Viúva de Faria de Vasconcelos pediu rua de maior grandeza cinco anos após atribuição de topónimo

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Faria de Vasconcelos, professor universitário defensor da Escola Nova e criador da Orientação Profissional do nosso país, estava desde 1970 como topónimo de uma Rua do Beato mas em 1975 a sua viúva solicitou que o seu nome passasse para um «arruamento de maior grandeza».

Celsa Quiroga Faria de Vasconcelos enviou uma carta à edilidade lisboeta para que o nome de seu falecido marido ficasse numa artéria maior, assunto que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa tomou em consideração na sua reunião de 22 de julho de 1975,  emitindo o parecer de que «Neste momento, não se vê possibilidade de satisfazer o pedido.» Para além da escassez de novos arruamentos nessa época havia a impossibilidade de alteração de topónimos tradicionais.

A Rua Doutor Faria de Vasconcelos, com a legenda «1880 – 1939», por via do Edital municipal de 20 de maio de 1970 ocupou a artéria identificada como Rua GKH  ou Rua F à Calçada da Picheleira, ou ainda Rua Particular à Calçada da Picheleira,  ficando a ligar a Calçada da Picheleira ao arruamento constituído pelas Ruas LG e GE e Impasse GJ do plano de Urbanização das Olaias – Quinta dos Machados à Picheleira que em 1971 passou a ser a Rua Professor Mira Fernandes.

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo (Castelo Branco/02.03.1880 – 11.08.1939/Lisboa – Freguesia de Benfica), publicou o seu primeiro livro em 1900 com o título O Materialismo Histórico e a Reforma Religiosa do Século XVI e  no ano seguinte, em 12 de junho, concluiu a sua formação como bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra, seguindo aí a tradição familiar, mas logo partiu para a Bélgica, onde concluiu um doutoramento em Ciências Sociais na Universidade Nova de Bruxelas, com a tese Esquisse d’une théorie de la sensibilité sociale. A partir daí desenvolveu então uma carreira de pedagogo e professor universitário, ligado ao movimento Escola Nova. Foi docente na Universidade de Bruxelas a partir de 1904 e em outubro de 1912 fundou na proximidade de Bruxelas a Escola de Bierges 28, de acordo com os princípios da Escola Nova e os 30 pontos definidos por Ferrière (cumprindo 28 como o nome indicava), experiência que relatou sob o título Une École Nouvelle en Belgique (1915), o caso da escola nova que criara como contributo para a implementação de uma aprendizagem inclusiva e individualizada. Durante a permanência na Bélgica publicou em Portugal O Pessimismo-Semiologia e Terapêutica (1902)  e Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental (1908) e contraiu matrimónio com uma belga.

Com a invasão da Bélgica pela Alemanha Faria de Vasconcelos fugiu para Genebra, para o Instituto Jean-Jacques Rousseau (hoje, é a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), onde se integrou na equipa de docentes de Ferrière, Claparède  e Bovet no ano letivo de 1914/15, tendo sido assistente do Laboratório de Psicologia Experimental e secretário do Bureau International des Écoles Nouvelles, pelo que não é de estranhar que quando em 1921 editou a primeira série dos seus Problemas Escolares tenha feito a dedicatória para Pierre Bovet e Edouard Claparéde.

Por indicação de Ferrière foi  para Cuba, de 1915  até 1917, onde como Inspetor Especial do Ministério da Beneficência orientou a Reforma Pedagógica, assim como fundou Escolas Novas. Daqui seguiu para a Bolívia, para gerar Escolas Novas, em La Paz e em Sucre, tendo exercido funções como professor e diretor da Escola Normal Superior de La Paz, na qual fundou a secção de Psicologia, bem como dirigiu a Escola Normal Mista de Precetores em Sucre, onde criou  o  Curso de Organização e Direção de Escolas. Foi também na Bolívia que conheceu Celsa Quiroga, com quem casou em 1923 e de quem teve dois filhos.

Regressou a Portugal em dezembro de 1920 para ser Professor de Pedagogia na Escola Normal Superior. Ligou-se também à revista Educação Popular da Universidade Popular Portuguesa,  à Seara Nova e ao jornal A Batalha. A partir de 1922 tornou-se docente da Faculdade de Letras de Lisboa e regente do curso de Psicologia Geral, a cujo propósito publicou Lições de Psicologia Geral (1924), uma súmula das suas aulas. Refira-se ainda que os seus artigos sobre «Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional», estiveram na base da proposta de Lei de Bases da Educação Nacional apresentada pelo Ministro João Camoesas ao Congresso da República em 1923.

