A Rua Gomes Freire da Judiciária

Fernando Assis Pacheco à porta da Judiciária num processo contra o DL (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco à porta da Judiciária num processo contra o Diário de Lisboa                                                (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Enquanto jornalista do Diário de Lisboa desde 1965 Fernando Assis Pacheco foi testemunha de vários processos contra o jornal onde trabalhava, o que o conduziu inúmeras vezes com os seus camaradas de profissão para a sede da Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire, uma artéria evocativa de alguém que também pugnou pela liberdade.

Tanto a Rua Gomes Freire como o arruamento onde se inicia – o Campo Mártires da Pátria – evocam aqueles que foram enforcados no dia 18 de Outubro de 1817 por contestação ao general Beresford, tendo Gomes Freire sofrido a punição no Forte de São Julião da Barra e os outros onze em praça pública no que era o Campo de Santana e onde hoje são homenageados pela toponímia. A Rua Gomes Freire foi fixada na que era a a Rua da Carreira dos Cavalos por Edital municipal de 22/08/1879, mais ou menos um mês após a atribuição do Campo Mártires da Pátria por Edital de 11/07/1879.

Ilustração Portuguesa, 1905

Ilustração Portuguesa, 1905

O topónimo Rua Gomes Freire perpetua a memória de Gomes Freire de Andrade (Viena/ 27.01.1757 – 18.10.1817/Forte de S. Julião da Barra), o filho de um diplomata que seguiu a carreira militar e foi considerado como um dos mais ilustres e perseguidos mártires da liberdade em Portugal.

Como militar, Gomes Freire de Andrade combateu em Argel (1784), na Rússia (1788), na Guerra do Rossilhão (1790) e já como marechal-de-campo, na Guerra das Laranjas (1801). Em 1803 participou também nos motins de Campo de Ourique que já anunciavam uma série de acontecimentos que culminaram com o estabelecimento do Regime Liberal em Portugal em 1820. Gomes Freire era o comandante de Infantaria 4 aquartelado em Campo de Ourique e em pleno Passeio Público prendeu Grosson, o comandante da Guarda Real da Polícia de Lisboa. Seguiram-se rixas entre os dois comandos e a 27 de julho, Gomes Freire foi preso e o seu regimento transferido para Cascais. A existência de dois partidos que procuravam influenciar o regente, um pró-inglês e o outro pró- francês, implicava a cumplicidade de Novion e a oficialidade da Guarda Real no grupo de pressão francês e jacobino, e a de Gomes Freire com os seus subordinados, no grupo inglês e maçónico.

Mação graduado e de ideologia revolucionária, Gomes Freire de Andrade foi acusado de participação ativa na conspiração de 1817 contra Beresford e nesse mesmo ano executado por enforcamento no forte de S. Julião da Barra tal como 11 companheiros.

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

 

A Avenida Fontes Pereira de Melo e A Visita da Cornélia

0 0 Fernando Assis Pacheco durante A Visita da Cornélia, com a colega de equipa e cunhada Carminho Ruella Ramos (Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Fernando Assis Pacheco em A Visita da Cornélia, com a par de equipa e cunhada Carminho Ruella Ramos
(Foto: Fernando Assis Pacheco no Facebook)

Na Avenida Fontes Pereira de Melo está instalado 0 Teatro Villaret, palco a partir do qual foi transmitido pela RTP no ano de 1977 – de 6 de junho a 28 de novembro -, sempre às 2ªs feiras,  o concurso de sucesso A Visita da Cornélia, apresentado por Raul Solnado, e no qual Fernando Assis Pacheco fazia par com a sua cunhada Carminho Ruella Ramos e se tornaram concorrentes muito populares.

