Os novos 26 topónimos dados de 25 de Abril de 1974 até às eleições autárquicas de 1976

O Bairro das Mulheres de 1976, com mais topónimos em 1978 – Freguesia de Carnide

Após o 25 de Abril, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa deu parecer favorável à atribuição de 23 novos topónimos que assim se estabeleceram em  23 arruamentos novos, a partir dos pareceres que deu no período compreendido entre 5 de março de 1975 a 22 de julho de 1976, ou seja, antes das primeiras eleições autárquicas pós 25 de Abril, em 12 de dezembro de 1976.

Na reunião de 5 de março de 1975 , acolheu a sugestão da Liga dos Bombeiros Portugueses para a atribuição de uma Avenida dos Bombeiros Voluntários mas antes como Avenida dos Bombeiros, já que «para não ferir susceptibilidades, deverá prestar-se homenagem conjunta.» Também avançou com o Largo Maria Isabel Aboim Inglês,  na «Praceta da Rua de Pedrouços, situada nas proximidades do local onde viveu a falecida educadora» para evitar alterar  o topónimo Rua de Pedrouços – onde vivera a homenageada- , ou a Rua Nova do Loureiro – onde nascera -, conforme propunha o Movimento Democrático das Mulheres Portuguesas. Ainda nesta reunião concordou-se com uma alteração: a da Rua António Ferro para Rua Luís de Freitas Branco.

Em 22 de julho de 1975, a reunião seguinte, a partir do pedido dos moradores no Impasse I à Azinhaga da Fonte, a Comissão sugeriu para o efeito que ficasse denominada como Rua Julião Quintinha.  De igual forma, foi favorável ao topónimo Rua da República da Bolívia,  para retribuir  o arruamento Calle República de Portugal dado pela Municipalidade de La Paz, assim como com o Largo Castro Soromenho para dar resposta à Escrivania municipal que solicitava nomenclatura própria para o largo adjacente à Rua Cidade de Tete. Foram ainda indicados mais  7 novos topónimos: a Avenida Afonso Costa, a Avenida Bernardino Machado e a Praça Machado Santos (que não foram executados no local sugerido), a Rua Alfredo Guisado, a Rua Ferreira de Castro e a Rua da Horta Nova.

Finalmente, na reunião de 15 de junho de 1976 a Comissão deu parecer favorável a uma sugestão da Caixa de Previdência do Ministério da Educação Nacional para consagrar o  Professor Santos Lucas, sugerindo que ficasse na  «Rua C à Avenida do Uruguai, situado nas imediações da Rua Doutor José Batista de Sousa e da Praça Professor Santos Andrea, outro notável matemático», na freguesia de Benfica.

De igual modo, sugeriu mais três topónimos para se juntarem a Maria Veleda no que viria a ser conhecido como o «Bairro das Mulheres», por ser o primeiro bairro de Lisboa com toponímia exclusivamente feminina. Maria de Lourdes Pais Guerreiro da Franca encabeçara uma petição com algumas dezenas de assinaturas para integrar Maria Veleda na toponímia de Lisboa e a Comissão de Toponímia juntou os nomes de  Ana de Castro Osório,  Adelaide CabeteGuiomar Torresão, para a urbanização da Quinta dos Condes de Carnide, designada por UNOR 36.

E por último, nessa mesma reunião a Comissão sugeriu 11 novos topónimos para dar resposta à EPUL – Empresa Pública de Urbanização de Lisboa e aos  arruamentos que esta construíra no Restelo. E assim, «considerando que os arruamentos da zona do Restelo têm sido reservados quase exclusivamente para a consagração das figuras ligadas à história dos Descobrimentos», a Comissão indicou os navegadores Alvisse Cadamosto, Diogo de Silves,  Diogo de Teive, Gonçalo de Sintra, João Dias, Pedro de Sintra, Vicente Dias, o missionário Padre Bento de Góis e os bandeirantes António Raposo Tavares, Luís Pedroso de Barros  e Luís Castanho de Almeida.

