A Avenida Torre de Belém do Cinema Restelo

Freguesia de Belém (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Foto: Sérgio Dias)

Desde 1945 que a Avenida Torre de Belém é a  via da capital que segue a direito para o Baluarte de São Vicente – estrutura mais conhecida como Torre de Belém- , e na qual, na década seguinte, se ergueu o Cinema Restelo.

Belém acolheu em 1940 a Exposição do Mundo Português e nessa mesma década os arruamentos da Baixa lisboeta receberam um novo tipo de placa toponímica – a Tipo III – mais trabalhada e luxuosa, para Lisboa exibir dois postais de modernidade. A edilidade também denominou a Avenida CD da Encosta da Ajuda, pelo Edital de 7 de agosto de 1945, como Avenida Torre de Belém que ficou contida, quase três anos depois, pelo Edital de 29 de abril de 1948, entre a Avenida da Índia e a Avenida do Restelo.

Nos anos 50, procedeu-se a um aterro e terraplanagem da zona junto à Torre de Belém, para facilitar a estada e passeio junto a este monumento nacional desde 1907, icónico de uma época de grandeza e modernidade de Portugal. Em 1955 foi exposto no Pavilhão Municipal da Feira Popular o Plano de Urbanização da Encosta do Restelo. Mas já a partir do ano anterior, e durante 45 anos se exibia na Avenida Torre de Belém o Cinema Restelo, da Sociedade Cinema Restelo, Lda.,  para substituir o antigo cinema Belém-Jardim da Rua Bartolomeu Dias, através de um projeto de 1952 dos serviços técnicos da Câmara Municipal de Lisboa (da autoria de Carlos João Chambers Ramos e Carlos Manuel Ventura de Oliveira Ramos), colocando à disposição 1064 lugares, que mais tarde chegaram a ser cerca de 1400. Ainda hoje este Cinema Restelo tem um grupo que lhe é dedicado no Facebook.

 

Cinema Restelo na Avenida Torre de Belém em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira., Arquivo Municipal de Lisboa)

Cinema Restelo na Avenida Torre de Belém em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

A icónica Torre de Belém foi erguida num afloramento rochoso da  praia de Belém em 1520, cercada então pelas águas em todo o seu perímetro, denominada em honra do padroeiro da cidade de Lisboa Baluarte de São Vicente a par de Belém, mas também conhecida como Torre de São Vicente ou Baluarte do Restelo. Esta fortificação integrava o plano defensivo da barra do rio Tejo traçado por D. João II que incluía também o Baluarte de Cascais ou Torre de Santo António de Cascais (1488) e o Baluarte da Caparica ou Torre de São Sebastião da Caparica (1481).  A obra só começou em 1514, no reinado de D. Manuel, sendo arquiteto Francisco de Arruda e as obras prosseguiram a cabo de Diogo Boitaca, que dirigia em paralelo as da construção do Mosteiro dos Jerónimos.

Com a evolução dos meios de ataque e defesa, esta estrutura  militar foi gradualmente, perdendo a sua função original de defesa da barra do Tejo, tendo ao longo dos séculos sido utilizada como registo aduaneiro, posto de sinalização telegráfico e farol. Também os seus paióis serviram de masmorras para os presos políticos durante o reinado de Filipe I de Portugal e para o Arcebispo de Braga (1586-1641) por ter feito frente a D. João IV, defendendo Espanha.

A Torre de Belém,  considerada pela UNESCO Património Mundial desde 1983, foi também eleita uma das Sete Maravilhas de Portugal em 7 de julho de 2007.

Nesta artéria, para além do Cinema Restelo nasceu também em 1954 The AngloPortuguese Telephone e em 1965 A Familiar, Sociedade Cooperativa de Pão, Crédito e Consumo, para além de contar com inúmeras moradias  de que se destacam as do nº 26 e nº 30 do Arqº Raul Francisco Tojal; a do Engº António da Cunha Coutinho no nº 10; a do nº 20 em 1943 e a do nº 15 em 1947, ambas do arqº Manuel Joaquim Norte Júnior; a do nº 32  do Arqº Vasco Regaleira que foi Prémio Municipal 1945; a do Arqº João Simões no nº 22 que foi Prémio Valmor 1947; a da autoria do Arqº Jorge Segurado de 1948 e  já demolida; a do nº 14 da autoria de Victor Palla e Bento d’Almeida, bem como a do nº 18 do Arqº Alberto José Pessoa, ambas em 1964; a do nº 9 do Arqº Rodrigues Fernandes e a nº 12  do Arqº Carlos Tojal, ambas de 1966.

