O Largo do Teatro São Carlos do final do século XVIII

Placa Tipo II - Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior – Placa Tipo II 
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo de São Carlos  foi um topónimo gerado pela presença no local do Teatro São Carlos, edificado entre 8 de dezembro de 1792 e 30 de junho de 1793 com verbas dos próprios comerciantes da capital,  assim como quase um séculos depois  gerará também a Travessa dos Teatros.

Este foi o primeiro topónimo fixado naturalmente no Largo que em 1913 passou a ser o Largo do Directório, em homenagem ao Diretório do Partido Republicano, mas que em 1956 voltou à designação de Largo de São Carlos, em ambos os casos por decisão camarária.

O Largo de São Carlos setecentista passou a denominar-se Largo do Directório através do Edital municipal de 18 de outubro de 1913  para perpetuar na memória de Lisboa que no nº 4 daquele arruamento existiu a sede do Partido Republicano Português e consequentemente, do seu Diretório. Por esse mesmo Edital, assinado pelo então Presidente da CML General Correia Barreto, mais quatro topónimos foram modificados: o Largo do Espírito Santo tornou-se o Largo Ernesto da Silva, o Largo de São Roque ficou Largo Trindade Coelho, o Largo de Santa Bárbara denominou-se Largo 28 de Janeiro e a Rua de São José passou a ser a Rua Alves Correia.

Quarenta e três anos mais tarde, pelo Edital municipal de 28 de maio de 1956, na data precisa do 30º aniversário do golpe militar que implantaria o Estado Novo em Portugal, a edilidade lisboeta muda o topónimo Largo do Directório para o voltar a denominar como Largo de São Carlos, para além de trazer de volta mais 3 denominações antigas para substituir as dadas após a proclamação da República, a saber: a Rua Alves Correia voltou a ser a Rua de São José; a Rua Eugénio dos Santos retorna a Rua das Portas de Santo Antão ao mesmo tempo que  a Rua Eugénio dos Santos é atribuída num novo arruamento junto ao Parque Eduardo VII; e a Rua da Luta retoma o topónimo Duque de Bragança, embora no plural como Rua dos Duques de Bragança.

Neste Largo, cujas alterações toponímicas ao longo do século XX é exemplo de como a toponímia é também um veículo de divulgação política, nasceu e viveu no 4.º andar Esqº do mesmo nº 4 da sede do Partido Republicano, Fernando Pessoa.

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

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Fernando Gusmão, encenador do Teatro Moderno de Lisboa, no Bairro teatral do Vale da Ameixoeira

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Fernando Gusmão, o ator e encenador alfacinha, fundador e encenador do Teatro Moderno de Lisboa em 1961 , dá nome à Rua 6A do Vale da Ameixoeira desde abril de 2004, sendo assim também o primeiro topónimo de um Bairro cujos arruamentos têm topónimos relacionados com o meio teatral.

Foi pelo Edital municipal nº 20/2004 de 19 de abril de 2004 que foi fixada a Rua Fernando Gusmão na Rua 6A que hoje une a Rua Artur Ramos à Rua António Vilar. No mesmo dia, pelo Edital nº 21/2004, o Vale da Ameixoeira recebeu na sua Rua 3 a Rua Fernanda Alves.  Quase três meses depois, mais artérias do Vale da Ameixoeira foram preenchidas com nomes de atores: António Vilar (Rua 4 A), Arnaldo Assis Pacheco (Rua 1 A à Estrada da Circunvalação), José Viana (Rua 1 B), Raul de Carvalho (Rua 4 B) e Varela Silva (Rua 2A). E cinco anos mais tarde, pelo Edital de 16 de setembro de 2009, nasceu na Rua 6B a Avenida Glicínia Quartin, a primeira vez que uma  Avenida lisboeta recebeu o topónimo de um ator.

Fernando Morais Ferreri Gusmão (Lisboa/06.02.1919 – 17.02.2002/Casa do Artista – Lisboa) foi um ator e encenador que participou na construção desse marco no teatro português que foi o Teatro Moderno de Lisboa, fundado em 1961 por uma sociedade de atores que o unia a Armando Caldas, Armando Cortez, Carmen Dolores e Rogério Paulo. Foi nesta Companhia que se estreou como encenador de Humilhados e Ofendidos  a partir do original de Dostoievski (1961), Os Três Chapéus Altos de Miguel Mihura e Render dos Heróis de José Cardoso Pires (1965), a última da sociedade teatral, retirada de cena pela censura teatral. De 1961 a 1965 o Teatro Moderno de Lisboa funcionou no Cinema Império, no  inovador horário das 18: 30 horas e 11:00 horas de domingo, em sessões que transbordavam de público. Entre tantos outros, neste palco representaram Armando Cortez,  Armando Caldas, Cármen Dolores, Clara Joana, Fernanda Alves,  o próprio Fernando Gusmão, Morais e Castro, Rogério Paulo, Rui de Carvalho ou  Rui Mendes. Lauro António, no seu blogue, considera mesmo que « Desde “O Tinteiro” até ao “Render dos Heróis” foi uma actividade magnífica, desenvolvida por uma sociedade de actores que pretendia acima de tudo rumar contra o marasmo, abrir horizontes, rasgar janelas.» 

Fernando Gusmão viveu em Cabo Verde dos 5 aos 19 anos mas regressou em 1938 e dez anos depois, iniciou-se no teatro como amador, no Grupo Os Companheiros do Pátio das Comédias, onde interpretou O Casamento de Nicolau Gogol,  Continuação da Comédia de João Pedro de Andrade (que em 1957 também  interpretaria para a televisão numa realização de Artur Ramos) ou a Escola de Maridos de Molière. Nos anos 50, profissionalizou-se ao ingressar na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, representando Curva Perigosa, de Priestley, A Senhora das Brancas Mãos de Alejandro Casona ou A Comédia da Morte e da Vida, de Henrique Galvão.

