A Rua do autor e empresário teatral Sousa Bastos

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Sousa Bastos, autor, encenador e empresário teatral, em Portugal e no Brasil, na transição do séc. XIX para o séc. XX, passou a dar nome a uma artéria lisboeta 84 anos após o seu falecimento, na freguesia de Marvila.

Para responder a um pedido dos CTT que solicitava topónimos para os arruamentos do Bairro do Alfenim, na área envolvente da Azinhaga do Vale Fundão, a edilidade alfacinha resolveu aí criar pela toponímia um Bairro de Autores Teatrais, através do Edital municipal de 20 de março de 1995, com a Rua Sousa Bastos, o Largo Álvaro de Andrade, a Rua Bento Mântua, a Rua Ernesto Rodrigues, a Rua Lino Ferreira, o Largo Vitoriano Braga e a Rua Xavier de Magalhães. A Rua Sousa Bastos, com a legenda «Empresário e Autor Teatral/1844 – 1911 »,  ficou no arruamento compreendido entre a Azinhaga do Vale Fundão e o Lote B do Bairro do Alfenim.

O Grande Elias, 8 de setembro de 1904

António de Sousa Bastos (Lisboa/13.03.1844 – 02.07.1911/Lisboa), filho do nobre napolitano D. Francisco de Judicibus e da lisboeta D. Joana Maria da Salvação de Sousa Bastos,  segundo o assento de batismo da Paroquial de Santa Isabel nascido no nº 87 do Largo do Patrocínio (seria provavelmente, o Largo do Monteiro) e batizado como António Rodrigo Francisco João Valeriano Bernardino Peregrino Ângelo André Carlos Nicolau Vicente José Augusto Máximo Magalhães de Sousa Bastos de Judicibus, tendo como padrinhos Rodrigo da Fonseca Magalhães e Maria Gertrudes Guimarães.

Concluída a instrução primária em Lisboa e o Liceu em Santarém, regressou a Lisboa para seguir o Curso de Agronomia no Instituto Agrícola que abandonou por se ter casado aos 21 anos e assim teve de avançar para sucessivos  empregos. Começou como jornalista no Álbum Literário  e seguiu depois para o Comércio de LisboaDiário ComercialGazeta SetubalenseGazeta do Dia, entre outros. Mesmo depois de se dedicar ao teatro ainda escrevia regularmente crónicas sobre teatro para o Diário de Notícias e colaborava com outros periódicos como o Espectador Imparcial, A Arte Dramática e a revista Ribaltas e Gambiarras.

Sousa Bastos notabilizou-se como autor, encenador e empresário teatral, em Portugal e no Brasil, dirigindo vários teatros, tanto em Lisboa como no Rio de Janeiro, São Paulo, Pará e Pernambuco, para além de ter sido o empresário de diversas companhias teatrais. Foi ele que em 1881 levou as primeiras digressões da revista à portuguesa pelo Brasil. Em Lisboa, foi o empresário e ensaiador dos Teatros da Rua dos Condes, do Príncipe Real (depois, denominado Teatro Apolo), da Trindade, do Avenida, entre outros.

Como autor dramático, somou mais de uma centena de obras, entre  revistas, operetas, comédias e dramas originais, para além de ter traduzido e adaptado outras peças. A primeira das mais de vinte revistas que escreveu subiu à cena em 1869 e intitulava-se Coisas e Loisas, enquanto as duas últimas revistas foram  Talvez Te Escreva (1901) e A Nove (1909). Na nota necrológica do jornal O Occidente afirma-se que «Essa popularidade veio-lhe sobre tudo das revistas que compoz e mais calaram no gosto publico, como as intituladas “Sal e Pimenta”, “Tim Tim por Tim Tim” e “Fim de Seculo”, além de muitas outras que fez, pois foi o primeiro, ou dos primeiros autores a compôr este género de peças». A popularidade das suas produções também se deveu à aposta em cenografias mais elaboradas, números musicais,  vedetas femininas e coristas.

