A Rua Vilhena Barbosa, em homenagem ao autor de Monumentos de Portugal, no Arco do Cego

Freguesia do Areeiro
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O historiador e arqueólogo do séc. XIX, autor de Monumentos de Portugal, historicos, artisticos e archeologicos, Inácio de Vilhena Barbosa, está homenageado desde 1933 numa Rua  do Bairro do Arco do Cego.

Nascida como Rua de Vilhena Barbosa, pelo Edital municipal de 18 de julho de 1933, na Rua 7 do Bairro do Arco do Cego, a partícula «de» foi suprimida por parecer da Comissão de Toponímia já que não existira uma relação de posse entre o espaço e o homenageado e assim foi homologado pelo Vice-Presidente da edilidade em 13 de abril de 1948.

Pelo mesmo edital de 18 de julho de 1933 foram atribuídos no mesmo Bairro Social do Arco do Cego mais 7 topónimos –  Brito Aranha (na Rua nº 1), Barbosa Colen (Rua nº 2), Arnaldo Gama (Rua nº 3),  Fernando Pedroso (Rua nº 4), Caetano Alberto (Rua nº 5), Gomes Leal (Rua nº 6) e Xavier Cordeiro (Rua nº 8) – tendo sido todos inaugurados em cerimónia pública de 10 de março de 1935.

A construção no Bairro do Liceu Dona Filipa de Lencastre cortara as Ruas Desidério Beça e Cardoso de Oliveira e em 1955, também a construção das escolas primárias cortou em duas as Ruas Vilhena Barbosa, Gomes Leal, Arnaldo Gama e Barbosa Colen, ficando desde aí a Rua Vilhena Barbosa contida entre a Rua Brás Pacheco e a Rua Cardoso de Oliveira.

Inserto em Monumentos de Portugal, historicos, artisticos e archeologicos em 1886

Ignacio de Vilhena Barboza (Lisboa/31.07.1811 – 26.11.1890/Lisboa ?), conforme a grafia original do ano do seu nascimento, foi um historiador e arqueólogo, notável pela sua inventariação dos monumentos portugueses e as suas biografias,  que havia feitos os seus estudos secundários no estabelecimento régio do bairro do Rossio (sujeito à Universidade de Coimbra) e no Real Colégio de S. Vicente de Fora, destinado que estava à carreira eclesiástica mas que abandonou em 1834.

Da sua obra com cariz arqueológico destacam-se, por ordem cronológica, os 2 tomos de Estudos Históricos e Arqueológicos (1874 – 1875)  que junta um conjunto de artigos sobre a criação do arquivo da Torre do Tombo e das  bibliotecas em Portugal, os pelourinhos, o ouro das Minas do Brasil ou a História do Tabaco; com Possidónio da Silva as Noções elementares de Archeologia (1878) ; e Monumentos de Portugal, historicos, artisticos e archeologicos (1886) que terá sido elaborado a partir de uma proposta de Teófilo Braga.

Para além do armorial concelhio em 3 volumes que é  As cidades e villas da monarchia portugueza que teem brasão d’armas (1860-1862) também publicou inúmeras biografias, como as de João de Barros (1841), de Diogo do Couto e do Duque da Terceira (ambas em 1842),  O Dr. Felix de Avellar Brotero, D. Francisco d’Almeida 1.º viso-rei da India,  D. Henrique de Meneses 7.º Governador da India, D. Beatriz rainha de Portugal: mulher d’el-rei D. Afonso III ( todas as quatro em 1843), e em 1844, Visconde de Sá da Bandeira, D. João de Castro 4.º viso-rei da India e Infante D. Beatriz, duqueza de Saboya.

Inácio de Vilhena Barbosa foi ainda membro do Conservatório Real de Lisboa nomeado  pela rainha D. Maria II, quando Almeida Garrett convenceu o governo a tornar o estabelecimento uma academia literária ; sócio  da Academia das Ciências de Lisboa desde 1863, sendo em dezembro de 1875 inspetor da Biblioteca da Academia;  bem como membro da «Real Associação de Arquitectos Civis e Archeologos Portugueses», da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses, do Instituto de Coimbra, da Academia Nacional de Paris e do Retiro Literário Português do Rio de Janeiro.

Na imprensa, fundou em 1839 o jornal ilustrado Universo Ilustrado, onde imperou a litografia e durou 6 anos. Depois, passou a colaborar com A União, O Diário do Governo (de 1848 a 1850), O Mosaico,  O PanoramaIlustração Luso-BrasileiraRamalhete do Cristão, O Comércio do PortoArquivo Pitoresco – na época de Brito Aranha e Pinheiro Chagas– e O Occidente, tendo publicado artigos como  «Os monumentos da antiguidade em Portugal: as ruínas de Cetóbriga» (1872).

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Prof. Veiga Ferreira, o arqueólogo Do Paleolítico ao Romano, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O  Professor Veiga Ferreira, o arqueólogo autor do programa de televisão Do Paleolítico ao Romano, está desde 1998 na toponímia de uma Rua da Freguesia do Lumiar: na artéria formada pelo Impasse A entre a Rua Prof. Aires de Sousa e a Azinhaga das Galhardas mais a Rua A, entre a Rua Prof. Barbosa Sueiro e a Rua Prof. Pinto Peixoto.

Octávio Reinaldo Santos da Veiga Ferreira (Lisboa/28.03.1917 – 14.04.1997/Lisboa) foi um arqueólogo, geólogo e paleontólogo, precursor da prática da interdisciplinaridade, que se dedicou especialmente ao período Calcolítico e ao Campaniforme – patente desde logo no seu primeiro artigo: «Acerca da Cultura do vaso campaniforme em Portugal» (1954)-, tendo ficado particularmente conhecido do público pela sua obra de síntese «Portugal pré-histórico – seu enquadramento no Mediterrâneo» (1981), sucesso que repetiu no ano seguinte ao apresentar na RTP o programa intitulada «Do Paleolítico ao Romano», a que se seguiu o programa com o título «Os Romanos Entre Nós» (1983).