Nesta década de cinquenta Fernando Gusmão ainda se destacou no Rei Lear de Shakespeare e em O Príncipe Disfarçado de Marivaux, tendo trabalhado  na Companhia Alves da Cunha no Teatro Gymnasio (1951); no Teatro do Povo, com Francisco Ribeiro, no Alfageme de Santarém de Almeida Garrett; no Teatro Avenida, em Joana D’ Arc de Jean Anouilh e João Gabriel Bockman de Ibsen (1955); no Teatro Nacional Popular,  sediado no Teatro da Trindade, de 1957 a 1959, interpretando sucessivamente Noite de Reis de Shakespeare, Um Dia de Vida de Costa Ferreira, Doze Homens Fechados de Reginald Rose, Diário de Anne Frank de Goodrich e Hackett, Pássaros de Asas Cortadas de Luiz Francisco Rebello ou À Espera de Godot de Samuel Beckett.  Também se estreou no teatro de revista, em Aqui é Portugal, numa temporada no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, em 1955.

A partir dos anos sessenta a sua faceta de encenador começou a mostrar-se, no Teatro Moderno de Lisboa. Também dirigiu o Grupo Cénico de Direito (1965 e 1966); encenou O Tempo e a Ira de John Osborne  e A Renúncia de Unamuno no Teatro Experimental do Porto-TEP, assim como  A Voz Humana de Jean Cocteau, interpretado por Maria Barroso, tudo em 1967;   dirigiu o  Grupo 4 (1968), o Teatro dos Estudantes Universitários de Moçambique (1970) e a A Excepção e a Regra de Bertolt Brecht no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra- TEUC.

Após o 25 de Abril, foi presidente do Sindicato de Atores  e membro fundador do Grupo de Teatro Proposta, ao lado de Augusto Sobral, Manuel Coelho,  Luís Alberto e Victor Esteves (1975); ministrou um curso de formação para atores na Guiné-Bissau (1978); encenou Corpo-Delito para o Grupo 4, já renomeado Novo Grupo, no  Teatro Aberto (1979); passou a encenar o Grupo de Campolide (1981) e regressou ao TEP, bem como ao TEUC para encenar O Sonho de Enrique Buenaventura (1990), na mesma década em que publicou o livro autobiográfico A Fala da Memória (1993).

Fernando Gusmão também trabalhou para rádio e televisão, para além do cinema, onde figurou algumas longas-metragens como Saltimbancos de Manuel de Guimarães (1952),  O Mal Amado de Fernando Matos Silva (1974) ou Os Demónios de Alcácer Quibir de José Fonseca e Costa (1977).

Morou no nº 12 da Rua das Taipas, no prédio onde Sá Nogueira teve atelier e em Almada (Sobreda), dá também nome a uma rua, próxima das Ruas Luzia Martins e Armando Cortez.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua César de Oliveira, o argumentista de revista e letrista do Sr. Feliz e do Sr. Contente

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

César de Oliveira , autor de teatro de revista  e de programas de televisão, logo dois dias  após o seu falecimento teve uma decisão da edilidade lisboeta em sessão de câmara para ser homenageado com a atribuição do seu nome a uma rua da cidade.

A sessão de câmara de 18 de janeiro de 1988 decidiu a atribuição do nome de César de Oliveira a um arruamento lisboeta, tendo para o efeito a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia escolhido a Rua A à Azinhaga do Jogo da Bola, no Paço do Lumiar, arruamento que também era designado vulgarmente por Lugar das Areias, processo este que terminou com a publicação do edital em 29 de fevereiro de 1988 ficando a Rua César de Oliveira fixada com a legenda «Autor Teatral/1928 – 1988», a ligar a Azinhaga dos Ulmeiros à Azinhaga da Torre do Fato. Pelo mesmo edital foram também homenageadas em arruamentos da então freguesia de Nª Senhora de Fátima as atrizes Laura Alves e Ivone Silva.

César de Oliveira (Lisboa/14.08.1928 – 16.01.1988) foi a partir dos anos 60 do séc. XX uma figura fundamental do teatro de revista desenvolvido no Parque Mayer, como autor de peças de revista em parceria. Estreou-se em 1960, em parceria com José Augusto Ramos, na revista Espero-te à saída, para o Teatro ABC.  A partir de 1964, estabeleceu parceria com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca, terminada em 1973 por morte do último, com inúmeros êxitos como É regar e pôr ao luar, Sete colinas ou Alto lá com elas. Ficou popular a sua  letra da canção Cheira Bem, Cheira a Lisboa, com música do maestro Carlos Dias, criada para interpretação de Anita Guerreiro na revista Peço a Palavra (1969). César de Oliveira também redigiu outras letras para fados ou marchas populares, para as vozes de Fernanda Batista, Hermínia Silva, Tony de Matos ou António Calvário.

Do muito que escreveu destaquem-se as revistas Quem tem boca vai a Roma para o Teatro Capitólio, Peço a palavra para o Variedades, Pra frente Lisboa e Mulheres é comigo para o Teatro Monumental. Ainda nos anos setenta assinou a autoria das revistas O Zé Faz Tudo (1971), Saídas da Casca (1972) e Aldeia da Roupa Suja (1975). Foi também o responsável por levar até ao Parque Mayer  Ary dos Santos e Bernardo Santareno, para serem co-autores de Uma no cravo outra na ditadura, Pra trás mija a burra, Afinal como é, Águas de bacalhau (1977) e Ó da guarda, todas no ABC. Escreveu também para  A grande cegada do Teatro Ádóque e  o seu último êxito foi Lisboa, Tejo e Tudo (1987), com argumento seu e de Raul Solnado e Fialho Gouveia, assim como encenação sua.

Também foi argumentista dos filmes Rapazes de táxi, de Constantino Esteves, com Rogério Bracinha, Jerónimo Bragança, Paulo da Fonseca e José Ramos bem como de Um cão e dois destinos de Alain Bornet, com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca, ambos em 1965; Sarilho de fraldas (1966) de Constantino Esteves, com Augusto Ramos e Rogério Bracinha; e O destino marca a hora (1970) do realizador Henrique Campos, em parceria com Rogério Bracinha e Paulo da Fonseca.