Paralelamente, com o tipógrafo João António de Matos, Sousa Bastos fundou em 1877 a Empresa Literária de Lisboa que editou uma História de Portugal em 6 volumes, da autoria de António Enes, Bernardino Pinheiro, Eduardo Vidal, Gervásio Lobato, Luciano Cordeiro e Pinheiro Chagas, e uma História Universal traduzida. Ele próprio escreveu  Carteira do Artista (1898), com biografias de autores dramáticos, artistas, pontos, cenógrafos e anedotas do meio teatral português e brasileiro, num total de 866 páginas  impressas pela Antiga Casa Bertrand, assim como lançou um Dicionário do Teatro Português (1908) de 380 páginas, sobre  técnicas teatrais, autores dramáticos, atores e atrizes, empresários da área, publicadas pela Imprensa Libanio da Silva, para além de Lisboa velha: sessenta anos de recordações, 1850 a 1910.

Na sua vida pessoal, António de Sousa Bastos casou com Leopoldina Rosa Vieira Martins (1847 – 1879) em 24 de agosto de 1865, de quem teve vários filhos e depois de enviuvar voltou a casar, em 1 de julho de 1894, com a atriz Palmira Bastos, de quem teve duas filhas. Sousa Bastos sucumbiu à diabetes, aos 67 anos de idade,  tendo sido sepultado em jazigo particular no Cemitério dos Prazeres.

De entre as várias homenagens de que Sousa Bastos foi alvo destacamos o Teatro Sousa Bastos inaugurado em Coimbra no dia 15 de junho de 1914, uma Exposição comemorativa do seu centenário do nascimento em  1944 no Museu Rafael Bordalo Pinheiro seguida em 1947 da publicação pela edilidade lisboeta do seu livro Lisboa Velha.  Tem ainda ruas com o seu nome em Linda-a-Velha e em Odivelas.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Avenida de Mitterrand que em 1981 aboliu a pena de morte em França

Freguesia de Marvila

François Mitterrand que conseguiu no seu 1º mandato presidencial abolir a pena de morte em França, no ano de 1981, tem em Lisboa o seu nome numa Avenida de Marvila, com a legenda «Presidente da República Francesa/1916 – 1996», desde a publicação do Edital de 24 de setembro de 1996, a ligar a Avenida Carlos Pinhão à Avenida Vergílio Ferreira, dando uma nova memória à Rua M 5 do Bairro do Armador.

François Maurice Adrien Marie Miterrand (França – Jarnac/26-10-1916 – 08.01.1996/Paris – França), foi um conhecido opositor da pena de morte, licenciado em Sociologia e Literatura Francesa, bacharel em Direito, diplomado em Direito Público e doutorado em Ciências Políticas, que se tornou o  1º presidente socialista da 5ª República Francesa, durante 2 mandatos consecutivos de 7 anos, entre 1981 e 1995, tendo logo no primeiro abolido a pena de morte em França, em 9 de outubro de 1981.

Em termos de direitos humanos, durante os seus mandatos presidenciais são também relevantes  as reformas sociais que instituiu em benefício da classe trabalhadora logo em 1981, como a semana de 39 horas, o aumento do salário mínimo e uma semana adicional de férias pagas; as garantias de direitos de residência que estabeleceu para muitos imigrantes ilegais  (1981); a sua declaração favorável à criação de um Estado palestiniano (1982); a evocação do caso Sakharov em pleno Kremlin (1984);  a nomeação da primeira mulher primeiro-ministro em França, Edith Cresson (1991) e a suspensão dos testes nucleares em França em 8 de abril de 1992.

François Mitterrand foi feito prisioneiro no decorrer da II Guerra Mundial – no dia em que Paris foi ocupada – e transferido para um campo na Alemanha do qual se conseguiu evadir em dezembro de 1941. Foi trabalhar como alto funcionário do governo de Vichy e em 1943 juntou-se à Resistência com o pseudónimo de Morland, assim fundando uma rede de resistência dos prisioneiros e evadidos, sendo em 1944 o presidente do Movimento Nacional dos Prisioneiros de Guerra e Deportados. Após o Dia D ( 6 de junho de 1944) foi nomeado secretário-geral dos Prisioneiros de Guerra pelo General De Gaulle, qualidade na qual participou no primeiro Conselho da França Libertada.

