A Travessa do Sargento Abílio e do 31 de Janeiro

Placa Tipo II (Foto: José Carlos Batista)

Placa Tipo II
(Foto: José Carlos Batista)

Desde a publicação do  Edital de 18/06/1926 que a antiga Travessa do Calhariz  (de Benfica), passou a homenagear o Sargento Abílio, um dos intervenientes no 31 de Janeiro de 1891, no Porto.

Por esse mesmo edital de 1926 foram atribuídos mais 8 topónimos nesta zona do Calhariz de Benfica, a saber, a Travessa Abade Pais e a Travessa Miguel Verdial – ambos protagonistas da revolução republicana do 31 de Janeiro -, o Largo do General Sousa Brandão –  herói das Campanhas da Liberdade e republicano-, o compositor Marques Lésbio, o pintor Francisco Rezende e José Agostinho de Macedo em Travessas, e ainda, os escritores Pato Moniz (num Beco) e Curvo Semedo (num Largo). As denominações anteriores que foram modificadas por este Edital não eram até então oficiais.

O Sargento Abílio era de seu nome completo Abílio Francisco de Jesus Meireles (Freixo de Espada à Cinta/ 24.12.1860 – 25.07.1923/Lisboa) e estudou em Cernache do Bonjardim, onde foi condiscípulo do depois, Bispo do Porto, D. António Barroso, com quem manteve sempre as melhores relações. Por ocasião da Revolução de 31 de Janeiro de 1891, era 1º Sargento do Regimento de Caçadores nº 9, e no Porto, na Rua de Santo António, bateu-se até ao último cartucho contra as forças fiéis da Guarda Municipal. Acusado como instigador ou cabeça, segundo a nota de culpa do Promotor de Justiça Militar, foi submetido a julgamento no Tribunal de Leixões que o condenou a 9 anos de degredo, em Angola. Em 1893 foi indultado, regressando ao Porto em Julho desse ano. Proclamada a República, foi reintegrado no posto de Tenente e promovido, mais tarde, a Capitão para a Arma de Infantaria, por deliberação da Assembleia Nacional Constituinte, reformando-se, algum tempo depois. Guerra Junqueiro dedicou-lhe o poema «Hino de Algum Dia», Sampaio Bruno referiu-o no seu manifesto dos emigrados e Mayer Garção dedicou-lhe um sentido artigo no jornal A Manhã.

Freguesia de Benfica (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

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A Travessa dos frades franceses de barba

(Foto de Alexandra Aníbal) Freguesia da Estrela

(Foto de Alexandra Aníbal)
Freguesia da Estrela

Esta Travessa que liga a Calçada do Marquês de Abrantes à Rua da Esperança ganhou o seu nome dos frades Barbadinhos Franceses que desde 1648 aqui se instalaram.

Os frades Capuchinhos franceses habitavam o Convento de Nª Senhora da Porciúncula, no sítio onde a Rua da Esperança faz esquina com a Travessa dos Barbadinhos, construído em terrenos cedidos pelos Duques de Aveiro, os grandes senhores do sítio. Foi D. João IV que lhes deu licença para se instalarem em Lisboa e eram chamados Barbadinhos porque todos usavam barba . Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834,  o antigo edifício conventual serviu para instalação de um dos Asilos da Infância Desvalida mas um incêndio em 27 de Outubro de 1837  reduziu tudo a cinzas.

[Agradecemos a  Alexandra Aníbal a gentil cedência da fotografia]

Campo de Bola à vista de el-rei dom João Segundo

campo da bola - placa

O Passeio do Campo da Bola, que vai do fim da Rua de Moscavide à Avenida D. João II, recebe o seu nome do facto de estar encostado a um recinto desportivo que é um campo de futebol relvado.

Com a realização da Expo 98, subordinada ao tema “Os oceanos: um património para o futuro”, foram nomeados os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e, ainda alguns ligados à botânica ou a referências do local como neste caso.

Com a reconversão da zona em Parque das Nações foram em Lisboa oficializados os 102 topónimos correspondentes aos limites do concelho , pelo Edital de 16/09/2009.

Freguesia do Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações

A Rua do Arquitecto italiano da Casa do Risco

Freguesia da Ajuda

Freguesia da Ajuda

Completa-se hoje o 279º aniversário de Giovanni Antinori, arquitecto italiano que após o Terramoto de 1755 trabalhou em Lisboa na Casa do Risco e, cuja edilidade da sua terra natal solicitou a Lisboa a sua inclusão na toponímia e, assim,  passou a dar nome à  Rua D à Rua do Cruzeiro através da publicação do Edital de 08/07/1986.

