Jardim Ferreira de Mira, o médico do Instituto Rocha Cabral

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Médico fisiologista da Faculdade de Medicina de Lisboa e historiador da medicina portuguesa, que a partir de 1922 fundou e dirigiu o Instituto Rocha Cabral, Ferreira de Mira dá o seu nome a um jardim lisboeta de Benfica, próximo do Hospital da Luz, 63 anos após o seu falecimento, através da deliberação camarária de 26 de outubro de 2016 e consequente Edital de 10 de novembro, a partir da sugestão do Prof. José Pedro Sousa Dias enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia em representação da Universidade de Lisboa.

Em 1926 na Ilustração Portuguesa

Mathias Boleto Ferreira de Mira (Montijo – Canha/21.02.1875 – 07.03.1953/Lisboa), formado na  Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1898 e discípulo de Mark Athias, foi um médico e professor universitário que também fundou e dirigiu o Instituto Bento da Rocha Cabral a partir de 1922. Começou por exercer medicina no Hospital da Misericórdia da vila de Canha, mas veio viver para Lisboa em 1910 e dois anos depois era já  professor de Fisiologia, na então nova Faculdade de Medicina de Lisboa, a que mais tarde somou a regência da cadeira de Química.

Como investigador científico, Ferreira de Mira teve a oportunidade de fundar e dirigir a partir de 1922 um Instituto de Investigação na área das Ciências Biológicas, com o nome de um transmontano que no Brasil ficou multimilionário –  Bento da Rocha Cabral (1847-1921)- e que  no seu testamento deixou as verbas necessárias para o efeito com a indicação de quem o devia dirigir. O Instituto de Investigação Científica de Bento da Rocha Cabral ficou instalado na casa adquirida e reconstruída em 1902 pelo benemérito e que até aí lhe servira de morada em Lisboa, no nº 14 da Calçada Bento Rocha Cabral – assim denominada desde 1924 já que antes era a Calçada da Fábrica da Louça – e começou a realizar investigação a partir de 1925 com quatro investigadores: o próprio Matias Boleto Ferreira de Mira, o seu filho Manuel Ferreira de Mira (falecido em 1929), Luís Simões Raposo – na toponímia da freguesia do Lumiar desde 25/10/1989- e Fausto Lopo de Carvalho- na toponímia da freguesia de Marvila desde  04/11/1970-, que na década seguinte conseguiu dominar a tuberculose em Portugal. Foi este Instituto que acolheu as primeiras investigações com animais que permitiram a Egas Moniz a descoberta da angiografia e o desenvolvimento da angiopneumografia em conjunto com Almeida Lima e Lopo de Carvalho. Também aqui trabalho como investigadora a  primeira portuguesa doutorada em ciências biológicas, a fitopatologista Matilde Bensaúde.

Matias Ferreira de Mira foi também um membro dirigente da Sociedade Portuguesa de Biologia e, sobretudo nos jornais e revistas Luta de Brito Camacho, Diário de Notícias e Seara Nova, escreveu dezenas de artigos de vulgarização científica, na área da biologia e de outras ciências, assim como redigiu livros didáticos como Lições de Químico-Fisiologia elementar, Exercícios de Química Fisiológica (com Mark Athias) ou Manual de Química Fisiológica. Também deu dezenas de conferências sobre temas científicos e foi o autor da  História da Medicina Portuguesa (1947) e de biografias como a de Brito Camacho (1942), com Aquilino Ribeiro.

Ferreira de Mira foi também um cidadão empenhado na política tendo sido vereador da Câmara Municipal de Lisboa, com o pelouro da Instrução Primária, a partir de 1912, assim como foi  deputado da Primeira República, de 1922 a 1925, por Santarém, eleito com António Tavares Ferreira, Ginestal Machado e João Teixeira de Queiroz Vaz Guedes.

Matias Ferreira de Mira está também presente na toponímia da Charneca da Caparica.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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César Oliveira, da História do Movimento Operário, eternizado numa rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

César Oliveira, cuja investigação histórica se centrou sobretudo na História do Movimento Operário, do Estado Novo e também da Administração Local,  foi colocado na toponímia de Telheiras no ano seguinte ao seu falecimento, no Impasse no prolongamento da Rua Prof. Damião Peres, através do Edital municipal de 11 de março de 1999.