A partir daqui Mitterrand dirigiu o jornal Libres bem como  uma editora, aderiu à União Democrática e Socialista da Resistência (UDSR) e construiu uma longa carreira política, em que foi deputado durante 35 anos (1946 – 1981); ministro de 11 governos (1947 – 1958) passando pelas pastas dos Ex-Combatentes, de Estado, da França do Ultramar, do Interior e da Justiça; Presidente da UDSR (1953); Presidente da Câmara Municipal de Chateau-Chinon (1959); candidato à presidência da República contra de Gaulle (1965) e fundador da Federação da Esquerda Democrática e Socialista que liderou (1970); 1º Secretário do Partido Socialista Francês (1971-1981) e Vice- Presidente da Internacional Socialista (1972) no mesmo ano em que assinou o Programa Comum da Esquerda com o Partido Comunista Francês e que constituiu o seu programa de candidatura para as presidenciais de 1974 contra Giscard d’Estaing, que perdeu por 49,5% contra 50,5%.

Em 10 de maio de 1981 foi eleito o 1º presidente socialista da 5ª República, derrotando Giscard d’Estaing por 51,75% contra 48,24%. No decorrer de dois mandatos, tomou várias medidas como a nacionalização de bancos e grandes indústrias; descentralizou o poder através da atribuição de mais competências a nível local e regional; decretou e permitiu a criação de rádios locais e televisões privadas. Em 1982 e 1983, para fazer face a problemas económicos congelou salários, aumentou taxas nos serviços de saúde e fez cortes na despesa pública. Empenhou-se também na construção europeia comum estreitando relações com a Alemanha de Helmut Kohl e procurando a concretização do Tratado de Maastricht pelo que esteve em Lisboa no Conselho Europeu de Encerramento da Presidência Portuguesa na Comunidade Europeia (1992). François Mitterrand terminou o seu mandato a 17 de maio de 1995, após ter manifestado no ano anterior  a sua vontade de não se recandidatar, revelada que estava a doença que o conduziria à morte em 1996, aos 79 anos.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny na toponímia e em edição municipal

As brochuras editadas pela Câmara Municipal de Lisboa referentes a Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny, distribuídas a partir deste momento, no decorrer da inauguração das artérias com os seus nomes, já estão on-line.

É só carregar nas capas abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

capa Adriano Ernesto Matos

capa Lyon de Castro Ernesto Matos

Capa Cesariny Ernesto Matos

Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny na arte urbana e na toponímia de Lisboa

9 Lyon de Castro © CML DMC DPC José Vicente 2016 Smile

Obras de Smile (Foto: © CML | DPC | José Vicente, 2016)

Obras artísticas de Smile
(Foto: © CML | DPC | José Vicente, 2016)

Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny dão nome a três ruas da freguesia das Avenidas Novas, no Loteamento das Avenida das Forças Armadas, que serão inauguradas amanhã, dia 15 de setembro, às 17:30 horas, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, bem como da Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, e ainda familiares e amigos dos homenageados.

Estas ruas contam com um muro de 300 m2 – em bloco de esferovite armada revestido a betão – com intervenções artísticas alusivas aos homenageados nas ruas da autoria de Smile, de Murta e Uivo e de Miguel Brum, em resultado de um projeto vencedor do Orçamento Participativo de 2015, proposto pela Associação de Moradores de Entrecampos e que contou com a execução e coordenação do Departamento de Património Cultural da CML através da GAU – Galeria de Arte Urbana e que desde 15 de maio  último está no local,  no âmbito MURO – Festival de Arte Urbana Lx_2016.

Obra artística de Uivo e Murta © CML DMC DPC José Vicente

Obra artística de Murta e Uivo
© CML| DMC| DPC | José Vicente

9 Cesariny © CML DMC DPC José Vicente 2016 Uivo e Murta 4 9 Cesariny © CML DMC DPC José Vicente 2016 Uivo e Murta

Obra artística de Miguel Brum © CML| DMC| DPC | José Vicente

Obra artística de Miguel Brum
© CML| DMC| DPC | José Vicente

9 Lyon de Castro © CML DMC DPC José Vicente 2016 Miguel Brum 2

O MURO nas Avenidas Novas, junto à Rua Adriano Correia de Oliveira

Jose Vicente tralala

© CML | DPC | José Vicente 2016

Na freguesia das Avenidas Novas, na Rua Adriano Correia de Oliveira, junto à Rua Francisco Lyon de Castro e Rua Mário Cesariny, está a nascer uma intervenção artística de Smile1artt, Miguel Brum, e MURTA e UIVO, evocando os autores presentes na toponímia local, no âmbito MURO – Festival de Arte Urbana Lx_2016  que está a decorrer até 15 de maio.

