Publicação municipal da Rotunda República da Colômbia

A publicação municipal de toponímia referente à Rotunda República da Colômbia, hoje distribuída no decorrer da inauguração oficial deste arruamento, na Freguesia do Parque das nações, já está online.

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Ou no topo do nosso blogue carregar em 3 – As nossas Edições.

 

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A Rua Áurea da Livraria Rodrigues e de Camões organizado por Régio

(Imagem: © CER)

A Livraria Rodrigues, que era também Sociedade Editorial e Livreira, fundada em 1863 e sediada nos nºs 186-188 da Rua Áurea, publicou a poesia lírica de Camões numa edição organizada por José Régio, que também redigiu uma introdução e colocou notas que facilitassem a compreensão do poeta Luís Vaz de Camões para o público em geral.

A Livraria Rodrigues foi até aos anos sessenta do séc. XX uma editora de livros escolares, graças a uma gráfica instalada na sua retaguarda.

José Régio foi também um antologista em cuja obra se  incluem várias, sendo esta Luís de Camões publicada em 1944, na coleção «As melhores páginas da Literatura Portuguesa» da lisboeta Livraria Rodrigues. Refira-se que no mesmo ano, mas na Portugália da Rua do Carmo, vieram a lume As Mais Belas Líricas Portuguesas, também com seleção, prefácio e notas de José Régio.

Régio organizou mais antologias publicadas de 1945 a 1967. Com Alberto de Serpa organizou Poesia de Amor (1945), para a portuense Livraria Tavares Martins;  Alma Minha Gentil (1957), antologia de poesia de amor portuguesa, assim como Na Mão de Deus (1958), antologia de poesia religiosa portuguesa, ambas para a Livraria Portugália. A solo, organizou e prefaciou Poesia de Ontem e de Hoje Para o Nosso Povo Ler (1956), para a Campanha Nacional de Educação de Adulto e a partir de 1958 organizou e anotou para a lisbonense editora Artis dezanove antologias:  Os mais belos sonetos de Camões (1958); Os mais belos sonetos de Bocage, A mais bela écloga portuguesa: Crisfal  e As mais belas poesias de Rodrigues Lobo (todas em 1959); As mais belas poesias trovadorescas e As mais belas poesias de Tomás Gonzaga (em 1960); As mais belas poesias de Sá de Miranda e As mais belas poesias de António Ferreira (em 1961); Cancioneiro Geral de Garcia de Resende As mais belas poesias de Diogo Bernardes (em 1962); As mais belas redondilhas de Camões, As mais belas poesias de Frei Agostinho da Cruz e As mais belas canções e odes de Camões (todas as três em 1963); Os mais belos cantos de Gonçalves Dias e As mais belas poesias gongóricas (1964); As mais belas poesias de Castro Alves (1965); As mais belas poesias de Olavo Bilac e Os mais belos sonetos de Antero (1966) e As mais belas poesias de Bernardim Ribeiro (1967).

Vulgarmente conhecida como Rua do Ouro, a Rua Áurea,  é uma das artérias da Baixa pombalina que consta da Portaria de 5 de Novembro de 1760, aquela que  inaugurou em Lisboa a prática da atribuição de nomes de ruas por documento oficial e, assim, é o primeiro diploma de toponímia.

D. José I fez publicar a Portaria na qual se estabelece a denominação dos arruamentos da Baixa lisboeta, reconstruída com ruas largas sob o plano moderno de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel«entre as Praças do Comercio e a do Rocîo», ao mesmo tempo que regulamenta a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelas diferentes 14 artérias: «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Rainha [hoje, Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa». Para a Rua Áurea determinava que nela se instalassem os ourives da cidade e que nas lojas que sobrassem ficassem relojoeiros e os volanteiros, aqueles que vendiam artigos variados.

Recorde-se também que Lisboa da 2ª metade do século XVI já tinha uma Rua Nova dos Ourives, também denominada Rua dos Ourives do Ouro ou Rua Ourivesaria do Ouro. Fora aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar e supõe-se que se situava na área hoje ocupada pelas ruas de São Nicolau e de São Julião.

A Rua Áurea no Natal de 1959
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

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Régio na  Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD e a Rua da Trindade

Excerto do protesto da Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática
(Imagem: © CER)

José Régio não era um cidadão alheio aos acontecimentos sociais e assim, teve envolvimento político quando as situações críticas da vida nacional o justificavam, tanto que em 1945 integrou a  Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática, que tinha a sua sede no 3º andar do n° 15 da Rua da Trindade.

