A Rua Maria José da Guia no «Bairro das Marias»

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Bairro da Cruz Vermelha, conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu no ano 2000 mais três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia e um desses três foi a Rua Maria José da Guia.

A Rua Maria José da Guia,   com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota do Bairro da Cruz Vermelha, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres, ambas homenageando também fadistas, tendo a cerimónia de inauguração ocorrido em 27 de junho de 2001.

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou Maria José da Guia como nome artístico foi uma das protagonistas nascidas para o Fado na década de 40 do século XX. Desde os quatro anos que morava em Alfama e foi nesse Bairro que começou a cantar tendo até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentada num corpo vestido de negro e xaile traçado cantou por várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, sendo de referir o ter integrado os os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado.

Maria José da Guia celebrizou fados como Coimbra ou Lisboa Antiga – ambos com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Barro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão), Não é Preciso (letra de José António Sabrosa e música de Guilherme Pereira da Rosa) ou A Saudade que me deste (letra de Fernando Peres e música de António Bragança).

No Fado, Maria José da Guia foi ainda madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter entrado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos.

Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do guitarrista Jaime Santos das unhas postiças

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Nascido em Alfama, escolheu o nome artístico de Jaime Santos e este guitarrista  a quem é atribuída a invenção das unhas postiças está desde 20o8 inscrito na toponímia de Lisboa, numa Rua da freguesia de Santa Clara.

Por via do Edital municipal de 3 de julho de 2008 Jaime Santos ficou na Rua 4 (arruamento projetado ao Bairro das Galinheiras), zona onde já estavam a fadista Berta Cardoso (na Rua 3) e a pintora Maluda (Rua 1) a quem Carlos Zel dedicou um fado – pelo anterior Edital de 27 de abril de 2007 -, levando como companhia no seu Edital os compositores Wenceslau Pinto  (Rua 5) e Carlos Rocha (Rua 6), este último o autor de Sempre que Lisboa canta.

Jaime Tiago dos Santos (Lisboa/01.06.1909 – 04.07.1982/Lisboa), nasceu na então freguesia de Santa Engrácia, em Alfama, e escolheu o nome artístico de Jaime Santos, sendo um popular guitarrista sobretudo nas década de quarenta e cinquenta do séc. XX e sendo-lhe atribuída a invenção das unhas postiças que permitiram maior resistência e melhor sonoridade.

Aos 12 anos era aprendiz de marceneiro mas já dava os primeiros passos na viola, bandolim e violino, em festas populares. Porém, o seu sogro Georgino de Sousa terá influenciado a trocar para a guitarra, instrumento onde teve como referência Armandinho, por quem tinha uma enorme admiração, e com o qual manteve amizade. Em 1944, foi convidado a fazer parte do Conjunto Português de Guitarras de Martinho da Assunção, de que também faziam parte António Couto (guitarra), Alberto Correia (baixo) e o próprio Martinho da Assunção (viola). Por volta de 1945 acompanhou Amália Rodrigues no início da sua carreira internacional, tanto em Portugal, como nos E.U.A. e México, até ao ano de 1955, tendo ainda participado com ela no filme O Fado (1947), assim como na produção francesa, Les Amants du Tage (1954). Além disso, protagonizou ainda com Amália uma das curta-metragens de Augusto Fraga sobre Fado, que tomou como base o famoso quadro de 1910 do pintor José Malhoa dedicado ao Fado (1948).

Jaime Santos trabalhou em conjunto com grandes nomes da poesia popular, como João Linhares Barbosa, Francisco Radamanto ou Frederico de Brito criando muitos fados clássicos, interpretados por nomes como Amália, Carlos Ramos, Carlos do Carmo, Estela Alves, Fernanda Maria,  Lucília do Carmo   e Manuel de Almeida.