Esta intervenção artística é o resultado de um projeto vencedor do Orçamento Participativo de 2015, proposto pela Associação de Moradores de Entrecampos. O muro com uma superfície de 300 m2,  foi construído em bloco de esferovite armada, revestido a betão.

Toda a informação diária do Festival pode ser encontrada na página da GAU-Galeria de Arte Urbana.

José Vicente tralala

© CML | DPC | José Vicente 2016

A Praça José Fontana do Liceu Camões

Freguesia de Arroios (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias)

A partir de 1959 Vergílio Ferreira passou a ser professor no Liceu Camões, depois de ter passado pelos Liceus de Faro (1942), Bragança (1944) e Évora (em 1945), e foi nesta escola saída do traço do arquiteto Miguel Ventura Terra e inaugurada em 0utubro de 1909 que fez a sua carreira docente até ao fim, apesar de não gostar de dar aulas como confessou em Conta Corrente. Assim, a Praça José Fontana tornou-se a morada de trabalho de Vergílio Ferreira.

A Praça José Fontana foi vulgarmente conhecida por Largo da Cruz do Tabuado, assim identificada em 1857 na Carta Topográfica de Filipe Folque, e mais tarde, também por Largo do Matadouro, já que o Matadouro Municipal ali foi edificado em 1863, segundo o projecto de Pezerat. A artéria passou a ter o nome de José Fontana, 39 anos após o falecimento deste, por via do Edital municipal de 23/01/1915. Cerca de 6 meses depois, pelo Edital de 15/07/1915, foram acrescentadas a esta Praça as propriedades com os nºs 1 a 35E da Rua Tomás Ribeiro bem como o edifício do Liceu Camões, que fazia parte da Rua das Picoas. Para esta artéria esteve ainda prevista, após a implantação da República, a construção de um monumento a José Fontana, desenhado por Azedo Gneco, mas que nunca chegou a materializar-se, embora no dia do seu  150º aniversário do nascimento, em 28 de outubro de 1990, no Jardim de Henrique Lopes de Mendonça da Praça José Fontana, tenha sido inaugurado um monumento em sua homenagem da autoria de João Cutileiro, graças a uma subscrição pública da Fundação José Fontana.

O Branco e Negro, 29.04. 1899

O Branco e Negro, 29.04. 1899

Giuseppe Silo Domenico Fontana (Suíça/28.10.1840 – 02.09.1876/Lisboa), conhecido como José Fontana, foi um intelectual e o primeiro propagandista do movimento operário em Portugal, cujo idealismo romântico entusiasmou multidões. Foi um dos organizadores das Conferências do Casino e um dos fundadores do Partido Socialista Português.

Aprendeu o ofício de relojoeiro na Suíça, onde nascera, mas  fixou-se em Lisboa desde os 14 anos, onde já aparece referido como relojoeiro nesse ano de 1854. E nesta cidade também se destacou na luta pela melhoria das condições de vida e trabalho do operariado, promovendo o associativismo e o cooperativismo. Esteve à frente da primeira secção da Aliança Democrática Socialista, a qual foi substituída em 1872 pela Fraternidade Operária, de que redigiu os estatutos e se transformou num movimento que em pouco tempo reuniu mais de 30.000 associados e que, mais tarde, daria origem ao Partido Socialista Português, do qual é considerado um dos fundadores e do qual foi Primeiro Secretário. Como amigo de Antero de Quental, também colaborou na elaboração dos estatutos do Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas, tal como organizou as primeiras manifestações do 1º de Maio em Portugal, para além de escrever em vários jornais operários e colaborar assiduamente nos periódicos Pensamento Social (de 1872 a 1873) e O Protesto (de 1875 a 1876).