Em novembro de 1946, esta Comissão entregou uma missiva ao Presidente da República, em que protestavam o seguinte: «Passado ano e meio sobre a vitória das Nações Unidas, que significou para quase todos os países civilizados a liquidação do fascismo, nas suas formas mais odiosas e mais vis; passado mais dum ano sobre o discurso do Chefe do Governo Português, em que se prometia à opinião pública nacional mais larga expressão dos seus direitos civis e políticos – sentem-se os signatários no dever intelectual e moral de vir protestar perante V. Exª e perante o país contra as opressões, as arbitrariedades e as violências que continuam sendo praticadas, sob o signo da autoridade constituída, contra cidadãos que exercem aqueles mesmos direitos e, o que é talvez pior, contra a dignidade humana e a cultura.» E terminavam com uma justificação do seguinte teor: «Como portugueses e trabalhadores do espírito assiste-nos o direito de chamar a atenção de V. Exª e da Nação para as violências cometidas – contra a lei, contra o senso de justiça, contra a dignidade da cultura – em prejuízo de intelectuais portugueses cuja pessoas e cujas obras constituem um património honroso da comunidade nacional a que pertencemos. É em nome desse direito que formulamos este protesto reclamando Justiça e Liberdade.»

Docente no Liceu de Portalegre, José Régio participava na Comissão Concelhia do MUD de Portalegre desde 1945 e em 1949, integrou também a Comissão Distrital de Portalegre da campanha de Norton de Matos à Presidência da República, assim como mais tarde, em 1958, vai aderir à candidatura de Humberto Delgado.

A Rua da Trindade onde a Comissão dos Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos do MUD-Movimento de Unidade Democrática tinha sede, é uma artéria que hoje começa no Largo do Carmo e segue até atingir a Rua Nova da Trindade. Como o nome indica, é este um topónimo que deriva do Convento da Santíssima Trindade, fundado por D. Afonso II  em 1218, para a Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, religiosos franceses, vulgarmente conhecidos por Trinitários, que se estabeleceram assim em Lisboa numa zona envolvida por um olival, na franja urbana da cidade. A mesma origem é partilhada com os topónimos Largo da Trindade, Rua Nova da Trindade e Travessa da Trindade, que se encontram nesta área.

Do antigo convento masculino de religiosos que se dedicavam ao resgate dos cativos portugueses nas cidades de Marrocos e da Argélia, resta hoje parte da estrutura abobada e pilares do refeitório na sala pública da Cervejaria Trindade. O convento recebeu significativos benefícios e privilégios do poder régio, nomeadamente, da Rainha Santa Isabel, a que não será estranho Estêvão Soeiro, frade trinitário que era o confessor da Rainha. No século XIV, a muralha fernandina dividiu o Mosteiro, ficando uma parcela dentro de muros, a qual foi urbanizada nos inícios do século XVI – a Vila Nova do Olival-, e uma exterior, a Herdade de São Roque, urbanizada mais tarde, em meados desse mesmo século. A partir de 1561 o convento foi ampliado, com capacidade para albergar 110 frades, estando entre eles, Frei Nicolau de Oliveira, autor do Livro das Grandezas de Lisboa. O terramoto de 1755 atingiu o edifício conventual e a sua reconstrução prolongou-se por décadas mas o seu lado oriental acompanhava a Rua Larga de São Roque (hoje, Rua da Misericórdia), a fachada principal estava virada a sul e nela se abria a portaria para o lado norte do Largo de São Roque (hoje, Largo Trindade Coelho) e a nova igreja do convento localizava-se no prédio da já desaparecida Livraria Barateira.

Em 1834, com a extinção das ordens religiosas os frades trinitários mudaram-se para a sua casa de Sintra, e o Estado vendeu os terrenos para prédios e uma fábrica de cerveja (a Trindade), para além de, no ano seguinte, ser demolida mais uma parte do antigo convento para permitir a abertura da Rua Nova da Trindade.

Freguesia de Santa Maria Maior

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José Régio e Mário Dionísio, dois intelectuais multifacetados como topónimos de Lisboa

Poema de Mário Dionísio na Presença nº53 e 54, 1938
((Imagem: © CER))

José Régio e Mário Dionísio, ambos professores de carreira e intelectuais multifacetados empenhados na literatura, nas artes plásticas, na crítica e ensaio, também partilham a homenagem de darem nome a artérias de Lisboa, o primeiro desde 7 de agosto de 1997 e o segundo, desde 1 de agosto de 2005.

