A Rua do Vintista Silva Carvalho e da Panificação Mecânica em Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

No centenário da Revolução de 1820, a edilidade lisboeta fez a junção da Rua de São Luís e da Rua de São João dos Bem Casados mais o Largo da Páscoa para dedicar uma rua a José da Silva Carvalho, um dos fundadores do Sinédrio e impulsionador da Revolução Vintista,  artéria na qual firmou tradições no séc. XX a Panificação Mecânica, instalada no nº 209 de hoje, fazendo esquina para a Rua de Campo de Ourique.

Foi por deliberação camarária de 20 de setembro de 1920 e Edital de 16 de outubro que as Ruas de São Luís e de São João Bem Casados junto com o Largo da Páscoa passaram a constituir um único arruamento designado Rua Silva Carvalho, com a legenda «Um dos Iniciadores da Revolução de 1820/1782 – 1856». Recorde-se que o movimento liberal Vintista eclodira no Porto em 24 de agosto de 1920, com Silva Carvalho a integrar a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, mas em Lisboa o movimento só foi desencadeado em setembro, a dia 15, e só em 28 de setembro os governos do Porto e de Lisboa se uniram-se numa única Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, com o encargo de organizar as eleições para as Cortes Constituintes.

No entanto, pelo menos desde o início do séc. XX existira já uma outra artéria dedicada a Silva Carvalho que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915, pelo que no centenário da Revolução de 1820, voltou o 1º Presidente do Supremo Tribunal de Justiça à toponímia de Lisboa. Na planta de janeiro de 1911 de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia é visível a Rua José da Silva Carvalho a correr em paralelo ao Parque Eduardo VII desde o Quartel de Artilharia nº 1 ao Quartel do Vale do Pereiro. Na documentação municipal encontram-se documentos que referem a Rua José da Silva Carvalho em 1901, na planta de construção da Rua Marquês da Fronteira; em 1903, numa venda de terrenos que a menciona como o acréscimo de antiga Rua de Entre Muros e, de fevereiro a novembro de 1915 no projeto de remodelação das ruas Castilho, Rodrigo da Fonseca, Artilharia Um, Joaquim António de Aguiar e Parque Eduardo VII.

José da Silva Carvalho (Dianteira- Stª Comba Dão/19.12.1782- 05.11.1856/freguesia de Santa Isabel – Lisboa), licenciado em Direito em 1805  seguiu a carreira de magistrado em Recardães e depois no Porto, cidade onde fundou com Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges e João Ferreira Viana o Sinédrio, a partir do qual se forjou a Revolução de 1820 com a ajuda dos militares. Foi depois membro da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e Justiça e da Segurança Pública (1821-1822) e ainda Ministro de Estado (1822). Durante o miguelismo – quer em 1823 quer em 1828-, emigrou para Inglaterra  e voltou para o cerco do Porto, assumindo depois a pasta da Fazenda (1832-1835), da Marinha e Ultramar (1833) e a da Justiça (1832-1834). Foi também  o 1.º Presidente Presidente do Supremo Tribunal de Justiça empossado a 14 de setembro de 1833 e até 1836, cargo que voltou a exercer em 1840-1844 e 1847-1856. Foi também deputado de 1834 a 1836 e, novamente, duas vezes Ministro da Fazenda (1835 e 1836). Exila-se pela 3ª vez, durante o Setembrismo, entre 1836 e 1838. Regressado em 1838, volta a ser deputado até 1842. Refira-se ainda que foi nomeado Par do Reino mas recusou sempre títulos de nobreza por ser Maçon.

Nesta artéria de Campo de Ourique existia desde o início do séc. XX a Companhia de Panificação Lisbonense que em 1915 passou a ser propriedade da Nacional (Companhia Nacional de Moagem). Em 1941, o estabelecimento já era da Companhia Industrial de Portugal e Colónias que o arrendou em 1958 à Panificação Mecânica Lda. O edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público,tem características de Arte Nova,  no exterior e no interior, com articulação de vidro e ferro na fachada, motivos naturalistas como o trigo e azulejos da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.

