O 25 de Abril, o Colégio Militar e o Largo da Luz

Ao Colégio Militar chegou às 04H00 do dia 23 de abril o cabo da linha de transmissões para daí seguir para o último ponto – o Posto de Comando do MFA – e às 21H30 do dia 25 de abril de 1974, foi também o local da refeição quente do dia, de almôndegas com massa, da coluna militar da EPC – Escola Prática de Cavalaria.

Para a linha telefónica militar (ponto-a-ponto) necessária ao Posto de Comando do MFA, instalado no RE 1- Regimento de Engenharia n° 1, na Pontinha, foi instalado cabo telefónico aéreo pelo seguintes pontos: Regimento de Transmissões (Rua de Sapadores) – Pupilos do Exército (Estrada de Benfica) – Colégio Militar (Largo da Luz) –  Posto de Comando do MFA (Pontinha). O então tenente-coronel Garcia dos Santos – responsável pelas transmissões do Movimento das Forças Armadas- assinara o pedido urgente da linha telefone militar na zona dos Pupilos do Exército que foi autorizada pelo Estado Maior do Exército em 15 de abril de 1974. Clandestinamente, deu-se seguimento ao processo a partir das 20:00 horas do dia 22 de abril de 1974, com um cabo aéreo de 5 pares com 2.000 metros, primeiro até ao Colégio Militar  onde chegou às 4 horas do dia 23, para depois, com um novo cabo de 3.000 metros chegar até ao RE 1, tendo chegado à Porta d’Armas às 6 horas do dia 24 de abril e após diversos testes, à sala do Posto de Comando cerca das 18 horas.

Já no dia 25 de abril, cerca das 21h horas, a Chaimite Bula oriunda do Largo do Carmo a transportar os membros do Governo deposto, escoltada pela coluna da Escola Prática de Cavalaria, chegaram ao RE 1 – Regimento de Engenharia, na Pontinha, onde estava instalado o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. E cerca de meia hora depois, por volta das 21:30, esta coluna militar da EPC instalou-se no Colégio Militar, onde lhe foi servida uma refeição quente:  almôndegas com massa.

Findo o jantar, às 22:30, o major Monge, o capitão Salgueiro Maia e os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva dirigiram-se com as viaturas blindadas para a Calçada da Ajuda, onde conseguiram a rendição dos regimentos de Cavalaria 7 e Lanceiros 2, tendo sido presos os comandantes dessas unidades.  À meia-noite e meia, forças da EPC escoltaram a Junta de Salvação Nacional na deslocação à RTP. À 1:30 de dia 26, as forças que acompanharam Salgueiro Maia à Ajuda ficaram a pernoitar no Regimento de Cavalaria 7. Às 2 horas, a coluna que fez a escolta até à RTP regressou ao Colégio Militar para passar a noite.

Refira-se ainda que dos envolvidos no 25 de Abril de 1974, foram  alunos do Colégio Militar os seguintes: General António de Spínola e  General Francisco da Costa Gomes (Junta de Salvação Nacional); Major José Sanches Osório, Tenente-coronel Nuno Fisher Lopes Pires, Capitão Luís Macedo (Posto de Comando do MFA); Furriel João Gomes Pereira Carmona, Capitão Mário Delfim Tavares de Almeida, Alferes Miguel Sequeira Marcelino (da coluna da EPC do Capitão Salgueiro Maia); bem como Tenente Américo Henriques, Major António Carlos de Magalhães Arnão Metelo, Capitão Duarte Nuno Pinto Soares, Capitão Francisco Faria Paulino, Capitão Francisco Sousa Lobo, Tenente –Coronel João de Almeida Bruno, Tenente José Balula Cid, Capitão José Bernardo do Canto e Castro, Capitão José Fernandes Décopete dos Santos Coelho, Capitão Mário Alfredo Brandão Rodrigues dos Santos, Major Pedro Pezarat Correia, Capitão-Tenente Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa (dados recolhidos em NRP Cacine).

O Colégio Militar estava, em abril de 1974 como hoje, sediado no Largo da Luz, topónimo que também surge repetido nas proximidades na Azinhaga da Luz, Estrada da Luz e Travessa da Luz, todos por referência comum a Santa Maria da Luz.

