Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, que levaram a Benilde de Régio a cena, em ruas lisboetas

Cena de Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, no palco do Nacional, tendo como protagonista Maria Barroso com Augusto de Figueiredo
(Foto:  © CER))

Benilde ou a Virgem-Mãe,  obra de José Régio publicada em 1947 pela sucursal do Porto da Portugália, foi no final  desse mesmo ano foi levada à cena no Teatro D. Maria II, na Praça D. Pedro IV da Baixa pombalina, pela Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, tendo como protagonista Maria Barroso, numa encenação do casal Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, com interpretações também de Amélia, de Augusto Figueiredo e Erico Braga. José Régio assistiu aos ensaios finais e à estreia da peça no dia 25 de novembro.

Refira-se também que Maria Barroso, nascida em 2 de maio de 1925, foi homenageada pela Câmara Municipal de Lisboa na data que teria sido a do seu 92º aniversário,  também na Baixa pombalina, com a atribuição do seu nome à nova Escola Básica do Largo da Boa-Hora, no que outrora foi o Tribunal tristemente lembrado por condenar opositores do regime do Estado Novo.

A Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro tinha como empresários o casal de atores discípulos de Augusto Rosa que lhe davam nome, cujo relevante papel no teatro português conduziu ambos a serem topónimos lisboetas, na Freguesia de Benfica, ele através do Edital municipal de 9 de fevereiro de 1970 e ela, por Edital de 21 de agosto de 1990. José Régio trocou correspondência ora com Amélia ora com Robles, no período de agosto de 1943 a fevereiro de 1953, a propósito das suas peças e na defesa arraigada do teatro de autor.

Rua Amélia Rey Colaço, na Freguesia de Benfica

Amélia Rey Colaço foi consagrada na toponímia alfacinha logo no mês seguinte ao seu falecimento, pelo Edital municipal de 21/08/1990, na que era a Rua B, entre a Estrada de Benfica e a Rua Augusto Costa (Costinha), numa zona onde já se encontravam na toponímia outras figuras do teatro: Augusto Costa (Costinha), Aura Abranches, Lucília Simões e Maria Lalande.

Já em 1983, uma proposta aprovada pela Junta de Freguesia dos Prazeres solicitava à edilidade a atribuição de nome de Amélia Rey Colaço à Travessa do Olival naquela freguesia, mas a Comissão Municipal de Toponímia deu pareceu negativo por ir contra os critérios definidos de não alterar topónimos antigos e de a consagração na toponímia de Lisboa ser póstuma.

Amélia Smith LaFoucade Rey Colaço Robles Monteiro (Lisboa/02.03.1898 – 08.07.1990/Lisboa), filha do pianista e compositor Alexandre Rey Colaço, estreou-se no Teatro República (hoje, São Luiz) em 17 de novembro de 1917, na peça Marinela. Casou em 1920 com o também ator Felisberto Robles Monteiro, com quem  no ano seguinte também fundou a empresa teatral que a partir de 1929 teve a seu cargo o Teatro Nacional D. Maria II, até ao incêndio do teatro em 2 de dezembro de 1964. Amélia Rey Colaço despediu-se dos palcos em 1974, embora de 1978 a 1980 tenha dirigido a Companhia de Teatro Popular no São Luiz, nomeada pelo Secretário de Estado da Cultura de então, António Reis e tenha participado em Portalegre num espetáculo de homenagem a José Régio. No cinema, surgiu uma única vez, no filme Primo Basílio (1923) de George Pallu, onde aliás contracenou como o seu marido Robles Monteiro, assim como na televisão apenas integrou o elenco da série Gente Fina é Outra Coisa (1982).

Atriz, encenadora, empresária teatral e mãe da também atriz Mariana Rey Monteiro, tudo partilhado com Robles Monteiro, Amélia Rey Colaço foi agraciada com a Ordem de Instrução Pública (1933), Ordem Militar de Cristo (1967), Ordem de Santiago da Espada (1961 e 1978), o prémio da Crítica Lucinda Simões (1960), o primeiro Prémio Garrett de mérito e a Ordem das Artes e das Letras francesa (1971).

