A Rua do Convento da Madre de Deus em Xabregas

A Rua da Madre de Deus na década de cinquenta do séc. XX
(Foto: Abreu Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Madre de Deus, com início na Rua de Xabregas e fim na Calçada da Cruz da Pedra, foi um topónimo fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas seguramente posterior a 1509, já que é  esse o ano da fundação do Convento de Nossa Senhora da Madre de Deus, de cariz manuelino, a partir do qual se gerou o topónimo.

Também denominado Real Mosteiro de Enxobregas foi este mandado erguer numa quinta em Xabregas pela rainha D. Leonor, então viúva de D. João II, para dele fazer mercê às freiras Franciscanas Descalças, da Primeira Regra de Santa Clara, do Convento de Jesus de Setúbal e que se constituiu como um dos pólos dinamizadores da zona oriental de Lisboa, ao aglomerar em seu torno  populações e quintas de recreio da nobreza, à semelhança de outros mosteiros locais como São Félix de Chelas e São Francisco de Xabregas. Ainda por intervenção da rainha D. Leonor, o Convento da Madre de Deus recebeu  as relíquias de Santa Auta em 1517, cerimónia que originou um retábulo datável entre 1520 e 1525. Refira-se ainda que D. Leonor habitou junto do mosteiro, num paço que para si mandou edificar e em 1525 ficou em campa rasa no claustro do convento.

Coeva do Convento da Madre de Deus foi a Fonte da Samaritana, também  mandada construir pela rainha D. Leonor, junto do Convento da Madre de Deus mas que em 1700 foi transferida para outro local das proximidades por mor do contínuo abuso praticado pelas freiras que desviavam a sua água.

D. João III congratulou-se em 1523 por a Câmara lisboeta custear a construção de uma escadaria defronte do Mosteiro da Madre de Deus, rei que também lhe ordenou obras de remodelação traçadas pelo arquiteto régio Diogo de Torralva no final dos anos trinta de 1500. Em 1567 foi a vez do Cardeal D. Henrique ordenar a construção de um cais junto do Mosteiro da Madre de Deus. D. João V e D. José I, entre 1746 e 1759, ordenaram novas obras de reforma do Convento de que se salienta o revestimento em talha dourada. Foi depois destruído pelo terramoto de 1755, reedificado e novamente restaurado em 1872.

Antes do terramoto e mesmo antes de  1780, conforme plantas conservadas no Arquivo Municipal de Lisboa, o espaço deste arruamento era apenas rural sendo na planta topográfica de Lisboa de 1780 mencionados os campos do Alto do Varejão. Mencione-se que, em julho de 1577, Francisco Álvares Varejão abdicou a favor da cidade de um pedaço de terreno situado nas propriedades do Mosteiro da Madre de Deus, para ser usado como serventia pública. Só na planta de Filipe Folque, produzida em 1858, se indica já a Rua Direita da Madre de Deus.

Em 1867, o Mosteiro foi entregue ao Asilo Maria Pia, aquando da venda dos bens da Igreja. Já no séc. XX, entre 1957 e 1958, com o apoio da Fundação Gulbenkian, por ocasião do V Centenário do Nascimento da Rainha D. Leonor, foram nele realizadas as primeiras obras de cariz museológico, e em 1965, em parte do espaço foi fundado o Museu Nacional do Azulejo.

Ainda derivado do Mosteiro da Madre de Deus temos ainda nesta zona o Largo da Madre de Deus – por Edital municipal de 14/06/1950 –  no Bairro de Casas Económicas da Madre de Deus.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do político da Regeneração Rodrigo da Fonseca

Em 1959
(Foto: Amadeu Ferrari, Arquivo Municipal de Lisboa)

Vinte e seis anos  após o seu falecimento foi o político liberal Rodrigo da Fonseca fixado como topónimo na antiga Azinhaga do Vale de Pereiro por Edital camário de  4 de março de 1884, artéria que só ficou completamente concluída no séc. XX, na década de trinta mas que acolheu os edifícios do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho em 1933 e do Hotel Ritz em 1959.