Freguesia de Belém (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua António Maria Cardoso do Chiado Terrasse e do São Luiz Cine

O Chiado Terrasse na Rua António Maria Cardoso em 1911 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Chiado Terrasse na Rua António Maria Cardoso em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Chiado Terrasse e São Luiz Cine são os nomes dos dois cinemas que no séc. XX encheram de gente a Rua António Maria Cardoso, uma resposta toponímica ao Ultimato Inglês de 1890, tal como as vizinhas Rua Paiva de Andrada e Rua Vítor Cordon.

O Chiado Terrasse foi o primeiro cinema especialmente construído de raiz  para esse efeito em Lisboa, em 1908. Já o São Luiz Cine, nascido em 1928, tem uma história de vida mais atribulada. Ainda esta artéria se denominava Rua do Tesouro Velho e o espaço nasceu em 1893 como Teatro Dona Amélia, que a partir do ano seguinte passou também a a dispor do Cinematographo. Com a implantação da República foi rebatizado como Teatro da República e em 1928 foi adaptado para cinema, com a designação de São Luiz Cine e, assim reabriu com  Metropolis, de Fritz Lang, como primeiro filme em cartaz.

A Rua António Maria Cardoso, antes de ser designada como tal em 1890, passou por diversas denominações, todas ligadas ao Paço dos Bragança. Antes do Terramoto de 1 de novembro de 1755 era esta a «rua do Postigo do Duque» por ter a porta do Duque de Bragança aberta na muralha fernandina, e depois foi ganhando novas denominações como  «rua do picadeiro» por via da proximidade ao picadeiro do Paço dos Braganças , «rua do Tesouro» ou «rua Velha do Tesouro» ou «rua do Tesouro Velho», por mor do tesouro da Casa de Bragança arrecadado no mesmo palácio até que, quase no final do século XIX, quando era mais conhecida por Rua do Tesouro Velho e já depois da urbanização deste arruamento nos moldes que hoje ainda encontramos,  o Edital municipal de 6 de fevereiro de 1890 crismou-a como Rua António Maria Cardoso, ao mesmo tempo que também atribuía a Rua Paiva de Andrada e a Rua Vítor Cordon, homenageando assim a edilidade, ainda em vida, três conceituados exploradores da África Portuguesa de então,  cerca de um mês  depois da entrega em 11 de janeiro de 1890 do Ultimato britânico que exigia a Portugal a retirada das forças militares chefiadas por Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola.

António Maria Cardoso, «Ilustração Portuguesa», 21 de abril de1889

António Maria Cardoso, Ilustração Portuguesa, 21 de abril de 1889

António Maria Cardoso (Lisboa/05.05.1849- 17.11.1900/Lisboa)  ingressou na Armada em 1862, atingindo o posto de capitão-de-fragata em 1895 e no decorrer dessa carreira militar desempenhou o cargo de governador dos distritos de Inhambane e de Quelimane, em Moçambique. Em 1882 explorou as terras de Mussila com João de Azevedo Coutinho, e em 1888, com Vítor Cordon, participou na expedição do Niassa, durante a qual catorze régulos prestaram vassalagem à soberania portuguesa. António Maria Cardoso regressou a Lisboa em 1890, ano do Ultimato Inglês, e foi eleito deputado para além de ter sido agraciado com as comendas das ordens de Torre e Espada, de Nª Sª da Conceição, de Cristo e de S. Bento de Aviz, e ainda com a medalha de ouro de serviços prestados no Ultramar.