O seu envolvimento na televisão portuguesa acontece após o 25 de Abril de 1974, sendo ele o autor das letras musicadas por Thilo Krassman para o Sr. Feliz e o Sr. Contente, a dupla que encantava com o seu «diga à gente, diga à gente, como vai este país…», protagonizada por Herman José e Nicolau Breyner, rábula da série televisiva de 1975 intitulada Nicolau no País das Maravilhas, de que era argumentista com Rogério Bracinha e Ary dos Santos. César de Oliveira ficou ainda na memória dos portugueses como o autor de Sabadabadu, em parceria com Melo Pereira, programa de entretenimento que passou na RTP em 1981, onde pontificavam Ivone Silva e Camilo de Oliveira. Foi ainda o autor de programas de humor como O espelho dos Acácios (1978), Ivone Silva A Faz Tudo  (1978) programa realizado por José Fonseca e Costa, Gente fina é outra coisa (1982), Eu show Nico (1987- 1988).

César de Oliveira foi galardoado com a medalha de Mérito Municipal de Lisboa, bem como com o Prémio da Imprensa na categoria Teatro de Revista (1964).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Ângela Pinto à volta do Mercado de Arroios

Freguesia de Arroios
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Ângela Pinto é a rua que encontramos a toda a volta do Mercado de Arroios, desde a publicação do Edital municipal de 12 de março de 1932, assim perpetuando a memória da protagonista da Severa e do Hamlet na toponímia da cidade de Lisboa.

O projeto urbanístico aprovado em sessão de Câmara de 7 de abril de 1928 determinou o futuro da zona contida entre a Praça do Chile e a Alameda Dom Afonso Henriques, tendo a Rua Ângela Pinto sido o topónimo dado à «Circular, em volta do mercado», conforme  regista o Edital, que acolheria obras a partir de 1939 para a construção de um mercado novo, do risco do Arqº Luís Benavente, que foi oficialmente inaugurado em 28 de fevereiro de 1942.

Já o Edital de 12 de março de 1932 consagrou também na mesma zona o empresário teatral Eduardo Brazão (Rua 8), bem como os atores Ferreira da Silva (na antiga Rua nº 7A), Joaquim Costa (Rua Particular), José Ricardo (Rua 7), Lucinda Simões (Rua nº 8A) e Rosa Damasceno (Rua nº 6),  para além de uma Avenida Rey Colaço (Rua 23) que nunca foi executada e foi este conjunto de topónimos que fez com que o sítio ficasse conhecido como Bairro dos Atores.

Ângela Rita Clara de Almeida Pinto (Lisboa/15.11.1869 – 09.03.1925/Lisboa) foi uma atriz que teve como os pontos altos da sua carreira uma magistral interpretação da Severa, na peça homónima de Júlio Dantas, estreada no  Teatro D. Amélia (depois, São Luiz) em 25 de janeiro de 1901, desempenho onde cantava fado, bem como o seu papel em travesti protagonizando Hamlet, em 1910, representação em que usou uns sapatos pretos feitos especialmente com mais 3 centímetros de sola. Ângela Pinto era muito acarinhada pelo público que enchia as plateias dos teatros para a ver.

Nascida no nº 30 da Rua do Arco da Graça, filha de Júlia de Almeida Pinto e de João de Almeida Pinto – músico por vezes contratado pelo São Carlos, jornalista e um dos proprietários de O Contemporâneo, publicação dedicada a assuntos de teatro -, desde a infância privava com redatores do jornal paterno como Gervásio Lobato, Sousa Bastos, Salvador Marques ou Pedro Vidoeira. Ângela frequentou o Colégio da D. Carolina junto à Calçada do Duque e depois um outro na Rua de Betesga, que era pertença de Alberto Bramão, um ensaiador teatral, tendo aprendido a falar bem francês.

Começou por subir à cena em 1885, aos 15 ou 16 anos, numa barraca de feira em Setúbal, na zarzuela em 1 ato Simão, Simões & C.ª. Depois, foi para os Teatros do Porto iniciar a sua carreira profissional e por volta dos  20 anos voltou a Lisboa, onde se estreou no Teatro da Rua dos Condes, no dia 29 de outubro de 1889, na opereta Lobos do Mar, uma tradução do original de  Ramos Carion.  Em 24 de maio de 1890 passa para o  Teatro do Príncipe Real (depois, Apolo) e a 29 de outubro voltou ao Porto, ao Teatro D. Fernando, a convite da Companhia Afonso Taveira & José Ricardo. Aí criou Ravolet, em travesti, na opereta A Bela Perfumista de Offenbach e a 4 de setembro de 1892 regressou ao Teatro da Rua dos Condes para criar a Manuela do Solar dos Barrigas, uma ópera cómica de Gervásio Lobato e D. João da Câmara. Em 1898, fazia parte da Companhia Taveira, então no Teatro da Trindade mas que depois passou ao Teatro do Príncipe Real do Porto, onde nesse mesmo ano protagonizou Ali…à Preta! para, em 1900, estar no alfacinha Teatro do Ginásio, em A Bisbilhoteira de Eduardo Schwalbach e depois no Teatro D. Amélia a protagonizar Lagartixa. Em 1903 passou a integrar o D. Maria II, onde fez a Madalena de Vilhena do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, ou no ano seguinte, a Mariana do  Amor de Perdição  de Camilo, adaptado por D. João da Câmara, a Gonerill do Rei Lear, numa adaptação de Júlio Dantas e A Mártir, de Adolph d’Ennery, numa tradução de Guiomar Torresão. Ficaram também na memória o seu Compère da revista Corações à Larga (1915) a imitar a figura de Afonso Costa, para além de ter contracenado com Joaquim Costa em Castelos no Ar (1916) de Eduardo Schwalbach. Em 1919, integrou a Companhia do Teatro da Trindade, dirigida por Augusto Pina, para A Exilada(1919) e depois esteve no Teatro de São Carlos. Na sua longa carreira, Ângela tanto interpretou revista como comédia ou drama, tendo pisado os palcos da época no Porto, em Lisboa e no Brasil, em diversas digressões.

Por fim, em 1922, Ângela Pinto ainda entra no cinema, interpretando a criada Juliana na rodagem do filme mudo de O Primo Basílio, de Georges Pallu e da Invicta Film do Porto, estreado no ano seguinte no Condes em Lisboa e no Jardim Passos Manuel do Porto.

