Pena de Morte e Direitos Humanos na Toponímia de Lisboa

Comemora-se este ano, precisamente neste dia 1 de julho, o 150º aniversário da abolição da pena de morte em Portugal, tendo sido o primeiro país a fazê-lo. Ainda hoje em Portugal, de acordo com  o Artigo 24.º, alínea 2, da Constituição Portuguesa, é proibida no nosso país a pena de morte.

Acresce que a Carta de Lei de Abolição da Pena de Morte em Portugal de 1 de julho 1867, é um documento do Arquivo Nacional da Torre do Tombo que em 2015 recebeu a distinção de Marca do Património Europeu, pelo que faz todo o sentido que este mês de julho nos debrucemos sobre a toponímia de Lisboa relacionada com a pena de morte e a defesa dos direitos humanos.

Carta de Lei da Abolição de Pena de Morte em Portugal (  © Torre do Tombo)

Falta referimos quais os topónimos relacionados com esta temática que já aqui usámos:

Alameda António Sérgio, pensador que no decorrer do seu exílio em Paris dinamizou nessa cidade a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem, em articulação com Bernadino Machado;
Alameda Mahatma Gandhi, político que alcançou a independência da Índia face à colonização do Reino Unido;
Avenida das Forças Armadas, em homenagem ao MFA que que despoletou o 25 de Abril de 1974 e libertou Portugal de 48 anos de ditadura;
Avenida Magalhães Lima, tribuno republicano que foi o 1º Presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem em 1922;
Avenida das Nações Unidas,  organização intergovernamental criada para promover a cooperação internacional com objetivos primordiais de manter a paz mundial e promover os direitos humanos;
Avenida Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário da ONU que morreu vítima de atentado em 2003, quando estava em missão no Iraque;
Avenida Vergílio Ferreira, escritor que se manifestou contra a pena de morte;
Campo Mártires da Pátria, em memória dos 11 companheiros de Gomes Freire de Andrade suspeitos de conspiração contra o general Beresford, que no local foram enforcados no dia 18 de outubro de 1817;
Jardim da Amnistia Internacional, organização empenhada na defesa dos Direitos Humanos, fundada em 1961;
Largo Maria Isabel Aboim Inglês, a primeira mulher membro da comissão central do MUD – Movimento de Unidade Democrática,  que após distribuirem um comunicado de condenação da admissão de Portugal na ONU viram  o Movimento ilegalizado e presa toda a sua Comissão Executiva;
Praça Bernardino Machado, duas vezes Presidente da República,  definia estratégias com António Sérgio no âmbito da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem e  já antes, como Ministro das Obras Públicas (1893), elaborou legislação protetora do trabalho das mulheres e dos menores e criou o primeiro Tribunal de Trabalho;
Praça Eduardo Mondlane, 1º presidente da FRELIMO que lutou pela independência de Moçambique face à colonização de Portugal, tendo sido assassinado;
Praça Marechal Humberto Delgado, o «General Sem Medo» que foi candidato presidencial em 1958 contra o candidato de Salazar, tendo sido assassinado;
Rua Adelaide Cabete, médica e propagandista do feminismo em Portugal, fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas;
Rua Alexandre Herculano,  escritor e historiador que publicou  em 1838 no Diário do Governo um artigo contra a pena de morte, intitulado Da pena de morte;
Rua Amílcar Cabral, fundador do PAIGC que lutou pela independência da Guiné e de Cabo Verde face à colonização de Portugal, tendo sido assassinado;
Rua Ana de Castro Osório, feminista e republicana, autora do 1º manifesto feminista português (1905) intitulado As Mulheres Portuguesas;
Rua Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que livrou judeus do Holocausto;
Rua Aurora de Castro, 1ª notária portuguesa que no I Congresso Feminista da Educação (1924) apresentou 2 teses para exigir a igualdade política plena para as mulheres portuguesas através do direito ao voto e a justiça da igualdade na família e no casamento;
Rua Brito Aranha, conhecido defensor da causa da abolição da pena de morte, a quem Vítor Hugo felicitou por carta em 1867 escrevendo «Desde hoje, Portugal é a cabeça da Europa»;
Rua Carolina Ângelo, médica que foi a 1ª mulher a exercer cirurgia em Portugal bem como a 1ª mulher a conseguir exercer o direito de voto no nosso país, em 1911;
Rua Dom Pedro V, rei português de quem Alexandre Herculano foi precetor, que defendeu a abolição dos castigos corporais e da escravatura, bem como a abolição da etiqueta palaciana do beija-mão;
Rua Franklim, cientista e político norte-americano que lutou contra a escravatura;
Rua Gomes Freire, que foi enforcado na Torre de São Julião da Barra no dia 18 de outubro de 1817, tal como 11 companheiros subiram ao cadafalso no que veio a designar-se Campo Mártires da Pátria, suspeitos de conspiração contra o general Beresford;
Rua Guiomar Torresão, escritora que defendeu um maior acesso das mulheres à educação no Portugal Oitocentista;
Rua Leonor Pimentel, jornalista e revolucionária que a 20 de agosto de 1799 foi enforcada na Praça do Mercado de Nápoles;
Rua Maria Lamas, escritora e ativista dos direitos das mulheres participante em congressos feministas internacionais;
Rua Maria de Lourdes Pintasilgo, esteve ligada à ONU como Embaixadora de Portugal junto da UNESCO e membro de três Conselhos da ONU;
Rua Maria Veleda, escritora que foi 1ª presidente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1911;
Rua Martin Luther King, político norte-americano que lutou pela igualdade entre brancos e negros, líder do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos da América, que foi assassinado;
Rua Melo Antunes, militar de Abril e subdiretor Geral da UNESCO;
Rua Natália Correia, escritora e editora condenada em 1970 pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, e  pela edição das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, em 1971;
Rua Padre António Vieira, defensor da abolição da escravatura;
Rua Profª. Teresa Ambrósio, 1ª mulher que presidiu ao Conselho Nacional de Educação e fundadora da Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas;
Rua Rui Barbosa, político brasileiro que se destacou na luta contra a escravatura e na defesa do principio da igualdade das nações nas instâncias internacionais;
Rua Vasco da Gama Fernandes, 1º presidente da Assembleia da República após o 25 de Abril de 1974 que foi também presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem;
Rua Vítor Hugo, conhecido defensor da causa da abolição da pena de morte que felicitou Portugal por isso, em carta dirigida a Brito Aranha em 1867.

A Rua a que cada um chama sua

Rua de São Marçal – Freguesias da Misericórdia e de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua é o tipo de via mais usado e no plural, Ruas,  serve até para designar o conjunto das outras categorias de arruamentos: são as nossas ruas mesmo que sejam avenidas ou travessas. Lisboa tem hoje 22o4 arruamentos que são Ruas.