Topónimos do Restelo de 1976 – Freguesia de Belém
(Planta: Sérgio Dias)

Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

Os primeiros dois princípios da Comissão e o 1º Edital de Toponímia pós 25 de Abril

 

Quando os Editais municipais não eram feitos a computador e fotocopiadora mas impressos na Imprensa Municipal de Lisboa, o primeiro Edital municipal sobre toponímia pós 25 de Abril, com 850 exemplares, saiu no penúltimo dia no ano de 1974,  em resultado dos pareceres da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa de 15 de novembro de 1974 e conforme as instruções recebidas da Secretaria de Estado da Administração Interna sobre alteração de topónimos, após aprovação de proposta em sessão de Câmara.

De acordo com o princípio «de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime» esse primeiro Edital, mudou o nome da Avenida Vinte e Oito de Maio para Avenida das Forças Armadas, da Avenida Marechal Carmona para Avenida General Norton de Matos e da Rua General Sinel de Cordes para Rua Alves Redol.

De igual modo, na sequência de um despacho do então Presidente da edilidade, Engº Caldeira Rodrigues, no qual solicitava o «parecer da Comissão sobre a consagração na toponímia citadina, de nomes que a opinião pública impõe como Ribeiro Santos, Alves Redol, Bento Gonçalves e outros» foi alterada o nome da Calçada de Santos para Calçada Ribeiro Santos, tanto mais que o homenageado morara no Largo de Santos e de lá saíra o seu funeral em 1972, após ter sido morto por agentes da PIDE. Também considerando uma carta de várias centenas de munícipes solicitando que a Estrada de Malpique se denominasse Rua Dr. João Soares, «em homenagem ao falecido professor e educador, pai do actual Ministro Mário Soares», também a Estrada de Malpique  deu lugar à Rua Dr. João Soares.

A Comissão Municipal de Toponímia aprovou ainda duas linhas ou princípios de orientação fundamentais.

Uma delas delineava a substituição de topónimos pela necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população dada a sua ligação ao Estado Novo. Salvaguardava-se que fossem ponderados os prejuízos para os munícipes, serviços da Câmara, serviços públicos e particulares; que não fossem eliminados topónimos populares tradicionalmente consagrados; que não se usassem nomes de personalidade ainda vivas, nem designações com carácter ou apologia partidária, nem as que contivessem elementos atentatórios e ofensivos da dignidade das instituições vigentes.

A outra, apontava para a participação da população nas decisões autárquicas, considerando que «Dado que os topónimos de Lisboa têm um interesse citadino de carácter e interesse geral, antes da substituição ou inicial colocação de qualquer placa toponímica proceder-se-á à pública divulgação da decisão nesse sentido tomada pela Comissão Consultiva de Toponímia, de modo a que a população de Lisboa e os seus organismos e instituições se possam pronunciar no prazo de quinze dias, contados a partir dessa pública divulgação» e acrescentando mais um prazo de 15 dias  para a Comissão de Toponímia conjuntamente com o executivo da Câmara decidir sobre as reclamações surgidas, consultando as Juntas de Freguesia ou outra instituição julgada conveniente.

Além das alterações e nomes solicitados que deram corpo ao 1º Edital de toponímia pós 25 de Abril são de referir como mais solicitados na época a alteração dos nomes da Rua António Maria Cardoso, Rua Agostinho Lourenço, Avenida Sidónio Pais, Avenida Dom Carlos Primeiro, Avenida dos Combatentes, Praça do Príncipe Real, Rua Quirino da Fonseca e Rua de São Lázaro. De igual forma, os nomes mais frequentemente sugeridos para inclusão na toponímia de Lisboa foram, por ordem alfabética, Abel Salazar, Afonso Costa, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Bento Gonçalves, Catarina Eufémia, Cuba, Dias Coelho, Ferreira de Castro, Humberto Delgado, Jaime Cortesão, Manuel Rodrigues da Silva, Presidente Salvador Allende, Professor Egas Moniz, Soeiro Pereira Gomes, Vinte de Abril  e Vinte e Cinco de Abril, tendo a maioria deles sido colocados como topónimos lisboetas.