Giovanni Antinori (Camerino/28.01.1734 – 24.06.1792/Roma)  foi ajudante de Eugénio dos Santos na Casa do Risco pombalina, uma espécie de “departamento técnico da reconstrução”. Em 1755, o cardeal Conti, que havia sido eleito Núncio Apostólico em Portugal trouxe-o para Lisboa. Supõe-se ser da autoria de Antinori o projectado Palácio Real em Campolide, a edificar depois do terramoto. Durante a sua permanência em Lisboa, casou com uma dama portuguesa,  Luísa Josefa Lopez de Cunha, mas teve de fugir de Portugal já que foi preso por razões pouco claras, talvez de rivais invejosos ou por ter criticado Pombal e, voltou com a sua esposa para a Itália.

A partir de 1756, Antinori trabalhou na Toscana, na restauração da igreja da Abadia de Monte Oliveto Maggiore e, em Roma, nomeadamente nos obeliscos da Praça do Quirinal (1783), na Trinità dei Monti (1789) e na Câmara dos Deputados (1792).

Medalhão de Giovanni Antinori na sala da Câmara de

Medalhão de Giovanni Antinori na sala do Conselho Provincial de Macerata, pintado em 1883 por Domenico Bruschi

A Estrada do Desvio ao tráfego da Calçada de Carriche

Freguesias do Lumiar e de Santa Clara (Foto: José Carlos Batista)

Freguesias do Lumiar e de Santa Clara
(Foto: José Carlos Batista)

São quarenta as Estradas que integram a toponímia oficial de Lisboa e a Estrada do Desvio tem o seu nome por ser mesmo um desvio pelo Lumiar para fugir ao trânsito na Calçada de Carriche e permitir o descongestionamento desta. 

Grosso modo, esta Estrada corre paralela à Calçada de Carriche, que outrora foi a estrada de ligação, por onde passavam touros e campinos para as touradas no então Campo de Santana (hoje, Campo Mártires da Pátria). 

A Estrada do Desvio aparece referenciada em 1907 na planta topográfica de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, onde se mencionam os topónimos Posto de Carriche, Estrada Militar, Quinta de Nova Sintra, Calçada de Carriche, Estrada do Desvio, Calçada do Poço e Ameixoeira.

Poucas mais referências encontramos nos arquivos municipais, a não ser a pavimentação da via em 1937, fotos de Eduardo Portugal do ano de 1939 mostrando uma estrada ladeada de ambos os lados por campos e zonas agrícolas bem como uma imagem de Artur Goulart não datada mas com a significativa legenda “Estrada do Desvio do Lumiar para descongestionamento de trânsito na Calçada de Carriche”.

Em 1956, por edital de 28 de Dezembro, o troço da Estrada do Desvio compreendido entre a Rua do Lumiar e a Estrada que conduz à Ameixoeira, passou a denominar-se Rua Alexandre Ferreira, homenageando assim o fundador dos Inválidos do Comércio, instituição cuja sede se encontra nesse arruamento.

Placa Tipo IV (Foto: José Carlos Batista)

Placa Tipo IV
(Foto: José Carlos Batista)

Largo Mendonça e Costa

Freguesia da Penha de França

Freguesia da Penha de França

Nove anos após o seu falecimento, pelo Edital de 28/11/1932,  foi Mendonça e Costa, o fundador da Sociedade de Propaganda de Portugal, o nome dado   ao novo arruamento nascido entre a Rua Carvalho Araújo,a  Rua Actor Vale, a Travessa das Baldracas e a Rua Dr. Oliveira Ramos, com honras de cerimónia de inauguração no dia 1 de Março do ano seguinte.

Leonildo Augusto Mendonça e Costa (Lisboa/05.11.1849 – 20.03.1922/Lisboa) foi um jornalista e funcionário ferroviário que se destacou por ter fundado a Sociedade de Propaganda de Portugal. Aos 21 anos os seus pais morreram e começou a a trabalhar num escritório de agências hipotecárias, de onde transitou para redactor de  A Noite e, graças a António Augusto Teixeira de Vasconcelos que conheceu no jornal conseguiu um emprego na Companhia Real dos Caminhos de Ferros Portugueses, em 1872, como praticante de estação em Santa Apolónia, tendo chegado a chefe de Repartição.

Paralelamente, começou a trabalhar na administração do Jornal do Comércio e para vários jornais dos Açores, bem como para o Diário de Notícias e o Comércio do Porto. Depois, fundou e dirigiu a Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Hespanha (1888) , mais tarde apenas denominada Gazeta dos Caminhos de Ferro (1899). Também publicou o Almanaque da Senhora Angot, de 1876 a 1878. 