Conta uma lenda que Nossa Senhora, aureolada de luz, terá aparecido a um natural de Carnide, de seu nome Pêro Martins. Das  sucessivas vezes prometeu livrá-lo do cativeiro com o compromisso de ao regressar a Carnide erigir na Fonte da Machada uma ermida dedicada a Santa Maria da Luz, cuja imagem até encontraria perto daquele local. Pêro Martins  foi libertado e regressou a Portugal em 1463, após o que encontrou a imagem de Nossa Senhora da Luz nas cercanias da Fonte da Machada e se empenhou em recolher contribuições dos seus vizinhos, assim como a licença do Bispo de Lisboa, para construir a ermida, na qual a imagem foi solenemente entronizada no dia 8 de setembro de 1464. Pêro Martins foi sepultado na ermida em 1466 e esta foi depois anexada à igreja de São Lourenço de Carnide, cujo pároco ficou com o encargo de manter o culto e dar continuidade às festividades religiosas em honra de Nossa Senhora da Luz, a 8 de setembro, as quais persistiram até aos nossos dias no decorrer desse mês.

O Colégio Militar, no Largo da Luz, cerca de 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A PIDE/DGS e a Rua António Maria Cardoso

Na manhã de 25 de abril de 1974
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Duas tentativas de ocupação da sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, foram feitas pelas tropas do Movimento das Forças Armadas no dia 25 de abril mas só às 09H46 do dia seguinte se verificou a rendição, sendo o edifício então ocupado por forças do Exército e da Marinha. Ainda no dia 25 a multidão aglomerou-se na artéria e tanto depois das 13H30 como cerca das 20 horas os agentes da polícia política abriram fogo e causaram 4 mortos e dezenas de feridos. 

O decreto-lei n.º 171/74, datado de 25 de abril de 1974, assinado pelo Presidente da Junta de Salvação Nacional, António de Spínola, extinguiu a PIDE/DGS. Contudo, a sede da polícia política – de nome de código Moscovo – na Rua António Maria Cardoso nº 22 –  um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança -, só na manhã do dia 26 de abril foi ocupada por forças do Exército e da Marinha após a rendição dessa força cerca das 9:45 horas. Também foi do dia 26 de abril, já de noite e à luz de archotes, que começaram a ser libertados os presos políticos e a sair da prisão de Caxias (Pequim).

A tomada da sede da PIDE/DGS teve várias etapas: a mal sucedida operação inicial dos fuzileiros, na manhã de dia 25; o cerco mantido, sobretudo por forças do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz e depois reforçado com fuzileiros; a aglomeração de populares na Rua António Maria Cardoso a cantar o Hino Nacional e dar vivas aos militares a que atiradores da PIDE/DGS reagiram depois das 13:30 e depois das 20 horas com rajadas de metralhadora e granadas de mão de que resultaram 45 feridos e quatro mortos ( Fernando Gesteiro, empregado de escritório de 18 anos; João Arruda, estudante de 20 anos; Fernando dos Reis, um soldado de 24 anos que estava de licença na cidade e José Barnetto, natural de Vendas Novas com 37 anos de idade); a rendição da PIDE/DGS na manhã de dia 26, pouco depois das 9 e meia da manhã, ao capitão-tenente Costa Correia, da Marinha e major Campos Andrada, de Cavalaria do Exército.

A Rua António Maria Cardoso, antes de ser assim designada em 1890 passou por diversas denominações, todas ligadas ao Paço dos Bragança. Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 era esta a «rua do Postigo do Duque» por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina, e depois, foi ganhando novas denominações como  «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças , «rua do Tesouro» ou «rua Velha do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, quando era mais conhecida por Rua do Tesouro Velho e já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje ainda encontramos,  o Edital municipal de 6 de fevereiro de 1890 crismou-a como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade, ainda em vida, três conceituados exploradores da África Portuguesa de então,  cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato britânico que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressara na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar também desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa. António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, ano do Ultimato Inglês, e foi eleito deputado para além de ter sido agraciado com as comendas das Ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz e ainda, com a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Após as 20 horas de 25 de abril de 1974
(Foto: Vida Mundial, 3 de maio de 1974)

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O 25 de Abril e a Avenida Ribeira das Naus ou do Arsenal

A Avenida da Ribeira das Naus foi o palco de momentos tensos na manhã de 25 de Abril de 1974, com o pelotão de RC 7 às 7H30 horas, a fragata Almirante Gago Coutinho posicionada no Tejo às 9 horas e as tropas do major Pato Anselmo cerca de meia hora depois a confrontarem-se com os militares do Movimento das Forças Armadas.

