Da quinhentista Rua do Terreiro Novo à oitocentista Rua da Alfândega

A Rua da Alfândega em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A ligar o Campo das Cebolas à Praça do Comércio está a Rua da Alfândega, por obra do Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859, que juntou num único arruamento as Rua Nova da Alfândega e a Rua da Ribeira Velha, preservando a memória do edifício da Alfândega que ocupava todo o lado sul desta artéria, uma construção pombalina posterior ao terramoto de 1755 que veio substituir a alfândega quinhentista que se situava aproximadamente onde hoje confluem as Ruas do Comércio e da Madalena.

De acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, este arruamento era em 1552 a Rua do Terreiro Novo referida por João Brandão na sua «Estatística de Lisboa de 1552», passando por volta de 1554 a ser a Rua do Terreiro do Trigo conforme aparece no «Sumário» de Cristóvão de Oliveira e depois, em atenção ao edifício da Misericórdia «que para a rua deixava também cair um dos seus lados» foi sendo sucessivamente a Rua da Misericórdia de Baixo (1688), a Rua Direita da Misericórdia (1720) e a partir de 1755, a Rua da Misericórdia da parte do terreiro e a Rua da Porta do Terreiro.

Aliás, ainda de acordo com o mesmo olisipógrafo, a partir de 1755 a parte oriental da rua era a Ribeira Velha que só em 1836 aparece como Rua da Ribeira Velha, enquanto a parte compreendida entre o Praça do Comércio e a Rua dos Arameiros foi denominada como Rua Direita da Misericórdia (1766), Rua da Misericórdia de Baixo (1780), Rua dos Freires da parte de baixo (1787), Rua da Conceição dos Freires da parte do mar (1799) – estas duas pela ligação à Igreja da Conceição dos Freires –  e Rua Nova da Alfândega (1806).

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do Cais dos produtos oriundos de Santarém e do Chafariz d’El-rei D. Dinis

O Cais de Santarém na planta de Filipe Folque de 1858

A Rua do Cais de Santarém é a extensão toponímica do Cais onde em Lisboa aportavam os produtos vindos de Santarém, artéria fixada já no séc. XX, em cujo perímetro lhe coube o Chafariz d’El-rei D. Dinis, em cujas bicas ao longo de muitos séculos os lisboetas se abasteceram de água.

Antes do Terramoto de 1755 esta artéria era a Rua da Ribeira e o Cais de Santarém recolhia pessoas ou mercadorias, tendo sido reparado depois de novembro de 1687 por se encontrar em ruína. Em 1736, Simão dos Santos, o mercador que tinha obrigação de prover de carne o Cardeal da Mota tinha um talho no Cais de Santarém.

Três anos depois do Terramoto, em 1758, o Cais de Santarém aparece referido na obra Mapas de Portugal, do Padre Castro e em 1777, não se chamaria Rua mas a artéria seria conhecida como Cais de Santarém já que  as louceiras que aí vendiam fizeram em novembro desse ano um requerimento ao Senado municipal para que o Meirinho da Cidade fizesse uma vistoria ao local já que haviam sido notificadas para não ocuparem mais de seis palmos de chão fora das portas das suas barracas com as louças que vendem. Em 1788 também estariam no local linheiras, uma vez que estas solicitaram ao Senado municipal que as suas barracas  junto ao Chafariz d’El-Rei fossem antes acomodadas no largo fronteiro ao Cais de Santarém. De 1792 até 1796, sabemos que neste arruamento denominado apenas como Cais de Santarém também se  vendiam frutas  e que era morada de José Peixoto do Vale que solicitou à Câmara poder fazer obras à porta de sua casa.

Planta de Filipe Folque de 1858

Pouco mais de cem anos depois do Terramoto, em 1858, conforme se observa na planta de Filipe Folque, o espaço que hoje corresponde à artéria Rua do Cais de Santarém situava-se entre o Largo do Terreiro do Trigo e o Campo das Cebolas, nele pontificando o Terreirinho e o Chafariz d’El Rei, enquanto o Cais de Santarém ficava relativamente próximo, entre a Ribeira Velha e a Alfândega dos Vinhos.