Freguesia de Belém – Placa Tipo V
(Foto: José Carlos Batista)

A maioria delas são antropónimos, isto é, o seu topónimo é o do nome de uma pessoa. Lisboa comporta 1494 antropónimos, de figuras locais, nacionais ou estrangeiras, de que são exemplo a Rua da Castiça, a Rua Maria de Lourdes Pintasilgo ou a Rua Vítor Hugo.

Em termos de quantidade temos a seguir os geotopónimos que são 191, onde se incluem 13 países, 38 cidades, 29 vilas, 4 mares e oceanos, 58 rios  e 62 de orientação geográfica, como por exemplo ruas do norte, do meio, do sul, da bela vista, dos arcos, do sol, da praia, do jardim ou do vale. A estes acrescem mais 39 topónimos que revelam as características físicas e típicas do local:  Rua do Aqueduto das Águas Livres, Rua da Atalaia, Rua do Bairro da Cáritas,   Rua da Barroca, Rua das Barracas, Rua da Betesga, Rua da Bica do Marquês, Rua da Bica do Sapato, Rua da Bica Duarte Belo, Rua da Bombarda,  Rua da Cascalheira, Rua da Casquilha, Rua das Chaminés d’El-Rei, Rua da Correnteza, Rua da Correnteza de Baixo, Rua das Courelas, Rua das Cozinhas, Rua da Fonte,  Rua das Fontaínhas, Rua das Fontaínhas a São Lourenço, Rua Fresca, Rua das Janelas Verdes, Rua da Mãe D’Água, Rua do Passadiço, Rua do Poço Coberto, Rua do Poço dos Negros,Rua das Praças, Rua da Regueira, Rua da Ribeira Nova, Rua da Rosa (de divisão dos terrenos de herança), Rua do Saco, Rua das Terras, duas ruas da Torre e a Rua da Judiaria, Rua da Mouraria, Rua dos Mouros (que se referia a ciganos) e Rua das Pretas.

Freguesia de Santo António – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Já os sítios de que o topónimo guarda memória são 44 : Rua da Achada, Rua da Adiça, Rua de Alcântara, Rua de Alcolena, Rua do Alqueidão, Rua de Andaluz, Rua da Alegria, Rua do Alto do Chapeleiro, Rua do Alvito, Rua da Arrábida, Rua de Arroios, Rua do Beato, Rua da Bela-Flor, Rua de Belém, Rua do Bom Pastor, Rua da Buraca, Rua das Calvanas, Rua do Campo de Ourique, Rua de Campolide, Rua do Casal da Raposa, Rua do Casalinho da Ajuda, Rua do Sítio ao Casalinho da Ajuda, Rua de Castelo Picão, Rua da Cova da Moura, Rua do Desterro, Rua Nova do Desterro, Rua de Entrecampos, Rua da Estrela, Rua das Furnas, Rua do Grafanil, Rua da Guia, Rua da Junqueira, Rua da Lapa, Rua do Lumiar, Rua de Marvila, Rua do Monte Olivete, Rua de Moscavide ao Parque das Nações, Rua das Necessidades, Rua das Pedralvas, Rua de Pedrouços, Rua da Penha de França, Rua Nova de Palma, Rua da Portela e Rua de Xabregas.

Nos biotopónimos encontramos 46, sendo 41 relativos a plantas e árvores – existindo curiosamente 2 ruas com Eucalipto na denominação – e 5 referentes a animais.

Rua 20, no Bairro da Encarnação – Freguesia dos Olivais
(Foto: José António Estorninho)

As ruas com toponímia numérica são 107 e surgem nos bairros cuja génese é de habitação social do séc. XX, como no Bairro da Quinta do Jacinto, no Bairro da Calçada dos Mestres ou no Bairro da Encarnação.

Ainda nos números contam-se 6 topónimos que evocam datas e que são a Rua Primeiro de Dezembro, a Rua Primeiro de Maio, a Rua Primeiro de Maio ao Grafanil, a Rua Quatro de Agosto, a Rua Cinco de Abril e a Rua dos Cravos de Abril cujo propósito foi guardar a memória do 25 de Abril de 1974.

Ruas que fixam nomes de santos, os hagiotopónimos são 103, de que são exemplo a Rua do Loreto ou a Rua do Milagre de Santo António. Refira-se que existem mais 7 ruas com cruzes, cruzeiro ou crucifixo na designação e ainda com referências a doutrina como a Rua dos Sete Céus, a Rua da Samaritana, a Rua da Esperança na Madragoa e ainda, todas paralelas a Rua da Caridade, a Rua da Fé e a Rua da Esperança do Cardal.

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo III
(Foto: Sérgio Dias)

Já ruas com topónimos relativos a profissões e atividades económicas são 89 : Rua Áurea, Rua do Açúcar, Rua das Adelas, Rua da Alfândega, Rua dos Arameiros, Rua dos Archeiros, Rua dos Arneiros, Rua dos Bacalhoeiros, cinco ruas do Cais, Rua das Canastras, Rua dos Caminhos de Ferro, Rua dos Cavaleiros, Rua do Chão da Feira, Rua do Comércio, Rua dos Contrabandistas,  duas ruas dos Cordoeiros, Rua dos Correeiros, Rua dos Douradores, Rua da Fábrica Carp, Rua da Fábrica da Pólvora, Rua da Fábrica das Moagens, Rua da Fábrica de Estamparia, Rua da Fábrica de Material de Guerra, Rua da Fábrica de Tecidos Lisbonenses, Rua dos Fanqueiros, Rua das Farinhas, duas ruas dos Ferreiros, Rua do Forno do Tijolo, Rua da Indústria, Rua dos Industriais, Rua dos Lagares, Rua dos Lagares D’El-Rei, Rua dos Lojistas, Rua da Manutenção, Rua do Mercado, Rua Nova dos Mercadores, Rua da Mestra, Rua da Moeda, Rua das Olarias, Rua dos Operários, Rua da Padaria, Rua da Pedreira do Fernandinho, Rua das Pedreiras, Rua da Prata, Rua dos Remolares, Rua das Salgadeiras, Rua dos Sapadores, Rua dos Sapateiros, Rua dos Sete Moinhos, Rua dos Táxis Palhinhas, duas ruas do Telhal, Rua dos Vaga Lumes a que se somam mais 20 relativas a Quintas e 13 a instrumentos náuticos e tipos de barcos.

