Maria Alice e Third no Festival de Arte Urbana de Lisboa – MURO’19

(Foto: © Bruno Cunha, 2019 |DPC |DMC |CML )

A Rua Maria Alice tem ao longo de sete prédios, a intervenção de Third no MURO’19 – Festival de Arte Urbana de Lisboa, para narrar em pintura a história de Glória Mendes Leal de Carvalho, a fadista Maria Alice e a primeira a gravar um disco em Portugal, que desde o ano 2000 está perpetuada como topónimo da Freguesia do Lumiar.

Já o artista Third  é Nuno Príncipe Palhas, nascido em Vila Nova de Gaia em 1979, e que cedo revelou uma paixão pela cultura hip hop e a partir de 1996 se dedicou à pintura mural, a par do seu trabalho de designer têxtil para uma marca de streetwear. Expressa-se hoje através da arte urbana e da ilustração, com um estilo reconhecível pelo seu realismo, quer na forte presença dos retratos, como por exemplo a sua Carmen Miranda, quer nas estruturas tridimensionais que cria num hábil jogo de luz e sombra, sejam criaturas fantásticas ou robóticas.

De forma resumida, destaque-se que pintou obras em Águeda com o Colectivo Rua, um dragão para o Estádio do Dragão, participou no Festival de Arte Mural de Cascais, Festival de Murals i Art Rural a Penelles ( Catalunha -Espanha), Festival Sebastianas de Paços de Ferreira, o Míscaros – Festival do Cogumelo (Alcaide – Fundão), o mural inspirado na poesia de José Régio para a GAU na Calçada da Glória (em 2015),  para o Parque do Corgo (Vila Real) ou o Tons da Primavera de Viseu. Ainda recentemente expôs na 60-62 Art Gallery do Porto e ainda este ano vai participar na Exposição CAIS Urbana.

Maria Alice foi o nome artístico de Glória Mendes Leal de Carvalho (Figueira da Foz/01.09.1904 – 13.02.1996/Lisboa), a cantora de voz fina, maviosa e castiça  que foi muito popular na década de 30 do século XX  a ponto de ter gravados vários discos na editora Valentim de Carvalho. Foi também a segunda mulher do editor Valentim de Carvalho que aliás foi quem lhe escolheu o nome artístico, fazendo uso do nome da sua primeira mulher.

Desde os 3 anos de idade que Glória residia em Lisboa e em 1928 estreou-se numa Festa do Fado da Velha Guarda, no retiro Ferro de Engomar, na Estrada de Benfica. Continuou a cantar em Lisboa, em retiros, festas de beneficência, esperas de toiros, bem como integrou duas digressões ao Brasil. Os seus maiores sucessos foram Fado TristePerseguiçãoCrueldadeFado da TraiçãoFado da PerdidaFado-TangoA Voz do PovoA Minha SinaHumildadeVida Triste ou Esse Olhar Dá-me Tristeza. Retirou-se da carreira artística após o seu casamento com Valentim de Carvalho, nos anos quarenta do século XX.

Esta Rua Maria Alice,  que liga a Rua Maria do Carmo Torres à Avenida David Mourão Ferreira, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, ao mesmo tempo que a Rua Maria José da Guia e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa. Aliás, a designação popular do Bairro resultava da sua toponímia comportar apenas Marias, fosse através dos nomes próprios das senhoras da Secção Auxiliar Feminina da Cruz Vermelha – de cuja iniciativa foram angariados os fundos que permitiram a construção do Bairro Municipal da Cruz Vermelha-, fosse de jogos de nomes como a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias. Na década de oitenta do séc. XX, foi também atribuída no local a Rua Maria Albertina.

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A Rua Maria José da Guia, Tamara Alves e Ozearv no MURO’19

A 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa, o MURO’19, na proximidade da Rua Maria José da Guia, junta Tamara Alves e Ozearv numa intervenção artística conjunta no muro do estacionamento, ligando assim a arte urbana à música presente na toponímia local. Tamara Alves & Ozearv realizarão também um workshop no local.

Tamara Alves, nascida em 1983 é uma artista multifacetada que se exprime da pintura à  ilustração, das tatuagens à arte mural urbana, com o denominador comum de uma visão erótica de um corpo contemporâneo com limites expandidos: sem órgãos, uma paixão bruta, um devir animal. Desde o ano 2000 que participa em diversos projetos, exposições individuais e coletivas, afirmando-se como uma das mulheres mais conhecidas da arte urbana.

José Carvalho, nascido em 1980, é o nome civil do artista Ozearv, licenciado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Desde 1996 que tem integrado diversos projetos individuais e coletivos, políticos e humanitários, como membro da primeira geração de artistas de arte urbana portugueses. O seu trabalho para a arte mural procura o espaço, o movimento e a cor das cidades e os seus contrastes, através de técnicas que vão do aerosol ao stencil, da ilustração à fotografia, para «preencher o branco que existe no dia-a-dia de cada um de nós». Já em 2017, na 2ª edição do MURO, integrou o «Incursões pela Arte» em que pintou com os alunos da Escola Básica de Marvila.

