A Rua Maria José da Guia no «Bairro das Marias»

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Bairro da Cruz Vermelha, conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu no ano 2000 mais três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia e um desses três foi a Rua Maria José da Guia.

A Rua Maria José da Guia,   com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota do Bairro da Cruz Vermelha, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres, ambas homenageando também fadistas, tendo a cerimónia de inauguração ocorrido em 27 de junho de 2001.

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou Maria José da Guia como nome artístico foi uma das protagonistas nascidas para o Fado na década de 40 do século XX. Desde os quatro anos que morava em Alfama e foi nesse Bairro que começou a cantar tendo até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentada num corpo vestido de negro e xaile traçado cantou por várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, sendo de referir o ter integrado os os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado.

Maria José da Guia celebrizou fados como Coimbra ou Lisboa Antiga – ambos com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Barro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão), Não é Preciso (letra de José António Sabrosa e música de Guilherme Pereira da Rosa) ou A Saudade que me deste (letra de Fernando Peres e música de António Bragança).

No Fado, Maria José da Guia foi ainda madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter entrado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos.

Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Maestro Frederico de Freitas, autor do fado Rua do Capelão

Freguesia de São Domingos de Benfica                                             (Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Maestro Frederico de Freitas, autor das partituras dos filmes A Severa (1931) e Fado (1948), passou a ser o topónimo de uma Rua de São Domingos de Benfica três anos após o seu falecimento, sendo o 1º filme sonoro português sobre a 1ª fadista que o tornou popular e nele pontuou o seu fado Rua do Capelão, ainda hoje uma memória muito presente no imaginário português.

A Rua Maestro Frederico de Freitas, que une a Rua Cidade de Rabat  à Rua Augusto Pina, foi atribuída pelo Edital municipal de 11 de novembro de 1983 na Rua 2 (entre a Rua Augusto Pina e a Rua dos Soeiros), também identificada como Prolongamento da Rua Augusto Pina, artéria onde desde 1972 estava sediada a então Escola Preparatória Prof. Delfim Santos, a partir de uma solicitação da Sociedade Portuguesa de Autores, que além do nome de Frederico de Freitas propôs os escritores Pedro Bandeira e José Galhardo, assim como o ator Paulo Renato, tendo sido todos incluídos no mesmo Edital.

Frederico Guedes de Freitas (Lisboa/15.11.1902- 12.01.1980/Lisboa) notabilizou-se como compositor, maestro, pedagogo, musicólogo e crítico musical. Revelou-se um músico abrangente e eclético, do fado à música erudita. Somou música erudita, como por exemplo, Concerto para Flauta,  Hino Asas AtlânticasMissa SoleneQuarteto ConcertanteRibatejo  ou Suite Medieval, com música produzida para cinema, teatro ou dança. Adicionou ao património musical português tanto música de câmara como Quinteto de sopros ou Dez Canções Galegas como música sinfónica ( A Lenda dos BailarinosSuite Africana ou Sinfonia Os Jerónimos ), música para comédias, óperas, operetas, revistas (1927 – 1937) e até filmes como Pátio das Cantigas ou As Pupilas do Senhor Reitor (de Leitão de Barros como A Severa), de 1930 e até 1947, fazendo música tanto destinada ao público do Parque Mayer como ao do Teatro Nacional de São Carlos.

Funcionário da  Emissora Nacional entre 1935 e 1975, como Segundo Maestro da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional,  tanto colaborou em 1940 nas comemorações da celebração do Estado Novo  como esteve na fundação da Sociedade Coral de Lisboa (1940-1949) para apresentação de obras do repertório coral sinfónico. Depois, na Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto (1949-1953), dirigiu as primeiras audições no Porto de obras de Fernando Lopes Graça, um resistente musical durante o Estado Novo. Acresce que Frederico de Freitas foi o compositor português de música sacra mais destacado do século XX, autor de As Sete Palavras de Nossa Senhora, tal como foi o responsável por orquestrar A Portuguesa e Grândola Vila Morena. A sua versatilidade revela-se no índice do seu catálogo musical que junta Bailado, Música de Câmara, Música para Cinema, Música Coral, Harmonizações, Hinos, Música para Instrumento Solista, Música de Cena, Ópera, Opereta, Música Sinfónica, Orquestrações, Música de Teatro de Revista, Vaudeville, Voz e Piano. Registe-se ainda que Frederico de Freitas também exerceu  funções de chefe de orquestra no Brasil, na Bélgica, em Espanha, França, Holanda, Itália e Suíça.

Frederico de Freitas  foi  ainda docente de Canto Coral, a partir de 1924, no Liceu Camões (onde fora aluno em 1913 e 1914) e no Liceu Gil Vicente, assim como desde  1967, ensinou Composição, Contraponto e Fuga no Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa. Na dança, também trabalhou como diretor musical e compositor na Companhia de Portuguesa de Bailado Verde Gaio fundada pelo Secretariado de Propaganda Nacional/SPN (1940 – 1950), assim como compôs música para dança para o seu amigo de juventude e coreógrafo Francis Graça durante a década de 1940. Somou ainda a direção musical da delegação portuguesa da His Master’s Voice na transição para a década de 1930 e a função de crítico musical no jornal Novidades, sendo ainda autor de vários estudos como «O fado, canção da cidade de Lisboa» ou «O fado veio do Brasil».