Esta artéria que hoje se estende da Rua do Salitre à Rua Marquês de Fronteira perpetua Rodrigo da Fonseca Magalhães (Condeixa-a-Nova/24.07.1787-11.05.1858/Lisboa), que ainda estudante em Coimbra se alistou no  Batalhão Académico para combater as invasões francesas de 1807. Dez anos depois, em 1817, sendo tenente e estando implicado na conspiração de Gomes Freire, abandonou o exército e refugiou-se no Brasil onde foi secretário do seu antigo comandante Luís do Rego Barreto e a partir de 1821, da Junta Governativa organizada após a Revolução Liberal do Porto. Ainda nesse ano de 1821, fundou o primeiro jornal político de Pernambuco, o Aurora Pernambucana.

Regressou a Portugal em 1822 com o general Luís do Rego Barreto de quem já era então genro, mas após o triunfo da Vilafrancada foram ambos deportados para a Figueira da Foz. Em 1824, Rodrigo da Fonseca obteve licença para morar em Viana do Castelo mas  em 1828, após se recusar a aderir à causa da monarquia absoluta de D. Miguel teve de se refugiar em Inglaterra, onde em Londres conheceu Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela, que liderava a emigração constitucional portuguesa, sendo colocado na secretaria da embaixada, responsável por dirigir os jornais liberais Aurora e Paquete de Portugal. 

Voltou de vez ao nosso país após o desembarque de D. Pedro IV no Mindelo. Prosseguiu uma carreira como diretor-geral do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça e administrador da Imprensa Nacional. Foi também deputado pelo Minho (1934); fundador com António Pereira dos Reis e redator do Revista; Ministro dos Negócios do Reino do Duque de Saldanha (1835), pasta que repetiu no governo do 1º Conde de Bonfim (1839) e também mais tarde, em 1851-1856, outra vez com o Marechal Saldanha; Ministro dos Negócios Estrangeiros (1841) no governo de Joaquim António de Aguiar; Conselheiro de Estado (1842); e ainda Par do Reino (1847).

Tendo fixado a sua residência em Lisboa na Rua dos Navegantes, onde veio a falecer, Rodrigo da Fonseca foi ainda sócio emérito da Academia Real das Ciências de Lisboa, sócio do Conservatório Real de Lisboa e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Recusou títulos nobiliárquicos mas mesmo assim foi galardoado como fidalgo cavaleiro da Casa Real (2 de agosto de 1835), com a grã-cruz da Ordem de Cristo, o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, a Cruz n.º 4 das Campanhas da  Guerra Peninsular e a medalha britânica de 7 ações.

Freguesias de Santo António, Avenidas Novas e Campolide                               (Planta: Sérgio Dias)

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A Rua dos Correeiros

Freguesia de Santa Maria Maior

Esta Rua dos Correeiros que hoje vemos a unir a Rua da Conceição à Praça da Figueira nasceu da Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760, que atribuiu denominações às ruas da reconstruída Baixa lisboeta após o terramoto de 1755 – entre a Praça do Comércio e o então designado Rossio -,  bem como determinou que «nella terão arruamento os Officios de Corrieiro, de Seleiro, e de Torneiro.»

Este decreto régio de 1760 foi o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica e a nomenclatura toponímica atribuída correspondeu também à fixação de artes e ofícios pelos arruamentos, tendo sido a «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Princesa [hoje Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa».

A Rua dos Correeiros sofreu alterações à sua dimensão no decorrer do século XX. O Edital municipal de 6 de novembro de 1920, acrescentou-lhe a vulgarmente chamada Rua das Galinheiras assim como a Rua Nova de São Domingos. Mais ou menos trinta anos volvidos, o Edital municipal de 28 de agosto de 1950 retirou-lhe o troço entre a Rua do Amparo e o Largo de São Domingos para fazer nascer a Rua Dom Antão de Almada.