A Rua Maria José da Guia,  que liga a Rua Pedro Queirós Pereira à Rua Maria Carlota, nasceu do Edital municipal de 5 de julho de 2000, junto com a Rua Maria Alice e a Rua Maria do Carmo Torres no Bairro da Cruz Vermelha. Este bairro conhecido popularmente como Bairro das Marias, recebeu mais estes três topónimos marianos, todos de fadistas, todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

Maria José da Guia

Maria José dos Santos Guia de Freitas (Angola/16.10. 1929 – 02.09.1992/Espanha) que usou o nome artístico de Maria José da Guia, ficou famosa no Fado na década de quarenta do século XX. Aos quatros anos foi morar para Alfama e aí começou a cantar, tendo  até sido mascote da Marcha de Alfama. A sua carteira profissional data de 1944 e a sua voz sustentava-se num corpo vestido de negro e xaile traçado.

Maria José da Guia cantou em várias casas de fado do Bairro Alto e de Alfama, tendo integrado os elencos do Café Luso, do Retiro da Severa, do Faia ou da Adega Machado. Celebrizou fados como Lisboa Antiga – com letra de José Galhardo e música de Raúl Ferrão -, Casa Portuguesa ( letra de Gustavo de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira com música de Artur Fonseca), Grão de Arroz ( letra e música de Belo Marques), Sempre que Lisboa Canta ( letra de Aníbal Nazaré e música de Carlos Rocha), Bairro Divino (letra e música de Álvaro Duarte Simões), Ciúme duma Verdade (letra de Fernando Peres e música de Jaime Santos, Victor Ramos e Santos Moreira),  Fado da Minha Saudade ( letra de Fernando Peres e música de Francisco José Marques), Um Golpe de Vento (letra de Linhares Barbosa e música de Nuno Meireles) ou o fado Severa ou a Marcha dos Centenários (letra de Norberto de Araújo e música de Raúl Ferrão).

No Fado, Maria José da Guia foi madrinha artística de Ada de Castro mas também passou pela rádio e televisão, assim como participou em várias revistas dos Teatros Maria Vitória, Variedades e ABC, no Parque Mayer, para além de ter cantado no filme O Homem do Dia (1958) de Henrique Campos. Na vida pessoal, Maria José da Guia casou com Amadeu José de Freitas, profissional do relato desportivo nos jornais, na rádio e na televisão, com quem teve dois filhos.

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NBC e Adriana de Vecchi: dois músicos no MURO’19

(Foto: ©NBC- Natural Blake Colour)

De origem são-tomense e italiana, NBC e Adriana de Vecchi são dois músicos presentes – pela música e pela toponímia – no MURO’19- Festival de Arte Urbana, que de 23 a 26 de maio vai decorrer na Freguesia do Lumiar.

NBC é o nome artístico de Timóteo Deus Santos, natural de São Tomé e Príncipe onde nasceu em 17 outubro de 1974, que já conta com 20 anos de carreira e que no Festival da Canção 2019 vimos a defender Igual a Ti.

Este cantor e escritor de canções veio com a família para Portugal em 1980 – tendo residido em Enxará dos Cavaleiros, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras – e aqui desenvolveu a sua carreira como um dos fundadores do hip-hop português nos anos 90, tendo com o seu irmão BlackMastah criado Filhos de um Deus Menor para o Oeiras Rap 94 da Antena 3 enquanto como NBC  tornou possíveis os já clássicos «Especial» com Regula ou «Chelas» com Sam The Kid.

Conhecido pela sua garra em palco e com influências do groove, do funk, do rock,  soul e blues, a discografia de NBC  soma os álbuns Afro-Dísiaco (2003), Maturidade (2008), o EP  Epidemia (2013) e Toda a Gente Pode Ser Tudo (2017), que foi eleito pela Antena 3 como um dos discos desse ano. Nas duas décadas da sua carreira assinou ainda colaborações com New Max, Orelha Negra, Dealema,, Mundo Segundo, Bob da Rage Sense, Sir Scratch, Grognation, Time for T., Zimun, Dino d’Santiago, DJ Ride ou Gatupreto. Esteve com os GNR no Rock in Rio Lisboa’ 2006 e em 2014 no Meo Out Jazz, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste e no Vodafone Mexefest. Também participou no filme Fados de Carlos Saura e no Do Desassossego.

A origem do nome NBC deriva do rei bíblico de Israel, Nabucodonosor, mas que posteriormente foi assumido como Natural Black Color.

adriana-de-vecchiJá Adriana de Vecchi (Viana do Castelo/14.09.1896 – 1995), nasceu em Portugal filha de mãe italiana e de pai português e foi educada em Itália a partir dos 2 anos, tendo estudado piano e violoncelo no Conservatório de Turim, para além de ter concluído o curso de Pedagogia pelo método da educadora Maria Montessori.