Da esquerda para a direita: Robles Monteiro, Amélia Rey Colaço e António Pinheiro no Primo Basílio (1923), de Georges Pallu
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

Robles Monteiro foi homenageado na toponímia de Lisboa quase doze anos após o seu falecimento, pelo Edital municipal de 09/02/1970, através da Rua Actor Robles Monteiro, na que era a Rua C à Rua da Venezuela ou Rua C à Rua 2 do Bairro de Santa Cruz, por sugestão do próprio Presidente da CML de então, França Borges, na proximidade  de um novo pólo toponímico de atores na cidade , no Bairro de Santa Cruz, em Benfica, com os nomes de Vasco Santana, Estêvão Amarante, Nascimento Fernandes e Alves da Cunha, criado no ano anterior, pelo Edital de 10 de abril de 1969.

Felisberto Manuel Teles Jordão Robles Monteiro (Castelo Branco/09.09.1890 – 28.11.1958/Lisboa), estreou-se no mesmo Teatro – hoje São Luiz – que Amélia Rey Colaço, pela mão de Augusto Rosa, mas quatro anos antes, em 1913, e aí desempenhou papéis de relevo em que foi muito aplaudido pelo público, tendo daí seguido para o Teatro Ginásio, na Rua Nova da Trindade. Em dezembro de 1920 casou com Amélia Rey Colaço com quem no ano seguinte criou a empresa Rey Colaço-Robles Monteiro, e onde se dedicou particularmente à encenação e à administração.

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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A Rua João Villaret, daquele que declamou Régio

Régio com João Villaret e o poeta Alberto de Serpa em 1947
(Foto: © CER)

João Villaret tornou conhecida a poesia de José Régio ao declamá-la em recitais que enchiam plateias nos teatros do país, assim como  no seu programa semanal na RTP, sendo particularmente recordadas as suas interpretações dos poemas regianos Cântico Negro e Toada de Portalegre. Acresce que a sua ligação de amizade a Régio também se fez por via epistolar.

João Villaret faleceu em 21 de janeiro de 1961 e em menos de dois meses, por Edital municipal de 4 de março de 1961, o seu nome passou a ser topónimo da Rua projetada à Avenida Sacadura Cabral ou Rua Projetada à Rua David de Sousa, também conhecida como Rua Actor Viana, correspondendo assim a Câmara Municipal às sugestões enunciadas pelos  jornais Diário PopularDiário Ilustrado e Diário da Manhã logo após o falecimento do ator alfacinha.

João Henrique Pereira Villaret (Lisboa/10.05.1913 – 21.01.1961/Lisboa) notabilizou-se como ator e declamador. Estudou no Liceu Passos Manuel e começou logo a fazer teatro amador, o que o conduziu a frequentar o Conservatório Nacional de Teatro onde se diplomou em julho de  1931 e, em outubro desse mesmo ano estreou-se no palco do Teatro D. Maria II, na companhia Amélia Rey-Colaço-Robles Monteiro, na peça Leonor Teles de Marcelino Mesquita. Depois, em 1946 ingressou nos Comediantes de Lisboa, companhia fundada dois anos antes por Ribeirinho e o seu irmão, António Lopes Ribeiro, onde desempenhou vários papéis principais. Em 1951, tornou-se o diretor artístico do Teatro Monumental. Em 1959, recebeu o Prémio Eduardo Brazão para a melhor interpretação masculina do ano e, no ano seguinte, fez o seu último espetáculo, a Ratoeira de Agatha Christie, em cuja ante-estreia foi galardoado com a Ordem de Santiago e Espada.

João Villaret escreveu ainda 5 revistas, uma opereta e uma peça em 3 atos. Também participou no cinema português, começando por  interpretar D. João VI no Bocage (1936) de Leitão de Barros, a que seguiram o mudo do Pai Tirano (1941), o bobo Martin de Inês de Castro (1945), o D. João III de Camões (1946), o Telmo Pais de Frei Luís de Sousa (1950), Cristóvão de Miranda de A Garça e a Serpente (1952), e  o Sebastião d’ O Primo Basílio (1959).