Nesta arruamento existiu também até ao 25 de Abril de 1974 a sede da PIDE/DGS, um edifício de cinco andares arrendado à Casa de Bragança, e que por isso foi palco das únicas 5 mortes ocorridas no 25 de Abril. Após essa data instalou a sua sede nesta rua a Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA) que então propôs à edilidade a alteração do topónimo para Rua da Leva da Morte, alteração não concretizada de acordo com as normas seguidas de não alterar toponímia já consolidada na cidade, a não ser em caso de «Necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime», como sucedeu com a Avenida 28 de Maio que passou a ser a Avenida das Forças Armadas, por Edital municipal de 30 de dezembro de 1974.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua da Palma que floriu na sepultura do cruzado Henrique e os seus Real Coliseu e Rex

Real Coliseu de Lisboa na Rua da Palma nos primeiros anos do séc. XX (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Real Coliseu de Lisboa na Rua da Palma nos primeiros anos do séc. XX
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Palma, formalizada pelo Edital municipal 08/06/1889 sobre a Rua Nova da Palma, nasceu há muitos séculos como arruamento dos comerciantes alemães que veiculavam a lenda da palma que florira na sepultura do cruzado Henrique, que em 1147 perecera na Tomada de Lisboa, e alojou no século XIX o Real Coliseu de Lisboa e no séc. XX o Cinema Rex.

O Real Coliseu de Lisboa foi o espaço onde se estreou em 1896 o cinema em Portugal, já que a 18 de junho foi nele exibido o animatógrafo. Contudo, nos anos 30 do séc. XX tomou o seu lugar a garagem Auto-Lys. Mas a Rua da Palma continuou a ser morada de cinema, desta feita o Rex, de 1929 a 1967, transformando-se depois no  Teatro Laura Alves.

O Cinema Rex na Rua da Palna, em 1960 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Rex na Rua da Palma, em 1960
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

O olisipógrafo Norberto Araújo escreveu na década de 40 do século XX que «Esta Rua, desafogada, hoje constituindo uma única artéria, das trazeiras de S. Domingos ao Intendente, divide-se em dois troços. O primeiro chega só à Guia e é muito antigo, havendo sido nos séculos velhos arruamento dos comerciantes alemães que cultivavam religiosamente a lenda da palma que florira na sepultura do cavaleiro cruzado Henrique, sacrificado na Tomada de Lisboa, em 1147; foi rua sempre estreita, muito mais do que hoje é, bastante mercantil, caracterizada pelos negócios de ourives e prateiros.(…) O segundo trôço, ‘Rua Nova da Palma’, data de 1862, e chegava até aqui ao Socorro, começando gradualmente a prolongar-se até ao Intendente; a Câmara começara a comprar terrenos de hortas e campos, que por aqui existiam, desde o ano de 1776.»

O também olisipógrafo Luís Pastor de Macedo esclarece ainda que esta artéria, «(…) é antiquíssima, pelo menos do século XVI. Deve-se porém observar, que ela não tinha então o comprimento que hoje lhe conhecemos, mas só aquele que vai das trazeiras da Igreja de S. Domingos até ao antigo largo de S. Vicente, à Guia (rua Martim Moniz).(…) desde então, por força do decreto de 9 de Maio de 1776 que determinou a expropriação de 16 propriedades do lado norte da rua, ela ficou com a largura que hoje, envergonhada, nos oferece ainda» e acrescenta que parte da Rua Palma que hoje conhecemos também foi Rua da Imprensa:  «(…) Mas a cidade continuava a alargar-se e os seus bairros excêntricos a povoarem-se.(…) e assim, a Câmara não teve mais que fazer se não mandar elaborar a planta do prolongamento da rua da Palma até ao Intendente. Foi isto em 1857 ou princípios de 1858.(…) o projecto do prolongamento estava concluído em Setembro de 1858 e foi aprovado na sessão camarária efectuada no dia 30 daquele mês, mas , na verdade, esse projecto foi aprovado não como o do prolongamento da antiga rua da Palma, mas sim como o de uma artéria independente e que portanto necessitava de ter um nome. E o nome deu-se-lhe: rua da Imprensa. Passaram-se meses. O governador civil, que andava cogitando em acabar com o transtorno que provinha de haver nomes iguais em várias ruas, e em suprimir os nomes de algumas que pareciam ser prolongamento de outras, um dia encheu-se de coragem e deitou cá para fora um edital onde os topónimos citadinos pareciam que dançavam uma quadrilha interminável. Uns iam para a direita, outros para a esquerda; uns avançavam, outros recuavam; muitos desapareciam na grande confusão. Um deste foi o da jovem rua da Imprensa, que viu o seu território ficar sob a denominação de rua Nova da Palma.»

Freguesia de Santa Maria Maior e de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior e de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

Publicação municipal da toponímia sobre o Almirante Pinheiro de Azevedo

A publicação municipal de toponímia referente ao Almirante Pinheiro de Azevedo, distribuída a partir deste momento, no decorrer da inauguração da Rotunda Almirante Pinheiro de Azevedo, já está on-line.