Durante 7 semanas Assis Pacheco ocupou o pódio do concurso e como nenhum dos outros concorrentes o destronava – como  a família Pitum Keil do Amaral, José Fanha ou Tozé Martinho e Tareka – viu-se obrigado a desistir. Refira-se ainda que foi organizada no Ginásio do Clube Atlético de Campo de Ourique, a 7 de dezembro de 1977,  um espectáculo com «As estrelas da Cornélia»: Fernando Assis Pacheco, Carlos Fragateiro, Clarisse e Tó, José Fanha, Lucilina e Victor, Hugo Maia de Loureiro, Pitum  e Vasco Raimundo.

Freguesias de Santo António , de Arroios e das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Santo António , de Arroios e das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Esta artéria que homenageia António Maria Fontes Pereira de Melo, falecido em janeiro de 1887, nasceu integrada no Plano das Avenidas Novas, do Eng.º Ressano Garcia, aprovado em 1888 na Câmara Municipal de Lisboa, que seguia as ideias urbanísticas do séc. XIX, aplicando os princípios higienistas de combate à insalubridade das densas vilas da industrialização, definindo um traço regular formado por quarteirões uniformes, numa sequência de eixos estruturantes articulados por rotundas. Neste plano, a Avenida Fontes Pereira de Melo constituía o elemento de ligação do conjunto das ruas adjacentes ao Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) com o núcleo Picoas – Campo Grande.

Tão evidente era o nome do político que construiu o Fontismo que o topónimo foi atribuído como Rua Fontes, por deliberação camarária de 31/12/1887 e Edital de 10/01/1888.  Mais tarde, o Edital municipal de 11/12/1902 mudou-lhe a categoria para Avenida, já como Fontes Pereira de Melo.

António Maria Fontes Pereira de Melo (Lisboa/08.09.1819-22.01.1887/Lisboa), foi o chefe do Partido Regenerador que presidiu ao Conselho de Ministros  por três vezes,  de 1871 a 1886, período que ficou conhecido como Fontismo, caracterizado pela promoção de obras públicas como o aumento do número de estradas, o primeiro troço dos caminhos-de-ferro, a primeira linha telegráfica e a inauguração de carreiras regulares de barcos a vapor (no Tejo, Sado e Lisboa- Açores) e serviços postais, para além da fundação dos Institutos Industrial e Agrícola, sendo então pela primeira vez ter criado o Ministério das Obras Públicas que ele próprio assumiu.

Fontes Pereira de Melo começou a sua carreira política como deputado por Cabo Verde e nessa qualidade se mostrou contrário à Lei das Rolhas de 1850 que impunha restrições à liberdade de imprensa. Foi ainda Ministro da Marinha e do Ultramar, Ministro da Fazenda e da Guerra, governador da Companhia de Crédito Predial Português e Presidente do Supremo Tribunal Administrativo.

Freguesias de Santo António , de Arroios e das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Santo António , de Arroios e das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do ginasta Robalo Gouveia

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Junto ao complexo desportivo da Urbanização do Bairro das Olaias, está a Rua Robalo Gouveia, com a legenda «Ginasta Olímpico/1923-1986», em homenagem a este professor de ginástica e ginasta olímpico, desde que o Edital municipal de 07/09/1987 o colocou como topónimo da Rua 5 do plano de Urbanização da Encosta das Olaias. Pelo mesmo Edital  acolheu Lisboa outro topónimo de um desportista: a Rua Joaquim Agostinho.

robalo gouveia

Manuel Correia Robalo Gouveia (02.06.1923-08.06.1986) , licenciado em Educação Física pelo Instituto Nacional de Educação Física, foi um ginasta olímpico e professor da disciplina de Educação Física, tendo sido docente em várias escolas e clubes da cidade de Lisboa, como o o Liceu Camões, o Liceu D. João de Castro, os Pupilos do Exército, o Lisboa Ginásio Clube, o Sporting Clube de Portugal, o Ateneu Comercial de Lisboa e o Triângulo Vermelho. Lutador incansável pela causa da Cultura Física e do Desporto, atingiu grande notoriedade como praticante de Ginástica Desportiva, sagrando-se campeão Nacional Absoluto durante vários anos, entre 1952 e 1956, e integrou a 1ª equipa nacional de ginástica aplicada que participou no Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia (Finlândia). Foi ainda praticante de Atletismo e Luta Greco-Romana.