As forças da EPC – Escola Prática de Cavalaria comandadas pelo capitão Maia (como nesse dia foi denominado) assumiram o controlo da Praça do Comércio e artérias adjacentes antes das 6 da manhã. Às 7:30 horas chegou à Avenida da Ribeira das Naus um pelotão de reconhecimento Panhard do RC 7 – Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo  tenente-coronel Ferrand de Almeida que acabou por se render meia hora depois. Às 9 horas, tomou posição intimidatória no Tejo a  fragata Almirante Gago Coutinho mas até ao meio-dia, quando se afastou para o Mar da Palha, nunca abriu fogo. A artilharia do Movimento das Forças Armadas, estacionada no Cristo-Rei, também recebeu ordens do Posto de Comando para afundar a fragata caso esta abrisse fogo. A partir das 9:35 horas dois carros de combate M47, comandados pelo major Pato Anselmo, tomaram posições na Avenida da Ribeira das Naus e outros dois na Rua do Arsenal, mas cerca de uma hora depois essas tropas passaram-se para o Movimento dos Capitães, graças ao civil e ex-alferes miliciano Fernando Brito e Cunha. De seguida,  o brigadeiro Junqueira dos Reis dirigiu as tropas  que lhe restavam da Rua do Arsenal para a Avenida da Ribeira das Naus e ordenou ao alferes miliciano Fernando Sottomayor (do RC 7) que abrisse fogo sobre Salgueiro Maia mas este recusou obedecer pelo que foi detido. Repetiu a ordem ao cabo apontador José Alves Costa mas este fechou-se dentro do carro de combate. O oficial-general foi então para a Rua do Arsenal mas todos os cabos se recusaram a abrir fogo. Às 10:20, o capitão Tavares de Almeida, o major Jaime Neves e os alferes milicianos Maia Loureiro e David e Silva negociaram a rendição do major Pato Anselmo na Avenida da Ribeira das Naus, e esta acabou por acontecer.

Tanto a Avenida da Ribeira das Naus como a Rua do Arsenal foram palco de acontecimentos tensos no dia 25 de Abril de 1974. Também ambos os topónimos partilham a mesma origem: o Arsenal da Marinha, descendente das tercenas de D. Manuel I.

A doca seca do Arsenal da Marinha foi atulhada em 1939 para permitir a construção da Avenida da Ribeira das Naus, paralela à Rua do Arsenal. Este novo arruamento teve topónimo atribuído em 1948, pelo Edital municipal de 22 de junho.

A zona marginal do Tejo, entre a Praça do Município e a Igreja da Conceição Velha, era a Ribeira até que com D. Manuel I passou a ser o local das tercenas onde se construíram os navios necessários, a ponto de o rei  ter mandado construir o seu Paço mesmo ao lado para melhor verificar esses trabalhos. O terramoto de 1755 destruiu esse importante complexo naval mas a sua reconstrução iniciou-se logo em 1759, sob o traçado de Eugénio dos Santos.  Durante muito tempo o local foi conhecido como Ribeira das Naus, sendo extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus, depois designado Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910 ficou apenas Arsenal da Marinha. Em 1936, o Arsenal começou a ser transferido para as instalações navais do Alfeite e terminou a sua laboração em 1939 quando se começou a construir a Avenida da Ribeira das Naus.