Mem de Sá, 3º governador do Brasil, numa Rua de Alvalade

Freguesia de Alvalade                                                                                                                 (Foto: Sérgio Dias)

Mem de Sá, governador do Brasil de 1556 a 1572, está desde a publicação do Edital de 29 de janeiro de 1979 fixado numa Rua de Alvalade, com a legenda «Governador do Brasil/Século XVI».

Por solicitação da Secção de Escrivania da CML para atribuição de topónimos aos arruamentos ainda sem nomenclatura própria, a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer favorável a que a Rua 4.2 do Novo Bairro das Fonsecas (junto à Avenida General Norton de Matos) passasse a designar-se Rua Mem de Sá, o que se concretizou pelo Edital municipal de 29/01/1979, que também colocou na Rua 4.3 do Novo Bairro das Fonsecas, a Rua Dom Luís da Cunha, em homenagem a este diplomata do séc. XVII-XVIII.

mem-de-sa-caraMem de Sá (Coimbra/c. 1504 – 02.03.1572/Baía- Brasil), meio-irmão do poeta Sá de Miranda (1481 – 1558) por parte do pai, Gonçalo Mendes de Sá, cónego da Sé de Coimbra, formou-se em Leis pela Universidade de Salamanca (1526) e  em 1532 tornou-se juiz desembargador da Casa dos Agravos da Suplicação. Foi nomeado como 3º Governador-geral do Brasil em 23 de julho de 1556 e distinguiu-se por transferir a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro dos morros de Cara de Cão e do Pão de Açúcar onde o seu sobrinho Estácio de Sá a fundara, para junto do morro do Castelo, em 1 de março de 1567, por motivos de defesa. Mem de Sá também reorganizou a administração, incentivou a produção açucareira e o comércio, avançando com a penetração nos sertões e a pacificação dos índios, quer com o apoio aos Jesuítas para a sua política de aldeamentos quer por guerra contra os índios revoltosos, para além de ter organizado 2 expedições para expulsar os franceses (1567). Também estimulou o tráfico de escravos africanos para o Brasil ao mesmo tempo que decretava leis que protegiam da escravidão os indígenas já catequizados e combateu a antropofagia.

Mem de Sá governou até ao ano da sua morte, 1572. D. Luís de Vasconcelos foi enviado em 1570 para ser seu sucessor,  mas foi morto na viagem no decorrer de um ataque de corsários franceses e quem lhe sucedeu foi Salvador Correia de Sá.

Para além de Lisboa, Mem de Sá tem artérias homónimas nas cidades brasileiras de Belo Horizonte, Camoina Grande, Criciúma, Cuiabá, Eunapolis, Manaus, Maringá, Mogi Guaçu, Niterói, Osasco, São Miguel do Oeste, São Paulo, Vitória da Conquista e uma Avenida no Rio de Janeiro.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

 

A Rua de Zelins, o autor do «Menino de engenho»

Freguesia de Alvalade (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

Por sugestão de Guedes de Amorim num artigo publicado no Século Ilustrado,  a Comissão Municipal de Toponímia deu parecer positivo a que o autor do romance Menino de engenho, conhecido pelos amigos como Zélins, integrasse a toponímia de Lisboa no arruamento ou Praceta projetado entre a Avenida do Brasil e as Ruas Antónia Pusich e Afonso Lopes Vieira, na Freguesia de Alvalade, como Rua José Lins do Rego, o que aconteceu pelo Edital de 28 de outubro de 1960.

Escritor José Lins do Rego, 2 negativos 6x6 cm PB nitrato

José Lins do Rego Cavalcanti (Pernambuco/03.06.1901 – 12.09. 1957/Rio de Janeiro) morou no Engenho Tapuá de seu pai, e após o falecimento de sua mãe mudou-se para o engenho do seu avô materno, que era o Coronel Bubu do Corredor (José Lins Cavalcanti de Albuquerque), senhor de 8 engenhos da várzea do Rio Paraíba.