A partir de 1963 começou a construir os seus próprios instrumentos e deixou uma profícua discografia de instrumentais. Foi ainda o principal guitarrista de algumas das melhores casas de fado lisboetas como a Adega Machado (de Armando Machado), a Adega Mesquita, O Faia (de Lucília do Carmo), Lisboa à Noite (de Fernanda Maria), o Luso, A Tipoia (de Adelina Ramos) ou A Toca (de Carlos Ramos).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Fado Maluda por Carlos Zel

Nasceu guardiã dos sonhos
Tem a magia nos olhos
Traz os segredos na mão
Torna Lisboa mais bela

Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração
Torna Lisboa mais bela
Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração

São quiosques, são telhados
E há pardais alucinados
Embriagados no Tejo
E uma cegonha perdida
Confusa, pediu guarida
Numa tela de Além Tejo
E uma cegonha perdida
Confusa, pediu guarida
Numa tela de Além Tejo

Tonalidades secretas
Azuis de Prússia, violetas
Ardências de chão queimado
E onde a noite princípia
Para não morrer a magia
Pousa os pincéis, canta o fado
E onde a noite principia
Para não morrer a magia
Pousa os pincéis, canta o fado

Tema do álbum Fados de Carlos Zel
Letra: Rosa Lobato de Faria; Música: Carlos da Maia

A Rua da pintora Maluda que é nome de fado

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A pintora Maluda dá o seu nome a uma Rua da freguesia de Santa Clara desde 2007 e  também a um fado que Carlos Zel lhe dedicou no seu álbum de 1993.

Maria de Lurdes Ribeiro, que se fixou na nossa memória como Maluda,  deu nome à Rua 1 ou arruamento projetado ao Bairro das Galinheiras oito anos após o seu falecimento, por via do Edital municipal de 27 de abril de 2007, nascendo assim a Rua Maluda (Maria de Lurdes Ribeiro), com a legenda «Pintora/1934 – 1999». O mesmo documento municipal colocou também o escultor Barata Feyo na Rua 2 e  a fadista Berta Cardoso na Rua 3.

Autorretrato de 1968

Maria de Lurdes Ribeiro (Índia – Pangim/15.11.1934 – 10.02.1999/Lisboa) começou na pintura como retratista autodidata, integrada no grupo Os Independentes, ainda em Lourenço Marques, onde viveu a partir de 1948. Depois, estudou em Lisboa (1963)  e Paris (1964), cidade onde trabalhou na Académie Grande Chaumiére com os pintores Jean Augame e Michel Rodde, altura em que se começou a interessar por composições da paisagem urbana. Também estudou em Londres e na Suíça (1977).

Maluda radicou-se em Lisboa no ano de 1967 e logo no seguinte pintou os seus primeiros óleos da cidade. Dois anos depois, concretizou a sua primeira exposição individual, na Galeria do Diário de Notícias e a partir daí desenvolveu uma obra artística que somou retratos – com destaque para os de Amália Rodrigues, Ana Zanatti e Aquilino Ribeiro -, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio. Em 1970, inaugurou a sua casa-atelier na Rua das Praças, na fronteira da Madragoa com a Lapa. Depois pintou sobretudo Lisboa, a sua luz e o lado geométrico e contrastante da cidade, tendo ficado famosas as suas séries Quiosques de Lisboa e As Janelas de Lisboa. A série dos quiosques foi mesmo consagrada numa coleção de selos editada pelos CTT e ganhou o prémio mundial Melhor Selo em Washington (1987) – para o selo do famoso Quiosque Tivoli da Avenida da Liberdade- bem como ganhou em Perigueux (1989), desta vez pelo seu selo Évora Património Mundial. Em 1984 montou exposições individuais em Nova Iorque, Washington e Dallas ao mesmo tempo que participou na Bienal Ibérica em Campo Maior. Em 1993, o fadista Carlos Zel incluiu no seu álbum Fados o Fado Maluda, com letra de Rosa Lobato de Faria e música de Carlos da Maia.

Maluda foi galardoada com o Prémio de Pintura da Academia Nacional de Belas Artes (1979), com os poemas Persiana para Janela de Maluda (I e II) de Alexandre O’Neill em 1981,  com o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (1994),  a Ordem do Infante (1998) pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, para além de, em 2001, José-Augusto França eleger o seu quadro Portel (de 1986) como um dos 100 Quadros Portugueses do Século XX. Refira-se ainda que em testamento, a artista instituiu o Prémio Maluda a atribuir pela Sociedade Nacional de Belas Artes.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Fado Rua do Capelão por Amália

(Música: Frederico de Freitas; Letra: Júlio Dantas)

Ó Rua do Capelão
Juncada de rosmaninho
Se o meu amor vier cedinho
Eu beijo as pedras do chão
Que ele pisar no caminho.