José Fontana que a partir de meados da década de 1860 passou a trabalhar na Livraria Bertrand , foi também aos 35 anos de idade, sócio gerente da editora e livraria. Residiu em Lisboa no nº 8 das Escadinhas de São Crispim. Vítima de  tuberculose decidiu suicidar-se em 1876  e o  seu funeral teve a participação de uma enorme multidão, perante a qual discursaram Eduardo Maia e Azedo Gneco.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Luiz Pacheco e a aparição do sonâmbulo chupista

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Luiz Pacheco liga-se a Vergílio Ferreira por ter editado um folheto intitulado O Caso do Sonâmbulo Chupista, que circulou entregue à mão na Lisboa dos anos 70 do séc. XX, no qual se denunciava o plágio de Fernando Namora em Domingo à Tarde (1961) sobre a Aparição (1959) de Vergílio Ferreira, fundamentando a acusação com a transcrição de trechos dos dois livros visados.

Luiz Pacheco afirmou que teve notícia do sucedido através de Serafim Ferreira, que teria a edição especial da Aparição dada por  Vergílio Ferreira, com anotações do próprio escritor sobre o que Namora lhe copiara. Luiz Pacheco foi para a Biblioteca Nacional comparar ambas as obras e produziu um folheto de 8 páginas, de que imprimiu 5 ou 6 mil exemplares na Tipografia Mirandela, na Travessa Condessa do Rio. Mais tarde, em 1980, Pacheco reeditou-o na sua Edições Contraponto.luiz pacheco sonâmbulo

Luiz Pacheco, tal como Vergílio Ferreira,  também deu o seu nome a uma artéria da Freguesia de Marvila, a saber a Via Principal de Peões a Chelas, através do Edital municipal de 02/08/2013.

Luiz Pacheco em 2004

Luís José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (Lisboa/07.05.1925 – 05.01.2008/Montijo ) nasceu alfacinha à 1h40 , no 1º andar do nº 91 da Rua de Dona Estefânia, e foi um homem livre, irreverente e lúcido, intelectual incontornável na literatura do século XX português enquanto escritor singular, editor e crítico.

A partir de 1945, começou a publicar textos em vários jornais e revistas, como o Globo, o Diário Ilustrado, o Diário Popular ou a Seara Nova. Em 1946, graças a um conhecido do seu pai foi admitido como agente fiscal da Inspeção de Espetáculos, no Palácio Foz, e aí chegou a 3º Oficial, até ao dia 6 de julho de 1959 em que se demitiu. Paralelamente, Luiz Pacheco construiu-se como escritor de talento singular, autor de uma obra fragmentária e dispersa, que regularmente compilou em volumes, dos quais se destaca Exercícios de Estilo (1971). Alicerçou o cerne da sua criação literária na sua aversão às convenções, num testemunho constante da sua ânsia de ser livre e descomprometido e de seguir o seu próprio caminho, usando a própria vida pessoal como tema de eleição. Por ordem cronológica referimos as suas obras Carta Sincera a José Gomes Ferreira (1958), Teodolito (1962), Comunidade (1963), Crítica de CircunstânciaMaravilhas e maravalhas caldensesOs namorados: novela neo-abjeccionista (todos em 1966), Textos Locais e João Rodrigues: um marginal (1967), O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor (1969), Literatura Comestível (1972), Pacheco Versus Cesariny: folhetim de feição epistolográfica (1974), Carta a Gonelha, Textos de Circunstância e Textos Malditos (todos em 1977), Textos de Guerrilha I e II ( 1979 e 1981), O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1981), Textos de Barro e O teodolito e a velha casa (1985), Textos Sadinos (1991), O Uivo do Coiote e Carta a Fátima (1992), Memorando, Mirabolando (1995), Cartas na Mesa: 1966-1996 (1996), Prazo de Validade (1998), Uma Admirável Droga (2001), o conto de Natal Os doutores, a salvação e o menino Jesus e Mano Forte: dezassete cartas de Luiz Pacheco a António José Forte (2002), Raio de Luar (2003), Figuras, Figurantes e Figurões (2004), Diário Remendado 1971-1975 (2005), Cartas ao Léu: vinte e duas cartas de Luiz Pacheco a João Carlos Raposo Nunes (2005), O crocodilo que voa (2008). Também com Manuel de Lima e Natália Correia escreveu sob o pseudónimo conjunto de Delfim da Costa.