Nesta artéria conhecida vulgarmente como Travessa da Palha e  onde na segunda metade do século XIX surgiram muitas casas de pasto de galegos, quando estes emigraram em massa para Portugal, também foi o local de nascimento de  Rosa Araújo, em 17 de novembro de 1840, o presidente de Câmara responsável pela abertura da Avenida da Liberdade.

Freguesia de Santa Maria Maior    (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

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A Rua que dá nome ao Elevador de Santa Justa

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Artur Matos)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

Desde que foi inaugurado em 1902 que o Elevador de Santa Justa tomou o topónimo da artéria que o acolheu: a Rua de Santa Justa. Esta é uma artéria pombalina, saída do primeiro diploma legal de toponímia que existiu em Lisboa, de 5 de novembro de 1760, sendo o seu nome derivado da proximidade à Igreja de Santa Justa.

A Rua de Santa Justa foi um dos 14 topónimos que integrou a Portaria do rei D. José I de 5 de novembro de 1760, diploma que inaugurou em Lisboa a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto. Neste se estabeleceu a denominação dos arruamentos localizados da Baixa lisboeta reconstruída, no espaço entre a Praça do Comércio e o Rossio [hoje, Praça Dom Pedro IV], a saber, «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Princesa [hoje, Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa». Em paralelo, esta Portaria também determinava a distribuição dos ofícios e ramos do comércio por estes arruamentos.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo sublinha ainda que «os nomes de S. Julião, da Conceição, de S. Nicolau, da Vitória e de Santa Justa, foram dados às ruas que mais perto passavam das igrejas e ermidas que com aquela invocação, segundo o plano estabelecido, se haviam de erguer ou se estavam já construindo.» Ora a Igreja de Santa Justa ficava na esquina da Rua dos Fanqueiros com a Rua de Santa Justa – onde hoje encontramos a Pollux-  e era sede da paróquia de Santa Justa e Rufina, criada por D. Gilberto,  1º bispo de Lisboa, em data anterior a 1173. E se o Terramoto poupou o edifício o subsequente incêndio arruinou-o e em 1834 a sede da freguesia passou para a Igreja de São Domingos.

 

 

Da quinhentista Rua do Terreiro Novo à oitocentista Rua da Alfândega

A Rua da Alfândega em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A ligar o Campo das Cebolas à Praça do Comércio está a Rua da Alfândega, por obra do Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859, que juntou num único arruamento as Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha, preservando a memória do edifício da Alfândega que ocupava todo o lado sul desta artéria, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.

De acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, este arruamento era em 1552 a Rua do Terreiro Novo referida por João Brandão na sua «Estatística de Lisboa de 1552», passando por volta de 1554 a ser a Rua do Terreiro do Trigo conforme aparece no «Sumário» de Cristóvão de Oliveira e depois, em atenção ao edifício da Misericórdia «que para a rua deixava também cair um dos seus lados» foi sendo sucessivamente a Rua da Misericórdia de Baixo (1688), a Rua Direita da Misericórdia (1720) e a partir de 1755, a Rua da Misericórdia da parte do terreiro e a Rua da Porta do Terreiro.

Aliás, ainda de acordo com o mesmo olisipógrafo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Praça do Comércio e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) – estas duas pela ligação à Igreja da Conceição dos Freires –  e Rua Nova da Alfândega (1806).

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do Longo, Formosa e do jornal «O Século»

Freguesia da Misericórdia

Freguesia da Misericórdia                                                     (Foto: Artur Matos)

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, este arruamento terá sido chamado Rua do Longo, provavelmente por ali morado na 2ª metade do séc. XVII um homem de seu apelido «Longuo» que faleceu em 1669 e cuja referência ainda hoje se mantém no Alto do Longo. A seguir, no séc. XVIII passou a ser a Rua Formosa, denominação que acabou por ser legalizada no século seguinte através do Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859.