Rua das Escolas Gerais – Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente
(Foto: Ana Luísa Alvim)

Também 58 ruas receberam um topónimo resultante da sua proximidade às mais diversas instituições, como se pode observar na lista seguinte: Rua Aliança Operária, Rua «Amigos de Lisboa», Rua de Artilharia Um, Rua do Arsenal, Rua dos Caetanos, Rua Centro dos Trabalhadores do Alto da Ajuda, Rua Clube Atlético e Recreativo do Caramão, Rua da Academia das Ciências, Rua da Academia Recreativa de Santo Amaro, Rua da Capela, Rua do Centro Cultural, Rua do Colégio de São José, Rua do Convento da Encarnação, Rua da Cozinha Económica, Rua da Cruz Vermelha, Rua do Diário de Notícias, Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, Rua das Escolas, Rua das Escolas Gerais, Rua da Escola de Educação Popular, Rua da Escola de Medicina Veterinária, Rua da Escola do Exército, Rua da Escola Politécnica, Rua Flor da Serra, Rua do Forte de Santa Apolónia, Rua das Francesinhas, Rua da Fraternidade Operária, Rua do Grémio Lusitano, Rua do Grilo, Rua Nova do Grilo, Rua da Guarda Nacional Republicana, duas ruas da Igreja e a Rua da Mesquita, Rua da Imprensa à Estrela, Rua da Imprensa Nacional, Rua de Infantaria 16, Rua do Instituto Bacteriológico, Rua do Instituto Dona Amélia, Rua do Instituto Industrial, Rua Instituto Virgílio Machado, Rua dos Jerónimos, Rua das Madres, Rua da Misericórdia, Rua do Montepio Geral, Rua do Museu de Artilharia, Rua das Portas de Santo Antão, Rua do Quatro de Infantaria, Rua dos Quartéis, Rua do Recolhimento, Rua Seara Nova, Rua de O Século, Rua do Seminário, Rua da Sociedade Farmacêutica, Rua do Terreiro do Trigo, Rua da Tobis Portuguesa, Rua das Trinas, Rua do Triângulo Vermelho, Rua da Trindade e  Rua da Voz do Operário.

Lisboa comporta ainda 14 ruas cujo topónimo é literário, quer seja por ser o título de um livro, como por exemplo na Rua dos Lusíadas ou na Rua Sinais de Fogo, quer seja por evocar personagens literárias como no caso da Rua das Musas.

Sobram outras 13 ruas cuja origem não está suficientemente esclarecida e que são a Rua Cascais, a Rua dos Cegos, a Rua das Damas, a Rua da Emenda, a Rua do Gabarete, a Rua do Gravato, a Rua do Mato Grosso, a Rua da Páscoa,  duas ruas da Paz, a Rua das Pedras Negras, a Rua das Raparigas e a Rua da Saudade.

Rua dos Cegos – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Rui Mendes)

 

Toponomenclatura de espaços verdes: os Jardins e os Parques

Parque Eduardo VII – Freguesia das Avenidas Novas

Na toponomenclatura oficial de Lisboa constam 30  Jardins e 2 Parques, todos a partir do séc. XX,  cuja enumeração abordaremos de seguida, por décadas.

Por Edital de 17 de abril de 1903, o Parque da Liberdade passou a denominar-se Parque Eduardo VII de Inglaterrapor ocasião da visita do Rei de Inglaterra a Lisboa, sendo aliás a primeira visita ao estrangeiro desse monarca.

Oito anos depois, o Parque Silva Porto, vulgarmente conhecido por Mata de Benfica, foi inaugurado no dia 23 de julho de 1911, mas só em 1918 adquiriu esta designação de homenagem ao pintor António Carvalho da Silva (1850-1893) que adoptara o apelido Porto como demonstração de amor à sua cidade natal. Neste Parque foi colocado um busto seu, da autoria de Costa Mota (Sobrinho), a que no centenário do seu nascimento a Sociedade Nacional de Belas Artes acrescentou uma palma em bronze.

Jardim Nove de Abril – Freguesia da Estrela

Já na década de vinte do séc. XX, por proposta do vereador Alfredo Guisado, deliberação camarária de 31 de maio de 1926 e edital municipal de 17 de junho de 1926, o antigo Jardim Fialho de Almeida passou a denominar-se Jardim Alfredo Keil, consagrando o autor da música do Hino Nacional, composto como A Portuguesa em 1890, como resposta ao Ultimatum Inglês, por naquele espaço se ir erguer um monumento à sua memória. Quase cinco anos depois, por deliberação camarária de 14 de fevereiro de 1925, o espaço conhecido como Jardim das Albertas passou a ser o Jardim Nove de Abril , data da Batalha de La Lys no ano de 1918, ocorrida na Flandres, no teatro de operações da I Guerra Mundial. Entre estas duas datas de 1920 e 1925, a Câmara Municipal de Lisboa deliberou a atribuição de diversas denominações a jardins da cidade, como por exemplo, Jardim Guerra Junqueiro ao Jardim da Estrela ou  Jardim Braamcamp Freire ao Jardim do Campo dos Mártires da Pátria, mas por razões desconhecidas esses registos não integraram o ficheiro de toponímia lisboeta.

Jardim Elisa Baptista da Silva Pedroso – Freguesia da Estrela

Depois, só após o 25 de Abril foi colocado um novo topónimo num jardim. Foi pelo Edital de 3 de setembro de 1976 que o jardim nas traseiras do Palácio de São Bento, vulgarmente conhecido como Jardim Salazar, ficou com a designação Jardim Elisa Baptista de Sousa Pedroso, perpetuando uma conceituada pianista (1876 -1958), fundadora do Círculo de Cultura Musical e  primeira sócia honorária da Juventude Musical Portuguesa.

Jardim Ducla Soares – Freguesia de Belém
(Foto: José Carlos Batista)

Na década de oitenta, Lisboa acolheu mais três jardins: em Belém, o Jardim Pulido Garcia dedicado ao eng.º agrónomo ( 1904 – 1983 ) que chefiou a Repartição de Arborização e Jardinagem camarária tendo sido responsável pela instalação do Parque Florestal de Monsanto ( Edital de 20/08/1985), bem como o  Jardim Ducla Soares (1912 – 1985), perpetuando o maior médico internista português da sua geração que viveu nesta mesma freguesia no Largo da Princesa ( Edital 07/09/1987); sendo o terceiro na Penha de França, o Jardim Luís Ferreira ( 1920-1984 ), para homenagear um antigo presidente dessa Junta de Freguesia (Edital 03/05/1989).