José Régio, o teorizador da Presença que logo no nº 1, na primeira página, publicou Literatura Viva, texto que pode ser visto como manifesto programático da publicação, aceitou a colaboração do jovem Mário Dionísio, quinze anos mais novo,  durante a década de trinta até este se afastar, em conjunto com João José Cochofel, Fernando Namora e Carlos de Oliveira.  E no espólio de Mário Dionísio, encontram-se originais manuscritos ou dactilografados de vários autores, sendo Régio um deles, o que nos recorda a ideia de 1937 nunca concretizada, por falta de sala, de organizar o I Certame de Arte Moderna, pelo que  pediu para uma brochura de inéditos a colaboração dos poetas contemporâneos José Régio, Edmundo de Bettencourt, Fausto José, Francisco Bugalho, José Gomes Ferreira, João Falco/Irene Lisboa e Vitorino Nemésio. Tanto Régio como Dionísio também publicaram nas páginas de Cadernos da Poesia, a revista literária de Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti nas décadas de quarenta e cinquenta.

A Rua Mário Dionísio nasceu do Edital municipal de 1 de agosto de 2005, na Rua A do PER 8, na Freguesia do Lumiar, doze anos após o falecimento de Mário Dionísio de Assis Monteiro (Lisboa/16.07.1916-17.11.1993/Lisboa), nascido que fora no nº 2 da Rua Andrade  e licenciado em Filologia Românica em 1939, pela Universidade de Lisboa, que se mostrou um intelectual multifacetado como escritor, ensaísta, pintor, crítico de arte e tradutor, para além de ter sido professor do Ensino Secundário durante praticamente quarenta anos, no Colégio Moderno e no Liceu Camões, assim como a partir de 1978 e até 1987 foi docente de Técnicas de Expressão do Português na Faculdade de Letras de Lisboa.

Mário Dionísio foi autor de uma obra literária autónoma, com ensaio, poesia, conto e romance, onde se podem salientar Poemas (1941), As Solicitações e Emboscadas (1945), O Riso Dissonante (1950), Memória dum Pintor Desconhecido (1965), os poemas em francês Le Feu qui dort (1967), Terceira Idade (1982), o seu único romance Não há morte nem princípio (1969),os seus contos O Dia Cinzento (1944), Monólogo a Duas Vozes (1986) , a sua Autobiografia (1987) e o seu último livro, de contos,A morte é para os outros (1988).

Ao longo da sua vida foi um dos principais promotores e teorizadores do neorrealismo português, sendo assinalável a sua regular colaboração em jornais e revistas literárias para além da Presença, como Altitude, A Capital, Diário de LisboaO DiaboGazeta MusicalLiberdadeRepúblicaRevista de PortugalSeara Nova, O Tempo e o Modo ou Vértice. Foi ainda diretor de programas da RTP de dezembro 1975 a março de 1976.

Pintor desde 1941, usou os pseudónimos de Leandro Gil e José Alfredo Chaves, expondo em mostras coletivas desde a década de quarenta mas só em 1989 realizou a sua primeira exposição individual de pintura. Publicou também A Paleta e o Mundo,  obra editada em fascículos a partir de 1956 ( e até 1962) com orientação gráfica de Maria Keil que lhe valeu o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores (1963). Refira-se ainda que na sua obra pictórica pintou retratos dos seus contemporâneos, como Joaquim Namorado (1952),  Carlos de Oliveira e João José Cochofel (1988) ou José Gomes Ferreira (1989). Obteve também o troféu «Pintor do Ano» da Antena 1, em 1989.

Como cidadão, casou em 1940  com a sua antiga colega de curso Maria Letícia Clemente da Silva, de quem terá uma única filha, a escritora Eduarda Dionísio. Também se mostrou empenhadamente antirregime desde o início dos anos 30 do século passado, integrando o Movimento de Unidade Democrática (MUD), onde ficará responsável por estabelecer a ligação entre a sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas e o Partido Comunista Português, para onde entrará em 1945 e ficará até 1952. Na década de 60 frequentava ainda a tertúlia do Café Bocage, na Avenida da República, onde se encontrava com Augusto Abelaira, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, João José Cochofel,  e outros.

Mário Dionísio foi galardoado com o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos, ex-aequo com Alexandre O’Neill, em 1982 e, nove anos depois, em 1991, o Museu do Neo-Realismo organizou em Vila Franca de Xira e em Lisboa, exposições e colóquios sobre os seus 50 Anos de Vida Literária e Artística. Finalmente, em setembro de 2008, familiares, amigos, ex-alunos, ex-assistentes, conhecedores e estudiosos da sua obra fundaram em Lisboa, na Rua da Achada, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, que abriu ao público um ano depois.