Após a implantação da República em Portugal, o Edital municipal de 18 de novembro de 1910, colocou nesta artéria o jornal O Século,  um diário matutino de Lisboa que se publicou entre 8 de junho de 1880 e 12 de fevereiro de 1977.  A atribuição deste topónimo pela vereação republicana pretendeu homenagear o jornal fundado por Magalhães Lima, que foi o seu primeiro diretor e um ardente paladino republicano, considerando que a sua propaganda tinha contribuído para a democratização do povo português e a consequente implantação da República em Portugal.

O jornal O Século nasceu no rescaldo das comemorações do tricentenário da morte de Camões, empenhado na afirmação do projecto republicano, sendo Magalhães Lima o seu primeiro diretor, que fundou este jornal com Anselmo Xavier,  Leão de Oliveira, João de Almeida Pinto e José Campelo Trigueiros de Martel. A partir de 1896, Silva Graça foi o novo diretor e promoveu a expansão do jornal através de uma rede de correspondentes e a inclusão de novos suplementos, sob a divisa «o jornal de maior circulação em Portugal». Em 1920, O Século ficou em crise, por ter denunciado os abusos monopolistas na questão do pão a que a Companhia Portugal e Colónias respondeu com uma grande ofensiva para controlar o periódico o que consegui em 1922 e manteve até finais de 1924.

Rua de O Século Placa

Freguesia da Misericórdia – Placa de Azulejo               (Foto: Artur Matos)

Depois,  num contexto de preparação da opinião pública para a eclosão de um golpe de estado destinado a impor uma ditadura militar, adquiriram o jornal e a sua empresa editora em novembro de 1924, João Pereira da Rosa, ex-funcionário do jornal desde 1920, Carlos Oliveira, um dos fundadores da Companhia Portugal e Colónias e ainda Moisés Amzalak, presidente da Associação Comercial de Lisboa e da Comunidade Judaica,  atribuindo a direção ao jornalista e diplomata Henrique Trindade Coelho e a administração a João Pereira da Rosa. Porém, na sequência do triunfo do 28 de maio, Trindade Coelho abandonou o jornal.

João Pereira da Rosa melhorou  o parque gráfico e lançou novas publicações e suplementos para um público infantil, para além de aumentar a popularidade do jornal com iniciativas sociais, como retomar em 1927 a Colónia Balnear Infantil. O recrudescer da oposição ao Estado Novo no final da II Guerra Mundial, levou O Século a revelar indícios de ambiguidade face à continuidade do regime e por isso foi afastado da Feira Popular entre 1948 e 1950. Como era esta a principal fonte de receita da Colónia Balnear, o jornal voltou à Feira Popular em 1960, no espaço do antigo Mercado Geral do Gado, em Entrecampos.

Logo após a morte de João Pereira da Rosa, em 1962, a edilidade lisboeta deu o seu nome à artéria que corria para a Rua de O Século, a Calçada Nova dos Caetanos e sucedeu-lhe no jornal  Guilherme Pereira da Rosa, evidenciando nos anos 70 um claro alinhamento com a oposição ao regime marcelista. Em setembro de 1972, Guilherme Pereira da Rosa vendeu a sua posição ao grupo económico de Jorge Brito e foi nomeado, para gerir a empresa  o chefe adjunto da redação, Manuel Figueira, que acabou por pedir a demissão em 1975, tendo a 14 de fevereiro sido nomeada pelo Conselho de Ministros uma nova administração para a Sociedade Nacional de Tipografia. No final 1975 surgiu o projeto de lei da imprensa estatizada e em julho de 1976, o decreto da nacionalização das posições privadas das empresas de que nasceu a Empresa Pública dos jornais Século e Popular mas que acabou por ser considerada em situação irrecuperável e o jornal terminou em 1977, titulando na 1ª página da sua última edição «Não Dizemos Adeus». Nos seus últimos anos de vida O Século teve como diretores, entre outros, Adelino Tavares da Silva, João Gaspar Simões e Manuel Magro.

