A Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro

A Rua Áurea no Cartulário Pombalino de 1760
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A pombalina Rua Áurea de 1760, topónimo oficial nascido do  primeiro diploma de toponímia de Lisboa, é pela maioria chamada como Rua do Ouro por ser de pronúncia mais fácil mas também porque outrora existiram ruas do Ouro alfacinhas.

No séc. XV,  os vereadores da cidade de Lisboa proibiram o lançamento de esterco e outras sujidades na rua do Ouro, que era a Betesga, estipulando pena por incumprimento, conforme lavrou o escrivão da Câmara Gomes Eanes de Monte Agraço.

A partir da 2ª metade do século XVI, Lisboa começa a apresentar uma Rua Nova dos Ourives do Ouro, também designada Rua da Ourivesaria do Ouro (em 1577 e em 1700), aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar, talvez situada na área hoje ocupada pelas Ruas de São Nicolau e de São Julião, ou ainda, como Rua dos Ourives do Ouro (por exemplo, em 1577, 1600, 1602, 1619, 1663, 1686, 1688, 1692, 1702, 1704, 1705, 1707, 1719).

Após o Terramoto de 1755 nasceu a nova Rua Áurea, rasgada e integrada no todo simétrico da Baixa Pombalina, em resultado da Portaria de 5 de novembro de 1760, de D. José I, que atribuiu toponímia a todos os novos 14 arruamentos entre a Praça do Rossio (hoje Praça D. Pedro IV) e a Praça do Comércio, bem como regulamentou a distribuição dos vários artesãos e comércios por eles.

No séc. XIX, seguramente a partir de 1849 passou a ser conhecida vulgarmente como Rua do Ouro, tanto mais que em 1906 circulavam postais com o Banco de Portugal e Rua do Ouro na legenda. Aliás, nos postais da primeira década do séc. XX era comum encontrar-se a imagem dos estabelecimentos bancários que a artéria albergava: o Monte Pio dos Empregados Públicos (1840), o Banco de Portugal (na última metade do séc. XIX), o Banco Lisboa & Açores (1907), como mais tarde, também aconteceu com a Agência Havas (1931).

A Rua Áurea em 2012 –
Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

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O Terreiro do Paço antes do Terramoto e a nova Praça do Comércio após

O Terreiro do Paço antes do Paço da Ribeira de D. Manuel I

O Terreiro do Paço desapareceu com o Terramoto de 1 de novembro de 1755 e nesse espaço nasceu a nova Praça do Comércio, construída graças ao finamento dos comerciantes de Lisboa para a reconstrução da Baixa, de tal forma que se justificou que fossem homenageados como topónimo dessa Praça central da Baixa toda construída de novo.

Todavia, a Praça do Comércio deve ser o topónimo lisboeta que mais vezes vê o seu topónimo oficial trocado por um topónimo tradicional – Terreiro do Paço -, mesmo que já estejam passados mais de 250 anos sobre a sua atribuição feita pelo 1º decreto de toponímia de Lisboa, assinado por D. José I, com a data de 5 de novembro de 1760, materializando a homenagem aos comerciantes de Lisboa que voluntariamente cederam 4% sobre os direitos alfandegários de todas as mercadorias para a reconstrução da cidade.

Antes do Terramoto é que existiu  o Terreiro do Paço, topónimo feito por referência ao Paço Real da Ribeira, mandado erguer por D. Manuel entre 1500 e 1505, que formava conjunto com a Alfândega, a Casa da Índia, a Casa da Moeda, o Arsenal, e o Teatro da Ópera do Tejo, sendo de notar que apesar de ser no mesmo local onde depois nascerá a geométrica Praça do Comércio, o espaço tinha uma configuração menor e diferente da Praça que lhe sucedeu.

A Praça do Comércio foi traçada por Eugénio dos Santos e Carlos Mardel após o terramoto de 1755,  integrada no plano maior da reconstrução da Baixa lisboeta, numa planta rectangular de disposição geométrica perfeita,  ao género da place royale francesa, envolvida pelas construções de três blocos de edifícios iguais concebidas por Manuel da Maia. Cerca de vinte anos depois do terramoto de 1 de novembro, a 6 de junho de 1775, ficou concluída na Praça do Comércio a estátua equestre de D. José, da autoria de Machado de Castro seguindo um plano de Eugénio dos Santos e para colocar no pedestal de Reinaldo dos Santos, em linha direita com a artéria que homenageia esse monarca: a Rua da Augusta Figura do Rei que no decorrer do tempo acabou por ficar encurtada para Rua Augusta. Quase um século depois, em 1873, foi então colocado o Arco da Rua Augusta, ou Arco Triunfal, do arqº Veríssimo José da Costa, após a arborização da Praça do Comércio em 1866.  O chão foi de terra batida até ao ano de 1900 e todo o conjunto da Praça é Monumento Nacional desde 1910 (Decreto de 16 de junho), tendo Norberto de Araújo já na década de trinta do séc. XX descrito a Praça do Comércio como a «Praça principal de Lisboa, sala de visitas da Cidade».