Licenciado em Engenharia Técnica de Minas (1941), consegue o seu primeiro trabalho, em topografia, em regime de tarefa para a Câmara Municipal de Lisboa e em 1942 passou a trabalhar para a Comissão Reguladora do Comércio de Metais, assim como decidiu frequentar o curso de Pré-História  de  Henri Breuil, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu George Zbyszewski com quem viria a desenvolver  um longo e frutuoso trabalho de campo que começou na estação arqueológica de Vila Pouca (Monsanto).  Em março de 1944 ingressou como técnico na Direção Geral de Minas e Serviços Geológicos de onde transitará em 1950, a convite de Zbyszewski, para os Serviços Geológicos de Portugal. Com José Formosinho e Abel Viana trabalhou na escavação a partir de 1945 da necrópole de Caldas de Monchique, demonstrando pela 1ª vez a evolução arquitetónica e de artefatos do Neolítico médio até ao Calcolítico, a partir do que publicou o seu 1º trabalho de arqueologia: «A estação pré-histórica do Buço Preto ou Esgravatadoiro», em 1946.

A partir de 1950, com Leonel Trindade , diretor do Museu Regional de Torres Vedras, fez durante mais de 20 anos prospecção arqueológica e descobriram, por exemplo, as necrópoles pré-históricas de Cabeço da Arruda, Cova da Moira e Serra da Vila. A partir de 1952 foi destacado pelos Serviços Geológicos para trabalhar nos concheiros mesolíticos de Muge, com Jean Roche. Com Abel Viana e Ruy Freire de Andrade investigou os testemunhos da mineração romana de Aljustrel, em 1954, e a partir deste ano, em equipa com Zbyszewski, fez a arqueologia da antiga cidade romana de Egitania, durante 15 anos. Em 1957, com Fernando Almeida, escavou diversos dólmens da Beira Baixa; com Albuquerque e Castro e Abel Viana, estendeu os estudos do Megalitismo à bacia do Vouga; com  Camarate França estudou o monumento Calcolítico de Samarra (em Sintra) e com Afonso do Paço, as estações pré-históricas de Fontalva (Alto Alentejo) . Da colaboração com Vera Leisner e George Zbyszewski resultaram dados do dólmen de Casaínhos (Loures), da sepultura da Praia das Maçãs (Sintra), dos hipogeus de Palmela, dos monumentos megalíticos de Trigache e A-da-Beja (1959) e as primeiras datas de radiocarbono de megálitos portugueses (1963).

Ainda na década de sessenta, publicou as pinturas rupestres da serra dos Louções a que juntará as insculturas rupestres de Mora em 1977 e da Citânia de Santa Luzia em 1981. Com Camarate França e Jean Roche avançou no estudo do Paleolítico Superior,  na Gruta das Salemas e na Gruta Nova da Columbeira, a do 1º dente de neandertal descoberto. No ano de 1964 editou o 1º estudo monográfico sobre o povoado fortificado calcolítico do Zambujal (Torres Vedras) e dedicou memórias necrológicas a Abel Viana (1964), Afonso do Paço (1968 e 1970), Maxime Vaultier (1970) e Joaquim Fontes (1971). Em 11 de maio de 1965 doutorou-se na Sorbonne com a tese «La culture du vase campaniforme au Portugal», sob orientação de Jean Piveteau. Em 1967, com outros professores, fundou a Associação de Estudos Arqueológicos e Etnológicos, onde ministrou cursos livres a partir de 1972: Introdução à Arqueologia e Especialização em Pré-História. De 1968 a 1972, com Vítor Guerra, inventariou os monumentos megalíticos da Figueira da Foz  e em 1969 publicou a Correspondência epistolar entre Martins Sarmento e Nery Delgado.

Nos anos 70, publicou  o monumento do Escoural, com Manuel Farinha dos Santos, enquanto no Pai Mogo (Lourinhã), com K. Spindler, escavou a única tholos calcolítica em Portugal. De 1967 até 1973 foi conservador de Arqueologia do Museu dos Serviços Geológicos, a título gratuito, pelo que publicou o Guia descritivo da Sala de Arqueologia do Museu dos Serviços Geológicos (1982). Em 1971 foi Vice-Presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses e de 1973 a 1976 foi Arqueólogo-Consultor da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e escavou o acampamento neolítico de Cabrosa (1976) e da tholos de Tituaria, em Mafra (1978). Nesta década aumentou também a sua atividade como docente, através de um curso de iniciação à Arqueologia Pré-Histórica no Museu de Etnologia Dr. Joaquim Manso e de um curso piloto do Património Cultural de Prospeção Arqueológica de pós-graduação para licenciados, ambos em 1976, assim como dois anos depois foi convidado pelo Prof. Oliveira Marques para ser professor de Pré-História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Nascido em Alcântara, Octávio Veiga Ferreira viveu grande parte da sua infância em Terrugem, até aos 11 anos se fixar em Lisboa. Aos 15 acompanhou as escavações de Manuel Heleno na necrópole pré-histórica de Carenque.  Na sua vida particular, casou com Maria Luísa Fernandes Bastos em 1941. Dela teve 2 filhas – Seomara (1942) e Ana Maria (1945) – cujo padrinho foi o Doutor Zbyszewski. Em 1945 subscreveu as listas de apoio do MUD – Movimento de Unidade Democrática , o que lhe custou ser chamado a prestar declarações na PIDE e o congelamento das promoções nos 16 anos seguintes, isto é, até 1962.