Formou-se em Direito no Recife colaborando também  no Diário de Recife e sendo um dos fundadores do semanário Dom Casmurro. Em 1925 ingressou no Ministério Público de Minas Gerais, como promotor em Manhuaçu, mas no ano seguinte transferiu-se  para a capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal de bancos até 1930, e fiscal de consumo, de 1931 a 1935, sendo assim que participou do movimento regionalista de 33 organizado por Gilberto Freyre no Recife. Em Maceió, colaborou no Jornal de Alagoas e participou no grupo de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aloísio Branco e Carlos Paurílio, entre outros. Publicou o seu 1º livro, Menino de engenho (1932), que foi Prémio da Fundação Graça Aranha e impulsionou a literatura regionalista do nordeste do Brasil. Em 1933 publicou Doidinho, o 2º livro do «Ciclo da Cana-de-Açúcar», a que se seguiram Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935), e Usina (1936), no mesmo ano em que deu à estampa o seu único livro infantil: Histórias da Velha Totonha.

Em 1935 mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a colaborar com O Globo e Diários Associados. Foi também este o ano em que ganhou  paixão pelo futebol, passando de sócio do Flamengo a cronista desportivo e a dirigente do Clube de Regatas do Flamengo, tendo publicado 1571 crónicas desportivas só no Jornal dos Sports. A sua obra passou a espelhar  o neorrealismo pós-modernista brasileiro, com títulos como Fogo Morto (1942) ou Cangaceiros (1953). Entre muitas outras obras de Lins do Rego, destacam-se Água mãe (Prémio da Fundação Felipe de Oliveira), Eurídice (Prémio Fábio Prado). Lins do Rego foi ainda membro da Academia Paraibana de Letras e da Academia Brasileira de Letras (1955).

No presente, podemos encontrar o seu nome também perpetuado em artérias brasileiras de Belo Horizonte, Curitiba, Estado de São Paulo, Estado do Paraná, Goiás, Paraíba, Pelotas, Petrolina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

Acrescento à Rua Pascoal de Melo em 1916

O Edital tralala rebebeu aos ninhos

O Edital de 11 de agosto de 1916 que tornou maior a Rua Pascoal de Melo

Por Edital camarário de 11 de agosto de 1916 foram incorporados troços de outros arruamentos na Rua Pascoal de Melo conferindo-lhe desde aí os limites que ainda hoje tem.

Foram-lhe acrescentados os troços de via pública compreendidos entre o viaduto de Arroios e a Avenida Almirante Reis, bem como o troço entre esta Avenida e a Rua Francisco Sanches, passando, assim a rua Rua Pascoal de Melo a ter começo na Rua Francisco Sanches e a findar do lado poente no Largo de Dona Estefânia.

A Rua Pascoal de Melo nasceu como Rua Pascoal José de Melo, por deliberação camarária de 5 de outubro de 1882 e edital de 13 de dezembro de 1882. Sete anos depois,  por edital de 8 de junho de 1889, passou a denominar-se Rua de Pascoal de Melo. E mais 62 anos passados, o Vice-Presidente da CML, Luís Pastor de Macedo, homologou o parecer da Comissão Municipal de Toponímia para que fosse suprimida a  partícula «de» e ficou desde aí a designar-se como Rua Pascoal de Melo.