A Rua Adriana de Vecchi, que liga a Rua Shegundo Galarza à Rua Ferrer Trindade,  foi atribuída por Edital Municipal de 15/12/2003, o mesmo Edital que na mesma zona atribuiu mais 6 topónimos ligados à música –  Rua Luís Piçarra, Rua Nóbrega e Sousa, Rua Belo Marques, Rua Shegundo Galarza, Rua Tomás Del Negro e Rua Arminda Correia –, tendo todos estes arruamentos mais a Alameda da Música tido uma cerimónia de inauguração no dia 1 de Outubro de 2004,  formando um Bairro da Música nesta zona da cidade.

Violoncelista como o seu marido Fernando Costa, que conheceu em Lisboa, criou a Fundação Musical Amigos das Crianças,  em 29 de junho de 1953, com o apoio de Sofia Abecassis, que disponibilizou salas da sua residência no nº 97 da Rua Saraiva de Carvalho para o efeito, depois de ouvir a conferência de Adriana «O Ensino da Música na infância e a sua projecção no futuro», no Museu João de Deus, em 15 de junho desse ano. A escola começou com aulas de violoncelo dadas por Adriana de Vecchi, aulas de piano por Abreu Mota, aulas de violino por Lamy Reis e aulas de Canto Coral por Jaime Silva. Adriana criou ainda material didático para ensino de música a crianças em idade pré-escolar pelo que esta escola desempenhou um papel pioneiro em Portugal no ensino da música desde a infância. Também foi a partir dela que se gerou a Orquestra Juvenil de Instrumentos de Arco da FMAC, dirigida por Fernando Costa, da qual saíram na década de 60 os primeiros jovens para os quadros da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, enquanto outros alunos integraram a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

A Fundação criada por Adriana de Vecchi designa-se hoje Academia Musical dos Amigos das Crianças e tem sede no 1.º andar do n.º 19 da Rua Dom Luís I, tendo já editado três discos – Canções Tradicionais PortuguesasCantar o Natal e Clássicos Madeirenses –, assim como publicado a partitura do Quarteto em Lá menor de Fernando Costa e um livro sobre a Nova Técnica de Contrabaixo, de Álvaro Silva.

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Surma de Leiria e Arminda Correia de Lagos no MURO’19

MURO’19, que vai decorrer de 23 a 26 de maio no Lumiar, está subordinado ao tema da Música, tal como a toponímia local, criando nesta 3ª edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa também uma dimensão sonora mas preservando o contexto de  experimentação e inovação, que assim permitem coexistirem no espaço do mesmo Festival a cantora lírica do Bairro da Música, Arminda Correia, natural de Lagos, com a representante de música alternativa Surma, natural de Leiria.

De Leiria para o mundo, surge a filha de Maria Umbelino e Pedro Umbelino, nascida em 26 de dezembro de 1994, Débora Umbelino, que é o nome do registo civil da artista Surma que ainda este ano vimos defender Pugna no Festival da Canção. Usa as teclas, os samplers, as cordas, loop stations e o instrumento da sua voz através de uma fonética sem palavras que ela denomina «surmês», criando sonoridades que fogem do jazz para o post-rock, da electrónica para o noise, em atmosferas experimentais que já atraíram público em palcos holandeses, norte-americanos, italianos ou islandeses.

A singular Surma começou em 2015 e com a  editora de Leiria Omnichord Records estreou-se com  o single  Maasai, em 2016, para no ano seguinte ser a vez do álbum Antwerpen (lançado em 13/10/2017), nomeado para melhor disco europeu do ano e cujo single de apresentação do álbum – Hemma -, foi nomeado para melhor canção nacional nos prémios da Sociedade Portuguesa de Autores em 2017. O seu nome artístico é o de uma tribo da Etiópia e resultou da preferência desta One Woman Band por documentários.

De outra localidade portuguesa, de Lagos, veio Arminda Nunes Correia (Lagos/26.12.1903 – 21.09.1988/Lisboa), para Lisboa para concluir os cursos de Canto e Piano no Conservatório Nacional. A partir daí distinguiu-se na interpretação de «lieder» alemães e ficou perpetuada na Rua A da Malha 3 do Alto do Lumiar pelo Edital municipal de 15/12/2003 e oficialmente inaugurada no Dia Mundial da Música de 2004, junto com mais outros  7 arruamentos com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Luís Piçarra, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques – e uma Alameda da Música, criando assim pela primeira vez na cidade de Lisboa um Bairro com topónimos dedicados à Música.