Refira-se que Frederico havia iniciado os seus estudos de música com a sua mãe, a pianista Elvira Cândida Guedes de Freitas e a partir de 1915 no Conservatório Nacional em Lisboa. Morou na Rua do Prior Coutinho, entre a Rua de Santa Marta e a Rua do Passadiço. Em 1918, aos 16 anos, compôs as suas primeiras obras – Duas Ave Marias –, cuja primeira audição pública ocorreu em 1922.  Concluiu o curso de Composição no Conservatório Nacional em 1925, e foi seleccionado para Pensionista do Estado no estrangeiro nesse mesmo ano, o que lhe possibilitou a realização de viagens a vários países europeus em 1927 e 1928.

Foi um dos mais empenhados membros da Sociedade Portuguesa de Autores, em cuja fundação participou quando tinha 23 anos (era então denominada Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses) e da qual foi mais tarde Presidente de Honra. Frederico de Freitas foi também agraciado, por ordem cronológica, com  Prémio da CML para a Sonata Violino e Violoncelo (1924), o Prémio Nacional de Composição Carlos Seixas (1926), o Prémio de Composição Domingos Bomtempo ( 1935), a Comenda de Santiago de Espada (1967), o seu nome dado ao Auditório da SPA (1981).

Em 2010,  o espólio do compositor Frederico de Freitas foi doado à Universidade de Aveiro pela filha do compositor, Elvira de Freitas, tendo dois anos depois sido também instituído o Prémio de Interpretação Frederico de Freitas/Universidade de Aveiro.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Leitão de Barros, do realizador da Severa e criador das Marchas Populares

Leitão de Barros, o realizador de A Severa o primeiro filme sonoro português, exibido em 1931 – e  criador das Marchas Populares de Lisboa em 1932, conhecido como o homem dos sete instrumentos, teve o seu nome perpetuado numa Rua de São Domingos de Benfica, pelo Edital municipal de 4 de novembro de 1970, três anos após o seu falecimento.

A Rua Leitão de Barros resultou de uma sugestão do próprio Presidente da edilidade de então, Engº Santos e Castro,  e ficou no 1º Impasse à Rua Padre Francisco Álvares e pelo mesmo Edital municipal o 2º Impasse ficou para a Rua Raquel Roque Gameiro, cunhada de Leitão de Barros e igualmente ilustradora como Helena Roque Gameiro.

José Júlio Marques Leitão de Barros (Lisboa/22.10.1896 – 29.06.1967/Lisboa), homem dos sete ofícios, foi professor do ensino secundário, pintor, cenógrafo, dramaturgo e ainda, jornalista e cineasta (as duas áreas pelas quais ganhou mais fama), bem como aquilo que hoje designaríamos como produtor de eventos.

Foi o pioneiro da primeira geração de cineastas do sonoro, sendo seu o primeiro filme sonoro português, A Severa, em 1931, a partir do romance de Júlio Dantas. Leitão de Barros começou em 1918 como cineasta com Malmequer e Mal de Espanha, distinguindo-se depois pelas suas super produções históricas como Bocage (1936), Inês de Castro (1945) ou Camões (1946), para além de Maria do Mar (1930), Lisboa, Crónica Anedótica (1930), As Pupilas do Senhor Reitor (1935),  Maria  Papoila (1937), Ala Arriba! (1942) ou Vendaval Maravilhoso (1949), no qual Amália Rodrigues integrou o elenco.  No documentário, salientam-se os seus Sidónio Pais – Proclamação do Presidente da República (1918), Nazaré (1927),  Legião Portuguesa (1937), Mocidade Portuguesa (1937), A Pesca do Atum (1939), Comemorações Henriquinas (1960), A Ponte da Arrábida Sobre o Rio Douro (1961) ou A Ponte Salazar sobre o Rio Tejo em Portugal (1966).  Leitão de Barros foi também o principal animador da construção dos estúdios da Tobis Portuguesa, na Quinta das Conchas, no Lumiar.

Leitão de Barros frequentou a Faculdade de Ciências e a de Letras mas  acabou por concluir o curso de arquitetura na  Escola de Belas Artes de Lisboa e o curso da Escola Normal Superior de Lisboa, após o que   foi professor de Desenho, Geometria Descritiva e Matemática nos liceus Camões e Passos Manuel. Casou em 17 de agosto de 1923 com a ilustradora Helena Roque Gameiro (1895 – 1986), a 2ª filha de Alfredo Roque Gameiro.

Em 1916 iniciou-se no jornalismo. Fundou e dirigiu O Domingo Ilustrado (1925-1927) e O Notícias Ilustrado (1928-1935). Colaborou nos jornais O Século – onde criou O Século Ilustrado e a Feira Popular de Lisboa, em 1943 -,   A Capital,  ABC, assim como na revista Contemporânea e na de cinema Movimento, tendo sido o Diário de Notícias a sua última tribuna, de 1953 a 1967, onde saía aos domingos a sua crónica semanal «Os Corvos».

Nas décadas de trinta e quarenta, Leitão de Barros investiu em eventos de animação da cidade. Começou as Marchas Populares em 1932, no Capitólio, para revitalizar o Parque Mayer, sendo que em 1934 já foram cerca de 300 mil pessoas que assistiram ao desfile da Praça do Comércio ao Parque Eduardo VII. Depois, foram os monumentais cortejos como o Cortejo das Viaturas (1934), os Cortejos das Festas da Cidade (em 1934 e 1935), o da Embaixada do século XVIII (1936),  o Cortejo e o Torneio Medieval dos Jerónimos (1938) e o Cortejo Histórico de Lisboa (1947).  Em 1939 e 1940, foi o Secretário Geral da Exposição do Mundo Português e o  responsável pela Nau Portugal.  Foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 1935 e com o Grande- Oficialato da Ordem Militar de Cristo em 1941. Também foi o organizador das receções triunfais a Franco (1949) e à Rainha Isabel II (1957).