No território nacional, o Prof. Veiga Ferreira só está homenageado na toponímia de Lisboa mas foi agraciado com as Medalhas de Mérito de Rio  Maior e de Cascais, a Medalha de Ouro do Oeiras e com um monumento inspirado num cromeleque no jardim de Rio Maior.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do filho de Luciano Cordeiro, Cordeiro de Sousa

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974 que o historiador Cordeiro de Sousa, filho de Luciano Cordeiro (também presente na toponímia lisboeta), é o topónimo do arruamento de ligação entre as Avenidas da República e Cinco de Outubro, a norte do viaduto do caminho de ferro, com a legenda «Historiador/1886 – 1968».

Freguesia das Avenidas Novas – Placa Tipo IV
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

José Maria Cordeiro de Sousa (Lisboa/15.02.1886 – 01.0.1968/Lisboa), filho do fundador da Sociedade de Geografia e do embrião da Carris Luciano Cordeiro (também homenageado na toponímia lisboeta desde 1902), de quem aliás escreveu uma biografia em 1936, destacou-se como  historiador, arqueólogo e epigrafista, pelo seu prazer e conhecimento em ler inscrições antigas.

A epigrafia era uma sua paixão particular pelo que publicou Algumas siglas e abreviaturas usadas nas inscrições portuguesas desde o fim do século XII até o principio do século XIX (1926), Inscrições sepulcrais da Sé de Lisboa (1927), Apontamentos de epigrafia portuguesa (1928), Inscrições portuguesas de Lisboa (séculos XII a XIX) em 1941 e a Colectânea olisiponense (1953) que a CML republicou em 1982. Ainda na olisipografia destaque-se A igreja paroquial de São João Baptista do Lumiar : breves apontamentos para a sua história (1920), Registo da freguesia de Nossa Senhora da Encarnação do Lugar da Ameixoeira de 1540 a 1604 (1930), Inscrições portuguesas do Museu do Carmo (1936), A inscrição da Bica do Andaluz (1944), A sigla do mestre Gomes Martins nas ruínas do Carmo (1949), Santa Justa (1949), O oratório de Telheiras : breves notas para a sua história (1955).

Para além da sua paixão pela História e o conhecimento do passado era funcionário do Ministério da Agricultura e exerceu vários cargos públicos. Cordeiro de Sousa dirigiu também a Revista de Arqueologia e publicou artigos de especialidade e estudos históricos em revistas de arte e arqueologia, ou até em jornais, como o Diário de Notícias. Foi autor de variadíssimas publicações e ensaios relacionados com as suas áreas de estudo e investigação, como por exemplo, Nota descritiva e histórica da cidade Tomar (1903),  Epigrafia Torreana (1937) ou Fontes medievais da história torreana : alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (1957).

Foi ainda sócio correspondente da Academia de História de Madrid e da Academia Portuguesa de História, agraciado com a Cruz Vermelha de Mérito, a Comenda do Mérito Industrial e o grau de Cavaleiro da Legião de Honra de França.

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Virgílio Correia, o arqueólogo de Conímbriga, numa Rua de São Domingos de Benfica

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Virgílio Correia, o coordenador dos trabalhos arqueológicos da cidade romana de Conímbriga entre 1930 e 1944, está inscrito como topónimo de uma artéria da freguesia de São Domingos de Benfica desde 1979, ou seja, 35 anos após o seu falecimento.

Foi pelo Edital municipal de 14 de maio de 1979 que a Rua 9 da zona a nascente da Estrada da Luz, junto ao Bairro São João, passou a ser a Rua Virgílio Correia,  que hoje liga a Rua Abranches Ferrão à Rua Tomás da Fonseca. Pelo mesmo Edital também a Rua 5 da mesma zona tornou-se a Rua Lúcio de Azevedo, fixando outro historiador.

Virgílio Correia Pinto da Fonseca (Peso da Régua/19.10.1888-03.06.1944/Coimbra) – cujo nome é por vezes também grafado como Vergílio- foi um dos arqueólogos que descobriu a cidade romana de Conímbriga, no concelho de Condeixa-a-Nova, e que aí procedeu a escavação sistemática de toda a área durante 14 anos, entre 1930 e 1944.

Virgílio Correia foi ainda um eminente historiador de arte, etnólogo e professor universitário. Nas primeiras décadas do séc. XX foi conservador de dois museus lisboetas: o Museu Etnológico Português, a partir de 1912, e o de Arte Antiga, desde 1915. Sobre Lisboa também publicou «Lisboa pré-histórica» na revista A Águia, de janeiro a março de 1913; «Oleiros e pintores de louça e azulejo, de Lisboa» na revista Atlântida de março e abril de 1918; «Azulejadores e pintores de azulejos, de Lisboa» na revistaA Águia, de maio a junho de 1918;  «Oleiros quinhentistas de Lisboa» na revista A Águia, de abril a junho de 1919, assim como revista Atlântida de junho de 1919 apresentou «Lisboa dos Azulejos». Fundou ainda em Lisboa,  em 1916, a revista Terra Portuguesa, definida pelo subtítulo de «revista ilustrada de arqueologia artística e etnografia».

Ainda em Lisboa, conseguiu uma memória triste: chegou a estar preso  oito dias no Aljube, no começo da década de 1930, acusado de apoiar o comandante Aragão e Melo, opositor à ditadura, e de dar abrigo a um refugiado político.

Virgílio Correia  licenciou-se em Direito por pressão familiar, em 1911, na Universidade de Coimbra,  mas em 1935 tornou-se por vontade própria Doutor em Letras, pela Faculdade de Letras de Coimbra, onde era professor. Primeiro, em 1921, foi docente de Estética e História da Arte,  e a partir de 1923, também de Arqueologia. Em Coimbra dirigiu ainda o Museu Machado de Castro, desde 1921 e até falecer. Fundou também a revista  Arte e Arqueologia, em 1930 e mais tarde, entre 1938 e 1944, dirigiu o Diário de Coimbra.