A Câmara pretendeu homenagear Pascoal José de Melo (Ansião/06.04.1738 – 24.09.1798/Lisboa), ilustre jurisconsulto que se formou com apenas 19 anos em Leis na Universidade de Coimbra e onde ficou a ensinar até 1783, ao ser chamado a Lisboa para membro da Junta do Novo Código. Foi também desembargador da Casa da Suplicação (1758) e conselheiro régio (1793). A sua obra fundamental –  Institutiones Juris Civilis Lusitani (1798) – foi adotada para a cadeira de Direito Pátrio, sendo considerado uma das mais significativas expressões da reforma pombalina de 1772 e da ciência jurídica portuguesa da época.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

O regenerador Martens Ferrão na rua onde se ergueu o Cinema Mundial

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Cinema Mundial, na Rua Martens Ferrão, em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

O político regenerador conhecido como Martens Ferrão está desde 1902 perpetuado numa artéria de Picoas, graças a um Edital da câmara presidida pelo Conde d’Ávila que perpetuou mais onze políticos regeneradores em artérias lisboetas e nesta rua partilhada hoje pelas freguesias das Avenidas Novas e de Arroios nasceu há 51 anos o Cinema Mundial.

O Edital de 29 de novembro de 1902 colocou nesta zona, em Avenidas, os nomes dos políticos António de Serpa, Casal Ribeiro, Duque D’Ávila, Hintze Ribeiro (hoje Avenida Miguel Bombarda), José Luciano (hoje Avenida Elias Garcia),  e em Ruas, os nomes de Andrade Corvo, António Enes, Barros Gomes (hoje Rua Viriato), Latino Coelho , Luís Bivar (hoje Avenida), Martens Ferrão e Pinheiro Chagas, bem como o médico Pedro Nunes e o matemático e cartógrafo Filipe Folque.

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Martens Ferrão no Diário Ilustrado de 3 de novembro de 1890

Sessenta e três depois, a 22 de setembro de 1965 abriu no nº 12 A da Rua Martens Ferrão o Cinema Mundial, concebido pelo Arqº Manuel Ramos Chaves. Encerrou em 2004, no ano seguinte a ter exibido a última obra de João César Monteiro (Vaivém) .

Este topónimo perpetua na memória da cidade João Baptismo da Silva Ferrão de Carvalho Martens (Lisboa – Olivais/28.01.1824 – 15.11.1895/Florença), mais conhecido como Martens Ferrão, um jurisconsulto que se destacou sobretudo como um deputado muito interventivo do Partido Regenerador (de 1854 a 1871) e com capacidade de produzir propostas de legislação, ficando também famoso por ter apoiado o governo do Duque d’Ávila na decisão de proibir as Conferências do Casino ( que decorreram de 22 de março a 26 de junho de 1871). Foi também ministro da justiça e negócios eclesiásticos (de 16 de março de 1859 a 4 de julho de 1860) e ministro do reino (1866 a 1868), substituindo António Augusto Aguiar no Ministério dos Negócios do Reino e assim promoveu a Lei da Administração Civil de 26 de junho de 1867, conhecida como Código Martens Ferrão, cujo mapa final de divisão do território ao ser publicado em dezembro gerou descontentamento generalizado e manifestações populares que levaram à queda do governo em janeiro de 1868 ( a Janeirinha) e à revogação da reforma.

Martens Ferrão exerceu ainda funções de procurador geral da Coroa e da Fazenda (1868- 1885), par do reino ( 1871), conselheiro de Estado (1874), aio dos príncipes na educação literária e científica (1874) e embaixador de Portugal junto da Santa Sé (1885-1895). Refira-se ainda que a partir de 1858 foi também lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, afirmando-se como um reputado especialista em Direito.

Fregeusias de Arroios e das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

O miguelista José Acúrcio das Neves numa rua do Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

José Acúrcio das Neves, magistrado defensor do miguelismo,  foi colocado numa rua do Bairro dos Aliados, na 2ª fase de colocação de topónimos em 1932, já que na 1ª fase haviam sido colocadas figuras republicanas ou heróis nacionais como Egas Moniz.

Coube-lhe a Rua 7 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Barão Sabrosa à Rua Carvalho Araújo (hoje no troço que passou a ser Rua Abade Faria), pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, junto com o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6 e o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3.

