A Rua do Engenheiro primeiro presidente da CML após o 25 de Abril

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Engº Caldeira Rodrigues foi o presidente da 1ª Comissão Administrativa da CML após o 25 de Abril de 1974, que assinou os primeiros 5 Editais de Toponímia e desde 2007 o seu nome está na memória das esquinas de Lisboa, numa rua da freguesia de Alvalade.

A Rua Engº. Caldeira Rodrigues foi atribuída pelo Edital municipal de 23/04/2007 ao arruamento identificado como Rua 2.2 à Rua António Albino Machado, com a legenda «Autarca/1925 – 2004», ligando a Rua António Albino Machado à Rua Joaquim Rocha Cabral. Recorde-se que António Albino Machado foi o fundador e 1º presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril  e Joaquim Rocha Cabral foi um engenheiro que presidiu à Junta de Freguesia do Campo Grande durante dois mandatos consecutivos (1994-97 e 1998-2001).

O Engº Caldeira Rodrigues numa Conferência de Imprensa dada em dezembro de 1974, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues (Torres Vedras/06.12.1925 – 29.12.2004/Lisboa), foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa e exerceu essas funções de 2 de setembro de 1974 a 19 de novembro de 1975 , sucedendo ao Delegado da  Junta de Salvação Nacional, João António Lopes da Conceição. Caldeira Rodrigues levou a cabo uma importante reconversão do município, no quadro de uma dinâmica de participação popular, tendo sido determinante a sua intervenção no aliviar de tensões e na resposta imediata a carências básicas da população, como a habitação. Em matéria de toponímia assinou 5 editais que colocaram em Lisboa os nomes de Alves Redol, Avenida dos Bombeiros, Capitão Henrique Galvão, Castro Soromenho, Dr. João Soares, Avenida das Forças Armadas, General Norton de Matos, José Dias Coelho, Julião Quintinha, Luís de Freitas Branco, Maria Isabel Aboim Inglês, Praça das Novas Nações, Rua da República da Bolívia e Calçada Ribeiro dos Santos.

Na época, o Engº Caldeira Rodrigues integrava  a direção do MDP/CDE mas já antes, durante mais de 30 anos, tinha sido um resistente político  que sofreu mesmo a prisão por duas vezes, em 1947 e em 1951. Foi dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia em 1950 mas também se tornou ativista do MUNAF ( (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), cuja comissão central integrou em 1947, com Mário Soares, Octávio Pato, Salgado Zenha, António Abreu, Fernanda Silva e outros. Em 1950 também aderiu ao Movimento para a Paz, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

Enquanto engenheiro, Caldeira Rodrigues desenvolveu uma carreira como especialista de Planeamento e Estruturas Hidráulicas na Hidrotécnica Portuguesa e na Companhia de Águas de Lisboa, para além de ter sido um dos sócios-fundadores da COBA – Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., bem como dirigente da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores, entre 1989 e 1993.

O nome de Joaquim Caldeira Rodrigues está também perpetuado numa rua da sua terra natal e refira-se que Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE que desempenhou as funções de Ministra do Emprego no primeiro Governo de António Guterres, é sua filha.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

Quatro médicos militares na toponímia de Lisboa em 1970

Francisco Luís Gomes

Em 1970, nove anos após o início da Guerra Colonial, foram colocados na toponímia de Lisboa quatro médicos militares, com a característica comum de terem prestado serviço no Hospital Militar de Lisboa e/ou nos territórios que eram colónias na época: Francisco Luís Gomes, José Baptista de Sousa, Mário Moutinho e Nicolau de Bettencourt.

O primeiro caso ocorreu através do Edital  municipal de 14 de fevereiro e foi a  Avenida Dr. Francisco Luís Gomes (na freguesia dos Olivais), a que se seguiu no Edital de  dia 17  a Avenida Dr. Mário Moutinho (Belém), e que se completou no Edital de 31 de março com a Rua Dr. José Baptista de Sousa (Benfica) e a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt (Avenidas Novas).

A Avenida Dr. Francisco Luís Gomes foi atribuída com a legenda «Médico e Escritor/1829 – 1869» no arruamento que começa na Avenida de Berlim (junto à Piscina), no topo das Avenidas Infante Dom Henrique e Dr. Alfredo Bensaúde, para homenagear o cidadão que nasceu em 1829 na Índia e se licenciou em Medicina pela Escola de Goa (1850), tendo sido Cirurgião-mor  do exército português na Índia a partir de 1860, e ainda o autor de A Economia Rural da Índia Portuguesa, entre outras obras. Este topónimo é único no país.

Mário Moutinho

Mário Moutinho

A Avenida Dr. Mário Moutinho, nasceu com a legenda «Oftalmologista/1877-1961», para perpetuar o médico que dirigiu o serviço de Oftalmologia do Hospital Militar Principal de Lisboa a partir de 1909, e que nove anos depois foi seu subdiretor e mais tarde, diretor. Também este é um topónimo exclusivo de Lisboa.

No último dia do mês de março foram atribuídas a Rua Dr. José Baptista de Sousa/ Coronel Médico/1904 – 1967 na  Rua B à Travessa da Granja na freguesia de Benfica, bem como a Rua Dr. Nicolau de Bettencourt/ Brigadeiro-Médico/1900 – 1965 no troço da Estrada de Benfica compreendido entre o Largo de São Sebastião da Pedreira e o Largo então  vulgarmente conhecido como Praça de Espanha,  e as legendas destes dois topónimos expressam claramente a componente militar destes homenageados, sendo neste sentido os dois primeiros na toponímia de Lisboa em que a referência militar se liga à medicina.