Rua Mário Dionísio na Freguesia do Lumiar

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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Nascidos em 1901: Nemésio e Régio em ruas lisboetas

Freguesia de Santa Clara

Vitorino Nemésio e José Régio, que ao longo das suas vidas se vão corresponder, nasceram no mesmo ano de 1901 e partilharam também a participação em revistas comuns: Nemésio pontificou na Presença de Régio a partir de 1930 e Régio publicou na Revista Portugal  de Nemésio. Refira-se ainda que Vitorino Nemésio publicou no jornal académico Gente Nova, em abril de 1927, uma crítica favorável ao primeiro livro de José Régio, Poemas de Deus e do Diabo.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, escritor e autor do famoso programa televisivo Se bem me lembro, estando desde o ano do seu falecimento na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, na Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, tendo ficado na Rua A o também escritor e professor universitário Jorge de Sena.

Na sua carreira académica, Vitorino Nemésio foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e do Ceará. Cumprido o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919, concluiu o liceu em Coimbra, em 1921 e inscreveu-se no curso de Direito. Passados  três anos,  trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte voltou a mudar, desta feita para o curso de Filologia Românica, que concluiu em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde começou desde logo a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Nemésio foi também professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, Nemésio tanto foi poeta como prosador de crónicas ou romances. Se o seu primeiro livro publicado, como Régio, foi de poesia –Canto Matinal (1916) -, ele é o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956), para além da ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971). Na poesia, destaquem-se as suas obras Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003).

Na comunicação social, Vitorino Nemésio construiu uma história longa: fundou e dirigiu as revistas  Estrela d’Alva (1916) e a Revista Portugal (1937); dirigiu o jornal O Dia (entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976); fundou a revista Tríptico (1924) com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, assim como a Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927) com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima; foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), na Presença ( a partir de 1930), em O Diabo (1935), no Diário Popular (1946) com uma rubrica regular, na revista Vértice (1947) e na revista Observador (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de meia hora em horário nobre, onde com uma postura descontraída, de 1970 a 1975, discorria sobre mentalidades e cultura em geral.

Vitorino Nemésio foi galardoado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961), o Prémio Nacional de Literatura (1965), o Prémio Montaigne (1974), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978).

Freguesia de Santa Clara

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Dois Josés Maria inovadores na literatura presentes na toponímia de Lisboa

Avenida José Régio e Rua Ferreira de Castro -Freguesias de Alvalade e de Marvila

José Maria dos Reis Pereira e José Maria Ferreira de Castro são dois Josés Marias que a escrita uniu e se corresponderam, ambos presentes na toponímia de Lisboa, em artérias paralelas, o primeiro numa Avenida de Alvalade e de Marvila e o segundo, numa Rua de Marvila.

Quando Régio publicou o seu primeiro livro – Poemas de Deus e do Diabo – Ferreira de Castro na sua página «Livros e Autores» do jornal ABC (de Rocha Martins), logo em 22 de abril de 1926 deu conta da sua chegada, testemunhando que «É um poeta, um autêntico poeta, este José Régio que agora solta o primeiro grito desde o campo, até aqui silente, do seu anonimato. É um poeta original, aqui e ali irreverente – uma irreverência que não está mui longe da profundidade. (…) O seu “Poemas de Deus e do Diabo” é uma verdadeira revelação – a revelação de uma forte personalidade que não está volvida para cinzas arcaicas, mas sim para os torreões onde se desfraldam os mais novos e deslumbrantes estandartes literários.»

Ferreira de Castro e Régio também estiveram presentes no nº especial da Vértice de 1951 – comemorativo do 10º aniversário e do nº 100 da revista – assim como em 11 de novembro de 1966, com David Mourão Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, ambos assistiram à deposição dos restos mortais de António Botto num gavetão do Cemitério do Alto de São João.

Ferreira de Castro, o autor de A Selva – fruto da sua experiência como emigrante no Brasil-, está desde a publicação do Edital municipal de 28 de fevereiro de 1984 como o topónimo de Marvila. O mesmo Edital colocou numa rua da mesma freguesia a escritora brasileira Dinah Silveira de Queiroz. Cinco anos depois,  junto à Rua Ferreira de Castro nasceu a Rua como o nome da poetisa Luísa Neto Jorge e em 1997, paralela, surgiu a Avenida José Régio.