Refira-se ainda que no mesmo ano de 1948, pelo Edital de 29 de Abril, foram atribuídos mais topónimos evocativos do antigo Império Português, mas em Belém, onde em 1940 havia decorrido a Exposição do Mundo Português. Foram atribuídos a Praça do Império, a Avenida da Índia, a Praça de Goa, a Praça de Damão, a Praça de Dio, a Rua Soldados da Índia, assim como topónimos de figuras ligadas à Expansão Portuguesa, como navegadores – Avenida Dom Vasco da Gama, Rua Dom Cristóvão da Gama, Rua Dom Jerónimo Osório, Rua Fernão Mendes Pinto -, representantes das autoridades de Portugal – Rua Dom Lourenço de Almeida, Rua Tristão da Cunha – , historiadores da época – Rua Damião de Góis, Rua Fernão Lopes de Castanheda -, bem como cientistas – Rua Duarte Pacheco Pereira – e missionários – Rua São Francisco Xavier – e o próprio rei dessa época do Império Português com a Praça Dom Manuel I. Refira-se que ainda em 1948, a 29 de dezembro, a edilidade lisboeta colocou uma lápide nesta Avenida da Ribeira das Naus na qual se podia ler «Neste local construíram-se as naus que descobriram novas terras e novos mares e levaram a todo o mundo o nome de Portugal».

(Foto: Flama, 3 de maio de 1974)

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O Regimento de Transmissões e a Rua dos Sapadores Mineiros de Engenharia

Em menos de 24 horas foram montados quatro quilómetros de cabo, com apoio dos capitães Veríssimo da Cruz, Madeira e furriel Cerdoura, para garantir que a partir de 24 de abril,  no Regimento de Transmissões, se escutassem as redes de comunicação da GNR, Legião, PIDE/DGS e PSP e se tivessem escutas telefónicas permanentes ao Ministro e Subsecretário de Estado do Exército, Chefe do Estado Maior do Exército e Ministro da Defesa. As operações foram dirigidas pelo capitão Fialho da Rosa. 

Em 15 de abril de 1974 foi autorizada pelo Estado Maior do Exército a montagem de uma linha telefónica militar direta entre o Regimento de Transmissões – na Rua de Sapadores – e o Regimento de Engenharia n° 1 – na Pontinha, onde vai funcionar o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas-, a partir da proposta assinada pelo então tenente-coronel Garcia dos Santos. Depois, uma equipa chefiada pelo furriel Cerdoura, montou essa linha em menos de 24 horas para garantir que a partir de 24 de Abril, numa operação dirigida pelo capitão Fialho da Rosa se pudesse assegurar escutas às comunicações da GNR, Legião Portuguesa, PIDE/DGS e Polícia de Segurança Pública,  assim como dos Ministros da Defesa e Ministro do Exército, Subsecretário de Estado do Exército e Chefe do Estado Maior do Exército.

Já a Rua dos Sapadores nasceu no final do século XIX num bairro operário embora o seu topónimo guarde uma memória militar, a do quartel dos Sapadores Mineiros.

Foi por deliberação camarária de 8 de julho de 1892 que foram atribuídas denominações aos arruamentos do Bairro Operário à Calçada dos Barbadinhos. Assim, a Rua dos Sapadores foi a designação para a Rua A, tal como o foi Rua dos Operários para a Rua B, Pedro Alexandrino para a Rua C, Machado de Castro para a Rua D, Bartolomeu da Costa para a Rua E e Afonso Domingues para a Rua F. Note-se o relevo que se quis dar a várias artes, através do pintor Pedro Alexandrino, do escultor Machado de Castro, do militar especialista em fundição Bartolomeu da Costa e do arquiteto Afonso Domingues.

Até poucos anos antes, em 1889, segundo Norberto de Araújo, a artéria denominava-se Rua dos Quatro Caminhos e dos Sapadores, sendo o topónimo derivado de um quartel lá existente, esclarecendo o olisipógrafo o seguinte:
«Na primeira metade do século do Terramoto [séc. XVIII]  já aqui havia um aquartelamento, embora de reduzida superfície: era o Regimento da Segunda Armada, aos Quatro Caminhos, e, em boa verdade, não consegui saber a que correspondia aquela designação do regimento. No século passado [isto é, no séc. XIX], e durante longos anos, esteve aqui o Regimento de Engenharia, fazendo-se por várias vezes obras e ampliações, sempre restritas. Em 1911, pela reorganização do Exército, subdividiu-se a arma de engenharia, ficando neste quartel os Sapadores Mineiros. Fizeram-se então novas ampliações, e ergueu-se êste edíficio que vês, corpo central de comando, recuado um pouco de frente, para alargamento da nova Rua de Sapadores (1912-1913). Em 1927, após a revolução de 7 de Fevereiro, os Sapadores saíram e entraram os Telegrafistas.»