Destaque-se na etnografia e na história de arte, o seu vasto interesse desde o carro de bois à talha barroca, expresso nos seus dois volumes do Inventário Artístico de Portugal, em que a fotografia desempenhou um papel primordial. Nas Acta Universitatis Conimbrigensis foram editadas as suas obras, em cinco volumes : o 1.º volume (1946), Estudos de história da arte: arquitectura (1949), Estudos de história da arte: escultura e pintura (1953),  Estudos arqueológicos (1972) e Estudos monográficos (1978).

Virgílio Correia pertenceu à Academia Nacional de Belas-Artes, à Academia Portuguesa da História, ao Instituto Arqueológico Alemão e à Academia de História de Madrid.

Vergílio dos Cacos como lhe chama o escritor Miguel Torga no seu Diário, foi um acérrimo defensor dos valores republicanos da liberdade e do acesso à educação e à cultura, maçon e agnóstico, que foi galardoado em 3 de abril de 1920 com o Oficialato da Ordem Militar de Santiago da Espada. Morreu aos 55 anos em Coimbra, na sequência de uma queda do elétrico e o Município de Condeixa-a-Nova criou o Centro de Estudos Vergílio Correia. O seu nome está também na toponímia de Coimbra e Lamego, assim como na sua terra natal,  em Peso da Régua, como como Rua Professor Vergílio Correia.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O arqueólogo vimaranense da Citânia de Briteiros, Martins Sarmento, numa Rua da Penha de França

Freguesia da Penha de França
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O  arqueólogo Martins Sarmento, o investigador da Citânia de Briteiros no último quartel do séc. XIX – a principal referência da cultura castreja em Portugal que foi referência internacional – e pioneiro da fotografia científica, dá nome a uma artéria da Penha de França, entre a Rua Mestre António Martins e a Travessa do Calado, desde 1933.

Foi pelo  Edital municipal de 18 de julho de 1933 que foi atribuída a Rua Martins Sarmento, na Rua nº 5 do Olival do Monte Alperche à Penha de França, tendo na Rua nº 4 ficado outro arqueólogo na Rua Estácio da Veiga e nas Ruas nº 3 e nº 6 as dos geólogos:  Rua Carlos Ribeiro e Rua Néry Delgado. Neste bairro foram então também estabelecidos os seguintes topónimos: Rua Conde de Monsaraz (Rua nº 1), Rua Cesário Verde (Rua nº 2), Rua Visconde de Juromenha (Rua nº 7) e Rua Padre Sena de Freitas (Rua nº 8).

O Occidente, 30 de agosto de 1899

Francisco Martins de Gouveia de Morais Sarmento (Guimarães/09.03.1833 – 09.08.1899/Guimarães), bacharel em  Direito por  Coimbra, foi sobretudo um homem de sólida cultura que se notabilizou como  arqueólogo pela descoberta  e metódica investigação de 1874 a 1879 da Citânia de Briteiros, sítio arqueológico da Idade do Ferro próximo de Guimarães e junto ao solar paterno, a Casa da Ponte. Martins Sarmento trabalhou também no Castro do  Sabroso a partir de 1877, assim como em inúmeros sítios arqueológicos do Noroeste de Portugal. Destaquem-se as sua obras Ora marítima [de] R. Festus Avienus : estudo deste poema na parte respectiva à Galiza e Portugal (1880), Os Lusitanos (1880), Os argonautas : subsídios para a antiga historia do ocidente (1887), Lusitanos, Lígures e Celtas (1893).

Nascido numa família abastada, filho de Francisco Joaquim de Gouveia de Morais Sarmento e de Joaquina Cândida de Araújo Martins da Costa, conseguiu promover reuniões em Guimarães, como a célebre Conferência da Citânia, em 1877, assim como acolher o grupo de congressistas europeus que em 1880 se deslocou ao então remoto Vale do Ave para visitar a Citânia de Briteiros.

Foi igualmente importante ter-se dedicado à fotografia a partir de 1868, o que junto com a arqueologia o revelou como pioneiro da fotografia de carácter científico, tendo deixado centenas de negativos em vidro, na sua maior parte de temática arqueológica. Escreveu também sobre esta área entre 1868 e 1876, escritos que foram publicados em 2012 sob o título de Cadernos de Fotografia de Martins Sarmento.

Em 1882, um grupo de vimaranenses fundou em Guimarães,  a Sociedade Martins Sarmento, em cujo museu – criado em 1885  – se conservam uma grande parte dos objectos arqueológicos por si encontrados e à qual o arqueólogo legou inúmeros bens em testamento.

Martins Sarmento também se dedicou à poesia ultra-romântica, com títulos como Poesias (1855), para além de colaborar em revistas e jornais científicos como as revistas Renascença e O Pantheon ou o semanário Branco e Negro.

Martins Sarmento foi casado com Maria de Freitas Aguiar e condecorado pelo Governo francês com a Legião de Honra, assim como está homenageado com o seu nome numa Escola Secundária de Guimarães, bem como surge como Martins Sarmento  na toponímia de Oliveira do Castelo (Guimarães), Ronfe (Guimarães), Serzedelo (Guimarães), Braga, Porto, São Martinho (Trofa), Valongo, Amadora e Fernão Ferro,  tal como enquanto  Francisco Martins Sarmento está nos topónimos das  Caldas das Taipas (Guimarães), Salvador de Briteiros (Guimarães), Póvoa de Varzim e Agualva-Cacém.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

O Largo Luís Chaves, etnógrafo de «Lisboa nas Auras do Povo e da História»

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Etnógrafo/1889 – 1975» foi atribuído o topónimo Largo Luís Chaves na Rua DC à Avenida Rainha Dona Leonor e Impasse CD, na Quinta das Mouras, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, ficando assim a ligar a Avenida Rainha Dona Amélia à Avenida Rainha Dona Leonor.