José Maria Ferreira de Castro (Oliveira de Azeméis- Ossela/24.05.1898 – 29.06.1974/Porto) foi um escritor e jornalista que se destacou por retratar na  sua obra a vida dos emigrantes no Brasil, nomeadamente no romance Os Emigrantes (1926) e em A Selva (1930), no qual narra a vida nos seringais da Amazónia inspirando-se na sua própria experiência de trabalho. A edição de A Selva no Brasil, em 1935, foi prefaciada por Afrânio Peixoto  e, em 2002, numa produção luso-hispano-brasileira, a obra foi adaptada ao cinema por Leonel Vieira. Ferreira de Castro foi considerado precursor do neorrealismo pela sua inovadora obra marcada pelo sofrimento e pobreza, em resultado da morte prematura do pai em 1906 e a sua experiência de emigração no Brasil desde os 12 anos, corria então o ano de 1910: viveu durante quatro anos como caixeiro no seringal Paraíso (em plena selva amazónica) e depois recorreu a trabalhos como colar cartazes em Belém ou ser embarcadiço em navios entre Belém e a Guiana Francesa. Ainda no seringal escreveu o seu primeiro romance Criminoso por ambição (1916)  que publicou em fascículos no Brasil.

«Alma Nova», dezembro de 1925

Do conjunto das suas 31 obras refiram-se ainda a peça A Alma Lusitana(1916), O Êxito Fácil (1923), Sangue Negro (1923),  A Metamorfose (1924)A Epopeia do Trabalho (1926)O voo nas Trevas (1927), Terra Fria (1934) – que foi Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências e também adaptada a filme de António Campos em 1992-  A Tempestade (1940), A Lã e a Neve (1947), O Instinto Supremo (1968) , Os Fragmentos (1974) e os dois volumes de  As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963), que receberam em 1965 Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris. Duas das suas obras de 1936- O Intervalo e a peça Sim, uma Dúvida Basta, feita para o Teatro Nacional e censurada  por despacho governamental – só foram publicadas em 1974 e 1994.

Nos periódicos, colaborou no Jornal do Novos de Belém (1916); fundou e dirigiu com outro emigrante, João Pinto Monteiro, o semanário Portugal (1917)  e O Luso (1919), as revistas A Hora (1922) e Civilização (1928); colaborou nos jornais Imprensa Livre (1921), no «Suplemento Literário» do diário A Batalha e da revista Renovação (1925) da Confederação Geral do Trabalho anarco-sindicalista, no jornal O Século (1927), O domingo ilustrado e Ilustração (1934), o jornal O Diabo (1935) e o jornal carioca A Noite (1938). Em 1926 foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa.

Como cidadão, José Maria Ferreira de Castro denunciou os efeitos nefastos da censura sobre os escritores portugueses numa entrevista ao Diário de Lisboa em 1945, e nessse mesmo ano integrou a Comissão Consultiva e a Comissão de Escritores Jornalistas e Artistas do Movimento da Unidade Democrática (MUD). Em 1949, apoiou empenhadamente a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. Em 1962, foi eleito por unanimidade presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era o sócio nº 2 e Aquilino o nº 1.

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A «Presença» de Régio e as capas de Almada Negreiros e Sara Afonso

Sara Afonso e Almada Negreiros em óleo sobre tela de 1937, da autoria de Almada

Desde 1927 fundador e diretor da revista PresençaJosé Régio também se cruzou com dois dos artistas que elaboraram artigos sobre arte e capas para a publicação, que neste artigo juntamos por serem o casal Almada Negreiros e Sara Afonso, ambos topónimos de Ruas nas Freguesias dos Olivais e em Belém, respectivamente desde 1970 e 1988.

A estudar em Coimbra onde se licenciou em 1925, José Régio conheceu na Universidade Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões com os quais fundou e dirigiu a revista Presença – Folha de Arte e Crítica. O  primeiro número saiu em 10 de março de 1927 e esta publicação vai marcar  a história do modernismo em Portugal. Ao longo de 13 anos e 54 números, até encerrar em 1940, a Presença contou com inúmeras colaborações de nomes da cultura portuguesa como António Botto, António Navarro, Arlindo Vicente, Casais Monteiro, Delfim Santos, Diogo de Macedo, Edmundo de Bettencourt, Irene Lisboa, José Marinho, Luís de Montalvor, Maria Helena Vieira da Silva, Miguel Torga ou Saul Dias (pseudónimo usado pelo irmão de José Régio, Júlio Pereira), entre outros. A Presença foi ainda essencial para divulgar em Portugal autores estrangeiros como Apollinaire, Cecília Meireles, Ibsen, Dostoiesvky, Jorge Amado, Marcel Proust, Paul Valéry ou Pirandello.

