A Rua dos mercadores Possolo e o arraial de Os Combatentes

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo
(Foto: Mário Marzagão, 2012)

A família de mercadores italianos que aqui residiu, os Possolo, ficou perpetuada no local pela edilidade lisboeta em 1882 e catorze anos depois, em 1906, a mesma artéria acolheu também o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes que nas Festas de Lisboa 2019 mais uma vez promove o seu arraial popular.

O Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes foi fundado na Rua do Possolo nº 5 a 9, em 30 de setembro de 1906, com o forte intuito de combater o analfabetismo e servir de ponto de encontro aos moradores daquela zona da cidade de Lisboa, contribuindo para a formação humana integral dos seus associados, através da educação cultural, física, desportiva e recreativa.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo. Esta família de ricos negociantes italianos do séc. XVII ergueram ali o seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado, na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – nos anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

A Rua  e a Travessa da família de mercadores  Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867. O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo”, impresso em 1892. Segundo ele, a quinta dos Possolo foi edificada após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos também a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades. Finalmente, mencione-se ainda que na esquina da Rua do Possolo com a Rua de Santana à Lapa está o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique

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O Banco de Portugal e a Rua do Comércio

(Imagem: República, 25 de abril de 1974, 3ª edição )

Cerca das 5:45 as forças da EPC comandadas por Salgueiro Maia instalaram-se  na Praça do Comércio, assumindo simbolicamente o poder dos Ministérios e cercando outros pontos estratégicos próximos, como o Banco de Portugal, Bruxelas de nome de código.

No dia 25 de Abril, a coluna da EPC- Escola Prática de Cavalaria comandada por Salgueiro Maia, chega à Baixa de Lisboa, cerca os ministérios e ocupa a Praça do Comércio (Toledo, de nome de código), bem como outros pontos estratégicos da zona, como o Banco de Portugal na Rua do Comércio e a Rádio Marconi, na paralela Rua de São Julião. Instruendos da Escola Prática de Cavalaria pertencentes ao 5º pelotão de atiradores tomaram posição entre a Praça do Município, Rua do Comércio e  Largo de São Julião. Ao Posto de Comando instalado na Pontinha comunicou Salgueiro Maia «maior de Charlie Oito ao Posto de Comando: Ocupámos Toledo e controlamos Bruxelas e Viena.» Conforme  Salgueiro Maia declarou na altura ao jornalista Adelino Gomes,  «Estamos aqui para derrubar o Governo».

A Rua do Comércio, sede do Banco de Portugal – banco central da República Portuguesa – nasceu como Rua Nova de El Rei, pelo primeiro diploma de toponímia de Lisboa, de 5 de novembro de 1760, e passou a ser a Rua do Comércio pelo primeiro Edital de toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, após a implantação da República em Portugal, em 5 de novembro de 1910.

O decreto régio de D. José I de 5 de novembro de 1760 consagrou as denominações da Baixa Pombalina e nele foi atribuído o topónimo Rua Nova de El Rei. No século seguinte, por Edital municipal de 8 de junho de 1889, foi retirado o atributo «Nova» e passou a denominar-se Rua de El Rei. E finalmente, pelo primeiro Edital camarário de 5 de novembro de 1910, um mês após a implantação da República, tornou-se a Rua do Comércio e assim ficou até aos nossos dias.

Em Lisboa, como no resto do país, as placas toponímicas serviram o propósito de divulgação dos valores e figuras republicanas, pelo que se procurou na época substituir os topónimos relacionados com a Monarquia. Assim, temos nesse primeiro Edital de 1910, em Lisboa, a Rua do Comércio a substituir a Rua de El Rei, a Avenida Almirante Reis a renomear a Avenida Rainha Dona Amélia, a Avenida Cinco de Outubro a ser a nova denominação da Avenida António Maria de Avelar, a Avenida Miguel Bombarda a tomar o lugar da Avenida Hintze Ribeiro, a Avenida da República a ficar na Avenida Ressano Garcia, a Avenida Elias Garcia a substituir a Avenida José Luciano, a Praça Afonso de Albuquerque a renomear a Praça D. Fernando, a Rua dos Fanqueiros a ser a nova designação da Rua da Princesa e a Rua da Prata a tomar o lugar da Rua Bela da Rainha.