 

A Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril de 1974

Neste mês em que passam 43 anos sobre o 25 de Abril de 1974, o nosso tema é A Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril de 1974, em que procuraremos mostrar que alterações se produziram na toponímia de Lisboa desde essa data até ao final de 1976, altura em que terminaram as Comissões Administrativas na edilidade alfacinha já que as eleições autárquicas de 12 de dezembro de 1976 levaram Aquilino Ribeiro Machado a ser o 60.º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o primeiro eleito após o 25 de Abril.

Através dos dados colhidos nas Atas das reuniões da Comissão Municipal de Toponímia nesse período procuraremos focar sobretudo 4 vertentes:
1 – Quem foram os membros das 2 Comissões Municipais de Toponímia desse período;
2 – Quais foram os dois princípios básicos definidos para a toponímia de Lisboa e como foram aplicados no 1º Edital de toponímia produzido após o 25 de Abril;
3- Que pedidos de alterações de topónimos foram endereçados pelos cidadãos à Câmara Municipal de Lisboa;
4 – Que novos topónimos em arruamentos ainda sem denominação foram produzidos nesse período.

O Dia Mundial do Teatro pelas ruas de Lisboa

Topónimos de teatro no Chiado – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Na próxima 2ª feira comemora-se o Dia Mundial do Teatro e porque não aproveitar o fim de semana para passear pelas ruas de Lisboa que estão ligadas a essa arte?…

Vamos primeiro para o Chiado, para o núcleo mais antigo, onde encontramos o Largo de São Carlos fixado após 1793, a Rua Garrett (Edital de 14/06/1880) e a Travessa dos Teatros (Edital de 18/12/1893) que regista a proximidade ao Teatro de São Carlos e ao Teatro São Luiz. E recentemente, desde a publicação do Edital de 10/11/2016, que encontramos a abrir-se para a Rua Garrett o Largo de um outro dramaturgo, Luiz Francisco Rebello. Ainda no séc. XIX, foi colocada na freguesia de Alcântara  a Rua Gil Vicente (Edital de 08/07/1892), dedicada ao pai do teatro português.

No período republicano, fixaram-se três atores da mesma família através da  Rua João Anastácio Rosa (Edital de 18/11/1913) nas freguesias de Campo de Ourique e da Estrela, da Rua Augusto Rosa (17/03/1924) em Santa Maria Maior, e da Rua Actor João Rosa (27/01/1926) no Areeiro. Pelo Edital de 30 de maio de 1914, foi a vez do conhecido ator Santos Pitorra com a sua Rua José Carlos dos Santos, em Alvalade. Dez anos depois, o Edital de 17 de outubro, colocou junto ao Teatro Nacional D. Maria II, a Praça Dom João da Câmara, conhecido dramaturgo que mereceu a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português/1852 – 1908». Finalmente, em 18 de junho de 1926, um Edital municipal atribuiu em Benfica a Travessa Miguel Verdial , um ator que teve participação empenhada no 31 de janeiro de 1891.

Bairro dos Atores – Freguesias de Arroios e Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Em 12 de março de 1932, começou-se a construir em termos toponímicos o que se veio a chamar Bairro dos Atores, com a Rua Actor Vale, Rua Ângela Pinto, Rua Eduardo Brazão, Rua Ferreira da Silva, Rua Joaquim Costa, Rua José Ricardo, Rua Lucinda Simões, Rua Rosa Damasceno, e a Avenida Rey Colaço que nunca chegou a ser executada. A 31 de março, somaram-se no local mais 5 topónimos: a Rua Actor Isidoro, a Rua Actriz Virgínia, a Rua Lucinda do Carmo, a Rua Actor Epifânio e a Rua Rui Chianca que também não chegou a ser aberta. Mais tarde, já pelo Edital de 21 de dezembro de 1960, numa rua antes particular ficou a Rua Actor António Cardoso.  Ainda na década de trinta, por Edital de 17 de abril de 1934, ficou nas Avenidas Novas a Rua Chaby Pinheiro, um ator nascido em Lisboa.

