos construídos entre a Estrada do Desvio e a Estrada Militar, a Comissão considerou prematura a atribuição de nome aos arruamentos por se tratar de uma zona ainda em  fase de urbanização e sujeita a alterações e considerou apenas aconselhável denominar a Rua Terceira T.E., artéria na qual nasceu a Rua Comandante Fontoura da Costa.

Na Ilustração Portuguesa

Na Ilustração Portuguesa

Abel Fontoura da Costa (Alpiarça/09.12.1869 – 07.12.1940/Lisboa), foi um Oficial da Marinha que  logo em 1901 foi membro da Comissão de Delimitação de Fronteiras entre Angola e o Estado independente do Congo e durante largos anos ensinou na Escola Auxiliar da Marinha (1901 a 1913), como Professor da cadeira de Agulhas, Cronómetros e Navegação, sendo ainda Comandante Superior das Escolas de Marinha (1923). Foi também docente na Escola Náutica  (1924 a 1939), da qual foi  director de 1936 a 1939 tal como já havia sido diretor das Escolas Naval e  de Educação Física da Armada (1932). Publicou, entre outras obras, Aplicação das tábuas de estrada e logaritmos de subtracção do método de Ste Hilaire (1889), Tábuas Náuticas (1907), Marinharia dos Descobrimentos (1933), A Carta de Pêro Vaz de Caminha (1940) Roteiros portugueses inéditos da carreira da Índia do século XVI (1940) e La Science Nautique dês Portuguais à l’époque dês Découvertes (1941), para além de muitos artigos para os Anais do Clube Militar Naval de que se destaca «A Marinharia dos Descobrimentos». Fontoura da Costa também procedeu à compilação das obras completas de Pedro Nunes, à publicação do Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama de Álvaro Velho e ainda organizou uma importante exposição de roteiros portugueses dos séculos XVI e XVII.

Fontoura da Costa desempenhou igualmente funções políticas enquanto governador de Cabo Verde (1915-1917) e Ministro da Agricultura e da Marinha, de 9 de janeiro a 18 de agosto de 1923. Representou Portugal no Congresso de Ciências Históricas de Zurique e foi ainda membro da Academia Portuguesa de Ciências e História e da Comissão organizadora do Museu Naval (1936), bem como presidente da Associação de Futebol de Lisboa, em 1910. Foi agraciado com a Comenda (1919) e o  Grande-Oficialato (1920) da Ordem Militar de Avis.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

Eugénio dos Santos, duas vezes em ruas de Lisboa

A Rua Eugénio dos Santos cerca de 1952 (Foto: Antonio Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Eugénio dos Santos cerca de 1952
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

Eugénio dos Santos, um dos principais  arquitetos-engenheiros envolvidos nas obras de reconstrução da Baixa Pombalina de Lisboa após o terramoto  de 1755, já foi topónimo de duas artérias diferentes: na que hoje conhecemos como Rua das Portas de Santo Antão e na que hoje ostenta o seu nome nas proximidades do Parque Eduardo VII.

Em retrospetiva, sabemos que foi pelo edital do Governo Civil de Lisboa de 01/09/1859 que a Rua das Portas de Santo Antão e a Rua da Anunciada passaram a constituir um único arruamento sob a denominação de Rua de Santo Antão. Após a implantação da República,  por edital municipal de 07/08/1911, a artéria tornou-se a Rua Eugénio dos Santos com a legenda «Architecto», assim homenageando o seu papel fundamental na reconstrução da Baixa lisboeta,  e assim permaneceu por quase 55 anos até que o Edital camarário de 28/05/1956 reverteu a denominação para a que ainda hoje encontramos de Rua das Portas de Santo Antão, ao mesmo tempo que colocava o nome de Eugénio dos Santos na 1ª transversal do Parque Eduardo VII que liga a Avenida António Augusto de Aguiar à Avenida Sidónio Pais e que assim continua hoje.