(Imagem: Diário Popular, 25 de abril de 1974)

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O 25 de Abril e a Praça do Comércio

Principal centro simbólico e real do poder político, no Estado Novo, aqui se situavam os Ministérios do Exército e da Marinha.

Foi ocupado por uma força da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, com cerca de 220 militares, comandados pelo capitão Fernando Salgueiro Maia, capitão Mário Tavares de Almeida, tenente Alfredo Correia Assunção e tenente Rui Santos Silva.

Aquela que é por muitos denominada como a sala de visitas da cidade de Lisboa, a nova Praça do Comércio construída após o desaparecimento do Terreiro do Paço no Terramoto de 1 de novembro, graças ao finamento dos comerciantes de Lisboa, foi o 1º palco simbólico de mudança do poder no 25 de Abril, ao ser ocupada pelo movimento dos capitães – sendo as tropas comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, capitão Tavares de Almeida, tenente Correia Assunção e tenente Santos Silva -, cerca das 5:45 da manhã do dia 25 de Abril, bem como ao ser  deste local que partiram os militares do MFA para o Largo do Carmo, onde se havia de consumar a queda do regime.

A Praça do Comércio foi traçada por Eugénio dos Santos e Carlos Mardel após o terramoto de 1755 –  integrada no plano maior da reconstrução da Baixa lisboeta -, numa planta retangular de disposição geométrica perfeita,  semelhante a uma place royale francesa e envolvida pelas construções de três blocos de edifícios iguais concebidas por Manuel da Maia. Cerca de vinte anos depois do terramoto de 1 de novembro, a 6 de junho de 1775, ficou concluída na Praça do Comércio a colocação da estátua equestre de D. José I, da autoria de Machado de Castro, seguindo um plano de Eugénio dos Santos, e colocada no pedestal de Reinaldo dos Santos, alinhada com a artéria que homenageia esse monarca: a Rua da Augusta Figura do Rei que no decorrer do tempo acabou por ficar com a denominação encurtada para Rua Augusta. Quase um século depois, em 1873, foi então colocado o Arco da Rua Augusta ou Arco Triunfal, do Arqº Veríssimo José da Costa, já após a arborização da Praça do Comércio em 1866.  O chão do local foi de terra batida até ao ano de 1900 e dez anos depois, pelo Decreto de 16 de junho de 1910, todo o conjunto da Praça foi considerado Monumento Nacional.

A Praça do Comércio tem também a particularidade de ser também o topónimo lisboeta que mais vezes vê o seu topónimo oficial trocado por um outro, um topónimo simbólico do poder do rei e do seu Paço Real da Ribeira (o Terreiro do Paço). Já o seu topónimo oficial de Praça do Comércio, uma homenagem aos comerciantes de Lisboa que voluntariamente cederam 4% sobre os direitos alfandegários de todas as mercadorias para a reconstrução da cidade, foi atribuído pelo 1º decreto de toponímia de Lisboa, assinado por D. José I, com a data de 5 de novembro de 1760, é simbólico de um novo poder mais participado por todos os habitantes da cidade.

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Rua Luís Pastor de Macedo

Luís Pastor de Macedo em 1940, discursando nas comemorações do centenário do nascimento de Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Luís Pastor de Macedo, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia do Lumiar por Edital de 1 de Fevereiro de 1972

Luís Pastor de Macedo (1901- 1971), comerciante, autarca, deputado e olisipógrafo. Começou a sua vida profissional no estabelecimento comercial da família, A Casa dos Panos, estabelecimento da Rua dos Fanqueiros que fechou portas já no início do século XXI. Publicou a sua primeira obra olisipográfica O Terramoto de 1755 na freguesia da Madalena em 1929 a que se seguiram algumas dezenas de títulos, alguns dos quais sobre as freguesias da Baixa e da sua envolvente. Colaborou com vários outros autores, nomeadamente com Augusto Vieira da Silva, Gustavo de Matos Sequeira, Norberto de Araújo, Rodrigues Cavalheiro. Colaborou ainda no Diário de Lisboa, n’O Século, na Revista Municipal, nos Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais, ambos da Câmara Municipal de Lisboa e no Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa.