O mesmo Edital colocou na Rua B da Quinta das Mouras a Rua Mário Sampaio Ribeiro, para homenagear um historiador e musicólogo.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Luís Rufino Chaves Lopes (Chaves/09.05.1888 – 09.01.1975 ou abril/Lisboa), formado em Estudos Matemáticos pela Escola Politécnica de Lisboa e pela Universidade de Coimbra, notabilizou-se como  etnógrafo e arqueólogo, autor dos  quatro tomos de Lisboa nas Auras do Povo e da História – Ensaios de Etnografia.

Como etnólogo, desde 1912 desempenhou funções no Museu Etnológico Dr. Leite de Vasconcelos (hoje, Museu Nacional de Arqueologia), primeiro como preparador do Museu. Logo no ano seguinte foi encarregue do prosseguimento dos trabalhos arqueológicos que decorriam em Outeiro da Assenta (Óbidos) e em Santa Vitória do Ameixoal (Estremoz), entre 1915 e 1916. Também realizou pesquisa etnográfica de que resultou a publicação em 1916 de  Os Barristas de Estremoz (séc. XVIII-XX) (1916), Etnografia alentejana – o rancho da azeitona (Estremoz e Elvas), Folclore de Santa Vitória do Ameixoal (Estremoz) e no ano seguinte de Arte popular no Alentejo: os ganchos de meia de barro de Estremoz (séc.XX), tendo-se centrado no estudo da arte popular. Em 1916, Luís Chaves passou a Conservador interino embora as suas ligações aos ideais monárquicos tenham contribuído para o seu afastamento do Museu em 1919, ao qual regressou em 1931, após concurso público para Conservador, ocupando o lugar de Manuel Heleno quando este passou a ser o diretor do Museu. Assim permaneceu até 1957, data da sua aposentação.

No entretanto, revelou-se uma figura central na Etnografia como colaborador oficial da atividade folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN/SNI), no âmbito da política do Estado Novo: integrou a Comissão de Etnografia Nacional; participou nas iniciativas desenvolvidas pelo SPN/SPI, como o Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal (1938) e o Centro Regional da Exposição do Mundo Português (1940), sendo também autor de uma parte significativa das obras editadas neste contexto; organizou a Exposição de Arte Popular Portuguesa  em 1936 e o seu catálogo, em colaboração com o etnógrafo Cardoso Marta com quem, dois anos mais tarde participou nos trabalhos de instalação do Museu de Arte Popular, sobre o qual escreveu  O Novo Museu de Arte Popular (1948).

Deixou ainda obra publicada  na revista O Arqueólogo Português, assim como dirigiu em 1940,  com Francisco Lage e Paulo Ferreira, Vida e Arte do Povo Português, para além de manter durante vários anos na Revista Ocidente, uma crónica intitulada Nos Domínios da Etnografia Portuguesa, e participado regularmente no Mensário das Casas do Povo. Publicou ainda Páginas Folclóricas (1942)Folclore Religioso (1945), O Povo Português através da Etnografia e das Tradições Artísticas (1946).

Paralelamente, foi  Vice-Presidente do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia até 1964, instituição que representou na Junta Nacional de Educação, assim como trabalhou como bibliotecário da Casa Cadaval. Foi também professor  de Matemática do Colégio Académico, cuja direção chegou a integrar, tal como da cadeira de História de Arte e Iluminura do Curso Superior de Bibliotecário Arquivista, bem como do Estágio para Conservadores dos Museus, Palácios e Monumentos Nacionais.

Na política foi monárquico, membro do chamado «Grupo dos Cinco», com Alfredo Pimenta, Caetano Beirão, Alberto Ramires dos Reis e Mateus de Oliveira Monteiro, que fundaram a Ação Realista Portuguesa em julho de 1921, que além do mensário com o nome da organização publicava também o semanário A Voz Nacional que Luís Chaves dirigiu.

A Praça Afonso do Paço, do militar por profissão e arqueólogo por paixão

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No ano seguinte ao seu falecimento, pelo Edital de 29 de janeiro de 1969, a edilidade lisboeta homenageou na sua toponímia o militar de carreira e arqueólogo por paixão Afonso do Paço, responsável pela escavação da estação calcolítica de Monsanto na década de quarenta, através de uma Praça situada na confluência da Rua Pereira e Sousa e da Rua Francisco Metrass, vulgarmente conhecida por Praceta da Vila Benitez, em Campo de Ourique.

Afonso do Paço em 1969
(Foto: João Marques de Oliveira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Manuel Afonso do Paço (Viana do Castelo – Outeiro/30.11.1895 – 29.10.1968/Estoril) foi um militar de carreira que se apaixonou pela arqueologia, área pela qual ainda hoje é  evocado, muito pelo estudo das estações paleolíticas e epipaleolíticas do litoral, domínio de estudos que continuou a tratar ao longo dos anos, sobretudo com o padre Eugénio Jalhay. Em 1944, ambos e o Dr. Leonel Ribeiro, fizeram em Lisboa a escavação da estação calcolítica de Monsanto, recolhendo um enorme espólio cerâmico (sobretudo, campaniforme) e lítico, de machados polidos e pontas de sílex. Ainda com Eugénio Jalhay, procedeu à escavação  do povoado calcolítico fortificado de Vila Nova de São Pedro, iniciada por ambos em 1937 até ao falecimento de Jalhay – em 1950 – e depois prosseguida apenas por Afonso do Paço até falecer, mesmo se as autoridades oficiais da época jamais tivessem reconhecido como relevante a investigação daquele morro pré-histórico, mesmo se os resultados publicados a nível internacional fizessem acorrer às escavações os mais importantes pré-historiadores da época. Também pesquisou em Sanfins (Paços de Ferreira) e participou em duas expedições arqueológicas (1958 e 1960) ao sítio onde se deu a Batalha de Aljubarrota, Campo de São Jorge, em que se identificaram cerca de 830 estruturas denominadas covas de lobo, armadilhas para a cavalaria, junto à Capela de São Jorge. Destas escavações resultaram as publicações Necrópole de Alapraia (1955), Tesouro Monetário da Citânia de Sanfins (1955) e Castro de Vila Nova de S. Pedro : campanha de escavações de 1956.

