A Rua Maestro Raúl Ferrão da popular tendinha

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Raúl Ferrão, o compositor da lisboeta A tendinha celebrizada por Hermínia ou Amália, está perpetuado numa Rua do Bairro de Santa Cruz de Benfica, desde 1969 e dezasseis anos após a morte do maestro.

A sugestão de topónimo partiu do próprio Presidente da CML de então, António Vitorino França Borges, tendo o  Edital municipal de 10 de abril de 1969 atribuído a Rua Maestro Raúl Ferrão à Rua 6 do Bairro de Santa Cruz. O mesmo Edital também deu topónimo às restantes ruas do Bairro de Santa Cruz, correspondendo à solicitação da Junta de Freguesia de Benfica já feita em 25 de março de 1966, tendo sido escolhidos para o efeito o nome de 2 militares, 4 atores, 7 jornalistas e escritores, um escultor, um médico e um benemérito, a saber: a Rua Comandante Augusto Cardoso, a Rua Coronel Campos Gonzaga, a Rua Actor Alves da Cunha, a Rua Actor Estêvão Amarante, a Rua Actor Nascimento Fernandes, a Rua Actor Vasco Santana, a Rua Alfredo Pimenta, a Rua Dr. Cunha Seixas, a Rua Eduardo Schwalbach, a Rua Helena de Aragão, a Rua Irene Lisboa, a Rua Jaime Brasil, a Rua Moreira de Almeida, a Rua Júlio Vaz Júnior, a Rua Dr. José Alberto de Faria e a Rua Albino Sousa Cruz.

Raul Ferrão (Lisboa/25.10.1890 – 30.04.1953/Lisboa) era um oficial de artilharia que em paralelo desenvolveu uma carreira de compositor e maestro de música ligeira produzindo para centenas de revistas, operetas, marchas populares e até para alguns filmes como a Canção de Lisboa (1933), a Maria Papoila (1937), Aldeia da Roupa Branca e Varanda dos Rouxinóis (ambos de 1939). Os seus dois temas mais populares foram o fado «A Tendinha» e a canção «Coimbra» (também conhecida como «Avril au Portugal»), que ainda hoje nos assomam à memória. Todavia, também foram êxitos na época inúmeros fados ou canções da sua autoria como «Adeus», «O Balãozinho»«Campino», «Canção de Alcântara», «Carta de um Soldado», «O Cochicho»«Fado das Caldas», «Fado do Marinheiro», «Fado da Melancia», «Lá vai Lisboa»«Lisboa não sejas francesa»«Madragoa», «Maldito Fado», «Maria Severa», «Não Gosto de Ti», «Rosa Enjeitada», «Só à noitinha»ou «Velho Friagem» .  Somou também as vozes de Alberto Ribeiro, Amália, Beatriz Costa, Carlos Ramos, Fernando Farinha, Hermínia, José Pracana, Júlia Barroso, Lucília do Carmo, Maria Clara, Maria da Fé, Maria Teresa de Noronha, Max, Nuno da Câmara Pereira ou Vicente da Câmara, como intérpretes das suas composições.

Raúl Ferrão foi um militar de carreira que frequentou o Colégio Militar e alcançou o posto de tenente-coronel do Exército, tendo sido ainda professor na Escola de Guerra (1917 e 1918), depois de ter cumprido comissões de serviço em África durante a I Guerra Mundial. Foi agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito Industrial (1932) e a Comenda da Ordem Militar de Avis (1935), assim como recebeu em 1945/1946 o Prémio Filipe Duarte do SNI  por «Menina Lisboa» da opereta A Invasão (juntamente com José Galhardo e Mirita Casimiro) e em 1946/1947, o Prémio Del Negro por «Trapeiras de Lisboa» incluída na revista Canções Unidas, para além de em Coimbra existir uma Rua Raúl Ferrão.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Anúncios

A Rua do Professor da Escola do Exército e bombeiro Augusto Gomes Ferreira

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Augusto Gomes Ferreira, na freguesia da Ajuda, perpetua desde 1916 o nome deste militar que foi Professor da Escola do Exército e Comandante dos Bombeiros municipais.