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A Rua do Cais dos produtos oriundos de Santarém e do Chafariz d’El-rei D. Dinis

O Cais de Santarém na planta de Filipe Folque de 1858

A Rua do Cais de Santarém é a extensão toponímica do Cais onde em Lisboa aportavam os produtos vindos de Santarém, artéria fixada já no séc. XX, em cujo perímetro lhe coube o Chafariz d’El-rei D. Dinis, em cujas bicas ao longo de muitos séculos os lisboetas se abasteceram de água.

Antes do Terramoto de 1755 esta artéria era a Rua da Ribeira e o Cais de Santarém recolhia pessoas ou mercadorias, tendo sido reparado depois de novembro de 1687 por se encontrar em ruína. Em 1736, Simão dos Santos, o mercador que tinha obrigação de prover de carne o Cardeal da Mota tinha um talho no Cais de Santarém.

Três anos depois do Terramoto, em 1758, o Cais de Santarém aparece referido na obra Mapas de Portugal, do Padre Castro e em 1777, não se chamaria Rua mas a artéria seria conhecida como Cais de Santarém já que  as louceiras que aí vendiam fizeram em novembro desse ano um requerimento ao Senado municipal para que o Meirinho da Cidade fizesse uma vistoria ao local já que haviam sido notificadas para não ocuparem mais de seis palmos de chão fora das portas das suas barracas com as louças que vendem. Em 1788 também estariam no local linheiras, uma vez que estas solicitaram ao Senado municipal que as suas barracas  junto ao Chafariz d’El-Rei fossem antes acomodadas no largo fronteiro ao Cais de Santarém. De 1792 até 1796, sabemos que neste arruamento denominado apenas como Cais de Santarém também se  vendiam frutas  e que era morada de José Peixoto do Vale que solicitou à Câmara poder fazer obras à porta de sua casa.

Planta de Filipe Folque de 1858

Pouco mais de cem anos depois do Terramoto, em 1858, conforme se observa na planta de Filipe Folque, o espaço que hoje corresponde à artéria Rua do Cais de Santarém situava-se entre o Largo do Terreiro do Trigo e o Campo das Cebolas, nele pontificando o Terreirinho e o Chafariz d’El Rei, enquanto o Cais de Santarém ficava relativamente próximo, entre a Ribeira Velha e a Alfândega dos Vinhos.

Embora possa surgir em informações municipais anteriores é  na planta de Silva Pinto de 1907 que vemos aparecer a Rua do Cais de Santarém identificada como tal. Lisboa enquanto cidade ribeirinha sempre teve cais nas suas margens e os seus topónimos estiveram quase sempre associados aos produtos que aí aportavam, como aconteceu no Cais do Tojo ou no Cais do Carvão. Mas  os cais também receberem topónimo gerado pela proveniência dos  produtos que recebiam como aconteceu no Cais de Alhandra e neste Cais de Santarém.

Nos dias de hoje, a Rua do Cais de Santarém começa no Largo do Terreiro do Trigo e vai até ao Campo das Cebolas.

A Rua do Cais de Santarém na planta de Silva Pinto de 1907

A Rua dos doces Bacalhoeiros da Casa dos Bicos

Rua dos Bacalhoeiros em 1906
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Bacalhoeiros que hoje encontramos a servir de morada à Casa dos Bicos resulta da junção das antigas Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros sob o topónimo único de  Rua dos Bacalhoeiros pelo Edital  de 1 de setembro de 1859, do Governo Civil de Lisboa, que então detinha a competência de atribuir nomes às ruas da cidade.

Rua dos Bacalhoeiros placa

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II                                                                  (Foto: Artur Matos)

Ambos os topónimos que deram origem à Rua dos Bacalhoeiros se inscrevem na tradição popular de designar os arruamentos da cidade pelos mesteres que neles se exerciam. Em 1755, o espaço da Rua dos Bacalhoeiros era a Rua de Cima da Misericórdia – no percurso da Rua da Padaria à Rua dos Arameiros-  mais a Rua dos Confeiteiros – a qual compreendia o percurso restante até ao Campo das Cebolas. Refira-se que as lojas de confeiteiros eram 7 em 1760 e passados 76 anos,  em 1836, eram já nove.