Como pintor, dispunha de  ateliê na Rua D. Pedro V e expôs em museus portugueses, no Museu de Arte Contemporânea de Madrid e ainda, no Brasil. Foi também cenógrafo e dramaturgo de muitas peças que subiram à cena em Lisboa, nomeadamente no Teatro Nacional, para além de ter sido diretor da Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua Frederico George, membro da 2ª Comissão Municipal de Toponímia pós 25 de Abril

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O arqº Frederico George integrou a 2ª Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa pós 25 de Abril, a de 1976, e passou a dar o seu nome a uma Rua de Telheiras, na freguesia do Lumiar, dois anos após o seu falecimento.

Esta 2ª Comissão Municipal de Toponímia foi designada por despacho de 14 de junho de 1976 e realizou a sua primeira reunião no dia seguinte. De acordo com as Atas, era presidida pelo Dr. Augusto de Azeredo Costa Santos e tinha como membros o Dr. Fernando Castelo Branco em representação da CML, e mais três personalidades convidadas: o Dr. Jacinto Baptista, o Prof. Dr. José Augusto França e o Prof. Arqtº Frederico George. No último mês de 1976, passou a ser presidida pelo Dr. Orlando Martins Capitão contando com o Dr. Fernando Castelo Branco e o Prof. Arqtº Frederico George como membros.

Um princípio essencial definido por esta Comissão, na esteira do já defendido pela primeira pós 25 de Abril, foi o de não alterar toponímia tradicional, como se pode ler na Ata da reunião de 15 de junho de 1976: «O professor doutor José Augusto França, lembrou a existência de nomenclaturas tradicionais na toponímia de Lisboa, e propôs que, só em casos muito excepcionais, se encarasse a hipótese da sua alteração, não só pelas razões que lhes deram origem, como ainda porque essas alterações provocam sempre grandes inconvenientes, quer para os munícipes, quer para os próprios serviços. Submetida à votação, foi a referida proposta aprovada por unanimidade.»

A Rua Frederico George, com a legenda «Arquitecto e Pintor/1915 – 1994», situada  a partir da confluência da Rua Prof. Prado Coelho e a Rua Armindo Rodrigues até chegar à Rua Daniel Santa Rita, foi atribuída por Edital municipal de 24/09/1996 à Rua B do Alto da Faia e Rua A de Telheiras Norte III. Mais tarde, juntar-se-ão nas proximidades, também em Ruas, os arqºs Daniel Santa Rita (16/02/2005) e Conceição Silva (Edital de 01/08/2005).

autorretrato de Frederico George de 1939

Frederico Henrique George (Lisboa/15.11.1915- 26.01.1994/Lisboa), nascido na freguesia de Santa Isabel, filho de pai inglês e mãe portuguesa, estudou à noite na Escola de Artes Decorativas António Arroio e formou-se em pintura (1936) e em arquitetura (1950) pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, seguindo uma carreira de cenógrafo, arquiteto, designer e professor universitário.

É obra sua na cidade de Lisboa o Museu da Marinha (1962) e o Planetário Calouste Gulbenkian (1965) , em Belém, zona onde já havia participado nas pinturas murais da Exposição do Mundo Português (1940), bem como com Manuel Magalhães e Daciano Costa, o Hotel Penta (1975) ou o edifício de escritórios do Metropolitano de Lisboa (1983), a recuperação do Palácio Pancas Palha (1991) e o Pavilhão Gimnodesportivo do Casal Vistoso (1992). Frederico George também desenvolveu os planos de recuperação do Palácio Fronteira (1958 e 1988) e diversos projetos de análise do território e urbanismo para a Câmara Municipal de Lisboa e para o Ministério das Obras Públicas (1969 a 1976) como os blocos de habitação social em Olivais Sul de 1961-1963; executou as Exposições comemorativas do V Centenário do Infante D. Henrique (1958-1960), o Pavilhão de Portugal na Exposição Comemorativa do IV Centenário da cidade do Rio de Janeiro (1964) e com Daciano Costa, traçou o Pavilhão de Portugal da Expo Internacional de Osaka (1970).

Como professor, Frederico George começou nas escolas de ensino técnico de Lisboa e Setúbal e a partir de 1940 na Escolas de Artes Decorativas António Arroio – onde veio a introduzir o ensino do Design – para a partir de 1957, ser Professor do Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, desempenhando assim um importante papel pedagógico na formação dos artistas da geração seguinte. Sofreu um interregno de 1948 a 1955, período em que foi exonerado da docência por ter subscrito a candidatura do General Norton de Matos à presidência da República. Também no seu atelier reuniu um conjunto de colaboradores que continuaram o seu legado, particularmente no desenvolvimento e ensino do Design em que foi pioneiro, como Daciano Costa, Fernando Conduto e Sena da Silva. Refira-se ainda que Frederico George participou na 1.ª Exposição de Design Português (em 1971) e defendeu com empenho a profissionalização do Designer em Portugal. Em 1972 foi encarregue pelo Ministério da Educação do estudo para a reforma do ensino de arquitetura e, em 1992, foi ainda o responsável pela criação de novos cursos universitários. Colaborou no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, editado em 1961 e publicou Considerações sobre o Ensino da  Arquitectura, a sua dissertação de 1963. 