Afonso do Paço também estudou do património etnográfico de Viana do Castelo, centrando-se  no traje, sendo assim autor das obras Contribuição para o estudo do trajo popular dito «à lavradeira» no concelho de Viana do Castelo (1925), O trajo “à lavradeira” (de Outeiro a Perre em especial e das outras aldeias em geral) (1930), Mordomarias (1932) e O trajo popular do Minho – Do trajo “à lavradeira” em geral e do de “Santa Marta” em especial. De igual modo, interessou-se pelo estudo e recolha da tradição oral, sobretudo do cancioneiro popular português, com recolha de quadras populares que compilou no Cancioneiro de Viana do Castelo (1928), Lisboa no Cancioneiro Ribatejano (1948) e no Cancioneiro popular ribatejano: Contribuição de Vila Nova de S. Pedro (1952).

Afonso do Paço estudara Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e em 1917 foi também oficial de infantaria, tendo mesmo combatido na Flandres  no decorrer da I Guerra Mundial- integrado no 4.º Grupo de Metralhadoras Pesadas – e sido feito prisioneiro pelos alemães na Batalha de La Lys, em 9 de abril de 1918. Alcançou o posto de Tenente Coronel e chegou a ser condecorado com a Cruz de Guerra de 2.ª Classe, duas “fourragères” da Cruz de Guerra e a medalha da Victória. Regressou a Portugal a 16 de janeiro de 1919 e a partir de 1924, estava colocado como funcionário da Administração Militar e foi como oficial do Exército que assegurou o seu sustento e o de sua família. Em 1925 foi professor provisório do Colégio Militar e depois, Tesoureiro da Inspeção do Serviço Telegráfico Militar e Chefe da Contabilidade do Batalhão de Telegrafistas (Braga). Também produziu estudos sobre a história e a vida militar como Linguagem da Malta (1924), Gírias Militares Portuguesas (1926), Cartas às Madrinhas de Guerra (1929), Da Influência da Guerra no Léxico Português (1931), A vida Militar no Rifoneiro Português (1934-1936) ou As Comunicações Militares de Relação em Portugal – Subsídios para a sua história (1938).

Em 1969, Afonso do Paço foi homenageado  na Associação dos Arqueólogos Portugueses com a Câmara Municipal de Lisboa. Está também na toponímia de Paços de Ferreira, de Sanfins de Ferreira, de Cascais, do Estoril, da Sobreda (Almada) e de Setúbal como Afonso do Paço, bem como surge como  Tenente Coronel Afonso do Paço no nomes das artérias da sua terra natal, tanto em Outeiro como em Viana do Castelo.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A olisipógrafa Irisalva Moita numa Rua da antiga Quinta dos Alcoutins

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Irisalva Moita, a olisipógrafa e arqueóloga que durante mais de 20 anos dirigiu o Museu da Cidade de Lisboa, sempre trabalhando empenhadamente e com paixão pelo património de Lisboa, está na toponímia de uma artéria da antiga Quinta dos Alcoutins, na Freguesia do Lumiar, desde março do ano passado.

A Rua Irisalva Moita ficou na  Rua A à Quinta dos Alcoutins pelo Edital municipal de 17 de março de 2017 e pelo mesmo documento a edilidade colocou nos outros arruamentos da urbanização personalidades ligadas à cultura da cidade e do país, como o artista plástico Joaquim Rodrigo (Ruas B e B1), e os professores universitários padre Manuel Antunes (Rua I) e Isabel Magalhães Colaço (Rua C).

Irisalva Moita em 1960
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

De acordo com Ana Cristina Leite (revista Rossio nº 1, maio de 2013), Irisalva Constância de Nóbrega Nunes Moita (Angola – Lubango/21.05.1924 – 13.06. 2009/Lisboa) distinguiu-se como arqueóloga, historiadora, olisipógrafa e museóloga. Desde muito nova que vivia em Lisboa, onde em 1949 se licenciou em Ciências Históricas e Filosóficas. Um dos seus primeiros interesses foi a arqueologia e como bolseira do Instituto de Alta Cultura, em Arqueologia, desde 1952, trabalhou em diversas escavações, tanto em Moura e Pavia como na Beira Alta. Associada ao Centro de Etnologia Peninsular,  de 1959 a 1972, levou a cabo um levantamento exaustivo dos castros portugueses. Irisalva Moita foi ainda pioneira das escavações arqueológicas em contexto urbano, como lhe aconteceu em Lisboa na do Hospital Real de Todos-os-Santos, por ocasião das obras do Metropolitano de Lisboa, em 1960, sendo a primeira grande ação de salvaguarda do património arqueológico urbano, bem como na Necrópole Romana na Praça da Figueira, no Teatro Romano (1966/67) na Rua de São Mamede e Rua da Saudade e na Casa dos Bicos.

Acresce que enquanto trabalhava no terreno como arqueóloga, ao longo dos anos 50,  Irisalva deu também aulas no ensino secundário e fez o curso de Conservador de Museus (1953/55) no Museu Nacional de Arte Antiga. A partir de 1958, após ingressar no quadro definitivo dos Museus Municipais de Lisboa, de que virá a ser conservadora-chefe de 1971 a 1994, Irisalva Moita centrou os seus interesses na olisipografia, através da história e do património da capital, construindo-se como figura de referência da Olisipografia.

