Alterações de topónimos tradicionais rejeitadas: Largo do Pote de Água, Largo da Graça e Praça do Comércio

O Largo do Pote de Água – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Largo do Pote de Água, em Alvalade, a Praça do Comércio em Santa Maria Maior e o Largo da Graça, na freguesia de São Vicente, são topónimos que foram alvo de pedidos de alteração pós-25 de Abril mas que por serem topónimos tradicionais mereceram parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Na reunião de 20 de dezembro de 1974 foi analisada uma carta de Maria Augusta Barbosa, solicitando a alteração do topónimo Largo do Pote de Água. Mais tarde, na de 22 de julho de 1975 foi a vez da carta de Francisco Cota sugerir que a Praça do Comércio passasse a Praça do Povo. Em ambos os casos, por serem alterações de topónimos tradicionais, mereceram o parecer negativo da Comissão Municipal de Toponímia pelo que nunca foi redigida proposta para ser levada a sessão de câmara que caso aprovada expediria um Edital formalizando o nascimento de um novo topónimo.

O sítio do Pote de Água, deu o seu nome à Quinta do Pote de Água, que foi destruída pelo terramoto de 1755 e também daí advieram os topónimos Largo e Travessa do Pote de Água que ainda hoje encontramos. O Largo ficou fixado na memória da cidade pelos seus moradores e o Edital municipal de 21 de dezembro de 1960 colocou-o na Rua 1 à Avenida do Brasil.  Quase nove anos depois, pelo Edital municipal de 23/05/1969, juntou-se a Travessa do Pote de Água, a partir de um pedido do serviço municipal de Escrivania para atribuição de topónimo ao arruamento que ligava a Avenida do Brasil com o Largo do Pote de Água e o Largo João Vaz. A localização da Quinta do Pote de Água, aparece nas memórias paroquiais publicadas em Lisboa na 2ª metade do século XVIII (plantas e descrições pelas freguesias), na Freguesia de Santo André, da seguinte forma: «pela Estrada da Charneca athé a Quinta do Pote de Agoa inclusive, q hoje he de Joseph Antonio Ferreira» e, esclarece mais adiante que a Quinta «foi dos Padres Jezuitas.»

O Largo da Graça – Freguesia de São Vicente                                                  (Foto: Ana Luísa Alvim)

O pedido de alteração do Largo da Graça chegou à reunião da Comissão de 15 de junho de 1976, numa carta do Grupo Escolar Republicano Almirante Reis que avançava com  o nome de Alfredo Pedro Guisado para a substituição, e que mereceu um desfecho semelhante aos anteriores, porque embora «reconhecendo a justiça de ser consagrada na toponímia citadina a figura do doutor Alfredo Guisado, notável republicano e homem de letras, a Comissão emite parecer desfavorável por entender que o topónimo existente é tradicional e não deve, por isso, ser alterado. Na devida oportunidade, e logo que se consiga arruamento condigno, será prestada homenagem a essa individualidade.» O Largo da Graça foi um espaço definido como tal após 1700, cujo nome deriva do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, começado a construir em 1271 naquele local, então conhecido por Almofala, pequeno arrabalde mourisco extramuros onde as tropas de D. Afonso Henriques acamparam durante o cerco de Lisboa. A Almofala mourisca tornou-se no Bairro da Graça, topónimo repetido no Largo, na Calçada, no Caracol, na Rua,  e demais topónimos que a ecoam na Rua da Bela Vista, na Rua e na Travessa do Arco, na Rua do Cardal, na Rua do Sol, na Travessa de Santo António e na Travessa do Olival. Por seu lado,  Alfredo Guisado chegou à toponímia lisboeta em 1977,  através do Edital de 10 de outubro que o colocou numa Rua de São Domingos de Benfica.

Outras sugestões de topónimos ou pedidos de alterações foram rejeitados pela Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa neste período histórico por colidirem com os princípios pelos quais se o órgão consultivo se regia.

A sugestão de Margarida Stella Bulhão Pato Maia Rebelo,  para a atribuição do nome de José Afonso a uma artéria, apreciada na reunião de  20 de dezembro de 1974, foi recusada por contrariar a regra de atribuição de topónimos apenas a falecidos. Recusa análoga teve nessa mesma reunião uma carta anónima que sugeria a restituição do nome de Alferes Malheiro à Avenida do Brasil, pelos óbvios inconvenientes que acarretaria aos residentes das duas artérias assim fixadas desde há 40 anos. No entanto, o jornal A Capital de 10 de fevereiro de 1975 insistiu na proposta, pelo que a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, reunida quatro dias depois, deu parecer para o assunto ser arquivado.

Por último, na reunião de 14 de fevereiro de 1975, analisou-se o pedido de substituição do topónimo Avenida Casal Ribeiro, remetido por  Miguel Araújo Rato Fernandes, que foi rejeitado, com o parecer de que «esta Comissão entende que não é de alterar o referido topónimo, visto a figura homenageada não ser o “Casal Ribeiro” deputado à Assembleia, mas sim o primeiro conde de Casal Ribeiro – José Maria Caldeira do Casal Ribeiro.»

A Praça do Comércio em 25 de Abril de 1974
(Foto: Fernando Baião, «O Século Ilustrado», 28.04.1974)

 

O Largo do Governador da Guiné do séc. XIX, Honório Barreto, em Lisboa desde 1964

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

Na Guiné, a Guerra Colonial foi iniciada a 23 de janeiro de 1963, com o ataque do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) ao quartel de Tite e no ano seguinte, o Edital de 23 de julho de 1964, atribuiu o Largo Honório Barreto na Freguesia do Beato, por via de uma sugestão da Sociedade de Geografia de Lisboa feita cerca de 11 anos antes, em homenagem  a um Governador da Guiné do séc. XIX, que era natural daquele território.

Em 22 de janeiro de 1953, Luís Nunes da Ponte proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa intitulada «Honório Pereira Barreto, heróico governador negro da Guiné» e na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 12 de outubro desse ano, foi  analisado o pedido da Sociedade de Geografia de Lisboa, no qual solicitava que « o nome de Honório Barreto – heróico governador negro da Guiné – e, bem assim, os nomes de Caldas Xavier e Artur de Paiva, sejam atribuídos a artérias da capital» tendo então avançado « que o nome de Honório Barreto denomine a primeira transversal do Parque Eduardo VII, que liga a Avenida António Augusto de Aguiar à Avenida Sidónio Pais». Contudo, o Edital de 28/05/1956 atribuiu a essa mesma artéria a denominação de Rua Eugénio dos Santos que ainda hoje vigora. Assim, só pelo Edital de 23/07/1964 foi fixado o nome de Honório Barreto na toponímia de Lisboa, desta feita na freguesia do Beato, no cruzamento da Rua João do Nascimento Costa com a Calçada da Picheleira.

10-honorio-barretoHonório Pereira Barreto (Guiné – Cacheu/24.04.1813 – 16 ou 24 ou 26.04.1859/Bissau – Guiné), estudou em Portugal até ao falecimento de seu pai, em 1829, e foi um militar que chegou ao posto de tenente-coronel e a Governador da Guiné.

Era filho do caboverdiano, João Pereira Barreto Jr. –  Sargento-Mor e maior comerciante de Cacheu – e da guineense, Rosa de Carvalho Alvarenga,  conhecida por Dona Rosa de Cacheu ou Nha Rosa, uma reconhecida autoridade local. Aliás, Honório Barreto geriu com a sua mãe o negócio de família em Cacheu, onde os principais produtos dos seus negócios mercantis eram escravos obtidos dos Soninké/Mandinga e dos Bijagó.

Este Governador da Guiné manteve o controlo português da área e ainda estendeu territorialmente a sua influência. Desempenhou as funções de Provedor de Cacheu (1834) Capitão-Mor de Cacheu por três vezes (1834 – 1835, 1846 a 1848 e 1852), Governador da Praça de Cacheu (1852 -1854), e Capitão-Mor de Bissau por cinco vezes (1837 –  1839, 1840 – 1841, 1853 – 1854, 1855 – 1858 e de 1858 até à sua morte).

Conseguiu através de luta armada, mas também comprando terrenos, que Bolama e Casamansa não ficassem na posse dos ingleses e reconstruiu Bolama após os incêndios dos britânicos (1839). Em 1843 publicou a sua Memória sobre o Estado Actual da Senegâmbia Portuguesa, Causa da sua Decadência e Meios de a Fazer Prosperar. Também acabou com a sublevação dos Papéis de Bissau (1853) e as investidas dos Nagos (1856) enquanto cedia graciosamente à coroa portuguesa um território seu, na região dos Felupes de Varela (1857).

Honório Barreto foi galardoado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo e com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, assim como teve a sua efígie em notas da Guiné de 1.000$00 (30 de abril de 1964) e 500$00 (27 de julho de 1971), bem como em selos e ainda deu o seu nome a uma corveta de guerra da Marinha Portuguesa em 1971.

Freguesia do Beato (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Luís Filipe da Mata

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Paladino da Liberdade e da Instrução Popular/Século XIX» foi Luís Filipe da Mata inscrito na toponímia do Bairro da Bélgica, por deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e Edital de 6 de agosto do ano seguinte, na  Rua Particular Neves Piedade ao Bairro da Bélgica, antes também conhecida apenas por Rua Neves Piedade.

De acordo com documentação do Arquivo Municipal de Lisboa esta rua foi traçada em 1912 por José da Silva Moura, prevendo-se uma largura de 15 metros e corrend0 da Estrada das Laranjeiras até à Estrada de Palma de Cima, no Rego, junto aos apeadeiros dos Caminhos de Ferro. Também outro vereador da primeira gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa, Tomás Cabreira, deu nome a uma artéria do Bairro da Bélgica, por via da publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

 

Luís Filipe da Mata sentado no centro (Foto: Bernardino Machado, de Miguel Sá-Marques)

Luís Filipe da Mata ao centro, sentado
(Foto: gentil cedência do blogue Bernardino Machado)

O homenageado na Rua Filipe da Mata é Luís Filipe da Matta (Lisboa/15.08.1853 – 25.10.1924/Lisboa),  um comerciante, funcionário público e promotor da educação laica que foi também Vereador da primeira gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa, de 1 de novembro de 1908 a 29 de janeiro de 1913, quando era Anselmo Braamcamp Freire Vice-Presidente e depois Presidente da edilidade. Coube-lhe ainda ser o promotor do primeiro Congresso Municipalista de Lisboa, que se realizou nos Paços do Concelho, entre 16 e 21 de abril de 1909, contando com a presença de 158 câmaras municipais.

Filipe da Mata defendeu e promoveu o ensino laico, apoiando a criação de várias escolas primárias públicas, nomeadamente, integrando o grupo fundador da Escola-Oficina nº 1 (1905), no Largo da Graça, onde se aplicaram  novas metodologias pedagógicas inspiradas  no Movimento da Escola Livre e na Escola Moderna de Francisco Ferrer; colaborando no desenvolvimento do Asilo de São João e  sendo vice-presidente do Vintém das Escolas.

Também enquanto comerciante envolveu-se no associativismo como membro da direção das Associações Comercial de Lisboa e Comercial dos Lojistas de Lisboa, bem como da comissão instaladora da nova Associação dos Lojistas em 1907,  para além de ter integrado a comissão de reforma das alfândegas e a comissão revisora das pautas aduaneiras. Foi ainda  vice-presidente da comissão executiva do monumento ao Marquês de Pombal tendo até na ocasião publicado um livro de sonetos anti-jesuíticos, que intitulou A Canalha (1899), cuja venda revertia para a execução do monumento.

Iniciado no Grande Oriente Lusitano em 1880, na Loja Tolerância de Lisboa, e a partir de 1897 na Loja José Estêvão, Filipe da Mata foi Presidente do Conselho da Ordem em 1895-1899, 1903-1906 e 1916-1917. Ao longo da sua vida também desempenhou cargos no Partido Republicano como representante dos republicanos nos corpos gerentes da Coligação Liberal, na comissão que promoveu a grande manifestação liberal de 2 de julho de 1907, como tesoureiro da Junta Liberal, tesoureiro da Comissão Administrativa do Diretório do Partido Republicano e seu Secretário eleito em diversos Congressos, deputado de 1913 a 1915 e senador ao Congresso da República em 1915-1917. Após a implantação da República, Filipe da Mata  foi  ainda vogal suplente do Conselho Superior de Administração Financeira do Estado (após 20 de abril de 1911), Provedor da Assistência de Lisboa (1913 -1915), presidente da Comissão de Subsistências do Ministério do Fomento (16 de janeiro de 1915 a 12 de fevereiro de 1915) e durante o Sidonismo foi preso.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

Os vinhos do Poço do Bispo na toponímia local

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Praça David Leandro da Silva – Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

O Poço do Bispo guarda memórias vinícolas que passam desde logo pela Praça David Leandro da Silva, a Rua José Domingos Barreiros e a do seu filho (a Rua Acácio Barreiro), todas na Freguesia de Marvila, bem como as vizinhas Calçada e Travessa da Picheleira, nas freguesias de  Marvila e do Beato.

Em 1853 a moléstia das vinhas provocou a decadência das indústrias ligadas à produção de vinho mas a partir da década de 70 do séc. XIX já apareciam sinais de recuperação, notórios no crescimento das tanoarias e armazéns de vinhos no Poço do Bispo, beneficiando agora da inauguração do caminho de ferro em 1856. De 1901 a 1913 apareceram as tanoarias na Rua Capitão Leitão e os armazéns de vinhos de Abel Pereira da Fonseca. Também no Guia de Portugal, de 1924, se pode ler «Do Beato ao Poço do Bispo sucedem-se ininterruptamente os armazéns, tanoarias, depósitos de vinhos, etc. De vez em quando avista-se o rio coalhado de pequenas embarcações.»

A Praça David Leandro da Silva, tem desde logo a Casa José Domingos Barreiros, fundada em 1896, do ramo comercial dos vinhos, por grosso e para exportação, tendo até participado, em 1922 e em 1932,  na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, com mostra de vinhos tinto, branco, claretes e rosés, e na Feira de Amostras de Produtos Portugueses de Angola e Moçambique. Está também instalada nesta Praça a Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca, empresa fundada  em 1906, que deixando os anteriores armazém de vinhos da Rua do Amorim e, ainda antes, os da Rua da Manutenção, ergueu nesta Praça em 1917, a partir do traço do arqtº Norte Júnior, uns novos que até receberam o cognome de catedral do vinho.

A Praça David Leandro da Silva nasceu do Edital municipal de 09/04/1917, na via pública compreendida  entre as Ruas Fernando Palha, Amorim e do Açúcar, a que acrescentou, por Edital de 06/06/1917, as propriedades da Rua do Açúcar com os nºs de polícia 12A,12,13,101,103,105, 63,64 e 65, prestando assim a edilidade homenagem ao  comerciante David Leandro da Silva, que tanto contribuiu para o bem social e engrandecimento comercial e industrial do Poço do Bispo.

Sabemos que David Leandro da Silva casou na Freguesia da Sé com Rosa Maria da Silva em 7 de janeiro de 1871 e que teria falecido antes de 14 de setembro de 1895, já que nessa data a sua viúva solicitou à Câmara a abertura de ruas na sua propriedade, sita a sueste da Rua de Vale Formoso de Baixo. No ano seguinte, por escritura de 16 de março, os herdeiros de Ventura Luís de Macedo e David Leandro da Silva doaram ruas à Câmara, no sítio de Vale Formoso. Acresce que uma planta de 1909 indica as canalizações de esgoto mandadas fazer pela Câmara nas estradas de Vale Formoso e Vale Formoso de Cima e uma outra canalização já antes mandada fazer por David Leandro da Silva.

Freguesia de Marvila - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Já o arruamento vulgarmente designado por Rua Acácio Barreiros, entre a Rua do Açúcar e a zona da jurisdição do Porto de Lisboa, foi oficializado por Edital de 23/04/1980 como Rua Acácio Barreiro, com a legenda «1900 – 1967». Refere-se a Acácio Domingos Barreiro (Lisboa/10.06.1900 – 30.11.1967/Lisboa), licenciado em Direito e filho do conhecido armazenista de vinhos daquela zona oriental da cidade, José Domingos Barreiros, que continuou o negócio da família. Foi também um dos primeiros administradores do Banco Português do Atlântico e benemérito da zona já que em consequência da morte prematura do seu filho, José Bento Domingos Barreiro então um jovem de 24 anos, num violento acidente de viação, decidiu com a sua mulher e filha – Maria Antónia Barreiro – doar à Misericórdia de Lisboa, os edifícios que possuíam junto ao palácio da Mitra, no Poço do Bispo e aí nasceu o Centro de Saúde e Assistência Doutor José Domingos Barreiro.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Nesta incursão pela área vinícola da gastronomia lisboeta acrescem ainda dois topónimos que partilham o seu território entre as Freguesias de Marvila e do Beato, a Calçada da Picheleira e a Travessa da Picheleira, topónimos antigos derivados do sítio da Picheleira, cuja data de fixação se desconhece. Pode-se levantar a hipótese do topónimo Picheleira marcar a existência no local de picheleiros, isto é, fabricantes de pichéis, que eram pequenos vasos, geralmente de estanho, por onde se tirava vinho das pipas ou tonéis, ou se usavam para beber vinho.

E finalmente, mostramos um poema de Carlos Pinhão evocando os vinhos da zona:

Poço do Bispo

Quando o vizinho descobriu/com mágoa/ que era vinho /e não água/o que havia no poço/por secreta ligação/não com o Além/mas com um armazém/da redondeza/rezou um padre-nosso/dessa vez/com certeza/Ou dois/Ou um de três

Freguesia do Beato (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, na artéria onde viveu

Freguesia da Misericórdia (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

Eduardo Coelho, o fundador do Diário de Notícias, foi perpetuado com o seu nome na artéria lisboeta em que viveu, no Bairro Alto de todos os jornais, e participou no Cozinheiro dos Cozinheiros (1870) de Paulo Plantier através do envio da receita de Ovos Verdes à Figueirense.

Foi quando o Conde Ottolini era Presidente da Câmara Municipal de Lisboa que por Edital municipal de 18/12/1893 a Rua dos Cardais de Jesus, onde o jornalista viveu, se passou a denominar Rua Eduardo Coelho, com a legenda «Fundador do Diário de Notícias / 1835 – 1889». Contudo, 32 anos depois, quando era Portugal Durão o Presidente da edilidade alfacinha, também um Edital de 15 de junho de 1925 da Comissão Executiva da Câmara registou que na sessão de 20 de fevereiro desse ano se havia deliberado que a alameda de São Pedro de Alcântara se passasse a denominar-se alameda Eduardo Coelho, tanto mais que era o local onde desde 29 de dezembro de 1904 se encontrava o monumento à memória do jornalista – com busto e estátua de Costa Mota (tio) e pedestal de Álvaro Machado – custeado por subscrição pública promovida pelo Diário de Notícias e porém, o espaço continuou a ser vulgarmente conhecido como Jardim de São Pedro de Alcântara.

Monumento a Eduardo Coelho, inaugurado a 29 de dezembro de 1904 (Foto: Rui Mendes)

Monumento a Eduardo Coelho, inaugurado a 29 de dezembro de 1904
(Foto: Rui Mendes)

José Eduardo Coelho (Coimbra/ 23.04.1835 – 14.05.1889/Lisboa) ficou órfão de pai aos 13 anos e a foi mãe mandou-o para Lisboa, para conseguir emprego, já que sozinha não conseguia sustentar a prole de onze filhos, onde se incluía Adolfo Coelho (também nome de rua na Freguesia da Penha de França, desde a publicação do Edital de 13/05/1949). Na capital, Eduardo Coelho começou por trabalhar no comércio mas depois, a exemplo de seu pai, foi aprender o ofício de tipógrafo e mais tarde, em 1857, até ingressou na Imprensa Nacional.

A partir de 1858, Eduardo Coelho viveu principalmente do jornalismo, escrevendo notícias, editando correspondência dos leitores e matérias de correspondentes da província e ainda como crítico de teatro, em jornais como O Conservador, Gazeta de Portugal e Revolução de Setembro, sendo que neste último foi durante 3 anos o responsável pelo noticiário e que António Rodrigues Sampaio, o diretor do jornal, nem sequer depois da fundação do Diário de Notícias quis exonerar Eduardo Coelho do cargo de noticiarista do jornal, pelo que teve de acumular os dois cargos durante algum tempo. Foi também redator principal e diretor da Crónica dos Teatros (1861) e em 29 de dezembro de 1864, com Quintino Antunes, fundou o Diário de Notícias, tendo também sido o primeiro diretor do jornal, cargo que exerceu até ao seu falecimento. Procurou fazer um jornal segundo o modelo de sucesso surgido noutros países, como o  Petit Journal parisiense, um jornal popular dirigido a todos os públicos, e não apenas às elites, que por isso alargou as notícias do mundo também para a vida social quotidiana, através do relato de crimes, de incêndios, de casos pessoais ou competições desportivas, para além de diminuir o preço do jornal, contrabalançando esse custo com grandes tiragens e captação de publicidade.

Também algum rendimento conseguia como escritor de peças teatrais, romances e folhetins.  Quando ainda trabalhava no comércio lisboeta estreara-se na literatura com a publicação dos versos sarcásticos O Livrinho dos Caixeiros (1852) e continuou essa vocação ao longo da sua vida com obras como Opressão e Liberdade (1862-1871), Amor aos Bofetões (1865) ou Portugal Cativo (1884).

Eduardo Coelho fez ainda assessoria política, nomeadamente como secretário dos políticos José Estêvão e António Feliciano de Castilho e foi um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Para remate de artigo servimos Ovos Verdes à Figueirense, como Eduardo Coelho os fez para Paulo Plantier:

(declaração prévia) – Não me condecoro com a glória de inventar uma receita. declara-o para descanso das cinzas venerandas de Vatel, e tranquilidade de alguns cozinheiros meus amigos, que, aliás, não tinham de que assustar-se com a minha concorrência. cada qual no seu ofício. Homero, segundo a afirmação preciosa de um escritor francês, foi o primeiro que no mundo coligiu os preceitos da arte culinária; Sócrates ensinou os gregos a comer, temperando as comidas como o mais apetitoso dos sais, o sal ático, o sal do espírito com que Platão também adubava as suas ceias; Nereo de Chio soube preparar um congro digno dos deuses; o grande , e imortal Apício, que sucumbiu à pavorosa ideia de poder morrer de fome, tendo as algibeiras recheadas de  de ouro, inventou numerosos pratos e tentadores molhos que legaram o seu nome a esta sua remotíssima posteridade de cozinheiros e comilões. Até Lamprias, o próprio Lamprias, o predecessor feliz do inventor de Nabob, compôs um molho, cujo cheiro chegou até nós. Eu, mísero de mim, sem poder ganhar prestígio destes eleitos da mesa e da cozinha, de quem Desaugiers dizia: “Un cuisiner, quand je dine, /Me semble un être divin./Qui du fond de sa cuisine/Gouverne le genre humain.”

Limito-me a contar como se fazem os Ovos verdes à figueirense, pitéu delicioso, que os leitores saborearão com ditíssima explicação. Mãos ao tacho!

Tome-se uma dúzia de ovos e cozam-se. Depois de cozidos cortem-se ao meio e tirem-se-lhes as gemas, conservando inteiras as metades das claras. Pique-se muito miúdo uma cebola, e uma porção equivalente de salsa, deitando-se-lhe uma ou duas colheres de pão ralado, pimenta e algumas pedras de sal. Aloure-se isto num tacho ou frigideira com manteiga de vaca. Amasse-se depois com as gemas dos ovos e com esta massa encham-se as claras. Descanse-se um momento, já que Deus também descansou ao sétimo dia, e respire-se, não de modo que se sopre e espalhe a farinha de trigo que deve estar já preparada, para se dissolver em gema de ovo, a fim de passar as claras recheadas por essa dissolução, para as pôr a corar na frigideira com manteiga de vaca, deitando-as com a face do recheio para baixo. Tiram-se apenas estiverem coradas, e profira-se o “eureka!”, que estão prontos os ovos verdes. Deitem-se estes então num prato coberto, ou numa travessa, e derrame-se-lhe por cima um molho de vinagre destemperado com água, ligeiramente engrossado ao lume com algumas pitadas de farinha e temperado com uma folha de louro. Enfeite-se o prato com vários raminhos de salsa, e… comam-se.

 

Freguesia da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Luís Pastor de Macedo, olisipógrafo da Comissão de Toponímia e Vice-presidente da CML

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

No ano seguinte ao seu falecimento foi o olisipógrafo e autarca Luís Pastor de Macedo integrado na toponímia de Lisboa, a pedido do próprio Presidente da CML de então, Engº Santos e Castro, através do Edital de 01/02/1972 que o colocou na Rua A do plano de Urbanização dos Terrenos da Tobis Portuguesa (excluindo o troço paralelo à Rua B) e também designada como Rua A à Alameda das Linhas de Torres, com a legenda «Olisipógrafo/1901 – 1971».

Em 1954 (Foto: Claudino Madeira, Arquivo Municipal)

Em 1954
(Foto: Claudino Madeira, Arquivo Municipal)

Luís Pastor de Macedo (Lisboa/23.02.1901 – 13.11.1971/Lisboa), nascido na antiga Freguesia da Madalena,  era comerciante proprietário de uma casa de panos na Rua dos Fanqueiros que foi também um dos fundadores e organizadores do Grupo «Amigos de Lisboa», tendo redigido os seus estatutos e nela desempenhado o cargo de Secretário-Geral. É assim que na 1ª Comissão Consultiva Municipal de Toponímia de Lisboa, e do país, em 1943, Pastor de Macedo é para ela nomeado, em representação do Grupo «Amigos de Lisboa». Introduziu nesta Comissão, juntamente com o Engº Vieira da Silva, o debate sobre as bases segundo as quais a Comissão se orientaria. E quando em 1947 foi substituído por Durval Pires de Lima nesta Comissão de Toponímia, por ter sido nomeado Presidente Substituto da CML, continuou a comparecer várias vezes às reuniões da Comissão, tendo mesmo sugerido vários nomes de ruas, nomeadamente que ao Sítio de Alvalade fossem atribuídos nomes de artistas, bem como, alterações ao estudo de Durval Pires de Lima sobre a Toponímia de Lisboa.

Na sua carreira política foi nomeado vogal da 2.ª Comissão Administrativa da CML em 1932, durante o período da ditadura militar- já que com o golpe militar de 26 de maio de 1926 foram criadas Comissões Administrativas com o objectivo de assegurar a actividade camarária-, quando era Presidente Adriano da Costa Macedo. No ano seguinte, quando Henrique Linhares de Lima foi nomeado presidente da Comissão Administrativa foi novamente escolhido como vogal porque era alguém com «um nome respeitável no comércio de Lisboa, autor de trabalhos muito interessantes sobre arqueologia.» , sendo-lhe atribuído o pelouro das edificações urbanas e exerceu este cargo até 1935, tendo sido responsável pela realização das festas da cidade em junho de 1934 e de 1935. Em 1945,  foi eleito deputado à Assembleia Nacional, mandato a que renunciou em 1947, quando em abril foi nomeado  Presidente Substituto da CML, cargo que como Vice-Presidente exerceu de 1949 até 1959, sendo responsável pela Comemoração do VIII Centenário da Tomada de Lisboa ao Mouros e pela edição municipal de obras de temática olisiponense, tal como fez no Grupo «Amigos de Lisboa». Foi ainda Comissário do Governo junto do Teatro Nacional de D. Maria I de 1943 a 1946.

Finalmente, Luís Pastor de Macedo foi também autor de várias obras sobre Lisboa e a sua história. Além da colaboração regular no boletim Olisipo, do Grupo «Amigos de Lisboa», contam-se entre as suas publicações O Terramoto de 1755 na Freguesia da Madalena (1929), A Igreja de Santa Maria Madalena de Lisboa (1930), A Rua das Pedras Negras (1931),  O Antigo Terreiro do Trigo (1932),  A Baixa Pombalina (1938), A Rua das Canastras (1939), os 5 volumes de Lisboa de Lés-a-Lés (1940-1943) e em colaboração com Gustavo de Matos Sequeira, A Nossa Lisboa (1945), bem como com Norberto de Araújo Casas da Câmara de Lisboa – do Século XII à Actualidade (1951).

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Alexandre Ferreira próxima dos «Inválidos do Comércio»

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Seis anos após o seu falecimento, Alexandre Ferreira ficou perpetuado numa artéria próxima dos Inválidos do Comércio, instituição a que ele presidiu até ao ano do seu falecimento, a partir de propostas do vereadores António Maria Pereira e Eduardo Neves, ficando por  Edital de 28/12/1956 num troço da Estrada do Desvio, entre a Rua do Lumiar e a Estrada que conduz à Ameixoeira, com a legenda «Mutualista/1877 – 1950» acrescentada a partir de uma sugestão da Comissão Municipal de Toponímia de 4 de maio de 1957.

A Associação Inválidos do Comércio foi fundada em 1929, com Estatutos aprovados em 10 de Abril desse ano e Alexandre Ferreira foi o seu Presidente da Direção até falecer, no ano de 1950, para além de ter doado as suas propriedades no Lumiar para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio.

O Diário Ilustrado, 28.06. 1925

O Diário Ilustrado, 28.06. 1925

Alexandre Branco Ferreira (Porto/04.11.1877- 15.03.1950/Lisboa), filho de Caetano Branco Ferreira e Maria da Conceição, e republicano desde que assistiu ao 31 de Janeiro de 1891, foi um comerciante de artigos de fotografia e profissional de seguros que se radicou em Lisboa, na zona do Lumiar, a partir de 1904, e nesta cidade  foi vereador municipal em três executivos, entre 1917 e junho de 1926. Destacou-se no Pelouro da Instrução e da Assistência por ter criado os lactários, as consultas médicas para mães e crianças, bem como o fornecimento de roupa e calçado às famílias carenciadas, para além de ter fundado a Colónia Balnear da Cruz Quebrada e colónias de campo na Quinta de Santo Elói (na Paiã). Foi também o responsável pela transferência do Museu Rafael Bordalo Pinheiro para a administração municipal. Já em 1911 Alexandre Ferreira havia sido o responsável pela criação  da Universidade Livre – que funcionou durante 25 anos-  e e em 1922, no  âmbito da CML, organizou o Congresso Nacional de Educação Popular.

Alexandre Ferreira foi ainda  nomeado Secretário Geral da Comissão Nacional da Comemoração do 4º centenário do nascimento de Camões (1924), eleito deputado na legislatura de 1925 onde esteve até ao 28 de maio de 1926 e presidiu a diversas instituições de instrução, cultura, mutualismo e beneficência, como a Academia de Amadores de Música. Publicou  O Mutualismo na Evolução Social (1926), O Ensino Profissional da Mulher (1930), Necessidade de Orientar em Moldes Novos a Causa da Educação Física (1932) e a partir de 1930 revelou-se também como conferencista divulgador da obra de beneficência dos Inválidos do Comércio e da campanha contra o analfabetismo promovida pelo Diário de Notícias.

Refira-se ainda que Alexandre Ferreira foi pai do escritor José Gomes Ferreira – também presente na toponímia de Lisboa, em Campo de Ourique -, e morou na Rua de São Julião (1904), na Calçada do Monte Agudo nº 52 r/c – esqº (em 1906 e que hoje é a Rua Heliodoro Salgado) e na Rua Maria Andrade nº 3 r/c – esqº (1917 ), para além de ter trabalhado na área de fotografia da Drogaria Peninsular na Rua Augusta nº 39-41 e depois estabelecido a sua loja de fotografia no nº 55 da Rua Nova do Almada.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua dedicada a Sebastião Saraiva Lima da Associação Comercial de Lisboa

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Sebastião Saraiva Lima, comerciante republicano com um papel importante no associativismo dos comerciantes lisboetas ficou perpetuado na Rua particular municipalizada a Manuel Joaquim Saraiva no Bairro do Poço dos Mouros e ao seu prolongamento no Bairro municipalizado a Joaquim Rodrigues Gadanho, pela deliberação da Comissão Executiva da CML de 31/10/1917 «como prova de gratidão pelos serviços prestados por este ilustre republicano», bem como pelo consequente Edital de 12/11/1917 que lhe fixou a legenda «Propagandista dos Princípios Associativos/1857 – 1893».

Sebastião Correia Saraiva Lima (Águeda-Mourisca do Vouga/28.12.1857 – 11.06.1893/Lisboa) era um comerciante republicano que foi  Presidente da Associação Comercial de Lisboa em 1888, para além de outros cargos dirigentes que nela exerceu noutros anos. A Associação Comercial de Lojistas de Lisboa foi fundada em 1 de janeiro de 1870 e mudou de nome algumas vezes depois: União de Grémios de Lojistas de Lisboa (1940), União das Associações de Comerciantes do Distrito de Lisboa (1975) e União de Associações do Comércio e Serviços (2001). Em 1890, Saraiva Lima foi um dos principais impulsionadores do boicote aos produtos britânicos com que o comércio de Lisboa participou no movimento nacional de protesto contra o Ultimato Inglês. Já o Diário Ilustrado de 31 de dezembro de 1897 noticiou uma sessão solene para inauguração do seu retrato na Associação de Lojistas de Lisboa na qual uma carta de Manuel Gomes Duarte sugeria que se pedisse à CML a atribuição do seu nome ao Largo da Abegoaria (Largo Rafael Bordalo Pinheiro desde 11/02/1915).

Saraiva Lima assumiu também por duas vezes as funções de vereador na Câmara Municipal de Lisboa. A primeira foi em 1890, graças aos votos do Partido Republicano Português no qual militava e também aos votos de inúmeros comerciantes que o admiravam e assim ficou na companhia dos vereadores republicanos Teófilo Braga e Elias Garcia. Esta vereação foi dissolvida mas após várias Comissões Administrativas, Sebastião Saraiva Lima foi novamente eleito para 1892 e 1893, junto com Leão de Oliveira, outro republicano.

 

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua António Albino Machado da Cooperativa de Habitação e do SAAL

Freguesias de Alvalade e, São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Alvalade e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua António Albino Machado nasceu do pedido dos moradores do Bairro das Fonsecas/Calçada com o intuito de homenagear aquele que foi o fundador e 1º Presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril (C.H.E. 25 de Abril). A autarquia lisboeta concordou e pelo Edital de 03/08/1984 fixou o topónimo na artéria identificada como Rua 6 do Novo Bairro das Fonsecas (ou Fonsecas/Calçada).

O Bairro das Fonsecas/Calçada foi construído como resultado do empenho das Cooperativas de Habitação 25 de Abril (Bairro das Fonsecas) e Unidade do Povo (Quinta da Calçada) e o SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local). No bairro das Fonsecas foram construídos três blocos – A, B e C – com 82, 156 e 97 fogos.

Rua António Albino Machado face

António Albino Machado (S. Cipriano/1915 – 08.03.1984) foi o 1º Presidente da C.H.E. 25 de Abril e esteve na vanguarda da luta dos bairros pobres da cidade de Lisboa por melhor habitação.

António Albino Machado foi um homem dos sete instrumentos tendo sido pastor (dos 9 aos 13 anos), pintor e tropa (dos 15 aos 21) , até ter sido preso por causa da revolta anti-militarista. Nessa sua 1ª vez na prisão começou a escrever poesia e conheceu revolucionários. Em 1936 foi detido pela PIDE, em Bragança, acusado de ser comunista, o que lhe viria a acontecer mais 8 vezes. Depois, entre 1940 e 1960 trabalhou como pescador, caçador profissional, vendedor ambulante, bem como na extracção do minério e colaborou empenhadamente nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Chegou a Lisboa em 1960 e foi trabalhar como telefonista nos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, passando depois a vendedor ambulante e a escrever e vender versos alusivos a acontecimentos que tocavam de perto o povo.  E a 11 de maio de 1974 a população do Bairro das Fonsecas, um bairro de barracas clandestino, onde não havia água canalizada, eletricidade nem esgotos e cuja população era originária do norte do país, elegeu em plenário uma comissão de moradores onde António Albino Machado se incluía. Esta comissão de moradores fez a primeira manifestação a pé até Belém reivindicando uma habitação condigna e participou na 1ª Assembleia Popular formada na região de Lisboa, a Assembleia Popular da Pontinha, assim como colaborou para a formação da Intercomissão dos bairros de lata e bairros pobres da cidade.

António Albino Machado dedicou toda a sua vida, segundo as suas próprias palavras, à «construção da sociedade justa, que todos – operários, povo trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros e todos os outros explorados – temos que construir.» Num dos seus poemas reivindica o direito à habitação e à dignidade: «Mas a Luta continua, quer eles queiram, quer não; o trabalhador tem direito à sua habitação.»

Freguesias de Alvalade e de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Alvalade e de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)