Há um degrau no meu leito,
Que é feito pra ti somente
Amor, mas sobe com jeito
Se o meu coração te sente
Fica-me aos saltos no peito.

Tenho o destino marcado
Desde a hora em que te vi
Ó meu cigano adorado
Viver abraçada ao fado
Morrer abraçada a ti.

A Rua do Capelão, da Severa e de Fernando Maurício

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Luís Ponte)

A antiga Rua do Capelão é uma artéria icónica do Fado de Lisboa por nela ter falecido a Severa no séc. XIX, nela ter nascido no séc. XX o fadista Fernando Maurício, conhecido como o Rei do Fado da Mouraria, bem como por ser o título pelo qual é conhecido o Velho Fado da Severa, composto por Frederico de Freitas para a letra de Júlio Dantas para o 1º filme sonoro português – A Severa – em 1931, aí interpretado por Dina Tereza e depois interpretado por inúmeras vozes como Amália, Ada de Castro, Fernanda Maria, Cidália Moreira, Dulce Pontes, Anabela, Lula Pena ou Cuca Roseta.

De acordo com Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no seu Sumário de 1551, já nesse ano existia em Lisboa a Rua do Capelão, tal como a Rua da Mouraria, a dos Cavaleiros, a do João do Outeiro e a da Amendoeira. O historiador Pedro de Azevedo apontava em 1900 que o topónimo talvez derivasse do sacerdote da mesquita intitulado capelão, adiantando que o último capelão mouro de Lisboa se chamava Mafamede Laparo. Depois, Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa dos anos 30 do séc. XX, defendeu que o nome da rua advinha de «um oratório armado numa parede, com frente à rua, e que merecia a maior devoção aos habitantes do sítio; às tardes, a população reunia-se, e rezava em conjunto deante da imagem

Tem uma placa toponímica especial – isto é, que não se enquadra em nenhum dos modelos dos 6 tipos de placas usadas – com os dizeres «Símbolo da mouraria/matriz do fado» e à entrada da artéria está um monumento contemporâneo que consiste num bloco de mármore, com uma guitarra esculpida e a inscrição «Mouraria Berço do Fado/Inaugurado pelo Exmº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Professor Doutor António Carmona Rodrigues», inaugurado no dia 13 de junho de 2006 por iniciativa da antiga Junta de Freguesia do Socorro.

A edilidade lisboeta pegou mesmo num troço da própria Rua do Capelão, compreendido entre o Beco do Forno e a Rua da Guia, para consagrar a Severa na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 18 de dezembro de 1989.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A seiscentista Rua de Martim Vaz onde nasceu Amália

Freguesia de Arroios

A seiscentista Rua de Martim Vaz, estende-se paralela à Calçada de Santana, do nº 22 ao nº 114 desta artéria, e foi  nela que ocorreu o nascimento da fadista Amália Rodrigues, em casa dos avós maternos.

Entre os nºs 84 e 86 da Rua de Martim Vaz, está colocada uma placa, atribuída ao escultor Lagoa Henriques, que regista  «No pátio desta casa nasceu Amália Rodrigues».  E se entrarmos pelo nº 86 chegamos ao Pátio Santos, onde uma outra placa de responsabilidade municipal para assinalar o 77º aniversário da fadista menciona que «A 23 de Julho de 1920 aqui nasceu Amália Rodrigues. Homenagem da Câmara Municipal de Lisboa. 23 de Julho de 1997», confirmando o seu assento de nascimento que a registou nascida às 5 horas desse dia mesmo que Amália preferisse  celebrar o dia 1 desse mês como a data do seu aniversário.