Das exposições que concretizou no Palácio dos Coruchéus e no Palácio Pimenta, destaquem-se as do VIII centenário da chegada a Lisboa das Relíquias de São Vicente (1973),  santo sobre cujo culto em todo o país investigara; O Culto de Santo António, na região de Lisboa; Lisboa Quinhentista: a imagem e a vida na cidade (1979), uma mostra sobre o povo de Lisboa, tipos, ambiente, modos de vida, divertimentos e mentalidade; Lisboa e o Marquês de Pombal (1982), produzida no bicentenário da morte do Marquês de Pombal;  Azulejos de Lisboa ( 1984) na qual estiveram expostos muitos dos azulejos da coleção do Museu da Cidade, a segunda maior do país ;  Faianças de Rafael Bordalo Pinheiro (1985) ou até O abastecimento de água no tempo de D. João V (1990).  E para além dos catálogos de exposições, a vastíssima obra da Dr.ª Irisalva Moita, para além da coordenação d’ O Livro de Lisboa (1998), onde assinou os artigos «Das origens pré-históricas ao domínio romano: origens pré e proto-históricas» e «Lisboa no séc. XVI: a cidade e o ambiente», está quase toda dispersa por revistas da especialidade e atas de congressos.

Irisalva Moita sonhou criar uma área específica dedicada ao azulejo no Museu de Lisboa mas não chegou a concretizá-la. Como conservadora-chefe dirigiu o Museu da Cidade, o Antoniano e o de Rafael Bordalo Pinheiro, tendo transformado o modesto museu que existia no Palácio da Mitra no Museu de Lisboa, a partir do programa que elaborou entre 1973 e 1975, com um discurso cronológico e evolutivo da cidade.

Foi homenageada com a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa no Dia Internacional dos Museus de 2008, assim como com a Ordem do Infante D. Henrique (2005), no grau de Grande Oficial.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Estácio da Veiga, o algarvio arqueólogo oitocentista, numa artéria da Penha de França

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O algarvio Sebastião Philippes Estácio Martins da Veiga, autor da Carta Arqueológica do Algarve de 1878, deu nome em 1933 a uma artéria lisboeta do Monte Alperche, ostentando a legenda «Arqueólogo e Escritor/1828 – 1891».

O mesmo Edital de 18 de julho de 1933 que atribuiu a Rua Estácio da Veiga como topónimo da Rua nº 4 do Olival do Monte Alperche à Penha de França, a unir a Rua Cesário Verde à Rua Conde de Monsaraz, também fixou neste Bairro os seguintes topónimos:  Rua Carlos Ribeiro (Rua nº 3), Rua Cesário Verde (Rua nº 2), Rua Conde de Monsaraz (Rua nº 1), Rua Martins Sarmento (Rua nº 5), Rua Néry Delgado (Rua nº 6), Rua Padre Sena de Freitas (Rua nº 8) e Rua Visconde de Juromenha (Rua nº 7).

O homenageado é Sebastião Philippes Estácio Martins da Veiga (Tavira/06.05.1828 – 07.12.1891/Lisboa), engenheiro de minas que trabalhou como oficial de secretaria da Sub-Inspecção Geral dos Correios e Postas do Reino e que se tornou arqueólogo e etnólogo, tendo reunido um pequeno museu no Algarve que acabou por constituir o núcleo inicial do Museu Etnológico Leite de Vasconcelos e que hoje é Museu Nacional de Arqueologia.

Sebastião Estácio da Veiga formado no Liceu de Faro e na Escola Politécnica de Lisboa, após fortes cheias ocorridas no Algarve, foi encarregado pelo  gabinete de Fontes Pereira de Melo, em 1876, de fazer o levantamento dos vestígios arqueológicos que ficaram a descoberto, tanto nesta região como no Alentejo e daqui nasceu a sua Carta Arqueológica do Algarve (1878), tendo os  resultados preliminares destas suas campanhas sido apresentados dois anos depois, no Congresso Internacional de Antropologia e de Arqueologia Pré-Histórica e nesse mesmo ano de 1880 fundou o Museu Arqueológico do Algarve, com um significativo acervo, nas instalações da Academia Real das Belas Artes, por despacho do Ministro do Reino. Em 1894, o espólio arqueológico do Museu de Estácio da Veiga transita para o Museu Etnográfico Português, fundado no ano anterior por Leite de Vasconcelos.

Estácio da Veiga destacou-se na vanguarda do panorama intelectual europeu da época, como pioneiro da investigação arqueológica, científica e sistemática,  com o seu incontornável contributo,  sendo de realçar a  sua identificação da necrópole megalítica de Alcalar, um conjunto de monumentos funerários do séc. III a. C., assim como as primeiras referências aos menires da Vila do Bispo.

Da obra publicada de Estácio da Veiga, para além dos artigos n’O Arqueólogo Português, destacamos Plantas da Serra de Monchique Observadas Nesse Ano (1866), Romanceiro do Algarve (1870), A Tábula de Bronze de Aljustrel, (1876), Memórias das Antiguidades de Mértola, (1877), Projecto de Legenda Simbólica para a Elaboração e Interpretação da Carta de Arqueologia Histórica do Algarve (1885), Antiguidades Monumentais do Algarve (1886-1891) e Programa para a Instituição dos Estudos Arqueológicos em Portugal (1891), para além de uma obra poética de gosto arcádico-romântico que deixou inédita e a Câmara Municipal de Tavira deu à estampa no ano 2000 sob o título de Poesias (ou banalidades poéticas).

Estácio da Veiga foi membro da Academia das Ciências de Lisboa, Real Academia de História de Madrid, Instituto Arqueológico de Roma, Sociedade Francesa de Arqueologia, a Academia Belga de Arqueologia e Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco.

Tal como seu pai, José Agostinho Estácio da Veiga, teve o foro de fidalgo Cavaleiro da Casa Real e foi casado com  Adelaide Lucotte, sendo a sua mais extensa biografia da autoria de sua bisneta, Maria Luísa Estácio da Veiga Pereira.