A escolha do coronel-médico alfacinha  José Baptista de Sousa foi sugerida por um cidadão de seu nome Eduardo Mimoso Serra e a atribuição do nome de Nicolau de Bettencourt resultou de um pedido dos C.T.T. para que houvesse topónimo que evitasse equívocos na distribuição de correio naquela artéria.

José Baptista de Sousa

José Baptista de Sousa

Baptista de Sousa integrou as Forças Expedicionárias a Cabo Verde, e permaneceu em S. Vicente de 22 de fevereiro de 1942 até 10 de setembro de 1944, como diretor do Hospital Militar Principal de Cabo Verde, trabalhando também para os civis, o que lhe granjeou muitas simpatias locais e o epíteto de engenheiro humano. Ao contrário das orientações oficiais declarou a fome como causa de morte em diversos atestados de óbito, demonstrando coragem cívica. De 1947 a 1950, prestou serviço na Escola Médico-Cirúrgica de Goa. De 1951 a 1961 foi  Chefe da Clínica Cirúrgica do Hospital Militar Principal de Lisboa e a partir de 1964, foi  Consultor de Cirurgia da Direção do Serviço de Saúde Militar. O Dr. José Baptista de Sousa foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Avis e, em Mindelo (S. Vicente) o hospital passou a denominar-se Hospital Baptista de Sousa. Este topónimo é único no país.

Nicolau José Martins de Bettencourt concluiu o curso de Medicina em 1924 e, dois anos depois, também o curso de Medicina Tropical. Na sua carreira destacou-se como instrutor dos cursos de oficiais milicianos e dos enfermeiros militares das Escolas Centrais de Defesa do Território bem como Inspetor da Instrução do Serviço de Saúde Militar (1960 e 1961); dirigiu o Hospital Militar de Belém (1945 a 1949), o Hospital Militar Principal (a partir de 1957), os Serviços de Saúde Militar (a partir de  1962) e o Serviço de Saúde da Legião Portuguesa. Durante a presidência do general França Borges na Câmara Municipal de Lisboa, foi também vereador, no mandato de 1960 a 1963.  O seu nome integra também a toponímia da Marinha Grande.

Antes da Guerra Colonial apenas dois médicos militares tinham integrado a toponímia de Lisboa, a saber, a Rua Dr. Mascarenhas de Melo com a legenda «1868 – 1950», por Edital municipal de 24/07/1957, para homenagear um diretor do Hospital Militar da Estrela, e pelo Edital de 19/09/1960 foi a Praça Dr. Teixeira de Aragão com a legenda «Escritor-numismata/1823-1903» que perpetuou o diretor do gabinete de numismática e arqueologia do rei D. Luís I.

Após o 25 de Abril foram dois os médicos militares que tiveram a honra de serem topónimos alfacinhas: a  Escadaria José António Marques, com a legenda «Fundador da Cruz Vermelha Portuguesa/1822 – 1884», por via do Edital de 11 de fevereiro de 1985; e a Rua Dr. Bastos Gonçalves, com a legenda «Brigadeiro – Médico/1898 – 1985», pelo Edital de 21 de fevereiro de 2001, em memória daquele que dirigiu a Revista Portuguesa de Medicina Militar.

Nicolau de Bettencourt

Nicolau de Bettencourt

A Rua do vereador republicano Tomás Cabreira

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Tomás Cabreira que foi vereador na 1ª gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa e  ministro das Finanças em 1914 ficou perpetuado no Bairro da Bélgica, pelo Edital municipal de 30 de junho de 1926, com a legenda «Engenheiro Distinto e Republicano Indefectível».

Foi por esse Edital municipal que nasceu há 90 anos o Bairro da Bélgica, hoje mais conhecido como Rego ou Bairro de Santos. Coube a Tomás Cabreira a Rua B do Bairro da Bélgica, entre a Avenida Santos Dumont e a Rua Particular Neves Piedade que viria a ser a Rua Filipe da Mata no ano seguinte, pelo Edital de  6 de agosto de 1927, perpetuando outro vereador da primeira vereação republicana da CML. A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica havia sugerido à autarquia lisboeta, em 10 de maio de 1926,  que fossem atribuídos nos arruamentos do Bairro nomes alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do já sucedido no Bairro de Inglaterra em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 fixou o Cardeal Mercier na Rua E do Bairro do Bélgica ( o arcebispo e primaz da Bélgica que publicou em 1915 uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) e o general Leman na Rua D (militar que defendeu Liége contra o invasor alemão e acabou prisioneiro de guerra), e nas restantes artérias colocou ainda o Presidente da CML de 1923 a 1925 (Albano Augusto Portugal Durão) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, sendo que neste local da cidade estas duas últimas nunca passaram do papel.

Alma Nova, março de 1929

Alma Nova, março de 1929

Tomás António da Guarda Cabreira ( Tavira/23.01.1865 – 04.12.1918/Tavira) foi militar, engenheiro, professor e político. Como seu pai, ingressou no Exército, em 1881, e atingiu o posto de Coronel em 1918. Formou-se também em Engenharia Civil pela Escola do Exército, em 1893, e a partir daí passou a docente das disciplinas de Química Mineral e de Química Orgânica na Escola Politécnica, tendo até publicado Princípios de Estereoquímica (1896) e feito doutoramento em 1916. Foi ainda vogal da Comissão de Explosivos e vogal da Academia de Ciências de Lisboa, tendo ainda, em 1907, fundado a Universidade Popular de Lisboa.