A Rua Professor César Oliveira homenageia o historiador António César Gouveia de Oliveira ( Oliveira do Hospital/26.03.1941 – 15.06.1998) que redigiu a sua própria biografia com a memória do país em Os Anos Decisivos. Portugal: 1962-1985. Um Testemunho (1993) e centrou  a sua investigação na História Contemporânea, com particular incidência no Movimento Operário e no Sindicalismo, pelo era frequentemente chamado o «Historiador da Classe Operária».  São obra sua O Congresso Sindicalista de 1911 (1971),  A Criação da União Operária Nacional e o Operariado e a República Democrática 1910/1914 (ambos em 1972), Socialismo em Portugal 1850/1900 (1973) – a sua tese –  e O 1º Congresso do Partido Comunista Português (1974).

Como professor, começou no ISEF – Instituto Superior de Económicas e Financeiras em 1972, a convite do historiador Joel Serrão, para  a disciplina de  História Económica e Social.  Mas a sua carreira académica está muito ligada ao ISCTE, onde foi docente em 1976 e nos anos 80, para as Licenciaturas de Sociologia e de Organização e Gestão de Empresas, bem como a partir de maio de 1986 como responsável pela cadeira de História Contemporânea de Portugal da Licenciatura de Sociologia e coordenador da área de História do Instituto, tendo também lecionado as cadeiras de História da Política Externa Portuguesa no Mestrado de História Contemporânea e História Contemporânea de Portugal na Licenciatura em Economia. Na Universidade Nova foi também  docente de História da Oposição ao Estado Novo no Mestrado de História, assim como na Faculdade de Economia de Coimbra deu História do Movimento Sindical e História Europeia Comparada e ainda, no ISG- Instituto Superior de Gestão, coordenou o curso de Pós-Graduação em Gestão Autárquica e foi professor de História e Instituições do Poder Local e Animação Cívica e Cultural.

Dirigiu a obra História dos Municípios e do Poder Local : dos finais da Idade Média à União Europeia (1996), na qual escreveu os capítulos referentes aos anos de 1820 a 1993 e são ainda obra sua A Revolução Russa na Imprensa Operária da Época (1975), As Origens do 28 de Maio. António Ferro e a Propaganda do Fascismo (1980), O Movimento Operário Português. A primeira Cisão (1982), Antologia da Imprensa Operária Portuguesa (1984), Salazar e a Guerra Civil de Espanha (1987), A Ascensão de Salazar (1988), Salazar e o seu Tempo (1991), Cem Anos de Relações Portugal e Espanha.Política e Economia (1995) e Portugal: Dos quatro cantos do mundo à Europa. Um ensaio sobre a descolonização (1996). 

Entrou na Faculdade de Direito de Coimbra em 1959 e nesse ano da campanha de Humberto Delgado nasceu para a política. Participou nas lutas da crise académica de 1962 e expulso por 6 meses, seguiu para fazer Filosofia na Universidade do Porto, onde conheceu a sua mulher Beatriz Martins e se licenciou com uma interrupção para cumprir o serviço militar em Angola durante quase 40 meses, onde conheceu Melo Antunes. Em 1969, colaborou na campanha eleitoral da CDE e em 1986 foi Doutor pelo ISCSP- Instituto Superior de Ciências Políticas de Lisboa com a dissertação Portugal e a II República de Espanha.

Foi militante do PCP nos anos 60 e do MES após o 25 de Abril de 1974 . Em 1977, fundou a Fraternidade Operária e ainda nesse ano, com Lopes Cardoso, fundou a UEDS- União de Esquerda para a Democracia Socialista que em 1980 se aliou eleitoralmente com o PS e a ASDI para a FRS-Frente Republicana e Socialista, sendo a partir de 1986, militante do PS.  Foi  adjunto do Ministro Correia Jesuíno no IV Governo Provisório, deputado na Assembleia da República (1980) e Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital durante um mandato (1990-1994), para além de membro eleito da Assembleia Municipal de Lisboa e da Assembleia da Área Metropolitana de Lisboa (1994).

César de Oliveira participou ainda na Cooperativa Cultural Confronto; foi um dos fundadores da Editorial Afrontamento com António Melo, João Barrote, Júlio Pereira, Leal Loureiro, Mário Brochado Coelho, Pedro Francisco, padre Soares Martins e Sousa Ribeiro, a editora que publicou a coleção «História do Movimento Operário»; dirigiu a Agência Noticiosa Italiana – Inter Press – em Lisboa (agosto de 1975 a dezembro de 1977); integrou o GIS- Gabinete de Investigações Sociais, a revista Análise Social e a equipa para as comemorações do centenário do Diário de Lisboa.