Na sua vertente de pintor, iniciada na década de 40 do séc. XX com quadros figurativos e estrutura de raiz cubista, marcou presença na II Exposição Geral de Artes Plásticas (1947) e Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas-Artes tendo alcançado, entre outros, o Prémio Luciano Freire da Academia Nacional de Belas Artes (1936), a 1ª Medalha da SNBA (1945), o Prémio Columbano  (1946) e o Prémio Silva Porto (1947), ambos  do SNI. A sua obra está representada no Museu do Chiado e na Fundação Calouste Gulbenkian. Frederico George foi também galardoado com o oficialato da Ordem de Cristo (1941), a Grã Cruz da Ordem de Mérito (1989), o Prémio  de Arquitectura da AICA (1994) e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Técnica de Lisboa (2001).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

O Dia Mundial do Teatro pelas ruas de Lisboa

Topónimos de teatro no Chiado – Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

Na próxima 2ª feira comemora-se o Dia Mundial do Teatro e porque não aproveitar o fim de semana para passear pelas ruas de Lisboa que estão ligadas a essa arte?…

Vamos primeiro para o Chiado, para o núcleo mais antigo, onde encontramos o Largo de São Carlos fixado após 1793, a Rua Garrett (Edital de 14/06/1880) e a Travessa dos Teatros (Edital de 18/12/1893) que regista a proximidade ao Teatro de São Carlos e ao Teatro São Luiz. E recentemente, desde a publicação do Edital de 10/11/2016, que encontramos a abrir-se para a Rua Garrett o Largo de um outro dramaturgo, Luiz Francisco Rebello. Ainda no séc. XIX, foi colocada na freguesia de Alcântara  a Rua Gil Vicente (Edital de 08/07/1892), dedicada ao pai do teatro português.

No período republicano, fixaram-se três atores da mesma família através da  Rua João Anastácio Rosa (Edital de 18/11/1913) nas freguesias de Campo de Ourique e da Estrela, da Rua Augusto Rosa (17/03/1924) em Santa Maria Maior, e da Rua Actor João Rosa (27/01/1926) no Areeiro. Pelo Edital de 30 de maio de 1914, foi a vez do conhecido ator Santos Pitorra com a sua Rua José Carlos dos Santos, em Alvalade. Dez anos depois, o Edital de 17 de outubro, colocou junto ao Teatro Nacional D. Maria II, a Praça Dom João da Câmara, conhecido dramaturgo que mereceu a legenda «Figura Gloriosa do Teatro Português/1852 – 1908». Finalmente, em 18 de junho de 1926, um Edital municipal atribuiu em Benfica a Travessa Miguel Verdial , um ator que teve participação empenhada no 31 de janeiro de 1891.

Bairro dos Atores – Freguesias de Arroios e Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Em 12 de março de 1932, começou-se a construir em termos toponímicos o que se veio a chamar Bairro dos Atores, com a Rua Actor Vale, Rua Ângela Pinto, Rua Eduardo Brazão, Rua Ferreira da Silva, Rua Joaquim Costa, Rua José Ricardo, Rua Lucinda Simões, Rua Rosa Damasceno, e a Avenida Rey Colaço que nunca chegou a ser executada. A 31 de março, somaram-se no local mais 5 topónimos: a Rua Actor Isidoro, a Rua Actriz Virgínia, a Rua Lucinda do Carmo, a Rua Actor Epifânio e a Rua Rui Chianca que também não chegou a ser aberta. Mais tarde, já pelo Edital de 21 de dezembro de 1960, numa rua antes particular ficou a Rua Actor António Cardoso.  Ainda na década de trinta, por Edital de 17 de abril de 1934, ficou nas Avenidas Novas a Rua Chaby Pinheiro, um ator nascido em Lisboa.

Bairro dos Atores- Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Nos anos sessenta, voltam a ingressar na toponímia da cidade nomes de teatro. Em 4 de março de 1961, foi a vez de ser atribuída junto à Avenida de Roma a Rua João Villaret. Em 10 de novembro de 1966, o Bairro do Charquinho, em Benfica acolheu a Rua Actriz Adelina Abranches e Rua Actriz Maria Matos, a que se juntou mais tarde, pelo Edital de 04/02/1993, a Rua Elvira Velez. Ainda em Benfica, no Bairro de Santa Cruz, foram colocados pelo Edital de 10 de abril de 1969 quatro atores: a Rua Actor Alves da Cunha, a Rua Actor Estêvão Amarante, a Rua Actor Nascimento Fernandes e a Rua Actor Vasco Santana, aos quais se juntou a Rua Actor Robles Monteiro, através do Edital de 09/02/1970.

Atrizes no Bairro do Charquinho- Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

Na década de 70, logo pelo Edital de  10/11/1970, ficou perpetuada Palmira Bastos na freguesia de Marvila. No ano seguinte, nasceram a Rua Actor Epifânio no Lumiar e a Rua Actor Augusto de Melo no Beato, ambos pelo Edital de 26 de março de 1971. Ainda no Lumiar, juntou-se a 22 de junho de 1971 a Rua Actor António Silva e a 25 de outubro desse mesmo ano foi a vez da Rua Teresa Gomes, em São Domingos de Benfica, freguesia que também vai alojar no ano seguinte (Edital de 05/06/1972), numa Rua, o cenógrafo Augusto Pina.