Na sua vida pessoal, foi conhecida como muito bondosa e caritativa, bem  como uma das grandes boémias de Lisboa, que amou livremente quem achou por bem, depois de em novinha a terem casado com um homem bastante mais velho de quem fugiu logo no dia do casamento. Fazia banquetes no Restaurante Tavares e ceias no Botequim Magrinho. Sabe-se que manteve um relacionamento com D. Luís do Rego e que viveu os seus  últimos dias com um amigo, no nº 3 da Rua da Emenda, assim como teria 2 netos  referidos numa notícia de 1938 sobre uma homenagem que lhe foi prestada no Retiro da Severa.

Aos 54 anos, Ângela Pinto ficou paralisada de um lado do corpo, em pleno palco do  Teatro Politeama, o que a impediu de trabalhar a partir daí e ainda nesse ano de 1923, foi homenageada pelos seus colegas a 19 de novembro, no Teatro de São Carlos, onde recebeu também as insígnias de Oficial da Ordem de Santiago e a receita desse espetáculo no valor de 32.173$64, que foi depositado na Casa Bancária Pinto & Sotto Mayor, para render juros e lhe permitir levantar uma pensão mensal. Os seus colegas atores também reclamaram ao Parlamento em maio de 1923 que lhe fosse concedida uma pensão mensal vitalícia que acabou fixada em 700 escudos. Faleceu na casa da Rua da Emenda, de onde saiu na carreta dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, de que Ângela Pinto era sócia honorária, para a Igreja das Chagas, de onde seguiu o funeral para o Cemitério dos Prazeres, para o jazigo 1500 da Rua 11, pertença da Associação dos Socorros Mútuos Montepio dos Actores Portugueses.

O Teatro Águia de Ouro do Porto também a agraciou com a colocação de uma lápide alusiva, o S.N.I. criou o Prémio Ângela Pinto para os Concursos de Arte Dramática e a 29 de janeiro de 1938, foi-lhe prestada ainda uma homenagem no Retiro da Severa, para além de o seu nome estar fixado também em Ruas da Charneca de Caparica, de Fernão Ferro e de Setúbal.

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O Largo do autor de dramas de crítica social e de costumes Vitoriano Braga

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Vitoriano Braga, autor de dramas de crítica social e de costumes no período da I República até à institucionalização da Censura , ficou perpetuado num Largo do Bairro dos Autores Teatrais, em Marvila, cinquenta e cinco após o seu falecimento aos 51 anos de idade.

A partir de um pedido dos CTT para que fossem atribuídos topónimos aos arruamentos da área envolvente da Azinhaga do Vale Fundão, foram dados por Edital municipal de 20 de março de 1995, os nomes de vários autores teatrais: Álvaro de AndradeBento Mântua, Ernesto Rodrigues, Lino Ferreira, Sousa Bastos, Xavier de Magalhães e Vitoriano Braga que ficou no Largo constituído pela Rua do Bairro do Alfenim que partindo da Rua Sousa Bastos dá acesso aos lotes 8, 9, 14 e 15.

Alma Nova, novembro de 1927

Vitoriano de Sousa Feio Peixoto Braga (Lisboa/11.06. 1888 – 30.01.1940/Lisboa), foi um funcionário da Companhia dos Caminhos-de-Ferro Portugueses que em paralelo se notabilizou como um autor teatral, a partir de 1908, muito conhecido pelos seus dramas teatrais que incidiam sobre a crítica social e de costumes, como A Casaca Encarnada, peça em 3 atos, representada pela primeira vez no Teatro Politeama em março de 1922, com cartaz de Almada Negreiros, protagonizada por Erico Braga e Lucília Simões, depois publicada pela Portugália em 1923. Também tiveram grande êxito as suas peças A Bi em parceria com Vasconcelos Sá (1911), Octávio (1916) pelo  escândalo que provocou ao abordar o casamento de conveniência e a homossexualidade latente e que Fernando Pessoa elogiou e até o motivou a escrever o ensaio Sobre o Drama ou O Salon de Madame Xavier (1918), Inimigos (1926), para além de ter publicado as comédias Extremo Recurso (1917), Conselho da Noite (1922), Entre as 5 e as 6 (1927) e  Lua de Mel (1928).

Luiz Francisco Rebello considerou que ele ocupou um lugar no teatro português, entre a implantação da República e a ditadura instaurada em 1926, em que exprimiu a crise económica, social e moral dos anos da guerra e do pós guerra. Depois da institucionalização da censura Vitoriano Braga abandonou a produção teatral.

Vitoriano Braga também colaborou na revista De Teatro como crítico e exerceu, interinamente, o cargo de comissário do governo junto do Teatro Nacional de Almeida Garrett, depois denominado D. Maria II, traduziu O Pequeno Eyolf de Ibsen que subiu à cena no Teatro São Carlos em 1923 e foi agraciado com o oficialato da Ordem de Santiago e Espada.

Paralelamente e de acordo com um estudo de Filomena Serra, Vitoriano Braga foi também um fotógrafo amador que retratou as principais figuras do Grupo de Orpheu –  Fernando Pessoa, Almada Negreiros (inclusive nus), Guilherme de Santa-Rita e José Pacheco – no  princípio do século XX, de quem era aliás, amigo, para além de retratos de Guerra Junqueiro, Rui Coelho ou Henrique Gonçalo de Mello Breyner. Utilizava o estúdio fotográfico de Pedro Lima,  na Avenida da Liberdade.

Na sua vida pessoal, Vitoriano Braga foi casado com Maria Isabel de Sousa Martins (sobrinha do Doutor Sousa Martins), assim como ginasta e jogador de futebol amador.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua do falado Nélson de Barros

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Nélson de Barros, autor das letras de Fado Falado ou do conhecido popularmente como 20 Anos, passou a ser o topónimo do troço da Estrada da Circunvalação situado entre a Calçada da Cruz da Pedra e a Estrada de Chelas, seis anos após o seu falecimento.