Em 1925 fundou em Lisboa o Instituto de Orientação Profissional, e se torna o estratega da Orientação Escolar e Profissional, ao mesmo tempo que cria a Biblioteca de Cultura Pedagógica. Concluiu que a população criminosa tende a ter a mesma curva de distribuição da inteligência que a restante população e defende que «O combate ao crime para surtir efeitos tem que remontar até à infância, idade capital na formação do indivíduo.» Passados seis anos, em articulação com o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica participou na organização do Instituto Dr. Navarro de Paiva, atento aos 30% a 40 % de alunos com dificuldades de aprendizagem.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

Da Travessa das Chagas para a Rua de Ruben A.

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

O semanário O Tempo, fundado em 29 de maio de 1975 e sediado no nº 4 da Travessa das Chagas, solicitou logo nesse seu 1º ano a alteração do topónimo da artéria onde estava instalado e no ano seguinte, o topónimo mudou para Rua Ruben A. Leitão.

A Comissão Municipal de Toponímia analisou o pedido pela primeira vez na sua reunião de 22 de julho de 1975 mas entendeu que deveria colher o parecer da Junta de Freguesia, que na época era a das Mercês. A 2ª Comissão de Toponímia pós-25 de Abril reapreciou o assunto na sua reunião de 15 de junho de 1976 e «resolveu estudar previamente a origem do topónimo, reservando para uma próxima oportunidade o seu parecer sobre a pretendida alteração», conforme referem as Atas da Comissão. Finalmente, na sua reunião de 6 de julho seguinte,  a Comissão foi do parecer que «o topónimo existente não tem qualquer significado especial nem pode considerar-se tradicional» e sugeriu que passasse a denominar-se Rua Ruben A. Leitão, com a legenda «Escritor/1920 – 1975», o que se concretizou com a publicação do Edital de 6 de outubro de 1976.

Assim, a Travessa das Chagas Velhas ou Travessa das Chagas, entre a Rua da Palmeira e a Rua Eduardo Coelho, passou a ser a Rua Ruben A. Leitão, homenageando o  jornalista e escritor mais conhecido por Ruben A., que nascera no 1º andar do nº 25 da Praça do Príncipe Real e depois residira ali perto, no nº 37 da Rua do Monte Olivete, conforme consta no envelope de uma carta dirigida a Eduardo Lourenço em 1967, tendo aos 55 anos de idade, em setembro de 1975, falecido repentinamente.

Diário Popular, 10 de junho de 1975

Ruben Alfredo Andresen Leitão (Lisboa/26.05.1920 – 23.09.1975/Londres), licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra e ensinou cultura portuguesa no King’s College da Universidade de Londres, de 1947 a 1952,  tendo também sido convidado para docente na Universidade de Oxford alguns meses antes de falecer.

Enquanto escritor usava o pseudónimo Ruben A.  Das suas obras publicadas  são de destacar a biografia D. Pedro V: um homem e um rei (1950) bem como a edição das Cartas de D. Pedro V aos seus Contemporâneos (1961) até então inéditas; vários verbetes no Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão; os romances Caranguejo (1954) e A Torre da Barbela (1965) que foi Prémio Ricardo Malheiros; a peça Júlia (1963); os três volumes de O Mundo à Minha Procura (1964, 1966 e 1968); O Outro que era Eu (1966); seis diários com ficção sob o título de Páginas ( de 1949 a 1970) ou a novela Silêncio para 4 (1973). A escrita de Ruben A. caracteriza-se pela irreverência linguística, desconstrução dos eixos narrativos tradicionais e mordacidade.

Foi ainda funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa, de 1954 até 1972, ano em passou para membro do  Conselho de Administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Também desempenhou funções como diretor-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura e colaborou em diversos jornais como o Expresso, onde foi membro do conselho editorial, e com recensões críticas no Diário Popular de 1963 a 1974.