O seu nome foi atribuído para substituir a Rua Carlos Príncipe, por deliberação camarária de 21/09/1916 e Edital de 26/09/1916, provavelmente por a denominação anterior estar relacionada com a monarquia e ser característico da 1ª República a substituição deste tipo de topónimos por outros conotados com a República ou com figuras consideradas heróicas. Como a Rua Carlos Príncipe é anterior a 1889, ano da subida ao trono do rei D. Carlos, e considerando a proximidade da artéria ao Palácio da Ajuda onde o monarca nasceu, a homenagem seria provavelmente a D. Carlos I quando ainda príncipe.

À Rua Augusto Gomes Ferreira foi  acrescida a legenda «Professor da Escola do Exército Insp. dos Incêndios/1854 – 1900», 44 anos depois da atribuição do topónimo, por parecer da Comissão Municipal de Toponímia de 13 de março de 1960.

Augusto Gomes Ferreira (05/04/1854 – 28/12/1900) tentou ser comerciante mas abandonou a área para tirar um curso de condutor de obras públicas e minas, matriculando-se depois na Escola Politécnica, onde completou os preparatórios para a Escola do Exército, onde concluiu o curso de Engenharia e alcançou o posto de capitão depois de 1885. Foi também na Escola do Exército que exerceu a docência da 14ª cadeira, tiro de artilharia.

Em 1889 foi nomeado  Inspector-Geral dos incêndios, designação que se dava ao Comandante dos Bombeiros desde 1794, cabendo-lhe a aquisição de material bem como a organização do pessoal, casernas e oficinas. Foi de sua autoria o plano do novo aquartelamento na Avenida D. Carlos I, nascida do Edital municipal de 28 de Dezembro de 1889, tendo o  Senado Municipal determinado dar ao quartel nº 1 a designação de «Caserna Augusto Ferreira».

O comandante Augusto Ferreira integrou ainda a Comissão que estudou do modelo de viaturas para enfermos e dirigiu a missão de estudo dos operários à Exposição de Paris de 1889. Foi por diversas vezes louvado pela Câmara Municipal de Lisboa, como na altura da greve dos padeiros (em 1890) e na greve dos operários da Companhia do Gás (em 1896). Em 1894,  também recebeu a medalha Recompense par les belles actions do governo francês.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Quatro médicos militares na toponímia de Lisboa em 1970

Francisco Luís Gomes

Em 1970, nove anos após o início da Guerra Colonial, foram colocados na toponímia de Lisboa quatro médicos militares, com a característica comum de terem prestado serviço no Hospital Militar de Lisboa e/ou nos territórios que eram colónias na época: Francisco Luís Gomes, José Baptista de Sousa, Mário Moutinho e Nicolau de Bettencourt.

O primeiro caso ocorreu através do Edital  municipal de 14 de fevereiro e foi a  Avenida Dr. Francisco Luís Gomes (na freguesia dos Olivais), a que se seguiu no Edital de  dia 17  a Avenida Dr. Mário Moutinho (Belém), e que se completou no Edital de 31 de março com a Rua Dr. José Baptista de Sousa (Benfica) e a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt (Avenidas Novas).

A Avenida Dr. Francisco Luís Gomes foi atribuída com a legenda «Médico e Escritor/1829 – 1869» no arruamento que começa na Avenida de Berlim (junto à Piscina), no topo das Avenidas Infante Dom Henrique e Dr. Alfredo Bensaúde, para homenagear o cidadão que nasceu em 1829 na Índia e se licenciou em Medicina pela Escola de Goa (1850), tendo sido Cirurgião-mor  do exército português na Índia a partir de 1860, e ainda o autor de A Economia Rural da Índia Portuguesa, entre outras obras. Este topónimo é único no país.