Projeto para a Praça do Comércio após 1775

 

A Avenida do pintor de «O Fado»

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida José Malhoa perpetua desde 1972 em Lisboa o pintor do quadro O Fado, aumentando o tamanho da artéria que lhe era dedicada na cidade desde 1955, por sugestão do Museu José Malhoa, das Caldas da Rainha.

José Malhoa começou por estar consagrado em Lisboa numa Rua de Alvalade, no ano do seu centenário de nascimento. O Edital municipal de 20 de outubro de 1955 identificou as ruas do Bairro de Alvalade com topónimos de figuras ligadas à cultura e às artes e assim, a Rua 55 A do Sítio de Alvalade passou a denominar-se Rua José Malhoa. Mas passados 17 anos,  esta artéria passou a ser a Rua General Pimenta de Castro, pelo Edital municipal de 8 de janeiro de 1972, que também transferiu o nome de José Malhoa para um arruamento maior, no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian até Sete Rios, ganhando a categoria de Avenida.

Este topónimo havia sido sugerido à Comissão Consultiva Municipal de Toponímia pelo então denominado Museu Provincial de José Malhoa – o único museu criado de raiz pelo Estado Novo – , em 1954, já que no ano seguinte seria o de centenário do nascimento do artista caldense. Mais tarde,  na sua reunião de 23 de dezembro de 1970 a Comissão deparou-se com um despacho do Presidente da CML «solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» e quase um ano depois, na reunião de 20 de outubro de 1971,  outro despacho do Presidente da CML pedia «parecer sobre a denominação do arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão», tendo então a Comissão considerado «que a considerável extensão do arruamento, sua localização e importância bem justificam o nome de uma grande individualidade; Considerando ainda que o nome de José Malhoa identifica hoje um pequeno arruamento; A Comissão é de parecer que o arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian, até Sete Rios, se denomine Rua José Malhoa/Pintor/1855 – 1933».

Branco e Negro, 21 junho de 1896

José Vital Branco Malhoa (Caldas da Rainha/28.04.1855 – 26.10.1933/Figueiró dos Vinhos) liga-se ao Fado por em 1909 (1ª versão) e em 1910 (versão final) ter pintado o quadro O Fado, um óleo sobre tela (150  × 183 ) hoje no Museu de Lisboa, que se tornou uma imagem icónica desse estilo de música, a ponto de ser recriada em filmes e mesmo se inicialmente foi mal recebida em Portugal, por causa da sua temática considerada marginal e assim, o quadro foi exposto pela primeira vez em Buenos Aires, em 1910, na Exposição Internacional de Arte do Centenário da República da Argentina, com o título Bajo el Encanto, onde conseguiu a Medalha de Ouro e só foi exposto em Lisboa em 1917. A característica  pintura de costumes de Malhoa produziu outras obras emblemáticas como As Cócegas (1904), Os Bêbados (1907) ou Outono (1918).

Apesar de diplomado pela Academia Real de Belas Artes, onde foi discípulo de Vítor Bastos, Tomás da Anunciação e Miguel Lupi, até ao  sucesso de A Seara Invadida exposta em Madrid, em 1881, lhe renovar as esperanças de carreira, José Malhoa dedicou-se ao comércio para seu sustento. Foi assim que depois aderiu ao naturalista Grupo do Leão. Em Lisboa, pintou os tetos da sala de concerto do Conservatório Real de Lisboa, do Supremo Tribunal de Justiça e do Gabinete Real da Escola Médica de Lisboa, bem como os medalhões do teto dos Paços do Concelho de Lisboa (1889). No concurso que a Câmara Municipal de Lisboa abriu em 1887 para um quadro representando A partida de Vasco da Gama para a Índia, o seu esboceto recebeu a primeira classificação entre os concorrentes, sendo nessa ocasião Malhoa agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo (1888). Malhoa pintou ainda composições históricas de pendor decorativo para o Palácio da Ajuda (1890), Assembleia Constituinte (1891) e  Museu Militar (1907). Foi Presidente da Sociedade Nacional das Belas Artes em 1918. A sua obra está representada nos lisboetas Museu de Lisboa – Palácio Pimenta e Museu de Arte Contemporânea – Museu do Chiado,  bem como no Museu José Malhoa das Caldas da Rainha.