A Rua de Martim Vaz aparece já no Sumário – Lisboa em 1551 de Cristóvão Rodrigues de Oliveira embora mencionada como Beco de Martim Vaz, na freguesia de Santa Justa. Surge depois nas descrições paroquiais antes e depois do Terramoto já como Rua da freguesia de Nossa Senhora da Pena.

Quem era o «Letrado do Século XVI» Martim Vaz que a legenda aposta mais tarde regista é que se torna mais difícil de decifrar. O olisipógrafo Gomes de Brito menciona quanto ao topónimo que «derivou-lhe o nome de um célebre letrado que figura já na Estatística de 1552» e avisa que «É preciso porém advertir que houve nesta época outro individuo com igual nome, e também com tal qual notoriedade. Era juiz do Pezinho e como tal encontramos este outro Martim Vaz em 1565. Morava porém na rua do Cura da Madalena, freguesia desta invocação». 

Após o início do funcionamento da Comissão Municipal de Toponímia em 1943 a Rua Martim Vaz passou a ser a Rua de Martim Vaz indicando o  «de» que a Comissão tinha elementos que colocavam Martim Vaz como proprietário da artéria.

Certo é que o primeiro livreiro de que há notícia em Portugal viveu no séc. XVI – já que em 1499 está registado com tal categoria profissional-, chamava-se Martim Vaz e era morador em Lisboa. No século seguinte, com data de 14 de janeiro de 1675, encontramos também um juramento prestado por Martim Vaz Tagarro e Luís Rodrigues, para servirem como juízes do ofício de livreiro que pode indicar a continuação da tradição de um ofício permanecer na mesma família.

No entanto, o nome poderia ser muito comum já que Martim Vaz é também o nome de uma ilha do arquipélago brasileiro de Trindade e Martim Vaz, descoberta pelo navegador galego João da Nova em 1501.

Por outro lado, Albino Forjaz de Sampaio sugeriu em 1919 que Martim Vaz seria um guitarreiro, ou seja, seria um fabricante de guitarras.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Maestro Frederico de Freitas, autor do fado Rua do Capelão

Freguesia de São Domingos de Benfica                                             (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Maestro Frederico de Freitas, autor das partituras dos filmes A Severa (1931) e Fado (1948), passou a ser o topónimo de uma Rua de São Domingos de Benfica três anos após o seu falecimento, sendo o 1º filme sonoro português sobre a 1ª fadista que o tornou popular e nele pontuou o seu fado Rua do Capelão, ainda hoje uma memória muito presente no imaginário português.

A Rua Maestro Frederico de Freitas, que une a Rua Cidade de Rabat  à Rua Augusto Pina, foi atribuída pelo Edital municipal de 11 de novembro de 1983 na Rua 2 (entre a Rua Augusto Pina e a Rua dos Soeiros), também identificada como Prolongamento da Rua Augusto Pina, artéria onde desde 1972 estava sediada a então Escola Preparatória Prof. Delfim Santos, a partir de uma solicitação da Sociedade Portuguesa de Autores, que além do nome de Frederico de Freitas propôs os escritores Pedro Bandeira e José Galhardo, assim como o ator Paulo Renato, tendo sido todos incluídos no mesmo Edital.

Frederico Guedes de Freitas (Lisboa/15.11.1902- 12.01.1980/Lisboa) notabilizou-se como compositor, maestro, pedagogo, musicólogo e crítico musical. Revelou-se um músico abrangente e eclético, do fado à música erudita. Somou música erudita, como por exemplo, Concerto para Flauta,  Hino Asas AtlânticasMissa SoleneQuarteto ConcertanteRibatejo  ou Suite Medieval, com música produzida para cinema, teatro ou dança. Adicionou ao património musical português tanto música de câmara como Quinteto de sopros ou Dez Canções Galegas como música sinfónica ( A Lenda dos BailarinosSuite Africana ou Sinfonia Os Jerónimos ), música para comédias, óperas, operetas, revistas (1927 – 1937) e até filmes como Pátio das Cantigas ou As Pupilas do Senhor Reitor (de Leitão de Barros como A Severa), de 1930 e até 1947, fazendo música tanto destinada ao público do Parque Mayer como ao do Teatro Nacional de São Carlos.