Arminda Correia estreou-se como cantora lírica em 1927, no palco do São Carlos, na estreia absoluta de três óperas de Rui Coelho. Foi uma notável intérprete de autores portugueses, muito valorizada pelos seus dotes de dicção e raro timbre de voz, tanto  na interpretação de «lieder» alemães e franceses como em canções tradicionais portuguesas, harmonizadas por Francisco de Lacerda ou Fernando Lopes Graça. Foi galardoada com  o prémio Luísa Todi (1943) e, em 1959, gravou no Reino Unido Canções Populares Portuguesas acompanhadas ao piano por Fernando Lopes Graça. Na  sua carreira de cantora merecem ainda destaque a sua interpretação de  Beatitudes de César Franck, de Crisfal (em português) no Teatro D. Maria II, da Paixão Segundo São Mateus de Bach no São Carlos, a gravação que executou de canções portuguesas a convite do Musée de la parole et du geste, os inúmeros recitais para a Emissora Nacional – com canções tradicionais portuguesas recolhidas por Francisco Lacerda  – nos anos 40 do século XX e concertos um pouco por todo o país.

A esta carreira lírica Arminda Correia somou ainda 14 anos de professora de solfejo e de canto, em quatro locais: Instituto de Música de Coimbra, Liceu Feminino de Coimbra, Academia de Amadores de Música e Conservatório Nacional.

(Foto: © Hugo Domingues)

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Tó Trips e Tomás del Negro no MURO’19

Tó Trips
(Foto: © Mónica de Sousa, 2018)

Tó Trips e Tomás del Negro, o autor do álbum Guitarra Makaka e o divulgador de música em concertos públicos na Lisboa da passagem do séc. XIX para o XX, encontram-se este ano no espaço do Festival de Arte Urbana de Lisboa que neste MURO’19 junta à vertente da arte urbana a sonoridade de música inspirada pela toponímia do local.

Tó Trips do imaginário alternativo musical nacional é convidado do MURO’19 que decorrerá de 23 a 26 de maio. Já como cidadão António Manuel Antunes foi estudante do Liceu Dom Pedro V e da Escola de Artes António Arroio e nesse percurso gerou os Amen Sacristi – que estiveram em dois concursos de música moderna no Rock Rendez Vous -, os Santa Maria Gasolina em Teu Ventre! e os Lulu Blind com Jorge Ferraz. Oficialmente desde 2003, partilha com Pedro Gonçalves os Dead Combo, banda nascida a partir de um convite de Henrique Amaro da Antena 3 para gravarem um tema de homenagem a Carlos Paredes. A discografia a solo de Tó Trips soma Guitarra 66 (2010) e Guitarra Makaka: Danças A Um Deus Desconhecido (2015).

 

Tomás Del Negro, foi um solista de trompa e compositor que se distinguiu na passagem do séc. XIX para o XX através de concertos públicos que promoveu em Lisboa para divulgar música. Desde a publicação do Edital  municipal de 15 de dezembro de 2003 é um topónimo do Lumiar.  Sugerido pela  Comissão para a Comemoração do 150º Aniversário do Maestro Tomás Del Negro este topónimo teve inauguração oficial no Dia Mundial da Música de 2004, em conjunto com outros 7 topónimos da mesma área temática: a Alameda da Música , a Rua Adriana de Vecchi, a Rua Arminda Correia, a Rua Belo Marques, a Rua Nóbrega e Sousa e a Rua Shegundo Galarza.

Joaquim Thomaz del Negro (Lisboa/05.06.1850 – 12.02.1933/Lisboa), oriundo de uma família italiana que cultivava a arte musical e estava estabelecida no alto comércio de Lisboa desde finais do séc. XVIII, nasceu na então freguesia de Santos-O-Velho e foi batizado  na Igreja  de Nossa Senhora do Loreto, vulgarmente conhecida como Igreja dos Italianos. Del Negro foi solista de trompa do Teatro Real de São Carlos (até 1878 e depois de 1890) e na Capela e Teatro Real de Madrid (de 1879 a 1889), compositor de música sacra, de câmara, para piano, para trompa, para banda filarmónica, empresário teatral e musical e ainda, o promotor de concertos públicos de música sinfónica e de câmara, em que deu a conhecer pela primeira vez ao público de Lisboa obras de grandes compositores como Beethoven, Haydn, Mendelssohn, Wagner, Weber, Glimka e Saint-Saens, divulgação essa que reforçou com artigos de divulgação musical em jornais da especialidade.

Del Negro foi também dirigente da Associação Música 24 de Junho, fundada por Santos Pinto, professor de trompa no Conservatório Nacional de Música de Lisboa durante 27 anos, diretor musical e coproprietário de O Álbum-Jornal de Música para Piano (1869-1871), diretor musical de O Mundo Artístico – Gazeta Musical de Lisboa (1883) e colaborador e crítico musical de inúmeros jornais e revistas como a Perfis artísticos, sob o pseudónimo de Ruy Blas. Acrescente-se a sua função de empresário e diretor musical dos Teatros D. Afonso,  Carlos Alberto, Real de S. João e Príncipe Real, todos no  Porto, bem como do Teatro da Trindade, em Lisboa.