1º projecto para a estátua equestre da Praça do Comércio, da autoria de Eugénio dos Santos (Arquivo Municipal de Lisboa)

1º projecto para a estátua equestre da Praça do Comércio, da autoria de Eugénio dos Santos
(Arquivo Municipal de Lisboa)

Eugénio dos Santos e Carvalho (Aljubarrota/?.03.1711 – 05.08.1760/Rua da Rosa – Lisboa), oficial de  Infantaria com exercício de Engenheiro, foi admitido na Aula de Fortificações e Arquitectura Militar em 1735, e logo a partir do ano seguinte já trabalhava nas fortificações do Alentejo, nomeadamente em Estremoz e Évora. A partir de 1750 passou a inspector das obras reais e assim foi arquiteto dos Paços da Ribeira e de outro Paços, como o do Senado de Lisboa. Após o terramoto  de 1755, Eugénio dos Santos foi um dos principais obreiros da reedificação da cidade de Lisboa, em estreita colaboração com Manuel da Maia e Carlos Mardel, sendo por isso considerado um precursor do urbanismo e da arquitetura moderna. Executou duas plantas possíveis para a reconstrução da Baixa lisboeta  e a partir da escolhida, Eugénio dos Santos foi também o responsável pelo traçado dos edifícios, bem como pelo plano da Praça do Comércio e da sua estátua equestre.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Capitão Renato Baptista, engenheiro da Manutenção Militar e da Carta de Lisboa de 1892

Freguesia de Arroios (Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

Freguesia de Arroios
(Foto: Luís Pavão, 2011, Arquivo Municipal de Lisboa)

Através do seu edital de 22/11/1900 a Câmara Municipal de Lisboa prestou homenagem ao Capitão Renato Baptista,  que foi quem em 1892 iniciou o levantamento da Carta da cidade de Lisboa que crescera nessa última década do século XIX, atribuindo o seu nome a um arruamento da cidade até aí designado por prolongamento da Vila Amâncio.

Na última década do século XIX, os limites da cidade de Lisboa já não eram os mesmos do início desse século, já que foram expandindo cada vez mais para Este, Oeste e Norte, situação que levou à necessidade de elaborar uma nova planta que abarcasse os novos limites da capital portuguesa. Foi este levantamento que se iniciou em 1892, por intermédio do engenheiro Renato Baptista. Mais tarde e após a sua morte, a Câmara Municipal de Lisboa adjudicou em 1904 trabalho semelhante ao engenheiro Júlio Silva Pinto, que os terminou em 1911. Já em 1891  o Capitão Renato Baptista comandara a primeira companhia do regimento de Artilharia destacado em Moçambique e no seu relatório África Oriental – Reconhecimento para os estudos do caminho de ferro da Beira a Manica efectuado em 1891, incluiu uma carta dos territórios de Manica e Sofala.

Joaquim Narciso Renato Descartes Baptista (Lisboa/ 05.10.1855 – 02.11.1900/Lisboa), capitão de engenharia desde 1884, lente da cadeira de Arquitetura da Escola do Exército, funcionário do gabinete do Ministro da Guerra e ajudante de campo do rei D. Carlos, foi responsável pela obra do quartel dos alunos da Escola do Exército e pelas reformas nas instalações daquele estabelecimento, assim como pela reconstrução e reconversão do antigo edifício conventual das freiras carmelitas ou Grilas para Manutenção Militar, em 1896-1897, tendo ainda escolhido os equipamentos para as várias fábricas de moagem, bolachas e padaria e oficinas, e publicado uma obra sobre esta matéria, intitulada Manutenção Militar.

O capitão Renato Baptista também traduziu para a língua francesa a Morgadinha de Valflor de Pinheiro Chagas e foi diretor da Associação dos Engenheiros e da Sociedade de Geografia, tendo  sido agraciado ao longo da vida com as Cruzes de Avis, Santiago, Cristo, a Legião de Honra francesa e o Mérito Militar espanhol.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida de Manuel da Maia da «Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa»

Freguesias do Areeiro e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Avenida Manuel da Maia homenageia o autor da «Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa», executada para permitir a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755, e que pelo Edital camarário de 25/11/1929 assinado pelo vice-presidente da Comissão Administrativa Carlos Mardel Ferreira assim ficou fixado na «Avenida Nº 3 prolongada com a Nº5, compreendida entre o Largo do Leão e a Rotunda a oriente do Bairro Popular do Arco do Cego [Praça de Londres]».