A par da sua actividade de comerciante e de olisipógrafo, Luís Pastor de Macedo integrou como vogal a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, entre 1933 e 1935, voltando à autarquia em 1947, como vice-presidente, cargo que manteve até 1959. Na sua actuação enquanto autarca, destaca-se em 1933 a aprovação da sua proposta de criação dos Serviços Culturais, apresentada em Sessão de 11 de Maio. Nos dois períodos em que esteve na Câmara dedicou particular atenção às questões culturais, à realização das festas da cidade e à organização de várias exposições de carácter olisiponense. Foi ainda de sua iniciativa o impulso dado às publicações da autarquia a qual viria a ser a editora de alguns dos seus títulos, bem como de outros olisipógrafos.

A sua dedicação ao conhecimento da Cidade levou-o a ser um dos fundadores do Grupo Amigos de Lisboa, constituído em 1936, e onde desempenhou o cargo de secretário-geral do Grupo, participou activamente nos trabalhos das várias secções que o Grupo então tinha, propôs e promoveu diversas iniciativas para a defesa do património da Cidade e para o conhecimento da sua história e foi um colaborador assíduo da revista Olisipo. Mas a obra pela qual é mais conhecido do grande público é a que se ocupa do estudo da Toponímia de Lisboa – Lisboa de lés-a-lés. Subsídios para o estudo das vias públicas da cidade, publicada pela primeira vez entre 1940 e 1943, e reeditada nos anos sessenta e oitenta do século XX. Organizado em cinco volumes e ordenado alfabeticamente, Lisboa de lés-a-lés procura dar a conhecer a origem de topónimos lisboetas, no seguimento da publicação da obra de Gomes de Brito Ruas de Lisboa.

“Foi da sua leitura, da verificação de que mais alguma coisa haveria a dizer de parte das artérias ali tratadas (…) que nasceu a ideia de a ampliar e aperfeiçoar tanto quanto possível”, nas palavras de Macedo.

O tipo de informação recolhida para os arruamentos varia em quantidade, mas também em qualidade: explicação para o nome, antigo traçado do arruamento, transcrições de outras obras relacionadas com o assunto, referências a moradores e ao comércio local, a ofícios e profissões arruados nesse arruamento, etc. Enfim, todo um conjunto variado de informações úteis a quem se interessa por conhecer a vida da/na cidade, complementando e aprofundando a obra de Brito, ao mesmo tempo que introduz novos topónimos e novas explicações.

Porém, mais ricos do que o livro Lisboa de lés-a-lés são os ficheiros contendo os verbetes que Pastor de Macedo reuniu ao longo da sua vida em número superior a 100 000, que Rodrigues Cavalheiro descreve como “ficheiro portentosamente especializado que, durante meio século, foi pacientemente recolhido, em leituras exaustivas e em investigações pertinazes”, e que se encontra disponível para consulta no Gabinete de Estudos Olisiponenses.

Já perto do fim da vida, em data que desconhecemos, Pastor de Macedo entregou a Ferreira de Andrade os seus ficheiros para que este autor pudesse dar à estampa o projectado Dicionário de Lisboa. Em Agosto de 1970 saía a público o primeiro fascículo do intitulado Grande Dicionário de Lisboa da autoria de Ferreira de Andrade, com prefácio de Rodrigues Cavalheiro e ilustrações de José de Lemos (Lisboa: Olisipo – Ed. De Pub. Turísticas, 1970), que se encontra na Biblioteca Nacional, com 32 páginas a 2 colunas, o qual não passou do termo Académica.

Mas Ferreira de Andrade viria a falecer em Outubro de 1970 e na sequência desta morte, Luís Pastor de Macedo legou à Câmara Municipal de Lisboa os referidos ficheiros. Em sessão de 17 e 28 de Dezembro de 1970, a Câmara deliberou aceitar em legado a ”grande colecção de verbetes elaborados e organizados por aquele olisipógrafo, que representa o produto de trinta anos de trabalho.”, legado que seria destinado ao Gabinete de Estudos Olisiponenses “por constituir um precioso elemento de consulta para os investigadores e estudiosos.”