Funcionário da  Emissora Nacional entre 1935 e 1975, como Segundo Maestro da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional,  tanto colaborou em 1940 nas comemorações da celebração do Estado Novo  como esteve na fundação da Sociedade Coral de Lisboa (1940-1949) para apresentação de obras do repertório coral sinfónico. Depois, na Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto (1949-1953), dirigiu as primeiras audições no Porto de obras de Fernando Lopes Graça, um resistente musical durante o Estado Novo. Acresce que Frederico de Freitas foi o compositor português de música sacra mais destacado do século XX, autor de As Sete Palavras de Nossa Senhora, tal como foi o responsável por orquestrar A Portuguesa e Grândola Vila Morena. A sua versatilidade revela-se no índice do seu catálogo musical que junta Bailado, Música de Câmara, Música para Cinema, Música Coral, Harmonizações, Hinos, Música para Instrumento Solista, Música de Cena, Ópera, Opereta, Música Sinfónica, Orquestrações, Música de Teatro de Revista, Vaudeville, Voz e Piano. Registe-se ainda que Frederico de Freitas também exerceu  funções de chefe de orquestra no Brasil, na Bélgica, em Espanha, França, Holanda, Itália e Suíça.

Frederico de Freitas  foi  ainda docente de Canto Coral, a partir de 1924, no Liceu Camões (onde fora aluno em 1913 e 1914) e no Liceu Gil Vicente, assim como desde  1967, ensinou Composição, Contraponto e Fuga no Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa. Na dança, também trabalhou como diretor musical e compositor na Companhia de Portuguesa de Bailado Verde Gaio fundada pelo Secretariado de Propaganda Nacional/SPN (1940 – 1950), assim como compôs música para dança para o seu amigo de juventude e coreógrafo Francis Graça durante a década de 1940. Somou ainda a direção musical da delegação portuguesa da His Master’s Voice na transição para a década de 1930 e a função de crítico musical no jornal Novidades, sendo ainda autor de vários estudos como «O fado, canção da cidade de Lisboa» ou «O fado veio do Brasil».

Refira-se que Frederico havia iniciado os seus estudos de música com a sua mãe, a pianista Elvira Cândida Guedes de Freitas e a partir de 1915 no Conservatório Nacional em Lisboa. Morou na Rua do Prior Coutinho, entre a Rua de Santa Marta e a Rua do Passadiço. Em 1918, aos 16 anos, compôs as suas primeiras obras – Duas Ave Marias –, cuja primeira audição pública ocorreu em 1922.  Concluiu o curso de Composição no Conservatório Nacional em 1925, e foi seleccionado para Pensionista do Estado no estrangeiro nesse mesmo ano, o que lhe possibilitou a realização de viagens a vários países europeus em 1927 e 1928.

Foi um dos mais empenhados membros da Sociedade Portuguesa de Autores, em cuja fundação participou quando tinha 23 anos (era então denominada Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses) e da qual foi mais tarde Presidente de Honra. Frederico de Freitas foi também agraciado, por ordem cronológica, com  Prémio da CML para a Sonata Violino e Violoncelo (1924), o Prémio Nacional de Composição Carlos Seixas (1926), o Prémio de Composição Domingos Bomtempo ( 1935), a Comenda de Santiago de Espada (1967), o seu nome dado ao Auditório da SPA (1981).

Em 2010,  o espólio do compositor Frederico de Freitas foi doado à Universidade de Aveiro pela filha do compositor, Elvira de Freitas, tendo dois anos depois sido também instituído o Prémio de Interpretação Frederico de Freitas/Universidade de Aveiro.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Leitão de Barros, do realizador da Severa e criador das Marchas Populares

Leitão de Barros, o realizador de A Severa o primeiro filme sonoro português, exibido em 1931 – e  criador das Marchas Populares de Lisboa em 1932, conhecido como o homem dos sete instrumentos, teve o seu nome perpetuado numa Rua de São Domingos de Benfica, pelo Edital municipal de 4 de novembro de 1970, três anos após o seu falecimento.