Bairro dos Atores- Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Nos anos sessenta, voltam a ingressar na toponímia da cidade nomes de teatro. Em 4 de março de 1961, foi a vez de ser atribuída junto à Avenida de Roma a Rua João Villaret. Em 10 de novembro de 1966, o Bairro do Charquinho, em Benfica acolheu a Rua Actriz Adelina Abranches e Rua Actriz Maria Matos, a que se juntou mais tarde, pelo Edital de 04/02/1993, a Rua Elvira Velez. Ainda em Benfica, no Bairro de Santa Cruz, foram colocados pelo Edital de 10 de abril de 1969 quatro atores: a Rua Actor Alves da Cunha, a Rua Actor Estêvão Amarante, a Rua Actor Nascimento Fernandes e a Rua Actor Vasco Santana, aos quais se juntou a Rua Actor Robles Monteiro, através do Edital de 09/02/1970.

Atrizes no Bairro do Charquinho- Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

Na década de 70, logo pelo Edital de  10/11/1970, ficou perpetuada Palmira Bastos na freguesia de Marvila. No ano seguinte, nasceram a Rua Actor Epifânio no Lumiar e a Rua Actor Augusto de Melo no Beato, ambos pelo Edital de 26 de março de 1971. Ainda no Lumiar, juntou-se a 22 de junho de 1971 a Rua Actor António Silva e a 25 de outubro desse mesmo ano foi a vez da Rua Teresa Gomes, em São Domingos de Benfica, freguesia que também vai alojar no ano seguinte (Edital de 05/06/1972), numa Rua, o cenógrafo Augusto Pina.

Em 1978, foi a vez do Bairro das Pedralvas, em Benfica,  acolher a Rua Augusto Costa (Costinha), a Rua Aura Abranches, a Rua Lucília Simões e a Rua Maria Lalande, através do Edital de 31 de janeiro. Neste núcleo acrescentou-se a Rua Amélia Rey Colaço , pelo Edital de 21/08/1990. Ainda através do Edital de 31 de janeiro de 1978 mas em Carnide, foi a vez de inscrever numa rua a declamadora e escritora Manuela Porto. Na Penha de França, pelo edital de 14 de maio de 1979, acomodou-se a Rua Emília Eduarda, uma atriz que foi também a primeira mulher portuguesa a escrever uma peça de revista.

Nos anos 80, Benfica recebeu a Rua Paulo Renato (Edital de 11/11/1983), Arroios a  Rua Francisco Ribeiro (Ribeirinho) pelo Edital de 24 de abril de 1986 e as Avenidas Novas recolheram a Rua Ivone Silva e a Rua Laura Alves (ambas pelo Edital de 29/02/1988 ).

Na década de noventa, Helena Félix tomou lugar numa artéria de Alvalade através do Edital de 18/05/1992. Três anos depois, Carnide acolheu o fundador do Teatro de Carnide no Jardim Bento Martins  (Edital de 17 de fevereiro de 1995), dois dramaturgos na Rua Prista Monteiro e Rua Virgílio Martinho (Edital de 30 de setembro de 1997) e ainda, dois atores – Rua Álvaro Benamor e Rua José Gamboa – pelo Edital de 20 de Setembro de 1999. Em 16 de janeiro de 1995 foi colocada a Rua Irene Isidro no Bairro do Caramão da Ajuda. Já a freguesia de Benfica ganhou a Rua Barroso Lopes, pelo Edital de 20 de março de 1995, a mesma data em que um outro Edital faz nascer o Bairro dos Autores Teatrais no Bairro do Alfenim, em Marvila, com  o Largo Álvaro de Andrade, a Rua Bento Mântua, a Rua Ernesto Rodrigues, a Rua Lino Ferreira, a Rua Sousa Bastos, a Rua Vitoriano Braga e a Rua Xavier de Magalhães.  Já desde o Edital de 31 de agosto de 1993 que na Freguesia de Marvila estava a Rua Félix Bermudes, escritor teatral, sobretudo de comédias. Ainda nos anos 90, no Bairro do Oriente – hoje parte integrante da freguesia do Parque das Nações-, com uma inauguração oficial no dia 7 de maio de 1999, fixaram-se atores com a Rua Carlos Daniel e a Rua Mário Viegas, um desenhador e cenógrafo com a Rua Fernando Bento, e dois nomes que musicaram revistas com a Rua Jaime Mendes e a Rua Carlos Paião, bem como a Rua Palhaço Luciano, representante da mais teatral arte circense.