A década de noventa criou mais quatro jardins : o Jardim Alice Cruz ( São Domingos de Benfica ), a fixar a locutora de rádio e televisão (1940 – 1994) tragicamente falecida num acidente rodoviário e o  Jardim Bento Martins, em  Carnide,  para guardar a memória do seu dinamizador teatral (1932 – 1993), ambos por Edital de 17/02/1995; em Belém, pelo Edital de 30/07/1999 o Jardim Fernanda de Castro  , veio consagrar a escritora (1900 – 1994) que publicara justamente Cidade em Flor (1924) e Jardim (1928) e, finalmente, o  Jardim Amália Rodrigues ( Avenidas Novas ), fronteiro ao topo do Parque Eduardo VII a homenagear a celebrada fadista (1920 – 1999), falecida em outubro do ano anterior (Edital de 18/04/2000).

Jardim Amália Rodrigues – Freguesia das Avenidas Novas

Jardim Tristão da Silva – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Na primeira década do séc. XXI, de 2001 a 2010, Lisboa recebeu mais 10 jardins, a saber:  o Jardim Tristão da Silva (Areeiro), fadista (1927 – 1978) que começou a sua carreira a ser conhecido como o Miúdo do Alto do Pina (Edital de 20/11/2003);  o Jardim Amélia Carvalheira ( Avenidas Novas ), junto à Igreja de Nossa Senhora de Fátima por ocasião do centenário desta escultora  (1904 – 1998) de arte sacra (Edital de 23/09/2004); o Jardim Fernando Pessa ( Areeiro ), ao lado do edifício da Assembleia Municipal de Lisboa, local próximo da residência do jornalista (1902 – 2002) e onde ele costumava  andar de bicicleta e fazer os seus passeios ( Edital de 16/12/2004); o  Jardim Irmã Lúcia ( Areeiro ), atribuído em resultado do Voto de Pesar municipal  n.º 4/2005 que deu azo à deliberação municipal e ao Edital de 06/10/2005, fixando  junto à Igreja de São João de Deus esta vidente de Fátima (1907-2005); o  Jardim Maria da Luz Ponces de Carvalho, na Freguesia de Santa Clara (Edital 03/07/2008), evocando a neta  (1918 – 1999) de João de Deus e continuadora da sua obra dos Jardins-Escolas; o Jardim Prof. António de Sousa Franco em Telheiras, estadista e jurisconsulto de mérito, falecido subitamente em campanha eleitoral (1942 – 2004), fruto do Edital de 16/09/2008, sendo que no mês seguinte, o Edital de 07/10/2008, colocou no espaço verde contíguo o Jardim Prof. Francisco Caldeira Cabral (1908 – 1992) que foi o 1º topónimo alfacinha a perpetuar um arquiteto paisagista; e ainda, o Jardim Jorge Luis Borges no Arco do Cego ( Avenidas Novas ), por Edital de 16/09/2009, quando então passava o 110º aniversário deste escritor argentino (1899 – 1986), acolhendo ainda um Memorial a Borges, da autoria de Federico Brook e doado pela Casa da América Latina, faltando apenas referir nesta década o Jardim dos Jacarandás  e o Jardim Garcia de Orta ao Parque das Nações acolhidos através do Edital municipal de 16/09/2009.

Jardim Maria da Luz Ponces de Carvalho -Freguesia de Santa Clara

Finalmente, de 2011 até ao presente adicionaram-se mais 5  Jardins:  o Jardim Augusto Monjardino( Avenidas Novas ), junto à Maternidade Alfredo da Costa para homenagear o médico que foi o seu primeiro director (1871 – 1941), atribuído por Edital de 04/05/2011; o Jardim Amnistia Internacional ( Campolide ) para assinalar o 50.º aniversário desta instituição de defesa dos direitos humanos (Edital de 03/06/2011); o Jardim Adão Barata (1945 – 2008), em Carnide, para perpetuar no seu território um antigo presidente dessa Junta de Freguesia (Edital de 03/12/2012); o Jardim Maria de Lourdes Sá Teixeira ( Olivais ),  para guardar a memória da 1ª Aviadora portuguesa (1907 – 1984), através do Edital de 08/07/2013;  o Jardim Ferreira de Mira ( Benfica ) fixando o investigador e professor (1875 – 1953) da Faculdade de Medicina de Lisboa que foi também historiador da medicina portuguesa ( Edital 10/11/2016).

Jardim Ferreira de Mira – Freguesia de Benfica

Acresce que a palavra «jardim» aparece ainda em mais 5 topónimos alfacinhas. Em Santa Maria Maior, encontramos a Rua do Jardim do Regedor [da Casa da Suplicação] e primeiro presidente da Real Mesa Censória, cardeal D. João Cosme da Cunha; bem como a Rua do Jardim do Tabaco relacionada com a Alfândega do Tabaco, instalada na zona nessa época da segunda metade do séc. XVII. Junto ao Jardim da Estrela, na freguesia da Estrela,  deparamos com a Rua do Jardim à Estrela e a Travessa do Jardim que mostram bem qual a sua origem, tal como a Rua do Jardim Botânico, partilhada pelas freguesias de Belém e da Ajuda, claramente se refere ao Jardim Botânico da Ajuda.

A toponímia das ruas que não o são

O Poço do Borratém em 1951
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A toponímia das ruas que o não são foi o título da  comunicação de Áppio Sottomayor às III Jornadas de Toponímia de Lisboa (1998), que agora recuperamos para agrupar os doze topónimos que permanecem sem uma das categorias referidas nos anteriores artigos deste mês. Assim acontece em doze casos: o Caracol da Graça e o já desaparecido Caracol da Penha, o Corredor da Torrinha, a Costa do Castelo, as Cruzes da Sé, o Cunhal das Bolas, as Escolas Gerais (que coexistem com a Rua das Escolas Gerais), o Paço da Rainha, o Poço do Borratém, a Rocha do Conde de Óbidos já também extinta, o Telheiro de São Vicente e a Triste Feia. Estes  topónimos são geralmente únicos, antigos e encontram-se nas freguesias seculares da cidade de Lisboa.

Começando pela freguesia de Santa Maria Maior, na confluência da Rua da Madalena, Rua dos Condes de Monsanto e Rua do Arco do Marquês de Alegrete, deparamos com o Poço do Borratém , um pleonasmo, já que de acordo com o arabista David Lopes significa Poço do «poço da figueira». A fixação deste topónimo deve ser pelo menos quinhentista já que Gil Vicente o menciona no seu Pranto de Maria Parda. Norberto de Araújo adianta que «O poço é antiquíssimo, e foi sempre do domínio público. Quando o Estado adquiriu as propriedades, êle continuou a ser respeitado na sua serventia. (…) No meado do século passado [séc. XIX] explorava a água uma companhia de aguadeiros, e, antes, em 1818, existia uma Irmandade de Santo André e das Almas que cobrava um tributo a quem aproveitava o líquido, fiado nas suas virtudes. O poço do Borratem, pertença da Câmara, desde 1849 que não traz encargos para quem bebe a “virtuosa” água.»