José Acúrcio das Neves (Fajão (hoje Pampilhosa da Serra) – Cavaleiros de Baixo /14.12.1766 – 06.05.1834/Sarzedo – Arganil) foi um magistrado e político, também por alguns considerado pioneiro em estudos de economia portuguesa. Findo o Curso de Leis em Coimbra (1787) foi nomeado juiz de fora de Angra – que em 12 de janeiro de 1837 se passou a denominar Angra do Heroísmo-, no período de 1795 a 1799, passando de 1799 a 1802 a corregedor e a participar no governo da Capitania.

Com a formação da Junta Provisória do Porto e iniciada a resistência ao invasor napoleónico, retirou-se para a sua terra natal e favoreceu a resistência, nomeadamente com um conjunto de opúsculos – Obras Patrióticas – incitando a resistências popular contra os franceses, que foram até traduzidos e distribuídos em Espanha. Em 1810 passou a ser Desembargador da Relação do Porto, e nos anos seguintes foi acumulando os lugares de deputado, de vogal da direcção da Real Fábrica de Sedas e da Obra das Águas Livres, de secretário da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação  e ainda vogal da Junta de Liquidação dos fundos da extinta Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. Em 1818 chegou a propor à Junta do Comércio a introdução da máquina a vapor em Portugal.

Dedicou-se também a escritos sobre economia política e história contemporânea, como os 5 volumes da História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino (1810-1811) ou os 2 volumes de Variedades sobre Objectos Relativos às Artes, Comércio e Manufacturas (1814 -1817), tendo sido eleito sócio da Academia das Ciências de Lisboa em 27 de agosto de 1810.

Acérrimo defensor do miguelismo e opositor das ideias do liberalismo vintista publicou diversas obras a expressá-lo, entre 1821 e e 1824, e logo em 1821 foi demitido dos principais cargos que ocupava. Em 1922 tornou-se deputado eleito  por Arganil. Após a Vilafrancada  foi readmitido na Junta do Comércio e demitido em 1824, sendo depois preso por participação na Abrilada. Após a morte de D. João VI, voltou aos seus cargos em 1826. E com o governo absolutista de D. Miguel, em 1828, foi nomeado Procurador Letrado da cidade de Lisboa na Junta dos Três Estados, tendo ficado aí famoso o seu discurso de legitimação de D. Miguel e da manutenção da monarquia de direito divino. Com a epidemia de cólera  que grassou em Lisboa em 1833 partiu para as Caldas da Rainha  e aí redigiu o boletim do exército de D. Miguel. Ainda nesse ano de 1833, com a vitória das forças liberais  refugiou-se no concelho de Arganil, na terra natal da esposa, onde foi encontrado num palheiro e morto.

 

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do republicano João de Menezes

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

João de Menezes, deputado e ministro da República, deu nome à Rua 4 do Bairro dos Aliados em 1926, com a legenda «Precursor do Regime Republicano/Século XIX» devido ao seu envolvimento no 31 de Janeiro.

Foi pela deliberação da Comissão Executiva da Câmara de 12 de junho de 1926  e Edital municipal de dia 26 do mesmo mês que assim foi fixado, junto com a Rua Casimiro Freire na Rua 5, com a legenda «Apóstolo da instrução popular/Século XIX». Já antes, por deliberação camarária de 30 de dezembro de 1925 e Editais de 16 de janeiro e de 27 de janeiro de 1926 haviam sido colocados no Bairro dos Aliados Egas Moniz  na Rua 2 e o Actor João Rosa na Rua 1.