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A Rua do comerciante e vereador lisboeta Sebastião Saraiva Lima

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Vinte e quatro anos após o falecimento de Sebastião Saraiva Lima, republicano com um importante papel no associativismo dos comerciantes lisboetas, ficou este perpetuado na Rua particular municipalizada a Manuel Joaquim Saraiva no Bairro do Poço dos Mouros junto com o seu prolongamento no Bairro municipalizado a Joaquim Rodrigues Gadanho «até ao seu terço», graças à deliberação da Comissão Executiva da CML de 31 de outubro de 1917, a partir da proposta do vereador Abílio Trovisqueira que justificou a atribuição do topónimo «como prova de gratidão pelos serviços prestados por este ilustre republicano», de que publicou o consequente Edital municipal, de 12 de novembro de 1917, que lhe fixou a legenda «Propagandista dos Princípios Associativos/1857 – 1893».

Na sessão de câmara de 1 de novembro de 1917, o Vereador Feliciano de Sousa aplaudiu a resolução da Comissão Executiva « que com Leão de Oliveira, Magalhães Lima e outros vultos do partido republicano fizeram, em tempos idos, parte da minoria republicana na Camara Municipal de Lisboa. Enaltece depois os serviços prestados á Republica e á cidade por aquele prestante cidadão que a morte arrebatara do convivio dos que muito lhe queriam.»

Freguesia da Penha de França – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Sebastião Correia Saraiva Lima (Águeda-Mourisca do Vouga/28.12.1857 – 11.06.1893/Lisboa), falecido aos 36 anos, era um comerciante republicano que foi Presidente da Associação de Lojistas de Lisboa em 1888, para além de outros cargos dirigentes que nessa mesma associação exerceu em outros anos. A Associação Comercial de Lojistas de Lisboa fora fundada em 1 de janeiro de 1870, na Rua do Norte nº 145 – 1º e vinte anos depois, quando estava sediada no Palácio Bessone na Rua do Ferragial de Cima, em 1890, Saraiva Lima foi um dos principais impulsionadores do boicote aos produtos britânicos com que o comércio de Lisboa participou no movimento nacional de protesto contra o Ultimato Inglês. Já o Diário Ilustrado de 31 de dezembro de 1897 noticiou a sessão solene de inauguração do seu retrato na Associação de Lojistas de Lisboa, no decorrer da qual uma carta de Manuel Gomes Duarte sugeriu que se pedisse à CML a atribuição do seu nome ao Largo da Abegoaria (é o Largo Rafael Bordalo Pinheiro desde 11 de fevereiro de 1915).

Sebastião Saraiva Lima também assumiu, por duas vezes, as funções de vereador na Câmara Municipal de Lisboa. A primeira foi em 1890, graças aos votos do Partido Republicano Português no qual militava e também aos votos de inúmeros comerciantes que o admiravam e assim ficou na companhia dos vereadores republicanos Teófilo Braga e Elias Garcia. Esta vereação terminou dissolvida mas após várias Comissões Administrativas, Sebastião Saraiva Lima foi novamente eleito para os anos de 1892 e 1893, junto com Leão de Oliveira, outro republicano.

O seu nome está também presente na toponímia do seu concelho natal: em Águeda, na Trofa.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo de Lambertini, o homem dos 7 ofícios musicais

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo Michel’Angelo Lambertini homenageia na freguesia do Lumiar o homem dos 7 ofícios na arte musical – pianista, maestro e compositor, musicólogo e organizador de eventos, professor de canto, editor e comerciante de instrumentos musicais -,  assim existindo desde a publicação do Edital municipal de 17 de março de 2017 no largo interior formado entre a Alameda das Linhas de Torres, a Rua Luís de Freitas Branco e a Rua Virgínia Vitorino, a partir de uma sugestão de Miguel Lambertini Gouveia à Autarquia lisboeta.

O Occidente, 20 de novembro de 1907

Michel’Angelo Lambertini (Porto/14.04.1862 – 21.12.1920/Lisboa) foi um pianista, maestro e compositor, musicógrafo e organizador de eventos, professor de canto coral, além de editor da revista A Arte Musical e ainda, comerciante lisboeta de fabrico e revenda de instrumentos musicais.

Neto do compositor e construtor de pianos Luiz Joaquin Lambertini  – que veio para Lisboa em 1864 e montou a sua 1ª fábrica no Palacete do então Largo de São Roque [hoje Largo Trindade Coelho] à esquina da Travessa da Queimada – começou a estudar piano aos 6 anos no Conservatório. Concluiu os cursos de Piano (1879) e de Harmonia e Contraponto (1881) no Real Conservatório de Lisboa, bem como o Instituto Comercial e o Liceu.