É só carregar na capa abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

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Inauguração da Rotunda Almirante Pinheiro de Azevedo

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O Almirante Pinheiro de Azevedo dá o seu a uma Rotunda da freguesia de Santa Clara, que será inaugurada amanhã, dia 16 de setembro, às 11:00 horas, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, a Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, bem como elementos da Armada proponentes do topónimo e também familiares.

Na ocasião do descerramento da placa, tocará a Banda da Armada Portuguesa.

A Rua do irmão de Florbela, o Tenente Espanca, no Bairro de Londres

A capa de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A 1ª página de O Domingo Ilustrado de 12 de junho de 1927

A Rua Tenente Espanca  no Bairro de Londres homenageia o irmão da poetisa Florbela Espanca, Apeles Espanca, que foi consagrado nas placas toponímicas de Lisboa no próprio ano da sua trágica morte a pilotar um avião que se despenhou no Tejo, afundando-se.

Apeles Espanca faleceu no dia 6 de junho de 1927 e 24 dias após a sua morte, em 30 de junho de 1927 a edilidade lisboeta deliberou atribuir o seu nome à Rua C do Bairro de Londres e assim foi fixado pelo Edital municipal de 7 de julho de 1927. A artéria escolhida atravessa a Avenida Santos Dumont, um pioneiro da aviação de nacionalidade brasileira que foi perpetuado em Lisboa ainda em vida, pelo Edital de 2 de abril de 1923. A artéria paralela à Rua Tenente Espanca, a Rua B do Bairro de Londres, veio a consagrar o 1º aviador civil português, 17 anos após a morte deste por despenhamento no Tejo, como  Rua Dom Luís de Noronha, pelo Edital de 1 de dezembro de 1930.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Apeles Demóstenes da Rocha Espanca (Vila Viçosa/10.03.1897 – 06.06.1927/Lisboa) frequentou o Liceu Nacional André Gouveia em Évora, onde no 1º centenário da Escola, em 1941, expuseram a sua pintura modernista. Fez os preparatórios para a Escola Naval em Coimbra e terminou o Curso da Escola Naval sendo então graduado Aspirante de Marinha em 19 de agosto de 1917. Alcançou o posto de 1º Tenente em 1926, ano em que navegou entre Portugal e o Brasil, bem como para o então Congo Belga (hoje, República Democrática do Congo). Em 1927 passou a frequentar o 2º curso de pilotagem do Centro de Aviação Naval de Lisboa com os Tenentes Aires de Sousa, Armando de Roboredo, Cardoso de Oliveira, Ferreira da Silva, Namorado Júnior e Paulo Viana.

Apeles Espanca foi também um pintor modernista, de óleos e aguarelas, cuja obra chegou a ser em parte publicada na revista Ilustração Portuguesa.

Morreu aos 30 anos, em 1927, quando  num num voo de treino para tirar o brevet de piloto-aviador, a bordo do hidroavião Hanriot 33, se despenhou no rio Tejo, afundando-se entre Porto Brandão e a Trafaria e sem nunca ter sido encontrado o seu corpo.

Florbela Espanca (também consagrada numa artéria lisboeta pelo Edital 19/07/1948) dedicou-lhe o livro Máscaras do Destino, que abre com o conto «O Aviador», escrito em fins de 1927 e publicado postumamente em 1931, bem como o soneto «In Memorian» , inserido em Charneca em Flor, também publicado em 1931:

In memoriam

Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, “Il Poverello”
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! — E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!

“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…”
Ah, Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
Eu fui na vida a irmã dum só Irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais!

 

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Tomás Cabreira

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Cabreira que foi vereador na 1ª gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa e  ministro das Finanças em 1914 ficou perpetuado no Bairro da Bélgica, pelo Edital municipal de 30 de junho de 1926, com a legenda «Engenheiro Distinto e Republicano Indefectível».