Enquanto político, Tomás Cabreira, republicano e maçónico, fundou o Grupo Republicano de Estudos Sociais,  deputado pelo Algarve na Assembleia Nacional Constituinte (1911), senador da República (1912) e ministro das Finanças (1914), época em que deu a lume A Contribuição Predial e O Problema Financeiro e a sua Solução (ambos em 1912). Destaque-se que foi vereador da Câmara Municipal de Lisboa de 1909 a 1912, na Presidência de Anselmo Braamcamp Freire, tendo como colegas vereadores outros nomes presentes na toponímia de Lisboa como Augusto José Vieira, Barros Queirós, Francisco Grandela ou Miguel Ventura Terra.

Depois de 1914 abandonou a carreira política e o Partido Democrático, de que era dirigente, e fundou a União da Agricultura, Comércio e Indústria, onde exerceu os cargos de vice-presidente e de presidente e ainda editou Posto Agrário e Ensino Móvel (1915), Crédito Comercial e Industrial (1915), O Problema Tributário Português (1916-1917), A Defesa Económica Portuguesa (1917), O Algarve Económico (1918) e postumamente, A Política Agrícola Nacional (1920).

Esteve também ligado ao jornalismo por diversos cargos na Associação dos Jornalistas de Lisboa e na Associação da Imprensa Portuguesa.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do vereador republicano Luís Filipe da Mata

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Paladino da Liberdade e da Instrução Popular/Século XIX» foi Luís Filipe da Mata inscrito na toponímia do Bairro da Bélgica, por deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e Edital de 6 de agosto do ano seguinte, na  Rua Particular Neves Piedade ao Bairro da Bélgica, antes também conhecida apenas por Rua Neves Piedade.

De acordo com documentação do Arquivo Municipal de Lisboa esta rua foi traçada em 1912 por José da Silva Moura, prevendo-se uma largura de 15 metros e corrend0 da Estrada das Laranjeiras até à Estrada de Palma de Cima, no Rego, junto aos apeadeiros dos Caminhos de Ferro. Também outro vereador da primeira gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa, Tomás Cabreira, deu nome a uma artéria do Bairro da Bélgica, por via da publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

 

Luís Filipe da Mata sentado no centro (Foto: Bernardino Machado, de Miguel Sá-Marques)

Luís Filipe da Mata ao centro, sentado
(Foto: gentil cedência do blogue Bernardino Machado)

O homenageado na Rua Filipe da Mata é Luís Filipe da Matta (Lisboa/15.08.1853 – 25.10.1924/Lisboa),  um comerciante, funcionário público e promotor da educação laica que foi também Vereador da primeira gestão republicana da Câmara Municipal de Lisboa, de 1 de novembro de 1908 a 29 de janeiro de 1913, quando era Anselmo Braamcamp Freire Vice-Presidente e depois Presidente da edilidade. Coube-lhe ainda ser o promotor do primeiro Congresso Municipalista de Lisboa, que se realizou nos Paços do Concelho, entre 16 e 21 de abril de 1909, contando com a presença de 158 câmaras municipais.

Filipe da Mata defendeu e promoveu o ensino laico, apoiando a criação de várias escolas primárias públicas, nomeadamente, integrando o grupo fundador da Escola-Oficina nº 1 (1905), no Largo da Graça, onde se aplicaram  novas metodologias pedagógicas inspiradas  no Movimento da Escola Livre e na Escola Moderna de Francisco Ferrer; colaborando no desenvolvimento do Asilo de São João e  sendo vice-presidente do Vintém das Escolas.

Também enquanto comerciante envolveu-se no associativismo como membro da direção das Associações Comercial de Lisboa e Comercial dos Lojistas de Lisboa, bem como da comissão instaladora da nova Associação dos Lojistas em 1907,  para além de ter integrado a comissão de reforma das alfândegas e a comissão revisora das pautas aduaneiras. Foi ainda  vice-presidente da comissão executiva do monumento ao Marquês de Pombal tendo até na ocasião publicado um livro de sonetos anti-jesuíticos, que intitulou A Canalha (1899), cuja venda revertia para a execução do monumento.

Iniciado no Grande Oriente Lusitano em 1880, na Loja Tolerância de Lisboa, e a partir de 1897 na Loja José Estêvão, Filipe da Mata foi Presidente do Conselho da Ordem em 1895-1899, 1903-1906 e 1916-1917. Ao longo da sua vida também desempenhou cargos no Partido Republicano como representante dos republicanos nos corpos gerentes da Coligação Liberal, na comissão que promoveu a grande manifestação liberal de 2 de julho de 1907, como tesoureiro da Junta Liberal, tesoureiro da Comissão Administrativa do Diretório do Partido Republicano e seu Secretário eleito em diversos Congressos, deputado de 1913 a 1915 e senador ao Congresso da República em 1915-1917. Após a implantação da República, Filipe da Mata  foi  ainda vogal suplente do Conselho Superior de Administração Financeira do Estado (após 20 de abril de 1911), Provedor da Assistência de Lisboa (1913 -1915), presidente da Comissão de Subsistências do Ministério do Fomento (16 de janeiro de 1915 a 12 de fevereiro de 1915) e durante o Sidonismo foi preso.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Presidente da CML, Portugal Durão, no Bairro da Bélgica

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Albano Augusto Portugal Durão,  o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1923 a 1925, passou a ser o topónimo das Ruas C e G do Bairro da Bélgica, com a legenda «Insigne Colonial/1871 – 1925», desde a publicação do Edital de 30 de junho de 1926.