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A Rua do cantor lírico Dom Francisco de Sousa Coutinho ou Chico Redondo

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC/ Planta: Sérgio Dias| NT do DPC) )

Por sugestão de Durval Pires de Lima, membro da Comissão Municipal de Toponímia  ficou o cantor lírico Dom Francisco de Paula de Sousa Coutinho, conhecido como Chico Redondo, inscrito na toponímia de Alvalade, junto à Rua Guilhermina Suggia, a partir da publicação do Edital municipal de 20 de outubro de 1955.

Na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 26 de fevereiro de 1951, conforme se pode ler na ata da reunião, «Para efeito da denominação de novos arruamentos no Bairro de Alvalade, o Excelentíssimo Senhor doutor [Durval] Pires de Lima, indicou os seguintes nomes, além dos irmãos Andrade e de Luísa Todi : Dom Francisco de Sousa Coutinho (Chico Redondo), filho do Conde de Redondo e Marquês Borba – barítono; José Rosa, que cantou muito em Itália e morreu em Milão, onde está sepultado – Tenor; Alfredo Gazul, medíocre tenor, e Maria de Arneiro, medíocre soprano.» Assim, o Edital camarário de 20 de outubro de 1955 tornou Dom Francisco de Sousa Coutinho o topónimo da Rua 56 do Sítio de Alvalade, ao mesmo tempo que nas  ruas em seu redor ficaram mais nomes ligados ao meio musical, como a violoncelista Guilhermina Suggia, os irmãos cantores líricos António e Francisco Andrade e ainda, o mestre de filarmónicas Rodrigues Cordeiro.

O alfacinha Francisco de Paula de Portugal de Sousa Coutinho (Lisboa/11.12.1867 – 14.08.1924/Lisboa), filho do 3º marquês de Borba, D. Fernando de Sousa Coutinho, foi um barítono que se estreou como cantor lírico no Teatro de S. João (do Porto) e cuja interpretação do Falstaff de Verdi assombrou inúmeras plateias, nacionais e estrangeiras.

Segundo o Eng.° Júlio Eduardo dos Santos ( na Olisipo, Set-Dez de 1970), era  «conhecido na vida boémia da sua cidade natal [Lisboa] por Chico Redondo, o que bem se adaptava à sua alta linhagem, dos Condes de Redondo e Marqueses de Borba, e igualmente à sua figura, pois pesava cento e vinte quilos ou talvez mais …».

A sua primeira apresentação em público registou-se numa récita de amadores, no Teatro de S. João do Porto quando este se chamava Teatro do Príncipe Real, em 1888, interpretando o papel de Valentim do Fausto e foi tal o sucesso que resolveu aperfeiçoar-se na arte do canto, para o que partiu para Milão, acompanhado de um Carlos Lopes que era primeiro baixo e seguindo o conselho do seu primeiro professor, o  tenor Alfredo Gazul. De Itália partiu para França, onde permaneceu alguns anos, a estudar no Conservatório parisiense.

Em 1896 assinou contrato com a Ópera de Berlim, onde se estreou em fevereiro de 1897, na ópera Os Palhaços , de Ruggero Leoncavallo e foi um sucesso, mesmo se o seu maior  êxito foi a interpretação do Falstaff, de Verdi. Sousa Coutinho foi particularmente acarinhado na Alemanha, bastas vezes referido como «célebre barítono da ópera de Berlim» e o professor G. F. Berlein modelou o seu busto na personagem de Sir John Falstaff. Deu também numerosos concertos na Alemanha, Holanda, Suécia, Dinamarca, Polónia, Estados Unidos da América  ( Washington e Nova Iorque) e Brasil.

Em 1899, o conhecido Chico Redondo era a principal figura da pequena companhia de ópera que se apresentou no antigo Teatro D. Amélia ( depois República e mais tarde, São Luiz), sendo nesse contexto que também se apresentou na ópera Palhaços e em um ato do Fausto que eram o reportório dessa companhia. Pouco tempo depois, cantou-se Palhaços no Coliseu dos Recreios, numa das companhias de ópera que habitualmente lá se exibiam e Francisco Sousa Coutinho foi substituir o barítono Carbonell no papel de Tonio.

Nos últimos anos da sua vida Francisco de Sousa Coutinho deu aulas de canto em Lisboa e manifestou uma enorme paixão por cozinhar.  Foi internado na Casa de Saúde do Telhal em 1923, onde veio a falecer no ano seguinte, ficando sepultado no jazigo de família nos Prazeres.

Embora tendo recusado o título de marquês de Valença, Dom Francisco de Sousa Coutinho aceitou ser agraciado com o hábito de Cristo pelo rei Dom Luís e está também presente na toponímia de São Domingos de Rana.

Capa da Ilustração Portuguesa de 10 de dezembro de 1906

Tomás Alcaide, o tenor dos cartazes líricos da Europa, numa Rua de Marvila

Freguesia de Marvila
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Tomás Alcaide, o tenor dos cartazes líricos da Europa dos anos vinte aos quarenta, está consagrado numa Rua de Marvila desde 1970, seguindo a edilidade uma sugestão da Editorial Polis e concretizando-a na Rua I – 10 da Malha I de Chelas pelo Edital de 4 de novembro de 1970, o mesmo que fixou também a Rua Actriz Palmira Bastos (Rua I – 12) e a Rua Aquilino Ribeiro (Rua I – 9) na mesma zona da cidade, o Bairro das Amendoeiras.

