Quatro médicos militares na toponímia de Lisboa em 1970

Francisco Luís Gomes

Em 1970, nove anos após o início da Guerra Colonial, foram colocados na toponímia de Lisboa quatro médicos militares, com a característica comum de terem prestado serviço no Hospital Militar de Lisboa e/ou nos territórios que eram colónias na época: Francisco Luís Gomes, José Baptista de Sousa, Mário Moutinho e Nicolau de Bettencourt.

O primeiro caso ocorreu através do Edital  municipal de 14 de fevereiro e foi a  Avenida Dr. Francisco Luís Gomes (na freguesia dos Olivais), a que se seguiu no Edital de  dia 17  a Avenida Dr. Mário Moutinho (Belém), e que se completou no Edital de 31 de março com a Rua Dr. José Baptista de Sousa (Benfica) e a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt (Avenidas Novas).

A Avenida Dr. Francisco Luís Gomes foi atribuída com a legenda «Médico e Escritor/1829 – 1869» no arruamento que começa na Avenida de Berlim (junto à Piscina), no topo das Avenidas Infante Dom Henrique e Dr. Alfredo Bensaúde, para homenagear o cidadão que nasceu em 1829 na Índia e se licenciou em Medicina pela Escola de Goa (1850), tendo sido Cirurgião-mor  do exército português na Índia a partir de 1860, e ainda o autor de A Economia Rural da Índia Portuguesa, entre outras obras. Este topónimo é único no país.

Mário Moutinho

Mário Moutinho

A Avenida Dr. Mário Moutinho, nasceu com a legenda «Oftalmologista/1877-1961», para perpetuar o médico que dirigiu o serviço de Oftalmologia do Hospital Militar Principal de Lisboa a partir de 1909, e que nove anos depois foi seu subdiretor e mais tarde, diretor. Também este é um topónimo exclusivo de Lisboa.

No último dia do mês de março foram atribuídas a Rua Dr. José Baptista de Sousa/ Coronel Médico/1904 – 1967 na  Rua B à Travessa da Granja na freguesia de Benfica, bem como a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt/ Brigadeiro-Médico/1900 – 1965 no troço da Estrada de Benfica compreendido entre o Largo de São Sebastião da Pedreira e o Largo então  vulgarmente conhecido como Praça de Espanha,  e as legendas destes dois topónimos expressam claramente a componente militar destes homenageados, sendo neste sentido os dois primeiros na toponímia de Lisboa em que a referência militar se liga à medicina.

A escolha do coronel-médico alfacinha  José Baptista de Sousa foi sugerida por um cidadão de seu nome Eduardo Mimoso Serra e a atribuição do nome de Nicolau de Bettencourt resultou de um pedido dos C.T.T. para que houvesse topónimo que evitasse equívocos na distribuição de correio naquela artéria.

José Baptista de Sousa

José Baptista de Sousa

Baptista de Sousa integrou as Forças Expedicionárias a Cabo Verde, e permaneceu em S. Vicente de 22 de fevereiro de 1942 até 10 de setembro de 1944, como diretor do Hospital Militar Principal de Cabo Verde, trabalhando também para os civis, o que lhe granjeou muitas simpatias locais e o epíteto de engenheiro humano. Ao contrário das orientações oficiais declarou a fome como causa de morte em diversos atestados de óbito, demonstrando coragem cívica. De 1947 a 1950, prestou serviço na Escola Médico-Cirúrgica de Goa. De 1951 a 1961 foi  Chefe da Clínica Cirúrgica do Hospital Militar Principal de Lisboa e a partir de 1964, foi  Consultor de Cirurgia da Direção do Serviço de Saúde Militar. O Dr. José Baptista de Sousa foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Avis e, em Mindelo (S. Vicente) o hospital passou a denominar-se Hospital Baptista de Sousa. Este topónimo é único no país.

Nicolau José Martins de Bettencourt concluiu o curso de Medicina em 1924 e, dois anos depois, também o curso de Medicina Tropical. Na sua carreira destacou-se como instrutor dos cursos de oficiais milicianos e dos enfermeiros militares das Escolas Centrais de Defesa do Território bem como Inspetor da Instrução do Serviço de Saúde Militar (1960 e 1961); dirigiu o Hospital Militar de Belém (1945 a 1949), o Hospital Militar Principal (a partir de 1957), os Serviços de Saúde Militar (a partir de  1962) e o Serviço de Saúde da Legião Portuguesa. Durante a presidência do general França Borges na Câmara Municipal de Lisboa, foi também vereador, no mandato de 1960 a 1963.  O seu nome integra também a toponímia da Marinha Grande.