Cruzes da Sé – Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

Ainda em Santa Maria Maior, estendendo-se do Largo da Sé à Rua de São João da Praça fica o arruamento denominado Cruzes da Sé, por se situar nas costas da Igreja de Santa Maria Maior, a Sé Catedral de Lisboa, classificada como Monumento Nacional desde 1910. A fixação deste topónimo na memória de Lisboa tem assim de ser posterior à edificação da Igreja de Santa Maria Maior, que pouco depois de 1147 começou a ser construída , assente sobre uma mesquita que, por sua vez, também terá sido erguida sobre um primitivo templo cristão visigodo. Em termos documentais, o topónimo Cruzes da Sé aparece referido num livro de óbitos de 1690.

Partilhado pelas freguesias de Santa Maria Maior e São Vicente temos o Caracol da Graça, artéria que em escadinhas estabelece a ligação da Rua dos Lagares à Calçada da Graça, ganhando o seu nome do ziguezague ou espiral que faz para galgar tão íngreme subida. Sabe-se da existência do Postigo do Caracol da Graça, aberto na Cerca Fernandina, até à sua destruição em 1700, que servia para se descer da Graça aos Lagares e Olarias.

Referimos aqui também o extinto Caracol da Penha,  que unia a Avenida dos Anjos (veio a ser a Avenida Almirante Reis) à Rua de Arroios e veio a ser transformado na Rua Marques da Silva ( freguesias de Arroios e Penha de França) pelo Edital municipal de 05/10/1891, em agradecimento ao proprietário da Quinta da Imagem, João Marques da Silva, que cedeu à Câmara gratuitamente terrenos para alargamento das ruas próximas.

Escolas Gerais – Freguesias de Santa Maria Maior e de São Vicente – Placa Tipo I
(Foto: Mário Marzagão)

Ainda nas freguesias de Santa Maria Maior e  São Vicente, deparamos com a Costa do Castelo, que  alastra da Rua do Milagre de Santo António até à Calçada de Santo André, que teve honras de título de filme português e deve o seu topónimo à proximidade ao Castelo de São Jorge, que aliás contorna numa grande extensão. De igual modo, encontramos as Escolas Gerais, arruamento que vai da Rua das Escolas Gerais à Calçada de São Vicente, sobre o qual o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo explica o seguinte:  «Como decerto o leitor já viu, ao Bairro dos Escolares chamaríamos hoje Bairro Universitário, e as Escolas Gerais ou o Estudo Geral são a Universidade transferida definitivamente para Coimbra em tempo de El-Rei D. João III (1537).  Também com certeza sabe o leitor que na Lisboa de hoje existem duas serventias públicas com nomes determinados pelo Estudo fundado por El-Rei D. Dinis: as Escolas Gerais, artéria inclassificada que pertenceu às antigas freguesias de Santa Marinha e de S. Vicente, que a compartilhavam, e a Rua das Escolas Gerais que pertenceu à antiga freguesia de S. Tomé, e durante algum tempo, pelo menos, também à do Salvador.»

Só da freguesia de São Vicente, junto ao Arco Grande de Cima, temos o Telheiro de São Vicente, que tal como a Calçada, o Largo, a Rua e a Travessa é um topónimo indubitavelmente ligado à Igreja que aí se situa e que Norberto de Araújo, revela do seguinte modo: «A Igreja de S. Vicente foi construída por D. Afonso Henriques, em obediência ao voto que fizera, e revelara ao Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, quando do Cerco de Lisboa. A primeira pedra foi lançada em 21 de Novembro de 1147. (…) O primitivo Mosteiro de S. Vicente não tinha a mais leve semelhança com o actual, nem dele resta memória descritiva ou simples alçado” (…) A inauguração do novo Mosteiro e Igreja de São Vicente fêz-se a 28 de Agosto de 1629, sem que as obras estivessem concluídas, pois se prolongaram interiormente quase durante um século.»

Em Arroios, deparamos com o Paço da Rainha que remete para o Palácio da Bemposta e para a Rainha D. Catarina de Bragança (? – 1705) que ao enviuvar de Carlos II de Inglaterra regressou a Portugal (em 1693) e acabou por fazer casa no lugar do Campo da Bemposta, onde é certo já habitava em 1702. A partir daí ficou o local conhecido como Paço da Rainha e assim se manteve até o primeiro edital de toponímia após a implantação da República, de 5 de novembro de 1910, o tornar no Largo da Escola do Exército, por aí se situar esse estabelecimento de ensino. Contudo, cerca de 12 anos mais tarde, o edital de  17/10/1924 designou-o como Largo General Pereira de Eça, topónimo que assim permaneceu perto de 32 anos até o Edital de 23/03/1954 o renomear como Paço da Rainha.

Cunhal das Bolas – Freguesia da Misericórdia – Placa de azulejo
(Foto: Artur Matos)

Na freguesia da Misericórdia, encontramos uma pequena artéria  entre a Rua da Rosa e a Rua Luz Soriano que é o Cunhal das Bolas, por  derivar do quinhentista Palácio do Cunhal das Bolas.

Na freguesia da Estrela, temos o Corredor da Torrinha, ao qual se acede a partir do Beco da Galheta, que o liga à Avenida 24 de Julho, sendo esta artéria o prolongamento natural da Travessa José António Pereira.

Na mesma freguesia a Rocha do Conde de Óbidos, topónimo do século XVII, derivado da proximidade ao Palácio do Conde de Óbidos (actual sede da Cruz Vermelha Portuguesa). Contudo, no âmbito da reconversão paisagística desta zona, que envolveram o aterro entre a Praça de Dom Luís I e Alcântara, após longas negociações entre o Município e a Casa de Óbidos-Sabugal, em 1880, a CML mandou dinamitar a rocha e morro e no seu espaço foi construída uma escadaria dupla que liga a Avenida 24 de Julho ao Jardim 9 de Abril, que mais um século mais tarde foi designada como Escadaria José António Marques, em homenagem ao fundador da Cruz Vermelha Portuguesa.