João de Menezes em 1900

João de Menezes em 1900

João Duarte de Menezes (Lisboa/22.04.1868 – 08.04.1918/Lisboa), formou-se em Direito na Universidade de Coimbra entre 1886 e 1895 e foi advogado em Lisboa e Porto, jornalista e deputado, sendo  desde 1881 um dos vultos importantes do partido republicano. Manifestou-se contra o Ultimato inglês, nas páginas do jornal A Pátria e participou no 31 de Janeiro, no Porto, tendo mesmo por causa dos seus ideais políticos sido preso por três meses no Limoeiro, em Lisboa. Pertenceu ainda à Maçonaria, iniciado em 1892 na loja Simpatia, com o nome de Oberdank.

Colaborou em vários jornais republicanos, como nos periódicos portuenses Voz Pública (de 1896 a 1899) e O Norte, que fundou em 1900.  Em 1903 fundou em Lisboa O Debate e foi secretário da redação do  A Luta (1910), dirigido por Brito Camacho. Foi eleito deputado  em 1906, 1908, 1910 e 1911 bem como Diretor-geral da instrução secundária em 1910 e 1911, para além de ter sido Ministro da Marinha (3 de setembro a 12 de novembro de 1911) no governo de João Chagas e em 1914, presidente do Supremo Tribunal Administrativo.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Supremo Tribunal de Justiça, Mouzinho da Silveira

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Mouzinho da Silveira, atribuída por deliberação camarária de 6 de maio de 1882 no Bairro Barata Salgueiro, em homenagem ao jurisconsulto que fundou o Supremo Tribunal de Justiça, tem no seu nº 12 uma obra de Ventura Terra, de 1907: a casa do médico João Silvestre de Almeida (1865-1936), com vitrais Arte Nova e um mural de Veloso Salgado.

Pela mesma deliberação camarária foram também atribuídos na mesma área, por unanimidade, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Alexandre Herculano, a Rua Castilho, a Rua Passos Manuel ( que em 1887 passou a designar-se Rua Rosa Araújo) e a Praça do Marquês de Pombal.

Mouzinho da Silveira 1925Mouzinho da Silveira 1994

De seu nome completo José Xavier Mouzinho da Silveira (Castelo de Vide/12.07.1780 – 04.04.1849/Lisboa) foi um político da revolução liberal e jurisconsulto que criou o Supremo Tribunal de Justiça. Como legislador conseguiu em 1832 algumas das mais profundas modificações nas áreas da fiscalidade e da justiça como a abolição do dízimo, a supressão da hereditariedade dos cargos públicos e de outros privilégios, a liberdade de ensino a casas particulares permitindo a criação de Academias e Grémios, sendo também sua a primeira reforma administrativa liberal.

Formado em Direito em 1802, foi juiz em Marvão, Setúbal e Portalegre e a partir de 1821, administrador das Alfândegas e foi na Vilafrancada Ministro da Fazenda (maio e junho de 1823) para no ano seguinte, durante a Abrilada ser preso se tornar um intransigente defensor da Carta Constitucional pelo que também se exilou em Paris em 1828. Participou na guerra civil de 1832-34, tendo sido ministro da Fazenda e da Justiça, durante a Regência dos Açores de D. Pedro IV,  de março a dezembro de 1832. Regressou ao Parlamento em 1834 e a dirigir as Alfândegas do Sul em 1835 mas voltou a exilar-se em 1836 após a Revolução de Setembro. Regressou em 1839 como deputado mas retirou-se da vida política a partir do ano seguinte para ser apenas um abastado proprietário rural.

Mouzinho da Silveira está homenageado na Sala dos Passos Perdidos da Assembleia da República numa pintura a óleo de Columbano, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa numa pintura a óleo de José Rodrigues (1866) e também o Museu Grão Vasco possui um retrato  de Mouzinho da autoria de Columbano.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida Afonso Costa do Parque Eduardo VII para o Areeiro

 

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Afonso Costa que foi um dos Primeiros Ministros da I República e nessa qualidade acompanhou o Presidente da República, Bernardino Machado, em 1917, na visita às tropas portuguesas em França, ficou desde 1976 fixado numa Avenida lisboeta, embora no decorrer desse ano tenha passado do topo do Parque Eduardo VII para o Areeiro.