Tomaz de Aquino Carmelo Alcaide (Estremoz/16.02.1901-09.11.1967/Lisboa), filho de Roberto Maria Alcaide e de Maria das Pedras Alvas Gomes Carmelo, foi aluno do Colégio Militar desde os 11 anos e abandonou Medicina para se tornar cantor lírico, como tenor. Teve lições com os professores de canto Alberto Sarti, o barítono Francisco de Sousa Coutinho e a meio-soprano Eugenia Mantelli. A sua 1ª apresentação pública ocorreu no Teatro Bernardim Ribeiro de Estremoz e em Lisboa, fez a sua estreia no Clube Estefânia, cantando La Bohème, para depois, já profissionalizado interpretar o  Rigolleto (1924) no Teatro Nacional de São Carlos.

Em 1925, partiu para Milão, onde se estreou como Maestro Wilhelm da ópera Mignon, no Teatro Carcano. A partir daí figurou nos grandes cartazes líricos da Europa e da América, no decorrer da II Guerra Mundial, até se retirar em 1948. Pisou, entre outros, os palcos italianos do Teatro Duse de Bolonha,  do Teatro San Carlo de Nápoles, do Teatro Reale de Roma, do Teatro Alla Scala de Milão, bem como o austríaco Opera House de Viena, o Teatro Opera de Monte Carlo, o belga Théâtre Royal de la Monnaie, os franceses  Gran Teatro Opera de Paris, Palais de la Mediterranée de Nice, Gran Théâtre de Bordéus e o Teatro do Casino de Vichy, o Teatro Liceo de Barcelona, os norte-americanos Boston Opera House e Gallo Theater – Broadway, o argentino Teatro Colón, os brasileiros Teatro Municipal do Rio de Janeiro e Teatro Municipal de S. Paulo e os portugueses Sá da Bandeira (Porto), Coliseu dos Recreios e Teatro Nacional de São Carlos.

Ficaram famosas as suas interpretações no Fausto (1926), La Bohème (1927),  Pescadores de Pérolas de Bizet (1929), La Favorita, no Rigoletto, Cavalleria RusticanaManon, Romeu e Julieta (1931)ou Werther (1933) Participou ainda no filme Bocage (1936) de Leitão de Barros.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Depois de abandonar os palcos, tornou-se funcionário da Emissora Nacional (até 1962), tendo colaborado em programas de rádio com João de Freitas Branco e de Maria Helena de Freitas. Também foi mestre de canto e encenador da Companhia Portuguesa de Ópera e Escola de Canto do Teatro da Trindade. Aquando da inauguração do Teatro Monumental, em 1951, integrou o elenco da opereta As 3 Valsas, com Laura Alves, João Villaret e Eugénio Salvador, a que se seguiram a opereta Justiça de sua Majestade e as peças As mulheres de quem se fala e Sua Alteza Real. Publicou ainda em 1961 uma autobiografia intitulada Um Cantor no Palco e na Vida.

Na sua vida pessoal casou com Katharine Riche, de quem teve uma filha em 1927 e de quem se separou em 1930. Voltou a casar em 29 de Agosto de 1941, com a brasileira Asta-Rose Jordan.

Tomás Alcaide foi condecorado em 1934 como Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo e como Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e em 2001, com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal de Estremoz, um Monumento em frente à casa onde nasceu (em Estremoz) e onde estão depositadas as suas cinzas, tendo ainda dado o seu nome ao Orfeão de Estremoz Tomaz Alcaide e a um Festival de Canto local, para além de também surgir na toponímia da sua terra natal (Estremoz), da Amadora, de Corroios, Évora, Fernão Ferro, Linda-a-Velha, Mem Martins e Sobreda (Almada).

Inauguração da Rua Tomás Alcaide em 16 de fevereiro de 1971
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua do flautista e compositor sacro Dom Pedro Cristo

Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Domingos de seu nome secular, Dom Pedro de Cristo por escolha, exímio flautista e compositor sacro coimbrão da passagem do séc. XVI para o XVII, quando o Mosteiro de Santa Cruz era um centro de produção musical, cujo 4º centenário da morte passa este ano, está homenageado numa Rua de Alvalade desde a publicação do Edital municipal de 14 de junho de 1950.

Era a Rua 36 do Sítio de Alvalade situada na confluência das Ruas Domingos Bomtempo e Filipe de Magalhães, ambos compositores, tanto mais que a Câmara alfacinha colocou pelo mesmo Edital de 1950 mais 7 topónimos de músicos no Bairro: Rua Alexandre Rey Colaço (Rua 35), Rua Carlos de Seixas (Rua 38), Rua Domingos Bomtempo (Rua 37), Rua Duarte Lobo (Rua 34-A), Rua Filipe Magalhães (Rua 40), Rua Frei Manuel Cardoso (Rua 34) e Rua Viana da Mota (Rua 35-A).