Ainda na Estrela deparamos com a Triste Feia, artéria na confluência da Rua Maria Pia, Rua da Costa e Rua Prior do Crato, paralela à Rua da Costa e nas costas da estação de comboios de Alcântara-Terra. Após a remodelação paroquial de 1770 já a encontramos nas plantas e descrições das freguesias de Lisboa na «Nova Freguezia do Snr Jezus da Boa Morte» como «Rua da Triste Feya» e igualmente como «rua chamada a Triste-fea». No Atlas de Filipe Folque, a planta nº 39 de 1856 menciona a Triste Feia e a calçada da Triste Feia. E a partir desta data, tanto nos levantamentos de Francisco Goulard (1882) como de Silva Pinto e Alberto Correia de Sá (1910), surge sempre designada como Triste Feia.

Triste Feia em 1965 e nos dias de hoje
(Fotos: Augusto de Jesus Fernandes – Arquivo Municipal de Lisboa; José Carlos Batista)

As Rampas de Lisboa

Toponomenclatura das Necessidades – Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

Rampa é uma ladeira, um arruamento em declive, muito semelhante a uma Calçada mas menos íngreme, toponomenclatura que Lisboa ainda usa em duas artérias : a Rampa das Necessidades na Freguesia da Estrela e a Rampa do Mercado na Freguesia de Santa Clara.

A Rampa das Necessidades liga a Praça da Armada à Rua das Necessidades e tal como esta, mais a Calçada, o Largo e a Travessa, o seu topónimo advém de uma antiga ermida da Nª Sr.ª das Necessidades que ali houve a partir de 1607. Pedro de Castilho, conselheiro de D. João IV comprou as casas ligadas à ermida e transformou-as na sua residência, tendo mais tarde, ficado com o assento da ermida e mandou erigir a capela-mor. Depois, D. João V comprou o local, grato à Senhora das Necessidades pelas melhoras da doença que padeceu, e ampliou a ermida, fez um palácio para si (que foi Paço Real até 1910) e ainda um hospício e um convento (que doou em 1744 à Congregação do Oratório). Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o edifício do convento foi anexado para os serviços da Casa Real e em 1950, foi transformado em sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Rampa do Mercado – Freguesia de Santa Clara

A Rampa do Mercado, que vai da Azinhaga do Reguengo à Rua Quinta da Assunção, é a  artéria onde está instalado o Mercado das Galinheiras pelo que já era assim conhecida quando em 1988 a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer para que assim fosse oficializada o que aconteceu com a publicação do Edital municipal de 29 de fevereiro de 1988.

Rampa do Mercado –
Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

 

Os Pátios da toponímia oficial de Lisboa

Pátio do Pinzaleiro em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Lisboa acolhe na sua toponímia oficial 17 Pátios, dos quais 6 estão na mais antiga Freguesia de Lisboa (uma vez que Santa Maria Maior reúne as primeiras freguesias de Lisboa) e 5 pertencem à mais recente freguesia da cidade (Parque das Nações). Embora muitos pátios lisboetas tenham desaparecido em resultado de remodelações urbanísticas da cidade,  os que hoje encontramos na toponímia oficial de Lisboa são os que resultaram da análise de todos os topónimos lisboetas pela Comissão Municipal de Toponímia após a sua criação, executada no período de 1943 a 1945, e consequente oficialização, tal como aconteceu com os cinco herdados no Parque das Nações.

Pátio, deriva do latim pactus  e refere-se a uma zona aberta, descoberta situada no interior de um edifício. Tem também o significado de conjunto de habitações modestas dispostas à volta de um recinto descoberto comum. E estes dois significados combinam-se bem na história da cidade de Lisboa uma vez que os primeiros pátios com residentes resultam do aproveitamento de pátios de palacetes abandonados, como o Pátio de Dom Fradique ou o Pátio do Pimenta.

De Ocidente para Oriente, encontramos na Freguesia da Ajuda o Pátio do Seabra, junto ao nº 17 do Largo da Ajuda, que combina antigas casas térreas de perfil rural com alguns prédios novos. Nele funciona o Centro de Atividades Ocupacionais da Ajuda da APPACDM Lisboa.

Na Freguesia da Estrela, na zona de Santos, a ligar a Avenida 24 de Julho à Rua das Janelas Verdes, temos o Pátio do Pinzaleiro, a fixar o fabricante de pincéis que por aqui deve ter trabalhado ou morado. É que de acordo com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, a origem da palavra pinzaleiro está provavelmente em pinzel, uma antiga forma de pincel.

Pátio do Tijolo – Freguesia da Misericórdia
(Foto: Artur Matos)

Passando à freguesia da  Misericórdia, encontramos três Pátios. Na antiga freguesia de Santa Catarina, junto à Rua D. Pedro V, onde começa e termina, topamos com o Pátio do Tijolo, artéria em U que comporta o Palacete Braamcamp, onde funcionou a Escola Francesa antes de se mudar para ser o novo Liceu Charles-Lepierre, sendo que no final do arruamento, no edifício onde existiu um posto dos CTT, viveu o escritor Eduardo de Noronha (1859-1948), conforme placa evocativa que a Câmara Municipal lá colocou.  A nascer na Rua da Boavista, na antiga freguesia de São Paulo, temos o pombalino Pátio da Galega, formado por um beco aberto entre dois prédios, com o nome de uma moradora oriunda da Galiza ou de alguma forma com ela relacionada. Ainda no antigo território de São Paulo, damos com o Pátio do Pimenta,  entre os nºs 11 e 15 da Rua do Ataíde, com uma entrada de características nobres, de cerca de 1780,  o que revela uma pré-existente ocupação do local por uma casa nobre, apresentando ainda um edifício do séc. XIX de um só piso e supomos, como é usual nestes arruamentos que o seu nome derive de um morador ou proprietário no local, tanto mais que existe um requerimento de 1890, de uma Carolina Amélia Pimenta solicitando a aprovação de um projeto de alterações no seu prédio com a numeração de polícia nº 26/27 do Pátio do Pimenta.