Avenida Manuel da Maia a óleo no Palácio de Queluz foto António Passaporte AML

Manuel da Maia (Lisboa/1677 – 17.09.1768/Lisboa) foi um engenheiro militar nomeado Engenheiro-Mor na época pombalina, em 1758. Era quem estava à frente dos engenheiros da Academia Militar da Corte e que procedeu ao levantamento de todos os bairros de Lisboa, para aferir das áreas mais sensíveis que precisavam de maiores intervenções, elaborando uma planta geral para a recuperação e reedificação de Lisboa, que estava praticamente em ruínas, a  Carta Topographica da parte mais arruinada de Lisboa na forma, em que se achava antes da sua destruição pra sobre ella se observarem os melhoramentos necessários, na escala de 100 varas [1:1100], abrangendo o sítio onde hoje encontramos o Largo do Corpo Santo e a Rua da Misericórdia até às Igrejas da Sé e de São Cristóvão, e para o norte até ao Largo Trindade Coelho e o Largo de São Domingos.

Manuel da Maia começara como engenheiro militar em 26 de maio de 1698 e foi incumbido em 1701 das fortificações de Lisboa, tendo reforçado a linha de fortes, desde Santa Apolónia até à Torre de São Julião da Barra e em 1718 apresentou a planta da cidade de Lisboa completa. Outra importante obra sua e que resistiu ao Terramoto foi o Aqueduto das Águas Livres cujos estudos lhe demoraram 6 anos e depois delineou, tendo também com Custódio Vieira dirigido a execução da obra, sucedendo-lhe como responsáveis José da Silva Pais, Rodrigo Franco, Carlos Mardel, Miguel Ângelo Blasco, Reinaldo Manuel dos Santos e Francisco António Ferreira. Foi também ele responsável pela construção da estátua equestre de D. José I, na Praça do Comércio.

Refira-se ainda que foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, em 1745, onde organizou o corpo cronológico desde 1161 até 1698 e salvou o arquivo na altura do Terramoto, assim como traduziu obras de natureza militar e engenharia, por ser conhecedor de Latim, Italiano, Inglês e Francês.

Freguesias do Areeiro e de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias do Areeiro e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Manuel de Azevedo Fortes, pai da moderna cartografia portuguesa

Freguesia de Campolide (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias)

O  Engenheiro-Mor do Reino Manuel de Azevedo Fortes, considerado o pai da cartografia científica moderna portuguesa já que em 1722 publicou o seu Tratado do modo mais fácil e o mais exacto de fazer as cartas geográficas, está homenageado na toponímia de Lisboa, na freguesia de Campolide, desde a publicação do Edital municipal de 05/12/1990, com a legenda «Engenheiro-Mor do Reino/1660 – 1749».

Esta artéria nasceu como Rua 12 do Bairro do Alto da Serafina (edital municipal de 15/03/1950 ), seguindo a tradição daquela época em atribuir nos bairros sociais apenas topónimos numéricos. Quase quarenta depois, pelo edital de 28/12/1989, passou à denominação de Rua do Andador das Almas, numa remodelação de toda a toponímia do Bairro da Serafina para designações consideradas populares mas a que os moradores reagiram com protestos intensos e a que a nova vereação então eleita reagiu acolhendo os anseios da população e pelo edital de 14/12/1990 renomeando as artérias do Bairro da Serafina com nomes de personalidades ligadas ao Aqueduto das Águas Livres.

Rua Manuel de Azevedo Fortes 1950 ( estúdio mario novais Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Manuel de Azevedo Fortes 
( Foto: Estúdio Mário Novais, 1950, Arquivo Municipal de Lisboa)

E assim entra Manuel Azevedo Fortes (Lisboa/1660 – 28.03.1749/Lisboa) na toponímia de Lisboa. Foi ele o Engenheiro-Mor do Reino nomeado por D. João V em 23 de outubro de 1719 e esteve ligado ao projecto de construção do Aqueduto das Águas Livres, com Manuel da Maia e José da Silva Pais, tanto nos estudos preparatórios como nas medições da obra.