Em 1978, foi a vez do Bairro das Pedralvas, em Benfica,  acolher a Rua Augusto Costa (Costinha), a Rua Aura Abranches, a Rua Lucília Simões e a Rua Maria Lalande, através do Edital de 31 de janeiro. Neste núcleo acrescentou-se a Rua Amélia Rey Colaço , pelo Edital de 21/08/1990. Ainda através do Edital de 31 de janeiro de 1978 mas em Carnide, foi a vez de inscrever numa rua a declamadora e escritora Manuela Porto. Na Penha de França, pelo edital de 14 de maio de 1979, acomodou-se a Rua Emília Eduarda, uma atriz que foi também a primeira mulher portuguesa a escrever uma peça de revista.

Nos anos 80, Benfica recebeu a Rua Paulo Renato (Edital de 11/11/1983), Arroios a  Rua Francisco Ribeiro (Ribeirinho) pelo Edital de 24 de abril de 1986 e as Avenidas Novas recolheram a Rua Ivone Silva e a Rua Laura Alves (ambas pelo Edital de 29/02/1988 ).

Na década de noventa, Helena Félix tomou lugar numa artéria de Alvalade através do Edital de 18/05/1992. Três anos depois, Carnide acolheu o fundador do Teatro de Carnide no Jardim Bento Martins  (Edital de 17 de fevereiro de 1995), dois dramaturgos na Rua Prista Monteiro e Rua Virgílio Martinho (Edital de 30 de setembro de 1997) e ainda, dois atores – Rua Álvaro Benamor e Rua José Gamboa – pelo Edital de 20 de Setembro de 1999. Em 16 de janeiro de 1995 foi colocada a Rua Irene Isidro no Bairro do Caramão da Ajuda. Já a freguesia de Benfica ganhou a Rua Barroso Lopes, pelo Edital de 20 de março de 1995, a mesma data em que um outro Edital faz nascer o Bairro dos Autores Teatrais no Bairro do Alfenim, em Marvila, com  o Largo Álvaro de Andrade, a Rua Bento Mântua, a Rua Ernesto Rodrigues, a Rua Lino Ferreira, a Rua Sousa Bastos, a Rua Vitoriano Braga e a Rua Xavier de Magalhães.  Já desde o Edital de 31 de agosto de 1993 que na Freguesia de Marvila estava a Rua Félix Bermudes, escritor teatral, sobretudo de comédias. Ainda nos anos 90, no Bairro do Oriente – hoje parte integrante da freguesia do Parque das Nações-, com uma inauguração oficial no dia 7 de maio de 1999, fixaram-se atores com a Rua Carlos Daniel e a Rua Mário Viegas, um desenhador e cenógrafo com a Rua Fernando Bento, e dois nomes que musicaram revistas com a Rua Jaime Mendes e a Rua Carlos Paião, bem como a Rua Palhaço Luciano, representante da mais teatral arte circense.

Já no nosso século, a considerada mãe do teatro independente, Luzia Maria Martins, deu o seu nome a um Largo de São Domingos de Benfica, pelo Edital de 26 de junho de 2001. No final desse ano, pelo Edital de 26 de dezembro foi a vez de Carnide acolher a atriz Mariana Vilar numa Rua. E em 2003, através do Edital de 20 de novembro, o arruamento entre a Rua Ramalho Ortigão e Avenida Calouste Gulbenkian, em frente ao novo Teatro Aberto, passou a ser a Rua Armando Cortez.

Nomes de teatro na Ameixoeira – Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

O último núcleo de topónimos de teatro a ser formado localiza-se na Ameixoeira, na Freguesia de Santa Clara. O Edital de 1 de fevereiro de 1993, colocou aqui a primeira atriz com a Rua Brunilde Júdice e a Rua Constança Capdeville , uma compositora precursora de obras para teatro musical em Portugal. Em 2004, juntaram-se no Vale da Ameixoeira, a Rua Fernanda Alves e a Rua Fernando Gusmão, através do Edital de 19 de abril, a que o Edital de 14 de julho veio adicionar a Rua Arnaldo Assis Pacheco, a Rua António Vilar, a Rua José Viana, a Rua Raul de Carvalho e a Rua Varela Silva. Finalmente, pelo Edital de 16 de setembro de 2009 foram ainda acrescentadas a Rua Artur Ramos e a Avenida Glicínia Quartin.

Nomes de teatro no Vale da Ameixoeira – Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

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Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

Maria Albertina, voz do vira Tricanas de Ovar e do fado de Lisboa, numa rua do Bairro da Cruz Vermelha

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A partir de uma solicitação do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar,  a edilidade promoveu a junção da Rua  C com o Largo C do Bairro Municipal da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar, para fazer nascer a Rua Maria Albertina, cerca de três meses após o falecimento desta cantora, conhecida tanto por interpretar viras como As Tricanas de Ovar como por fado de Lisboa, mas também  famosa em Lisboa por integrar o elenco de operetas e revistas.

A Rua Maria Albertina, foi atribuída pelo Edital municipal de 25 de junho de 1985, com a legenda «Cantadeira/1909 – 1985», e  nos dias de hoje liga a Rua Maria Margarida à Avenida David-Mourão Ferreira. Na época da atribuição deste topónimo, o Bairro Municipal da Cruz Vermelha – nascido em janeiro de 1967- era conhecido popularmente como o Bairro das Marias já que contava em exclusivo com topónimos com «Maria»: a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias, bem como as Ruas Maria Emília, Maria Teresa, Maria Helena, Maria Ribeiro, Maria Carlota e Maria Margarida, de que hoje apenas restam estas duas últimas. Mantendo a tradição, a edilidade lisboeta acrescentou no ano 2000 mais três topónimos com Maria, e todos ligados ao Fado: Rua Maria Alice, Rua Maria do Carmo Torres e Rua Maria José da Guia.