Com a legenda «Escritor Teatral/1914 – 1966», nasceu pelo Edital municipal de 1 de fevereiro de 1972 a Rua Nélson de Barros que hoje une a Calçada da Cruz da Pedra à Avenida Afonso III. O então presidente da edilidade, Engº Santos e Castro solicitou parecer à Comissão Municipal de Toponímia para a inclusão na toponímia de Lisboa dos nomes de Nélson de Barros e Silva Tavares, ambos ligados ao teatro de revista, de que resultou a inclusão de ambos, pelo edital supracitado ficando o primeiro na então freguesia de São João e o segundo, na freguesia do Lumiar.

Nélson de Barros (1914 – 1966) distinguiu-se sobretudo como autor de teatro de revista, situação em que também escreveu as letras de vários fados, sendo da sua autoria o Fado Falado um recitativo sobre o fado, celebrizado por João Villaret (1947), para a revista Tá Bem ou Não Tá? que escreveu em parceria com Aníbal Nazaré e António Ascensão Barbosa. Ainda com Aníbal Nazaré escreveu o folhetim radiofónico Lélé e Zéquinha, interpretado por Vasco Santana e Irene Velez como protagonistas, bem como com Elvira Velez a interpretar a sogra, que entre 1947 e 1952 foi um sucesso na Emissora Nacional e no Rádio Clube Português.

Em parelha com Aníbal Nazaré e António Ascensão Barbosa, Nélson de Barros foi autor de vários sucessos nos teatros do Parque Mayer nas décadas de 40 e 50 do século XX.  Foi na revista Ora vai tu! , que escreveu com Aníbal Nazaré em 1940, que se estreou como atriz Amália Rodrigues. Em 1943, de parceria com António Porto e Aníbal Nazaré escreveu a revista de sucesso Cantiga da Rua, com músicas de António Melo e Jaime Mendes, com interpretações de Costinha, Luísa Durão,  Barroso Lopes, Mirita Casimiro, Natália Viana  e Vasco Santana. Nos anos 50, recordam-se a revista em dois atos Mulheres há muitas (1954), escrita com Aníbal Nazaré, Ascensão Barbosa, Carlos Lopes e Vasco Santana, que a Censura aprovou com cortes e foi representada no Teatro Variedades, bem como a coautoria com José Viana, na estreia deste último na escrita, na revista Mulheres à Vista (1959). Nos anos 60, assinou com Fernando Santos a primeira revista do Capitólio, A Vida é Bela (1960), cujo elenco incluía Raul Solnado, Humberto Madeira, Carlos Coelho ou Helena Tavares e música de Frederico Valério. Aliás, Raul Solnado considerou-o «grande jornalista e o maior autor de revistas que conheci».

Refira-se ainda que Nélson de Barros, foi um dos colaboradores do jornal humorístico lisboeta Os Ridículos, nascido em 1895 e com novo fôlego a partir de 1905, com Esculápio a ajudar a Cruz Moreira – o Caracoles – a dirigir, onde também escreviam  Aníbal Nazaré, Borges de Antão, Casimiro Godinho, Sousa Pinto, Xavier de Magalhães e onde pontuavam os desenhos e caricaturas de Stuart Carvalhais. Por isto, não se estranha que Nélson de Barros tenha sido o compilador e organizador de Stuart 1914-1966, publicado em 1962, com prefácio de Leitão de Barros.

Dos vários fados que criou com música de Frederico Valério, foram êxitos A Rua dos Meus Ciúmes ou o Primeiro Amor, também conhecido popularmente como 20 Anos, cuja letra aqui deixamos:

Ai quem me dera
ter outra vez vinte anos
Ai como eu era
como te amei, Santo Deus!
Meus olhos pareciam dois franciscanos
À espera do céu que vinha dos teus

Beijos que eu dava
ai como quem morde rosas
Como te esperava
na vida que então vivi
Podiam acabar os horizontes
Podiam secar as fontes
mas não vivia sem ti

Ai como é triste,
de o dizer não me envergonho
Saber que existe
um ser tão mau, tão ruim
Tu que eras o ombro para o meu sonho
Traíste o melhor que havia em mim

Ai como o tempo
pôs neve nos teus cabelos
Ai como o tempo
as nossas vidas desfez
Quem me dera
ter outra vez desenganos
Ter outra vez vinte anos
para te amar outra vez

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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Armando Cortez dá morada ao Teatro Aberto

Freguesia de Campolide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Armando Cortez  somou  mais de 50 anos de carreira como ator, na cena de um Teatro, perante as câmaras de Televisão ou de Cinema, como uma figura inesquecível da memória cultural portuguesa, estando desde o ano seguinte à sua morte perpetuado na toponímia alfacinha, na artéria que dá morada ao Teatro Aberto.

A Rua Armando Cortez, que liga a Rua Ramalho Ortigão à Avenida Calouste Gulbenkian, foi atribuída pelo Edital municipal de 20 de novembro de 2003, com a legenda «Actor/1928 – 2002» e a inauguração deste arruamento foi feita significativamente no dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro.

Armando Cortez e Almeida (Lisboa/23.01.1928 – 11.04.2002/Lisboa) foi ator, encenador, argumentista, produtor, e um homem sempre ligado ao teatro, fosse qual fosse a sua forma de transmissão. Filho do oficial da Marinha Luís Carlos da Cunha e Almeida e de Heloísa dos Santos Cortez, estudou na École Française de Lisbonne e logo após, fez teatro radiofónico no Liceu Pedro Nunes  para depois prosseguir estudos no Conservatório de Lisboa que concluiu com 18 valores em 1949. Ainda nesse ano estreou-se profissionalmente no Teatro Apolo, em Um Chapeú de Palha de Itália, ao lado de Canto e Castro e Rogério Paulo. Já três anos antes, em 1946, entrara em As Coéforas de Molière, no Teatro Universitário, e a sua primeira encenação data de 1948, na peça Degredados, de Virgínia Vitorino, sendo que dez anos depois, em 1958, tinha carteira profissional de encenador.