Refira-se que José Malhoa mandou construir  a sua casa em Lisboa sob traçado do Arqº. Norte Júnior, que foi Prémio Valmor 1905 e hoje conhecemos como Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, já que este proprietário posterior a legou ao Estado. A decoração a fresco das fachadas foi executada por Mário Eloy, segundo modelos do próprio Malhoa e de António Ramalho e as esculturas foram obra de Costa Mota. Pertenceu, mais tarde, a Anastácio Gonçalves que a legou ao Estado.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Nova dos Mercadores no Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Nova dos Mercadores na Freguesia do Parque das Nações,  herdada por Lisboa da Expo 98, evoca a importância do comércio e dos mercadores nos Descobrimentos Portugueses e repete um topónimo lisboeta de finais do séc. XIII.

Com a realização da Expo 98, subordinada ao tema Os oceanos: um património para o futuro, foram nomeados os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e ainda alguns ligados à botânica. Com o fim da Exposição e a reconversão da zona em Parque das Nações e a transmissão deste território para o concelho de Lisboa foram oficializados pela edilidade alfacinha 103 topónimos, através do Edital de 16/09/2009, onde estava incluída esta Rua Nova dos Mercadores. Mais tarde, pelo Edital municipal de 06/05/2015, Lisboa oficializou mais 60 topónimos resultantes de ter recebido o território do Parque das Nações Norte.

Esta Rua Nova dos Mercadores, que liga a Rua Finisterra à Rua dos Argonautas, evoca a importância do comércio e dos mercadores nos Descobrimentos Portugueses, os quais aliás tiveram como importante motivação encontrar rotas comerciais alternativas, sobretudo para as especiarias, cujos nomes também serviram para topónimos da Expo 98: a Rua da Pimenta e as Travessas do Açafrão, da Canela, do Gengibre e da Malagueta.

Por outro lado, este topónimo repete a antiga Rua Nova dos Mercadores que foi rasgada em finais do século XIII pelo interior e a par com a extensão da muralha de Lisboa, cumprindo a função tradicional das cidades portuárias portuguesas com ruas que, por trás da frente de praia-porto, catalisavam e orientavam o crescimento urbano.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Travessa do merceeiro da Ajuda e vereador de Belém

Freguesia da Ajuda

Vitorino de Freitas que está perpetuado numa Travessa da Ajuda, por deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, foi o dono de uma mercearia nessa  freguesia e também exerceu funções como vereador da Câmara Municipal de Belém no século XIX.

Belém existiu como concelho na segunda metade do séc. XIX, de 11 de setembro de 1852 a 18 de julho de 1885, tendo depois o seu território sido integrado no concelho de Lisboa e consequentemente, a sua toponímia. A edilidade belenense era composta pelas freguesias de São Pedro de Alcântara, Nossa Senhora do Amparo de Benfica, São Lourenço de Carnide,  Santa Isabel, São Sebastião da Pedreira e Menino Jesus de Odivelas, tendo esta última sido a única a não passar passar para o concelho de Lisboa mas antes para o de Loures. A Câmara Municipal de Belém teve Alexandre Herculano como o seu primeiro presidente, sucedendo assim à freguesia de Santa Maria de Belém, criada em 1833, que por seu turno tinha substituído o Bairro Administrativo de Belém, instituído em 1813.

Todavia, a Travessa de Vitorino de Freitas, que liga a Calçada da Ajuda à Rua da Bica do Marquês, resultou já de uma deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, tendo sido o necessário Edital publicado em 4 de maio de 1901, para substituir o anterior topónimo de Travessa da Ilha das Cobras. A primeira deliberação camarária da Câmara Municipal de Lisboa, emitida em 1899 foi retificada depois duas vezes, em 19 de julho de 1900 e em 2 de maio de 1901, após o que saiu o Edital e assim, a Planta Topográfica de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Correia de Sá já a inclui.