O seu grande sonho foi criar um Museu Instrumental em Lisboa. Recomendado por vultos da I República como José Relvas,  foi incumbido por portaria de 22/12/1911  da recolha e ordenação dos instrumentos musicais que encontrasse em edifícios públicos ou religiosos, sem quaisquer custos para o Estado e desempenhou essa missão até à sua morte. Dos contributos recebidos ia dando notícia no seu quinzenário A Arte Musical.  A partir de janeiro de 1912, as peças eram colocadas em exíguas salas do Palácio das Necessidades e sobre essa experiência publicou O Museu Instrumental e as minhas relações com o Estado (1913). O seu sonho não esmoreceu e publica Primeiro nucleo de um museu instrumental em Lisboa : catalogo summario (1914) para no ano seguinte, o Decreto nº 1681, de 28 de junho, o instituir no Conservatório e nomeando Lambertini conservador mas que ficou sem execução prática. Assim, num andar do Palácio Quintela da Rua do Alecrim, instalou e dirigiu o Museu Instrumental Português, com cerca de cinco centenas de peças. A partir de 1929 o espólio do Museu Instrumental foi sendo adquirido pelo Conservatório Nacional e é deste modo que a herança de Lambertini , através de inúmeras vicissitudes, passa a ser uma parte considerável do atual acervo do Museu Nacional da Música, na Estação do Metropolitano dos Altos do Moinhos, em Lisboa.

Na cultura portuguesa de finais do século XIX, princípios do século XX, Michel’Angelo Lambertini foi relevante como organizador e animador de eventos musicais e literários, a ponto de Margarida Rebocho Ferreira o classificar como «benemérito  na cultura da música do Portugal dos inícios de novecentos». Foi o promotor da representação Portuguesa à Exposição Musical de Milão de 1881 – tendo conseguido reunir 121 obras-, o fundador da Sociedade de Música de Câmara em 1899 bem como da Grande Orquestra Portuguesa em 1907, para além de ter sido o responsável pela primeira apresentação em Portugal da Filarmónica de Berlim, em 1901.

Lambertini foi o autor do 1ª grande síntese da história musical portuguesa, publicado em 1915, na Encyclopédie de la Musique Et Dictionnaire du Conservatoire, dirigida por Lavignac. No mesmo ano publicou Pela Índia, sobre a música desse país. Já em 1900, editara os 2 volumes do Diccionario Biograhico de Músicos Portuguezes de Ernesto Vieira e  editou e dirigiu a sua revista A Arte Musical fazendo-a publicar de 15 de janeiro 1889 a 31 de dezembro de 1915, sendo que já nos seus 15 anos  havia sido redator da revista musical A Chitara – revista de musica e theatros, sedeada na Rua do Benformoso nº 266.

Em dezembro de 1887, com a morte do seu tio Ermete Lambertini, assumiu com seu pai a gerência da Casa Lambertini & Irmão, então sediada na Praça dos Restauradores nº 43 a 49, detentora do exclusivo da venda de pianos Bechstein para Portugal e fornecedores da Casa Real, desde o alvará de 2 de novembro de 1868. Neste âmbito publicou Annuario musical da Casa Lambertini (1900), As collecções de instrumentos musicos (1913), Indústria instrumental portuguesa (1914).

Michel’angelo Lambertini  foi também professor de canto coral das escolas  municipais centrais nºs 14 e 15, desde 1883 e redigiu o relatório da Comissão para Melhorar o Ensino da Música em Portugal, presidida por Viana da Mota. Foi ainda fundador da Caixa de Socorro a Músicos Pobres e sócio da Academia Marcos de Portugal.

Em Lisboa, vivia no Palacete Lambertini na Avenida da Liberdade, da autoria de Nicola Bigaglia, que foi Menção Honrosa no Prémio Valmor de 1904.

Lambertini foi condecorado como Cavaleiro da Real Ordem Militar de Cristo (1888) e da Coroa de Itália (1896), bem como Comendador da Ordem Militar de Nª Srª da Conceição de Vila Viçosa (1898) e da Ordem de Santiago de Espada (1908) e no 140º aniversário do seu nascimento o Museu Nacional da Música inaugurou uma exposição em sua homenagem.