O Professor Robalo Gouveia foi também treinador de vários clubes, selecionador nacional e selecionador da equipa olímpica para Tóquio em 1964, bem como dirigente desportivo quer a nível nacional, na Federação Portuguesa de Ginástica e Comité Olímpico Português, quer internacional, na União Europeia de Ginástica.

Foi agraciado em vida com a Medalha de Bons Serviços Desportivos (1981) e a medalha de prata de Serviços Distintos (1986), e postumamente, a medalha de Mérito Desportivo (1986) e o Colar da Medalha de Valor, Mérito e Bons Serviços da Federação Portuguesa de Ginástica.

Rua Robalo Gouveia placa IV

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Mestre de Armas António Martins

Freguesias da Penha de França e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias da Penha de França e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A Câmara Municipal de Lisboa, através do seu edital de 14/03/1932, prestou homenagem ao Mestre de Armas António Martins atribuindo o seu nome ao arruamento que liga a Avenida General Roçadas com a Rua da Penha de França, com a legenda «Professor de Esgrima/1875-1931», tornando-o assim o 4º desportista a integrar a toponímia de Lisboa, depois de Francisco Lázaro, Luís Monteiro e o Dr. António Martins.

Os Sports Ilustrados, 11.02.1911

Os Sports Ilustrados, 11.02.1911

António Domingos Pinto Martins (Torres Vedras/1857 – 08.10.1931/Lisboa) , considerado o percursor da esgrima em Portugal, começou muito novo a prática das armas no Regimento de Cavalaria 4, recebendo as primeiras lições com David Augusto dos Santos e António Baldaque da Silva. Ensinou depois no Real Ginásio Clube Português, primeiro auxiliando o mestre francês Petit e mais tarde, em 1885, substituindo-o por motivo do seu regresso a França.  Foi mestre de armas do rei D. Carlos I e dos seus filhos. Foi ainda professor na Escola Naval, na Escola Prática de Infantaria e na Escola do Exército. Em 1897 António Martins também fundou  em Lisboa a Escola Nacional de Esgrima, instituição praticamente oficial, tutelada pelos Ministérios da Guerra e da Marinha, a funcionar no salão nobre do Teatro de São Carlos, e que mais tarde se transformou no Centro Nacional de Esgrima.

O Mestre António Martins também publicou o Manual de Esgrima (1895), com desenhos de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro. Este esgrimista foi condecorado com a comenda da Legião de Honra francesa e a Ordem Militar de Cristo portuguesa, para além da revista Tiro e Sport ter instituído em 1905 a Taça António Martins, para ser disputada entre salas de esgrima.

Freguesias da Penha de França e de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Penha de França e de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Francisco Stromp à volta do Estádio de Alvalade

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Francisco Stromp, sportinguista de coração, tanto enquanto futebolista como enquanto dirigente do Clube, tem o seu nome inscrito na toponímia de Lisboa,  no arruamento circundante do Estádio do Sporting Clube de Portugal, desde a publicação do Edital municipal de 26/03/1971.

Os Sports Ilustrados, 20.08.1910

Os Sports Ilustrados, 20.08.1910

Francisco Stromp (Lisboa/21.05.1891 – 01.07.1930/Lisboa) , nascido alfacinha no Largo do Intendente, foi um dos fundadores do Sporting Clube de Portugal em 1 de julho de 1906, após uma cisão no Campo Grande Football Clube que ele fundara com os seus irmãos António e José.