A Rua de Cima da Misericórdia nasceu no começo de Quinhentos, quando ali se ergueu a Igreja do Recolhimento da Misericórdia. Depois do terramoto, segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, teve muitas designações, a saber: Rua Direita da Ribeira, Rua da Misericórdia da parte de Cima, Rua da Misericórdia de Cima, Rua de Cima da Conceição dos Freires, Rua da Conceição da parte de Cima, Rua da Conceição dos Freires da parte de Cima, Rua Direita dos Freires da parte de Cima, Rua Direita da Conceição dos Freires da parte de Cima e Rua dos Confeiteiros.

A Rua dos Confeiteiros foi identificada sucessivamente como Ribeira, Rua da Porta do Mar, a seiscentista Rua Direita da Ribeira, Rua da Ribeira e, a partir do começo do séc. XIX, como Rua dos Bacalhoeiros, situação que o Governo Civil de Lisboa acabou por formalizar em 1859.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Fernando Gusmão, encenador do Teatro Moderno de Lisboa, no Bairro teatral do Vale da Ameixoeira

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Fernando Gusmão, o ator e encenador alfacinha, fundador e encenador do Teatro Moderno de Lisboa em 1961 , dá nome à Rua 6A do Vale da Ameixoeira desde abril de 2004, sendo assim também o primeiro topónimo de um Bairro cujos arruamentos têm topónimos relacionados com o meio teatral.

Foi pelo Edital municipal nº 20/2004 de 19 de abril de 2004 que foi fixada a Rua Fernando Gusmão na Rua 6A que hoje une a Rua Artur Ramos à Rua António Vilar. No mesmo dia, pelo Edital nº 21/2004, o Vale da Ameixoeira recebeu na sua Rua 3 a Rua Fernanda Alves.  Quase três meses depois, mais artérias do Vale da Ameixoeira foram preenchidas com nomes de atores: António Vilar (Rua 4 A), Arnaldo Assis Pacheco (Rua 1 A à Estrada da Circunvalação), José Viana (Rua 1 B), Raul de Carvalho (Rua 4 B) e Varela Silva (Rua 2A). E cinco anos mais tarde, pelo Edital de 16 de setembro de 2009, nasceu na Rua 6B a Avenida Glicínia Quartin, a primeira vez que uma  Avenida lisboeta recebeu o topónimo de um ator.

Fernando Morais Ferreri Gusmão (Lisboa/06.02.1919 – 17.02.2002/Casa do Artista – Lisboa) foi um ator e encenador que participou na construção desse marco no teatro português que foi o Teatro Moderno de Lisboa, fundado em 1961 por uma sociedade de atores que o unia a Armando Caldas, Armando Cortez, Carmen Dolores e Rogério Paulo. Foi nesta Companhia que se estreou como encenador de Humilhados e Ofendidos  a partir do original de Dostoievski (1961), Os Três Chapéus Altos de Miguel Mihura e Render dos Heróis de José Cardoso Pires (1965), a última da sociedade teatral, retirada de cena pela censura teatral. De 1961 a 1965 o Teatro Moderno de Lisboa funcionou no Cinema Império, no  inovador horário das 18: 30 horas e 11:00 horas de domingo, em sessões que transbordavam de público. Entre tantos outros, neste palco representaram Armando Cortez,  Armando Caldas, Cármen Dolores, Clara Joana, Fernanda Alves,  o próprio Fernando Gusmão, Morais e Castro, Rogério Paulo, Rui de Carvalho ou  Rui Mendes. Lauro António, no seu blogue, considera mesmo que « Desde “O Tinteiro” até ao “Render dos Heróis” foi uma actividade magnífica, desenvolvida por uma sociedade de actores que pretendia acima de tudo rumar contra o marasmo, abrir horizontes, rasgar janelas.» 