A Comissão de Melhoramentos do Bairro da Bélgica sugeriu à autarquia lisboeta em 10 de maio de 1926  que fossem atribuídos nos arruamentos do seu Bairro topónimos alusivos à Bélgica, seguindo o exemplo do sucedido dez anos antes no Bairro de Inglaterra, em 1916. E assim, o Edital municipal de 30/06/1926 aí fixou os belgas Cardeal Mercier (arcebispo primaz da Bélgica que em 1915 publicou uma Carta Pastoral incitando ao patriotismo) – na Rua E do Bairro do Bélgica –  e General Leman (heróico defensor de Liège) – na Rua D – , colocando nas restantes artérias Tomás Cabreira (republicano que foi ministro das Finanças em 1914), o então último Presidente da CML  (Albano Augusto Portugal Durão que presidiu à edilidade de 1923 a 1925) e ainda, a Rua Costa Goodolfim e a Rua Visconde de Menezes, que neste local nunca passaram do papel.

Cerca de 6 anos mais tarde, pelo Edital camarário de 12/03/1932, foi dado à Rua A o nome Rua Dr. Álvaro de Castro, em homenagem àquele que comandara o Corpo Expedicionário Português a partir de 1916 e se demitira aquando da vitória de Sidónio Pais.

Rua Portugal Durão Albano

Albano Augusto Portugal Durão (Sertã/22.03.1871 – 13.11.1925/Lisboa) assentou praça na Marinha  em 1887 e em 1918, já era capitão-tenente. No decurso da sua vida militar, participou em campanhas em terras de África, como  o reconhecimento dos territórios de Milange, Namulia e Lomue, bem como desempenhou cargos civis de relevo, como o de administrador dos Transportes Marítimos do Estado e da Companhia da Zambézia, para além de diretor de Minas em Tete (Moçambique), e ainda, como membro do Conselho Fiscal do Banco Industrial Português.

Republicano membro do Partido Democrático, iniciou-se na política como ministro da Agricultura de Bernardino Machado, em 1921, sendo exonerado a seu pedido em 19 de maio. No ano seguinte foi eleito deputado por Lisboa, funções que exerceu até 1925, e sendo também Ministro de António Maria da Silva nos seus 2º e 3º governos, na pasta das Finanças ( de 6 de fevereiro a 26 de agosto de 1922, por ter pedido a demissão ) e depois, na dos Negócios Estrangeiros, entre 1 de julho e 1 de agosto de 1925. Portugal Durão foi também Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no período de 5 de abril de 1923 até à sua morte em 13 de novembro de 1925.

Ainda no âmbito da participação de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal Durão foi vogal da Comissão Executiva da Conferência da Paz e foi agraciado com a comenda da ordem Militar de Avis (1919).

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Braamcaamp Freire, Presidente da CML quando Ventura Terra foi vereador

Anselmo Braamcamp Freire em 1911 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Anselmo Braamcamp Freire em 1911
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra foi vereador da primeira gestão republicana na CML,  no período de 1908 a 1913, tendo assim conhecido de perto Anselmo Braamcaamp Freire que era Vice-presidente até 1910 e foi depois eleito Presidente.

No entanto, só mais de 20 anos após o falecimento de Braamcaamp Freire é que este teve honras de topónimo lisboeta, pelo Edital de 13 de maio de 1949, fixado no arruamento identificado como Rua A do Bairro da Quinta dos Apóstolos à Rua Lopes. Pelo mesmo Edital municipal foram também atribuídos os nomes de Sousa Viterbo na  Rua B, de David Lopes na Rua C  e de Adolfo Coelho na Rua D.

Foi neste período em que o Arqº Miguel  Ventura Terra foi também vereador  na Câmara Municipal de Lisboa que elaborou planos na área do urbanismo, nomeadamente para a zona ribeirinha da capital – com a fim da linha férrea em Santos para que a zona até ao Cais do Sodré passasse a ser zona de lazer – e Rua do Arsenal com arcadas nos prédios (1908), bem como para o Parque Eduardo VII tendo até em 13 de outubro de 1910 proposto «que seja dado o nome de Esplanada dos Heróis da Revolução ao espaço que no meu projecto de Parque Eduardo VII fica compreendido entre o limite norte da Praça do Marquês de Pombal, as ruas Fontes Pereira de Melo e António Joaquim Aguiar e o Palácio de exposições e festas onde começa o parque propriamente dito» e que até foi aprovado mas que não chegou a ser concretizado.  A 9 de março do ano seguinte propôs ainda a atribuição dos nomes de Eugénio dos Santos, Nuno Santos e Silva Porto a ruas importantes de Lisboa. Foi ainda Ventura Terra que solicitou a António Teixeira Lopes a execução de um busto em mármore de Anselmo Braamcamp Freire, pago pelos 11 vereadores, que em 1911 ficou colocado nos Paços do Concelho de Lisboa.