A sua vida profissional tornou-o um defensor do turismo como indústria e, em 1906 fundou a Sociedade de Propaganda de Portugal, através da qual realizou várias viagens pelo  mundo para reunir conhecimentos que pudessem ser utilizados por aquela entidade. Mendonça e Costa  era considerado um dos portugueses mais viajados do seu tempo, tanto mais que já em 1903 havia sido o 1º português a viajar no Caminho-de-Ferro Transiberiano e, em 1907, deslocou-se até ao Pólo Norte.

Mendonça e Costa escreveu Guia Oficial dos Caminhos de Ferro e Manual do Viajante em Portugal, para além das comédias  Uma Mulher Homem, Safa, Que Susto!, O Homem da Bomba, Os Escravos do Trabalho e  O Segredo do Médico, algumas das quais foram representadas no Teatro do Ginásio.

Leonildo Mendonça e Costa  ainda mandou construir um prédio de 6 andares, na  Rua Braamcamp, que recebeu o n.º 10 como numeração de polícia, no qual viveu num dos apartamentos, tendo arrendado os restantes.

edital largo mendonça e costa

Edital de 28/11/1932

A Esperança numa rua da Madragoa

(Foto de Alexandra Aníbal) Freguesia da Estrela

(Foto de Alexandra Aníbal)
Freguesia da Estrela

Na Madragoa vive a Rua da Esperança, provavelmente desde o século XVI, nascida da piedade de gentes do mar, e que após o  Terramoto de 1755 teve um alívio de trânsito pela abertura da Calçada Marquês de Abrantes.

Sobre a Rua da Esperança, informa-nos Norberto Araújo (Peregrinações em Lisboa, vol. VII) que « Esta Rua da Esperança, com carácter bairrista, despido de pitoresco, mas expressivo – e que deve seu nome ao nobre Convento da Esperança de que falarei abaixo – foi reconstruída depois do Terramoto; dela saem, pelo lado Norte, agora à nossa esquerda, a Calçada do Castelo Picão, a Travessa das Izabéis, e a Travessa do Pasteleiro, bizarras e populares, que vão dar ao coração da Madragoa, e pelo lado Sul a já citada Travessa dos Barbadinhos».

O Convento da Esperança que deu o seu nome ao arruamento era afinal o Convento de Nossa Senhora da Piedade mas Norberto Araújo explica como se alterou a denominação:  «Em 1530 D. Izabel de Mendanha (…) fundou neste sítio um Convento de Nossa Senhora da Piedade (…) a que se acrescentava “da Boa Vista”, porque ficava neste sítio [ era popularmente conhecido como Mosteiro da Piedade da Boavista]. (…) Mas, Dilecto, dirás tu: se o Mosteiro era de Nossa Senhora da Piedade porque passou a ser, e ainda é hoje, na sua memória, “da Esperança”? Pois sempre te quero contar e vale a pena. Êste sítio era, à borda do rio, muito de marítimos. E os homens do mar foram sempre dados a devoção, (…) Constituíram uma irmandade de pilotos e mestres náuticos intitulada de Nossa Senhora da Esperança. Prosperou de tal forma que se tornou o fulcro devoto do Convento; a gente plebeia do mar absorveu em seu prestígio a classe nobre a que o Mosteiro estava ligado. (…) E o Mosteiro deixa de ser chamado da Piedade – da nobreza que o fundara -, para passar a ser da Esperança – dos marinheiros que a êle se achegaram.».

No século XVII eram célebres os queijinhos de espécie e o bolo podre das freiras do Convento da Esperança, edifício que foi demolido em 1889 e, em cujos terrenos foi erguido o Quartel de Sapadores de Bombeiros de Lisboa. Refira-se ainda que o Almirante Gago Coutinho morou no  2º andar do n.º 164 desta artéria.

[Agradecemos a  Alexandra Aníbal a gentil cedência da fotografia] 

A luz do Sol ao Rato

Freguesia de Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique
( Foto: Artur Matos)

O sol de Lisboa está presente na toponímia de diversos arruamentos da cidade e, um deles é este que liga o Largo do Rato à Rua Silva Carvalho e, que desde a década de cinquenta do século XX também refere a sua proximidade ao Largo do Rato: a Rua do Sol ao Rato.