A fadista  Maria Albertina Soares de Paiva (Ovar/05.01.1909- 27.03.1985/Lisboa),   conhecida simplesmente como Maria Albertina, viveu grande parte da sua vida na capital, onde o seu talento de cançonetista e de intérprete de opereta e de revista atingiu assinalável êxito.

Maria Albertina começou por cantar Fado de Coimbra ainda na sua terra natal e após ter sido descoberta pelo maestro Macedo de Brito, estreou-se como cantadeira em Lisboa, em 16 de julho de 1931,  no Teatro Maria Vitória, na opereta História do Fado,  ao lado de Berta Cardoso e Maria das Neves. Logo no ano seguinte ganhou em julho o prémio Guitarra de Ouro, num concurso organizado pelos jornais Diário de Notícias e O Século no Capitólio tal como em setembro alcançou o prémio  Capacete de Ouro; em 1936 venceu o concurso Qual a mais famosa artista do teatro português? e ainda conseguiu o título de Melhor cantadeira  num concurso da Rádio Luso. Ainda nos anos 30 inaugurou o Retiro da Severa no Luna Parque e em 1934 tornou-se também atriz na revista Vista Alegre, na qual encenou com Carlos Ramos o célebre quadro de Malhoa O Fado, a que se seguiram em 1935 os sucessos de Viva a folia!,  Bola de neveO RapaSardinha assada e no ano seguinte, À vara largaFeira de Agosto, a opereta Coração de AlfamaHá festa na MourariaMaria RitaÁgua vai em 1937.

Cantou também nos teatros Ginásio, Maria Vitória, no Grémio Alentejano e no Maxim’s, no Solar da Alegria e no Salão de Chá do Café Chave d’Ouro, em esperas de touros em Vila Franca de Xira, e também em casas particulares como a da Duquesa de Palmela, do banqueiro Ricardo Espírito Santo e nos palácios do Conde da Torre e de Fontalva, para além de digressões pelo Brasil, Argentina, Espanha, E.U.A, Canadá e Paris.

Os seus maiores sucessos musicais foram Voz do Povo,  Fado Meu Filho e Bailarico Saloio e sobretudo,o vira  Tricanas de Ovar (de Aníbal de Nazaré e de Lopes Costa) criado para o teatro de revista e que em 1966 o  locutor Jorge Alves exibiu no programa da RTP Melodias de Sempre.  Em 1998, foi editado em CD uma compilação de 16 faixas  das suas músicas.

Em 1941 Maria Albertina entrou na Grande Marcha de Lisboa e a partir da década 60, e durante mais de 20 anos, cantou no Restaurante Típico O Faia, na Rua da Barroca nºs 54-56, no Bairro Alto.

No cinema, participou em A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo, cantando o fado mouraria Fado dos beijos quentes; em Bocage (1936) para cantar Bailarico Saloio e ainda integrou o elenco de Vendaval Maravilhoso (1949), ambos filmes de Leitão de Barros.

Refira-se finalmente que Maria Albertina foi mãe do locutor Cândido Mota.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do trompista e compositor Tomás Del Negro

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Del Negro, o solista de trompa e compositor que muito divulgou a música em Portugal na passagem do séc. XIX para o XX através de concertos públicos, jornais da especialidade e enquanto empresário teatral e musical, desde a publicação do Edital de 15/12/2003 que dá o seu nome a uma rua do Lumiar, a partir de uma sugestão da Comissão para a Comemoração do 150º Aniversário do Maestro Tomás Del Negro.

Esta artéria que era identificada como Rua 3.2 da Malha 15 do Alto do Lumiar  foi inaugurada oficialmente no dia 1 de outubro de 2004, Dia Mundial da Música, em conjunto com outros 7 topónimos, todos referentes à área musical: a Alameda da Música, a  Rua Adriana de Vecchi (Violoncelista/1896 – 1995), a Rua Arminda Correia (Cantora/1903 – 1988), a Rua Belo Marques (Músico/1898 – 1987), a Rua Luís Piçarra (Cantor/1917 – 1999),  a Rua Nóbrega e Sousa (Músico/1913 – 2001) e a Rua Shegundo Galarza (Músico/1924 – 2003).

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Joaquim Thomaz del Negro (Lisboa/05.06.1850 – 12.02.1933/Lisboa), oriundo de uma família italiana que cultivava a arte musical e estava estabelecida no alto comércio de Lisboa desde finais do séc. XVIII, nasceu na freguesia de Santos-O-Velho e foi batizado  na Igreja  de Nossa Senhora do Loreto. Distinguiu-se como uma das figuras mais conhecidas da música e do teatro da última metade do séc. XIX e primeiro quartel do séc. XX.

Notabilizou-se como solista de trompa do Teatro Real de São Carlos (até 1878 e depois de 1890), e em Madrid, na Capela e Teatro Real (de 1879 a 1889). Como compositor ficou conhecido por diversos géneros de música (sacra, de câmara, para piano, para trompa, para banda filarmónica), mas sobretudo, pela autoria de música para teatro e operetas. Divulgou a música sinfónica e de câmara, dando a conhecer pela primeira vez ao público de Lisboa obras de grandes compositores como Beethoven, Haydn, Mendelssohn, Wagner, Weber, Glimka e Saint-Saens.

