Da Travessa do Pintor à Rua do Hospital de Dona Estefânia de 1871

Planta de 1879, do Engº Ressano Garcia, com a Rua do Hospital de Dona Estefânia
(Imagem: © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A  edilidade lisboeta após proceder a melhoramentos na Travessa do Pintor, que a levaram a considerar essa «uma das melhores servidões de Lisboa», solicitou ao Governo Civil de Lisboa que lhe alterasse a denominação para Rua do Hospital de Dona Estefânia, o que sucedeu pelo Edital do Governo Civil de 25 de novembro de 1871, considerando a proximidade ao primeiro Hospital construído de raiz em Lisboa, especificamente para esse fim.

Em memória da rainha Dona Estefânia o rei Dom Pedro V iniciou a construção do Hospital da Bemposta em 1860 mas como faleceu no ano seguinte foi o seu irmão, o rei Dom Luís I, que assegurou a continuidade da obra e a inauguração do Hospital a 17 de julho de 1877, dia da morte de Dona Estefânia, vítima de angina diftérica. Este Hospital foi erguido na quinta do paço real da Bemposta, chamada Quinta Velha, então nos arredores da cidade.

A rainha Estefânia Frederica Guilhermina Antónia (Alemanha/1837 – 1859/Lisboa), que se casara com D. Pedro V em 1858, desejou muito fazer erguer um hospital para crianças, após ter ficado impressionada numa visita ao Hospital de São José, num período de epidemias de cólera e febre amarela, com a junção de adultos e crianças nas mesmas enfermarias. Dona Estefânia ofereceu o seu dote de casamento para que fosse criada uma enfermaria apenas pediátrica. O rei português pediu ajuda a diversas casas reais europeias  para cumprir esse desejo de criar em Lisboa um hospital pediátrico moderno e o traçado escolhido foi o desenhado por Humbert, arquiteto da casa real inglesa, numa decisão da comissão a que o rei presidia e constituíra com Bernardino António Gomes (médico real, lente da Escola Médico-Cirúrgica e presidente da Sociedade de Ciências Médicas), os médicos Barral, Kessler e Simas, o Conde da Ponte ( vedor da casa real portuguesa) e o militar e matemático Filipe Folque .

Em 1879, dois anos após a inauguração do Hospital de Dona Estefânia, a Câmara Municipal de Lisboa presidida por Rosa Araújo entendeu que a Rua do Hospital de Dona Estefânia com todo o seu prolongamento até às Portas da Cidade seria um único arruamento com o topónimo Rua de Dona Estefânia, conforme Edital municipal de 22 de agosto de 1879.

Mais tarde, também em Arroios,  por proximidade à Rua, foi atribuído o Largo de Dona Estefânia, através do Edital municipal de 19 de abril de 1893.

O Hospital de Dona Estefânia
(Foto: Ferreira da Cunha, sem data © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

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Da Rua dos Galegos à Rua do Duque e da Travessa dos Burros à da Boa Morte

A Rua dos Galegos na planta de 1858 de Filipe Folque

O Edital do Governo Civil de Lisboa da segunda-feira dia 5 de agosto de 1867, alterou a denominação de dois topónimos em dois locais diferentes da cidade: a Rua dos Galegos tornou-se a Rua do Duque e a Travessa dos Burros passou a ser Travessa da Boa Morte.

Da Rua dos Galegos à Rua do Duque

A Rua do Duque, hoje integrada na Freguesia de Santa Maria Maior, foi a Rua da Condessa de Cantanhade, a Rua de D. João Coutinho, a Rua do Galegos e  desde 1867, a Rua do Duque. O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, a este propósito refere que  «A Rua da Condessa de Cantanhede, freguesia do Sacramento, (…) é a actual Rua do Duque, depois de ter sido também designada Rua de D. João Coutinho e Rua dos Galegos: «Um fidalgo de primeira plano começa a aglomerar propriedades. É o Conde de Cantanhede, D. Pedro de Meneses, Alferes-mor de D. Manuel, senhor de Tancos e de Atalaia. Compra as casas que Rui de Sousa Cid adquirira a Leonardo Àlvares e, em breve o veremos adquirir outras propriedades próximas, na rua que ia do Postigo para o Carmo, e que veio a chamar-se mais tarde, pelo nome da sua terceira mulher, a Condessa de Cantanhede D. Guiomar. Foi assim que nasceu a rua, sucessivamente chamada de D. João Coutinho, dos Galegos, e do Duque». 