A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu  que Avenida Afonso Costa fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho, artéria que hoje conhecemos por Alameda Cardeal Cerejeira (Edital municipal de 14/04/1982). No entanto, duas reuniões depois, em 30 de dezembro de 1976 passou o topónimo para «o arruamento que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», com a legenda «Professor e estadista/1871 – 1937» e assim ficou registado pelo edital municipal desse mesmo dia. No ano seguinte, no dia 6 de março, o próprio Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Aquilino Ribeiro Machado, procedeu à inauguração desta Avenida que nos dias de hoje faz a ligação da Praça Francisco Sá Carneiro à Rotunda das Olaias.

Atlântida, 15.09.1916

Atlântida, 15.09.1916

Afonso Costa  foi Presidente do Ministério (hoje diríamos Primeiro Ministro) desde 1913 e assim continuava em 1917, tendo visitado as tropas do Corpo Expedicionário Português em França, de 8 a 25 de outubro, com o Presidente da República Bernardino Machado, quando Portugal tinha mais de 100 mil homens a combater  na I Guerra Mundial, sendo que cerca de metade defendiam as fronteiras de Angola e Moçambique desde  o verão de 1914, enquanto os outros 50 mil portugueses combatiam na Flandres.  Em dezembro de 1917, foi destituído como a tomada do poder por Sidónio Pais, mas em 28 de junho de 1919 chefiou a delegação portuguesa à Conferência de Paz e assinou em representação de Portugal o Tratado de Versalhes e recebeu a 10 de Julho a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada.

Afonso Augusto da Costa (Seia/06.03.1871 – 11.05.1937/Paris) licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra e  doutorado com a tese «A Igreja e a Questão Social» (1895), foi um advogado de prestígio e um dos juristas mais respeitados do seu tempo devido ao rigor da argumentação e a fundamentação das suas teses. Desenvolveu também uma carreira académica como professor na Universidade de Coimbra (de Economia Política e Organização Judiciária), na Escola Politécnica de Lisboa, na Faculdade de Direito de Lisboa – que fundou em 1913 e de que foi o primeiro diretor – e ainda, no Instituto Superior de Comércio (1915).

A sua participação política começara antes da proclamação da República, no Partido Republicano, tendo em 1890 publicado com António José de Almeida o jornal anti-monárquico Ultimatum e  participado na organização das revoltas de 31 de janeiro de 1891 e de 28 de janeiro de 1908 (em que foi preso). Distinguiu-se pelo ímpeto dos seus discursos contra o regime monárquico e como deputado pelo Partido Republicano (1899, 1906-1907, 1908 e 1910). Após a implantação da República  foi também deputado (de 1911 a 1926) e assumiu funções governativas como Ministro da Justiça (1910 e 1911), Ministro das Finanças (1913-1914 e 1915-1917) e Presidente do Ministério (1913-1914, 1915-1916 e 1917). Refira-se ainda que para além do contributo que deu à Constituição Republicana (1911), devem-se-lhe as iniciativas políticas que conduziram à elaboração de leis, como a Lei da Família, a Lei do Registo Civil, a Lei do Divórcio, a Lei da Separação do Estado e das Igrejas (1911), a Lei do Inquilinato, a Lei da Reorganização Judiciária, a Lei da Reforma Monetária ou a Lei da Expulsão das Ordens Religiosas. Foi afastado pelo golpe de Sidónio Pais mas depois dele, Afonso Costa foi nomeado presidente da delegação portuguesa na Conferência de Paz de Versalhes e mais tarde, presidente da delegação portuguesa junto da Sociedade das Nações, cargo de que foi demitido logo após o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. Exilado em Paris, fundou em fevereiro de 1927,  a Liga da Defesa da República com Álvaro de Castro, António Sérgio , Jaime Cortesão e José Domingues dos Santos. Foi agraciado postumamente com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1980).

 

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)