Del Negro foi também dirigente da Associação Música 24 de Junho, fundada por Francisco Norberto dos Santos Pinto, assim como professor de trompa, durante 27 anos, no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, para além de ter sido diretor musical e coproprietário de O Álbum-Jornal de Música para Piano (1869-1871), diretor musical de O Mundo Artístico – Gazeta Musical de Lisboa (1883) e colaborador e crítico musical de inúmeros jornais e revistas como Perfis artísticos (sob o pseudónimo de Ruy Blas), A semana Musical e a Semana. Foi também empresário e diretor musical dos Teatros D. Afonso,  Carlos Alberto, Real de S. João e Príncipe Real, todos no  Porto, bem como do Teatro da Trindade, em Lisboa.

Tomás Del Negro foi condecorado com as Ordens portuguesas de Cristo e de Santiago de Espada, assim como com a Ordem espanhola de Isabel-a-Católica e chegou a existir um concurso para trompistas com o seu nome.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da compositora pioneira do teatro-música Constança Capdeville

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A compositora Constança Capdeville, pioneira do teatro-música e muito conhecida pela sua Libera Me, foi inscrita na toponímia de Lisboa a partir de uma sugestão da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, na Rua B da Quinta da Torrinha à Ameixoeira, através do Edital municipal de 01/02/1993,  que colocou também nas ruas próximas os nomes do cantor lírico Hugo Casaes, dos compositores Rui Coelho e Jorge Croner de Vasconcelos e ainda da atriz Brunilde Júdice.

Freguesia de Santa Clara - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Constança Capdeville  (Barcelona/16.03.1937 – 04.02.1992/Caxias) escreveu cerca de 80 obras distribuídas por vários géneros, que vão da música para orquestra à música para teatro e cinema, passando pela música para dança e até a espetáculos cénico-musicais.

Constança veio viver para Portugal em 1951, e aqui continuou  os seus estudos musicais no Conservatório Nacional de Música, em piano com Varela Cid e, em composição, com Jorge Croner de Vasconcelos. Mais tarde, frequentou os Cursos especiais de Musicologia, Interpretação de Música Antiga e Técnica de Acompanhamento sob a orientação do Professor Macário Santiago Kastner.

Através da Fundação Calouste Gulbenkian, Capdeville participou em trabalhos musicológicos na Biblioteca da Ajuda e na Biblioteca Nacional, tendo ainda colaborado com Mário de Sampaio Ribeiro num estudo relativo ao tratado Lux Bella, de Domingos Marques Durán. Em 1962, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, trabalhou com o compositor Philip Jarnach e nesse mesmo ano recebeu o Prémio de Composição do Conservatório Nacional de Lisboa, atribuído à sua obra para órgão Variações sobre o nome de Igor Stravinsky.

Constança trabalhou inúmeras vezes como compositora e intérprete na Orquestra Universitária de Lisboa. Foi ainda pianista e percussionista, nos Menestréis de Lisboa, no grupo de música de câmara Convivium Musicum que fundou, no Grupo de Música Contemporânea de Lisboa dirigido por Jorge Peixinho, assim como foi percussionista convidada na Orquestra Gulbenkian. Em 1969, por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, Constança Capdeville compôs Diferenças Sobre um Intervalo, cuja 1ª audição foi dada pela Orquestra Gulbenkian no XIII Festival de Música Gulbenkian.

Como compositora Constança Capdeville produziu na juventude peças para piano e mais tarde, música de câmara e sinfónica, bem como para a orquestra e o bailado da Fundação Gulbenkian, sendo a sua produção mais famosa Libera Me. Foi a precursora da escrita de obras para teatro musical em Portugal, ao fundar e dirigir um grupo pioneiro de teatro musical nos anos 80:  o ColecViva, que criou  a obra de referência Don’T Juan ( 1985). Com o compositor António de Sousa Dias criou o Opus Sic, com obras de sons sintetizados, que gerou a música para o bailado de Margarida Bettencourt, Io sono una piccola bambina e a banda sonora para o filme de António Macedo A Maldição de Marialva. Capdeville, numa estética ligada à então música contemporânea, apostou em novas formas de comunicação com o público.

Foi ainda professora de música na Academia de Música de Santa Cecília, no Conservatório Nacional de Lisboa, na Escola Superior de Música de Lisboa e, a partir de 1980, no Departamento de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa, onde lecionou História e Problemática da Interpretação, bem como Análise da Música do Séc. XX.

Constança Capdeville integrou a Direção do Conselho Português da Música e a Associaciò Catalana de Compositors de Barcelona. Foi agraciada com a Medalha de Mérito Cultural pelo Conselho Português de Música (1990) e com o Grau de Comendador da Ordem de Santiago de Espada (1992), a título póstumo. O espólio da compositora foi doado à Biblioteca Nacional de Portugal, onde integra a coleção de Música.

Freguesia de Santa Clara

Freguesia de Santa Clara

A Avenida do mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

Como se fosse o braço de uma guitarra portuguesa está a Avenida Carlos Paredes, sendo o corpo do instrumento os arruamentos com topónimos ligados à música, de ambos os lados, e a Alameda da Música um dedo a tanger as cordas.

O que quer dizer mais prosaicamente que o mestre da guitarra portuguesa Carlos Paredes ficou perpetuado na freguesia do Lumiar, na Avenida 2 do Plano de Urbanização no Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 06/10/2005,  junto à Alameda da Música e de outras ruas com topónimos de compositores, instrumentistas e cantores, sendo a primeira vez que um nome ligado à Música foi consagrado numa avenida de Lisboa.