Da quinhentista Rua do Terreiro Novo à oitocentista Rua da Alfândega

A Rua da Alfândega em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A ligar o Campo das Cebolas à Praça do Comércio está a Rua da Alfândega, por obra do Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859, que juntou num único arruamento as Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha, preservando a memória do edifício da Alfândega que ocupava todo o lado sul desta artéria, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.

De acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, este arruamento era em 1552 a Rua do Terreiro Novo referida por João Brandão na sua «Estatística de Lisboa de 1552», passando por volta de 1554 a ser a Rua do Terreiro do Trigo conforme aparece no «Sumário» de Cristóvão de Oliveira e depois, em atenção ao edifício da Misericórdia «que para a rua deixava também cair um dos seus lados» foi sendo sucessivamente a Rua da Misericórdia de Baixo (1688), a Rua Direita da Misericórdia (1720) e a partir de 1755, a Rua da Misericórdia da parte do terreiro e a Rua da Porta do Terreiro.

Aliás, ainda de acordo com o mesmo olisipógrafo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Praça do Comércio e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) – estas duas pela ligação à Igreja da Conceição dos Freires –  e Rua Nova da Alfândega (1806).

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do Cais dos produtos oriundos de Santarém e do Chafariz d’El-rei D. Dinis

O Cais de Santarém na planta de Filipe Folque de 1858

A Rua do Cais de Santarém é a extensão toponímica do Cais onde em Lisboa aportavam os produtos vindos de Santarém, artéria fixada já no séc. XX, em cujo perímetro lhe coube o Chafariz d’El-rei D. Dinis, em cujas bicas ao longo de muitos séculos os lisboetas se abasteceram de água.

Antes do Terramoto de 1755 esta artéria era a Rua da Ribeira e o Cais de Santarém recolhia pessoas ou mercadorias, tendo sido reparado depois de novembro de 1687 por se encontrar em ruína. Em 1736, Simão dos Santos, o mercador que tinha obrigação de prover de carne o Cardeal da Mota tinha um talho no Cais de Santarém.

Três anos depois do Terramoto, em 1758, o Cais de Santarém aparece referido na obra Mapas de Portugal, do Padre Castro e em 1777, não se chamaria Rua mas a artéria seria conhecida como Cais de Santarém já que  as louceiras que aí vendiam fizeram em novembro desse ano um requerimento ao Senado municipal para que o Meirinho da Cidade fizesse uma vistoria ao local já que haviam sido notificadas para não ocuparem mais de seis palmos de chão fora das portas das suas barracas com as louças que vendem. Em 1788 também estariam no local linheiras, uma vez que estas solicitaram ao Senado municipal que as suas barracas  junto ao Chafariz d’El-Rei fossem antes acomodadas no largo fronteiro ao Cais de Santarém. De 1792 até 1796, sabemos que neste arruamento denominado apenas como Cais de Santarém também se  vendiam frutas  e que era morada de José Peixoto do Vale que solicitou à Câmara poder fazer obras à porta de sua casa.

Planta de Filipe Folque de 1858

Pouco mais de cem anos depois do Terramoto, em 1858, conforme se observa na planta de Filipe Folque, o espaço que hoje corresponde à artéria Rua do Cais de Santarém situava-se entre o Largo do Terreiro do Trigo e o Campo das Cebolas, nele pontificando o Terreirinho e o Chafariz d’El Rei, enquanto o Cais de Santarém ficava relativamente próximo, entre a Ribeira Velha e a Alfândega dos Vinhos.

Embora possa surgir em informações municipais anteriores é  na planta de Silva Pinto de 1907 que vemos aparecer a Rua do Cais de Santarém identificada como tal. Lisboa enquanto cidade ribeirinha sempre teve cais nas suas margens e os seus topónimos estiveram quase sempre associados aos produtos que aí aportavam, como aconteceu no Cais do Tojo ou no Cais do Carvão. Mas  os cais também receberem topónimo gerado pela proveniência dos  produtos que recebiam como aconteceu no Cais de Alhandra e neste Cais de Santarém.

Nos dias de hoje, a Rua do Cais de Santarém começa no Largo do Terreiro do Trigo e vai até ao Campo das Cebolas.