Na memória dos portugueses ficou o estilo inconfundível de recitação poética de João Villaret, que levava multidões a encherem salas para o ouvirem e a colarem os seus olhares aos ecrãs televisivos para assistir ao seu programa semanal na RTP – no período de 1958 a 1960-, tendo ficado muito populares A Procissão de António Lopes Ribeiro e o Fado Falado de Aníbal Nazaré e Nelson de Barros, estreado na revista Tá Bem Ou Não ‘Tá (1947). Na década de 50 do séc. XX, Villaret chegou a ter também um programa na televisão de São Paulo intitulado Poesia em sua casa e assim, ganhou os epítetos de Génio Dramático em Portugal e de Milagre Humano no Brasil.

Na sua correspondência publicada sabemos que além de se corresponder com José Régio, também o fazia com outros como Alfredo Cortez, António Botto, João Gaspar Simões, Miguel Torga e Palmira Bastos.

Programa de recital de Villaret de 1948, com dedicatória para Régio (Foto: © CER)

 

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A lisboeta Avenida José Régio de não sei por onde vou

Capa do primeiro livro de José Régio, publicado em 1926
(Imagem: © CER)

José Régio, o escritor vilacondense que a maioria reconhece como autor do poema «Cântico Negro», inserido em Poemas de Deus e do Diabo, edição com que em 1926 se iniciou na literatura, esteve desde 1971 para ser topónimo de Lisboa mas tal só se concretizou em 1997 com a Avenida José Régio atribuída no arruamento projectado entre a Avenida Dom Rodrigo da Cunha e a Avenida Dr. Arlindo Vicente, pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1997.

Antes de se completarem dois anos da morte de José Régio, a Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa na sua reunião de 5 de março de 1971, ao escolher topónimos para a Quinta do Morgado foi de parecer que a Rua A, incluindo o Impasse A 5, se denominasse Rua José Régio e levasse como legenda «Poeta/1901 – 1969». Todavia, cerca de quinze dias passados, na reunião seguinte da Comissão de Toponímia – em 19 de março de 1971- , o arruamento designado passou a servir para concretizar a Rua Vice-Almirante Augusto de Castro Guedes dado que o então Presidente da CML,  Engº Santos e Castro, solicitou  «indicação de arruamentos condignos para perpetuar os nomes de José Régio e Doutor João de Barros», tendo a Comissão considerado «a dificuldade de encontrar arruamentos condignos» e sugerido a Rua O da Malha I de Chelas para executar uma Avenida José Régio.

Contudo, só na reunião da Comissão de Toponímia de 9 de maio de 1997 voltamos a encontrar José Régio como prioritário na lista dos nomes em carteira, recebendo parecer favorável na reunião de 20 de junho de 1997 da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, nascendo assim pelo Edital municipal de 7 de agosto de 1997 a Avenida José Régio, com a legenda «Escritor/1901 – 1969», que mereceu cerimónia de inauguração em 12 de setembro desse mesmo ano, mês de aniversário de nascimento do homenageado.

Freguesias de Alvalade e de Marvila

José Régio foi o pseudónimo escolhido por José Maria dos Reis Pereira, nascido em Vila do Conde a 17 de setembro de 1901, cidade onde também veio a falecer em 22 de dezembro de 1969.

Em Vila do Conde, viveu a infância e adolescência e após concluir o 3.º ciclo do curso liceal no Porto, seguiu para a Faculdade de Letras de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Românica, em 1925, com a tese intitulada As correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, o primeiro trabalho que faz a apologia dos poetas da revista Orpheu. Será também em Coimbra que em março de 1927, vai fundar com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca a revista Presença, que durou treze anos e foi considerada o órgão do Segundo Modernismo. Já antes, nessa mesma década de vinte, colaborara nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista, assim como nas coimbrãs Bizâncio e Tríptico.