Freguesia de Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Anselmo Braamcamp Freire, nascido na então Freguesia de São José (Lisboa/01.02.1849 – 23.12.1929/Lisboa) foi um homem de cultura invulgar, arqueólogo e genealogista, escritor e historiador, que depois de 1875 voltou a morar em Lisboa, na Rua do Salitre, para publicar, a partir de 1903, o Arquivo Histórico Português,  que por uma minuciosa pesquisa na Torre do Tombo e outros arquivos trouxe a lume documentos inéditos da história do país. Como político, foi o 1º Presidente da Câmara Municipal de Loures (de 1887 a 1889 e também de 1893 a 1895); aderiu em 1907 ao Partido Republicano e assim foi vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1908 a 1910 e depois eleito Presidente em 1911, função que desempenhou até 1913. Paralelamente, foi deputado republicano à Câmara Constituinte de 1911 e foi o 1º Presidente do Senado da República.  É ainda no ano de 1911, a 21 de agosto, que enquanto Presidente da Assembleia Braamcamp Freire promulgou a 1ª Constituição da República.

Braamcamp Freire precursor de genealogia científica em Portugal, foi sócio efetivo da da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Academia das Ciências de Lisboa, tendo desta última sido Presidente em 1918, para além de vasta obra publicada de que salientamos O Conde de Vila Franca e a Inquisição (1899), As sepulturas do Espinheiro (1901), Em volta de uma carta de Garcia de Resende (1905),  Amarrado ao pelourinho (1907), Livro dos bens de D. João de Portel: cartulario do século XIII (1910), Um aventureiro na empresa de Ceuta (1913), Gil Vicente, poeta e ourives (1914), Maria Brandoa, a do Crisfal (1916), Vida e Obra de Gil Vicente, Trovador e Mestre da Balança (1918), Notícias da feitoria de Flandres: precedidas dos Brandões poetas do Cancioneiro (1920), A censura e o Cancioneiro Geral ou Brasões da Sala de Sintra (ambos em 1921).

Braamcamp Freire legou à cidade de Santarém a sua vasta biblioteca, as suas múltiplas obras de arte e a casa onde viveu, que é  hoje a Biblioteca Municipal de Santarém.

Freguesia de Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida do republicano Elias Garcia

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República cerca de 1906 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

Prédio traçado por Ventura Terra no nº 62 da Avenida Elias Garcia com a Avenida da República 
(Foto: Alberto Carlos Lima, cerca de 1906, Arquivo Municipal de Lisboa)

Ventura Terra traçou em 1902 três prédios de rendimento para o republicano Joaquim dos Santos Lima,  na esquina da Avenida José Luciano nº 62 (a partir de 5 de novembro de 1910 passou a ser a Avenida Elias Garcia ) com a Avenida Ressano Garcia nº 46 (Avenida da República também desde 05/11/1910).

O republicano José Elias Garcia que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 1878 passou a dar nome à Avenida José Luciano pelo Edital municipal de 5 de novembro de 1910, o primeiro de toponímia após a proclamação da República, que incluiu mais 9 topónimos destacando-se os que homenagearam a implantação da República – Avenida da República e Avenida Cinco de Outubro– e figuras republicanas, como o Almirante Cândido dos Reis e Miguel Bombarda.

Elias_Garcia José

José Elias Garcia (Almada-Cacilhas/31.12.1830 –  21.06.1891/Lisboa) foi um político republicano que foi deputado, vereador da edilidade alfacinha com o pelouro de instrução pública (entre 1872 e 1890) em que estabeleceu as escolas centrais, o ensino da ginástica, do desenho de ornato,do canto coral das escolas e as bibliotecas populares, bem como foi até o 25º Presidente da Câmara Municipal de Lisboa ( de 2 de janeiro a 18 de agosto de 1878).

Coronel de engenharia foi ainda professor de Mecânica Aplicada na Escola do Exército (a partir de 1857), bem como jornalista, tendo fundado diversos jornais republicanos como O Trabalho (1854), O Futuro (1858-1862), A Política Liberal (1862), e sido o redator principal do Jornal de Lisboa (1865) e do Democracia (1873), para além de ter presidido à Assembleia dos Jornalistas e Escritores Portugueses. Também colaborou na revista de pedagogia Froebel, dirigida por Feio Terenas.

Elias Garcia, a partir do célebre grupo do Pátio do Salema (Clube dos Lunáticos), fundou em 1868 o Partido Reformista, de onde veio a resultar o Centro Republicano Democrático Português (1876) e o Partido Republicano e nessa qualidade foi deputado, eleito pela primeira vez em 1870 por Lisboa, sendo depois também eleito pelo Partido Republicano em 1882-1884, 1884-1887 e 1887-1889 e 1890.  Entre 1883 e 1891 presidiu ao Diretório do Partido Republicano.

Desde 1853 Irmão Péricles na Maçonaria Portuguesa, foi o 1.º e único Grão-Mestre  da Federação Maçónica (1863 a 1869),  Grão-Mestre interino do Grande Oriente Lusitano Unido (1884 a 1886), Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido (1887 a 1889) e o seu túmulo no Cemitério do Alto de São João, construído em 1893-94 pelo Grande Oriente Lusitano em terreno cedido pela CML, ostenta um obelisco encimado por uma estrela de cinco raios.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa do Carvalho irmão do Marquês de Pombal e o associativismo de Ventura Terra

Os Banhos de São Paulo na Travessa do Carvalho em 1951 (Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Os Banhos de São Paulo na Travessa do Carvalho em 1951
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1902, Ventura Terra formou com Adães Bermudes, Aragão Machado, Rosendo Carvalho e António Dias da Silva a Sociedade dos Arquitetos Portugueses, com  sede na Rua Vitor Cordon, 14 – 1º, de que hoje é herdeira a Ordem dos Arquitetos instalada na Travessa do Carvalho, topónimo de 1895 referente a Paulo de Carvalho e Mendonça, irmão do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo.