Esta figura maior do Iluminismo Português que estudara Filosofia em Alcalá de Henares, Paris e Sena – sendo o primeiro em Portugal a professar o cartesianismo -, bem como Teologia e Matemática em Paris, regeu durante 3 anos  a cátedra de Filosofia em Sena (Itália) e tornou-se professor de matemática na Academia Militar da Fortificação, em Lisboa, no período de 1695 a 1701. Em 1702 foi nomeado capitão de infantaria com exercício de engenheiro e, em 1735, foi nomeado sargento-mor de batalha. São obra sua, por exemplo, a reconstrução da povoação de Campo Maior destruída por um raio (em 1734) bem como a edificação dos paióis de Estremoz, Olivença, Elvas e Campo Maior e o plano parra a nova praça da Vila da Zibreira. Fez também parte do grupo de 50 académicos fundadores da Academia Real de História (1720), onde dirigiu os Estudos Geográficos, e publicou  Representação a Sua Majestade sobre a forma e direcção que devem ter os engenheiros para melhor servirem neste reino e suas conquistas (1720), os dois volumes de O Engenheiro Português (1728-1729), Evidência apologética e crítica sobre o primeiro e segundo tomo das ‘Memórias Militares’, pelos praticantes da Academia Militar desta côrte (1733) e Lógica Racional, Geométrica e Analítica (1734).

Freguesia de Campolide (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do autor da «Planta do Fava»

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Duarte José Fava, engenheiro militar, responsável pelo levantamento da cidade de Lisboa de 1807, conhecido como «Planta do Fava», está fixado na cidade desde a publicação do  Edital de 2 de Outubro de 2009.

Este topónimo nasceu de uma proposta da Profª Maria Calado enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, que juntava também o nome de Júlio da Silva Pinto. Ambos foram atribuídos pelo mesmo Edital na Freguesia de Belém, cabendo a Duarte José Fava o Impasse à Calçada do Galvão e a legenda «Engenheiro Militar/ 1772 – 1826» e a Júlio da Silva Pinto o Impasse A à Rua Vicente Dias, com a legenda «Engenheiro/Séculos XIX e XX».

O Capitão Duarte José Fava, do Real Corpo de Engenheiros, preparou em 1807 aquela que é considerada por muitos como a primeira planta completa e rigorosa da cidade de Lisboa, na escala numérica de 1:2500, com o título Carta Topográfica de Lisboa e seus subúrbios, desde o Convento dos Religiosos Barbadinhos Italianos até à bateria do Bom Sucesso e na maior largura desde o Terreiro do Paço até ao Campo Pequeno. A coadjuvá-lo nestes trabalhos estiveram o capitão Luís António de Melo e os primeiros tenentes João Pedro Duarte Pereira e João Damasceno da Cunha Machado Pinto. Em 1812, os engenheiros militares ingleses, sob o comando de Arthur Wellesley (Duque de Wellington), elaboraram a Planta Ingleza que era apenas uma cópia melhorada da planta de Duarte José Fava.

Duarte José Fava (Olivença/1772-1826) foi  um engenheiro militar que se tornou Fidalgo Cavaleiro por Alvará de 5 de fevereiro de 1822 e tinha o posto de Marechal de Campo quando faleceu. Foi responsável pelo sistema defensivo de várias praças fronteiriças como Elvas e Valença. Integrado no Arsenal Real das Obras Militares e Inspecção Geral dos Quartéis foi Intendente da obras militares, inspector dos quartéis e da Aula de Gravura (a partir de 1823) bem como comandante dos presídios, tendo-lhe sucedido o capitão engenheiro José Bento de Sousa Fava (1797-1865).

 

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do mutualista transmontano Desidério Beça

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Militar, governador civil, deputado  e mutualista, Desidério Beça dá nome à Rua V do Bairro Social do Arco do Cego desde o Edital municipal de 21/01/1933, sendo a artéria que liga da Rua Xavier Cordeiro à Rua Brás Pacheco.

Esta artéria nasceu a partir da proposta do Vogal da Câmara Júlio César de Carvalho Teixeira para a atribuição dos nomes de «prestigiosos mutualistas» –  Bacelar e Silva (Rua B), Brás Pacheco (Rua U), Costa Goodolfim (Rua A), Gomes da Silva (Rua D), Ladislau Piçarra (Rua C) e Desidério Beça (Rua V) – às ruas do Bairro Social do Arco do Cego que ainda não possuíam denominação e que foi aprovada por unanimidade na sessão de Câmara de 12 de janeiro de 1933.