E no ano seguinte à conclusão da licenciatura, em 1926, publicou o seu primeiro livro: Poemas de Deus e do Diabo, com capa do seu irmão Júlio. Mas além da criação literária nas vertentes da poesia, ficção, dramaturgia, ensaio e memórias, ainda organizou antologias, somando mais de trinta obras publicadas, e manteve colaboração em jornais e revistas como crítico e polemista, nomeadamente na Seara Nova.

Em paralelo com a sua vida literária, Régio fez também uma carreira docente, em que após uma experiência como professor provisório no Liceu Alexandre Herculano do Porto, foi nomeado professor efetivo no Liceu Mouzinho da Silveira de Portalegre, onde permaneceu desde 1930 até se reformar, em 1962.

Como cidadão, também se envolveu politicamente sempre que considerou que as situações da vida nacional o justificavam, mostrando-se firme e frontal nos seus ideais socialistas. E para além do seu gosto pelo desenho, também frequentava tertúlias de cafés e mantinha intensa comunicação com os meios literários por via epistolar, sendo ainda de destacar a sua vertente de colecionador de peças antigas de arte sacra e popular, que acumulou nas suas casas de Portalegre e de Vila do Conde, hoje transformadas em casas-museu.

Para além de Lisboa, José Régio é também o topónimo de Avenidas em Vila do Conde e Massamá-Queluz. Em Ruas aparece por todo o país com quatro em Vila do Conde, duas em Portalegre ( Ponte de Sor e Foros de Arão) e na Trofa, para além de Abrantes, Águas Santas, Alcabideche, Alcochete, Alhos Vedros, Amadora, Amora, Arrifana, Azeitão, Beja, Braga, Bragança, Carcavelos, Charneca da Caparica, Coimbra, Corroios, Entroncamento, Ermesinde, Évora, Esposende, Fafe, Famões, Fernão Ferro, Fiães, Guimarães, Maia, Mangualde, Marvão, Mem Martins, Moita, Monte Abraão-Queluz, Montemor-o-Novo, Odivelas, Oeiras, Oliveira do Hospital, Palmela, Pinhal Novo, Póvoa de Santa Iria, Póvoa de Varzim, Quinta do Anjo, Ramada-Odivelas, Rio Tinto, Santo Antão do Tojal, Santo António dos Cavaleiros, São Domingos de Rana, São João da Madeira, Seixal , Unhos, Valbom-Gondomar, Vialonga, Vila Chã de Ourique e Vila Nova de Famalicão. Pracetas surgem em Alverca do Ribatejo, Baixa da Banheira, Bobadela, Borba, Carcavelos, Carnaxide, Damaia-Amadora, Massamá-Queluz, Odivelas, Porto, Rio de Mouro, Setúbal e Vila Nova de Gaia. Travessas aparecem em Vila do Conde, Albufeira, Carcavelos, Gandra e Trofa. Existem ainda com o nome de Régio Praças em Vila do Conde, Matosinhos e Ovar, um Impasse em Agualva-Cacém, um Largo na Parede e uma Via em Vila do Conde.

Manuscrito de Régio. A 1ª página de «Cântico Negro»
(Imagem: © CER)

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A Lisboa de José Régio

Em 22 de dezembro deste ano cumpre-se o 50º aniversário da morte de José Régio (1901-1969), escritor vilacondense nascido a 17 de setembro e figura incontornável da  revista Presença que cultivou a poesia, o romance e o teatro, para além de se dedicar ao desenho e cuja história de vida também se liga a  Portalegre onde foi professor durante largos anos, sendo também possível descobrir o seu percurso pelas ruas de Lisboa.

É esse roteiro das ruas alfacinhas ligadas a José Régio, quer como escritor quer como cidadão, que neste mês de julho será o nosso tema, com o apoio imprescindível do CERCentro de Estudos Regianos, particularmente, da sua presidente, Isabel Cadete Novais.