Foi agraciado postumamente com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1999) e da Ordem do Infante D. Henrique (2005), com o acrescento do seu nome à Casa da Cultura de Oliveira do Hospital bem como à toponímia de Ervedal e da cidade de Oliveira do Hospital, assim como para além de Lisboa surge em Ruas de Amora (Seixal), de Vale Flores (Almada) e numa Avenida da vila da Fuzeta (Olhão).

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do arquiteto e vereador da Câmara Municipal de Lisboa Perez Fernandez

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Inácio Perez Fernandez, arquiteto e vereador da edilidade lisboeta, autor da Escola Primária da Rua Eugénio de Castro, está desde o ano do seu falecimento homenageado numa artéria a freguesia de Benfica.

Foi pelo Edital de 29 de dezembro de 1989 que a Rua D do Estudo de Urbanização Realojamento da Buraca passou a ser a Rua Perez Fernandez, estendendo-se desde a junção da Rua do Bom Pastor com a Rua da Vila de São Martinho até à Travessa Sargento Abílio.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Ignácio Thomaz Perez Fernandez (Barcelona/29.12.1910 – 02.11.1989/Lisboa), radicado em Lisboa a partir dos 3 anos de idade, após concluir o curso de Arquitetura Civil na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1934, assim como o estágio obrigatório de dois anos que fez com o Arqº Cristino da Silva, tornou-se  a partir de 1938 arquiteto da Câmara Municipal de Lisboa, sob orientação do Engº Duarte Pacheco que depois o fez entrar na Junta Autónoma das Estradas (JAE), onde participou nos  estudos para a construção da Marginal do Estoril. Trinta anos mais tarde, no cargo de chefe de gabinete da JAE, transitou para o Concelho Superior de Obras Públicas, onde foi Inspetor de Obras Públicas até atingir a idade da reforma, 12 anos mais tarde.

Na CML, ainda convite do Engº Duarte Pacheco, juntamente com Arqº Faria da Costa e o Arqº Étienne de Gröer, integrou um gabinete municipal para estudos de urbanização, onde trabalhou com o Arqº Francisco Keil do Amaral e no qual foram elaborados estudos para o Bairro do Restelo (1938/40) e para Alvalade ( 1945), Bairro onde também foi o autor da Escola Primária da Rua Eugénio de Castro.

Ainda em Lisboa, o primeiro prédio que projetou foi o nº 34 da Avenida Defensores de Chaves, tendo também traçado conjuntos urbanos que ladeiam as Praças António Sardinha e Aniceto do Rosário na Penha de França assim como no Largo Dr. António Viana à Rua Silva Carvalho. Concebeu ainda diversas moradias incluindo a sua própria no nº 29 da Rua Dom Francisco de Almeida, assim como um edifício industrial da Volvo na  Rua José Estêvão e duas instalações industriais e um conjunto habitacional no Vale Escuro para além de ter elaborado a remodelação do Palácio da Rosa (1960).

Em 1949, um grupo de arquitetos modernos ligados ao grupo Iniciativas Culturais Arte e Técnica (ICAT), como Keil do Amaral, Inácio Peres Fernandes, Dário Vieira e João Simões, venceram as eleições para a direção do Sindicato Nacional dos Arquitetos, mas o governo impôs o afastamento de Keil do Amaral e entre 1951 e 1959, Perez Fernandez foi o presidente do Sindicato.

Em 1973 foi um dos fundadores do Partido Socialista e nessa qualidade foi Vereador da CML na Presidência de Aquilino Ribeiro Machado, no biénio de 1977/1979, sendo Vice-Presidente.

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça Sócrates da Costa no Beato

Freguesia do Beato
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia do Beato está a Praça Sócrates da Costa que homenageia o licenciado em Direito que também foi professor liceal, consagrado com a legenda «Figura de relevo da Índia Portuguesa/1898 – 1959» desde janeiro de 1960.

Foi pelo Edital municipal de 2 de janeiro de 1960 que a Praceta I à Calçada do Carrascal passou a ter a denominação de Praça Sócrates da Costa, em homenagem a Jerónimo Salvador Constantino Sócrates da Costa (Margão – Índia/28.03.1898 – 10.11.1959/?), licenciado em Direito que prosseguiu uma carreira profissional como professor do ensino secundário, notário e subdelegado do Procurador da República da Comarca de Caminha e, após se ter fixado na Índia, como notário da Comarca de Goa.