Freguesia da Misericórdia - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Após o terramoto de 1755, a zona de São Paulo recebeu uma profunda reforma urbana por iniciativa do primeiro Marquês de Pombal e responsável político pela reconstrução de Lisboa. Assim, esta Travessa do Carvalho que até ao Edital municipal de 28/11/1895 fora o Beco do Carvalho, tal como a próxima Rua Nova do Carvalho evocam o irmão do Marquês enquanto em Campolide, o Alto do Carvalhão e a Rua do Arco do Carvalhão evocam o  próprio Marquês de Pombal por terem sido terras suas desde a Cruz das Almas até à ribeira de Alcântara.

O Bairro dos Remolares na antiga freguesia de São Paulo foi uma dos que ganhou uma malha urbana pombalina após o terramoto. O plano urbanístico de Pombal resolveu a forte inclinação da vertente da Rua do Alecrim, prolongando-a numa espécie de ponte em dois grandes arcos sobre a Rua de São Paulo e a Rua Nova do Carvalho e, este plano mereceu especial atenção do Marquês de Pombal (1699-1782) que dele encarregou o seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770), que foi Monsenhor da Patriarcal de Lisboa, Inquisidor-mor e Presidente do Senado da Câmara (1764 a 1770), a par da administração de outras obras de primeira importância para a cidade, como os Paços do Concelho, o Depósito Público e o Cais da Ribeira. Nesta política tanto o marquês como o seu irmão e, ainda outros familiares, como o Morgado de Oliveira, construíram a expensas suas grandes edifícios na zona de São Paulo, sendo conhecido um projeto para casas do Marquês de Pombal na Rua de São Paulo, cujo desenho a tinta da china é assinado pelo próprio ministro.

Já Ventura Terra se liga a esta Travessa do Carvalho por ter sido fundador e  o primeiro presidente da Sociedade dos Arquitetos Portugueses onde nasceu o Anuário da Sociedade dos Arquitectos Portugueses (1905-1919), impresso na Typographia do Commercio, e cuja herdeira é hoje a Ordem dos Arquitetos, que ocupa o antigo edifício dos Banhos de São Paulo, construído entre 1850 e 1868 e já classificado como imóvel de interesse público, na Travessa do Carvalho.

Freguesia da Misericórdia (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

Ventura Terra na Rua Alexandre Herculano

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Ventura Terra pode ser encontrado por três vezes na Rua Alexandre Herculano – um topónimo de 1882 – já que nesta artéria deparamos no nº25 com a obra de Ventura Terra que foi  o Prémio Valmor de 1911, no nº 57  com a própria casa do arquiteto e exemplo da Arte Nova também galardoada com o Prémio Valmor (1903) e ainda, com a terceira obra que é a Sinagoga de Lisboa (1904), também designada como Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança.

Ali bem próximo, no nº  37 da Rua Duque Palmela, está outra vez o traço de Ventura Terra, no prédio do Comendador Emílio Liguori, de 1902.

Alexandre Herculano que foi Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855) teve o seu nome atribuído pela 1ª vez em Lisboa cerca de 4 meses após a sua morte, por edital do Governo Civil de Lisboa de 18 de janeiro de 1878,  mas 9 anos depois, o Edital municipal de 10 de janeiro de 1888,  alterou o topónimo para Rua Fradesso da Silveira, e ainda hoje assim se mantêm na Freguesia de Alcântara, evitando assim duas ruas com o mesmo nome em Lisboa já que mais ou menos seis antes a deliberação camarária de 6 de maio de 1882 atribuíra o topónimo Rua Alexandre Herculano à artéria perpendicular à Avenida da Liberdade dirigida para o Largo do Rato, ao mesmo tempo que também instituía nesta zona a Rua Castilho, a Rua Barata Salgueiro, a Rua Mouzinho da Silveira, a Rua Passos Manuel (depois Rua Rosa Araújo pelo Edital de 19/04/1887) e a Praça do Marquês de Pombal.

Freguesia de Santo António (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Planta: Sérgio Dias)

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa/28.03.1810 – 13.09.1877/Vale de Lobos) foi sobretudo um escritor e historiador, considerado o introdutor do Romantismo em Portugal como Almeida Garrett e um  renovador do estudo da História de Portugal, mas também um político que terminou a sua vida como agricultor e afamado produtor do azeite «Herculano», negócio que acabou por vender à Jerónimo Martins.