A título de exemplo para situar a época histórica de cada topónimo, recordamos que a Rua da Condessa de Cantanhede aparece num documento de 26 de novembro de 1596, como a morada do barbeiro Manuel Fernandes, enquanto fiador de Simão Lopes que tinha a obrigação de vender 500 carneiros no açougue. Em 1704, surge como Rua da Condessa ao Carmo, num plano de obras de uma casa. Em 13 de outubro de 1739 já deparamos com uma vistoria na Rua dos Galegos. De 1812 a 1848 aparece como Rua da Condessa em alguns documentos municipais,  mesmo se em 1836 e 1838 são apontadas demolições de prédios e de um pardieiro na Rua dos Galegos tal como em 1858, na planta de Filipe Folque, se regista a Rua dos Galegos.

Na data de 5 de agosto de 1867, para além de alterar a Rua dos Galegos para Rua do Duque, o Governo Civil de Lisboa também atribuiu o topónimo Calçada do Duque. Em ambos os casos, a homenagem é a um antigo proprietário local, o Duque de Cadaval.

A Travessa dos Burros na planta de 1856 de Filipe Folque

Da Travessa dos Burros à Travessa da Boa Morte

A Travessa dos Burros junto à Rua Direita da Boa Morte, está já assim registada em agosto de 1856 no levantamento cartográfico de Filipe Folque. Cerca de onze anos depois, em fevereiro de 1867, ainda deparamos com o topónimo Travessa dos Burros através do traçado de um prédio que José Bernardo Ferreira quis construir no n.º 7 e 8, nesta zona que ainda era amplamente rural. Nesse mesmo ano, em agosto, o Edital do Governo Civil de Lisboa de dia 5 alterou a denominação para Travessa da Boa Morte, por referência ao Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Por último, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1882 voltou a modificar o nome da Travessa da Boa Morte para Travessa do Possolo, tal como a Rua da Boa Morte ficou como Rua do Possolo, e esta denominação é a que ainda hoje se apresenta nesta artéria da Freguesia da Estrela.

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Da Rua do Lambaz à Rua de Belver do Alto de Santa Catarina

Rua de Belver, em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

No Alto de Santa Catarina, a Rua do Lambaz passou a denominar-se Rua de Belver por Edital do Governo Civil de 16 de abril de 1867, sendo justificado no próprio Edital que tal sucedia por solicitação de «moradores da rua do Lambaz, freguesia de Santa Catharina, districto do Bairro da mesma denominação, o desejo que teem de que á mesma rua seja restituido o nome de Belver, que teve antigamente, e de que fôra desapossada por motivos que se ignoram».

A Rua do Lambaz está registada nas plantas e descrições da freguesia de Santa Catarina de acordo com a remodelação paroquial de 1770 como Rua do Lambas e Rua do Lambaz, assim como mais tarde surge na planta de 1856 de Filipe Folque, sendo a sua origem derivada de uma alcunha de um morador da zona segundo Júlio de Castilho, até o Governador Civil de Lisboa por este Edital de 1867 passar a identificá-la com o nome do sítio: Belver. O olisipógrafo  Gomes de Brito afirma que «Antigamente chamada “Rua do Lambaz”, alcunha, veja Castilho, Tomo V, e substituída esta denominação pela actual, a instâncias do conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando adquiriu a morada de casas em que residiu e faleceu, nº de polícia 12. Ao Monte de Santa Catarina, antes da fundação da igreja que o coroava, se chamou o monte de Belver, pitoresca denominação de todo o ponto conforme ao excelente panorama que dali se disfruta. José Silvestre Ribeiro aproveitou, pois, e mui naturalmente, a circunstancia, para ver deferida a sua pretensão.»

Norberto de Araújo , como olisipógrafo avançou que «O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio – exactamente onde está êsse Palacete n.º 2, com pátio guarnecido de gradeamento – ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai» e acrescenta que «No Alto dêste cabeço havia, como atrás se disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes» que ficou na toponímia como Rua da Cruz de Pau (depois, Rua Marechal Saldanha). O local foi também denominado Pico da Boavista, Pico ou Monte de Belver ou Belveder.