Em termos pessoais refira-se que era reconhecido pela sua cultura ilimitada e criatividade excepcional, assim como por ter inventado o nome PPD para um partido de que nunca fez parte.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de São Lázaro ou 20 de Abril de 1911

A Rua Vinte de Abril em 1927 (à esquerda)
Foto: Eduardo Portugal (Arquivo Municipal de Lisboa)

Na 2ª reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa após o 25 de Abril, em 20 dezembro de 1974, foi analisada uma carta  Alberto Bastos Flores que entre diversos pedidos solicitava a alteração da Rua de São Lázaro para  Rua Vinte Abril, data da assinatura da Lei da Separação da Igreja e do Estado em 1911.

O topónimo São Lázaro está ligado à Gafaria do mesmo nome, uma das mais antigas instituições públicas de assistência de Lisboa, estando documentada pelo menos desde 1220. O hospital foi criado para nele serem acolhidos e isolados os leprosos, denominados então como gafos, gafados ou doentes do mal de São Lázaro, começando pelos oriundos da Gafaria de Lisboa – que se situava onde hoje encontramos a esquina da Rua Vítor Cordon com o Largo da Academia Nacional de Belas Artes -, desta feita sob a responsabilidade dos cavaleiros hospitalários de São Lázaro, ordem religioso-militar fundada em Jerusalém em 1098. No séc. XIV era este Hospital administrado pelo Senado da Câmara Municipal de Lisboa, sob direção da Coroa. No séc. XIX, o Decreto de 11 de novembro de 1844 entregou a administração deste Hospital à Comissão Administrativa da Misericórdia de Lisboa e ao Hospital Real de S. José.  Em 1918, face à falta de condições, o Enfermeiro Mor, Dr. Lobo Alves, mandou transferir os gafos para os Pavilhões do Hospital do Rego, de onde saíram em definitivo a partir de 1947, para a Leprosaria Rovisco Pais, na Tocha (hoje, um Centro de Medicina de Reabilitação).

Afonso Costa (ao centro da mesa) assina a Lei da Separação da Igreja do Estado, em 20 de abril de 1911
(Foto: Anselmo Franco, Arquivo Municipal de Lisboa)

Já a Rua Vinte de Abril nasceu por via do edital municipal de 14 de outubro de 1915, ou seja, no período da I República, na Rua de São Lázaro, no âmbito da comemoração do 4º aniversário da Lei da Separação da Igreja e do Estado,  da autoria de Afonso Costa, enquanto ministro da Justiça. Dela importa destacar os primeiros 4 artigos que definiam os valores fundamentais da separação de um estado laico de um estado religioso:  liberdade de consciência para os portugueses e estrangeiros (1º); religião católica deixa de ser religião do estado (2º); ninguém pode ser perseguido por motivos de religião (3º); a república não reconhece, não sustenta, nem subsidia culto algum (4º).

Mais tarde, no processo de eliminar os topónimos republicanos, na maior parte das vezes substituindo-os pelos anteriores, a edilidade lisboeta nomeada pelo Estado Novo, voltou a denominá-la como Rua de São Lázaro pelo Edital de 19 de agosto de 1937,  justificando que «algumas destas ruas (que foram alteradas, como esta) não conseguiram com a moderna toponímia apagar na memória da população a sua designação anterior».

A Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós-25 de Abril acabou por não voltar a alterar o topónimo tomando em conta os inconvenientes que acarretaria para os munícipes.

Freguesias de Santa Maria Maior e Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A memória de uma Leva da Morte de 1918 ou a Rua António Maria Cardoso

A Rua António Maria Cardoso no dia 25 de abril de 1974
(Foto: sem identificação de autor, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua António Maria Cardoso era no dia 25 de Abril de 1974 a morada da sede da PIDE, polícia de repressão política do Estado Novo, que ainda nessa tarde fez mais 4 mortos – os únicos da revolução – e 45 feridos, através de rajadas disparadas a partir das suas janelas, pelo que não se estranha que este topónimo figure muitas vezes entre os pedidos de alterações apresentados no pós-25 de Abril, sendo sugerido como topónimos alternativos que passasse a ser Rua da Leva da Morte ou Rua Dias Coelho, um pintor assinado pelo PIDE aos 38 anos de idade.

Entre inúmeras solicitações de alterações que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa recebeu na época, a substituição da Rua António Maria Cardoso por Rua Dias Coelho, foi sugerida pelo cidadão Alberto Bastos Flores. O topónimo pedido acabou por ser concretizado em Alcântara, com a Rua José Dias Coelho, freguesia onde o artista havia sido morto a tiro e justamente na artéria onde tal aconteceu, através do Edital municipal de 17 de fevereiro de 1975.