Em 1969
(Foto: Artur Inácio Bastos, Arquivo Municipal de Lisboa)

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O Comando Geral da Legião Portuguesa e o Largo da Penha de França

O Quartel-general da Legião Portuguesa, foi ocupado pelas 14H00,  por uma força da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, saída do Terreiro do Paço e comandada pelo major Jaime Neves, evitando qualquer tentativa de oposição ao MFA.

Da Praça do Comércio saíram duas forças da Escola Prática de Cavalaria de Santarém: uma força comandada por Salgueiro Maia para o Quartel da GNR no Largo do Carmo e outra, dirigida por Jaime Neves – com forças do Regimento de Cavalaria 7, Regimento de Lanceiros 2 e Regimento de Infantaria 1-, para o Comando da Legião Portuguesa, no nº 1 do Largo da Penha de França. As instalações da Legião – com o nome de código Marrocos – foram ocupadas às 14 horas evitando assim qualquer oposição ao movimento.

Este Largo da Penha de França, na confluência da Rua da Penha de França e da Rua Marques da Silva, tem a sua origem no próprio topónimo do sitio: a Penha de França. Um escultor de imagens sacras ou imaginário, de seu nome António Simões,  encontrando-se perdido em Alcácer Quibir fez a promessa de que se voltasse a Portugal fabricaria várias imagens de Nossa Senhora e lhes daria um destino condigno. Já regressado a Portugal, chamou Senhora da Penha de França (crê-se que por invocação de um santuário de Salamanca) à última imagem que produziu e esta foi inicialmente colocada na Igreja da Vitória, na  Baixa de Lisboa. Depois, o escultor lá conseguiu erguer uma Ermida, no Monte Alperche, em terrenos de Afonso Torres de Magalhães, e foi nessa Ermida ainda em construção, em 1597, que foi acolhida a dita imagem de Nossa Senhora da Penha de França, sendo apenas no ano seguinte que ficou terminado o seu templo. Em 1604, começou a construir-se no sítio uma nova Igreja, bastante maior e até com Casa Conventual que ficou terminada em 1635, sendo esta que acabou por estender o nome da Senhora da Penha de França a todo o sítio, até chegar a ser também o da própria freguesia.

O sítio foi habitado pelo menos desde a época muçulmana, memória que parece ter ficado na Calçada do Poço dos Mouros, ou até em períodos anteriores, uma vez que a toponímia portuguesa usa muitas vezes a palavra «Mouro» e seus derivados para locais ocupados ainda em períodos neolíticos ou para assinalar gente de diferentes culturas.

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O Quartel da EPAM, a RTP e a Alameda das Linhas de Torres

A Capital, 25 de abril de 1974, edição das 12 horas

Pelas 02H50, saiu da Escola Prática de Administração Militar uma força com o objetivo de ocupar os estúdios da  Rádio Televisão Portuguesa, na Alameda das Linhas de Torres, ao Lumiar. Estiveram envolvidos cerca de 100 militares, comandados pelo capitão Teófilo Bento.

Na madrugada do dia 25 de abril de 1974, após a audição de Grândola, Vila Morena de José Afonso, foi controlada a EPAM – no nº 179 da Alameda das Linhas de Torres -, de onde saiu uma força de 130 homens comandada pelo capitão Teófilo Bento, que ocupou Mónaco com êxito e sem incidentes, isto é, ocupou os estúdios da RTP, no nº 44  da mesma Alameda das Linhas de Torres, impedindo a sua utilização pelas forças do regime e colocando-os ao serviço do MFA, que passou a transmitir regularmente pelas 19:00, com a imagem e a voz de Fernando Balsinha e de Fialho Gouveia. Na madrugada do dia 26 de abril é através da RTP que se transmite a proclamação ao país da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General António de Spínola.