Já no nosso século, a considerada mãe do teatro independente, Luzia Maria Martins, deu o seu nome a um Largo de São Domingos de Benfica, pelo Edital de 26 de junho de 2001. No final desse ano, pelo Edital de 26 de dezembro foi a vez de Carnide acolher a atriz Mariana Vilar numa Rua. E em 2003, através do Edital de 20 de novembro, o arruamento entre a Rua Ramalho Ortigão e Avenida Calouste Gulbenkian, em frente ao novo Teatro Aberto, passou a ser a Rua Armando Cortez.

Nomes de teatro na Ameixoeira – Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

O último núcleo de topónimos de teatro a ser formado localiza-se na Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara. O Edital de 1 de fevereiro de 1993, colocou aqui a primeira atriz com a Rua Brunilde Júdice e a Rua Constança Capdeville , uma compositora precursora de obras para teatro musical em Portugal. Em 2004, juntaram-se no Vale da Ameixoeira, a Rua Fernanda Alves e a Rua Fernando Gusmão, através do Edital de 19 de abril, a que o Edital de 14 de julho veio adicionar a Rua Arnaldo Assis Pacheco, a Rua António Vilar, a Rua José Viana, a Rua Raul de Carvalho e a Rua Varela Silva. Finalmente, pelo Edital de 16 de setembro de 2009 foram ainda acrescentadas a Rua Artur Ramos e a Avenida Glicínia Quartin.

Nomes de teatro no Vale da Ameixoeira – Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

 

As Senhoras escondidas na Toponímia de Lisboa

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No ano passado uma moradora da Rua da Senhora da Glória, na Freguesia de São Vicente – a quem desde já pedimos desculpa por não conseguir localizar o nome -, sugeriu-nos que usássemos como tema mensal os topónimos de Lisboa que tenham «Senhoras de» como o do arruamento onde reside.

Assim faremos neste mês de março, juntando algumas «Senhoras escondidas» na composição do topónimo como acontece nas Escadinhas da Saúde ou no Largo da Anunciada, sendo que todas se referem a invocações de Nossa Senhora e como tal são hagiotopónimos, topónimos referentes ao nome de um santo ou de índole religiosa.

 

 

A Guerra Colonial nascida há 56 anos, também no tabuleiro da Toponímia de Lisboa

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A Guerra Colonial que se iniciou há 56 anos, em fevereiro de 1961, para além de decorrer em Angola, Guiné e Moçambique até ao 25 de Abril de 1974 , também se jogou no tabuleiro da toponímia de Lisboa, onde o Estado Novo fixou as suas mensagens de defesa do Império Colonial.

Em 1947, os britânicos concederam a independência indiana e o primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, exigiu a  integração da Índia Portuguesa na União Indiana. A resposta do Governo também foi dada através da Câmara Municipal de Lisboa, logo no ano seguinte, através do Edital municipal de 29 de abril de 1948, que colocou no Plano de Urbanização da Encosta da Ajuda, em Belém, as Praças de Damão, Dio e Goa, assim como mais 6 topónimos todos ligados à Expansão Portuguesa na Índia: a Avenida da Índia e a Avenida Dom Vasco da Gama, a Rua Soldados da Índia, a Rua Dom Cristóvão da Gama, a Rua Dom Lourenço de Almeida e a Rua São Francisco Xavier.