Também a Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas (AEPPA)  propôs que a Rua António Maria Cardoso voltasse «à sua antiga denominação de Rua da Leva da Morte » a que a Comissão Municipal respondeu que deveria «aguardar-se maior manifestação popular no sentido da alteração toponímica». Em termos de rigor histórico, a Rua da Leva da Morte havia sido,  durante a I República, um troço daquela artéria que hoje identificamos como Rua Serpa Pinto, em homenagem aos presos políticos anti-sidonistas que foram mortos num tiroteio em plena Rua Vítor Cordon em 1918, mas a força simbólica da presença da PIDE naquele arruamento era muito forte, a ponto da Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas, que tinha sede nesta rua ter impresso os seus materiais e papel timbrado com Rua da Leva da Morte nº 15 como morada.

Freguesias da Misericórdia e de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

O pedido de mudança da Rua Agostinho Lourenço, nome igual ao do diretor da PIDE

Rua Agostinho Lourenço – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Agostinho Lourenço, nascida por Edital de 1903, foi das que após o 25 de Abril recebeu inúmeros pedidos de alteração do topónimo por parte dos munícipes e cidadãos em geral, já que o nome era igual ao daquele que foi o primeiro diretor da PIDE.

Lembrava o topónimo o nome do Capitão Agostinho Lourenço (Lisboa/05.09.1886 – 1964) que fora diretor da Polícia Internacional desde 1931,  da PVDE a partir de 1933 e da PIDE, de 1945 até 5 de setembro de 1956, data em que atingiu o limite de idade.

Entre os diversos pedidos para se proceder a esta alteração, todos de 1974 e 1975,  um deles sugeria mesmo que a artéria passasse a ter o nome de Manuel Rodrigues da Silva (Brasil/10.04.1909 – 22.07.1968/Moscovo), um militante operário que passou grande parte da sua existência preso no Tarrafal e em  Peniche. Passados mais de vinte anos, o nome de Manuel Rodrigues da Silva veio mesmo a ser um topónimo lisboeta, por Edital de 24 de setembro de 1996, na freguesia de Carnide.

Edital de 1903

Como topónimo, a Rua Agostinho Lourenço nasceu  em 1903, determinando o Edital municipal de 8 de junho «Que a nova via publica, entre a Avenida Antonio Augusto d’Aguiar e a rua de S. Sebastião da Pedreira, tenha a denominação de: rua Agostinho Lourenço». Todavia, passados 43 anos, em 18 de junho de 1946, a Comissão Municipal de Toponímia visitou diversos arruamentos da cidade, e concluiu « Que, em virtude das obras de urbanização efectuadas no respectivo local, o troço ainda existente da Rua Agostinho Lourenço, seja integrado na Rua Filipe Folque, devendo atribuir-se a outra via pública o nome de Agostinho Lourenço.»

Durante 9 nove anos não voltou a ser reposto o topónimo em Lisboa até que, na reunião de 11 de novembro de 1955, a Comissão Municipal de Toponímia deu o parecer de «que o nome de Agostinho Lourenço denomine o troço da Rua Alves Torgo, a Norte da Avenida do Aeroporto, até à linha férrea, mantendo a Rua Alves Torgo esta denominação entre a Rua de Arroios e a Rua António Pereira Carrilho». E assim ficou registada uma nova Rua Agostinho Lourenço, que hoje une a Avenida Almirante Gago Coutinho à Avenida São João de Deus, pelo Edital municipal de 15/03/1956, ou seja, cerca de 6 meses antes do Capitão Agostinho Lourenço deixar de ser o diretor da PIDE por atingir o limite de idade.

A figura de Agostinho Lourenço que está perpetuada na toponímia de Lisboa desde 1903 é de seu nome completo Agostinho Vicente Lourenço (Índia-Goa/1822 ou 1826- 1893/Lisboa), um químico e professor universitário, formado na Escola Médica de Nova Goa, onde foi docente, tal como na Escola Politécnica de Lisboa, a partir de 1862. Frequentou centros universitários em Paris, Munique, Heidelberg e Londres, tendo na capital francesa desenvolvido a maior parte da sua atividade científica, nomeadamente, trabalhando com Adolphe Würtz, que nos seus artigos lhe atribuiu a categoria de ter sido o primeiro investigador a obter o álcool dietilénico ou éter intermediário do glicol. Em 1867, Agostinho Lourenço publicou Trabalhos preparatorios ácerca das aguas minerais do Reino e providencias do Governo sobre proposta da Commissão respectiva, assim como organizou uma colecção de amostras das águas minerais portuguesas que integrou o trabalho Renseigments sur les eaux minerales portugaises, que foi nesse mesmo ano premiado na Exposição Internacional de Paris com medalha de ouro.