 

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A Rua Luís Piçarra e Costah no Alto do Lumiar

No Alto do Lumiar, o MURO’19- Festival de Arte Urbana de Lisboa que ligou a arte mural  à música presente na toponímia da zona foi também o ponto de encontro do cantor Luís Piçarra que é ali nome de rua e do portuense Costah, com a sua intervenção artística Há Sempre Música Entre Nós, próximo de uma grande superfície comercial da Avenida David Mourão-Ferreira.

Natural do Porto, Nuno Costah realizou os seus primeiros murais ainda na década de noventa, cerca de 1997. Em 2003, iniciou-se na técnica das colagens e stencil’s na sua cidade natal e quatro anos depois, em 2007, começou a assinar como Costah, ano em que também se passou a dedicar à tatuagem. Costah criou um novo estilo,  ilustrativo e versátil, que tanto usa na arte mural como em outros suportes, do papel à tela e até à pele.

Das suas diversas participações em exposições e festivais destaquem-se na Rua das Flores na EDP/Porto Lazer, GoodVibes do Porto, Inky Street Art Gallery do Porto, Maia Performance, A Mimosa da Lapa em Lisboa, Smed da Trofa, a Street art AXA, Traços Urbanos na Póvoa de Varzim, ou na Calçada da Glória da Galeria de Arte Urbana- GAU.

O cantor Luís Piçarra, ainda hoje reconhecido por dar a sua voz ao Hino do Sport Lisboa e Benfica, tem desde a publicação do Edital municipal de 15 de dezembro de 2003 o seu nome gravado nas placas toponímicas do Lumiar, por sugestão da Casa do Artista. Este arruamento liga a Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva e significativamente foi inaugurado no Dia Mundial da Música de 2004, junto com mais 6 arruamentos próximos, com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Arminda Correia, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques –, que em conjunto com a Alameda da Música permitiu criar um Bairro da Música no Alto do Lumiar através da toponímia.

luis-picarra

Luís Raul Janeiro Caeiro de Aguilar Barbosa Piçarra Valdeterazzo y Ribadenayra (Moura/23.06.1917 – 22.09.1999/Lisboa)  deixou gravadas 999 canções, tendo ele próprio escrito dezenas delas e a sua voz é reconhecida por todos na interpretação do segundo e atual hino do Sport Lisboa e Benfica –  intitulado Ser Benfiquista-, para além de ter sido ele o criador da famosa Granada, que lhe foi oferecida pelo compositor mexicano Agustin Lara.

Filho do produtor de vinho Luís da Costa de Aguilar Barbosa Piçarra e de Luísa Maria Caeiro, frequentou os dois primeiros anos de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa mas interrompeu o curso em 1937 para se dedicar a uma carreira musical. Estudou  canto com Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim e estreou-se na ópera O Barbeiro de Sevilha levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa. A partir daqui  fez uma carreira de sucesso, cantando pelo mundo inteiro, com espetáculos no Brasil, Argentina, México, Egito, Chipre, Líbano, Síria, Grécia, Turquia, Itália ou Paris. Refira-se especialmente que foi cantor privativo no palácio do rei Faruk (1947/48), parceiro de Edith Piaf numa série de programas do show This is Europe organizado pela ECA (agência encarregada de aplicar o Plano Marshall), tenor da Orquestra de Paul Durand e membro da digressão ao Brasil de A Rosa Cantadeira, com Amália Rodrigues. Na rádio e televisão francesas ficou conhecido como Lou Pizarra e aí estreou nos anos 50 do séc. XX temas como Avril au PortugalGranada ou Luna Lunera. Na década seguinte também gravou programas para diversas televisões incluindo a NBC norte–americana.