E nos anos sessenta e a edilidade lisboeta passa a contemplar na sua toponímia, como revelam as legendas dos topónimos, os «Heróis da Ocupação» e os «Heróis do Ultramar», nas freguesias que ainda tinham alguns arruamentos sem denominação e assim, na Ajuda passou a constar a Rua General Massano de Amorim/Governador Ultramarino/Herói da Ocupação, tal como na Ajuda e Belém ficou a Rua General João de Almeida/Herói do Ultramar (ambos os topónimos pelo Edital de 28/10/1960 ). A terminar o ano, pelo Edital 21/12/1960 , fixou-se em São Domingos de Benfica a Rua Major Neutel de Abreu/Herói do Ultramar.

O ano de 1961 começou com o assalto ao Santa Maria em 22 de janeiro, como forma de protesto contra a falta de liberdade cívica e política em Portugal, preparada por Henrique Galvão e Humberto Delgado e levada a cabo pelo primeiro com 20 elementos da DRIL (Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação) que o transformou em paquete Santa Liberdade, tendo as televisões e os jornais de todo o mundo divulgado o acontecimento. A edilidade atribuiu em 15 de fevereiro de 1961 o nome do piloto que faleceu nesse acontecimento, João Nascimento da Costa, numa rua do Beato, a que juntou nas proximidades, em junho a Rua Engº Maciel Chaves, com a significativa presença nestas inaugurações do então presidente da CML, António Vitorino França Borges, bem como divulgação na Revista Municipal.

Onze dias antes, a 4 de fevereiro de 1961, o MPLA (Movimento Popular e Libertação de Angola) tinha atacado a prisão de São Paulo e uma esquadra da polícia, em Luanda, tendo sido mortos 7 polícias, enquanto no norte de Angola, a UPA (União das Populações de Angola) desencadeou vários ataques contra a população branca e assim Angola foi o primeiro país a  iniciar a luta armada organizada contra o domínio português.

Ainda em 1961, pelo Edital de 10 de novembro, são colocados na toponímia alfacinha mais dois Heróis do Ultramar: a Rua General Justianiano Padrel na freguesia de S. Vicente e o Largo Alferes Francisco Duarte, na Penha de França.

E a 18 de dezembro, a União Indiana invadiu os territórios de Goa, Damão e Dio, quase sem resistência dos soldados portugueses face à disparidade das forças em contenda. Salazar tinha avisado o governador do Estado Português da Índia, General Vassalo e Silva por telegrama que «Não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, assim como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos». O General Vassalo e Silva  que aceitou a rendição só 53 anos depois teve o seu nome numa rua de Lisboa, em 2014.

A 23 de janeiro de 1963, a luta armada alargou-se à Guiné-Bissau, com o ataque do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) ao quartel de Tite, no sul do país. A partir do mês seguinte, pelo Edital de 13 de fevereiro de 1963, os arruamentos de uma nova urbanização, Olivais Norte, receberam os nomes de 4 militares, todos com a legenda «Morto em Angola ao Serviço da Pátria – 1961»: a Rua General Silva Freire, a Rua Alferes Barrilaro Ruas, a Rua Sargento Armando Monteiro Ferreira e a Rua 1º Cabo José Martins Silvestre.

A 9 de setembro, os Olivais Norte acolheram mais 2 mortos ao serviço da Pátria mas desta vez na Índia: a Rua Capitão Santiago de Carvalho/ Morto em Damão ao serviço da Pátria – 1961 e a Rua Capitão-Tenente Oliveira e Carmo/ Morto em Dio ao Serviço da Pátria – 1961. E ainda nesse ano, pelo Edital de 13 de dezembro, em São Domingos de Benfica, é atribuída a Rua Conde de Almoster/Herói do Ultramar/1858 – 1897.

Em 1964, na Freguesia do Beato, é atribuído o Largo Honório Barreto, em memória de um Governador da Guiné do séc. XIX lá nascido, pelo Edital de 23 de julho. E em 25 de setembro desse mesmo ano, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) inicia a luta armada com o ataque a Chai, em Cabo Delgado. Em novembro, o Edital de dia 26, coloca o o Furriel João Nunes Redondo, com a legenda «Morto na Guiné ao serviço da Pátria – 1963» e o Sargento José Paulo dos Santos com a a legenda «Morto em Angola ao Serviço da Pátria – 1963» em ruas de Olivais Norte.