Esta Alameda das Linhas de Torres, que hoje vai do Campo Grande à Estrada da Torre, nasceu após a implantação da República, através do Edital municipal de 7 de agosto de 1911, na artéria que era a Alameda do Lumiar, para homenagear na memória do local os combatentes das Linhas de Torres Vedras, erguidas em 1810 para defender militarmente Lisboa das invasões francesas e tanto mais que este arruamento fazia a ligação com a Estrada para Torres Vedras. O mesmo Edital de 1911 também homenageou Neves Costa, engenheiro militar que participou no estudo das mesmas.

As Linhas de Torres Vedras ou simplesmente Linhas de Torres  integram o conjunto de fortificações da península de Lisboa que no contexto da Guerra Peninsular foram concebidas para impedir um exército invasor de atingir a capital ou, em caso de derrota, permitir a retirada, em segurança, do Exército Britânico. A ordem para a sua construção foi dada em outubro de 1809,  por Arthur Wellesley, então comandante do exército anglo-luso, sendo o Coronel Richard Fletcher o oficial do exército de Wellington responsável pelos trabalhos de engenharia. Já em 1807, Junot encarregara o coronel de engenharia Vincent de estudar a defesa de Lisboa e na execução dessa tarefa esteve o major de engenharia José Maria das Neves Costa. Após a expulsão das tropas francesas foram feitas diligências pelas autoridades portuguesas no sentido de fazer o levantamento topográfico que servisse de base aos trabalhos da defesa de Lisboa, comissão em que esteve novamente Neves Costa, que já em 1801 publicara Observações sobre o plano de ataque e defesa do reino de Portugal em relação à sua Geografia e topografia. Refira-se ainda que na Terceira Invasão Francesa as Linhas de Torres Vedras impediram o exército de Massena de atingir Lisboa e acabaram por provocar a sua retirada de Portugal.

A Capital, 26 de abril de 1974

 

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O 25 de Abril e a Rua do Arsenal

(Foto: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

Local de confrontos entre forças revoltosas da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e de forças fiéis ao regime, do Regimento de Cavalaria 7. Entre as 07H00 e as 10H30, distinguiu-se o tenente Alfredo Assunção, ao procurar negociar com os opositores, mantendo-se sereno, mesmo depois de ter sido agredido por um oficial das forças do regime.

 

Este topónimo fixou na memória de Lisboa a presença no local do Arsenal da Marinha. Os estaleiros das Tercenas navais  mandados construir por D. Manuel I foram destruídos pelo Terramoto de 1755 mas logo foi determinada a sua reconstrução, sob o risco de Eugénio dos Santos, que se iniciou em 1759.  Durante muito tempo o local foi conhecido como Ribeira das Naus, sendo extensivo ao Arsenal da Ribeira das Naus, depois Arsenal Real da Marinha e a partir de 1910, apenas Arsenal da Marinha. Manteve-se em laboração até 1939, ano em que a sua doca seca foi atulhada por motivo da abertura da Avenida da Ribeira das Naus, apesar de já desde 1936 tivesse começado a transferência do Arsenal para as instalações navais do Alfeite.

O arruamento começou a ser a Rua dos Arcos Cobertos, com uma configuração diferente. Após o Terramoto ficou conhecido como Rua Direita do Arsenal e ainda assim surge em 1856 no Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, para depois perdurar até hoje como Rua do Arsenal, tal como já em 1907 se assinala nas plantas de Silva Pinto.

(Foto: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

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O Rádio Clube Português e a Rua Sampaio Pina

A Rua Sampaio e Pina no dia 25 de abril de 1974
(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ocupado pelas 3H20 pelos oficiais major José da Costa Neves, major Delfim Campos Moura, major João Sacramento Gomes, capitão Artur Mendonça de Carvalho, capitão José Correia Pombinho, capitão José Santos Coelho, capitão Nuno dos Santos Ferreira e capitão Nuno dos Santos Silva, com o apoio de uma Companhia do Batalhão de Caçadores nº5.

Esta ação pretendia fazer do Rádio Clube Português a emissora do MFA, para emitir os seus comunicados. Às 04H26, o jornalista Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado.

No nº 24 da Rua Sampaio e Pina estava sediado o Rádio Clube Português em 25 de abril de 1974. E às 3 horas da madrugada uma companhia do Batalhão de Caçadores nº 5 saiu do quartel – onde hoje encontramos a Universidade Nova de Lisboa – para garantir a segurança do local que se tornaria a emissora do MFA.