Mário Moutinho

Mário Moutinho

A Avenida Dr. Mário Moutinho, nasceu com a legenda «Oftalmologista/1877-1961», para perpetuar o médico que dirigiu o serviço de Oftalmologia do Hospital Militar Principal de Lisboa a partir de 1909, e que nove anos depois foi seu subdiretor e mais tarde, diretor. Também este é um topónimo exclusivo de Lisboa.

No último dia do mês de março foram atribuídas a Rua Dr. José Baptista de Sousa/ Coronel Médico/1904 – 1967 na  Rua B à Travessa da Granja na freguesia de Benfica, bem como a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt/ Brigadeiro-Médico/1900 – 1965 no troço da Estrada de Benfica compreendido entre o Largo de São Sebastião da Pedreira e o Largo então  vulgarmente conhecido como Praça de Espanha,  e as legendas destes dois topónimos expressam claramente a componente militar destes homenageados, sendo neste sentido os dois primeiros na toponímia de Lisboa em que a referência militar se liga à medicina.

A escolha do coronel-médico alfacinha  José Baptista de Sousa foi sugerida por um cidadão de seu nome Eduardo Mimoso Serra e a atribuição do nome de Nicolau de Bettencourt resultou de um pedido dos C.T.T. para que houvesse topónimo que evitasse equívocos na distribuição de correio naquela artéria.

José Baptista de Sousa

José Baptista de Sousa

Baptista de Sousa integrou as Forças Expedicionárias a Cabo Verde, e permaneceu em S. Vicente de 22 de fevereiro de 1942 até 10 de setembro de 1944, como diretor do Hospital Militar Principal de Cabo Verde, trabalhando também para os civis, o que lhe granjeou muitas simpatias locais e o epíteto de engenheiro humano. Ao contrário das orientações oficiais declarou a fome como causa de morte em diversos atestados de óbito, demonstrando coragem cívica. De 1947 a 1950, prestou serviço na Escola Médico-Cirúrgica de Goa. De 1951 a 1961 foi  Chefe da Clínica Cirúrgica do Hospital Militar Principal de Lisboa e a partir de 1964, foi  Consultor de Cirurgia da Direção do Serviço de Saúde Militar. O Dr. José Baptista de Sousa foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Avis e, em Mindelo (S. Vicente) o hospital passou a denominar-se Hospital Baptista de Sousa. Este topónimo é único no país.

Nicolau José Martins de Bettencourt concluiu o curso de Medicina em 1924 e, dois anos depois, também o curso de Medicina Tropical. Na sua carreira destacou-se como instrutor dos cursos de oficiais milicianos e dos enfermeiros militares das Escolas Centrais de Defesa do Território bem como Inspetor da Instrução do Serviço de Saúde Militar (1960 e 1961); dirigiu o Hospital Militar de Belém (1945 a 1949), o Hospital Militar Principal (a partir de 1957), os Serviços de Saúde Militar (a partir de  1962) e o Serviço de Saúde da Legião Portuguesa. Durante a presidência do general França Borges na Câmara Municipal de Lisboa, foi também vereador, no mandato de 1960 a 1963.  O seu nome integra também a toponímia da Marinha Grande.

Antes da Guerra Colonial apenas dois médicos militares tinham integrado a toponímia de Lisboa, a saber, a Rua Dr. Mascarenhas de Melo com a legenda «1868 – 1950», por Edital municipal de 24/07/1957, para homenagear um diretor do Hospital Militar da Estrela, e pelo Edital de 19/09/1960 foi a Praça Dr. Teixeira de Aragão com a legenda «Escritor-numismata/1823-1903» que perpetuou o diretor do gabinete de numismática e arqueologia do rei D. Luís I.