O pouco que hoje se sabe de Vitorino de Freitas resume-se a ter sido o proprietário de uma mercearia na Ajuda e ter exercido funções de vereador da Câmara Municipal de Belém antes de 1862, se considerarmos que no Largo da Luz, em Carnide, se encontra uma inscrição em pedra onde se pode ler, em maiúsculas, «Praça de Nossa Senhora da Luz mandada edificar pela Camara Municipal de Belém. sendo Presidente João António de Souza e Vereadores Manuel José Gonçalves. Pedro Augusto Franco. D. Sebastião da Silva Pessanha. Faustino José de Freitas. José António Capucho. Francisco Evangelista Pacheco. 1862». Talvez tenha sido o Vitorino José de Freitas (ou familiar) de quem encontramos no arquivo Municipal de Lisboa uma escritura de venda de terreno firmada em 11 de julho de 1901 para construção de jazigo no 3º Cemitério, que era o da Ajuda.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua e a Travessa da família de mercadores Possolo

Rua do Possolo em 1969, destacando-se o pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Casa Fotográfica Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Possolo  eram uma família de mercadores italianos que de acordo com Norberto de Araújo ergueram o seu Palácio a meio da artéria que hoje conhecemos como Rua do Possolo, à esquina da antiga Travessa das Almas, dando azo a que no último quartel do séc. XIX a Câmara lisboeta renomeasse as  Rua e Travessa da Boa-Morte como Rua e Travessa do Possolo.

A Rua  e a Travessa do Possolo foram topónimos atribuídos pela deliberação camarária de 30 de novembro de 1882 e consequente Edital de 4 de dezembro, para substituir as anteriores denominações de Rua e Travessa da Boa-Morte: «A rua da Boa Morte e a Travessa da Boa Morte no bairro occidental d’esta cidade passem a ter a denominação de Rua do Possollo e Travessa do Possollo.»  Refira-se ainda que a Travessa da Boa-Morte havia sido antes a Travessa dos Burros, até à publicação do Edital do Governo Civil de Lisboa de 5 de agosto de 1867.

O sítio da Boa Morte incluía os topónimos Rua Direita da Boa Morte (hoje Rua do Patrocínio), Rua do Possolo, Rua Possidónio da Silva, Rua de Sant’Ana e Rua de Santo António à Estrela, derivando o nome da existência no local do Convento da Congregação do Senhor da Boa Morte e Caridade, construído em 1736 e demolido em 1835.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique – Placa de azulejo no pombalino Palacete dos Condes de Sabrosa
(Foto: Mário Marzagão)

Segundo Norberto de Araújo, os Possolo foram uma família de ricos negociantes italianos do séc. XVII, que  ali residiram no seu palácio erguido cerca de 1730,  com 8 varandas  e um portal brasonado na esquina da Travessa das Almas, mas que já se encontrava em ruínas na época em que o olisipógrafo escreveu – anos 30 do séc. XX- , conforme ele menciona.

Mais pormenores sobre a família devem-se sobretudo a apenas uma fonte: António de Portugal de Faria que escreveu Genealogia da Familia “Possollo” (impresso em 1892), que numa 2ª edição acrescentou (1673 a 1896). Segundo ele, a quinta Possolo foi edificado após o terramoto de 1755 por Nicolau Possolo, educado em Génova onde se dedicava ao comércio e se veio estabelecer em Portugal, tendo casado com a sua prima Joana Maria Eusébia Germack. Moravam no Largo do Corpo Santo e possuíam uma quinta na Lapa, sendo que, segundo o mesmo autor,  «Tinha relações de verdadeira amisade com El Rei D. João V que costumava ir visital’o passando com elle bocados de cavaqueira na sua quinta à Rua de Sant’Anna em Lisboa, que era n’aquella epoca o rendez-vous favorito da aristocracia.» Sucedeu-lhe o filho Nicolau Possolo (nascido em 11 de maio de 1757) que se tornou oficial maior do Conselho da rainha e abastado negociante de vinhos e casou com Maria do Carmo Correia de Magalhães Botelho de Morais Freirão Callabre, tendo o casal tido pelo menos 14 filhos, sendo o terceiro Francisca de Paula Possolo da Costa (1783 – 1838), conhecida como escritora, tendo a família residido até 1790 na Rua de Santana à Lapa.

Pela documentação do Arquivo Municipal ficamos a saber que em 1904 foram comprados terrenos para o alargamento das Travessas do Possolo e das Almas, intenção que havia sido aprovada na sessão de Comissão Administrativa Municipal de 7 de julho de 1891. Em 1929, o engº António Emídio Abrantes traçou o prolongamento da Travessa do Possolo ligando esta com a Calçada das Necessidades.