Rua Sara Afonso na Freguesia de Belém

José Sobral de Almada Negreiros (S. Tomé e Príncipe – Roça da Saudade/07.04.1893 – 15.06.1970/Lisboa), artista multifacetado das artes plásticas e da literatura, que fez coreografia para bailado, caricatura, pintura a óleo, tapeçaria, gravura, pintura mural, mosaico, azulejo e vitral, deu o seu nome a uma rua dos Olivais praticamente um mês após o seu falecimento: faleceu a 15 de junho de 1970, no Hospital de S. Luís dos Franceses, mesmo ao cimo da Rua Luz Soriano, no mesmo quarto onde morrera o seu amigo Fernando Pessoa e a 11 de julho seguinte, um Edital municipal colocou o seu nome na artéria referenciada como  Rua E 2 da Célula E dos Olivais Sul, incluindo os Impasse EJ, 3D, 3D1, EU e EV e abrangendo os lotes 454 a 462, 470a 474, 487a 494 e 504 a 506.

Essencialmente autodidata, publicou em 1911 os primeiros desenhos e caricaturas e, no ano imediato, redigiu e ilustrou de forma integral o jornal manuscrito A Paródia, para em 1913 voltar a participar na Exposição dos Humoristas Portugueses, preparar o primeiro projeto de bailado (O sonho da rosa), desenhar o primeiro cartaz (Boxe) e, em 1914 ser diretor artístico no semanário monárquico Papagaio Real, para além de ter sido colaborador da revista Orpheu em 1915, veículo de introdução do modernismo em Portugal, onde conviveu de perto com Fernando Pessoa e,  publicou o «Manifesto Anti-Dantas e por extenso»,  por ocasião da estreia da peça de teatro Soror Mariana Alcoforado de Júlio Dantas, reagindo assim às críticas negativas deste à Orpheu segundo a «estética do soco» de Marinetti. Ainda nesse ano escreve a novela A engomadeira (publicada em 1917) e o poema A cena do Ódio (publicado parcialmente em 1923). Em 1917, publicou a novela K4 O Quadrado Azul, realizou a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX  e colaborou no único número de Portugal Futurista, revista apreendida pela polícia pela inclusão da novela Saltimbancos do próprio Almada , considerada obscena por mencionar cavalos a cobrirem éguas. De 1920 para a frente Almada colaborou em diversos jornais e revistas, publicando desenhos humorísticos, textos e ilustrações; realizou capas de livros e revistas; publicou Invenção do Dia Claro (1921) e escreveu o romance Nome de Guerra (em 1925 e publicado em 1938); produziu quadros para A Brasileira do Chiado (1925) e para o Bristol Club (1926); escreve a peça Deseja-se Mulher dedicada a Sarah Afonso; cria o cartaz político Votai a Nova Constituição (1933); colabora com Pardal Monteiro com os vitrais para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (1934) e a decoração do edifício do Diário de Notícias (1935); executou as pinturas murais da Gare Marítima de Alcântara (1945-1947) e da Rocha do Conde de Óbidos (1946- 1948); pintou o retrato de Fernando Pessoa (1954), realizou painéis decorativos para a Cidade Universitária (1957 – 1961) e o painel de pedra geométrico para o átrio do edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian (1968-1969), fazendo a sua derradeira intervenção pública no programa televisivo Zip-Zip, em julho de 1969.

Sarah Affonso que sobreviveu treze anos a Almada, só foi nome de rua dezoito anos depois de ele o ser, na artéria que antes era vulgarmente conhecida por Rua da Cooperativa de Caselas, pelo Edital municipal de 20 de abril de 1988 que atribuiu 12 topónimos em ruas, sendo 7 de mulheres, a saber:  a pintora Sara Afonso e 1ª mulher a frequentar as tertúlias de A Brasileira (Rua da Cooperativa de Caselas), a médica Carolina Ângelo e  1ª mulher a votar em Portugal (Rua 1), a republicana setecentista Leonor Pimentel (Rua 2), a pedagoga Alice Pestana (Rua 3),  Virgínia Quaresma a 1ª jornalista portuguesa (Rua 4), a 1ª notária portuguesa Aurora de Castro (Rua 6) e a escritora Olga Morais Sarmento (Rua 7).