O topónimo Rua Sampaio e Pina foi atribuído pela Câmara Municipal presidida pelo Conde d’Ávila (António José de Ávila), através do Edital de 18 de dezembro de 1903, à via pública ainda então a ser construída entre a Rua Castilho e a Rua José da Silva Carvalho (que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915 dando origem em 1920 a uma nova Rua Silva Carvalho noutro local de Lisboa). A edilidade homenageava assim Manuel Inácio de Sampaio de Pina Freire, que em 24 de julho de 1833 reconheceu D. Maria II como monarca legítima da Coroa portuguesa.

Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (07.08.1778 – 1856), 1º Visconde de Lançada, prestou relevantes serviços aos liberais, com a maior dedicação e coragem no dia 24 de julho de 1833, tornando possível ao Marechal Duque de Terceira após vencer a batalha da Cova da Piedade – com tropas onde se incluía os Caçadores 2 e 3 – atravessar o Tejo com as suas tropas e encontrarem já içada no Castelo de S. Jorge a bandeira azul e branca dos Liberais. Esteve  presente nesse dia 24 de julho de 1833 no Auto de aclamação e reconhecimento do governo legítimo de D. Maria II e da Carta Constitucional, nos Paços do Concelho de Lisboa, conforme noticia a Gazeta de Lisboa de 26 de julho de 1833.

Filho de Inácio José de Sampaio e Pina Freire de Andrade e Angélica Inácia Pereira de Aguirre, foi um administrador colonial português, enquanto governador-geral da capitania do Ceará, de 19 de março de 1812 a 1820 – razão para no centro de Fortaleza (Brasil) existir uma Rua Governador Sampaio -, assim como governador-geral da capitania de Goiás, de 1820 a 1822, onde em 14 de agosto de 1821 sofreu uma fracassada tentativa de deposição.

Visconde de Lançada por Decreto de 10 de janeiro de 1849 de D. Maria II, foi também membro do Conselho de Sua Majestade, Tenente-General, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Membro do Tribunal do Tesouro Público, agraciado como Comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Ordem de São Bento de Avis.

Em Lisboa, segundo Júlio de Castilho, possuía o Palácio onde em 1880 se instalou o jornal O Século. Também conforme os arquivos municipais, detinha um prédio nos n.ºs 53 e 58 «no sítio das Janelas Verdes» em 1839, bem como na Rua do Olival nº 5, onde em 1836 foi intimidado pela Câmara Municipal de Lisboa a entulhar o fosso da sua casa no prazo de 24 horas que também lhe lavrou um auto sobre o estado da porta do n.º 5 A.

Na sua vida pessoal, Sampaio e Pina casou-se, em 1 de fevereiro de 1826, com Helena Teixeira Homem de Brederode, de quem teve dois filhos: Inácio Júlio de Sampaio Pina Freire e António de Sampaio Pina de Brederode, que casou com Maria Luísa Holstein, 3.ª duquesa de Palmela.

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A Rua Sampaio e Pina no dia 25 de abril de 1974
(Foto: Ana Haterly, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Quartel do Batalhão de Caçadores nº 5 e a Rua Marquês de Fronteira

Pelas 3h00,  saiu do quartel do Batalhão de Caçadores nº 5 uma força constituída por duas Companhias de Caçadores: uma para ocupar o Quartel-General do Governo Militar de Lisboa, e outra para garantir a segurança do Rádio Clube Português.

Estas ações envolveram cerca de 200 militares, comandados pelo major José Cardoso Fontão, capitão João Bicho Beatriz e tenente Mascarenhas. O capitão Carlos Joaquim Gaspar assumiu o comando da Unidade.

Na madrugada de 25 de abril de 1974, para ocupar o Quartel-General do Governo Militar de Lisboa e garantir a segurança do Rádio Clube Português, duas companhias deixaram o Quartel do Batalhão de Caçadores nº 5, a pé, pelo portão da Rua Marquês de Fronteira, topónimo que guarda a memória de um militar que fez toda a campanha das lutas liberais até ao seu fim em 24 de julho de 1833.