A Universidade do Algarve instituiu em 2016 o Prémio Estácio da Veiga para a melhor dissertação de mestrado em Pré-História e Evolução Humana, no âmbito da interdisciplinaridade da Arqueologia e demais Ciências e Estácio da Veiga está também perpetuado na toponímia de Agualva (Sintra), Amora (Seixal), Albufeira, Aljezur, Amadora, Faro, Loulé, Olhão, Portimão, São Brás de Alportel e Tavira.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Travessa Possidónio da Silva nascida de um caso de polícia

A Travessa Possidónio da Silva em 1946 (Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Possidónio da Silva em 1946
(Foto: Fernando Martinez Pozal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Logo no ano seguinte à sua morte o arquiteto e arqueólogo Possidónio da Silva, que tanto defendeu a preservação do património cultural português, teve o seu nome dado a uma Rua de Lisboa, mas  110 anos e 9 dias após o seu nascimento teve também de ser o topónimo de uma Travessa para se resolver um caso de polícia.

O caso conta-se da seguinte forma: a Seção da Polícia Municipal em 26 de abril de 1916 fez uma informação à câmara dando conta de 4 requerimentos de proprietários que solicitavam numeração para os seus prédios na Rua Possidónio da Silva, aos quais não se podia dar andamento porque «a numeração das propriedades situadas no mencionado local, encontra-se irregularissima e para se poder efectuar a sua regularisação, torna-se indispensavel que a Ex.mª Camara determine que seja desanexado da dita via publica um troço de terreno, que forma uma travessa, onde existe um chafariz e uma ponte, compreendendo também os predios com os nºs 37 a 71, a qual começa, do lado do Nascente da Rua Possidonio da Silva e termina na Parada dos Prazeres, podendo, caso a Ex.mª Camara assim o entender, dár-se ao dito troço de terreno o nome de Travessa de Possidonio da Silva, publicando-se depois o competente edital, em harmonia com o que a Ex.mª Camara resolver». 

Os vereadores presentes na sessão de câmara de 4 de maio de 1916 aprovaram a sugestão por unanimidade e, consequentemente, por Edital municipal de 16 de maio de 1916 nasceu a Travessa Possidónio da Silva, ficando resolvido o caso de numeração de polícia a contento dos proprietários. Mais tarde, por via do falecimento em 1966 do Comandante dos Sapadores Bombeiros de Lisboa, e dada a carestia de novas ruas na cidade a Travessa Possidónio da Silva passou, pelo Edital de 22/06/1971, a designar-se como Rua Coronel Ribeiro Viana.

Branco e Negro, 5 de abril de 1896

Branco e Negro, nº 1, 5 de abril de 1896

Joaquim Possidónio Narciso da Silva  (Lisboa/07.05.1806 – 03.03.1896/Lisboa)  já havia sido homenageado em 1897 com o seu nome na antiga Rua da Fonte Santa, por ser essa a morada do  Albergue dos Inválidos do Trabalho que ele havia ali fundado em 1891, para apoiar a classe operária inválida. Mas Possidónio da Silva desempenhou também um papel determinante como precursor do ensino e da investigação arqueológica bem como na salvaguarda e valorização do património histórico-artístico e monumental português.

Devido à invasão napoleónica em 1807, ele foi com a sua família para o Rio de Janeiro onde passou parte da sua juventude. Regressou em 1821 e estudou com Domingos Sequeira, Maurício Sendim e Germano de Magalhães seguindo aos dezoitos anos para Paris para estudar Arquitetura e, cinco anos mais tarde, foi para Roma. Em 1831 regressou a Paris e trabalhou no Palais Royal e no Palácio das Tulherias. Retornou em definitivo a Portugal em 1833 tendo então publicado O que foi e é a architectura, e o que aprendem os architectos fora de Portugal. Possidónio tornou-se o arquiteto da Casa Real, com intervenção nas obras dos Palácios de São Bento para o adaptar a Parlamento (1833), da Ajuda (1834 e 1861), das Necessidades (1844-1846) e o Palácio do Alfeite (antes de 1857). Trabalhou também na remodelação do Teatro de São Carlos e do Palácio do Manteigueiro – na esquina da Rua da Horta Seca com a Rua da Emenda- a que acrescentou a autoria de muitos estabelecimentos comerciais da Baixa lisboeta, assim como o projeto de uns banhos públicos na zona do Passeio Público (1835).

Paralelamente, desde 1850 que Possidónio da Silva se interessava pelos monumentos megalíticos em Portugal,  após ter participado na escavação de um dólmen entre Sintra e Colares.  Escavou mais duas antas na zona de Tomar  e acabou por depois conseguir apoio do Governo para o primeiro levantamento dos monumentos nacionais, enquanto nos jornais redigia artigos a defender a necessidade de preservar o património arquitetónico português. Em 1858, D. Pedro V encarregou-o de proceder a um estudo técnico dos monumentos nacionais. Participou em 1867 na 2ª sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica, em Paris, tendo em 1878 publicado Noções Elementares de Archeologia, uma síntese dos métodos de escavação estratigráfica e sectorial.

Joaquim Possidónio da Silva fundou em 1863 e presidiu à Associação dos Arquitectos Civis Portugueses que passou a designar-se Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, antes de se cindir, já depois da morte de Possidónio, para originar as que hoje conhecemos como Ordem dos Arquitetos e Associação do Arqueólogos Portugueses.  Assim nasceu em  1866 um museu arqueológico, depois instalado nas ruínas do Convento do Carmo, bem como um boletim da associação, a partir de 1865. Possidónio foi ainda membro de diferentes academias e sociedades nacionais e estrangeiras como o Instituto de França e a Société française d’archéologie.

Em 1882 o escultor francês Anatole Vasselot fez um busto de bronze de Possidónio da Silva mas este nunca permitiu a divulgação da sua imagem em nenhum meio até à sua morte e assim, este busto  foi colocado sobre um pedestal de pedra  na Praceta da Rua Possidónio da Silva e inaugurado em 5 de julho de 1968.

A Travessa Possidónio da Silva em 1961 (Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Travessa Possidónio da Silva em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)