Enquanto editor publicou em Portugal obras famosas de grandes escritores estrangeiros proibidos pelo salazarismo e escritores portugueses seus contemporâneos como as primeiras obras de António Maria Lisboa, Herberto Helder, Mário Cesariny, Natália Correia, bem como outras de José Cardoso Pires, Manuel Laranjeira, Raul Leal, Vergílio Ferreira e Hélia Correia, para além de ter lançado em 1962 a revista Cadernos de Crítica e Arte e a coleção «Teatro no Bolso». Luiz Pacheco foi ainda um tradutor meticuloso, um colaborador de inúmeros jornais desde A Bola até ao Diário de Notícias, passando pelo Diário Económico ou Público.

Em Lisboa, Luiz Pacheco viveu na Rua de Dona Estefânia, na Rua Andrade, na Rua Almirante Barroso e na Rua Jorge Colaço.

 

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Tertúlia sobre Luiz Pacheco na Rua Luiz Pacheco

Cartaz (1)

Para dar a conhecer Luiz Pacheco aos moradores da rua com o seu nome, bem como aos do Bairro onde se insere, a Associação de Moradores do Bairro das Amendoeiras em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Marvila e o Grupo de Teatro Censo promove no próxima 2ª feira, dia 12 de janeiro de 2015, às 21:00 horas, na sede da Associação referida, uma Tertúlia sobre o editor, o crítico literário, o escritor e o homem, com a presença do filho do escritor Paulo Pacheco e do investigador João Pedro George.

planta Rua Luiz Pacheco[1]

No centenário de Francisco Lyon de Castro a sua rua alfacinha

francisco lyon de castro

Passa hoje o centenário do alfacinha Francisco Lyon de Castro, o homem das Publicações Europa-América e da criação do livro de bolso em Portugal, que ficou na memória de  uma rua lisboeta desde a publicação do Edital municipal de 16 de setembro de 2009.

Francisco Lyon de Castro (Lisboa/24.10.1914 – 11.04.2004/Rio de Mouro) distinguiu-se como o editor que fundou a Europa-América em 1945 e que muito contribuiu para a democratização do livro e da leitura, com as suas edições de bolso, na ousadia de transformar o livro num produto barato e de consumo generalizado, mas nunca descurou a sua participação cívica empenhada como simbolizava a sua boina basca de que tanto gostava .

Benjamim de 10 irmãos, de um casal de um comerciante de Óbidos e de cidadã de ascendência escocesa, começou com 14 anos como aprendiz de Artes Gráficas na Imprensa Nacional e de discussões de final de dia no Jardim do Príncipe Real com os outros tipógrafos, os metalúrgicos do Arsenal da Marinha e os sindicalistas da CGT. Em 1932 fundou o jornal Mocidade Livre e a União Cultural Mocidade Livre, para promover a cultura dos jovens operários e estudantes. No ano seguinte aderiu ao Partido Comunista Português e no final desse mesmo ano participou na preparação do movimento contra a publicação do Estatuto do Trabalho, a extinção dos sindicatos livres e a sua substituição por sindicatos corporativos, que culminou na greve em 18 de Janeiro de 1934 e na insurreição da Marinha Grande e, Francisco acabou por passar à clandestinidade, exilando-se em Espanha. Aí participou com a Passionaria no socorro às levas de mineiros asturianos que chegavam a Madrid escapando às razias de Franco para passarem clandestinamente para França e organizou  em 1935, uma exposição com material de propaganda das organizações comunistas portuguesas, do Socorro Vermelho Internacional e de jornais de prisão, que mais tarde cede ao jornal Monde, para se divulgar a luta em Portugal contra o regime de Salazar. Atravessou clandestinamente os Pirenéus, em pleno Inverno, percorrendo 80 quilómetros de automóvel e a pé, episódios que vieram a ser romanceados por Fernando Namora em Os Clandestinos.