Não sendo um atleta ecléctico como o seu irmão António Stromp ainda assim foi campeão nacional de disco, bem como na estafeta dos 3x100m, e praticou ténis, críquete e râguebi. No futebol, integrou a equipa principal de 1908 a 1924 e foi mesmo capitão da selecção de Lisboa nos anos de 1916, 1917, 1920,1921 e 1922. Somou 107 jogos de 1ª. categoria, ocupando os lugares de médio-direito e de avançado-centro e conseguiu ser Campeão de Portugal em Futebol em 1922/1923. Com o seu irmão António também participou na Seleção Nacional que jogou no Brasil, em 1913. Desempenhou ainda as funções de treinador ou de «capitão-geral do futebol» como então se dizia, orientando a equipa e tomando as decisões necessárias dentro do campo, podendo por isso ser considerado o primeiro treinador campeão do Sporting Clube de Portugal, enquanto responsável pela vitória no Campeonato de Lisboa de 1914/15.

Como dirigente, Francisco Stromp esteve por dez vezes na direção do Sporting, como membro da Mesa da Assembleia Geral, Vogal e Vice-Presidente (1925/26).

A camisola sportinguista de duas metades verticais, verde e branca, uma das primeiras usadas pelo clube é conhecida como Stromp e ainda hoje é um dos equipamentos alternativos. O seu nome também inspirou o Grupo Stromp, criado em 1962, e que atribui o maior  galardão do Clube, com o mesmo nome, e um busto seu, em bronze, na frente do Estádio de Alvalade evoca-o como «Fundador e sócio perpétuo» já que o nº 3 (que possuía à data do seu falecimento, com 38 anos) ficou de forma perpétua o seu número de sócio. Foi ainda galardoado em 1990 com a Medalha de Mérito Desportivo nacional.

Refira-se ainda que em simultâneo com a prática desportiva e associativa, Francisco Stromp era desde 1919 funcionário do Banco Nacional Ultramarino, como era apanágio dos desportistas na época para assegurarem a sua subsistência. E escolheu falecer no dia do 24º aniversário do Sporting Clube de Portugal.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Capelo nascida com a Rua Ivens

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Rua da Parreirinha, que também foi  Travessa da Parreirinha, passou a Rua Capelo pelo Edital municipal de 7 de setembro de 1885, em conformidade com as resoluções da Câmara de 3 do mesmo mês que incluíam também um programa para festejar a chegada a Lisboa dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens que ocorreria daí a dias, a 16 de setembro, em que após o desembarque no Arsenal da Marinha, seriam iluminados os edifícios municipais e teriam Capelo e Ivens uma recepção no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa.

Refira-se que o mesmo edital municipal atribuiu também a Rua Ivens, a Rua Anchieta e a Rua Serpa Pinto, somando assim 4 topónimos referentes a exploradores dos territórios africanos.

Hermenegildo Carlos de Brito Capelo (Palmela/04.02.1841 – 04.05.1917/Lisboa), oficial da Marinha Portuguesa, notabilizou-se pelas suas explorações em África no último quartel do séc. XIX, tendo logo em 1871 sido enviado numa expedição à Guiné, e com Serpa Pinto e Roberto Ivens explorou em 1877 os territórios entre Angola e Moçambique e as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze, tendo o êxito desta expedição dado o encargo de uma segunda viagem para encontrar uma via de comunicação entre Angola e Moçambique. Destas iniciativas ficaram dois relatos, da autoria de Capelo e Ivens, publicados como De Angola à Contracosta (da travessia entre Angola a costa do Índico) e De Benguela às Terras de Iaca. Após 1885 Capelo foi também vice-presidente do Instituto Ultramarino, ministro plenipotenciário junto do Sultão de Zanzibar e delegado do governo num congresso de Bruxelas, presidente da Comissão Cartográfica e organizador de uma Carta Geográfica de Angola.

A Rua Capelo foi durante muitos anos a morada do Governo Civil de Lisboa, no que em tempos fora um edifício do Convento de São Francisco.