Na política, ocupou os cargos de  Vogal da Comissão Distrital da União Nacional de Viana do Castelo, Presidente da Comissão Provincial da União Nacional da Índia, Comissário Colonial e Comissário Nacional Adjunto da Mocidade Portuguesa da Índia, Presidente da Câmara Municipal de Goa, e deputado parlamentar da Índia nas V (1949-1953), VI (1953-1957) e VII Legislaturas (1957-1961).

Deixou publicações várias como a da sua Conferência no Instituto Vasco da Gama intitulada «O Estado Novo e a Constituição Política da República Portuguesa» (1940), «Goa na História da Civilização» (1947) editada pela Repartição Central de Estatística e Informação de Goa ou a obra que compila os seus discursos proferidos enquanto deputado da então Índia portuguesa na Assembleia Nacional – «Índia: discursos proferidos na Assembleia Nacional em 1 de Março de 1950» -, publicada pela União Nacional.

Foi casado com Maria Adosinda Guimarães Mendes, a quem o Decreto-Lei  43970 ( de 19/10/1961) atribuiu uma pensão mensal vitalícia de 5 mil escudos.

Freguesia do Beato
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Avenida de Mitterrand que em 1981 aboliu a pena de morte em França

Freguesia de Marvila

François Mitterrand que conseguiu no seu 1º mandato presidencial abolir a pena de morte em França, no ano de 1981, tem em Lisboa o seu nome numa Avenida de Marvila, com a legenda «Presidente da República Francesa/1916 – 1996», desde a publicação do Edital de 24 de setembro de 1996, a ligar a Avenida Carlos Pinhão à Avenida Vergílio Ferreira, dando uma nova memória à Rua M 5 do Bairro do Armador.

François Maurice Adrien Marie Miterrand (França – Jarnac/26-10-1916 – 08.01.1996/Paris – França), foi um conhecido opositor da pena de morte, licenciado em Sociologia e Literatura Francesa, bacharel em Direito, diplomado em Direito Público e doutorado em Ciências Políticas, que se tornou o  1º presidente socialista da 5ª República Francesa, durante 2 mandatos consecutivos de 7 anos, entre 1981 e 1995, tendo logo no primeiro abolido a pena de morte em França, em 9 de outubro de 1981.

Em termos de direitos humanos, durante os seus mandatos presidenciais são também relevantes  as reformas sociais que instituiu em benefício da classe trabalhadora logo em 1981, como a semana de 39 horas, o aumento do salário mínimo e uma semana adicional de férias pagas; as garantias de direitos de residência que estabeleceu para muitos imigrantes ilegais  (1981); a sua declaração favorável à criação de um Estado palestiniano (1982); a evocação do caso Sakharov em pleno Kremlin (1984);  a nomeação da primeira mulher primeiro-ministro em França, Edith Cresson (1991) e a suspensão dos testes nucleares em França em 8 de abril de 1992.

François Mitterrand foi feito prisioneiro no decorrer da II Guerra Mundial – no dia em que Paris foi ocupada – e transferido para um campo na Alemanha do qual se conseguiu evadir em dezembro de 1941. Foi trabalhar como alto funcionário do governo de Vichy e em 1943 juntou-se à Resistência com o pseudónimo de Morland, assim fundando uma rede de resistência dos prisioneiros e evadidos, sendo em 1944 o presidente do Movimento Nacional dos Prisioneiros de Guerra e Deportados. Após o Dia D ( 6 de junho de 1944) foi nomeado secretário-geral dos Prisioneiros de Guerra pelo General De Gaulle, qualidade na qual participou no primeiro Conselho da França Libertada.

A partir daqui Mitterrand dirigiu o jornal Libres bem como  uma editora, aderiu à União Democrática e Socialista da Resistência (UDSR) e construiu uma longa carreira política, em que foi deputado durante 35 anos (1946 – 1981); ministro de 11 governos (1947 – 1958) passando pelas pastas dos Ex-Combatentes, de Estado, da França do Ultramar, do Interior e da Justiça; Presidente da UDSR (1953); Presidente da Câmara Municipal de Chateau-Chinon (1959); candidato à presidência da República contra de Gaulle (1965) e fundador da Federação da Esquerda Democrática e Socialista que liderou (1970); 1º Secretário do Partido Socialista Francês (1971-1981) e Vice- Presidente da Internacional Socialista (1972) no mesmo ano em que assinou o Programa Comum da Esquerda com o Partido Comunista Francês e que constituiu o seu programa de candidatura para as presidenciais de 1974 contra Giscard d’Estaing, que perdeu por 49,5% contra 50,5%.