Embora possa surgir em informações municipais anteriores é  na planta de Silva Pinto de 1907 que vemos aparecer a Rua do Cais de Santarém identificada como tal. Lisboa enquanto cidade ribeirinha sempre teve cais nas suas margens e os seus topónimos estiveram quase sempre associados aos produtos que aí aportavam, como aconteceu no Cais do Tojo ou no Cais do Carvão. Mas  os cais também receberem topónimo gerado pela proveniência dos  produtos que recebiam como aconteceu no Cais de Alhandra e neste Cais de Santarém.

Nos dias de hoje, a Rua do Cais de Santarém começa no Largo do Terreiro do Trigo e vai até ao Campo das Cebolas.

A Rua do Cais de Santarém na planta de Silva Pinto de 1907

A Rua dos doces Bacalhoeiros da Casa dos Bicos

Rua dos Bacalhoeiros em 1906
(Foto: Machado & Souza, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Bacalhoeiros que hoje encontramos a servir de morada à Casa dos Bicos resulta da junção das antigas Ruas dos Bacalhoeiros e dos Confeiteiros sob o topónimo único de  Rua dos Bacalhoeiros pelo Edital  de 1 de setembro de 1859, do Governo Civil de Lisboa, que então detinha a competência de atribuir nomes às ruas da cidade.

Rua dos Bacalhoeiros placa

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II                                                                  (Foto: Artur Matos)

Ambos os topónimos que deram origem à Rua dos Bacalhoeiros se inscrevem na tradição popular de designar os arruamentos da cidade pelos mesteres que neles se exerciam. Em 1755, o espaço da Rua dos Bacalhoeiros era a Rua de Cima da Misericórdia – no percurso da Rua da Padaria à Rua dos Arameiros-  mais a Rua dos Confeiteiros – a qual compreendia o percurso restante até ao Campo das Cebolas. Refira-se que as lojas de confeiteiros eram 7 em 1760 e passados 76 anos,  em 1836, eram já nove.

A Rua de Cima da Misericórdia nasceu no começo de Quinhentos, quando ali se ergueu a Igreja do Recolhimento da Misericórdia. Depois do terramoto, segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, teve muitas designações, a saber: Rua Direita da Ribeira, Rua da Misericórdia da parte de Cima, Rua da Misericórdia de Cima, Rua de Cima da Conceição dos Freires, Rua da Conceição da parte de Cima, Rua da Conceição dos Freires da parte de Cima, Rua Direita dos Freires da parte de Cima, Rua Direita da Conceição dos Freires da parte de Cima e Rua dos Confeiteiros.

A Rua dos Confeiteiros foi identificada sucessivamente como Ribeira, Rua da Porta do Mar, a seiscentista Rua Direita da Ribeira, Rua da Ribeira e, a partir do começo do séc. XIX, como Rua dos Bacalhoeiros, situação que o Governo Civil de Lisboa acabou por formalizar em 1859.

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro

A Rua Áurea no Cartulário Pombalino de 1760
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A pombalina Rua Áurea de 1760, topónimo oficial nascido do  primeiro diploma de toponímia de Lisboa, é pela maioria chamada como Rua do Ouro por ser de pronúncia mais fácil mas também porque outrora existiram ruas do Ouro alfacinhas.

No séc. XV,  os vereadores da cidade de Lisboa proibiram o lançamento de esterco e outras sujidades na rua do Ouro, que era a Betesga, estipulando pena por incumprimento, conforme lavrou o escrivão da Câmara Gomes Eanes de Monte Agraço.

A partir da 2ª metade do século XVI, Lisboa começa a apresentar uma Rua Nova dos Ourives do Ouro, também designada Rua da Ourivesaria do Ouro (em 1577 e em 1700), aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar, talvez situada na área hoje ocupada pelas Ruas de São Nicolau e de São Julião, ou ainda, como Rua dos Ourives do Ouro (por exemplo, em 1577, 1600, 1602, 1619, 1663, 1686, 1688, 1692, 1702, 1704, 1705, 1707, 1719).

Após o Terramoto de 1755 nasceu a nova Rua Áurea, rasgada e integrada no todo simétrico da Baixa Pombalina, em resultado da Portaria de 5 de novembro de 1760, de D. José I, que atribuiu toponímia a todos os novos 14 arruamentos entre a Praça do Rossio (hoje Praça D. Pedro IV) e a Praça do Comércio, bem como regulamentou a distribuição dos vários artesãos e comércios por eles.