Refira-se finalmente que na esquina da Rua do Possolo  com a Rua de Santana à Lapa está ainda hoje o Palacete dos Condes de Sabrosa, construído no 3º quartel do séc. XVIII, de arquitetura pombalina  e com um exuberante revestimento de azulejos policromados da Fábrica de Campolide, traçados pelo desenho de João Rodrigues.

Freguesias da Estrela e de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)

A Praça de São Paulo, do obelisco e dos quiosques

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Na confluência da Rua de São Paulo, Rua da Ribeira Nova, Rua Nova do Carvalho e Travessa de São Paulo, encontramos a Praça com a invocação do mesmo apóstolo, que chegou até a ser o nome da freguesia, e que desde 1849 conta com um chafariz em forma de obelisco e desde o final do séc. XX, também com quiosques.

O nome deriva da Igreja de São Paulo que no centro da Praça foi edificada no séc. XV, provavelmente em 1412, de acordo com uma inscrição latina incrustada no templo, sendo que os alvarás para instituição da freguesia de São Paulo são de 1566 e de 1568. O terramoto de 1755 que destruiu grande parte desta zona ribeirinha, fazendo milhares de mortos, destruiu também a Igreja que foi substituída em 1768 por uma nova, traçada pelo Arq.º Remígio Francisco de Abreu, a poente da original e virada a nascente.

Segundo o olisipógrafo Norberto de Araújo, o sítio de São Paulo «Foi de seu princípio ribeirinho, sítio mercadejador, piedoso e turbulento. (…) Remonta ao quinhentismo, extra-muros. Em 1550 não contava como freguesia; existia como formigueiro de mareantes» e avança que «A velha igreja paroquial de S. Paulo já existia em 1572, seguramente [por estar representada na estampa de Braunio datada desse ano] , mas a inscrição latina colocada sobre a porta do templo antigo deixa entender que a igreja fora construída em 1412».

Em 1609, uma postura publicada no porto de Belém no dia 27 de abril , refere já as Praças de São Paulo e do Corpo Santo, bem como a Praça do Pelourinho Velho e a Rua Nova.

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Dois elementos icónicos desta praça rodeada de prédios pombalinos são o seu chafariz em forma de obelisco e os seus quiosques, todos nela inseridos no decorrer do séc. XIX.

O chafariz era um pedido insistente dos moradores para melhor abastecimento de água na freguesia, pelo menos desde 1821, atendendo ainda às muitas instituições presentes ao seu redor, como a setecentista Casa da Moeda assim como a realização de uma feira no local. Finalmente, em 1848 os fregueses pediram à Câmara Municipal de Lisboa a construção do chafariz, com água encanada do Chafariz da Esperança e os vereadores aprovaram a construção do chafariz, com a água do Chafariz  do Loreto, aproveitando para o efeito o projeto setecentista de Reinaldo Manuel dos Santos com adaptação ao gosto da época pelo Arq.º Malaquias Ferreira Leal, tendo sido inaugurado em 29 outubro de 1849, como Chafariz nº 28, sendo desde o início estabelecido que a bica do lado da frontaria da igreja apenas servisse «as gentes do mar».

Os quiosques instalados na Praça terão sido dois, a fazer fé nos registos fotográficos e documentais.

Sabe-se que aquele conhecido como Quiosque Castanheira, no lado oposto à Igreja, nasceu cerca de 1870, com alvará atribuído em 1881, como propriedade da família Castanheira, ostentando colunas dóricas em ferro forjado e painéis de vidro pintado a ouro sobre grená onde se publicitavam as bebidas populares do estabelecimento:  capilé, gazosa, pirolito e castanheira. Em 2013, foi vendido pela família Castanheira à cadeia Quiosque de Refresco.

Sabemos também que em 1884 António Joaquim Fernandes arrendou terrenos para a colocação de dois quiosques, sendo um na Praça dos Remolares e outro na Praça de São Paulo. Desconhecemos a sua localização mas talvez fosse o mais próximo da igreja já que no ano seguinte surgem requerimentos do Juiz Francisco S. Carneiro e outros, bem como dos paroquianos da freguesia de S. Paulo, ambos a apelarem para que «seja removido para outro local mais próprio, o quiosque que foi colocado no largo de S. Paulo, frente à Igreja» porque «irá causar ajuntamentos à porta da referida igreja». De igual forma se conhece que, em agosto de 1907, três pessoas de apelido Grima trespassaram a exploração de um quiosque na Praça de S. Paulo a João Gomes da Costa, o qual, em março do ano seguinte o trespassou a Rosa da Cruz.