No ano anterior ao novo topónimo dado pelo Governo Civil de Lisboa, entre 28 de março e 5 de abril de 1866, Luís de Almeida de Albuquerque (Serpa/02.06.1819 – 03.03.1906) apresentou à Câmara para autorização  o traçado do prédio que acabou por edificar na rua do Lambaz, n.º 5 onde depois residiu. Por Edital municipal de 20 de julho de 1920, a Rua de Belver passou a designar-se Rua Dr. Luís de Almeida e Albuquerque. Norberto de Araújo relata ainda que Luís de Almeida e Albuquerque foi proprietário e diretor do Jornal do Comércio, que também sede nesta artéria.

Freguesia da Misericórdia

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O aumento da Rua do Quelhas em 1863

A Rua do Quelhas no início do séc. XX
(Foto: Paulo Guedes, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

O Edital do Governo Civil de Lisboa de 16 de janeiro de 1863 aumentou a extensão da Rua do Quelhas, com a parte da Travessa do Pasteleiro compreendida entre as esquinas do Caminho Novo e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas. Assim, a Rua do Quelhas e a Travessa do Pasteleiro, passaram a ser dois arruamentos no seguimento um do outro,  ambos referindo figuras daquela zona.

A sugestão ao Governador Civil de Lisboa, então o Marquês de Sabugosa, partiu de «alguns proprietarios de predios, e outros individuos residentes na travessa do Pasteleiro» e foi aceite considerando «a circumstancia de não achar-se ainda estabelecido o novo systema de numeração, tanto na rua, como na travessa referidas» e os pareceres favoráveis do Administrador do Bairro de Alcântara e da Câmara Municipal de Lisboa.

Quelhas era o nome pelo qual era conhecido D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, proprietário de uma quinta naquele lugar e na qual morava. De acordo com Norberto de Araújo, dele deriva o topónimo que foi dado ao Caminho Novo:  «Depois do terramoto é que começou a chamar-se-lhe Rua do Quelhas, o tal D. Francisco de Sousa que por aqui fôra grande senhor. Por essa época começou o verdadeiro povoamento lento e seguro deste sítio, a justificar a urbanização do começo do século passado[refere-se ao começo do séc. XIX]». Ainda segundo este olisipógrafo, o Caminho Novo fora obra do Machadinho – José Pinto Machado –  já que «Aquele Pinto Machado, que tinha o seu palácio na Rua do Machadinho- diminuitivo que nasceu do apelido do fidalgo -, foi quem fez rasgar, depois de 1758, uma serventia já desenhada desde 1680 – “Caminho Novo” – na quinta de D. Francisco Xavier Pedro de Sousa, por alcunha o “Quelhas”, quinta na qual o fidalgo tinha sua casa, que bem pode ter sido aquela onde assentou o palácio dos Pinto Machados.»

Freguesia da Estrela

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A Rua Nova da Trindade de 1836 com os acrescentos de 1859 e 1863

A Rua Nova da Trindade no início do séc. XX
(Foto: Beatriz Chaves Bobone, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

A antiga Portaria do Carro, o loteamento do Convento da Santíssima Trindade e a Travessa do Secretário de Guerra deram o espaço que permitiu abrir a Rua Nova da Trindade em 1836 e concluir a sua extensão em 1863, com o Edital do Governo Civil de Lisboa de 6 de junho de 1863.

Conforme o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira, «A Portaria do Carro, ficava, como o leitor já sabe, onde corre o leito da rua Nova da Trindade, junto à entrada da travessa de João de Deus». Depois, em 1836, suprimido o convento é aberta a Rua Nova da Trindade, no prolongamento da Travessa do Secretário da Guerra.

De seguida, o primeiro Edital do Governo Civil de Lisboa – de 1 de setembro de 1859 – uniu a Rua Nova da Trindade e a Travessa de João de Deus (apenas a parte no seguimento daquela) num arruamento único com a denominação de Rua Nova da Trindade.  Quatro anos depois, sendo o Marquês de Sabugosa o Governador Civil, outro Edital de 6 de junho de 1863, a pedido de «alguns proprietarios de predios, e outros individuos residentes na travessa do Secretario de Guerra, freguezia do Sacramento, districto do Bairro -Alto desta cidade», acrescentou a Travessa do Secretário da Guerra à Rua Nova da Trindade, «favoravel à pretenção dos supplicantes, no sentido de que a referida travessa se considere, como realmente é, prolongamento e continuação da rua nova da Trindade».