Edital de 1956

Os primeiros dois princípios da Comissão e o 1º Edital de Toponímia pós 25 de Abril

 

Quando os Editais municipais não eram feitos a computador e fotocopiadora mas impressos na Imprensa Municipal de Lisboa, o primeiro Edital municipal sobre toponímia pós 25 de Abril, com 850 exemplares, saiu no penúltimo dia no ano de 1974,  em resultado dos pareceres da reunião da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa de 15 de novembro de 1974 e conforme as instruções recebidas da Secretaria de Estado da Administração Interna sobre alteração de topónimos, após aprovação de proposta em sessão de Câmara.

De acordo com o princípio «de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime» esse primeiro Edital, mudou o nome da Avenida Vinte e Oito de Maio para Avenida das Forças Armadas, da Avenida Marechal Carmona para Avenida General Norton de Matos e da Rua General Sinel de Cordes para Rua Alves Redol.

De igual modo, na sequência de um despacho do então Presidente da edilidade, Engº Caldeira Rodrigues, no qual solicitava o «parecer da Comissão sobre a consagração na toponímia citadina, de nomes que a opinião pública impõe como Ribeiro Santos, Alves Redol, Bento Gonçalves e outros» foi alterada o nome da Calçada de Santos para Calçada Ribeiro Santos, tanto mais que o homenageado morara no Largo de Santos e de lá saíra o seu funeral em 1972, após ter sido morto por agentes da PIDE. Também considerando uma carta de várias centenas de munícipes solicitando que a Estrada de Malpique se denominasse Rua Dr. João Soares, «em homenagem ao falecido professor e educador, pai do actual Ministro Mário Soares», também a Estrada de Malpique  deu lugar à Rua Dr. João Soares.

A Comissão Municipal de Toponímia aprovou ainda duas linhas ou princípios de orientação fundamentais.

Uma delas delineava a substituição de topónimos pela necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população dada a sua ligação ao Estado Novo. Salvaguardava-se que fossem ponderados os prejuízos para os munícipes, serviços da Câmara, serviços públicos e particulares; que não fossem eliminados topónimos populares tradicionalmente consagrados; que não se usassem nomes de personalidade ainda vivas, nem designações com carácter ou apologia partidária, nem as que contivessem elementos atentatórios e ofensivos da dignidade das instituições vigentes.

A outra, apontava para a participação da população nas decisões autárquicas, considerando que «Dado que os topónimos de Lisboa têm um interesse citadino de carácter e interesse geral, antes da substituição ou inicial colocação de qualquer placa toponímica proceder-se-á à pública divulgação da decisão nesse sentido tomada pela Comissão Consultiva de Toponímia, de modo a que a população de Lisboa e os seus organismos e instituições se possam pronunciar no prazo de quinze dias, contados a partir dessa pública divulgação» e acrescentando mais um prazo de 15 dias  para a Comissão de Toponímia conjuntamente com o executivo da Câmara decidir sobre as reclamações surgidas, consultando as Juntas de Freguesia ou outra instituição julgada conveniente.

Além das alterações e nomes solicitados que deram corpo ao 1º Edital de toponímia pós 25 de Abril são de referir como mais solicitados na época a alteração dos nomes da Rua António Maria Cardoso, Rua Agostinho Lourenço, Avenida Sidónio Pais, Avenida Dom Carlos Primeiro, Avenida dos Combatentes, Praça do Príncipe Real, Rua Quirino da Fonseca e Rua de São Lázaro. De igual forma, os nomes mais frequentemente sugeridos para inclusão na toponímia de Lisboa foram, por ordem alfabética, Abel Salazar, Afonso Costa, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Bento Gonçalves, Catarina Eufémia, Cuba, Dias Coelho, Ferreira de Castro, Humberto Delgado, Jaime Cortesão, Manuel Rodrigues da Silva, Presidente Salvador Allende, Professor Egas Moniz, Soeiro Pereira Gomes, Vinte de Abril  e Vinte e Cinco de Abril, tendo a maioria deles sido colocados como topónimos lisboetas.