Freguesia do Areeiro - Placa de Azulejo (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro – Placa de Azulejo
(Foto: Sérgio Dias)

Desidério Augusto Ferro de Beça (Freixo de Espada à Cinta/28.11.1868 – 11.09.1920 /Vila Real) foi um oficial do exército que exerceu o comando militar de Bragança e logo em 1910 integrou a comissão de 17 elementos nomeada pelo Ministro da Guerra Correia Barreto para estudar a melhoria das condições económicas dos sargentos e demais praças do exército de que resultou a publicação do Decreto-Lei de 25 de maio do ano seguinte. Desidério Beça atingiu o posto de tenente-coronel em 1916 e a partir de 1918 tornou-se o Governador Civil de Bragança por duas vezes consecutivas ( tomou posse a 21 de Fevereiro e depois, de 4 de Abril a 6 de Junho de 1919), tal como o fora o seu primo Abílio Augusto de Madureira Beça, e ainda foi eleito deputado nas listas do Partido Democrático pelo círculo de Vila Real.

A sua acção enquanto mutualista começou em 1905 quando foi nomeado secretário do Montepio Oficial. Mais tarde, foi também fundador do Club Transmontano em Lisboa e um entusiasta colaborador do 1º Congresso Transmontano que se realizou no ano seguinte ao do seu falecimento. Deixou também obra publicada de que se destacam os artigos «Congresso Nacional de Mutualidade, Tese XVI da mutualidade militar – Vantagem do seu estabelecimento no exército português» (1911), «O Estado, a Família e as Sociedades de Instrução Militar Preparatória – Palestra na Sociedade n.º 9, em 8 de Dezembro de 1912» (1913), «Instrução Militar Preparatória – Desenvolvimento da comunicação apresentada ao I Congresso de Educação Física, promovido pelo Ginásio Club Português» (1916).

Finalmente, refira-se que ao longo do século XX, a Rua Desidério Beça sofreu algumas alterações tendo o seu troço a norte do Liceu Dona Filipa de Lencastre passado a denominar-se Rua Bernardo de Passos por edital de 14/01/1956 e mais tarde, por edital de 31/03/1970, passou a incluir nos seus limites a Rua B do Bairro Social do Arco do Cego.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O adeus de Fernando Assis Pacheco na Rua Duque de Palmela

Fernando Assis Pacheco em Paris, de reportagem, em 1988 (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco em Paris em 1988
(Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco, jornalista, escritor e amante de livros, após uma das suas visitas regulares à Livraria Bucholz, na Rua Duque de Palmela, naquela artéria faleceu em 1995,  acontecimento que o escritor galego Torrente Ballester sintetizou como «Morreu junto aos livros, no seu posto, como soldado no campo de batalha.»

A Rua Duque de Palmela é um topónimo do último quartel do séc. XIX em resultado da deliberação camarária de 12/04/1885 e Edital municipal de 19/04/1887, fixado na Rua nº 4,  então descrita no Edital «a primeira rua parallela á Avenida da Liberdade, pelo lado do poente, (…) e comprehendida entre a Rua Alexandre Herculano e a rua obliqua que se projecta, a ligar esta ultima com a Praça Marquez de Pombal.» Homenageia Pedro de Sousa Holstein que «contribuiu tão poderosamente com a sua penna como diplomata e homem de estado, como outros com as espadas, para o triumpho do regimen liberal, e que havendo a camara ja votado os nomes das ruas “Duque da Terceira” e “Marechal Saldanha“, cumpre dedicar tambem uma rua á memoria d’aquelle benemerito da patria, a fim de reparar a injustiça que ora se dá». 