No séc. XIX, seguramente a partir de 1849 passou a ser conhecida vulgarmente como Rua do Ouro, tanto mais que em 1906 circulavam postais com o Banco de Portugal e Rua do Ouro na legenda. Aliás, nos postais da primeira década do séc. XX era comum encontrar-se a imagem dos estabelecimentos bancários que a artéria albergava: o Monte Pio dos Empregados Públicos (1840), o Banco de Portugal (na última metade do séc. XIX), o Banco Lisboa & Açores (1907), como mais tarde, também aconteceu com a Agência Havas (1931).

A Rua Áurea em 2012 –
Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

O Terreiro do Paço antes do Terramoto e a nova Praça do Comércio após

O Terreiro do Paço antes do Paço da Ribeira de D. Manuel I

O Terreiro do Paço desapareceu com o Terramoto de 1 de novembro de 1755 e nesse espaço nasceu a nova Praça do Comércio, construída graças ao finamento dos comerciantes de Lisboa para a reconstrução da Baixa, de tal forma que se justificou que fossem homenageados como topónimo dessa Praça central da Baixa toda construída de novo.

Todavia, a Praça do Comércio deve ser o topónimo lisboeta que mais vezes vê o seu topónimo oficial trocado por um topónimo tradicional – Terreiro do Paço -, mesmo que já estejam passados mais de 250 anos sobre a sua atribuição feita pelo 1º decreto de toponímia de Lisboa, assinado por D. José I, com a data de 5 de novembro de 1760, materializando a homenagem aos comerciantes de Lisboa que voluntariamente cederam 4% sobre os direitos alfandegários de todas as mercadorias para a reconstrução da cidade.

Antes do Terramoto é que existiu  o Terreiro do Paço, topónimo feito por referência ao Paço Real da Ribeira, mandado erguer por D. Manuel entre 1500 e 1505, que formava conjunto com a Alfândega, a Casa da Índia, a Casa da Moeda, o Arsenal, e o Teatro da Ópera do Tejo, sendo de notar que apesar de ser no mesmo local onde depois nascerá a geométrica Praça do Comércio, o espaço tinha uma configuração menor e diferente da Praça que lhe sucedeu.

A Praça do Comércio foi traçada por Eugénio dos Santos e Carlos Mardel após o terramoto de 1755,  integrada no plano maior da reconstrução da Baixa lisboeta, numa planta rectangular de disposição geométrica perfeita,  ao género da place royale francesa, envolvida pelas construções de três blocos de edifícios iguais concebidas por Manuel da Maia. Cerca de vinte anos depois do terramoto de 1 de novembro, a 6 de junho de 1775, ficou concluída na Praça do Comércio a estátua equestre de D. José, da autoria de Machado de Castro seguindo um plano de Eugénio dos Santos e para colocar no pedestal de Reinaldo dos Santos, em linha direita com a artéria que homenageia esse monarca: a Rua da Augusta Figura do Rei que no decorrer do tempo acabou por ficar encurtada para Rua Augusta. Quase um século depois, em 1873, foi então colocado o Arco da Rua Augusta, ou Arco Triunfal, do arqº Veríssimo José da Costa, após a arborização da Praça do Comércio em 1866.  O chão foi de terra batida até ao ano de 1900 e todo o conjunto da Praça é Monumento Nacional desde 1910 (Decreto de 16 de junho), tendo Norberto de Araújo já na década de trinta do séc. XX descrito a Praça do Comércio como a «Praça principal de Lisboa, sala de visitas da Cidade».

Projeto para a Praça do Comércio após 1775

 

A Avenida do pintor de «O Fado»

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida José Malhoa perpetua desde 1972 em Lisboa o pintor do quadro O Fado, aumentando o tamanho da artéria que lhe era dedicada na cidade desde 1955, por sugestão do Museu José Malhoa, das Caldas da Rainha.

José Malhoa começou por estar consagrado em Lisboa numa Rua de Alvalade, no ano do seu centenário de nascimento. O Edital municipal de 20 de outubro de 1955 identificou as ruas do Bairro de Alvalade com topónimos de figuras ligadas à cultura e às artes e assim, a Rua 55 A do Sítio de Alvalade passou a denominar-se Rua José Malhoa. Mas passados 17 anos,  esta artéria passou a ser a Rua General Pimenta de Castro, pelo Edital municipal de 8 de janeiro de 1972, que também transferiu o nome de José Malhoa para um arruamento maior, no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian até Sete Rios, ganhando a categoria de Avenida.