Freguesia de Santa Maria Maior

Este topónimo evoca o Convento da Santíssima Trindade,  fundado por D. Afonso II  em 1218, para a Ordem da Santíssima Trindade do Resgate dos Cativos, religiosos franceses, vulgarmente conhecidos por Trinitários, que se estabeleceram assim em Lisboa numa zona envolvida por um olival, na franja urbana da cidade e  que originou diversos topónimos nesta zona que ficou conhecida como Trindade. Após o terramoto de 1755 a reconstrução do mosteiro prolongou-se por décadas, acompanhando o edifício parte do lado oriental da Rua Larga de São Roque (hoje, Rua da Misericórdia) e com a fachada principal virada a sul, nela se abrindo a portaria para o lado norte do Largo da Trindade e a nova igreja do convento localizava-se no local onde está o prédio que albergou a Livraria Barateira. Em 1833 foram dispersos os frades e em 1834, o convento foi loteado e vendido. O refeitório do antigo edifício conventual é o vestígio que ainda hoje podemos encontrar como salão grande da Cervejaria Trindade.

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José Régio e a Rua António Botto

Estudo de José Régio sobre a obra de António Botto, publicado em 1938

José Régio saudou a edição de Ciúme de António Botto em artigo publicado no Diário de Lisboa de 21 de julho de 1934 e quatro anos mais tarde publicaria um ensaio sobre este escritor intitulado António Botto e o Amor, significativamente dedicado a Fernando Pessoa que foi o primeiro a descobrir aquele poeta e a mostrar a sua originalidade poética.

Em Lisboa, António Botto só será fixado na toponímia da cidade 42 anos após o seu falecimento, por Edital de 29 de agosto de 1991, na Rua C da Urbanização do Alto do Chapeleiro, quando foram dados nomes aos arruamentos desta urbanização.

António Botto em O Domingo Ilustrado, 30 de agosto de 1925

António Tomás Botto (Abrantes/17.08.1897 – 16.03.1959/Rio de Janeiro) distinguiu-se como poeta, a partir da publicação de Canções, em 1921. Desde 1908 que António Botto vivia em Lisboa com a família, no bairro de Alfama, razão para um poema seu estar afixado junto à Fonte do Poeta na Rua da Judiaria, no qual se pode ler «esta fonte que fala na surdina de qualquer coisa que eu não sei ouvir».

Botto começou por trabalhar em algumas livrarias e desde os tempos da Orpheu que participava em tertúlias da capital onde Pessoa circulava e avançou para o mundo da literatura, com as coletâneas poéticas Trovas (1917), Cantigas de Saudade (1918), Cantares (1919), Canções do Sul (1920) embora seja Canções, de 1921, a sua obra mais polémica pelo carácter abertamente homossexual e que também o tornou mais conhecido, com várias edições revistas e acrescentadas pelo autor entre 1921 e 1932. Fernando Pessoa gostou desta obra e até publicou a 2ª edição na sua efémera editora Olisipo, para além de a ter traduzido para inglês em 1930.

Entretanto, Botto conseguiu trabalho como funcionário público e começou por ser colocado em Angola em 1924, para regressar no ano seguinte para exercer funções no Governo Civil de Lisboa, de onde transitará em 1937 para o Arquivo Geral de Registo Criminal e Policial, do qual será demitido, conforme o Diário do Governo de 9 de novembro de 1942, de acordo com um conceito de «falta de idoneidade moral». Contudo, entre 1923 e 1959, Botto publicou  13 livros de poesia como Motivos de Beleza (1923), Dandismo (1928), Ciúme (1934), Fátima – Poema do Mundo (1955) e Ainda Não se Escreveu (1959). Além da poesia, António Botto produziu também ficção, em obras como António (1933), Isto Sucedeu Assim (1940), Ele Que Diga se Eu Minto (1945),  assim como literatura infantil em Os Contos de António Botto (1942) e a peça de teatro Alfama (1933), a que acresce ter colaborado com Fernando Pessoa numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos.