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

De seu nome Domingos (Coimbra/c. 1545 a 1551 – 16.12.1618/Coimbra) e filho de António Nunes e Isabel Pires, ao tomar o hábito  de monge de Santo Agostinho em 4 de setembro de 1571 escolheu ser Pedro de Cristo. Destacou-se como um excelente executante de flauta e de fagote renascentista, assim como de harpa e ainda um celebrado cantor e professor de música.  Foi o mais célebre compositor de música sacra do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e mestre de capela a partir de 1597. Produziu vasta obra vocal polifónica de 3 a 6 vozes, com motetos, responsórios, salmos, missas, hinos, paixões, lamentações, cânticos e vilancicos espirituais (denominados chansonetas no Mosteiro). As suas obras conservam todo o elevado sentido espiritual da oração cantada mas moldada na polifonia do Renascimento. Permaneceu também algum tempo no mosteiro-irmão de São Vicente de Fora, em Lisboa. Quando faleceu era cantor-mor do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, cargo em que sucedera a D. Francisco Castelhano.

Existe em Coimbra um Coro com o seu nome desde 1970 e também integra a toponímia de Coimbra e de Fernão Ferro.

A Rua Dom Pedro de Cristo em 1961
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da fadista Maria do Carmo Torres no Bairro das Marias

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Maria do Carmo Torres foi uma  das cantadeiras mais queridas do público nos anos 30 e 40 do século passado e está perpetuada desde o ano 2000 no Bairro da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como Bairro das Marias, em resultado da sua toponímia.

Através do edital camarário de 5 de julho de 2000 Maria do Carmo Torres ficou na Rua A à Rua Maria Carlota, juntamente com mais duas outras fadistas: Maria Alice (Ruas B e C) e Maria José da Guia (Rua com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota), todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

O Bairro da Cruz Vermelha ganhou o epíteto de Bairro das Marias, dado a sua toponímia comportar o nome das senhoras da secção auxiliar feminina da Cruz Vermelha de cuja iniciativa nasceu em janeiro de 1967 o Bairro Municipal da Cruz Vermelha, para albergar as famílias cujas barracas tinham ardido em 1962, todas Marias de primeiro nome e a que ainda se juntou a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Maria do Carmo Alves Torres foi uma cantadeira do fado nascida na piscatória vila algarvia da Fuzeta (Olhão), no dia 8 de janeiro de um dos primeiros anos do século XX,  que ainda em bebé foi morar para Setúbal e seguiu o percurso de trabalhar numa fábrica de conservas de peixe, que como ela conta no jornal Guitarra de 21/08/1934 «(…) fui para o trabalho, nas conservas, onde cheguei a ser alguém, com muita gente sob as minhas ordens. Quantas vezes aos serões, para entreter o pessoal, que escabeceava com sono, me sentava a um canto da fábrica cantando o Fado, entretendo o pessoal e patrões, entretendo-me a mim própria, que já tanto adorava o Fado».

Mas, em paralelo, fazia teatro amador e foi assim que aos 19 anos ( supõe-se que seja à roda de 1926) se estreou como intérprete  do garoto das filhoses numa revista de amadores levada à cena no Salão Recreio do Povo, em Setúbal, de onde seguiu para outra revista no Casino de Setúbal, onde imitou o conhecido pescador António Gouga, tendo sido obrigada pelos aplausos a cantar 7 vezes seguidas e depois, passou para outra no Casino Estoril.

Após o suicídio do seu filho de 16 anos a castiça intérprete acabou por fixar-se em Lisboa, no 2º andar do n.º 119 da Travessa dos Fiéis de Deus, para esquecer  essa perda. Teve depois uma filha a que chamou Maria Carolina Relvas. Na capital, trabalhava como empregada de balcão no Café-Restaurante Sul-América e um dia em que acabou por substituir a cantadeira Maria Virgínia, o diretor Mendes Leal e Alfredo Madeira proporcionaram-lhe a aquisição do carteira profissional.

A partir daí, cantou o fado em todos os retiros da capital, nas esperas de touros do Campo Pequeno, nos teatros e salões de festas dos cinemas, em festas de caridade e nas particulares como as da Condessa de Ficalho, bem como até na então denominada Emissora Nacional. Ficou célebre a sua presença nas peças Adeus, Artur! no Teatro Variedades ou O Chico do Intendente exibida em 1936 no Teatro Apolo. Do seu reportório foram sucessos O SonhoMaria da Graça,  Não Me PersigasMaria da EsperançaCarta em Verso, Fado da Amora e O Que é de Mais Faz Mal, sendo Adriano Reis o seu letrista favorito. A partir de 1934, integrou a Embaixada do Fado, organizada por Maria do Carmo Alta e dirigida por Alberto Reis, que se exibiu no Porto e fez uma digressão pelo Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo o guitarrista Armandinho, Berta Cardoso, Branca Saldanha, Lina Duval, Filipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador, entre outros.