Sarah Affonso (Lisboa/ 13.05.1899 – 14.12.1983/Lisboa) foi uma pintora e ilustradora que foi uma das últimas discípulas de Columbano na Escola de Belas Artes de Lisboa, a que somou duas estadias em Academias livres de Paris (1923-1924 e 1928-1929) e a frequência das tertúlias de A Brasileira, nos anos trinta do séc. XX, que até aí eram território masculino. Produziu um estilo oriundo do imaginário popular minhoto, zona onde viveu dos 4 aos 15 anos, a que aliou uma intensa temática de noivados, maternidades e famílias. Sara integrou a   segunda geração de pintores modernistas portugueses, com Bernardo Marques, Mário Eloy ou Carlos Botelho. Acabou  por  abandonar a pintura no final da década de quarenta, tendo ainda sido galardoada com o Prémio Amadeo de Sousa Cardoso (1944) do SNI. Na década seguinte regressou à ilustração, em obras de literatura infantil com A Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, para além de na sua carreira ter colaborado no grafismo das revistas Presença e Eva. A sua obra pictórica está representada no Museu do Chiado, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, bem como nos Museus de Bragança e de Amarante, tendo sido agraciada com Ordem de Santiago de Espada (1981). Dá também nome à Escola Básica e Jardim de Infância sita na Rua Almada Negreiros, nos Olivais.

José de Almada Negreiros e Sarah Affonso casaram 1934, residiram  no nº 42 da Rua de São Filipe Nery, tendo tido dois filhos: José Afonso e Ana Paula.

Rua Almada Negreiros na Freguesia dos Olivais

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Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro na tese de licenciatura de Régio e na toponímia de Lisboa

A Avenida Fernando Pessoa na Freguesia do Parque das Nações

José Régio licenciou-se em Filologia Românica,  na Faculdade de Letras de Coimbra, em 1925, com a tese intitulada As correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, o primeiro trabalho que faz a apologia dos poetas da revista Orpheu, sobretudo dos seus fundadores, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro que também se encontram na memória das ruas lisboetas, sendo a tese  regiana inovadora a ponto de nela apresentar Fernando Pessoa como nome cimeiro da poesia contemporânea, quando este autor ainda não possuía nenhuma edição em livro mas apenas poemas publicados em publicações periódicas.

Tanto Fernando Pessoa como Mário de Sá Carneiro passaram a ser nome de rua em Alvalade pelo mesmo Edital municipal de 19 de julho de 1948, junto com mais escritores nas restantes artérias do Bairro. Pessoa passou a ser também topónimo de uma Avenida do Parque das Nações no ano de 2009.

As Ruas Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro na Freguesia de Alvalade

Mário de Sá Carneiro planeou com Fernando Pessoa o lançamento da Orpheu, com financiamento «involuntário» do seu pai, como ele próprio dizia e, esta revista foi a base para o nascimento do primeiro grupo modernista português. Os poemas de Mário Sá Carneiro no nº 1 da Orpheu deram logo brado e viriam a constituir a obra Indícios de Ouro. Mário de Sá Carneiro (Lisboa/19.05.1890 – 26.04.1916/Paris), nascido no 1º andar do nº 93/95 da Rua da Conceição, foi um poeta e contista que apesar de matriculado em Direito – em Coimbra e em Paris, na Sorbonne-, sempre preferiu a literatura. Conheceu Fernando Pessoa em 1912 e nesse mesmo ano publicou pela 1ª vez , a peça Amizade (em colaboração com Tomás Cabreira Júnior, seu colega do Liceu Camões), bem como as novelas Princípio. Entre 1913 e 1914 vinha de Paris a Lisboa com uma certa regularidade e deu ainda a lume Memórias de Paris (1913),  A Confissão de Lúcio (1914), o volume de poesia Dispersão (1914) e  as novelas Céu em Fogo (1915).  Nas cartas que escreveu  de Paris a Pessoa manifestou uma crescente angústia e, em 1915, informou-o de que o seu pai já não dispunha do dinheiro de outrora e já não poderia «involuntariamente» financiar o nº 3 da Orpheu. Depois, a menos de um mês de completar 26 anos, suicidou-se com veneno, num hotel parisiense de Montmartre.

A Rua nº 11 do Sítio de Alvalade foi a primeira a receber o nome do poeta Fernando Pessoa mas como na realização da Expo 98 o nome de Fernando Pessoas também designou uma Avenida do evento, mais tarde, pelo Edital de 2 de setembro de 2009, a Câmara Municipal de Lisboa oficializou esta e mais outros 102 arruamentos do Parque das Nações cujos topónimos tinham a mesma génese.