Emigrou para o Brasil em agosto de 1947, com a sua mulher de sempre Carminda Silva, depois de realizar vários recitais de poesia em Lisboa e no Porto para angariar o dinheiro necessário para a viagem. Nesse país, sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais portugueses e brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia até que em 4 de março de 1959 foi atropelado por um automóvel do governo quando atravessava a Avenida Copacabana (no Rio de Janeiro), em consequência do qual acabou por falecer alguns dias mais tarde.

Na sua vida pessoal, apesar de assumido homossexual, Botto foi casado com Carminda Rodrigues até ao final da sua vida e escreveu « O casamento convém a todo o homem belo e decadente».

Em 29 de outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa por via aérea, mas só em 11 de novembro de 1966 foram depositados no Cemitério do Alto de São João, cerimónia a que assistiram  José Régio, Ferreira de CastroDavid Mourão-Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, entre outros, encontrando-se no jazigo 1285.

Freguesia de Santa Clara

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O Grupo de Coimbra, José Régio e a Rua Fernando Lopes Graça

Colegas de Coimbra : Miguel Torga, José Régio, Prof. Paulo Quintela
(Foto: © CER)

Coimbra foi o ponto de encontro de Fernando Lopes Graça e José Régio, através do grupo da Presença, e assim permitiu que o primeiro compusesse para a peça Jacob e o Anjo do segundo, quando esteve a ser encenada pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II.

Cinco anos mais novo que José Régio, Fernando Lopes Graça recebeu dele o epíteto de revolucionário, pela sua atitude modernista no conservador meio musical português, e musicou poemas do escritor vilacondense.

Lopes Graça chegou a Coimbra em 1932, onde foi professor no Instituto de Música e aí conviveu e colaborou com o grupo da Presença, de 1933 a 1936. Mais tarde, musicará vários poemas de presencistas como a Balada de Coimbra de José Régio ou outros de Adolfo Casais Monteiro. Matriculou-se na Faculdade de Letras em Histórico-Filosóficas, curso que iniciara em Lisboa, mas que não termina por ser novamente preso por razões políticas, desta vez em Caxias e depois de solto, em 1937, partiu para Paris. Mas manteve a ligação a Coimbra através do seu contributo para a Revista de Portugal, fundada e dirigida por Vitorino Nemésio, bem como pela correspondência que manteve desde os anos 30 até final dos anos 60 do século XX com José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga e Albano Nogueira da revista Manifesto, Júlio, António de Sousa, Afonso Duarte ou Alberto de Serpa.

O compositor, maestro, pianista e professor de música que muito enriqueceu o património artístico português Fernando Lopes Graça (Tomar/17.12.1906 – 29.11.1994/Parede) recebeu uma Moção de Pesar da reunião de câmara da edilidade lisboeta logo no dia seguinte ao seu falecimento, o que originou que viesse a dar nome à Rua E da Urbanização do Paço do Lumiar, pelo Edital de 20 de março de 1995.

Na sua obra musical, Lopes Graça começou com a composição de canções com poemas dos maiores vultos da poesia nacional, onde além dos já referidos incluiu Fernando Pessoa e Antero de Quental. Regressado de Paris, faz  estadias na casa de João José Cochofel, que o ligam ao grupo do Novo Cancioneiro e aí nascerão em 1945 as Marchas, as Danças e as Canções (Heróicas), com poemas de João José Cochofel, Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Arquimedes da Silva Santos, Ferreira Monte e Edmundo de Bettencourt, bem como a duradoura colaboração com a revista conimbricense Vértice. Ainda na década de quarenta, Fernando Lopes Graça também compôs exclusivamente para a peça Jacob e o Anjo,  partitura inédita até ser apresentada pelo contrabaixista Carlos Barreto em 16 de julho de 2013, no lançamento do livro Jacob e o Anjo – o drama intemporal da condição humana, da autoria de Isabel Cadete Novais, Presidente do Centro de Estudos Regianos.