Foi por esse Edital municipal que nasceu há 90 anos o Bairro da Bélgica, hoje mais conhecido como Rego ou Bairro de Santos. Coube a Tomás Cabreira a Rua B do Bairro da Bélgica, entre a Avenida Santos Dumont e a Rua Particular Neves Piedade que viria a ser a Rua Filipe da Mata no ano seguinte, pelo Edital de  6 de agosto de 1927, perpetuando outro vereador da primeira vereação republicana da CML. A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica havia sugerido à autarquia lisboeta, em 10 de maio de 1926,  que fossem atribuídos nos arruamentos do Bairro nomes alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do já sucedido no Bairro de Inglaterra em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 fixou o Cardeal Mercier na Rua E do Bairro do Bélgica ( o arcebispo e primaz da Bélgica que publicou em 1915 uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) e o general Leman na Rua D (militar que defendeu Liége contra o invasor alemão e acabou prisioneiro de guerra), e nas restantes artérias colocou ainda o Presidente da CML de 1923 a 1925 (Albano Augusto Portugal Durão) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, sendo que neste local da cidade estas duas últimas nunca passaram do papel.

Alma Nova, março de 1929

Alma Nova, março de 1929

Tomás António da Guarda Cabreira ( Tavira/23.01.1865 – 04.12.1918/Tavira) foi militar, engenheiro, professor e político. Como seu pai, ingressou no Exército, em 1881, e atingiu o posto de Coronel em 1918. Formou-se também em Engenharia Civil pela Escola do Exército, em 1893, e a partir daí passou a docente das disciplinas de Química Mineral e de Química Orgânica na Escola Politécnica, tendo até publicado Princípios de Estereoquímica (1896) e feito doutoramento em 1916. Foi ainda vogal da Comissão de Explosivos e vogal da Academia de Ciências de Lisboa, tendo ainda, em 1907, fundado a Universidade Popular de Lisboa.

Enquanto político, Tomás Cabreira, republicano e maçónico, fundou o Grupo Republicano de Estudos Sociais,  deputado pelo Algarve na Assembleia Nacional Constituinte (1911), senador da República (1912) e ministro das Finanças (1914), época em que deu a lume A Contribuição Predial e O Problema Financeiro e a sua Solução (ambos em 1912). Destaque-se que foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa de 1909 a 1912, na Presidência de Anselmo Braamcamp Freire, tendo como colegas vereadores outros nomes presentes na toponímia de Lisboa como Augusto José Vieira, Barros Queirós, Francisco Grandela ou Miguel Ventura Terra.

Depois de 1914 abandonou a carreira política e o Partido Democrático, de que era dirigente, e fundou a União da Agricultura, Comércio e Indústria, onde exerceu os cargos de vice-presidente e de presidente e ainda editou Posto Agrário e Ensino Móvel (1915), Crédito Comercial e Industrial (1915), O Problema Tributário Português (1916-1917), A Defesa Económica Portuguesa (1917), O Algarve Económico (1918) e postumamente, A Política Agrícola Nacional (1920).

Esteve também ligado ao jornalismo por diversos cargos na Associação dos Jornalistas de Lisboa e na Associação da Imprensa Portuguesa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Presidente da CML, Portugal Durão, no Bairro da Bélgica

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Albano Augusto Portugal Durão,  o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1923 a 1925, passou a ser o topónimo das Ruas C e G do Bairro da Bélgica, com a legenda «Insigne Colonial/1871 – 1925», desde a publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica sugeriu à autarquia lisboeta em 10 de maio de 1926  que fossem atribuídos nos arruamentos do seu Bairro topónimos alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do sucedido dez anos antes no Bairro de Inglaterra, em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 aí fixou os belgas Cardeal Mercier (arcebispo primaz da Bélgica que em 1915 publicou uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) – na Rua E do Bairro do Bélgica –  e General Leman (heróico defensor de Liège) – na Rua D – , colocando nas restantes artérias Tomás Cabreira (republicano que foi ministro das Finanças em 1914), o então último Presidente da CML  (Albano Augusto Portugal Durão que presidiu à edilidade de 1923 a 1925) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, que neste local nunca passaram do papel.

Cerca de 6 anos mais tarde, pelo Edital camarário de 12/03/1932, foi dado à Rua A o nome Rua Dr. Álvaro de Castro, em homenagem àquele que comandara o Corpo Expedicionário Português a partir de 1916 e se demitira aquando da vitória de Sidónio Pais.