Pátio das Canas – Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Passando à mais antiga freguesia de Lisboa,  Santa Maria Maior, que desde 2012 agrega todas as mais antigas freguesias da cidade de Lisboa, descobrimos seis Pátios.  Na antiga freguesia da Sé, junto à Travessa do Almargem, está o Pátio Afonso de Albuquerque que, segundo Pastor de Macedo « A primeira vez que aparece com o nome de pátio do Monteiro é em 1833 e a última em 1878. Antes desta data porém, já o designavam por pátio do Beco do Albuquerque (1864), passando depois a pátio do Albuquerque (1880) e por fim, em 1889, a ter o nome que hoje tem» , talvez por ser paralelo à Rua Afonso de Albuquerque, topónimo de 1882 para substituir a Rua do Almargem, por ser o sua designação original no séc. XVI. O homenageado é o filho do vice-rei da Índia e que por isso foi autorizado a mudar o seu nome de Braz Albuquerque para Afonso de Albuquerque, tendo mandado construir e residido nas Casas dos Diamantes ou dos Bicos, para além de ter presidido ao Senado Municipal em 1572 e 1573.  O Pátio das Canas, abre-se no nº 4 do Beco das Canas, na antiga freguesia de São Miguel, em Alfama, tal como o Pátio da Cruz junto ao nº 15 da Rua da Galé e perpendicular da Rua de São Miguel junto ao Largo de São Rafael. Próximo da Rua Regueira fica o Largo do Peneireiro em cujo  nº 2 se abre o Pátio do Peneireiro.  Já antigo território de Santiago, junto ao Largo do Limoeiro fica o Pátio do Carrasco que nos finais do séc. XIX Roque Gameiro imortalizou num desenho. O último em Santa Maria Maior é o Pátio de Dom Fradique, próximo da Rua do Chão da Feira, com vestígios dos muros da Alcáçova e das torres e muralhas da Cerca Moura, sendo uma antiga dependência do Palácio de Belmonte (hoje, um hotel de luxo), cuja construção parece remontar ao século XV, sendo a entrada do pátio feita através de um portal do século XVII, época em que o Pátio foi anexado ao Palácio. Norberto de Araújo refuta que o  nome do Pátio derive de D. Fradique de Toledo, comandante general das tropas de Filipe IV de Espanha, ou de seu irmão,  D. Fernando, que foi comandante dos presídios castelhanos no Castelo, defendendo que se refere a D. Fradique Manuel, em 1518 moço fidalgo do Rei Venturoso, tanto mais ser dessa época a construção inicial do Palácio Belmonte.

Na Freguesia de Arroios, deparamos com o Pátio do Sequeiro, na continuação da Travessa das Salgadeiras e ao cimo da Travessa do Forte, na antiga zona do Desterro, a denunciar a antiga ruralidade da zona no seu nome.

E finalmente, a Oriente, temos na Freguesia do Parque das Nações os cinco Pátios herdados da Expo 98, todos com toponímia relacionada com o mar :  o Pátio dos Escaleres ao Parque das Nações, o Pátio das Fragatas, o Pátio das Galeotas ao Parque das Nações, o Pátio das Pirogas e o Pátio do Sextante.

Pátio do Sequeiro – Freguesia de Arroios
(Foto: Mário Marzagão)

Nova toponomemclatura do Parque das Nações : a esplanada, a estacada e o passeio

Esplanada D. Carlos I ao Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

Lisboa adquiriu nova toponomenclatura já no presente século, embora apenas exista na Freguesia do Parque das Nações, uma vez que a mesma é herança da realização da Expo 98 no local, oficializada pela edilidade lisboeta através dos Editais de 16/09/2009 e de 06/05/2015. Encontramos assim uma Esplanada, duas Estacadas e 31 Passeios.

A Esplanada D. Carlos I ao Parque das Nações resultou como memória das  investigações oceanográficas que esse rei realizou a bordo seu iate «Amélia» e sobre as quais publicou estudos.

Estacadas são duas: a Estacada das Gaivotas ao Parque das Nações, sobre o rio Tejo, no final do Caminho das Gaivotas ao Parque das Nações e a Estacada do Arboreto que nasce após o Caminho do Arboreto, devendo o seu nome à zona verde próxima, o Arboreto, destinado ao cultivo de uma coleção de árvores, arbustos, plantas herbáceas, medicinais e ornamentais, mantidas e ordenadas cientificamente,  como espaço aberto ao público para recreação, educação e pesquisa.

Também os Passeios incluem na sua toponímia os temas característicos da Expo 98 que subordinada ao tema «Os oceanos: um património para o futuro» usou topónimos ligados aos oceanos; aos Descobrimentos Portugueses como a Avenida D. João II ou a Rua da Pimenta; aos navegadores portugueses e de outras nacionalidades como o Largo Bartolomeu Dias  ao Parque das Nações ou a Rua Capitão Cook; a aventureiros marítimos da literatura e da banda desenhada mundial como  Sandokan ou Corto Maltese em Travessas; a figuras de relevo para Portugal como a Avenida Fernando Pessoa ao Parque das Nações; a obras de escritores portugueses relacionadas com o mar como a Rua Corsário das Ilhas de Vitorino Nemésio ou a Rua Jangada de Pedra  de José Saramago e ainda,  outros ligados à botânica e a aves que ali têm o seu habitat ou o incluem no seu percurso migratório.

Relativos aos oceanos, a barcos e instrumentos náuticos temos o Passeio das Fragatas, o Passeio das Âncoras, o Passeio das Gáveas ao Parque das Nações,  o Passeio dos Mastros, bem como o Passeio de Neptuno, o deus dos mares na mitologia romana.

Referentes a rios e mares mundiais deparamos com o Passeio do Tejo no Parque Tejo, o Passeio do Trancão junto ao rio do mesmo nome, o Passeio do Báltico, o Passeio do Cantábrico e o Passeio do Ródano.

Passeio dos Heróis do Mar
(Foto: Sérgio Dias)

Respeitante a aventureiros marítimos e escritores da literatura mundial temos o Passeio dos Aventureiros, o Passeio dos Argonautas, o Passeio dos Fenícios, o Passeio dos Heróis do Mar, o Passeio dos Navegadores, o Passeio de Ulisses e o Passeio Júlio Verne.

Alusivos aos oceanos e a escritores portugueses temos o Passeio da Ilha dos Amores, o Passeio das Amazonas, o Passeio das Musas, o Passeio das Tágides e o Passeio do Adamastor, todos referentes a episódios de Os Lusíadas de Luís de Camões, bem como o Passeio da Nau Catrineta,  história do romanceiro popular recolhida por Almeida Garrett.

No que a concerne a aves e botânica locais temos o Passeio das Garças e o Passeio dos Jacarandás, assim como concernente ao próprio espaço local encontramos o Passeio da Vila Expo, o Passeio do Campo da Bola, o Passeio do Parque [ Tejo] e o Passeio do Sapal.

Finalmente, existem ainda o Passeio do Levante que evoca as terras da costa leste do Mediterrâneo e o Passeio dos Cruzados, que contribuíram para a conquista de Lisboa e de muito do território português a partir do momento em que D. Afonso Henriques quis construir e expandir o reino de Portugal.

Estacada do Arboreto

Lisboa do caminho, do casal, do sítio, do terreiro e do outeiro

Caminho da Rainha – Freguesia do Parque das Nações

Na sua toponomenclatura de cariz rural Lisboa ainda comporta para além das azinhagas, mais 17 caminhos, um casal, dois sítios, dois terreiros e mais 6 referências a eles, a que se somam ainda 4 menções a outeiros.