Desde 1910 que o Batalhão de Caçadores nº 5 estava instalado no edifício e quinta do antigo Colégio jesuíta da Imaculada Conceição de Jesus, vulgarmente conhecido como Colégio dos Jesuítas de Campolide e ali fundado em 1858 no que antes fora a Quinta da Torre de Estêvão Pinto e onde hoje encontramos a Universidade Nova de Lisboa.

O 7º marquês de Fronteira, D. José Trazimundo, foi perpetuado na toponímia lisboeta pelo Edital municipal de 3 de outubro de 1903 na então «Via pública situada entre a Avenida Duque de Ávila e a Rua D. Carlos de Mascarenhas.» D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto (Lisboa/04 ou 11.01.1802 – 19.02.1881/Lisboa), 8º conde da Torre, 5º marquês de Alorna e 7º marquês de Fronteira foi um militar que fez toda a campanha das lutas liberais, tendo-se reformado no posto de marechal-de-campo. Logo em 1820 foi ajudante  de campo do  general Sepúlveda, em cujo estado-maior se conservou até à queda do governo constitucional. Não tendo aderido à Vilafrancada acabou preso na Torre de Belém, após o que obteve licença para sair do reino e então percorreu parte da Europa com a sua mulher, apenas regressando depois de ser outorgada a Carta Constitucional, em 1826. Foi  ajudante de campo do general Conde de Vila Flor na Ilha Terceira, desembarcou no Mindelo (8 de julho de 1832) e participou na batalha de Ponte Ferreira e das Antas. Acompanhou o Duque de Terceira na expedição ao Algarve e Alentejo, e esteve na batalha de Cacilhas (23 de julho de 1833) e no desembarque em Lisboa (24 de julho de 1833).

D. José Trazimundo Foi também par do reino (a partir de 1826), deputado por Lisboa (1837), deputado por Bragança (1838), governador civil de Lisboa (com pequenas interrupções, de 12 de maio de 1846 a 1 de maio de 1851), mordomo-mor da Casa Real (1861),  mordomo-mor da casa da rainha D. Maria Pia (1862), tendo ainda publicado as suas Memórias do Marquês da Fronteira e Alorna.

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A 2ª senha do 25 de Abril, a Rádio Renascença e a Rua Ivens

Em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A 2ª senha, para continuação do golpe de Estado militar foi dada à meia-noite e vinte do dia 25 de abril, com a canção “Grândola, Vila Morena”, de José  Afonsono programa “Limite” da Rádio Renascença, antecedida pela leitura da sua primeira quadra previamente gravada por Leite de Vasconcelos e posta no ar por Manuel Tomás.

Naquela época, a Rádio Renascença estava instalada no nº 14 da Rua Ivens, num prédio que se estendia também pela Rua Capelo. Ambos os topónimos tinham nascido cerca de 89 anos antes, através do Edital municipal de 7 de setembro de 1885, em conformidade com as resoluções da Câmara de dia 3 do mesmo mês, que incluíam também um programa para festejar a chegada a Lisboa dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que ocorreria daí a dias, a 16 de setembro, mencionando que após o desembarque no Arsenal da Marinha seriam iluminados os edifícios municipais e feita uma recepção no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa a Capelo e Ivens.

Refira-se que o mesmo Edital atribuiu também a Rua Anchieta e a Rua Serpa Pinto, somando assim 4 topónimos referentes a exploradores dos territórios africanos na mesma zona do Chiado. A Rua de São Francisco passou a ser a Rua Ivens, a Travessa da Parreirinha mudou para Rua Capelo, a Rua da Figueira tornou-se a Rua Anchieta e a Rua Nova dos Mártires converteu-se em Rua Serpa Pinto.

O homenageado Roberto Ivens (Açores-Ponta Delgada/12.06.1850 – 28.01.1898/Dafundo), filho de Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco e de Robert Breakspeare Ivens, foi um oficial da Marinha que em 1877, com Hermenegildo Capelo e Alexandre Serpa Pinto, recebeu  o encargo de explorar os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, nomeadamente, estudando as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Com Capelo levou a cabo duas expedições, em 1877-1880 e em 1884-1885, conhecidas através dos relatos De Benguela às Terras de Iaca (1881) e De Angola à Contracosta (1886). Acresce que através dos seus cadernos e desenhos, Ivens foi também o repórter da época em África.

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