PLaca Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior

Freguesia de Santa Maria Maior

A Rua do Joaquim que era Paiva de Andrada

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Placa Tipo II – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A Rua Paiva de Andrada, tal como a paralela Rua António Maria Cardoso, foram ambas atribuídas junto com a Rua Vítor Cordon, pouco menos de um mês após o Ultimato Inglês, pelo Edital de 06/02/1890 que realça que «importa perpetuar na memória dos povos e através das gerações os nomes dos que lidam com abnegação e valor pela grandeza da pátria, e renovam hoje em terras de África o brilho das nossas melhores tradições».

De acordo com Luís Pastor Macedo, esta artéria  « Existia já, com o nome de rua do Outeiro, no terceiro quartel do século XV (…) A elevação do terreno que originou o nome da serventia podia ser a que, muito mais tarde, impôs a colocação de um lanço de escadas para comunicar, nos nossos dias, a rua Paiva de Andrada com o largo do Directório [ hoje, Largo de São Carlos] .»

O alfacinha Joaquim Carlos Paiva de Andrada (Lisboa/29.11.1846 – 22.04.1928/Paris) foi um militar que de acordo com o Edital de 1890 «tem empenhado esforços enérgicos para explorar as regiões entre o Limpopo e o Zambeze, e reforçar com a ocupação efectiva os nossos antigos direitos históricos à posse das mesma regiões» precisando mesmo que «aquele brioso oficial repetidas vezes as percorreu, contribuindo para debelar o poderio e aprisionar a pessoa do rebelde Bonga e para assegurar a lealdade à corôa de Portugal do poderoso régulo Gungunhana [Ngungunyane]».

Pastor de Macedo acrescenta ainda que Paiva de Andrada chegou ao  posto de general de divisão, foi  governador de Tete e Quelimane, percorrendo a Zambézia e promovendo a constituição das companhias concessionárias que antecederam a de Moçambique. 

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior 
(Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Da rua do Picadeiro ao Tesouro e até António Maria Cardoso

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Esta artéria teve várias designações todas ligadas ao Paço dos Bragança antes de ser a Rua António Maria Cardoso em 1890.

Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 foi esta a «rua do Postigo do Duque», por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina,  a «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças  e a «rua do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho» ou «rua Velha do Tesouro», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje encontramos,  o Edital municipal de 06/02/1890 a crismou como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade três conceituados exploradores da África Portuguesa de então, ou seja, cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato inglês que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

A Ilustração Portuguesa, 21.04.1889

A Ilustração Portuguesa, 21.04.1889

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressou na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa.

António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, foi eleito deputado e recebeu as comendas das ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz e ainda a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Luís Pastor de Macedo recorda ainda que se ergueram 3 casas de espectáculo nesta artéria: o teatro D. Amélia (em 1893  e hoje denominado São Luiz) , o animatógrafo Chiado Terrasse (1905) e o Retiro da Severa (1936). Nesta arruamento existiu também até ao 25 de Abril de 1974 a sede da PIDE/DGS, um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do militar e matemático Filipe Folque

 

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Vinte anos após o seu falecimento, o militar e matemático Filipe Folque que foi o responsável por um levantamento cartográfico da cidade de Lisboa na 2ª metade do séc. XIX, deu o seu nome a uma artéria das Avenidas Novas, entre a Rua de São Sebastião de Pedreira e a Avenida Duque d’Ávila, por via do Edital municipal de 29/11/1902.

O mesmo Edital colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão, Pinheiro Chagas e o médico Pedro Nunes.

Filipe FolqueFilipe de Sousa Folque (Portalegre/28.11.1800 – 27.12.1874/Lisboa), filho do General Pedro Folque, foi um militar de carreira doutorado em Matemática desde 1826 pela Universidade de Coimbra, que como docente começou na Universidade de Coimbra (1834) e depois, seguiu como lente na Academia de Marinha (1836) onde criou o curso de engenheiro hidrógrafo, como lente de Astronomia e Geodesia na Escola Politécnica de Lisboa (desde 1840) e como professor de matemática dos filhos da rainha D. Maria II.