Alexandre Herculano nasceu no Pátio do Gil (memória de um António Rodrigues Gil) na Rua de São Bento, onde foi colocada uma lápide em 26 de abril de 1910 para o assinalar e aqui  também residiu o arquiteto Manuel Caetano de Sousa, irmão da avó materna de Herculano. Começou a estudar com os padres Oratorianos de S. Filipe Nery, no Convento das Necessidades, mas após a cegueira do seu pai em 1827 não conseguiu seguir para a universidade e em  1830 seguiu escolheu a Aula de Comércio, a que acrescentou um curso de Diplomática  e estudos de francês, italiano, inglês e alemão. Com a a Revolução Liberal interrompeu os estudos e pelo seu envolvimento na Revolta  de 21 de agosto de 1831 do 4 de Infantaria contra o governo miguelista foi mesmo obrigado a emigrar para Inglaterra. Depois juntou-se ao exército liberal de D. Pedro IV na Ilha Terceira, onde conheceu Garrett, desembarcou no Mindelo e participou no cerco do Porto. Ajudou a organizar a Biblioteca Pública do Porto e voltou a Lisboa para dirigir a revista Panorama, de que foi também redator principal de 1837 a 1839 e depois, a partir de 1842. Alexandre Herculano foi agraciado como cavaleiro da ordem da Torre e Espada em 1839 e a partir desse ano passou a dirigir as bibliotecas reais das Necessidades e da Ajuda, nomeado pelo rei D. Fernando. Em paralelo, para somar ao seu romance O Pároco de Aldeia (1825) e à poesia de A Harpa do Crente (1837), foi publicando algumas das sua obras de que destacamos os 2 volumes de Lendas e Narrativas (entre 1839 e 1844), a peça Os Infantes em Ceuta (1842), o romance histórico Eurico, o Presbítero (1842), a sua História de Portugal (1846 – 1853) que introduz em Portugal  a historiografia científica, O Monge de Cister (1848) e História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1859).  A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o sócio efetivo em 1852 e encarregou-o da recolha dos Portugaliae Monumenta Historica  (documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país), investigação a que se dedicou em 1853 e 1854 e cuja publicação decorreu de 1856 a 1873.

Alexandre Herculano foi ainda preceptor do futuro rei D. Pedro V, deputado por um dos círculos do Porto em 1840, bem como vereador e depois Presidente da Câmara Municipal de Belém (1854 e 1855), após o que foi um dos fundadores do Partido Progressista Histórico, em 1856. Conhecido pela sua posição anticlerical Herculano participou na redação do primeiro Código Civil português (1860-1865) e chegou a propor a introdução do casamento civil a par do religioso.

Em 1867 casou com D. Mariana Meira e retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos (Azoia de Baixo – Santarém) dedicando-se quase exclusivamente à agricultura e, já que 21 dos seus 40 hectares de terra eram olival, produziu o azeite «Herculano» que ganhou medalhas de cobre, prata e ouro em Exposições Internacionais, e cujos direitos de comercialização vendeu em 1876 à Jerónimo Martins.

Freguesia de Santo António (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santo António
(Foto: Sérgio Dias)

Marcas de Ventura Terra na toponímia de Lisboa

Miguel VenturaTerracopybigAssRepub

Neste mês completam-se os 150 anos do nascimento de Miguel Ventura Terra (Seixas do Minho/14.07.1866 – 30.04.1919/Lisboa), figura fundamental da arquitetura portuguesa que muito contribuiu para a modernização de Lisboa no arranque do século XX (v. artº sobre Avenida Ventura Terra), razões para lhe dedicarmos os nossos artigos do mês de julho, fazendo o itinerário de Ventura Terra pelas ruas da capital através da sua arquitetura de palacetes, habitações de rendimento, construções cosmopolitas, equipamentos urbanos, propostas de melhoramentos urbanos e propostas toponímicas.

De regresso a Portugal em 1896, após estudos em Paris, Miguel Ventura Terra foi nomeado arquitecto de 3.ª classe da Direção de Edifícios Públicos e Faróis e venceu o concurso de reconstrução da Câmara dos Deputados após o incêndio de 1895, o espaço que hoje identificamos como Assembleia da República, na Rua de São Bento. O hemiciclo de Ventura Terra foi inaugurado em 1903.

Em 1900, idealizou o pedestal para o monumento ao Marechal Saldanha do escultor Tomás Costa, na Praça Duque de Saldanha, assim como projetou dois pavilhões da representação portuguesa na Exposição de Paris de 1900. No ano seguinte, graças à iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão da Associação de Proteção à Primeira Infância (APPI) foi o autor da primeira creche lisboeta,  que incluiu a construção de uma Vacaria, no Largo do Museu de Artilharia nº 2. Data também de 1901 um edifício de habitação no nº 5 da Praça Marquês de Pombal.

Em 1902 foi o ano de  concretizar o Palacete de Henrique José Monteiro Mendonça, nos nºs 18-28 da Rua Marquês de Fronteira, galardoado com o Prémio Valmor 1909; a  Casa do  Jacinto Cândido, na Rua da Arriaga e a casa de Guilherme Pereira de Carvalho na Avenida da Liberdade (ambas já demolidas); o  prédio do Comendador Emílio Liguori na Rua Duque de Palmela nº 37 ( que viria a ser a sede do jornal Expresso) e ainda, a casa de José Joaquim Miguéis, na Avenida António Augusto Aguiar nº 134 (demolida em 1997). Ainda com projeto de 1902 foi  edificado o conjunto de três prédios erguidos pelo republicano Joaquim dos Santos Lima, na Avenida Elias Garcia nº 62 (então Avenida José Luciano) com a Avenida da República nº 46 e, ainda a Sinagoga de Lisboa também designada como Shaaré Tikvá ou Portas da Esperança, na Rua Alexandre Herculano, artéria onde Ventura Terra traçou também o seu próprio edifício residencial no nº 57, exemplo significativo da aplicação da Arte Nova em Portugal  que foi o 2º Prémio Valmor a ser atribuído, no ano de 1903, como recorda uma placa na fachada para além de outra placa que informa que «Esta casa foi legada às escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto pelo distinto arquitecto Miguel Ventura Terra, que nela faleceu em 30 de Abril de 1919, destinando o seu rendimento líquido para pensões a estudantes pobres das escolas que mostrem decidida vocação para as belas artes». Ainda  neste arruamento somou  Ventura Terra em 1911 o edifício do nº 25 que também foi Prémio Valmor nesse ano.