Dos 17 caminhos existentes, 11 são topónimos herdados pelo concelho de Lisboa já no séc. XXI em resultado da Expo 98, na maioria caminhos de terra em parques ajardinados, sendo 8 referentes a aves  – Caminho das Andorinhas, Caminho das Cegonhas, Caminho dos Estorninhos, Caminho dos Flamingos, Caminho das Gaivotas ao Parque das Nações, Caminho dos Melros, Caminho dos Pardais e Caminho dos Rouxinóis -, outros 2 a árvores Caminho do Arboreto, Caminho dos Pinheiros ao Parque das Nações – e ainda um Caminho da Rainha. Este último deve o seu topónimo à Estátua da Rainha D. Catarina de Bragança no Parque do Tejo onde o Caminho se insere que já estava na toponímia de Lisboa pelo Paço da Rainha. Esta estátua é uma réplica da original da artista Audrey Flack, realizada para celebrar o mais famoso bairro de Nova Iorque, Queens, que deve o seu nome à Rainha D. Catarina, que enquanto Rainha de Inglaterra introduziu a tradição do Chá das Cinco.

Caminho da Feiteira – Freguesia de Benfica
(Foto: José Carlos Batista)

Os outros 6 são mesmo memórias de freguesias rurais que se guardaram no tecido urbano de Lisboa: o Caminho de Palma de Cima em São Domingos de Benfica; assim como o Caminho da Feiteira  e ainda o Caminho Velho do Outeiro, um pequeno troço na junção da Estrada da Buraca com o Alto da Boavista, ambos em Benfica; o Caminho da Raposa em Caselas, na freguesia de Belém, mais o  Caminho de Baixo da Penha e o Caminho do Alto do Varejão na Penha de França.

Na Freguesia da Estrela e com início à Estrada do Loureiro  está o Casal de Colares. Restam-nos dúvidas quanto à origem do topónimo já que a planta de Francisco Goullard de julho de 1884 inclui junto à Estrada do Loureiro o Sertão e o Casal do Colares  mas outra planta municipal de 1908 já o denomina como Casal dos Colares. Será alcunha, apelido de família ou refere-se mesmo a acessórios de pescoço?…

Freguesia de Benfica – Placa Tipo IV
(Foto: José Carlos Batista)

Em Benfica e São Domingos de Benfica estão o  Sítio do Barcal e o Sítio do Calhau. O Sítio do Barcal que ainda hoje apresenta características da ruralidade das velhas quintas de recreio é um topónimo registado em documentos desde o tempo de D. Afonso II, no século XIII. Hoje, este arruamento do Bairro do Calhau termina no Largo de São Domingos de Benfica e começa num arruamento vulgarmente conhecido como Avenida 24 de Janeiro que não integra a toponímia oficial de Lisboa. O Sítio do Calhau, já em São Domingos de Benfica, resulta de um surto de povoamento no séc. XVIII devido à necessidade de mão-de-obra para a construção do Aqueduto das Águas Livres. De entre os lugares que cresceram nessa época sobressaem além do Calhau a Estrada da Luz, Bom Nome, Adeão de Baixo, Penedo, Presa, Mira, Alfarrobeira, Venda Nova, Porcalhota, Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Borel, Feiteira, Buraca, Salgado e Pedralvas.

No que se relaciona com Terreiros, encontramos dois no Parque das Nações: o Terreiro das Ondas e o Terreiro dos Corvos ao Parque das Nações. Já memórias de terreiros noutras toponomenclaturas Lisboa ainda  tem seis. No norte da cidade, em Santa Clara, temos o Largo do Terreiro, na confluência da Azinhaga das Galinheiras, Rua Direita da Ameixoeira, Azinhaga da Torrinha e Calçada do Forte da Ameixoeira, oficializado por Edital municipal de 16/06/1928, guardando a memória do terreiro desta antiga zona rural. Já ao sul, muito perto do Tejo, na freguesia de Santa Maria Maior, temos 4 arruamentos – Escadinhas, Largo, Rua e Travessa do Terreiro do Trigo – cujo topónimo recorda o edifício do Celeiro Público ou Terreiro do Trigo pombalino, que nesta zona foi construído entre 1765 e 1768, sendo atribuída a sua autoria a Reinaldo Manuel dos Santos, arquiteto da Casa do Risco e que veio substituir o antigo celeiro do reinado de D. Manuel. E por último, na freguesia da Misericórdia, temos a Travessa do Terreiro a Santa Catarina, artéria sem saída que se abre junto à Travessa do Alcaide, que assim se denomina desde a publicação do Edital municipal de 27/02/1917, e antes era a Travessa do Terreirinho, a mostrar o diminuto tamanho do terreiro que ali seria.

Finalmente, ainda topamos com 4 menções a outeiros e outeirinhos, para além do já acima referido Caminho Velho do Outeiro. Frente ao nº 67 da Rua da Bela Vista à Lapa está a Travessa do Outeiro,  numa cota mais elevada do que a rua onde nasce, que ainda não surge nos arruamentos da freguesia de Nª Srª da Lapa em 1780. Relativo ao >Outeirinho da Amendoeira , temos o Beco em Santa Maria Maior, a ligar em escadas a Rua do Vigário ao Beco dos Paus e que de acordo com Luís Pastor de Macedo, se refere a um outeiro já mencionado em 1465 onde eram moradores o almocreve João Anes e a sua mulher Catarina e que  após a remodelação paroquial de 1780 já aparece na Freguesia de Santo Estêvão  como «o becco intitullado o Outeiro da Amendoeira». Em  São Vicente, está o Largo do Outeirinho da Amendoeira que vai do Campo de Santa Clara à Cruz de Santa Helena, e que segundo Norberto de Araújo teria sido a Rua do Arco Pequeno, onde assentou o Postigo do Arcebispo, da muralha fernandina. Ainda em São Vicente, temos o Outeirinho do Mirante, a ligar a Rua do Mirante à Rua de Entre Muros do Mirante e nas proximidades do Beco do Mirante.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Mário Marzagão)

Publicações municipais de toponímia sobre o Prof. Moniz Pereira e o Visconde de Alvalade

As publicações municipais de toponímia referentes à Rua Prof. Moniz Pereira e à Rotunda Visconde de Alvalade, hoje distribuídas no decorrer das inauguração oficiais destes arruamentos, na Freguesia do Lumiar, já estão online.

É só carregar nas capas abaixo e poderá ler.

 

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

Ou no topo do nosso blogue carregar em 3 – As nossas Edições.