Notabilizou-se sobretudo por entre 1844 e 1870 ter sido o Diretor-geral dos Trabalhos Geodésicos do Reino, apoiado pelo Ministro da Obras Públicas Fontes Pereira de Melo, e nessa qualidade ter dirigido, entre 1856 e 1859, um levantamento topográfico de Lisboa (a Carta topographica da cidade de Lisboa, publicada em 1878) determinado pela Portaria de 02/11/1853, no âmbito da qual colocou chapas de ferro fundido, a um altura de 3 metros, com a cota de nível dos arruamentos. Filipe Folque já havia elaborado a Carta Geral do Reino ou Carta Corográfica de Portugal (1843) e a Carta do Plano Hidrográfico da barra do Porto de Lisboa,  para além de ter dado a lume diversos estudos como, por exemplo, Memória dos Trabalhos Geodésicos executados em Portugal (1841), Tábuas para o Cálculo das Distâncias à Meridiana (1855), Dicionário do Serviço dos trabalhos geodésicos e topográficos do Reino; ou Rapport sur les travaux géodésiques du Portugal et sur l’état actuel de ces mêmes travaux pour être présenté à la Comission Permanente de la Confèrence Internationale (1868).

Refira-se ainda que Filipe Folque desempenhou as funções de diretor das obras do Mondego (1826) e de ajudante do Observatório da Universidade de Coimbra (1827).  Colaborador assíduo da Revista Militar e da Revista universal lisbonense também  foi feito sócio efetivo da Academia Real das Ciências de Lisboa desde 1834 e aí veio mesmo a ser Diretor de classe (1850), para além de ter colaborado com Almeida Garrett na fundação do Conservatório Nacional, dados os seus grandes conhecimentos musicais, chegando mesmo a Diretor da Secção de Música, e publicando na Revista do Conservatório Real de Lisboa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do professor da Escola Naval Carlos Testa

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

O 1º professor de Direito Internacional Marítimo na Escola Naval, Carlos Testa, desde a publicação do Edital municipal de 08/06/1903 que dá nome a uma artéria alfacinha situada entre a Avenida António Augusto de Aguiar e o Largo de São Sebastião da Pedreira.

Carlos André Testa (Lisboa/14.09.1823 – 20.02.1891/Lisboa), filho do genovês José Testa e da piemontesa Natalina Guidoti, seguiu a carreira de oficial da marinha chegando até ao posto de contra-almirante (em 1890), tendo sido encarregue na 2ª metade do século XIX da renovação da frota portuguesa. Em paralelo, tornou-se também especialista em questões de Direito Internacional Marítimo e nessa qualidade foi membro de júri para a escolha de cônsules, para além de ser o 1º professor desta cadeira na Escola Naval, nomeado em 1864 e em definitivo em 1866, tendo sido jubilado em 1884. Publicou ainda vários trabalhos dos quais se destacam Princípios Gerais e Regras Práticas de Direito Internacional Marítimo (1882), Portugal e Marrocos Perante a História e a Política Europeia (1888), Questão de preferência na aquisição de navios de guerra (1890) e Incidentes da política externa de Portugal, ou títulos de recomendação na escolha das suas alianças (1890).

Enquanto deputado do Partido Regenerador Carlos Testa foi eleito pelos círculos de Alenquer (1868-1869) e de Seia (1875-1878), tal como em 1887 foi eleito par do reino por Beja, altura em que apresentou um projeto de lei para proibir as touradas (no prazo de dois anos) e a construção de novas praças de touros ou a reconstrução das existentes.

Como nota final, recorde-se que Carlos Testa assentou praça aos 15 anos, em 12 de agosto de 1838,  e no ano seguinte, em 8 de 0utubro casou-se com Josefina Constância Bobone.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)