Lopes Graça começou a trabalhar logo aos 14 anos,  como pianista no Cine-Teatro de Tomar. Passados três anos abalou para Lisboa para estudar no Conservatório, onde foi aluno de Adriano Meira (Piano), Tomás Borba (Composição), Luís de Freitas Branco (Ciências Musicais) e, a partir de 1927, de Viana da Mota (Classe de Virtuosidade). De 1928 a 1931 também frequentou o curso de Ciências Históricas e Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa, mas abandonou-o em protesto contra a repressão feita a uma greve académica.

Fernando Lopes Graça procurou uma linguagem estética portuguesa  e definiu o conceito de «música portuguesa» como uma fórmula que exprime uma relação alicerçada na tradição musical do povo, sendo pioneiro no estudo e recolha do folclore nacional, assim como na criação de ciclos de canções com textos de grandes poetas portugueses. Em 1942, fundou a Sociedade de Concertos Sonata, que dirigiu até 1961, dedicada à divulgação da música contemporânea e que se tornou numa referência da vanguarda intelectual.

Como compositor apresentou-se pela primeira vez  em 1929, com as Variações sobre um Tema Popular Português, para piano, e com Poemeto, para orquestra de cordas. Destacam-se depois  La fièvre du temps (1937),  Concerto para piano e orquestra nº1 (Prémio do Círculo de Cultura Musical, 1940), História Trágico-Marítima (Prémio CCM, 1942), Sinfonia per Orchestra (Prémio CCM, 1944), Sonata para piano nº 3 (Prémio CCM, 1952), Quarteto de cordas (Prémio Príncipe Rainier III do Mónaco, 1965), Sete Lembranças para Vieira da Silva (1966),  Requiem pelas Vitimas do Fascismo em Portugal (1979),  Melodias Rústicas (1979), Charneca em Flor (1981), Meu País de Marinheiros (1981) e Dez  Novos Sonetos de Camões (1984).

Fernando Lopes Graça também publicou ensaios sobre música como Introdução à Música Moderna (1942) ou A Canção Popular Portuguesa (1953) e, em 1951 lançou a revista Gazeta Musical.

Finalmente, como cidadão opositor do regime salazarista, Lopes Graça integrou o MUD-Movimento de Unidade Democrática a partir de 1945 e nesse âmbito criou o Coro do Grupo Dramático Lisbonense, mais tarde Coro da Academia dos Amadores de Música, renomeado Coro Lopes-Graça após a sua morte, responsável pela divulgação em todo o país das Canções Regionais Portuguesas e das Canções Heróicas. Também conheceu a PIDE e a prisão política : preso em 1931 no Aljube e, mais tarde, desterrado para Alpiarça; em 1934, bolsa de estudo em Paris, na área da música anulada pela PIDE; nova prisão em Caxias e partida para Paris após ser libertado. Na década de quarenta do séc. XX aderiu ao Partido Comunista Português e, na década seguinte as orquestras nacionais foram proibidas de interpretar obras dele, anularam-lhe o diploma de professor do ensino particular e teve de abandonar a Academia dos Amadores de Música, à qual só regressou em 1972.

Freguesia do Lumiar

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Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, que levaram a Benilde de Régio a cena, em ruas lisboetas

Cena de Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, no palco do Nacional, tendo como protagonista Maria Barroso com Augusto de Figueiredo
(Foto:  © CER))

Benilde ou a Virgem-Mãe,  obra de José Régio publicada em 1947 pela sucursal do Porto da Portugália, foi no final  desse mesmo ano foi levada à cena no Teatro D. Maria II, na Praça D. Pedro IV da Baixa pombalina, pela Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, tendo como protagonista Maria Barroso, numa encenação do casal Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, com interpretações também de Amélia, de Augusto Figueiredo e Erico Braga. José Régio assistiu aos ensaios finais e à estreia da peça no dia 25 de novembro.

Refira-se também que Maria Barroso, nascida em 2 de maio de 1925, foi homenageada pela Câmara Municipal de Lisboa na data que teria sido a do seu 92º aniversário,  também na Baixa pombalina, com a atribuição do seu nome à nova Escola Básica do Largo da Boa-Hora, no que outrora foi o Tribunal tristemente lembrado por condenar opositores do regime do Estado Novo.

A Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro tinha como empresários o casal de atores discípulos de Augusto Rosa que lhe davam nome, cujo relevante papel no teatro português conduziu ambos a serem topónimos lisboetas, na Freguesia de Benfica, ele através do Edital municipal de 9 de fevereiro de 1970 e ela, por Edital de 21 de agosto de 1990. José Régio trocou correspondência ora com Amélia ora com Robles, no período de agosto de 1943 a fevereiro de 1953, a propósito das suas peças e na defesa arraigada do teatro de autor.

Rua Amélia Rey Colaço, na Freguesia de Benfica

Amélia Rey Colaço foi consagrada na toponímia alfacinha logo no mês seguinte ao seu falecimento, pelo Edital municipal de 21/08/1990, na que era a Rua B, entre a Estrada de Benfica e a Rua Augusto Costa (Costinha), numa zona onde já se encontravam na toponímia outras figuras do teatro: Augusto Costa (Costinha), Aura Abranches, Lucília Simões e Maria Lalande.

Já em 1983, uma proposta aprovada pela Junta de Freguesia dos Prazeres solicitava à edilidade a atribuição de nome de Amélia Rey Colaço à Travessa do Olival naquela freguesia, mas a Comissão Municipal de Toponímia deu pareceu negativo por ir contra os critérios definidos de não alterar topónimos antigos e de a consagração na toponímia de Lisboa ser póstuma.

Amélia Smith LaFoucade Rey Colaço Robles Monteiro (Lisboa/02.03.1898 – 08.07.1990/Lisboa), filha do pianista e compositor Alexandre Rey Colaço, estreou-se no Teatro República (hoje, São Luiz) em 17 de novembro de 1917, na peça Marinela. Casou em 1920 com o também ator Felisberto Robles Monteiro, com quem  no ano seguinte também fundou a empresa teatral que a partir de 1929 teve a seu cargo o Teatro Nacional D. Maria II, até ao incêndio do teatro em 2 de dezembro de 1964. Amélia Rey Colaço despediu-se dos palcos em 1974, embora de 1978 a 1980 tenha dirigido a Companhia de Teatro Popular no São Luiz, nomeada pelo Secretário de Estado da Cultura de então, António Reis e tenha participado em Portalegre num espetáculo de homenagem a José Régio. No cinema, surgiu uma única vez, no filme Primo Basílio (1923) de George Pallu, onde aliás contracenou como o seu marido Robles Monteiro, assim como na televisão apenas integrou o elenco da série Gente Fina é Outra Coisa (1982).

Atriz, encenadora, empresária teatral e mãe da também atriz Mariana Rey Monteiro, tudo partilhado com Robles Monteiro, Amélia Rey Colaço foi agraciada com a Ordem de Instrução Pública (1933), Ordem Militar de Cristo (1967), Ordem de Santiago da Espada (1961 e 1978), o prémio da Crítica Lucinda Simões (1960), o primeiro Prémio Garrett de mérito e a Ordem das Artes e das Letras francesa (1971).

Da esquerda para a direita: Robles Monteiro, Amélia Rey Colaço e António Pinheiro no Primo Basílio (1923), de Georges Pallu
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Robles Monteiro foi homenageado na toponímia de Lisboa quase doze anos após o seu falecimento, pelo Edital municipal de 09/02/1970, através da Rua Actor Robles Monteiro, na que era a Rua C à Rua da Venezuela ou Rua C à Rua 2 do Bairro de Santa Cruz, por sugestão do próprio Presidente da CML de então, França Borges, na proximidade  de um novo pólo toponímico de atores na cidade , no Bairro de Santa Cruz, em Benfica, com os nomes de Vasco Santana, Estêvão Amarante, Nascimento Fernandes e Alves da Cunha, criado no ano anterior, pelo Edital de 10 de abril de 1969.

Felisberto Manuel Teles Jordão Robles Monteiro (Castelo Branco/09.09.1890 – 28.11.1958/Lisboa), estreou-se no mesmo Teatro – hoje São Luiz – que Amélia Rey Colaço, pela mão de Augusto Rosa, mas quatro anos antes, em 1913, e aí desempenhou papéis de relevo em que foi muito aplaudido pelo público, tendo daí seguido para o Teatro Ginásio, na Rua Nova da Trindade. Em dezembro de 1920 casou com Amélia Rey Colaço com quem no ano seguinte criou a empresa Rey Colaço-Robles Monteiro, e onde se dedicou particularmente à encenação e à administração.