Fernando Gusmão viveu em Cabo Verde dos 5 aos 19 anos mas regressou em 1938 e dez anos depois, iniciou-se no teatro como amador, no Grupo Os Companheiros do Pátio das Comédias, onde interpretou O Casamento de Nicolau Gogol,  Continuação da Comédia de João Pedro de Andrade (que em 1957 também  interpretaria para a televisão numa realização de Artur Ramos) ou a Escola de Maridos de Molière. Nos anos 50, profissionalizou-se ao ingressar na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, representando Curva Perigosa, de Priestley, A Senhora das Brancas Mãos de Alejandro Casona ou A Comédia da Morte e da Vida, de Henrique Galvão.

Nesta década de cinquenta Fernando Gusmão ainda se destacou no Rei Lear de Shakespeare e em O Príncipe Disfarçado de Marivaux, tendo trabalhado  na Companhia Alves da Cunha no Teatro Gymnasio (1951); no Teatro do Povo, com Francisco Ribeiro, no Alfageme de Santarém de Almeida Garrett; no Teatro Avenida, em Joana D’ Arc de Jean Anouilh e João Gabriel Bockman de Ibsen (1955); no Teatro Nacional Popular,  sediado no Teatro da Trindade, de 1957 a 1959, interpretando sucessivamente Noite de Reis de Shakespeare, Um Dia de Vida de Costa Ferreira, Doze Homens Fechados de Reginald Rose, Diário de Anne Frank de Goodrich e Hackett, Pássaros de Asas Cortadas de Luiz Francisco Rebello ou À Espera de Godot de Samuel Beckett.  Também se estreou no teatro de revista, em Aqui é Portugal, numa temporada no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, em 1955.

A partir dos anos sessenta a sua faceta de encenador começou a mostrar-se, no Teatro Moderno de Lisboa. Também dirigiu o Grupo Cénico de Direito (1965 e 1966); encenou O Tempo e a Ira de John Osborne  e A Renúncia de Unamuno no Teatro Experimental do Porto-TEP, assim como  A Voz Humana de Jean Cocteau, interpretado por Maria Barroso, tudo em 1967;   dirigiu o  Grupo 4 (1968), o Teatro dos Estudantes Universitários de Moçambique (1970) e a A Excepção e a Regra de Bertolt Brecht no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra- TEUC.

Após o 25 de Abril, foi presidente do Sindicato de Atores  e membro fundador do Grupo de Teatro Proposta, ao lado de Augusto Sobral, Manuel Coelho,  Luís Alberto e Victor Esteves (1975); ministrou um curso de formação para atores na Guiné-Bissau (1978); encenou Corpo-Delito para o Grupo 4, já renomeado Novo Grupo, no  Teatro Aberto (1979); passou a encenar o Grupo de Campolide (1981) e regressou ao TEP, bem como ao TEUC para encenar O Sonho de Enrique Buenaventura (1990), na mesma década em que publicou o livro autobiográfico A Fala da Memória (1993).

Fernando Gusmão também trabalhou para rádio e televisão, para além do cinema, onde figurou algumas longas-metragens como Saltimbancos de Manuel de Guimarães (1952),  O Mal Amado de Fernando Matos Silva (1974) ou Os Demónios de Alcácer Quibir de José Fonseca e Costa (1977).

Morou no nº 12 da Rua das Taipas, no prédio onde Sá Nogueira teve atelier e em Almada (Sobreda), dá também nome a uma rua, próxima das Ruas Luzia Martins e Armando Cortez.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua César de Oliveira, o argumentista de revista e letrista do Sr. Feliz e do Sr. Contente

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

César de Oliveira , autor de teatro de revista  e de programas de televisão, logo dois dias  após o seu falecimento teve uma decisão da edilidade lisboeta em sessão de câmara para ser homenageado com a atribuição do seu nome a uma rua da cidade.