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Pedro de Sousa Holstein (Turim/08.05.1781 – 12.10.1850/Lisboa), conde de Sanfré no Piemonte, foi o 1.º conde (decreto de 11/04/1812), 1.º marquês (03/07/1825) e 1.º duque de Palmela (13/07/1833) e marechal de campo mas, sobretudo, político   cartista moderado que desempenhou as funções de par do Reino desde 1826 e presidente da respectiva câmara a partir de 1833; presidente da Câmara dos Senadores em 1841; conselheiro de Estado; embaixador extraordinário e ministro plenipotenciário em diversas cortes estrangeiras (Cúria Romana, Cádis e Londres); representante de Portugal no congresso de Viena em 1815; ministro dos negócios estrangeiros em 1817, 1823 e 1835 ; presidente da Regência estabelecida na ilha Terceira em 1830 e do Conselho de Ministros em 1842  e 1846 .

Refira-se que o Duque de Palmela foi um dos que primeiro e mais generosamente contribuíram para as despesas da guerra no tempo das invasões napoleónicas, bem como nas lutas entre absolutistas e liberais, tendo desembarcado em Lisboa com as tropas vitoriosas do Duque de Terceira em 24 de julho de 1833.

Este morador alfacinha da zona das Chagas e com quinta no Lumiar, recebeu os galardões da Grã-Cruz das Ordens de Cristo e Torre e Espada, de Cavaleiro do Tosão de Ouro, da Grã-Cruz de Carlos III de Espanha, da Legião de Honra francesa, de Santo Alexandre Nevsky da Rússia e de Cavaleiro de S. João de Jerusalém e teve biografias redigidas por António Pedro Lopes de Mendonça, Luís Augusto Rebelo da Silva, e Maria Amália Vaz de Carvalho.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Gomes Freire da Judiciária

Fernando Assis Pacheco à porta da Judiciária num processo contra o DL (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco à porta da Judiciária num processo contra o Diário de Lisboa                                                (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Enquanto jornalista do Diário de Lisboa desde 1965 Fernando Assis Pacheco foi testemunha de vários processos contra o jornal onde trabalhava, o que o conduziu inúmeras vezes com os seus camaradas de profissão para a sede da Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire, uma artéria evocativa de alguém que também pugnou pela liberdade.

Tanto a Rua Gomes Freire como o arruamento onde se inicia – o Campo Mártires da Pátria – evocam aqueles que foram enforcados no dia 18 de Outubro de 1817 por contestação ao general Beresford, tendo Gomes Freire sofrido a punição no Forte de São Julião da Barra e os outros onze em praça pública no que era o Campo de Santana e onde hoje são homenageados pela toponímia. A Rua Gomes Freire foi fixada na que era a a Rua da Carreira dos Cavalos por Edital municipal de 22/08/1879, mais ou menos um mês após a atribuição do Campo Mártires da Pátria por Edital de 11/07/1879.

Ilustração Portuguesa, 1905

Ilustração Portuguesa, 1905

O topónimo Rua Gomes Freire perpetua a memória de Gomes Freire de Andrade (Viena/ 27.01.1757 – 18.10.1817/Forte de S. Julião da Barra), o filho de um diplomata que seguiu a carreira militar e foi considerado como um dos mais ilustres e perseguidos mártires da liberdade em Portugal.

Como militar, Gomes Freire de Andrade combateu em Argel (1784), na Rússia (1788), na Guerra do Rossilhão (1790) e já como marechal-de-campo, na Guerra das Laranjas (1801). Em 1803 participou também nos motins de Campo de Ourique que já anunciavam uma série de acontecimentos que culminaram com o estabelecimento do Regime Liberal em Portugal em 1820. Gomes Freire era o comandante de Infantaria 4 aquartelado em Campo de Ourique e em pleno Passeio Público prendeu Grosson, o comandante da Guarda Real da Polícia de Lisboa. Seguiram-se rixas entre os dois comandos e a 27 de julho, Gomes Freire foi preso e o seu regimento transferido para Cascais. A existência de dois partidos que procuravam influenciar o regente, um pró-inglês e o outro pró- francês, implicava a cumplicidade de Novion e a oficialidade da Guarda Real no grupo de pressão francês e jacobino, e a de Gomes Freire com os seus subordinados, no grupo inglês e maçónico.

Mação graduado e de ideologia revolucionária, Gomes Freire de Andrade foi acusado de participação ativa na conspiração de 1817 contra Beresford e nesse mesmo ano executado por enforcamento no forte de S. Julião da Barra tal como 11 companheiros.

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)