A Rua Leitão de Barros resultou de uma sugestão do próprio Presidente da edilidade de então, Engº Santos e Castro,  e ficou no 1º Impasse à Rua Padre Francisco Álvares e pelo mesmo Edital municipal o 2º Impasse ficou para a Rua Raquel Roque Gameiro, cunhada de Leitão de Barros e igualmente ilustradora como Helena Roque Gameiro.

José Júlio Marques Leitão de Barros (Lisboa/22.10.1896 – 29.06.1967/Lisboa), homem dos sete ofícios, foi professor do ensino secundário, pintor, cenógrafo, dramaturgo e ainda, jornalista e cineasta (as duas áreas pelas quais ganhou mais fama), bem como aquilo que hoje designaríamos como produtor de eventos.

Foi o pioneiro da primeira geração de cineastas do sonoro, sendo seu o primeiro filme sonoro português, A Severa, em 1931, a partir do romance de Júlio Dantas. Leitão de Barros começou em 1918 como cineasta com Malmequer e Mal de Espanha, distinguindo-se depois pelas suas super produções históricas como Bocage (1936), Inês de Castro (1945) ou Camões (1946), para além de Maria do Mar (1930), Lisboa, Crónica Anedótica (1930), As Pupilas do Senhor Reitor (1935),  Maria  Papoila (1937), Ala Arriba! (1942) ou Vendaval Maravilhoso (1949), no qual Amália Rodrigues integrou o elenco.  No documentário, salientam-se os seus Sidónio Pais – Proclamação do Presidente da República (1918), Nazaré (1927),  Legião Portuguesa (1937), Mocidade Portuguesa (1937), A Pesca do Atum (1939), Comemorações Henriquinas (1960), A Ponte da Arrábida Sobre o Rio Douro (1961) ou A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo em Portugal (1966).  Leitão de Barros foi também o principal animador da construção dos estúdios da Tobis Portuguesa, na Quinta das Conchas, no Lumiar.

Leitão de Barros frequentou a Faculdade de Ciências e a de Letras mas  acabou por concluir o curso de arquitetura na  Escola de Belas Artes de Lisboa e o curso da Escola Normal Superior de Lisboa, após o que   foi professor de Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel. Casou em 17 de agosto de 1923 com a ilustradora Helena Roque Gameiro (1895 – 1986), a 2ª filha de Alfredo Roque Gameiro.

Em 1916 iniciou-se no jornalismo. Fundou e dirigiu O Domingo Ilustrado (1925-1927) e O Notícias Ilustrado (1928-1935). Colaborou nos jornais O Século – onde criou O Século Ilustrado e a Feira Popular de Lisboa, em 1943 -,   A Capital,  ABC, assim como na revista Contemporânea e na de cinema Movimento, tendo sido o Diário de Notícias a sua última tribuna, de 1953 a 1967, onde saía aos domingos a sua crónica semanal «Os Corvos».

Nas décadas de trinta e quarenta, Leitão de Barros investiu em eventos de animação da cidade. Começou as Marchas Populares em 1932, no Capitólio, para revitalizar o Parque Mayer, sendo que em 1934 já foram cerca de 300 mil pessoas que assistiram ao desfile da Praça do Comércio ao Parque Eduardo VII. Depois, foram os monumentais cortejos como o Cortejo das Viaturas (1934), os Cortejos das Festas da Cidade (em 1934 e 1935), o da Embaixada do século XVIII (1936),  o Cortejo e o Torneio Medieval dos Jerónimos (1938) e o Cortejo Histórico de Lisboa (1947).  Em 1939 e 1940, foi o Secretário Geral da Exposição do Mundo Português e o  responsável pela Nau Portugal.  Foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1935 e com o Grande- Oficialato da Ordem Militar de Cristo em 1941. Também foi o organizador das receções triunfais a Franco (1949) e à Rainha Isabel II (1957).

Como pintor, dispunha de  ateliê na Rua D. Pedro V e expôs em museus portugueses, no Museu de Arte Contemporânea de Madrid e ainda, no Brasil. Foi também cenógrafo e dramaturgo de muitas peças que subiram à cena em Lisboa, nomeadamente no Teatro Nacional, para além de ter sido diretor da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)