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Carlos Paredes (Coimbra/16.02.1925 – 23.07.2004/Lisboa), símbolo ímpar da cultura portuguesa e um dos seus grandes guitarristas, nasceu filho, neto e bisneto de grandes vultos da guitarra portuguesa – Artur, Gonçalo e António Paredes -, o que o influenciou a estudar  este instrumento logo a partir dos 4 anos. Veio residir para Lisboa aos 9 anos, estudou no Liceu Passos Manuel e num colégio particular e aos 18 anos fez o exame de admissão ao Curso industrial do Instituto Superior Técnico, onde frequentou o primeiro ano.

Em 1949, aos 24 anos, apresentou-se em parceria com o seu pai no programa semanal deste na Emissora Nacional e nesse mesmo ano tornou-se funcionário do Hospital de São José, como arquivista de radiografias. Em 1958 aderiu ao Partido Comunista Português e por denúncia de colegas de trabalho, foi preso pela PIDE no dia 26 de setembro acusado de ser militante comunista, sendo libertado 18 meses depois e expulso da função pública, pelo que trabalhou alguns anos como delegado de propaganda médica.

E contudo, Carlos Paredes tornar-se-á uma figura nacional e até reconhecida internacionalmente, como executante, compositor e um dos grandes responsáveis pela divulgação e popularidade da guitarra portuguesa, o que lhe granjeou os epítetos de O Mestre da guitarra portuguesa e O homem dos mil dedos. Usou uma guitarra de Coimbra e a afinação do Fado de Coimbra mas a sua vida em Lisboa inspirou-lhe e marcou inúmeras das suas composições.

A sua discografia soma os singles  Mudar de Vida, António Marinheiro e Balada de Coimbra (todos em 1972); os EP’s Carlos Paredes (1957), Porto Santo, Divertimento e  Variações em Ré Menor (todos em 1968); bem como os álbuns Guitarra Portuguesa (1967), Movimento Perpétuo (1971), Carlos Paredes-Meister der portugiesischen Guitarre (1977, na RDA), O Oiro e o Trigo (1980, na RDA), Concerto em Frankfurt (1983), Espelho de Sons ( 1988), Na Corrente (1996), Canção para Titi (2000). Acrescem ainda os seguintes: acompanhou Ary dos Santos a declamar poemas (1969) ; foi  produtor, diretor musical e acompanhador em Meu País (1971) da cantora Cecília de Melo; É preciso um País (1974), música com poemas de Manuel Alegre declamados pelo poeta; colabora em Que Nunca Mais (1975) de Adriano Correia de OliveiraInvenções Livres (1986) em dueto com o piano de António Vitorino de Almeida; Dialogues (1990) em dueto com o contrabaixista de jazz Charlie Haden; participação especial no disco dos Madredeus, gravado ao vivo no Coliseu dos Recreios (1992).

Para o cinema entrou  em 1960, ao compor a banda sonora da curta-metragem Rendas de Metais Preciosos de Cândido Costa Pinto, a que seguiu dois anos depois o êxito de Os Verdes Anos para o realizador Paulo Rocha, de que sairá também um EP no mesmo ano de 1962. E durante está década foi pródigo em ligar-se ao cinema novo português ao compor para filmes de outros cineastas como Pierre Kast (P.X.O., 1962), Jorge Brun do Canto (Fado corrido, 1964), Manoel de Oliveira (As pinturas do meu irmão Júlio,1965), Paulo Rocha (Mudar de vida, 1966), António de Macedo (Crónica do esforço perdido, 1966), José Fonseca e Costa (A cidade, 1968; The Columbus route, 1969), Manuel Guimarães (Tráfego e estiva, 1968) ou Augusto Cabrita ( Na corrente, documentário para a RTP, 1969). Em 1974 o próprio Pier Paolo Pasolini o convidou para musicar um filme seu mas a morte do realizar inviabilizou o intento.

Mas Paredes também compôs para teatro: na histórica encenação de Fernando Gusmão para o Teatro Moderno de Lisboa (1964);nas Bodas de Sangue do CITAC; em A Casa de Bernarda Alba pelo Teatro Experimental de Cascais; em O avançado centro morreu ao amanhecer encenada pelo Grupo de Teatro de Campolide (1971), mantendo até 1977 colaboração com este Grupo; O Avarento produzida pelo Teatro Na Caixa (1984).  Vasco Wallenkamp    também usou a    música de Paredes para criar o bailado Danças para Uma Guitarra (1982).

Após o 25 de Abril de 1974, Carlos Paredes  foi reintegrado nos quadros do Hospital de S. José e o anúncio televisivo diário das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte tinha música sua.

A última actuação em público de Carlos Paredes foi em Outubro de 1993, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, acompanhado por Luísa Amaro.

Ao longo da sua carreira acumulou o Prémio da Casa da Imprensa como Solista (1961), o  Prémio da Casa da Imprensa para Música Ligeira e o Prémio Consagração de Carreira (1981), o  Troféu Nova Gente, o Troféu Prestígio do Jornal Sete e  o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (todos em 1984 ), o  Prémio Antena Um em 1987 e em 1988, bem como feito Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada (1992), Pedro Jóia gravou Variações Sobre Carlos Paredes (2001), a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira instituiu um prémio com o seu nome (2002) e  em junho de 2003, a Universal lançou um disco de homenagem intitulado Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes, para além de Mísia ter lançado Canto (2003), composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes.

Uma doença do sistema nervoso central diagnosticada em dezembro de 1993 impediu-o de tocar durante os últimos 11 anos da sua vida, tendo sido decretado um dia de Luto Nacional aquando do seu falecimento e sepultado no Talhão dos Artistas do Cemitério dos Prazeres. Postumamente,  Edgar Pêra dedicou-lhe o filme Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes (2006).

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)