Em Portugal, Luís Piçarra distinguiu-se  como tenor oficial da Emissora Nacional, bem como interpretando ópera, opereta e teatro de revista. No cinema, também cantou pela primeira vez O Meu Alentejo no filme Pão Nosso (1940)  de Armando Miranda. Depois da morte da sua primeira esposa em 1968, Luís Piçarra escolheu viver em Angola até 1975, onde foi diretor do Centro de Preparação de Artistas da Rádio e professor de canto teatral na Academia de Música. Após o regresso a Portugal, publicou  em edição de autor Luís Piçarra instantâneos da minha vida (1987) e em 1996 foi lançada uma compilação de temas seus com GranadaAvril Au PortugalCanção do RibatejoCaminho ErradoAnda CáAninhasBatalhaGuitarra da MourariaMorena da RaiaSanta Maria dos MaresSer Benfiquista e  O Meu Alentejo.

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A cantora Maria Albertina e a pantomima gráfica de Pantónio no 3ª Festival de Arte Urbana de Lisboa

Pantónio no MURO’19
(Foto : © CML | DMC | DPC | José Vicente, 2019)

Unidos pelo movimento, o 3º Festival de Arte Urbana de Lisboa, a decorrer desde ontem no Lumiar, integra as presenças da cantora e atriz de revista Maria Albertina, por ser nome de rua local, e Pantónio, o artista do movimento de pantomima gráfica, por executar uma intervenção mural com uma espécie de andorinhas fantásticas nas proximidades da Rua Maria Alice.

Pantónio é o nome artístico de António Correia, natural da Terceira nos Açores, nascido em 1975, que após um percurso bem sucedido em Marketing e Publicidade, decidiu dedicar-se ao que lhe dá mais prazer:  intervir em espaços públicos pela arte, com uma paleta de cores restrita – sobretudo preto, branco e  azul –  e inspirada nas cores da sua ilha natal ( o azul do mar, o branco das nuvens e o preto das rochas vulcânicas), de que resulta uma pantomima gráfica de emoções, uma intensa ideia de constante movimento presente em cada uma das suas obras visuais. As suas obras caracterizam-se por um fluxo de linhas fluídas sugerindo uma grande liberdade de movimentos, semelhantes aos seus gestos quando as pinta a pincel e trincha como se fora um lápis o que usa na mão.

Pantónio já trabalhou em Lisboa, Amadora, Fundão e internacionalmente, nas cidades de Paris,  Averdon, Nantes, Bayonne, Grenoble, Marselha  (todas em França), Pescara (Itália) e Berlim.

Maria Albertina em 1936, por Amarelhe

Maria Albertina, voz do vira e do fado de Lisboa, bem como do elenco de operetas e revistas alfacinhas, ficou como topónimo de uma rua do Bairro da Cruz Vermelha por solicitação do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, cerca de três meses após o seu falecimento, através do Edital municipal de 25 de junho de 1985, com a legenda «Cantadeira/1909 – 1985».

Maria Albertina Soares de Paiva (Ovar/05.01.1909- 27.03.1985/Lisboa), conhecida pelo nome artístico de Maria Albertina, viveu grande parte da sua vida na capital, onde se estreou em 16 de julho de 1931, no Teatro Maria Vitória, na opereta História do Fado, ao lado de Berta Cardoso. Nos anos trinta conquistou inúmeros prémios como o Guitarra de Ouro (julho de 1932), o prémio Capacete de Ouro (setembro de 1932), venceu o concurso Qual a mais famosa artista do teatro português? (1936) e ganhou o  título de Melhor Cantadeira num concurso da Rádio Luso. Em 1934,  na revista Vista Alegre, com Carlos Ramos fez o célebre quadro «O Fado de Malhoa», a que se seguiram em 1935 os sucessos de Viva a folia!, Bola de neve, O Rapa, Sardinha assada e no ano seguinte, À vara larga, Feira de Agosto, a opereta Coração de Alfama, Há festa na Mouraria, Maria Rita e Água vai em 1937. Em 1941 Maria Albertina entrou na Grande Marcha de Lisboa e a partir da década 60, e durante mais de 20 anos, cantou n’ O Faia, na Rua da Barroca nºs 54-56, no Bairro Alto.