Lyon de Castro regressou ao nosso país e, em Novembro, foi preso, ficando incomunicável em várias esquadras da PSP, no Aljube, Caxias e Peniche e, condenado a 4 anos de cadeia e desterro, 8 mil escudos de multa e 10 anos de suspensão de direitos políticos,  sendo deportado para a Fortaleza de São João Baptista, prisão da qual só saiu em 1940.  Em 1939, casou por procuração e desligou-se  do PCP por causa do pacto germano-soviético entre Hitler e Estaline. Fora da prisão vê recusada a sua readmissão na Imprensa Nacional e nos 5 anos seguintes trabalhou na pequena empresa familiar de madeiras, foi  aprendiz de alfaiate, organizou passagens de modelos e colaborou em jornais.

No ano final da II Guerra Mundial, contava Francisco 31 anos, juntou-se ao seu irmão Adelino para fundarem a editora Publicações Europa-América, em cujo nome se traduzia a aliança gerada pela guerra e a esperança de um mundo novo. Pretendiam realizar a importação de livros e publicações periódicas estrangeiras mas muitas delas eram apreendidas nos serviços dos Correios, que colaboravam com a PIDE.  O primeiro livro a sair do prelo foi Centelha de Vida de Erich Maria Remarque, que tinha por tema a vida clandestina. Na década seguinte Lyon de Castro começou  a coleção de bolso com Os Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. Ousou também publicar outros «autores proibidos» como Alves Redol, Gabriel Garcia Marquez e Jorge Amado. Em abril de 1952, criou o jornal Ler – Jornal de Letras, Artes e Ciências, no qual usou o artifício que permitia que os boletins bibliográficos não fossem à censura mas, a publicação acabou por ser suspensa pela Censura em Outubro do ano seguinte, sob o pretexto de que o editor, Adelino Lyon de Castro, havia falecido. Francisco voltou a ser preso, tendo estado de novo no Aljube por mais duas vezes, acusado de importar publicações de natureza política subversiva e contrárias ao regime vigente.

Entre 1962 e 1964 Lyon de Castro conseguiu a construção da nova sede da sua editora, com uma cantina e dois autocarros para assegurar o transporte dos funcionários. Em 1962, no decorrer de um Congresso da União Internacional de Editores, em Barcelona, Francisco discursou para condenar o regime português pela prática da censura e proibição de livros e, três anos mais tarde, no Congresso da União Internacional de Editores, em Washington, voltou a denunciar a censura em Portugal. Neste ano de 1965 ocorreu a sua última detenção, suspeito de ligação com o assalto ao Quartel de Beja e, em 1969, Lyon de Castro integrou a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) do Distrito de Lisboa. Na década seguinte, já com oficinas gráficas próprias, a Europa-América foi alvo de operações persecutórias do Governo e particularmente da PIDE, com proibição de edições e até o cerco da empresa. Em 1972, conseguiu fazer entrar em Portugal quantidades importantes do Le Portugal Bâillonné (Portugal Amordaçado) de Mário Soares.

Após o 25 de Abril de 1974, Francisco Lyon de Castro foi o primeiro presidente eleito da Associação Portuguesa de Editores então constituída, durante dois mandatos (1974-1976). Foi também o primeiro presidente eleito da Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas. Em dezembro de 1975, foi convidado para a administração da Empresa Pública Notícias-Capital e, nomeado para presidente da Comissão de Reestruturação da Imprensa Estatizada, funções que Lyon de Castro aceitou sob a condição de não serem remunerados. Até 2002, participou todos os anos na Feira do Livro de Frankfurt, sendo talvez o mais antigo editor a frequentar aquele certame já que a sua 1ª feira fora em 1959, na qual exigiu que a Bandeira Portuguesa fosse hasteada, ou retirar-se-ia e causaria um escândalo, o que conseguiu.

Francisco Lyon de Castro foi agraciado com a Medalha Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (1971), a Ordem da Liberdade portuguesa (1985) , a Ordem Nacional de Mérito de França (1985) e a Ordem das Artes e das Letras francesa (2000).

 

Freguesia das Avenidas Novas

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