Em 10 de maio de 1981 foi eleito o 1º presidente socialista da 5ª República, derrotando Giscard d’Estaing por 51,75% contra 48,24%. No decorrer de dois mandatos, tomou várias medidas como a nacionalização de bancos e grandes indústrias; descentralizou o poder através da atribuição de mais competências a nível local e regional; decretou e permitiu a criação de rádios locais e televisões privadas. Em 1982 e 1983, para fazer face a problemas económicos congelou salários, aumentou taxas nos serviços de saúde e fez cortes na despesa pública. Empenhou-se também na construção europeia comum estreitando relações com a Alemanha de Helmut Kohl e procurando a concretização do Tratado de Maastricht pelo que esteve em Lisboa no Conselho Europeu de Encerramento da Presidência Portuguesa na Comunidade Europeia (1992). François Mitterrand terminou o seu mandato a 17 de maio de 1995, após ter manifestado no ano anterior  a sua vontade de não se recandidatar, revelada que estava a doença que o conduziria à morte em 1996, aos 79 anos.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua de Francisco Lourenço da Fonseca que enriqueceu no Brasil e foi vereador lisboeta

Freguesia de Alvalade

Desde 1956 que a Rua Francisco Lourenço da Fonseca homenageia, na freguesia de Alvalade, o comerciante que enriqueceu no Brasil e foi vereador da autarquia lisboeta no biénio de 1876 e 1877.

Foi através da publicação do Edital municipal de 26 de maio de 1956 que a Rua 37 A do Sítio de Alvalade passou a ter como topónimo oficial Rua Francisco Lourenço da Fonseca. O mesmo Edital colocou nas artérias circundantes os pintores do Grupo do Leão, António Ramalho, Cipriano Martins, João Vaz, Moura Girão e Ribeiro Cristino, o elemento dos Vencidos da Vida Carlos Mayer, o autor da letra do Hino Nacional Lopes de Mendonça e ainda, o Largo de Alvalade.

O comerciante Francisco Lourenço da Fonseca (Vila Nova de Gaia/10.08.1818 ou 1819– 09.03.1906/Dafundo) fez fortuna no Brasil, para onde emigrou,  e após regressar a Portugal em 1862, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa, nos anos de 1876 e 1877, sob a presidência de Luís de Almeida e Albuquerque e a vice-presidência de Rosa Araújo. Nesse biénio, Francisco Lourenço da Fonseca deteve a responsabilidade das obras públicas municipais, tendo-se  destacado por produzir melhoramentos nos Jardins da Estrela e de São Pedro de Alcântara,  requisitar um arquiteto ao Ministério das Obras Públicas para as obras do município, reconstruir as Escadinhas da Barroca, bem como por  ter iniciado a expropriação de terrenos para a abertura de uma avenida a norte do Passeio Público, que viria a ser a Avenida da Liberdade mandada executar por Rosa Araújo. Francisco Lourenço da Fonseca foi ainda tesoureiro da Comissão Central 1° de Dezembro que promoveu a construção do Monumento aos Restauradores.

Francisco Lourenço da Fonseca, comendador  da Ordem de Cristo, foi ainda diretor do Asilo de Santa Catarina –  internato feminino instalado desde 1858 no complexo conventual de São João Nepomuceno, no Largo São João Nepomuceno  –, e casado com Maria José Oliveira Gaia ( Brasil- Rio Grande do Sul/19.02.1832 – 06.05.1912/Lisboa), de quem teve 4 filhos: Francisco Lourenço da Fonseca Júnior (Brasil – Rio Grande do Sul/06.06.1848 – 06.07.1902/Lisboa), Wenceslau da Fonseca (n. 1850), Álvaro da Fonseca (n. Brasil – Rio Grande do Sul/15.02.1855) e Alfredo da Fonseca (n. Lisboa – Freguesia de Santa Catarina/04.08.1862).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Travessa do merceeiro da Ajuda e vereador de Belém

Freguesia da Ajuda

Vitorino de Freitas que está perpetuado numa Travessa da Ajuda, por deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, foi o dono de uma mercearia nessa  freguesia e também exerceu funções como vereador da Câmara Municipal de Belém no século XIX.