Após o 25 de Abril foram dois os médicos militares que tiveram a honra de serem topónimos alfacinhas: a  Escadaria José António Marques, com a legenda «Fundador da Cruz Vermelha Portuguesa/1822 – 1884», por via do Edital de 11 de fevereiro de 1985; e a Rua Dr. Bastos Gonçalves, com a legenda «Brigadeiro – Médico/1898 – 1985», pelo Edital de 21 de fevereiro de 2001, em memória daquele que dirigiu a Revista Portuguesa de Medicina Militar.

Nicolau de Bettencourt

Nicolau de Bettencourt

A rua do fundador do Instituto de Cegos de Lisboa

Freguesias da Misericórdia e de Santo António

Freguesias da Misericórdia e de Santo António (Foto: Artur Matos)

Neste Dia Internacional das Pessoa com Deficiência abordamos a Rua Prof. Branco Rodrigues, que na própria artéria onde ele residiu muitos anos homenageia desde 1976   o fundador do Instituto de Cegos de Lisboa, pioneiro de um programa de educação inclusiva e promotor das primeiras impressões em Braille feitas em Portugal.

Branco Rodrigues já havia originado um  topónimo no Bairro Jardim, no Lumiar, já que Edital de 31/03/1932  determinara que a Rua “A” se denominasse Branco Rodrigues, a Rua “B” Filipe Duarte e a Avenida nº 6 Ventura Terra, mas o arruamento desapareceu e assim, o Edital municipal de 19/06/1976 determinou que a Travessa de São Sebastião recebesse o seu nome, com a legenda «Tiflólogo 1861 – 1926».

A Biblioteca Nacional de Portugal que administra desde 1976 o Prémio Branco Rodrigues –  instituído pela Comissão Pró-Cinquentenário da Morte de Branco Rodrigues -, enviou nesse mesmo ano uma carta à edilidade lisboeta sugerindo que à Travessa de São Sebastião fosse dado o nome do Professor Branco Rodrigues, que recebeu o seguinte parecer da Comissão Municipal de Toponímia na sua reunião de 15/06/1976: Considerando que existem em Lisboa vários arruamentos públicos com a designação de S. Sebastião e que a sugerida alteração toponímica merece o consenso unânime das Juntas de Freguesia de S. Mamede e das Mercês; Considerando ainda que, o arruamento em causa, está intimamente ligado à vida do professor Branco Rodrigues que nele residiu por longo tempo; Considerando também que por deliberação camarária de 23 de Março de 1932, a antiga Rua A do Bairro Jardim (a Telheiras), passou a denominar-se Rua Branco Rodrigues, mas que este arruamento já não existe; A Comissão emite parecer favorável preconizando que a Travessa de S. Sebastião passe a denominar-se Rua Professor Branco Rodrigues/Tiflólogo/1861-1926″.

O lisboeta José Cândido Branco Rodrigues (Lisboa/18.10.1861 – 18.10.1926/S. João do Estoril), nascido no seio de uma família da alta burguesia alfacinha, inovou em Portugal com o seu pioneirismo ao criar condições que tornaram possíveis a escolarização, a preparação profissional e intelectual dos deficientes visuais e a sua progressiva inclusão social. Branco Rodrigues ajudou a fundar a Asilo-Escola da Associação Promotora do Ensino dos Cegos (1888), onde introduziu o ensino do Braille e, contribuiu fortemente para a aprovação da legislação que oficializou o ensino dos cegos em Portugal (1894) . Ainda criou o Jornal dos Cegos (1895-1920) e promoveu as primeiras impressões em Braille feitas no país, para além de ter fundado várias instituições para o ensino dos deficientes visuais: o Instituto de Cegos Branco Rodrigues (1900) em Lisboa (nas instalações da Escola Comercial Rodrigues Sampaio) que em 1913 se mudou para um edifício próprio em S. João do Estoril; a Escola de Cegos do Porto (em 1903) e, as Oficinas Branco Rodrigues em Castelo de Vide, tendo-as dotado de bibliotecas em Braille.

0 rua-professor-branco-rodrigues-placa