Três anos passados, pelo Edital de 14 de junho acrescentam-se à toponímia lisboeta mais 3 Heróis do Ultramar – Rua Coronel Bento Roma (em Alvalade), Rua General Farinha Barão, Rua General Garcia Rosado (em Arroios) a que se vão somar pelo Edital de 4 de julho, 14 cidades e vilas de Moçambique em Olivais Sul.

A 10 de Abril de 1969, ainda em Olivais Sul, 11 cidades de Angola são feitas topónimos. No ano seguinte, pelo Edital de 31 de março, são homenageados dois médicos militares com a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt/ Brigadeiro-Médico (Avenidas Novas) e a Rua Dr. José Baptista de Sousa/Coronel Médico (Benfica). E a 11 de julho são colocadas em Olivais Sul as guineenses cidades de Bafatá, Bissau e Bolama, bem como a cabo-verdiana Cidade da Praia, a timorense Cidade de Dili e a indiana Cidade de Margão.

A 9 de fevereiro de 1971, a zona de Olivais Sul vai ainda acolher a angolana Rua Cidade de Negage. E ainda nesse ano, o  Edital municipal de 15 de março, instalou a Avenida dos Combatentes a percorrer as freguesias de Alvalade, São Domingos de Benfica e Avenidas Novas, e o de 22 de junho, colocou mais 10 Heróis do Ultramar, falecidos em combate, em Olivais Velho, Benfica e Alcântara: Rua Major Figueiredo Rodrigues; Rua Alferes Mota da Costa; Largo Américo Rosa Guimarães; Rua Alferes Carvalho Pereira; Rua Alferes Santos Sasso; Rua Furriel Galrão Nogueira;  Rua José dos Santos Pereira; Rua José da Purificação Chaves; Rua Manuel Correia Gomes e a Rua Manuel Maria Viana.

Após o 25 de Abril de 1974, e sendo um dos 3 «Dês» do Programa do MFA o de Descolonizar, a toponímia de Lisboa também refletiu essa mudança alterando a denominação da Praça do Ultramar para Praça das Novas Nações, pelo Edital de 17 de fevereiro de 1975, o 2º edital de Toponímia da Câmara de Lisboa após o 25 de Abril.

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Roteiro ibero-americano da toponímia de Lisboa

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Neste ano que agora se inicia Lisboa vai ser Capital Ibero-americana da Cultura, subordinada ao  tema “Passado e Presente” com uma programação desenvolvida a partir das instituições culturais da Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC e Casa da América Latina, sendo a sua coordenação global, bem como coerência programática asseguradas por António Pinto Ribeiro.

A cidade de Lisboa foi eleita pela União das Cidades Capitais Ibero-Americanas e este ano de 2017 será artisticamente inovador, sem esquecer os processos históricos e a troca de conhecimentos que enquadram as relações entre estas cidades da Europa e das Américas.

Nestas rotas culturais em que a toponímia testemunha em Lisboa o Passado, trazemos ao Presente das redes sociais e dos blogues alguns dos topónimos com que o Gabinete de Estudos Olisiponenses e o Núcleo de Toponímia participam neste evento de Capital da Cultura, com um Roteiro ibero-americano da toponímia de Lisboa.

Embora se integrem neste âmbito não repetiremos aqui os topónimos sobre os quais já antes publicámos artigos, a saber:
Avenida do Brasil
Avenida Brasília
Avenida Madrid
Avenida Rio de Janeiro
Avenida Santos Dumont
Avenida Sérgio Vieira de Mello
Jardim Jorge Luis Borges
Largo Machado de Assis
Praça João do Rio
Praça Olegário Mariano
Rua Afrânio Peixoto
Rua Fernão de Magalhães
Rua Jorge Amado
Rua Miguel Ângelo Blasco
Rua Pablo Neruda
Rua Pedro Calmon
Rua Rosália de Castro
Rua Rui Barbosa