Belém existiu como concelho na segunda metade do séc. XIX, de 11 de setembro de 1852 a 18 de julho de 1885, tendo depois o seu território sido integrado no concelho de Lisboa e consequentemente, a sua toponímia. A edilidade belenense era composta pelas freguesias de São Pedro de Alcântara, Nossa Senhora do Amparo de Benfica, São Lourenço de Carnide,  Santa Isabel, São Sebastião da Pedreira e Menino Jesus de Odivelas, tendo esta última sido a única a não passar passar para o concelho de Lisboa mas antes para o de Loures. A Câmara Municipal de Belém teve Alexandre Herculano como o seu primeiro presidente, sucedendo assim à freguesia de Santa Maria de Belém, criada em 1833, que por seu turno tinha substituído o Bairro Administrativo de Belém, instituído em 1813.

Todavia, a Travessa de Vitorino de Freitas, que liga a Calçada da Ajuda à Rua da Bica do Marquês, resultou já de uma deliberação camarária lisboeta de 14 de dezembro de 1899, tendo sido o necessário Edital publicado em 4 de maio de 1901, para substituir o anterior topónimo de Travessa da Ilha das Cobras. A primeira deliberação camarária da Câmara Municipal de Lisboa, emitida em 1899 foi retificada depois duas vezes, em 19 de julho de 1900 e em 2 de maio de 1901, após o que saiu o Edital e assim, a Planta Topográfica de Lisboa de 1909 de Júlio Silva Pinto e Alberto Correia de Sá já a inclui.

O pouco que hoje se sabe de Vitorino de Freitas resume-se a ter sido o proprietário de uma mercearia na Ajuda e ter exercido funções de vereador da Câmara Municipal de Belém antes de 1862, se considerarmos que no Largo da Luz, em Carnide, se encontra uma inscrição em pedra onde se pode ler, em maiúsculas, «Praça de Nossa Senhora da Luz mandada edificar pela Camara Municipal de Belém. sendo Presidente João António de Souza e Vereadores Manuel José Gonçalves. Pedro Augusto Franco. D. Sebastião da Silva Pessanha. Faustino José de Freitas. José António Capucho. Francisco Evangelista Pacheco. 1862». Talvez tenha sido o Vitorino José de Freitas (ou familiar) de quem encontramos no arquivo Municipal de Lisboa uma escritura de venda de terreno firmada em 11 de julho de 1901 para construção de jazigo no 3º Cemitério, que era o da Ajuda.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

 

 

A Rua do irmão da Casa Pedreira em São Tomé que foi vereador de Lisboa

Freguesia do Lumiar

José da Costa Pedreira, comerciante da Casa Pedreira em São Tomé e vereador da Câmara de Lisboa nos anos 80 do séc. XIX, foi perpetuado em 1983 na Freguesia do Lumiar, numa rua nas proximidades da Alameda das Linhas de Torres, para cujo alargamento tinha contribuído com parcelas de terreno, com a legenda «Benemérito/1839 – 1903».

A partir de uma carta de Maria dos Prazeres Pedreira Cruz Romão e outros, sugerindo que a um arruamento recentemente aberto na Quinta das Pedreiras à Alameda das Linhas de Torres fosse dado o nome de José da Costa Pedreira, deu a Comissão Municipal de Toponímia  parecer favorável na sua reunião de 19 de abril de 1983 e assim foi atribuída a Rua José da Costa Pedreira no arruamento Z4 da Quinta do Lambert, através do Edital de 22 de abril de 1983. O mesmo Edital colocou noutros novos arruamentos da Quinta do Lambert a Rua Amílcar Cabral e a Rua Agostinho Neto.

O Occidente, 10 de julho de 1903

José da Costa Pedreira (Braga/27.09.1839 – 16.06.1903/Lisboa), foi para S. Tomé e Príncipe aos 18 anos (1857) e lá permaneceu até 1876, ocupando-se do comércio da Casa Pedreira que abastecia navios das rotas da África meridional e que o seu  irmão, Manuel José da Costa Pedreira, lá fundara em 1843. O seu irmão era dono da roça Monte Café no centro da ilha de São Tomé e ambos contribuíram para o desenvolvimento da agricultura local emprestando capital aos que desejavam abrir uma roça. José da Costa Pedreira também apoiou a administração local e criou o primeiro hospital da ilha. No regresso a Portugal dedicou-se à divulgação de meios de combate às febres tropicais tendo fundado a Companhia Luso-Africana de produtos químicos à base de quinino, sendo também o representante em Lisboa dos produtores de quina de São Tomé.