O olisipógrafo Norberto Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa (vol. XI) descreve esta artéria assim: «Pois subamos a Rua do Sol. Esta, sim, que é artéria muito antiga – em relação à idade da freguesia – a velha Rua do Rato para o Salitre, descendo desde a extrema de S. João dos Bem-Casados, ainda quando esta artéria não tinha a orientação actual. Os prédios desta Rua do Sol, do lado esquerdo, acusam quási todos cabelos brancos, na sua modéstia. Do lado direito, no comêço, ficavam os amplos terrenos da Cêrca do Convento das Trinitárias do Rato, e que no meado do século passado [isto é, séc. XIX] foram sendo retalhados para construções, que orlam a rua no primeiro trôço».

A Rua do Sol ao Rato é uma das 7 artérias lisboetas que ainda mostram como este astro serviu de geo-referenciação para a cidade e, da importância dada à sua luz, tanto mais quanto o próximo ano foi proclamado Ano Internacional da Luz . A definição de proximidade «ao Rato» foi acrescentada por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 10/03/1950. Nos dias de hoje Lisboa ainda acolhe a Rua do Sol a Chelas, a Rua do Sol à Graça, a Rua do Sol a Santana, a Rua do Sol a Santa Catarina, mais um Largo das Portas do Sol, que guarda a memória da Porta do Sol da Cerca Moura e, um Beco do Forno do Sol que nasce na Rua do Sol à Graça, que recebeu o acrescento do «Sol» pelo edital do Governo Civil de 1 de setembro de 1859, organismo que deteve a competência da denominação das ruas entre 1836 e 1878.

A referência de proximidade ao Largo do Rato acrescentada  a esta Rua do Sol evoca a alcunha de Luís Gomes de Sá e Meneses, patrono do primeiro Convento da Ordem da Santíssima Trindade em Lisboa.

Placa Tipo II

Placa Tipo II ( Foto: Artur Matos)

 

No 145º aniversário do General Vicente de Freitas a sua praça lisboeta

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: José Carlos Batista)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Neste ano em que passa o centenário da I Guerra Mundial recordamos mais um topónimo alfacinha relacionado com esse acontecimento: a Praça General Vicente de Freitas,  desde a publicação do Edital 29/07/1959, naquela que era a Praceta da Travessa São Domingos de Benfica, para homenagear o militar e político que foi Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa.

José Vicente de Freitas (Calheta/22.01.1869 – 06.09.1952/Lisboa) que hoje completaria o seu 145º aniversário, participou no Corpo Expedicionário Português como segundo-comandante de brigada e assim se bateu na Flandres, em 1917. Nas suas funções militares destaque-se também que coordenou trabalhos de cartografia, entre os quais a realização da Planta de Lisboa com todos os melhoramentos feitos e projectados na cidade, cerca de 1910.

De formação republicana, este oficial  iniciou a sua participação política como governador civil do Funchal em 1915 e, como deputado pela Madeira em 1918. Depois, integrou o grupo republicano apoiante do 28 de Maio, com António Osório, João Tamagnini Barbosa, Pestana Lopes e Ferreira Martins e foi Ministro do Interior (26 de Agosto de 1927) e presidente do Conselho de Ministros (de 18 de Abril de 1928 a 8 de Julho de 1929), acumulando com a pasta do Interior. Foi ainda ministro das Finanças interino (de 18 a 26 de Abril de 1928), sendo substituído, formalmente a seu convite, por António de Oliveira Salazar.

Presidiu à comissão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, entre Julho de 1926 e 1933, ano em que foi destituído por Salazar. Ainda como presidente da Câmara de Municipal de Lisboa, com o tenente-coronel Pestana de Vasconcelos que dirigia o jornal O Portugal, criou uma União Nacional Republicana, inspirada no modelo espanhol da União Patriótica de Primo de Rivera e, tentou também, com os oficiais mais jovens que tinham participado no golpe do 28 de Maio de 1926, criar a Liga Nacional 28 de Maio. Mas em 1933, José Vicente de Freitas publicou n’O Século de 12 de Fevereiro uma proposta alternativa  à de Oliveira Salazar, defendendo um ordenamento constitucional que concluísse o movimento militar e defendesse a República e a democracia, condenando vivamente o regime de partido único que se preparava.

O General Vicente de Freitas seguiu a sua carreira militar como comandante da Academia Militar (1935–1939), autor de manuais escolares de Desenho para o ensino secundário e organizador de cursos para a escola de cabos e sargentos do Exército. Já antes,  a partir de 1895, havia sido professor na Escola Nacional de Lisboa,  instituição que dirigiu depois de 1917.

0 General Jose Vicente de Freitas