A Rua do Cais de Santarém na planta de Silva Pinto de 1907

A Rua dos doces Bacalhoeiros da Casa dos Bicos

Rua dos Bacalhoeiros em 1906
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Bacalhoeiros que hoje encontramos a servir de morada à Casa dos Bicos resulta da junção das antigas Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros sob o topónimo único de  Rua dos Bacalhoeiros pelo Edital  de 1 de setembro de 1859, do Governo Civil de Lisboa, que então detinha a competência de atribuir nomes às ruas da cidade.

Rua dos Bacalhoeiros placa

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II                                                                  (Foto: Artur Matos)

Ambos os topónimos que deram origem à Rua dos Bacalhoeiros se inscrevem na tradição popular de designar os arruamentos da cidade pelos mesteres que neles se exerciam. Em 1755, o espaço da Rua dos Bacalhoeiros era a Rua de Cima da Misericórdia – no percurso da Rua da Padaria à Rua dos Arameiros-  mais a Rua dos Confeiteiros – a qual compreendia o percurso restante até ao Campo das Cebolas. Refira-se que as lojas de confeiteiros eram 7 em 1760 e passados 76 anos,  em 1836, eram já nove.

A Rua de Cima da Misericórdia nasceu no começo de Quinhentos, quando ali se ergueu a Igreja do Recolhimento da Misericórdia. Depois do terramoto, segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, teve muitas designações, a saber: Rua Direita da Ribeira, Rua da Misericórdia da parte de Cima, Rua da Misericórdia de Cima, Rua de Cima da Conceição dos Freires, Rua da Conceição da parte de Cima, Rua da Conceição dos Freires da parte de Cima, Rua Direita dos Freires da parte de Cima, Rua Direita da Conceição dos Freires da parte de Cima e Rua dos Confeiteiros.

A Rua dos Confeiteiros foi identificada sucessivamente como Ribeira, Rua da Porta do Mar, a seiscentista Rua Direita da Ribeira, Rua da Ribeira e, a partir do começo do séc. XIX, como Rua dos Bacalhoeiros, situação que o Governo Civil de Lisboa acabou por formalizar em 1859.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro

A Rua Áurea no Cartulário Pombalino de 1760
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A pombalina Rua Áurea de 1760, topónimo oficial nascido do  primeiro diploma de toponímia de Lisboa, é pela maioria chamada como Rua do Ouro por ser de pronúncia mais fácil mas também porque outrora existiram ruas do Ouro alfacinhas.

No séc. XV,  os vereadores da cidade de Lisboa proibiram o lançamento de esterco e outras sujidades na rua do Ouro, que era a Betesga, estipulando pena por incumprimento, conforme lavrou o escrivão da Câmara Gomes Eanes de Monte Agraço.

A partir da 2ª metade do século XVI, Lisboa começa a apresentar uma Rua Nova dos Ourives do Ouro, também designada Rua da Ourivesaria do Ouro (em 1577 e em 1700), aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar, talvez situada na área hoje ocupada pelas Ruas de São Nicolau e de São Julião, ou ainda, como Rua dos Ourives do Ouro (por exemplo, em 1577, 1600, 1602, 1619, 1663, 1686, 1688, 1692, 1702, 1704, 1705, 1707, 1719).

Após o Terramoto de 1755 nasceu a nova Rua Áurea, rasgada e integrada no todo simétrico da Baixa Pombalina, em resultado da Portaria de 5 de novembro de 1760, de D. José I, que atribuiu toponímia a todos os novos 14 arruamentos entre a Praça do Rossio (hoje Praça D. Pedro IV) e a Praça do Comércio, bem como regulamentou a distribuição dos vários artesãos e comércios por eles.

No séc. XIX, seguramente a partir de 1849 passou a ser conhecida vulgarmente como Rua do Ouro, tanto mais que em 1906 circulavam postais com o Banco de Portugal e Rua do Ouro na legenda. Aliás, nos postais da primeira década do séc. XX era comum encontrar-se a imagem dos estabelecimentos bancários que a artéria albergava: o Monte Pio dos Empregados Públicos (1840), o Banco de Portugal (na última metade do séc. XIX), o Banco Lisboa & Açores (1907), como mais tarde, também aconteceu com a Agência Havas (1931).

A Rua Áurea em 2012 –
Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)