Cantou ainda no Retiro da Severa no Luna Parque, nos teatros Ginásio e Maria Vitória, no Grémio Alentejano e no Maxim’s, no Solar da Alegria e no Salão de Chá do Café Chave d’Ouro, em esperas de touros em Vila Franca de Xira, e também em casas particulares como a da Duquesa de Palmela, do banqueiro Ricardo Espírito Santo e nos palácios do Conde da Torre e de Fontalva, para além de ter participado em digressões pelo Brasil, Argentina, Espanha, E.U.A, Canadá e Paris.

Os seus maiores sucessos musicais foram Voz do Povo,  Meu Filho e Bailarico Saloio e sobretudo, o vira Tricanas de Ovar (1936) de Lopes Costa) criado para o teatro de revista e que em 1966 o locutor Jorge Alves exibiu no programa da RTP Melodias de Sempre. Em 1998, foi editado em CD uma compilação de 16 faixas das suas músicas.

Participou ainda no cinema em A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo, cantando o fado mouraria Fado dos beijos quentes; em Bocage (1936) para cantar Bailarico Saloio e ainda integrou o elenco de Vendaval Maravilhoso (1949), ambos filmes de Leitão de Barros.

Em nota final, refira-se que Maria Albertina foi mãe do apresentador de rádio e televisão Cândido Mota.

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A Rua Maria José da Guia, Tamara Alves e Ozearv no MURO’19

A 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, na proximidade da Rua Maria José da Guia, junta Tamara Alves e Ozearv numa intervenção artística conjunta no muro do estacionamento, ligando assim a arte urbana à música presente na toponímia local. Tamara Alves & Ozearv realizarão também um workshop no local.

Tamara Alves, nascida em 1983 é uma artista multifacetada que se exprime da pintura à  ilustração, das tatuagens à arte mural urbana, com o denominador comum de uma visão erótica de um corpo contemporâneo com limites expandidos: sem órgãos, uma paixão bruta, um devir animal. Desde o ano 2000 que participa em diversos projetos, exposições individuais e coletivas, afirmando-se como uma das mulheres mais conhecidas da arte urbana.

José Carvalho, nascido em 1980, é o nome civil do artista Ozearv, licenciado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Desde 1996 que tem integrado diversos projetos individuais e coletivos, políticos e humanitários, como membro da primeira geração de artistas de arte urbana portugueses. O seu trabalho para a arte mural procura o espaço, o movimento e a cor das cidades e os seus contrastes, através de técnicas que vão do aerosol ao stencil, da ilustração à fotografia, para «preencher o branco que existe no dia-a-dia de cada um de nós». Já em 2017, na 2ª edição do MURO, integrou o «Incursões pela Arte» em que pintou com os alunos da Escola Básica de Marvila.

A Rua Maria José da Guia,  que liga a Rua Pedro Queirós Pereira à Rua Maria Carlota, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Maria José da Guia

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou o nome artístico de Maria José da Guia, ficou famosa no Fado na década de quarenta do século XX. Aos quatros anos foi morar para Alfama e aí começou a cantar, tendo  até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentava-se num corpo vestido de negro e xaile traçado.

Maria José da Guia cantou em várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, tendo integrado os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado. Celebrizou fados como Lisboa Antiga – com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Gustavo de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Bairro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles) ou o fado Severa ou a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão).

No Fado, Maria José da Guia foi madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter cantado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos. Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

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Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
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No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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Ferrer Trindade e a Orquestra de Câmara Portuguesa no MURO’19

Ferrer Trindade, compositor da Canção do Mar e maestro da sua Orquestra Ritmo, tal como a Orquestra de Câmara Portuguesa, criada em 2007, são presenças no MURO’19 que nesta 3ª edição liga a Arte Urbana à criação sonora, a espetáculos musicais, à toponímia musical dos Bairros da Música e  da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar.

Fundada por Pedro Carneiro, Teresa Simas, José Augusto Carneiro e Alexandre Dias em julho de 2007 a Orquestra de Câmara Portuguesa teve a sua estreia na abertura da temporada do CCB- Centro Cultural de Belém, no dia 13 de setembro desse mesmo ano, sendo a OCP a Orquestra em Residência, desde o ano seguinte e uma presença constante nos Dias da Música em Belém.