A sessão de câmara de 18 de janeiro de 1988 decidiu a atribuição do nome de César de Oliveira a um arruamento lisboeta, tendo para o efeito a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia escolhido a Rua A à Azinhaga do Jogo da Bola, no Paço do Lumiar, arruamento que também era designado vulgarmente por Lugar das Areias, processo este que terminou com a publicação do edital em 29 de fevereiro de 1988 ficando a Rua César de Oliveira fixada com a legenda «Autor Teatral/1928 – 1988», a ligar a Azinhaga dos Ulmeiros à Azinhaga da Torre do Fato. Pelo mesmo edital foram também homenageadas em arruamentos da então freguesia de Nª Senhora de Fátima as atrizes Laura Alves e Ivone Silva.

César de Oliveira (Lisboa/14.08.1928 – 16.01.1988) foi a partir dos anos 60 do séc. XX uma figura fundamental do teatro de revista desenvolvido no Parque Mayer, como autor de peças de revista em parceria. Estreou-se em 1960, em parceria com José Augusto Ramos, na revista Espero-te à saída, para o Teatro ABC.  A partir de 1964, estabeleceu parceria com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca, terminada em 1973 por morte do último, com inúmeros êxitos como É regar e pôr ao luar, Sete colinas ou Alto lá com elas. Ficou popular a sua  letra da canção Cheira Bem, Cheira a Lisboa, com música do maestro Carlos Dias, criada para interpretação de Anita Guerreiro na revista Peço a Palavra (1969). César de Oliveira também redigiu outras letras para fados ou marchas populares, para as vozes de Fernanda Batista, Hermínia Silva, Tony de Matos ou António Calvário.

Do muito que escreveu destaquem-se as revistas Quem tem boca vai a Roma para o Teatro Capitólio, Peço a palavra para o Variedades, Pra frente Lisboa e Mulheres é comigo para o Teatro Monumental. Ainda nos anos setenta assinou a autoria das revistas O Zé Faz Tudo (1971), Saídas da Casca (1972) e Aldeia da Roupa Suja (1975). Foi também o responsável por levar até ao Parque Mayer  Ary dos Santos e Bernardo Santareno, para serem co-autores de Uma no cravo outra na ditadura, Pra trás mija a burra, Afinal como é, Águas de bacalhau (1977) e Ó da guarda, todas no ABC. Escreveu também para  A grande cegada do Teatro Ádóque e  o seu último êxito foi Lisboa, Tejo e Tudo (1987), com argumento seu e de Raul Solnado e Fialho Gouveia, assim como encenação sua.

Também foi argumentista dos filmes Rapazes de táxi, de Constantino Esteves, com Rogério Bracinha, Jerónimo Bragança, Paulo da Fonseca e José Ramos bem como de Um cão e dois destinos de Alain Bornet, com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca, ambos em 1965; Sarilho de fraldas (1966) de Constantino Esteves, com Augusto Ramos e Rogério Bracinha; e O destino marca a hora (1970) do realizador Henrique Campos, em parceria com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca.

O seu envolvimento na televisão portuguesa acontece após o 25 de Abril de 1974, sendo ele o autor das letras musicadas por Thilo Krassman para o Sr. Feliz e o Sr. Contente, a dupla que encantava com o seu «diga à gente, diga à gente, como vai este país…», protagonizada por Herman José e Nicolau Breyner, rábula da série televisiva de 1975 intitulada Nicolau no País das Maravilhas, de que era argumentista com Rogério Bracinha e Ary dos Santos. César de Oliveira ficou ainda na memória dos portugueses como o autor de Sabadabadu, em parceria com Melo Pereira, programa de entretenimento que passou na RTP em 1981, onde pontificavam Ivone Silva e Camilo de Oliveira. Foi ainda o autor de programas de humor como O espelho dos Acácios (1978), Ivone Silva A Faz Tudo  (1978) programa realizado por José Fonseca e Costa, Gente fina é outra coisa (1982), Eu show Nico (1987- 1988).

César de Oliveira foi galardoado com a medalha de Mérito Municipal de Lisboa, bem como com o Prémio da Imprensa na categoria Teatro de Revista (1964).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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