Rua Portugal Durão Albano

Albano Augusto Portugal Durão (Sertã/22.03.1871 – 13.11.1925/Lisboa) assentou praça na Marinha  em 1887 e em 1918, já era capitão-tenente. No decurso da sua vida militar, participou em campanhas em terras de África, como  o reconhecimento dos territórios de Milange, Namulia e Lomue, bem como desempenhou cargos civis de relevo, como o de administrador dos Transportes Marítimos do Estado e da Companhia da Zambézia, para além de diretor de Minas em Tete (Moçambique), e ainda, como membro do Conselho Fiscal do Banco Industrial Português.

Republicano membro do Partido Democrático, iniciou-se na política como ministro da Agricultura de Bernardino Machado, em 1921, sendo exonerado a seu pedido em 19 de maio. No ano seguinte foi eleito deputado por Lisboa, funções que exerceu até 1925, e sendo também Ministro de António Maria da Silva nos seus 2º e 3º governos, na pasta das Finanças ( de 6 de fevereiro a 26 de agosto de 1922, por ter pedido a demissão ) e depois, na dos Negócios Estrangeiros, entre 1 de julho e 1 de agosto de 1925. Portugal Durão foi também Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no período de 5 de abril de 1923 até à sua morte em 13 de novembro de 1925.

Ainda no âmbito da participação de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal Durão foi vogal da Comissão Executiva da Conferência da Paz e foi agraciado com a comenda da ordem Militar de Avis (1919).

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do republicano Elias Garcia

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República cerca de 1906 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República 
(Foto: Alberto Carlos Lima, cerca de 1906, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra traçou em 1902 três prédios de rendimento para o republicano Joaquim dos Santos Lima,  na esquina da Avenida José Luciano nº 62 (a partir de 5 de novembro de 1910 passou a ser a Avenida Elias Garcia ) com a Avenida Ressano Garcia nº 46 (Avenida da República também desde 05/11/1910).

O republicano José Elias Garcia que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1878 passou a dar nome à Avenida José Luciano pelo Edital municipal de 5 de novembro de 1910, o primeiro de toponímia após a proclamação da República, que incluiu mais 9 topónimos destacando-se os que homenagearam a implantação da República – Avenida da República e Avenida Cinco de Outubro– e figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

Elias_Garcia José

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa) foi um político republicano que foi deputado, vereador da edilidade alfacinha com o pelouro de instrução pública (entre 1872 e 1890) em que estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, do desenho de ornato,do canto coral das escolas e as bibliotecas populares, bem como foi até o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia foi ainda professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), bem como jornalista, tendo fundado diversos jornais republicanos como O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862), e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Também colaborou na revista de pedagogia Froebel, dirigida por Feio Terenas.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Desde 1853 Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-94 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Viriato da Maternidade de Ventura Terra

Duas obras de Ventura Terra: a Maternidade Alfredo da Costa (à esquerda) e o Hotel Aviz (à direita) em 1959 (Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Maternidade Alfredo da Costa (à esquerda) , uma obra de Ventura Terra
(Foto: Fernando Manuel de Jesus Matias, 1959, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Viriato é a morada da Maternidade Alfredo da Costa, traçada por Ventura Terra em 1908, e o topónimo uma homenagem a um «Herói Lusitano/Faleceu no ano 140, antes da nossa era», em resultado do Edital municipal de 7 de agosto de 1911 da vereação republicana.

A Rua do Viriato foi atribuída à antiga Rua Barros Gomes – um ministro da monarquia constitucional e diretor do Banco de Portugal que introduziu o imposto de selo -, seguindo a norma da toponímia da I República de substituir os nomes de figuras ligadas à monarquia por outras personalidades republicanas ou figuras heróicas e históricas. E assim a toponímia da capital passou a guardar memória do Chefe militar lusitano do século II a. C. que sucessivas vezes derrotou o exército romano invasor, até morrer assassinado por traidores, que se venderam a troco de uma recompensa.

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

A iniciativa da construção da maternidade vem de 1908, ano em que Miguel Ventura Terra pensou para Lisboa a primeira maternidade concebida e construída de raiz. Mas só em 1914 começou a ser construída e apenas em 31 de maio de 1932 foi inaugurada com o nome do médico obstetra Alfredo da Costa que tinha esta obra como sonho de vida e pela qual lutara, para em 5 de dezembro finalmente abrir ao público. Foi seu fundador e primeiro diretor o Professor Augusto Monjardino que desde 2011 dá nome ao jardim fronteiro a esta maternidade.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)