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa/13.06.1888 – 30.11.1935/Lisboa), nascido no 4º andar direito do nº 4 do Largo de São Carlos, pode ser biografado brevemente como o poeta português dos heterónimos – Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e o semi-heterónimo Bernardo Soares – , que em vida foi galardoado com o Prémio Antero de Quental pela Mensagem (1934), o seu único livro publicado em vida. De 1903 a 1909, Pessoa escrevera poemas em inglês e em dezembro de 1904, publicou um ensaio literário sobre Macauly na revista da Durban High School. Em 1912, começou a colaborar com as revistas  A Águia e a Renascença Portuguesa, sendo nesta última que em 1913 publicou o seu primeiro poema em língua portuguesa, «Pauis», o qual marca o início do modernismo nas letras portuguesas. E depois, para além da revista Orpheu, também colaborou nas revistas Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926) e Atena (1924-1925). Fernando Pessoa deixou  inédita a maioria da sua obra literária, que tem vindo a ser editada paulatinamente desde 1942, uma vez que deixou de espólio mais de 25 mil folhas com texto, à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal.

A Rua Fernando Pessoa em 1955
(Foto: Claudino Madeira, Arquivo Municipal de Lisboa)

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A polémica de José Régio e Álvaro Cunhal na Seara Nova e três topónimos lisboetas

Freguesia do Lumiar

José Régio e  Álvaro Cunhal, ambos guardados na memória de avenidas topónimos lisboetas, foram os protagonistas de uma famosa polémica ocorrida em 1939 nas páginas da  Seara Nova, revista que é também nome de rua alfacinha.

Nas páginas dos nºs. 608, 609, 611, 615 e 619 da revista Seara Nova,  entre abril e junho de 1939, foram trocados argumentos entre Álvaro Cunhal e José Régio, constituindo-se como a polémica da visão neorrealista versus a visão presencista, entre intervenção social na arte e subjetivismo, em que o estava em causa era fundamentalmente a relação da arte com a vida. Todos os artigos discorrem numa perspetiva de são espírito de polémica e de respeito mútuo. Se o neorrealismo mostrava as questões sociais ou outras que marcavam o tempo a acontecer, o presencismo defendia a arte como um fim em si mesmo, uma revelação íntima do seu autor.

José Régio, então com 38 anos, publicou Cartas Intemporais do nosso Tempo, tendo as três primeiras o subtítulo comum de A um Moço Camarada, sobre Qualquer Possível Influência do Romance Brasileiro na Literatura Portuguesa, dirigindo-se assim ao então jovem Álvaro Cunhal, com 25 anos. José Régio defendia a autonomia da obra de arte contra o que chamava a sua instrumentalização ideológica feita por alguns jovens seareiros, com  uma visão algo neorromântica da criação artística muito centrada na individualidade do criador, no isolamento do poeta na sua torre de marfim, como então se dizia.

Álvaro Cunhal intitulou a sua primeira réplica como Numa encruzilhada dos homens – alusão ao título  de Régio Numa encruzilhada de Deus, acabado de publicar-, defendendo um compromisso social da arte e da literatura. A passagem dos anos trinta para os quarenta mostrara o fascismo alemão na guerra que incendiará a Europa, a Espanha saída duma guerra civil onde o fascismo de Franco impôs a lei da morte, a Itália de Mussolini, o aumento da repressão em Portugal. Contudo, Cunhal ressalvou a importância do movimento da Presença na sua rotura com o passado academizante e contra a mediocridade existente na literatura portuguesa de então.

A Avenida Álvaro Cunhal foi atribuída por Edital municipal de 6 de outubro de 2005, na que era a Avenida Avenida 1 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar, na Freguesia do Lumiar, na sequência da moção de pesar dos Vereadores do PCP aprovada na reunião de Câmara de 22 de junho de 2005, para homenagear Álvaro Barreirinhas Cunhal (Coimbra/10.11.1913 – 13.06.2005/Lisboa), político que foi Secretário-Geral do Partido Comunista Português mas que teve também uma intervenção cultural no seu tempo, quer como romancista sob o pseudónimo de Manuel Tiago, quer como desenhador, para além de toda a sua reflexão teórica sobre as artes plásticas, a estética e a criação cultural.

Dez anos depois, em 2015, foi a vez da atribuição da Rua Seara Nova, através do Edital municipal de 25 de novembro de 2015. Esta revista fundada em Lisboa, em 1921, por figuras do então denominado Grupo da Biblioteca Nacional, como Raúl ProençaJaime CortesãoAquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Tomás Conceição Silva, Faria de Vasconcelos e outros, teve o seu 1º número saído para a rua no dia 15 de outubro de 1921, com capa do pintor Tomás Leal da Câmara. A partir dessa data atravessou  todo o século XX influenciando gerações sucessivas.

Freguesia de Santo António

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