No período de janeiro de 1886 a março de 1890, foi também vereador da Câmara Municipal de Lisboa, eleito pela maioria monárquica do Partido Progressista. Foi responsável pelos pelouros das Obras e da Polícia Municipal, tendo no desempenho desse cargo contribuído decisivamente para o desenvolvimento das vias de acesso à cidade, inclusive com avultados donativos pessoais, e particularmente para o alargamento da Alameda das Linhas de Torres, através de parcelas retiradas à sua propriedade e doadas ao Município. Refira-se que foi também o responsável das obras e expropriações que permitiram a construção da Avenida da Liberdade idealizada por Rosa Araújo, do Parque da Liberdade (hoje Parque Eduardo VII) e do embelezamento do novo Rossio de 1889 (é a Praça de D. Pedro IV), com os dois lagos da autoria de Mesnier du Ponsard que hoje lhe reconhecemos como icónicos, e cujas figuras foram compradas à Societé des Hauts Fourneaux & Fonderies du Val d’Osne e pagas do bolso do próprio José da Costa Pedreira.

Note-se ainda que era o Pelouro da Polícia Municipal que tratava das denominações das ruas e da numeração das portas (esta última designada como numeração de polícia) e foi no mandato de Costa Pedreira que o Largo do Pelourinho passou a ser a Praça do Município ou a Rua do Carvalho passou a Rua Luz Soriano que tinha contribuído com 8 contos de réis para ser estabelecer uma escola nessa artéria.

A par disto, José da Costa Pedreira ainda desempenhou um papel importante na implantação dos Albergues Noturnos de Lisboa, fundados em 1881 pelo Rei D. Luís para apoio à população mais carenciada de alimentação e alojamento, tendo mesmo dirigido o primeiro, instalado no Intendente. O mesmo rei D. Luís I que o tinha como conselheiro particular para os assuntos africanos, também o nomeou Par do Reino e agraciou-o com a comenda da Ordem de Benemerência.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do comerciante que ergueu o Bairro Brandão

Freguesia da Estrela

Manuel Francisco de Almeida Brandão, comerciante  que fez fortuna na Baía e foi vereador na Câmara Municipal de Lisboa, tem desde 1902 o seu nome numa rua do bairro que ergueu junto à Calçada da Estrela.

Alguns meses antes de falecer Manuel Francisco de Almeida Brandão passou a ter o seu nome perpetuado na Rua Um do Bairro Brandão, por Edital municipal de 1 de agosto de 1902 que a descreve como «Via pública que corre na direcção Nordeste – Sudoeste e, partindo da Calçada da Estrela, termina na serventia que dá para a Rua Borges Carneiro, à qual fica paralela». O mesmo Edital atribuiu neste Bairro a Rua Miguel Lupi.

Encontramos nos documentos municipais uma planta de 9 de junho de 1891 com a proposta de traçado das ruas que Manuel Francisco de Almeida Brandão queria abrir no seu terreno próximo da Calçada da Estrela. No ano seguinte, com datas de 12 de fevereiro a 20 de abril, surge já a planta definitiva de António Maria Avelar e  Augusto César dos Santos para as ruas do Bairro Brandão. Entre janeiro e março de 1900 foram elaborados pela CML os orçamentos para as obras de pavimentação, canalização e acessórios que faltam fazer «nas ruas particulares abertas por Manuel Francisco de Almeida Brandão, na sua propriedade próxima da Calçada da Estrela». Já a entrega das ruas ao domínio municipal foi feita pela viúva de Almeida Brandão, Maria Emília de Almeida Brandão, por escritura de março de 1903.

Manuel Francisco de Almeida Brandão ( Póvoa de Varzim- Beiriz/11.01.1837 – 04.10.1902/Póvoa de Varzim- Beiriz), como filho primogénito foi senhor  da Quinta de Calves e de outros casarões na Póvoa de Varzim, fidalgo cavaleiro da Casa Real, com fortuna oriunda de comércio na Baía, sendo o que vulgarmente se denominou como «brasileiro de torna-viagem», para referir os portugueses emigrantes no Brasil que lá conseguiram fazer fortuna.