Armando Cortez trabalhou na companhia Teatro do Povo (1950), com Vasco Santana, Alves da Cunha, Maria Matos, António Silva, Ribeirinho e Nascimento Fernandes e chegou mesmo a dirigi-la. No ano seguinte, fundou o grupo Os Seis Novos e em 1952, com Maria Lalande, dirigiu uma companhia de comédia no Teatro Maria Vitória.  Depois , representou em todos os teatros de que Vasco Morgado era o empresário e fundou ainda o Teatro Moderno de Lisboa (1962) a residir no Cinema Império, com Carmen Dolores, Costa Ferreira e Fernando Gusmão, após nos dois primeiros anos da década de sessenta ter sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em França. Em 1973 dirigiu a companhia do Teatro São Luiz e, três anos depois estava na fundação da Cooperativa de Teatro Repertório (1976) que durou até 1983. Representou em mais de 150 peças de teatro, de todos os géneros, desde a comédia ao drama, da farsa à revista, sendo de destacar as suas interpretações como Lucky em  À Espera de Godot de Samuel Beckett (1959), a 1ª vez que esta obra foi apresentada em Portugal, ao lado de Ribeirinho e de Fernando Gusmão; como protagonista de Schweik na Segunda Guerra Mundial (1975) de Bertolt Brecht , ao lado Raul Solnado ou em O Diretor de Ópera (1976), ambas no Teatro Maria Matos. Em 1979, ganhou o prémio melhor ator de teatro da revista Nova Gente.

Cortez foi também o mestre de várias gerações de jovens atores que dirigiu e acarinhou, sendo ainda de referir que    dirigiu o musical Annie para o Teatro Maria Matos (1983) e  encenou outras peças como A Casa-Fronteira (1969) ou Pisca Pisca (1989), de que foi também argumentista,  tal como o foi para Quem Manda Sou Eu ou Nem o Pai Morre Nem a Gente Almoça (ambas em 1990), Primeiro Amor (1995) e para a telenovela Roseira Brava (1996).

Na televisão, Armando Cortez para além de ter participado em mais de 40 peças gravadas, de 1957 a 1978, logo em 1964, foi protagonista com Francisco Nicholson do programa Riso e Ritmo, do qual também foi o argumentista. A partir de 1984, a presença de Armando Cortez na televisão tornou-se mais constante, em inúmeras séries e telenovelas. Nas séries, destaca-se Lá em Casa Tudo Bem, de Raul Solnado, Mário Zambujal e Artur Couto e Santos e Esquadra de PolíciaA Raia dos Medos e Alves dos Reis (todas em 2000), bem como O Processo dos Távoras (2001) de Francisco Moita Flores. Nas telenovelas, sobressai a sua participação em Chuva na Areia (1984) de Luís de Sttau MonteiroPalavras Cruzadas (1986), Cinzas ( 1993), Na Paz dos Anjos (1994) de José Fanha, Roseira Brava de que foi argumentista Vidas de Sal, ambas em 1996 e Ajuste de Contas (2000). Em 1987, ganhou o prémio da revista Nova Gente para melhor ator de televisão.

No cinema, contracenou em 11 filmes portugueses, 3 franceses, dois ingleses e um alemão. Estreou-se no cinema com um pequeno papel em O Cerro dos Enforcados (1954) de Fernando Garcia. Depois, continuou entre outros, de que damos de exemplo O Dinheiro dos Pobres  (1956) de Artur Semedo;  Operação Dinamite (1967), realizado por Pedro Martins e escrito por Armando Cortez, Francisco Nicholson, Luís Campos e Colette Dubois; O Cerco  (1968) de António da Cunha Telles;  O Diabo desceu à Vila (1980) de Teixeira da Fonseca; Sem Sombra de Pecado (1982) de José Fonseca e Costa; O Desejado ou As Montanhas da Lua (1986) de Paulo Rocha; Encontro em Lisboa (1990) de Claude Boissol;  e em 1992, em três filmes:  Das Tripas Coração de Joaquim Pinto, Vertigem de Leandro Ferreira e Passagem por Lisboa de Eduardo Geada.

Armando Cortez também teve participação cívica ao ter sido Deputado na Assembleia Municipal de Lisboa, nos mandatos de 1980 a 1982 e de 1983 a 1985 e, no último grande empreendimento que acarinhou a partir de 1982: a criação, com  outros colegas de profissão, da Apoiarte – Casa do Artista, associação de reconhecido mérito social e cultural de que foi dirigente, onde em  1999 foi inaugurada a casa de repouso para pessoas do espetáculo e em cujo jardim foram espalhadas as suas cinzas.

Na sua vida pessoal, Armando Cortez apenas casou com atrizes: Fernanda Borsatti (de 1950 a 1958) e Manuela Maria (de 1967 até ao final da vida). Com a primeira, teve em 1953  José Eduardo da Fonseca Cortez e Almeida que viria a ser médico e, com a segunda, teve em 1968, Pedro Lima Cortez e Almeida que veio a ser arquiteto.

Foi lhe concedido o subsídio de Mérito Cultural em 1995 e foi agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique (2000), a Medalha de Mérito Municipal   de Oeiras  – Grau Ouro ( 1997) e o seu nome foi dado ao Auditório da Casa do Artista passando a ser o Teatro Armando Cortez (2003). E para além de Lisboa, Armando Cortez é o topónimo de ruas do Algueirão, de Almada, Montijo, Paço de Arcos,  Póvoa de Santa Iria, Santa Iria da Azóia, Unhos e Vila Franca de Xira.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Eduardo Schwalbach, o jornalista, dramaturgo e homem do Conservatório de Lisboa

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Em 1969, o jornalista, dramaturgo e homem do Conservatório de Lisboa Eduardo Schwalbach, chegou à toponímia do Bairro de Santa Cruz, 33 anos decorridos após a sua morte, junto com mais 16 nomes de figuras do séc. XIX e primeira metade do séc. XX.

A Rua Eduardo Schwalbach ficou na Rua 9, pelo Edital municipal de 10 de abril de 1969 e os outros nomes que com ele foram consagrados nesse bairro de Benfica alguns partilhavam as áreas do jornalismo, da escrita ou do teatro, como aconteceu na  Rua Actor Alves da Cunha -1889 – 1956 (na Rua 14), Rua Actor Estêvão Amarante – 1889 – 1951 (Rua 8), Rua Actor Nascimento Fernandes – 1881 – 1955 (Rua 10), Rua Actor Vasco Santana – 1898 – 1958 (Rua 12), Rua Alfredo Pimenta – Escritor/1882 – 1950 (Rua 1), Praça Artur Portela – Escritor e Jornalista/1901 – 1959, Rua Dr. Cunha Seixas – Advogado, Escritor e Jornalista/ 1836 – 1895 (Rua 15),  Rua Helena de Aragão – Escritora e Jornalista/1880-1961 (Rua 18), Rua Irene Lisboa – Escritora e Jornalista/ 1892-1958 (Rua 13), Rua Jaime Brasil – Escritor e Jornalista/1896 – 1966 (Rua 16) e  Rua Moreira de Almeida – Jornalista/1869 – 1925 (Rua 5).