Este topónimo havia sido sugerido à Comissão Consultiva Municipal de Toponímia pelo então denominado Museu Provincial de José Malhoa – o único museu criado de raiz pelo Estado Novo – , em 1954, já que no ano seguinte seria o de centenário do nascimento do artista caldense. Mais tarde,  na sua reunião de 23 de dezembro de 1970 a Comissão deparou-se com um despacho do Presidente da CML «solicitando parecer sobre a transferência do topónimo que consagrou o nome de José Malhoa, para um arruamento de maior categoria» e quase um ano depois, na reunião de 20 de outubro de 1971,  outro despacho do Presidente da CML pedia «parecer sobre a denominação do arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão», tendo então a Comissão considerado «que a considerável extensão do arruamento, sua localização e importância bem justificam o nome de uma grande individualidade; Considerando ainda que o nome de José Malhoa identifica hoje um pequeno arruamento; A Comissão é de parecer que o arruamento em construção no prolongamento da Rua Ramalho Ortigão, desde o viaduto sobre a Avenida Calouste Gulbenkian, até Sete Rios, se denomine Rua José Malhoa/Pintor/1855 – 1933».

Branco e Negro, 21 junho de 1896

José Vital Branco Malhoa (Caldas da Rainha/28.04.1855 – 26.10.1933/Figueiró dos Vinhos) liga-se ao Fado por em 1909 (1ª versão) e em 1910 (versão final) ter pintado o quadro O Fado, um óleo sobre tela (150  × 183 ) hoje no Museu de Lisboa, que se tornou uma imagem icónica desse estilo de música, a ponto de ser recriada em filmes e mesmo se inicialmente foi mal recebida em Portugal, por causa da sua temática considerada marginal e assim, o quadro foi exposto pela primeira vez em Buenos Aires, em 1910, na Exposição Internacional de Arte do Centenário da República da Argentina, com o título Bajo el Encanto, onde conseguiu a Medalha de Ouro e só foi exposto em Lisboa em 1917. A característica  pintura de costumes de Malhoa produziu outras obras emblemáticas como As Cócegas (1904), Os Bêbados (1907) ou Outono (1918).

Apesar de diplomado pela Academia Real de Belas Artes, onde foi discípulo de Vítor Bastos, Tomás da Anunciação e Miguel Lupi, até ao  sucesso de A Seara Invadida exposta em Madrid, em 1881, lhe renovar as esperanças de carreira, José Malhoa dedicou-se ao comércio para seu sustento. Foi assim que depois aderiu ao naturalista Grupo do Leão. Em Lisboa, pintou os tetos da sala de concerto do Conservatório Real de Lisboa, do Supremo Tribunal de Justiça e do Gabinete Real da Escola Médica de Lisboa, bem como os medalhões do teto dos Paços do Concelho de Lisboa (1889). No concurso que a Câmara Municipal de Lisboa abriu em 1887 para um quadro representando A partida de Vasco da Gama para a Índia, o seu esboceto recebeu a primeira classificação entre os concorrentes, sendo nessa ocasião Malhoa agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem de Cristo (1888). Malhoa pintou ainda composições históricas de pendor decorativo para o Palácio da Ajuda (1890), Assembleia Constituinte (1891) e  Museu Militar (1907). Foi Presidente da Sociedade Nacional das Belas Artes em 1918. A sua obra está representada nos lisboetas Museu de Lisboa – Palácio Pimenta e Museu de Arte Contemporânea – Museu do Chiado,  bem como no Museu José Malhoa das Caldas da Rainha.

Refira-se que José Malhoa mandou construir  a sua casa em Lisboa sob traçado do Arqº. Norte Júnior, que foi Prémio Valmor 1905 e hoje conhecemos como Casa-Museu Doutor Anastácio Gonçalves, já que este proprietário posterior a legou ao Estado. A decoração a fresco das fachadas foi executada por Mário Eloy, segundo modelos do próprio Malhoa e de António Ramalho e as esculturas foram obra de Costa Mota. Pertenceu, mais tarde, a Anastácio Gonçalves que a legou ao Estado.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Nova dos Mercadores no Parque das Nações

Freguesia do Parque das Nações
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Nova dos Mercadores na Freguesia do Parque das Nações,  herdada por Lisboa da Expo 98, evoca a importância do comércio e dos mercadores nos Descobrimentos Portugueses e repete um topónimo lisboeta de finais do séc. XIII.

Com a realização da Expo 98, subordinada ao tema Os oceanos: um património para o futuro, foram nomeados os arruamentos do evento com topónimos ligados aos oceanos, aos Descobrimentos Portugueses, aos aventureiros marítimos da literatura e banda desenhada mundial, a figuras de relevo para Portugal, a escritores portugueses ou obras de sua autoria e ainda alguns ligados à botânica. Com o fim da Exposição e a reconversão da zona em Parque das Nações e a transmissão deste território para o concelho de Lisboa foram oficializados pela edilidade alfacinha 103 topónimos, através do Edital de 16/09/2009, onde estava incluída esta Rua Nova dos Mercadores. Mais tarde, pelo Edital municipal de 06/05/2015, Lisboa oficializou mais 60 topónimos resultantes de ter recebido o território do Parque das Nações Norte.

Esta Rua Nova dos Mercadores, que liga a Rua Finisterra à Rua dos Argonautas, evoca a importância do comércio e dos mercadores nos Descobrimentos Portugueses, os quais aliás tiveram como importante motivação encontrar rotas comerciais alternativas, sobretudo para as especiarias, cujos nomes também serviram para topónimos da Expo 98: a Rua da Pimenta e as Travessas do Açafrão, da Canela, do Gengibre e da Malagueta.

Por outro lado, este topónimo repete a antiga Rua Nova dos Mercadores que foi rasgada em finais do século XIII pelo interior e a par com a extensão da muralha de Lisboa, cumprindo a função tradicional das cidades portuárias portuguesas com ruas que, por trás da frente de praia-porto, catalisavam e orientavam o crescimento urbano.

Freguesia do Parque das Nações
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Travessa do merceeiro da Ajuda e vereador de Belém

Freguesia da Ajuda

Vitorino de Freitas que está perpetuado numa Travessa da Ajuda, por deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, foi o dono de uma mercearia nessa  freguesia e também exerceu funções como vereador da Câmara Municipal de Belém no século XIX.

Belém existiu como concelho na segunda metade do séc. XIX, de 11 de setembro de 1852 a 18 de julho de 1885, tendo depois o seu território sido integrado no concelho de Lisboa e consequentemente, a sua toponímia. A edilidade belenense era composta pelas freguesias de São Pedro de Alcântara, Nossa Senhora do Amparo de Benfica, São Lourenço de Carnide,  Santa Isabel, São Sebastião da Pedreira e Menino Jesus de Odivelas, tendo esta última sido a única a não passar passar para o concelho de Lisboa mas antes para o de Loures. A Câmara Municipal de Belém teve Alexandre Herculano como o seu primeiro presidente, sucedendo assim à freguesia de Santa Maria de Belém, criada em 1833, que por seu turno tinha substituído o Bairro Administrativo de Belém, instituído em 1813.

Todavia, a Travessa de Vitorino de Freitas, que liga a Calçada da Ajuda à Rua da Bica do Marquês, resultou já de uma deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, tendo sido o necessário Edital publicado em 4 de maio de 1901, para substituir o anterior topónimo de Travessa da Ilha das Cobras. A primeira deliberação camarária da Câmara Municipal de Lisboa, emitida em 1899 foi retificada depois duas vezes, em 19 de julho de 1900 e em 2 de maio de 1901, após o que saiu o Edital e assim, a Planta Topográfica de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Correia de Sá já a inclui.

O pouco que hoje se sabe de Vitorino de Freitas resume-se a ter sido o proprietário de uma mercearia na Ajuda e ter exercido funções de vereador da Câmara Municipal de Belém antes de 1862, se considerarmos que no Largo da Luz, em Carnide, se encontra uma inscrição em pedra onde se pode ler, em maiúsculas, «Praça de Nossa Senhora da Luz mandada edificar pela Camara Municipal de Belém. sendo Presidente João António de Souza e Vereadores Manuel José Gonçalves. Pedro Augusto Franco. D. Sebastião da Silva Pessanha. Faustino José de Freitas. José António Capucho. Francisco Evangelista Pacheco. 1862». Talvez tenha sido o Vitorino José de Freitas (ou familiar) de quem encontramos no arquivo Municipal de Lisboa uma escritura de venda de terreno firmada em 11 de julho de 1901 para construção de jazigo no 3º Cemitério, que era o da Ajuda.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)