 

A Rua do Engenheiro primeiro presidente da CML após o 25 de Abril

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Engº Caldeira Rodrigues foi o presidente da 1ª Comissão Administrativa da CML após o 25 de Abril de 1974, que assinou os primeiros 5 Editais de Toponímia e desde 2007 o seu nome está na memória das esquinas de Lisboa, numa rua da freguesia de Alvalade.

A Rua Engº. Caldeira Rodrigues foi atribuída pelo Edital municipal de 23/04/2007 ao arruamento identificado como Rua 2.2 à Rua António Albino Machado, com a legenda «Autarca/1925 – 2004», ligando a Rua António Albino Machado à Rua Joaquim Rocha Cabral. Recorde-se que António Albino Machado foi o fundador e 1º presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril  e Joaquim Rocha Cabral foi um engenheiro que presidiu à Junta de Freguesia do Campo Grande durante dois mandatos consecutivos (1994-97 e 1998-2001).

O Engº Caldeira Rodrigues numa Conferência de Imprensa dada em dezembro de 1974, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues (Torres Vedras/06.12.1925 – 29.12.2004/Lisboa), foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa e exerceu essas funções de 2 de setembro de 1974 a 19 de novembro de 1975 , sucedendo ao Delegado da  Junta de Salvação Nacional, João António Lopes da Conceição. Caldeira Rodrigues levou a cabo uma importante reconversão do município, no quadro de uma dinâmica de participação popular, tendo sido determinante a sua intervenção no aliviar de tensões e na resposta imediata a carências básicas da população, como a habitação. Em matéria de toponímia assinou 5 editais que colocaram em Lisboa os nomes de Alves Redol, Avenida dos Bombeiros, Capitão Henrique Galvão, Castro Soromenho, Dr. João Soares, Avenida das Forças Armadas, General Norton de Matos, José Dias Coelho, Julião Quintinha, Luís de Freitas Branco, Maria Isabel Aboim Inglês, Praça das Novas Nações, Rua da República da Bolívia e Calçada Ribeiro dos Santos.

Na época, o Engº Caldeira Rodrigues integrava  a direção do MDP/CDE mas já antes, durante mais de 30 anos, tinha sido um resistente político  que sofreu mesmo a prisão por duas vezes, em 1947 e em 1951. Foi dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia em 1950 mas também se tornou ativista do MUNAF ( (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), cuja comissão central integrou em 1947, com Mário Soares, Octávio Pato, Salgado Zenha, António Abreu, Fernanda Silva e outros. Em 1950 também aderiu ao Movimento para a Paz, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

Enquanto engenheiro, Caldeira Rodrigues desenvolveu uma carreira como especialista de Planeamento e Estruturas Hidráulicas na Hidrotécnica Portuguesa e na Companhia de Águas de Lisboa, para além de ter sido um dos sócios-fundadores da COBA – Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., bem como dirigente da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores, entre 1989 e 1993.

O nome de Joaquim Caldeira Rodrigues está também perpetuado numa rua da sua terra natal e refira-se que Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE que desempenhou as funções de Ministra do Emprego no primeiro Governo de António Guterres, é sua filha.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Frederico George, membro da 2ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O arqº Frederico George integrou a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós 25 de Abril, a de 1976, e passou a dar o seu nome a uma Rua de Telheiras, na freguesia do Lumiar, dois anos após o seu falecimento.

Esta 2ª Comissão Municipal de Toponímia foi designada por despacho de 14 de junho de 1976 e realizou a sua primeira reunião no dia seguinte. De acordo com as Atas, era presidida pelo Dr. Augusto de Azeredo Costa Santos e tinha como membros o Dr. Fernando Castelo Branco em representação da CML, e mais três personalidades convidadas: o Dr. Jacinto Baptista, o Prof. Dr. José Augusto França e o Prof. Arqtº Frederico George. No último mês de 1976, passou a ser presidida pelo Dr. Orlando Martins Capitão contando com o Dr. Fernando Castelo Branco e o Prof. Arqtº Frederico George como membros.