Esta Praça de São Paulo foi remodelada em 1913 quando a Freguesia passou a ter a denominação de Marquês de Pombal, situação que durará até 1959, ano em que voltará a designar-se São Paulo até em 2012, para desde então integrar o território da Freguesia da Misericórdia.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do Vintista Silva Carvalho e da Panificação Mecânica em Campo de Ourique

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias)

No centenário da Revolução de 1820, a edilidade lisboeta fez a junção da Rua de São Luís e da Rua de São João dos Bem Casados mais o Largo da Páscoa para dedicar uma rua a José da Silva Carvalho, um dos fundadores do Sinédrio e impulsionador da Revolução Vintista,  artéria na qual firmou tradições no séc. XX a Panificação Mecânica, instalada no nº 209 de hoje, fazendo esquina para a Rua de Campo de Ourique.

Foi por deliberação camarária de 20 de setembro de 1920 e Edital de 16 de outubro que as Ruas de São Luís e de São João Bem Casados junto com o Largo da Páscoa passaram a constituir um único arruamento designado Rua Silva Carvalho, com a legenda «Um dos Iniciadores da Revolução de 1820/1782 – 1856». Recorde-se que o movimento liberal Vintista eclodira no Porto em 24 de agosto de 1920, com Silva Carvalho a integrar a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, mas em Lisboa o movimento só foi desencadeado em setembro, a dia 15, e só em 28 de setembro os governos do Porto e de Lisboa se uniram-se numa única Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, com o encargo de organizar as eleições para as Cortes Constituintes.

No entanto, pelo menos desde o início do séc. XX existira já uma outra artéria dedicada a Silva Carvalho que foi na maior parte substituída pela reformulação da Rua Castilho e artérias adjacentes em 1915, pelo que no centenário da Revolução de 1820, voltou o 1º Presidente do Supremo Tribunal de Justiça à toponímia de Lisboa. Na planta de janeiro de 1911 de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia é visível a Rua José da Silva Carvalho a correr em paralelo ao Parque Eduardo VII desde o Quartel de Artilharia nº 1 ao Quartel do Vale do Pereiro. Na documentação municipal encontram-se documentos que referem a Rua José da Silva Carvalho em 1901, na planta de construção da Rua Marquês da Fronteira; em 1903, numa venda de terrenos que a menciona como o acréscimo de antiga Rua de Entre Muros e, de fevereiro a novembro de 1915 no projeto de remodelação das ruas Castilho, Rodrigo da Fonseca, Artilharia Um, Joaquim António de Aguiar e Parque Eduardo VII.

José da Silva Carvalho (Dianteira- Stª Comba Dão/19.12.1782- 05.11.1856/freguesia de Santa Isabel – Lisboa), licenciado em Direito em 1805  seguiu a carreira de magistrado em Recardães e depois no Porto, cidade onde fundou com Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges e João Ferreira Viana o Sinédrio, a partir do qual se forjou a Revolução de 1820 com a ajuda dos militares. Foi depois membro da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e Justiça e da Segurança Pública (1821-1822) e ainda Ministro de Estado (1822). Durante o miguelismo – quer em 1823 quer em 1828-, emigrou para Inglaterra  e voltou para o cerco do Porto, assumindo depois a pasta da Fazenda (1832-1835), da Marinha e Ultramar (1833) e a da Justiça (1832-1834). Foi também  o 1.º Presidente Presidente do Supremo Tribunal de Justiça empossado a 14 de setembro de 1833 e até 1836, cargo que voltou a exercer em 1840-1844 e 1847-1856. Foi também deputado de 1834 a 1836 e, novamente, duas vezes Ministro da Fazenda (1835 e 1836). Exila-se pela 3ª vez, durante o Setembrismo, entre 1836 e 1838. Regressado em 1838, volta a ser deputado até 1842. Refira-se ainda que foi nomeado Par do Reino mas recusou sempre títulos de nobreza por ser Maçon.

Nesta artéria de Campo de Ourique existia desde o início do séc. XX a Companhia de Panificação Lisbonense que em 1915 passou a ser propriedade da Nacional (Companhia Nacional de Moagem). Em 1941, o estabelecimento já era da Companhia Industrial de Portugal e Colónias que o arrendou em 1958 à Panificação Mecânica Lda. O edifício, classificado como Imóvel de Interesse Público,tem características de Arte Nova,  no exterior e no interior, com articulação de vidro e ferro na fachada, motivos naturalistas como o trigo e azulejos da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias)