A Rua Luís Piçarra e Costah no Alto do Lumiar

No Alto do Lumiar, o MURO’19- Festival de Arte Urbana de Lisboa que ligou a arte mural  à música presente na toponímia da zona foi também o ponto de encontro do cantor Luís Piçarra que é ali nome de rua e do portuense Costah, com a sua intervenção artística Há Sempre Música Entre Nós, próximo de uma grande superfície comercial da Avenida David Mourão-Ferreira.

Natural do Porto, Nuno Costah realizou os seus primeiros murais ainda na década de noventa, cerca de 1997. Em 2003, iniciou-se na técnica das colagens e stencil’s na sua cidade natal e quatro anos depois, em 2007, começou a assinar como Costah, ano em que também se passou a dedicar à tatuagem. Costah criou um novo estilo,  ilustrativo e versátil, que tanto usa na arte mural como em outros suportes, do papel à tela e até à pele.

Das suas diversas participações em exposições e festivais destaquem-se na Rua das Flores na EDP/Porto Lazer, GoodVibes do Porto, Inky Street Art Gallery do Porto, Maia Performance, A Mimosa da Lapa em Lisboa, Smed da Trofa, a Street art AXA, Traços Urbanos na Póvoa de Varzim, ou na Calçada da Glória da Galeria de Arte Urbana- GAU.

O cantor Luís Piçarra, ainda hoje reconhecido por dar a sua voz ao Hino do Sport Lisboa e Benfica, tem desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 o seu nome gravado nas placas toponímicas do Lumiar, por sugestão da Casa do Artista. Este arruamento liga a Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva e significativamente foi inaugurado no Dia Mundial da Música de 2004, junto com mais 6 arruamentos próximos, com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Arminda Correia, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques –, que em conjunto com a Alameda da Música permitiu criar um Bairro da Música no Alto do Lumiar através da toponímia.

luis-picarra

Luís Raul Janeiro Caeiro de Aguilar Barbosa Piçarra Valdeterazzo y Ribadenayra (Moura/23.06.1917 – 22.09.1999/Lisboa)  deixou gravadas 999 canções, tendo ele próprio escrito dezenas delas e a sua voz é reconhecida por todos na interpretação do segundo e atual hino do Sport Lisboa e Benfica –  intitulado Ser Benfiquista-, para além de ter sido ele o criador da famosa Granada, que lhe foi oferecida pelo compositor mexicano Agustin Lara.

Filho do produtor de vinho Luís da Costa de Aguilar Barbosa Piçarra e de Luísa Maria Caeiro, frequentou os dois primeiros anos de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa mas interrompeu o curso em 1937 para se dedicar a uma carreira musical. Estudou  canto com Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim e estreou-se na ópera O Barbeiro de Sevilha levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa. A partir daqui  fez uma carreira de sucesso, cantando pelo mundo inteiro, com espetáculos no Brasil, Argentina, México, Egito, Chipre, Líbano, Síria, Grécia, Turquia, Itália ou Paris. Refira-se especialmente que foi cantor privativo no palácio do rei Faruk (1947/48), parceiro de Edith Piaf numa série de programas do show This is Europe organizado pela ECA (agência encarregada de aplicar o Plano Marshall), tenor da Orquestra de Paul Durand e membro da digressão ao Brasil de A Rosa Cantadeira, com Amália Rodrigues. Na rádio e televisão francesas ficou conhecido como Lou Pizarra e aí estreou nos anos 50 do séc. XX temas como Avril au PortugalGranada ou Luna Lunera. Na década seguinte também gravou programas para diversas televisões incluindo a NBC norte–americana.

Em Portugal, Luís Piçarra distinguiu-se  como tenor oficial da Emissora Nacional, bem como interpretando ópera, opereta e teatro de revista. No cinema, também cantou pela primeira vez O Meu Alentejo no filme Pão Nosso (1940)  de Armando Miranda. Depois da morte da sua primeira esposa em 1968, Luís Piçarra escolheu viver em Angola até 1975, onde foi diretor do Centro de Preparação de Artistas da Rádio e professor de canto teatral na Academia de Música. Após o regresso a Portugal, publicou  em edição de autor Luís Piçarra instantâneos da minha vida (1987) e em 1996 foi lançada uma compilação de temas seus com GranadaAvril Au PortugalCanção do RibatejoCaminho ErradoAnda CáAninhasBatalhaGuitarra da MourariaMorena da RaiaSanta Maria dos MaresSer Benfiquista e  O Meu Alentejo.

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A cantora Maria Albertina e a pantomima gráfica de Pantónio no 3ª Festival de Arte Urbana de Lisboa

Pantónio no MURO’19
(Foto : © CML | DMC | DPC | José Vicente, 2019)

Unidos pelo movimento, o 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa, a decorrer desde ontem no Lumiar, integra as presenças da cantora e atriz de revista Maria Albertina, por ser nome de rua local, e Pantónio, o artista do movimento de pantomima gráfica, por executar uma intervenção mural com uma espécie de andorinhas fantásticas nas proximidades da Rua Maria Alice.

Pantónio é o nome artístico de António Correia, natural da Terceira nos Açores, nascido em 1975, que após um percurso bem sucedido em Marketing e Publicidade, decidiu dedicar-se ao que lhe dá mais prazer:  intervir em espaços públicos pela arte, com uma paleta de cores restrita – sobretudo preto, branco e  azul –  e inspirada nas cores da sua ilha natal ( o azul do mar, o branco das nuvens e o preto das rochas vulcânicas), de que resulta uma pantomima gráfica de emoções, uma intensa ideia de constante movimento presente em cada uma das suas obras visuais. As suas obras caracterizam-se por um fluxo de linhas fluídas sugerindo uma grande liberdade de movimentos, semelhantes aos seus gestos quando as pinta a pincel e trincha como se fora um lápis o que usa na mão.

Pantónio já trabalhou em Lisboa, Amadora, Fundão e internacionalmente, nas cidades de Paris,  Averdon, Nantes, Bayonne, Grenoble, Marselha  (todas em França), Pescara (Itália) e Berlim.

Maria Albertina em 1936, por Amarelhe

Maria Albertina, voz do vira e do fado de Lisboa, bem como do elenco de operetas e revistas alfacinhas, ficou como topónimo de uma rua do Bairro da Cruz Vermelha por solicitação do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, cerca de três meses após o seu falecimento, através do Edital municipal de 25 de junho de 1985, com a legenda «Cantadeira/1909 – 1985».

Maria Albertina Soares de Paiva (Ovar/05.01.1909- 27.03.1985/Lisboa), conhecida pelo nome artístico de Maria Albertina, viveu grande parte da sua vida na capital, onde se estreou em 16 de julho de 1931, no Teatro Maria Vitória, na opereta História do Fado, ao lado de Berta Cardoso. Nos anos trinta conquistou inúmeros prémios como o Guitarra de Ouro (julho de 1932), o prémio Capacete de Ouro (setembro de 1932), venceu o concurso Qual a mais famosa artista do teatro português? (1936) e ganhou o  título de Melhor Cantadeira num concurso da Rádio Luso. Em 1934,  na revista Vista Alegre, com Carlos Ramos fez o célebre quadro «O Fado de Malhoa», a que se seguiram em 1935 os sucessos de Viva a folia!, Bola de neve, O Rapa, Sardinha assada e no ano seguinte, À vara larga, Feira de Agosto, a opereta Coração de Alfama, Há festa na Mouraria, Maria Rita e Água vai em 1937. Em 1941 Maria Albertina entrou na Grande Marcha de Lisboa e a partir da década 60, e durante mais de 20 anos, cantou n’ O Faia, na Rua da Barroca nºs 54-56, no Bairro Alto.

Cantou ainda no Retiro da Severa no Luna Parque, nos teatros Ginásio e Maria Vitória, no Grémio Alentejano e no Maxim’s, no Solar da Alegria e no Salão de Chá do Café Chave d’Ouro, em esperas de touros em Vila Franca de Xira, e também em casas particulares como a da Duquesa de Palmela, do banqueiro Ricardo Espírito Santo e nos palácios do Conde da Torre e de Fontalva, para além de ter participado em digressões pelo Brasil, Argentina, Espanha, E.U.A, Canadá e Paris.

Os seus maiores sucessos musicais foram Voz do Povo,  Meu Filho e Bailarico Saloio e sobretudo, o vira Tricanas de Ovar (1936) de Lopes Costa) criado para o teatro de revista e que em 1966 o locutor Jorge Alves exibiu no programa da RTP Melodias de Sempre. Em 1998, foi editado em CD uma compilação de 16 faixas das suas músicas.

Participou ainda no cinema em A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo, cantando o fado mouraria Fado dos beijos quentes; em Bocage (1936) para cantar Bailarico Saloio e ainda integrou o elenco de Vendaval Maravilhoso (1949), ambos filmes de Leitão de Barros.

Em nota final, refira-se que Maria Albertina foi mãe do apresentador de rádio e televisão Cândido Mota.

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A Rua Maria José da Guia, Tamara Alves e Ozearv no MURO’19

A 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, na proximidade da Rua Maria José da Guia, junta Tamara Alves e Ozearv numa intervenção artística conjunta no muro do estacionamento, ligando assim a arte urbana à música presente na toponímia local. Tamara Alves & Ozearv realizarão também um workshop no local.

Tamara Alves, nascida em 1983 é uma artista multifacetada que se exprime da pintura à  ilustração, das tatuagens à arte mural urbana, com o denominador comum de uma visão erótica de um corpo contemporâneo com limites expandidos: sem órgãos, uma paixão bruta, um devir animal. Desde o ano 2000 que participa em diversos projetos, exposições individuais e coletivas, afirmando-se como uma das mulheres mais conhecidas da arte urbana.

José Carvalho, nascido em 1980, é o nome civil do artista Ozearv, licenciado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Desde 1996 que tem integrado diversos projetos individuais e coletivos, políticos e humanitários, como membro da primeira geração de artistas de arte urbana portugueses. O seu trabalho para a arte mural procura o espaço, o movimento e a cor das cidades e os seus contrastes, através de técnicas que vão do aerosol ao stencil, da ilustração à fotografia, para «preencher o branco que existe no dia-a-dia de cada um de nós». Já em 2017, na 2ª edição do MURO, integrou o «Incursões pela Arte» em que pintou com os alunos da Escola Básica de Marvila.

A Rua Maria José da Guia,  que liga a Rua Pedro Queirós Pereira à Rua Maria Carlota, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Maria José da Guia

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou o nome artístico de Maria José da Guia, ficou famosa no Fado na década de quarenta do século XX. Aos quatros anos foi morar para Alfama e aí começou a cantar, tendo  até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentava-se num corpo vestido de negro e xaile traçado.

Maria José da Guia cantou em várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, tendo integrado os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado. Celebrizou fados como Lisboa Antiga – com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Gustavo de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Bairro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles) ou o fado Severa ou a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão).

No Fado, Maria José da Guia foi madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter cantado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos. Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

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Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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Ferrer Trindade e a Orquestra de Câmara Portuguesa no MURO’19

Ferrer Trindade, compositor da Canção do Mar e maestro da sua Orquestra Ritmo, tal como a Orquestra de Câmara Portuguesa, criada em 2007, são presenças no MURO’19 que nesta 3ª edição liga a Arte Urbana à criação sonora, a espetáculos musicais, à toponímia musical dos Bairros da Música e  da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar.

Fundada por Pedro Carneiro, Teresa Simas, José Augusto Carneiro e Alexandre Dias em julho de 2007 a Orquestra de Câmara Portuguesa teve a sua estreia na abertura da temporada do CCB- Centro Cultural de Belém, no dia 13 de setembro desse mesmo ano, sendo a OCP a Orquestra em Residência, desde o ano seguinte e uma presença constante nos Dias da Música em Belém.

A OCP já trabalhou com os compositores Emmanuel Nunes, Miguel Azguime e Sofia Gubaidulina, bem como com os maestros Alberto Roque, Luís Carvalho, Pedro Amaral e Pedro Neves,  e ainda  os coros Voces Celestes e Lisboa Cantat. Também acolheu solistas internacionais como António Rosado, Artur Pizarro, Carlos Alves, Cristina Ortiz, Filipe-Pinto Ribeiro, Gary Hoffman, Heinrich Schiff, Jorge Moyano, Sergio Tiempo, Tatiana Samouil ou Thomas Zehetmair. Já se apresentou em Alcobaça, Almada, Batalha, Castelo Branco, Coimbra, Leiria, Paços de Brandão, Portimão, Setúbal, Tomar, Vila Viçosa e Viseu, bem como no Festival Jovem Músicos da Antena 2, Festival ao Largo do Teatro Nacional São Carlos, concertos de Natal nas Igrejas de Lisboa, concertos da DGPC Música nos Mosteiros (2013) e no City of London Festival (em 2010). Desde 2014, a OCP tem ainda colaborado com a Companhia Nacional de Bailado e foi pioneira em modelos de Responsabilidade Social, no âmbito dos quais desenvolveu a Orquestra Portuguesa (JOP), a OCPsolidária e a OCPdois, com diversos patrocinadores e intercâmbios internacionais, sendo o Município de Lisboa um dos seus parceiros institucionais.

O compositor Ferrer Trindade, autor da famosa Canção do Mar, da qual se produziram inúmeras versões, está desde a publicação do Edital municipal de 14 de julho de 2004 homenageado como topónimo na artéria do Lumiar que se estende da Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva, antes identificada como Rua 7.2 entre a Malha 7 e PER 9.

Francisco Ferrer Trindade (Barreiro/09.12.1917 – 13.01.1999/Lisboa), compositor e maestro consagrado, popular por sucessos como Canção do Mar ou Nem às Paredes Confesso, dedicou-se à música ligeira integrando as orquestras de Tavares Belo e Almeida Cruz, dirigindo a Orquestra de Variedades da Emissora Nacional e também formando a sua própria orquestra –  a Orquestra Ritmo – que circulou pelos Casinos de Espinho, Figueira da Foz, Póvoa de Varzim e Casino Estoril, acompanhando importantes artistas nacionais e estrangeiros. Ferrer Trindade também compôs para o Teatro de Revista e nomes como Amália, Artur Garcia, Anita Guerreiro, António Calvário, António Mourão, Beatriz da ConceiçãoCarlos Ramos, Lenita Gentil, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende ou Madalena Iglésias, entre muitos outros, cantaram músicas suas.

Ferrer Trindade formou no Conservatório Nacional de Lisboa como aluno externo ao mesmo tempo que trabalhava. Somou ainda um curso de Composição e Direção de Orquestra da Academia de Santa Cecília em Milão. Começou por tocar na Orquestra de Câmara do Conservatório, clarinete na Banda da Armada e violino na Orquestra Filarmónica de Lisboa. Foi premiado com o 1º Prémio do Festival da Figueira da Foz – com a composição Olhos de Veludo – e um 3º com Sombras da Madrugada, para além do 1º e 2º Prémios do Festival de Luanda. Sendo colaborador da RTP desde a sua inauguração, como maestro, foi o escolhido em 1969 para dirigir a Orquestra da Eurovisão, com a canção A Desfolhada, no Teatro da Ópera de Madrid.

Foi agraciado com a Medalha de Ouro da Emissora Nacional, a Medalha de Mérito Artístico do Governo Civil do Distrito de Setúbal e a Medalha da Cidade de Setúbal e uma sessão comemorativa do seu centenário organizada pela Câmara Municipal do Barreiro.

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Chapitô e Belo Marques no MURO’19

O Chapitô e o compositor Belo Marques, pioneiros na formação de jovens, quer nas artes circenses quer em artistas de música ligeira, vão partilhar o espaço do MURO’19 que nesta edição de 23 a 26 de maio junta à vertente da arte urbana a sonoridade da música inspirada pela toponímia do local, com os artistas do primeiro animando o local do Festival de Arte Urbana e o segundo aí presente na Rua Belo Marques desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003.

O Chapitô – Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina, é uma casa de cultura e espetáculo sediada na Costa do Castelo, com especial relevância nas Artes Circenses, embora articule quatro áreas: Cultura, Formação, Ação Social e Economia Social. Constituída em 1981, a Coletividade Cultural e Recreativa de Santa Catarina é a entidade de suporte do Chapitô, desde a criação da primeira Escola de Circo – a Escola de Circo Mariano Franco-, ainda no Bairro Alto, através de acordo com a Santa Casa da Misericórdia, em que durante quatro anos realizou trabalhos de animação com jovens e idosos do Bairro ao mesmo tempo que foi o embrião da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo (EPAOE). Desde 1986, ao abrigo de um protocolo com o Ministério da Justiça, o Chapitô instalou-se na Costa do Castelo, onde a partir do ano letivo de 1987/1988 arrancou o  inovador Curso de Expressão Circense que formou a primeira geração de jovens artistas de cariz circense para o mercado de trabalho.

O compositor Belo Marques, muito recordado pela canção Alcobaçacom letra de Silva Tavares, criação de Cidália Meireles e interpretação de Maria de Lourdes Resende -, desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 que é o topónimo da Rua C da Malha 3 do Alto do Lumiar, artéria que hoje liga a Rua General Vasco Gonçalves à Avenida Carlos Paredes, e assim integra o Bairro da Música criado no local pela edilidade lisboeta desde então.

De seu nome completo José Ramos Belo Costa Marques du Boutac (Leiria/25.01.1898 – 27.03.1987/Sobral de Monte Agraço), distinguiu-se como compositor, orquestrador e figura relevante da Emissora Nacional, onde criou o Centro de Preparação de Artistas. Escreveu mais de 700 canções onde enalteceu cenários portugueses como o Vale do Vouga, o Alcoa, Leiria ou Alcobaça. Também dedicou a Lisboa  inúmeros temas como Campanários de Lisboa, Miradouros de Lisboa, Lisboa Nova ou O Gaiato de Lisboa.

Como violoncelista, teve a sua primeira contratação aos 16 anos, para o Casino Mondego (na Figueira da Foz) e quatro anos depois, tornou-se músico profissional e foi tocar em paquetes que se dirigiam à América do Sul, percorrendo vários países da Europa e da América, até regressar em 1924 para cumprir o serviço militar. Dois anos mais tarde fundou e dirigiu o Orfeão Scalabitano e três anos depois foi para os Açores e Madeira tendo dirigido no Funchal uma orquestra privativa de 35 elementos. Em seguida, integrou as orquestras de Pedro Blanch e David de Sousa, tal como a do Casino Estoril (1932 a 1935).

A partir de 1935 entrou na Emissora Nacional, na Rua do Quelhas. Até 1938 foi violoncelista da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por Pedro de Freitas Branco. Nesta Rádio criou a Orquestra Típica Portuguesa, a Orquestra de Salão e os Quarteto e Sexteto de Música Clássica. Partiu em 1938, para ser o Diretor do Rádio Clube de Moçambique, onde fundou um Coro Feminino e as Orquestras Típica e de Salão. Nos anos em que lá permaneceu também foi pesquisando e fazendo uma recolha de Folclore indígena da região de Tonga e Machangane, que divulgará em 1953 na sua obra Música Negra e da qual já em 1943 publicara Estudos do Folclore Tonga, editado pela Agência Geral das Colónias, bem como compusera a fantasia sinfónica para coro e orquestra, em seis andamentos, Fantasia Negra, estreada em 19 de outubro de 1944 no Teatro São Carlos, executada pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. Com elementos da Orquestra Típica Portuguesa da Emissora também  fundou a sua própria orquestra que até 1960 teria trabalho constante e inúmeras gravações.

Regressou à Rua do Quelhas em 1941, empenhado em dedicar-se à canção ligeira. Criou  a Orquestra de Variedades, ao mesmo tempo que dirigiu  a Orquestra de Salão em parceria com René Bohet (entre 1942 e 1945) e depois como titular (1948 a 1954), assim como o Coro Feminino da Emissora. Foi também Belo Marques que criou na Emissora Nacional o Centro de Preparação de Artistas, para o lançamento de novas estrelas da rádio, de que foram exemplo Francisco José, Júlia Barroso, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira ou Tony de Matos. Em 1956 também ajudou a criar a Orquestra Típica e Coral de Alcobaça. No ano de 1958, desempenhava o papel de consultor de programas na Emissora Nacional mas foi despedido por ter apoiado a candidatura do General Humberto Delgado.

Belo Marques compôs ainda marchas populares e trabalhou para teatro de revista, bem como para o cinema, áreas em que assinou cerca de 70 canções, onde se destaca a canção Minha aldeia, em parceria com Silva Tavares para a revista Rosmaninho, a banda sonora do filme Rosa do Adro (1938) de Chianca de Garcia e a popular Desgarrada da versão radiofónica de As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis.

Foi  regente honoris causa da Escola de Música do Conservatório Nacional; 1º prémio do Festival Internacional Latino (1938); 2º prémio do Concurso Internacional da Canção Latina (1955), assim como homenageado por Raúl Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia no 1º programa de E o Resto São Cantigas (1981).

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Teatro Romano de Felicitas Iulia Olisipo

Teatro Romano – Sítio Arqueológico
(Foto: José Avelar – Museu de Lisboa| EGEAC)

Museu de Lisboa – Teatro Romano

Museu de sítio, localizado na zona histórica da cidade, o Museu de Lisboa – Teatro Romano constitui um núcleo do Museu de Lisboa e pretende revelar o que foi um dos monumentos mais importantes da cidade romana de Felicitas Iulia Olisipo.

O museu encontra-se instalado em dois edifícios de distintas épocas, um setecentista e outro dos finais do séc. XIX. Esta construções foram recuperadas e adaptadas para a instalação do museu inaugurado em 2001. Tendo encerrado entre 2013 e 2015 com vista à remodelação museográfica, acessibilidade e musealização das estruturas arqueológicas encontradas no interior do museu, este reabriu ao público em finais de 2015.

O Museu de Lisboa – Teatro Romano, além da área de exposição de longa duração, inclui também o campo arqueológico onde se encontram os vestígios do teatro. Este monumento cénico foi construído nos inícios do séc. I d.C., em época do imperador Augusto e permaneceu em funcionamento até ao séc. V d.C. Teria uma capacidade para cerca de 4.000 espectadores.

Através de sucessivas campanhas arqueológicas sabe-se hoje de que modo o teatro foi edificado numa zona de tão acentuado declive. A construção de vários terraços na encosta virada a sul teve como objetivo suportar o teatro e reforçar a encosta natural.  Esta implantação elevada foi claramente intencional tendo um objetivo claramente propagandístico do novo poder romano. O teatro de Felicitas Iulia Olisipo marcou, durante vários séculos, a paisagem da cidade.

Teatro Romano – Museu
(Foto: José Avelar – Museu de Lisboa| EGEAC)

Texto: © Lídia Fernandes| Museu de Lisboa – Teatro Romano | 2019

Fotos: © José Avelar | Museu de Lisboa | EGEAC | 

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Rua Norberto de Araújo

Revista Municipal nº 55, 4º trimestre de 1952

Rua Norberto Araújo, topónimo atribuído a uma arruamento da freguesia de Santa Maria Maior por Edital de 22 de Junho de 1956

Norberto Moreira de Araújo (1889 -1952), jornalista, funcionário do Ministério das Finanças, poeta, escritor e olisipógrafo. Em 1904, entra na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo, tendo sido o melhor aluno do seu curso, ao mesmo tempo que prossegue os seus estudos. Frequenta o Curso Superior de Letras, mas não concluiu a licenciatura. Iniciou-se como jornalista, em 1913, colaborando no jornal Sport Lisboa. Profere algumas conferências na Imprensa Nacional sobre a arte tipográfica, posteriormente publicadas, e que lhe valeram a recomendação do então director da Imprensa, Luís Derouet, para ingressar na redacção de O Mundo, em 1916. Como jornalista, colaborou, entre outros, no Repórter X: semanário de grandes reportagens, no Animatógrafo, na Ilustração Portuguesa, no A Manhã, no Diário de Notícias, no Século da Noite, e no Diário de Lisboa, jornal onde se manteve desde 1922 até à sua morte e onde assinava a coluna “Páginas de quinta feira”, dedicada a temas variados que iam desde a cultura, os casos de rua até à cidade de Lisboa e à defesa do seu património. Através dos seus artigos defendeu a manutenção e a renovação do Bairro de Alfama contra a campanha higienista que propunha a sua demolição, bateu-se pela realização anual da Feira do Livro, pela regularidade das exposições de Arte na Sociedade Nacional de Belas Artes, apoiou a iniciativa de Leitão de Barros para a realização das marchas populares, e a 31 de Agosto de 1934, propôs a abertura de uma cadeira de Estudos Olisiponenses na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ideia que Pastor de Macedo transforma em proposta apresentada em Sessão de Câmara a 6 de Setembro e que é aprovada, funcionando a cadeira durante alguns anos das décadas de 30-40. A par deste interesse pela sua cidade natal, Norberto de Araújo fez reportagens de grande fôlego, como o acompanhamento de duas visitas presidenciais (de António José de Almeida ao Brasil em 1922 e de Carmona a Espanha em 1929), a do Ano Santo de 1925 em Roma (onde entrevista o Papa Pio IX e Mussolini), a do julgamento de Alves dos Reis (1839) e a da visita da Rainha D. Amélia ao Panteão de S. Vicente (1945).

Norberto de Araújo dedicou à cidade muito do seu tempo e saber, tendo feito parte da Comissão Executiva das Festas de Lisboa de 1935 e organizado o Cortejo das Marchas Populares (tendo chegado a redigir a letra de para algumas delas); sendo sócio fundador do Grupo Amigos de Lisboa e assumindo a responsabilidade da decoração do Pavilhão de Lisboa na Exposição do Mundo Português, em 1940.

Como jornalista, os seus colegas e críticos são unânimes em afirmar que Araújo trouxe um novo estilo ao jornalismo, “repórter de frase curta, palavra solta, liberta da ganga da retórica” (palavras de Baptista Bastos), sem se prender em compromissos políticos. Como olisipógrafo, manteve estas mesmas características, que lhe granjearam grande número de leitores. Para além de milhares de artigos, e de algumas dezenas de conferências, foi autor das pequenas monografias Lisboa, o Castelo de S. Jorge e Itinerários turísticos de Lisboa, destinadas aos turistas. Escreveu ainda Legendas de Lisboa (1943), reunindo diversos textos sobre locais típicos de Lisboa; Casas da Câmara de Lisboa, em co-autoria com Pastor de Macedo, e que é um dos estudos mais completos sobre a câmara e os locais onde se estabeleceu; e de Inventário de Lisboa (1944-1956), concluído por Durval Pires de Lima, onde se pretendia fazer o levantamento de todo o património lisboeta.

Mas a sua obra mais conhecida intitula-se Peregrinações em Lisboa, editada a partir de 1938, resultado do seu profundo conhecimento físico da cidade e de um intenso labor de pesquisa documental. Como o título indica, Norberto de Araújo, traça percursos por Lisboa, descrevendo-os, narrando as suas histórias, desvendando os seus segredos. Num tom muito coloquial, como em conversa com o seu “dilecto Amigo”, figura imaginária a quem ele narra tudo o que sabe, e na qual o leitor se revê, as Peregrinações são ainda hoje, uma obra incontornável para quem quer conhecer a cidade.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses| 2019

Rua Gustavo de Matos Sequeira

Gustavo de Matos Sequeira em 1947
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Gustavo de Matos Sequeira, topónimo atribuído a um arruamento da freguesia de Santo António por Edital de 22 de Janeiro de 1963

Gustavo Adriano de Matos Sequeira (1880-1962), funcionário público, autor, jornalista e olisipógrafo. Iniciou a sua carreira de jornalista em 1905. Foi funcionário das Alfândegas até 1931 quando foi compulsivamente afastado da função pública por ter sido acusado pela PIDE de ter ajudado à introdução de armas no país, do que foi ilibado. Passa a colaborar mais activamente em diversas publicações periódicas, fazendo crítica teatral (especialmente de teatro de revista) e escrevendo sobre Lisboa. Foi também autor teatral de revistas, tradutor e adaptador de peças teatrais, poeta e escreveu a letra da conhecida Marcha dos Marinheiros. Desempenhou ainda funções de Comissário do Governo junto do Teatro Nacional (1917-1936) e foi eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa (1931). Pertenceu a várias instituições culturais, entre as quais a Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Academia das Ciências, a Academia da História e o Grupo Amigos de Lisboa, do qual foi um dos fundadores.

A sua primeira obra sobre Lisboa, foi publicada por Júlio de Castilho (de quem seria amigo a partir de então) numa das suas obras. Era um longo texto sobre a paróquia e igreja de S. Mamede, entregue ao Mestre em 1903 que sobre ele afirmou: “trabalho (…) tão conscienciosamente feito, tão metódico, e tão exacto que o entendi reproduzi-lo textualmente.” Para além de artigos avulsos em publicações periódicas, Matos Sequeira publicou a partir de 1916 as suas obras mais conhecidas: Depois do Terramoto: subsídios para a história dos bairros ocidentais (1916-1933) e O Carmo e a Trindade: subsídios para a história de Lisboa (1933-1941). No entanto a sua actividade como olisipógrafo estendeu-se muito para além destas duas monografias, sendo autor de centenas de títulos sob a forma de artigos, conferências, opúsculos, livros, e peças teatrais, quer a solo, quer em colaboração com outros olisipógrafos. Saliente-se ainda a curiosa edição que fez, em 1925, de Relação de vários casos notáveis e curiosos sucedidos em tempo na cidade de Lisboa e em outras terras de Portugal (…) onde à moda de setecentos reúne pequenos artigos sobre notícias e casos ocorridos, que tinha vindo a encontrar no meio das suas investigações.

Organizou ou colaborou em diversas actividades ou eventos culturais, como a Exposição Olisiponense, no Museu do Carmo (1914), na reconstituição de um mercado seiscentista no Largo de S. Domingos (1926), na reconstituição da Lisboa Antiga, na cerca do Convento das Francesinhas (1935), na Exposição do Mundo Português (1940). Em 1945 dá início a um dos seus mais originais projectos: a criação de uma maquete da cidade pré-pombalina. A maquete foi por ele planeada, histórica e artisticamente dirigida, e executada com a colaboração do pintor Martins Barata e do artista modelador Ticiano Violante. Reúne mais de 10 000 edifícios em miniatura e reproduzia a cidade entre Santa Apolónia e S. Paulo. Foi publicamente apresentada na Exposição Iconográfica e Bibliográfica Comemorativa da Reconstrução da Cidade depois do Terramoto de 1755, tornando-se na sua peça central. Dois anos mais tarde a Câmara Municipal de Lisboa incumbiu-o ainda de fazer o prolongamento da maquete até à zona de Alcântara. Para este trabalho, Matos Sequeira recorreu ainda ao desenho de plantas topográficas da cidade, muitas das quais se encontram (juntamente com o seu espólio) à guarda do Gabinete de Estudos Olisiponenses. São plantas em papel vegetal, por vezes, muito toscamente desenhadas, a lápis de carvão, esferográfica, lápis de cor, mas com uma precisão de localização e de explicação de arruamentos e edifícios já desaparecidos, que resultaram das suas inúmeras pesquisas em arquivos e bibliotecas, confrontadas com o trabalho de campo, e que lhe permitiram traçar um fiel retrato da Lisboa pré-terramoto.

Apesar da precisão científica que a sua obra nos oferece, o seu estilo de escrita é cativante, abandonando o tom académico, utilizando um estilo jornalístico e quase intimista que o levou muitas vezes a descrever em pormenor acontecimentos, ou aspectos da vida social e diária da cidade, que permitem ao seu leitor visualizar uma Lisboa já desaparecida.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses | 2019

A Rua de Ribeirinho, Rufino Filho do Pátio das Cantigas e realizador desse mesmo filme

Freguesia de Arroios
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Ribeirinho, o Rufino Filho do Pátio das Cantigas e realizador desse mesmo filme, assim como conhecido protagonista de filmes como O Pai TiranoA Menina da Rádio ou O Grande Elias dá nome a uma rua extraída de um troço do Regueirão dos Anjos desde 1986.

Dada a escassez de novas artérias na cidade de Lisboa dos anos 80, a Rua Francisco Ribeiro (Ribeirinho) foi o topónimo dado ao troço superior do Regueirão dos Anjos, situado no prolongamento da Rua António Pedro, pelo Edital 24 de abril de 1986.

Animatógrafo, 19 de maio de 1941

De seu nome completo Francisco Carlos Lopes Ribeiro (Lisboa/21.09.1911 – 07.02.1984/Lisboa) foi um popular ator, encenador e cineasta que na memória dos portugueses se fixou como Ribeirinho, alcunha ganha por ser o irmão mais novo do cineasta António Lopes Ribeiro, tendo também dado o rosto e o corpo nos filmes deste:  o Barata Boateiro em A Revolução de Maio (1937), o Chico do Austin do Feitiço do Império (1939), o Chico caixeiro de O Pai Tirano (1941), o Jerónimo de A Vizinha do Lado (1945) e o Ernesto Ledesma de O Primo Basílio (1959). Foi ainda protagonista, argumentista e realizador do mais popular filme português: O Pátio das Cantigas, estreado em 16 de janeiro de 1942, no Cinema Éden, que começou a rodar nos estúdios da Tobis em 29 de setembro de 1941. Integrou ainda os elencos de filmes de outros cineastas como A Menina da Rádio (1944) e O Grande Elias (1950) de Arthur DuarteO Costa de África (1954) de João Mendes em que foi também argumentista, Aqui Há Fantasmas (1964) de Pedro Martins ou O Diabo Desceu à Vila (1978) de Teixeira da Fonseca.

Com o seu irmão fundou a companhia Os Comediantes de Lisboa (1944 – 1950) e também dirigiu o Teatro do Povo, em 1935, a convite de António Ferro, bem como o Teatro da Mocidade Portuguesa, o Teatro Universitário e o Teatro Nacional Popular (1957 – 1960), onde pela primeira vez em Portugal, em  1959, se levou à cena uma peça de Samuel Beckett: o À Espera de Godot. Em 1965, abriu o Teatro Villaret de Raul Solnado, com O Impostor Geral, a partir de O inspetor-geral de Gogol. Em 1977, integrou a Comissão Instaladora do Teatro Nacional de D. Maria II, cabendo-lhe a sua direção no período de 1978 a 1981, tendo aqui feito as suas últimas encenações como As Alegres Comadres de Windsor de Shakespeare ou A Bisbilhoteira de Eduardo Schwalbach. Colaborou ainda na televisão, nas peças Noite de Reis ou O Urso, bem como dirigindo com o seu irmão o documentário As Rodas de Lisboa (1951), comemorativo dos 50 anos da Carris de Lisboa.

Ribeirinho começara no teatro aos 6 anos, no verão de 1917,  na revista Tiros sem bala, apresentada em Lisboa no Grémio dos Despretensiosos, e aos 18 anos, em 3 de outubro de 1929, estreou-se profissionalmente na Companhia de Chaby Pinheiro, em A Maluquinha de Arroios, de André Brun. Foi ainda repórter da revista Cinegrafia (1929 e 1930), sediada na Rua Capelo, nº 5 – 3º; casado com a atriz Maria Lalande de quem teve uma filha (Maria Manuel Lalande Lopes Ribeiro) assim como depois com a atriz Lourdes Lima; e galardoado com os prémios Eduardo Brazão, Chaby Pinheiro e o grau de oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada.

Como Francisco Ribeirinho e/ou Ribeirinho o seu nome é também topónimo nos concelhos de Almada (na Costa de Caparica: Praceta, Rua e Travessa), Amadora (na Venda Nova), Cascais ( em Alcabideche e em São Domingos de Rana), Odivelas, Seixal (em Fernão Ferro), Oeiras (em Linda-a-Velha), Sintra (em Mem Martins, Rio de Mouro e na vila de Sintra) e Vila Franca de Xira (em A-dos-Bispos e em Vila Franca de Xira).

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)