Ventura Terra defendia a autonomia disciplinar da arquitetura e em 1903, com Adães Bermudes, Aragão Machado, Rosendo Carvalho e António Dias da Silva forma a Sociedade dos Arquitectos Portugueses, com sede na Rua Vítor Cordon, nº 14 – 1º, e da qual foi o primeiro presidente. Hoje encontramos como sua herdeira associativa a Ordem dos Arquitectos, na Travessa do Carvalho nº 23,  no antigo edifício dos Banhos de São Paulo.

Em 1904, Miguel Ventura Terra foi o delegado de Portugal ao VI Congresso Internacional dos Arquitetos na cidade de Madrid e traçou a Casa da Condessa de Taboeira na Rua Arriaga nº9, bem como a casa de Júlio Gualberto da Costa Neves na Rua Rosa Araújo nº37.

Em 1905 projetou o Banco Lisboa & Açores para a Rua Áurea nº 82 -92, e traçou  o Palacete Valmor, por encomenda da Viscondessa de Valmor, D. Josefina Clarisse de Oliveira, no  nº 38 da Avenida da República (então Avenida Ressano Garcia), com esquina para o  nº 22  da Avenida Visconde Valmor (então Rua Visconde Valmor), construído por Joaquim Francisco Tojal (o mesmo da Vila Berta) e que foi o Prémio Valmor de 1906.

Seguiram-se os seus Liceus: o Camões (1907) na Praça José Fontana, o Pedro Nunes (1908) na Avenida Álvares Cabral, e o Maria Amália Vaz de Carvalho (1913) na Rua Rodrigo da Fonseca, obra que por falta de verba demorou 18 anos a acabar e por isso foi terminada pelo Arqº António do Couto.

Em 1907 traçou a casa de João Silvestre de Almeida, com vitrais Arte Nova e pintura de mural de Veloso Salgado, na  Rua Mouzinho da Silveira nº12 , onde hoje encontramos o Banco Privado Português, assim como foi o autor da  Casa do Dr. Alfredo Bensaúde, no cruzamento da Rua de São Caetano com a Rua do Arco do Chafariz das Terras, na Lapa, conhecido como Edifício Sandoz. Em 1908, idealizou a Maternidade Alfredo da Costa, na Rua Viriato. Também neste ano e bem próximo, na Avenida Fontes Pereira de Melo ficou concluído o Palacete para José Joaquim da Silva Graça, director do jornal O Século, que foi vendido em 1930 para se tornar no Hotel Aviz, o qual funcionará até 1961 e será demolido no ano seguinte. Ainda em 1908, Miguel Ventura Terra participou no traçado de alguns detalhes do Palácio Marquês de Vale Flôr , na Rua Jau, quando o Arqtº José Cristiano de Paula Ferreira da Costa retomou  este projeto por falecimento de Nicola Bigaglia, sendo este edifício classificado como monumento nacional deste 1997.

Para além da arquitetura  Ventura Terra era um republicano pelo que no período de 1908 a 1913 foi também vereador  na Câmara Municipal de Lisboa, na 1ª vereação republicana de Lisboa, presidida por Anselmo Bramcaamp Freire. Elaborou planos na área do urbanismo, como os que concebeu para o Parque Eduardo VII e para a zona ribeirinha da capital (1908) e em 13 de Outubro de 1910 propôs a atribuição do topónimo Esplanada dos Heróis da Revolução, em terrenos do Parque Eduardo VII – «que seja dado o nome de Esplanada dos Heróis da Revolução ao espaço que no meu projecto de Parque Eduardo VII fica compreendido entre o limite norte da Praça do Marquês de Pombal, as ruas Fontes Pereira de Melo e António Joaquim Aguiar e o Palácio de exposições e festas onde começa o parque propriamente dito.» – proposta aprovada mas que não chegou a ser concretizada. Em 9 de março de 1911 propôs ainda a atribuição dos nomes de Eugénio dos Santos, Nuno Santos e Silva Porto a ruas importantes de Lisboa. Ainda nesta área refira-se que Miguel Ventura Terra era amigo do escultor António Teixeira Lopes, e solicitou-lhe a execução de um busto em mármore do 1º Presidente Republicano da Câmara de Lisboa, Anselmo Braamcamp Freire, pago pelos 11 vereadores.

Em 1912-1913, num traçado representativo da Arte do Ferro projeta o seu Teatro Politeama, na então designada Rua Eugénio dos Santos (hoje, Rua das Portas de Santo Antão). Ainda em 1913, Ventura Terra recebeu uma Menção Honrosa do Prémio Valmor para o Palacete que idealizou para o nº 3 da Avenida António Augusto Aguiar, onde é hoje a sede da Ordem dos Engenheiros, cabendo a parte de cantaria ao arqtº Pardal Monteiro, que trabalhou no atelier de Miguel Ventura Terra quando ainda frequentava a ESBAL e o entendeu sempre como mestre de referência.

A Casa de Ventura Terra traçada por ele próprio, na Rua Alexandre Herculano, em 1909 (Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Casa de Ventura Terra traçada por ele próprio, na Rua Alexandre Herculano, em 1909
(Foto: Alberto Carlos Lima, Arquivo Municipal de Lisboa)