Um princípio essencial definido por esta Comissão, na esteira do já defendido pela primeira pós 25 de Abril, foi o de não alterar toponímia tradicional, como se pode ler na Ata da reunião de 15 de junho de 1976: «O professor doutor José Augusto França, lembrou a existência de nomenclaturas tradicionais na toponímia de Lisboa, e propôs que, só em casos muito excepcionais, se encarasse a hipótese da sua alteração, não só pelas razões que lhes deram origem, como ainda porque essas alterações provocam sempre grandes inconvenientes, quer para os munícipes, quer para os próprios serviços. Submetida à votação, foi a referida proposta aprovada por unanimidade.»

A Rua Frederico George, com a legenda «Arquitecto e Pintor/1915 – 1994», situada  a partir da confluência da Rua Prof. Prado Coelho e a Rua Armindo Rodrigues até chegar à Rua Daniel Santa Rita, foi atribuída por Edital municipal de 24/09/1996 à Rua B do Alto da Faia e Rua A de Telheiras Norte III. Mais tarde, juntar-se-ão nas proximidades, também em Ruas, os arqºs Daniel Santa Rita (16/02/2005) e Conceição Silva (Edital de 01/08/2005).

autorretrato de Frederico George de 1939

Frederico Henrique George (Lisboa/15.11.1915- 26.01.1994/Lisboa), nascido na freguesia de Santa Isabel, filho de pai inglês e mãe portuguesa, estudou à noite na Escola de Artes Decorativas António Arroio e formou-se em pintura (1936) e em arquitetura (1950) pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, seguindo uma carreira de cenógrafo, arquiteto, designer e professor universitário.

É obra sua na cidade de Lisboa o Museu da Marinha (1962) e o Planetário Calouste Gulbenkian (1965) , em Belém, zona onde já havia participado nas pinturas murais da Exposição do Mundo Português (1940), bem como com Manuel Magalhães e Daciano Costa, o Hotel Penta (1975) ou o edifício de escritórios do Metropolitano de Lisboa (1983), a recuperação do Palácio Pancas Palha (1991) e o Pavilhão Gimnodesportivo do Casal Vistoso (1992). Frederico George também desenvolveu os planos de recuperação do Palácio Fronteira (1958 e 1988) e diversos projetos de análise do território e urbanismo para a Câmara Municipal de Lisboa e para o Ministério das Obras Públicas (1969 a 1976) como os blocos de habitação social em Olivais Sul de 1961-1963; executou as Exposições comemorativas do V Centenário do Infante D. Henrique (1958-1960), o Pavilhão de Portugal na Exposição Comemorativa do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro (1964) e com Daciano Costa, traçou o Pavilhão de Portugal da Expo Internacional de Osaka (1970).

Como professor, Frederico George começou nas escolas de ensino técnico de Lisboa e Setúbal e a partir de 1940 na Escolas de Artes Decorativas António Arroio – onde veio a introduzir o ensino do Design – para a partir de 1957, ser Professor do Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, desempenhando assim um importante papel pedagógico na formação dos artistas da geração seguinte. Sofreu um interregno de 1948 a 1955, período em que foi exonerado da docência por ter subscrito a candidatura do General Norton de Matos à presidência da República. Também no seu atelier reuniu um conjunto de colaboradores que continuaram o seu legado, particularmente no desenvolvimento e ensino do Design em que foi pioneiro, como Daciano Costa, Fernando Conduto e Sena da Silva. Refira-se ainda que Frederico George participou na 1.ª Exposição de Design Português (em 1971) e defendeu com empenho a profissionalização do Designer em Portugal. Em 1972 foi encarregue pelo Ministério da Educação do estudo para a reforma do ensino de arquitetura e, em 1992, foi ainda o responsável pela criação de novos cursos universitários. Colaborou no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, editado em 1961 e publicou Considerações sobre o Ensino da  Arquitectura, a sua dissertação de 1963. 

Na sua vertente de pintor, iniciada na década de 40 do séc. XX com quadros figurativos e estrutura de raiz cubista, marcou presença na II Exposição Geral de Artes Plásticas (1947) e Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas-Artes tendo alcançado, entre outros, o Prémio Luciano Freire da Academia Nacional de Belas Artes (1936), a 1ª Medalha da SNBA (1945), o Prémio Columbano  (1946) e o Prémio Silva Porto (1947), ambos  do SNI. A sua obra está representada no Museu do Chiado e na Fundação Calouste Gulbenkian. Frederico George foi também galardoado com o oficialato da Ordem de Cristo (1941), a Grã Cruz da Ordem de Mérito (1989), o Prémio  de Arquitectura da AICA (1994) e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Técnica de Lisboa (2001).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Fernando Piteira Santos, membro da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias)

Fernando Piteira Santos foi membro da primeira Comissão Municipal de Toponímia após o 25 de Abril de 1974, bem como da primeira Comissão Municipal de Toponímia da década de 90 do séc. XX, e desde o ano seguinte ao seu falecimento dá nome a uma Rua de Carnide, com a legenda «Político e historiador/1918 – 1992».