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Publicação municipal da Rotunda República da Colômbia

A publicação municipal de toponímia referente à Rotunda República da Colômbia, hoje distribuída no decorrer da inauguração oficial deste arruamento, na Freguesia do Parque das nações, já está online.

É só carregar na capa abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

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A Rua Áurea da Livraria Rodrigues e de Camões organizado por Régio

(Imagem: © CER)

A Livraria Rodrigues, que era também Sociedade Editorial e Livreira, fundada em 1863 e sediada nos nºs 186-188 da Rua Áurea, publicou a poesia lírica de Camões numa edição organizada por José Régio, que também redigiu uma introdução e colocou notas que facilitassem a compreensão do poeta Luís Vaz de Camões para o público em geral.

A Livraria Rodrigues foi até aos anos sessenta do séc. XX uma editora de livros escolares, graças a uma gráfica instalada na sua retaguarda.

José Régio foi também um antologista em cuja obra se  incluem várias, sendo esta Luís de Camões publicada em 1944, na coleção «As melhores páginas da Literatura Portuguesa» da lisboeta Livraria Rodrigues. Refira-se que no mesmo ano, mas na Portugália da Rua do Carmo, vieram a lume As Mais Belas Líricas Portuguesas, também com seleção, prefácio e notas de José Régio.

Régio organizou mais antologias publicadas de 1945 a 1967. Com Alberto de Serpa organizou Poesia de Amor (1945), para a portuense Livraria Tavares Martins;  Alma Minha Gentil (1957), antologia de poesia de amor portuguesa, assim como Na Mão de Deus (1958), antologia de poesia religiosa portuguesa, ambas para a Livraria Portugália. A solo, organizou e prefaciou Poesia de Ontem e de Hoje Para o Nosso Povo Ler (1956), para a Campanha Nacional de Educação de Adulto e a partir de 1958 organizou e anotou para a lisbonense editora Artis dezanove antologias:  Os mais belos sonetos de Camões (1958); Os mais belos sonetos de Bocage, A mais bela écloga portuguesa: Crisfal  e As mais belas poesias de Rodrigues Lobo (todas em 1959); As mais belas poesias trovadorescas e As mais belas poesias de Tomás Gonzaga (em 1960); As mais belas poesias de Sá de Miranda e As mais belas poesias de António Ferreira (em 1961); Cancioneiro Geral de Garcia de Resende As mais belas poesias de Diogo Bernardes (em 1962); As mais belas redondilhas de Camões, As mais belas poesias de Frei Agostinho da Cruz e As mais belas canções e odes de Camões (todas as três em 1963); Os mais belos cantos de Gonçalves Dias e As mais belas poesias gongóricas (1964); As mais belas poesias de Castro Alves (1965); As mais belas poesias de Olavo Bilac e Os mais belos sonetos de Antero (1966) e As mais belas poesias de Bernardim Ribeiro (1967).

Vulgarmente conhecida como Rua do Ouro, a Rua Áurea,  é uma das artérias da Baixa pombalina que consta da Portaria de 5 de Novembro de 1760, aquela que  inaugurou em Lisboa a prática da atribuição de nomes de ruas por documento oficial e, assim, é o primeiro diploma de toponímia.

D. José I fez publicar a Portaria na qual se estabelece a denominação dos arruamentos da Baixa lisboeta, reconstruída com ruas largas sob o plano moderno de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel«entre as Praças do Comercio e a do Rocîo», ao mesmo tempo que regulamenta a distribuição dos ofícios e ramos do comércio pelas diferentes 14 artérias: «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Rainha [hoje, Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa». Para a Rua Áurea determinava que nela se instalassem os ourives da cidade e que nas lojas que sobrassem ficassem relojoeiros e os volanteiros, aqueles que vendiam artigos variados.

Recorde-se também que Lisboa da 2ª metade do século XVI já tinha uma Rua Nova dos Ourives, também denominada Rua dos Ourives do Ouro ou Rua Ourivesaria do Ouro. Fora aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar e supõe-se que se situava na área hoje ocupada pelas ruas de São Nicolau e de São Julião.

A Rua Áurea no Natal de 1959
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

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