Aos 50 anos,  em 16 de Outubro de 1887, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa para o quadriénio de 1888-1891, pelo Partido Progressista, no executivo presidio por Fernando Palha Osório Cabral. Já na Câmara Municipal da Póvoa de Varzim foi o Presidente da edilidade, e assim também tem honras de nome de rua.

No seu percurso político,  foi também deputado desde 1880, eleito pelo Círculo de Vila Conde nas listas do Partido Progressista, tendo integrado as Comissões Parlamentares Administrativa (1880-1881) e do Comércio e Artes (1881). Mais tarde, terá sido um dos obreiros da elevação da Póvoa de Varzim a Círculo Eleitoral Autónomo, separando-se de Vila do Conde, conseguido em 1886. Foi agraciado como Comendador da Ordem Militar de Cristo e Par do Reino.

Na sua vida particular, casou com a sua prima Maria Emília de Almeida Brandão, de quem teve 3 filhos e uma filha, e residiu na Rua do Paço, na Baía, até pelo menos 1864, assim como em Lisboa a partir de 1876, no palacete no nº 79 da Rua de Buenos Aires que foi em 1900 adquirido pelo conde de Monte Real.

No nº 39 da Rua Almeida Brandão, situa-se a Junta de Freguesia da Estrela.

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do Engenheiro primeiro presidente da CML após o 25 de Abril

Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias)

O Engº Caldeira Rodrigues foi o presidente da 1ª Comissão Administrativa da CML após o 25 de Abril de 1974, que assinou os primeiros 5 Editais de Toponímia e desde 2007 o seu nome está na memória das esquinas de Lisboa, numa rua da freguesia de Alvalade.

A Rua Engº. Caldeira Rodrigues foi atribuída pelo Edital municipal de 23/04/2007 ao arruamento identificado como Rua 2.2 à Rua António Albino Machado, com a legenda «Autarca/1925 – 2004», ligando a Rua António Albino Machado à Rua Joaquim Rocha Cabral. Recorde-se que António Albino Machado foi o fundador e 1º presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril  e Joaquim Rocha Cabral foi um engenheiro que presidiu à Junta de Freguesia do Campo Grande durante dois mandatos consecutivos (1994-97 e 1998-2001).

O Engº Caldeira Rodrigues numa Conferência de Imprensa dada em dezembro de 1974, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Lisboa
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues (Torres Vedras/06.12.1925 – 29.12.2004/Lisboa), foi nomeado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa e exerceu essas funções de 2 de setembro de 1974 a 19 de novembro de 1975 , sucedendo ao Delegado da  Junta de Salvação Nacional, João António Lopes da Conceição. Caldeira Rodrigues levou a cabo uma importante reconversão do município, no quadro de uma dinâmica de participação popular, tendo sido determinante a sua intervenção no aliviar de tensões e na resposta imediata a carências básicas da população, como a habitação. Em matéria de toponímia assinou 5 editais que colocaram em Lisboa os nomes de Alves Redol, Avenida dos Bombeiros, Capitão Henrique Galvão, Castro Soromenho, Dr. João Soares, Avenida das Forças Armadas, General Norton de Matos, José Dias Coelho, Julião Quintinha, Luís de Freitas Branco, Maria Isabel Aboim Inglês, Praça das Novas Nações, Rua da República da Bolívia e Calçada Ribeiro dos Santos.

Na época, o Engº Caldeira Rodrigues integrava  a direção do MDP/CDE mas já antes, durante mais de 30 anos, tinha sido um resistente político  que sofreu mesmo a prisão por duas vezes, em 1947 e em 1951. Foi dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde se licenciou em Engenharia em 1950 mas também se tornou ativista do MUNAF ( (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista) e do MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), cuja comissão central integrou em 1947, com Mário Soares, Octávio Pato, Salgado Zenha, António Abreu, Fernanda Silva e outros. Em 1950 também aderiu ao Movimento para a Paz, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

Enquanto engenheiro, Caldeira Rodrigues desenvolveu uma carreira como especialista de Planeamento e Estruturas Hidráulicas na Hidrotécnica Portuguesa e na Companhia de Águas de Lisboa, para além de ter sido um dos sócios-fundadores da COBA – Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., bem como dirigente da Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores, entre 1989 e 1993.

O nome de Joaquim Caldeira Rodrigues está também perpetuado numa rua da sua terra natal e refira-se que Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE que desempenhou as funções de Ministra do Emprego no primeiro Governo de António Guterres, é sua filha.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)