Eduardo Schwalbach em casa
(Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

Eduardo Frederico Schwalbach Lucci (Lisboa/18.05.1860 – 08.12.1946) nasceu na então Rua Formosa e hoje Rua de O Século, mas foi morar com sua avó para a Travessa do Colégio, próximo do Hospital de São José e como o seu avô militar, frequentou a Escola do Exército onde chegou a alferes. Contudo, acabou por se demitir do exército para se dedicar ao jornalismo e começou a escrever para o Diário da Manhã. Em 1889, com 29 anos, fundou o diário  A Tarde e mais tarde, chegou mesmo a  dirigir o Diário de Notícias nos períodos de  1924-1939 e 1945-1946, aos 64 e aos 85 anos.

A outra paixão de Schwalbach, o teatro, conduziu-o a escrever a sua primeira peça em 1883,  Surpresas, de matriz cómica e que  subiu ao palco do teatro D. Maria II. Prosseguiu com a comédia-drama em 3 actos o Íntimo (1891) e A Srª Ministra (1898), tendo continuado com dramas, operetas, revistas e até peças infantis, de que se destacam O Dente do Maçarico, levado à cena em 1900 no Teatro da Rua dos Condes,  Retalhos de Lisboa, Anastácia & Cia, A BisbilhoteiraChico das PegasA Cruz da Esmola, Fogo SagradoO João das Velhas, Poema de Amor (1916), Postiços (1923), O Reino da Bolha,  Santa Umbelina ou Tango Cordial (1914),  sendo caricaturado por Rafael Bordalo Pinheiro como Bebé Grande ou Alegre CriançaDepois da aposentação, em 1911, dirigiu exclusivamente o Teatro Apolo, na Rua da Palma e escreveu À Lareira do Passado: Memórias (1944), publicado em edição de autor.

Eduardo Schwalbach foi ainda diretor do Conservatório de Lisboa nomeado por  João Franco, em 1893, por morte de Luís Augusto Palmeirim, com o ordenado de 12 mil réis mensais. Nesse estabelecimento de ensino foi também  professor de arte dramática e inspetor, bem como o diretor da Revista do Conservatório Real de Lisboa, publicada de maio a outubro de 1902.

Colaborou  também na revista Brasil-Portugal e trabalhou como Conservador da Biblioteca Nacional (1867), nomeado por José Luciano de Castro. Foi ainda deputado pelo Partido Regenerador de 1904 a 1908, Procurador à Câmara Corporativa em representação das Artes Gráficas e Imprensa e  redator da câmara dos Pares, nomeado por Hintze Ribeiro, cargos que deixou após a proclamação da República, à exceção do último, em que foi aposentado.

Na sua vida pessoal, viveu e falecido no nº 183 da Calçada da Estrela, onde no dia 18 de maio de 1960, a edilidade lisboeta colocou uma  lápide evocativa do 1º centenário do seu nascimento, descerrada na ocasião por Palmira Bastos. Eduardo Schwalbach está consagrado também numa rua do Estoril.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

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Xavier de Magalhães, da Maria Rapaz e Lavadeiras de Caneças, numa Rua de Marvila

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Jornalista e autor de teatro de revista e opereta, Xavier de Magalhães, o autor da revista Maria Rapaz e da letra das Lavadeiras de Caneças, está desde 1995 perpetuado numa artéria de Marvila, no Bairro do Alfenim, tendo  por companhia através do Edital municipal de 20 de março de 1995 mais 6 artérias de gente de teatro:  a Rua Sousa Bastos, o Largo Álvaro de Andrade, a Rua Bento Mântua, a Rua Ernesto Rodrigues, a Rua Lino Ferreira e o Largo Vitoriano Braga.

Com a legenda «Autor Teatral/1885 – 1948», a Rua Xavier de Magalhães consagra Ernesto Carlos Xavier de Magalhães (Lisboa/10.07.1885 – 04.03.1948/Lisboa), escritor de teatro e jornalista. Começou a trabalhar no periódico humorístico Os Ridículos, dirigido por Cruz Moreira (1862-1930) e qual chegou a ser subdiretor, pelo que não se estranha que também tenha feito  a letra do fado de Os Ridículos, com música de Henrique M. Cabral e dedicado a  Cruz Moreira, Caracoles de pseudónimo.  Este jornal foi uma das principais folhas humorísticas da época, tendo de 1895 a 1898, a sua primeira sede na Rua Augusta, nº 47 e na segunda, de 1905 a 1963, altura em que entra Xavier de Magalhães,  já era na Rua da Barroca, 131-1º. Xavier de Magalhães também foi colaborador em  O Zé, semanário de caricaturas e humorístico publicado de 1910 e 1 de Março de 1919 e dirigido por Estêvão de Carvalho (1881-1935), sediado  na Travessa da Espera, n.º 53 – 1º.

Como autor de teatro, estreou-se aos 22 anos com a comédia Faustina e a partir de 1911 especializou-se no género da revista. A sua opereta de costumes populares em 1 prólogo e 3 atos Maria Rapaz, escrita em parceria com Silva Tavares mais  Lourenço Rodrigues e com música do Maestro Filipe Duarte, foi um êxito  na década de vinte do Século Vinte. Ficaram famosas também A Filha do Panaça  bem como a sequela O Casamento de Ernestina, filha do Panaça.

Na sua carreira, de jornalista e de escritor, usou diversos pseudónimos dos quais destacamos Rata do Teatro, Ana de Bolena, Carlos Rodrigues, Comendador Baldança, D. Maria Flor da Murta, Efémero Júnior, Epaminondas II, Eurides, Gamalhães, Irmãos Unidos, Melle Etamine ou Paim de Pamplona.