A OCP já trabalhou com os compositores Emmanuel Nunes, Miguel Azguime e Sofia Gubaidulina, bem como com os maestros Alberto Roque, Luís Carvalho, Pedro Amaral e Pedro Neves,  e ainda  os coros Voces Celestes e Lisboa Cantat. Também acolheu solistas internacionais como António Rosado, Artur Pizarro, Carlos Alves, Cristina Ortiz, Filipe-Pinto Ribeiro, Gary Hoffman, Heinrich Schiff, Jorge Moyano, Sergio Tiempo, Tatiana Samouil ou Thomas Zehetmair. Já se apresentou em Alcobaça, Almada, Batalha, Castelo Branco, Coimbra, Leiria, Paços de Brandão, Portimão, Setúbal, Tomar, Vila Viçosa e Viseu, bem como no Festival Jovem Músicos da Antena 2, Festival ao Largo do Teatro Nacional São Carlos, concertos de Natal nas Igrejas de Lisboa, concertos da DGPC Música nos Mosteiros (2013) e no City of London Festival (em 2010). Desde 2014, a OCP tem ainda colaborado com a Companhia Nacional de Bailado e foi pioneira em modelos de Responsabilidade Social, no âmbito dos quais desenvolveu a Orquestra Portuguesa (JOP), a OCPsolidária e a OCPdois, com diversos patrocinadores e intercâmbios internacionais, sendo o Município de Lisboa um dos seus parceiros institucionais.

O compositor Ferrer Trindade, autor da famosa Canção do Mar, da qual se produziram inúmeras versões, está desde a publicação do Edital municipal de 14 de julho de 2004 homenageado como topónimo na artéria do Lumiar que se estende da Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva, antes identificada como Rua 7.2 entre a Malha 7 e PER 9.

Francisco Ferrer Trindade (Barreiro/09.12.1917 – 13.01.1999/Lisboa), compositor e maestro consagrado, popular por sucessos como Canção do Mar ou Nem às Paredes Confesso, dedicou-se à música ligeira integrando as orquestras de Tavares Belo e Almeida Cruz, dirigindo a Orquestra de Variedades da Emissora Nacional e também formando a sua própria orquestra –  a Orquestra Ritmo – que circulou pelos Casinos de Espinho, Figueira da Foz, Póvoa de Varzim e Casino Estoril, acompanhando importantes artistas nacionais e estrangeiros. Ferrer Trindade também compôs para o Teatro de Revista e nomes como Amália, Artur Garcia, Anita Guerreiro, António Calvário, António Mourão, Beatriz da ConceiçãoCarlos Ramos, Lenita Gentil, Maria da Fé, Maria de Lurdes Resende ou Madalena Iglésias, entre muitos outros, cantaram músicas suas.

Ferrer Trindade formou no Conservatório Nacional de Lisboa como aluno externo ao mesmo tempo que trabalhava. Somou ainda um curso de Composição e Direção de Orquestra da Academia de Santa Cecília em Milão. Começou por tocar na Orquestra de Câmara do Conservatório, clarinete na Banda da Armada e violino na Orquestra Filarmónica de Lisboa. Foi premiado com o 1º Prémio do Festival da Figueira da Foz – com a composição Olhos de Veludo – e um 3º com Sombras da Madrugada, para além do 1º e 2º Prémios do Festival de Luanda. Sendo colaborador da RTP desde a sua inauguração, como maestro, foi o escolhido em 1969 para dirigir a Orquestra da Eurovisão, com a canção A Desfolhada, no Teatro da Ópera de Madrid.

Foi agraciado com a Medalha de Ouro da Emissora Nacional, a Medalha de Mérito Artístico do Governo Civil do Distrito de Setúbal e a Medalha da Cidade de Setúbal e uma sessão comemorativa do seu centenário organizada pela Câmara Municipal do Barreiro.

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