A primeira Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa após o 25 de Abril de 1974 era presidida pelo Vereador Henrique José Monteiro Chaves  e integrava o Dr. Fernando Castelo Branco, em representação da autarquia, bem como três personalidades convidadas, a saber a Drª Maria da Conceição Machado, a  Drª Leonor Pizarro Beleza e o Dr. Fernando Piteira Santos. A primeira reunião desta Comissão ocorreu em 15 de novembro de 1974 e a última, no dia 22 de julho de 1975.

Piteira Santos voltou a ser convidado para a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, na primeira dos anos 90 do séc. XX, onde participou desde a primeira reunião, em 8 de junho de 1990, até à data do seu falecimento.

No ano seguinte, a partir de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 30 de setembro de 1992  e formalizado através do Edital municipal de  26/01/1993, Fernando Piteira Santos  passou a ser o topónimo do Impasse G da Nova Urbanização do Bairro Padre Cruz, a ligar hoje a Rua Prof. Arsénio Nunes à Rua Prof. Sedas Nunes. O mesmo edital também colocou o professor catedrático Tiago de Oliveira no Impasse I, contribuindo para reforçar a presença de professores universitários naquela  zona da cidade.

Piteira Santos com Oliveira Marques (à esquerda) em 25 de outubro de 1975, numa conferência no São Luiz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Fernando António Piteira Santos (Amadora/23.01.1918 – 28.09.1992/Lisboa) foi um político, historiador, professor universitário e jornalista. Logo nos anos quarenta do séc. XX dirigiu movimentações estudantis contra as propinas e pela Autonomia Universitária e veio a ser membro do Comité Central do PCP entre 1941 e 1950, ano em que foi expulso a pretexto de uma falsa acusação de delação, aproximando-se então da Resistência Republicana e Socialista. Oposicionista ativo ao Estado Novo conheceu os cárceres da ditadura, tendo sido preso por três vezes. Colaborou na tentativa de assalto ao Quartel de Beja (1961) vendo-se por isso obrigado a passar à clandestinidade e depois ao exílio político em Argel, onde foi um dos membros fundadores da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN) e de lá só regressou após a revolução de 25 de Abril de 1974.

Em maio de 1974 foi nomeado Diretor-Geral da Cultura Popular e Espetáculos mas exerceu o cargo apenas por um mês e passou a dirigir os Centros Populares 25 de Abril e a integrar a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Em 1977 esteve na fundação da associação Fraternidade Operária, criada por destacados dirigentes e militantes do PS, entre os quais Lopes Cardoso e César Oliveira, descontentes com o rumo político tomado pelo partido.

De 1974 a 1988 Piteira Santos também lecionou na Faculdade de Letras de Lisboa e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dedicando-se sobretudo ao estudo das questões metodológicas da História e dos regimes fascistas e totalitários, em especial o Estado Novo.

Enquanto fundador da Sociedade Portuguesa de Autores teve um papel preponderante na luta pela independência e liberdade dos autores portugueses mas também trabalhou nas editoras Europa-América e Sá da Costa, para além de se dedicar ao jornalismo, particularmente no Diário de Lisboa, de que foi diretor-adjunto de 1974 a 1989 e onde assinou a coluna de análise política «Política de A a Z» a partir de 1976. Também colaborou na Seara Nova e na revista Ler, da qual chegou a ser chefe de redação.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias)

Sete novos topónimos na freguesia do Lumiar

Pelo Edital nº 38/2017, de 17/03/2017,  foram atribuídos sete novos topónimos na freguesia do Lumiar:  Largo Gérard Castello-Lopes, Rua Irisalva Moita, Rua Isabel Magalhães Colaço, Rua Joaquim Rodrigo, Largo Michel’Angelo Lambertini, Rua Padre Manuel Antunes e Rua Pedro Bandeira Freire.