Antes da Guerra Colonial apenas dois médicos militares tinham integrado a toponímia de Lisboa, a saber, a Rua Dr. Mascarenhas de Melo com a legenda «1868 – 1950», por Edital municipal de 24/07/1957, para homenagear um diretor do Hospital Militar da Estrela, e pelo Edital de 19/09/1960 foi a Praça Dr. Teixeira de Aragão com a legenda «Escritor-numismata/1823-1903» que perpetuou o diretor do gabinete de numismática e arqueologia do rei D. Luís I.

Após o 25 de Abril foram dois os médicos militares que tiveram a honra de serem topónimos alfacinhas: a  Escadaria José António Marques, com a legenda «Fundador da Cruz Vermelha Portuguesa/1822 – 1884», por via do Edital de 11 de fevereiro de 1985; e a Rua Dr. Bastos Gonçalves, com a legenda «Brigadeiro – Médico/1898 – 1985», pelo Edital de 21 de fevereiro de 2001, em memória daquele que dirigiu a Revista Portuguesa de Medicina Militar.

Nicolau de Bettencourt

Nicolau de Bettencourt

A rua do fundador do Instituto de Cegos de Lisboa

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

Freguesias da Misericórdia e de Santo António (Foto: Artur Matos)

Neste Dia Internacional das Pessoa com Deficiência abordamos a Rua Prof. Branco Rodrigues, que na própria artéria onde ele residiu muitos anos homenageia desde 1976   o fundador do Instituto de Cegos de Lisboa, pioneiro de um programa de educação inclusiva e promotor das primeiras impressões em Braille feitas em Portugal.

Branco Rodrigues já havia originado um  topónimo no Bairro Jardim, no Lumiar, já que Edital de 31/03/1932  determinara que a Rua “A” se denominasse Branco Rodrigues, a Rua “B” Filipe Duarte e a Avenida nº 6 Ventura Terra, mas o arruamento desapareceu e assim, o Edital municipal de 19/06/1976 determinou que a Travessa de São Sebastião recebesse o seu nome, com a legenda «Tiflólogo 1861 – 1926».

A Biblioteca Nacional de Portugal que administra desde 1976 o Prémio Branco Rodrigues –  instituído pela Comissão Pró-Cinquentenário da Morte de Branco Rodrigues -, enviou nesse mesmo ano uma carta à edilidade lisboeta sugerindo que à Travessa de São Sebastião fosse dado o nome do Professor Branco Rodrigues, que recebeu o seguinte parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 15/06/1976: Considerando que existem em Lisboa vários arruamentos públicos com a designação de S. Sebastião e que a sugerida alteração toponímica merece o consenso unânime das Juntas de Freguesia de S. Mamede e das Mercês; Considerando ainda que, o arruamento em causa, está intimamente ligado à vida do professor Branco Rodrigues que nele residiu por longo tempo; Considerando também que por deliberação camarária de 23 de Março de 1932, a antiga Rua A do Bairro Jardim (a Telheiras), passou a denominar-se Rua Branco Rodrigues, mas que este arruamento já não existe; A Comissão emite parecer favorável preconizando que a Travessa de S. Sebastião passe a denominar-se Rua Professor Branco Rodrigues/Tiflólogo/1861-1926″.

O lisboeta José Cândido Branco Rodrigues (Lisboa/18.10.1861 – 18.10.1926/S. João do Estoril), nascido no seio de uma família da alta burguesia alfacinha, inovou em Portugal com o seu pioneirismo ao criar condições que tornaram possíveis a escolarização, a preparação profissional e intelectual dos deficientes visuais e a sua progressiva inclusão social. Branco Rodrigues ajudou a fundar a Asilo-Escola da Associação Promotora do Ensino dos Cegos (1888), onde introduziu o ensino do Braille e, contribuiu fortemente para a aprovação da legislação que oficializou o ensino dos cegos em Portugal (1894) . Ainda criou o Jornal dos Cegos (1895-1920) e promoveu as primeiras impressões em Braille feitas no país, para além de ter fundado várias instituições para o ensino dos deficientes visuais: o Instituto de Cegos Branco Rodrigues (1900) em Lisboa (nas instalações da Escola Comercial Rodrigues Sampaio) que em 1913 se mudou para um edifício próprio em S. João do Estoril; a Escola de Cegos do Porto (em 1903) e, as Oficinas Branco Rodrigues em Castelo de Vide, tendo-as dotado de bibliotecas em Braille.

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