Alguns dos seus maiores êxitos passaram pelas letras que escrevia para as revistas. Como «A Alma da Guitarra»(1926), o «Fado do Carroceiro» ou o «Fado Mau» que Costinha interpretou em Cozido à Portuguesa ( 1927), o «Pé Descalço», «A Lenda da Romã» ou «Fado do Povo» para a revista Sempre Fixe,  ou «O fado do Teatro» para a revista Sempre em Pé. E para a sua revista A Rambóia (1928), Xavier  de Magalhães escreveu «As Lavadeiras de Caneças» que Amália cantará mais tarde:

Dos fregueses a conduta
é pela roupa que se prova.
Mas lavada e bem enxuta
até fica como nova.

Com Lisboa sem vaidade
a saloia pede meças.
Há mais burros na cidade
do que há burros em Caneças!

Ai bate, bate
Bate a preceito!
Ai bate, bate
Esfrega co’a mão
Batida a eito
A roupa de feição
Ó vai
Ó vai com jeito
ou com sabão!

Se por cá rebenta o fogo
entre o povo e mais a tropa,
em Caneças vê-se logo
quando a gente aparta a roupa.

Eu conheço badamecos
que só vestem roupa fina
e até lavo papo-secos
que usam cuecas de menina.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Actor Isidoro no primeiro Bairro dos Atores

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Isidoro foi um homem de teatro do séc. XIX que ficou na toponímia da cidade na Rua Actor Isidoro, uma artéria do primeiro Bairro dos Atores em Lisboa,  fixado por deliberação camarária de 23 de março de 1932 e consequente Edital de dia 31, o qual também ali colocou diversos nomes de gente do Teatro, como a Rua Lucinda do Carmo e a Rua Actriz Virgínia que ainda hoje ali vemos.

A Rua Actor Isidoro era a Rua nº 6 A do projeto aprovado em sessão de 7 de abril de 1928 e liga a Alameda Dom Afonso Henriques à Rua Actriz Virgínia. O mesmo Edital de 1932 ali colocou na Rua nº 10, a Rua Lucinda do Carmo e na nº 11, a Rua Actriz Virgínia. Também foram atribuídas por esse Edital a Rua Actor Epifânio na Rua nº 1 e a Rua Rui Chianca na Rua nº 22 mas estas não saíram da planta e nunca chegaram a ser executadas. A Rua Actor Epifânio voltou a ser atribuída em planta à Praceta do Impasse entre a Estrada Militar e a Calçada de Carriche mas voltou a não ser executada pelo que só perdurou até aos dias de hoje a partir da publicação do Edital de 26/03/1971 que colocou o topónimo na 4ª T.E. da Estrada do Desvio, na Freguesia do Lumiar. Já Rui Chianca, que era  o autor da comédia histórica O Magriço  e empenhado em reavivar esse género teatral, não regressou como topónimo.

O Palco – Revista Teatral, 20 de maio de 1912

Isidoro Sabino Ferreira (Lisboa/03.11.1828 – 23.09.1876/Lisboa) foi um ator muito popular que nasceu e faleceu (aos 48 anos de idade) na Travessa da Pereira, à Graça. Aos 11 anos já trabalhava numa oficina de chapeleiro e aos 13 era aprendiz de tecelão. Ele próprio organizava grupos amadores para representar e declamar poemas, alguns que ele próprio escrevia. Em 1847 entrou como «comparsa» – uma figuração muda e não remunerada – no D. Maria II e ali ficou por dois anos.

Em 1849, aos 21 anos, representou em público pela primeira vez, no Teatro de Almada e a cobrar bilhete a quem estava a banhos na Outra Banda. Foi também no mesmo ano que se estreou como profissional, na comédia Uma Fraqueza, no  Teatro de Salitre, graças ao ator Taborda que foi seu padrinho artístico e que mais tarde, em 1853, também  o levará para o Ginásio, onde  em 1855, fez a sua primeira revista, ao lado de Taborda e da vedeta francesa Emília Letroublon, conseguindo vibrantes aplausos em dois papéis cómicos – o Enviado do Brasil e o Neptuno do Chafariz do Loreto – e foi para esse elenco que Isidoro escreveu a Revista de 1862. Será ainda com Taborda que fará sociedade para ser empresário do Teatro de Almada, cujo público era constituído sobretudo por famílias a banhos.

Em 1856, Isidoro mudou para o elenco do Variedades, nova denominação do antigo Teatro do Salitre,  que por ele pagou uma indemnização de 400 mil réis. Sete anos depois, em  1863, passou a ser ator residente do D. Maria II , estreando-se em Os Mistérios de um Nigromante, tendo sido classificado pelo conselho dramático como ator de 1ª classe. O ator Isidoro revelou-se quer na comédia quer no drama e foi mestre dos atores António Pedro e Joaquim de Almeida.

Refira-se ainda que o ator Isidoro participou na inauguração do Teatro da Trindade em 1867, no elenco da primeira peça, A Mãe dos Pobres, de Ernesto Biester. Mas Isidoro também se dedicou a fazer traduções de peças e a escrevê-las, de que são exemplo Um homem sem inimigos : revista em 3 actos e 6 quadros (1862), Sem jantar : comedia em um acto (1863), Em quarta feira de cinza! : scena cômica original (1867), Fóra d’horas : comédia em um acto (1873), para além de colaborar  em vários jornais.

Júlio César Machado, que escrevera propositadamente O Tio Paulo para ele interpretar, também lhe escreveu a biografia em 1859 e o próprio Isidoro reproduziu-a quase na íntegra na suas Memórias (1876), acrescentando pormenores rigorosos como ter visto subir o pano 9177 vezes e ter ganho em 26 anos de carreira 17.412$970 réis.

Isidoro Ferreira foi ainda agraciado como cavaleiro da Ordem de Santiago, de mérito científico, literário e artístico, em 1875. Camilo Castelo Branco menciona-o mesmo nas suas Novelas do Minho: «Por fim, o enjeitado, erguendo-se de salto e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupila fulva do Sr. Isidoro Sabino Ferreira na tragédia, disse com o esbofar das angústias vertiginosas: – Assim com’assim… mato-me!»

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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