Cantou nas diversas casas especializadas de fado lisboetas como o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso, n.º 5), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, n.º 56, num prédio já desaparecido), o Café Luso (no n.º 27 da Avenida da Liberdade, de onde passou em 01/11/1939 para o n.º 131 da mesma Avenida e ainda mais tarde, para a Travessa da Queimada, n.º 8), o Café Mondego (Rua da Barroca, 124), o Retiro dos Marialvas (Rua da Barroca, 122 a 126), a Adega da Lucília (Rua da Barroca, 54) antes de se chamar O Faia e o Solar do Marceneiro (ao fundo da Calçada de Carriche).

No final de 1944 apadrinhou a estreia artística de Deolinda Rodrigues e cerca de 7 anos depois,  após 1951, e acordo com o estudioso do fado Eduardo Sucena retirou-se do fado, para casa de uma irmã, e faleceu nessa mesma década em Leça do Bailio.

As Ruas dos irmãos Andrade em Alvalade

António e Francisco de Andrade na capa de «A Comédia Portuguesa» de 15 de junho de 1889

Os irmãos e cantores líricos António e Francisco de Andrade dão ambos os seus nomes a ruas paralelas, do Bairro de Alvalade, antes identificadas como Ruas 57 e 58, desde a publicação do Edital municipal de 20 de outubro de 1955, a partir de uma sugestão enviada à edilidade numa carta de Jorge Freire Garcia, de 9 de setembro de 1947.

Esse mesmo Edital de 1955 colocou no bairro mais personalidades ligadas à música, como o barítono Dom Francisco de Sousa Coutinho (Rua 56), a violoncelista Guilhermina Suggia (Rua 59) e o compositor Rodrigues Cordeiro (Praceta III da Rua 59 ou Praceta à Rua 58), em consonância com a sugestão do olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, então vice-presidente da Câmara, aceite pela Comissão Municipal de Toponímia na reunião de 20 de julho de 1955, para que no sítio de Alvalade se perpetuassem personalidades ligadas às Letras e às Artes, nomeadamente, na música e na pintura.

Ambos os irmãos Andrade são lisboetas que estudaram declamação com José Romano e D. Luís da Costa, assim como música com Joaquim Casimiro, Manuel Carreira e Arturo Pontecchi ( o principal maestro do Teatro São Carlos) e seguiram uma  carreira lírica, partindo ambos para Itália, em 1881, para estudarem com o tenor Corrado Miraglia e o barítono Sebastiano Ronconi.

Rua António Andrade – Freguesia de Alvalade
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Assim, a Rua António Andrade homenageia o tenor António de Andrade e Silva (Lisboa/13.04.1854 – 18.12.1942/Lisboa), nascido na Rua dos Calafates – que no último dia do ano de 1885 passou a ser Rua do Diário de Notícias-, que após a sua especialização em Itália acabou por aí fazer a sua estreia como cantor lírico, na ópera Favorita de Donizetti. Criou os famosos papéis de Roberto em Le Villi de Puccini (1884) e Aben-Afan em Donna Bianca de Alfredo Keil (1888). Pisou os principais teatros europeus, de Lisboa e Porto até Sampetersburgo e Moscovo, na sua época áurea de 1882 a 1892.  Interrompeu a sua carreira em 1900 devido a surdez. Foi agraciado com uma uma sala inteira na exposição intitulada Noites em São Carlos , no Teatro São Carlos, durante o mês de novembro de 2013. Integra também a toponímia de Corroios.

Rua Francisco Andrade – Freguesia de Alvalade
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua Francisco Andrade homenageia o irmão mais novo de António de Andrade, o barítono Francisco Augusto de Andrade e Silva (Lisboa/11.01.1859 – 08.12.1921/Berlim – Alemanha), que partiu para Itália em 1881 e acabou por fazer a sua estreia como cantor lírico em dezembro de 1882, em San Remo, na ópera Aida de Verdi. Ficou célebre o seu desempenho no papel de Don Giovanni na ópera homónima de Mozart, tendo mesmo sido pintado no desempenho dessa personagem por Max Slevogt em 1912 (na  Alte Nationalgalerie em Berlim), pintor que o retratou mais algumas vezes a partir de 1903. Francisco d’Andrade cantou em 6 línguas, atuou nos principais teatros europeus durante 35 anos de vida artística, sendo a sua última aparição em público n’ O Barbeiro de Sevilha, como Figaro, no Coliseu dos Recreios de Lisboa, em 1918. Quando Portugal entrou na Primeira Guerra Mundial, em 1916, ele teve que sair da Alemanha onde residia há largos anos e onde só voltou em 1919. Faz parte da toponímia de Almada, Charneca da Caparica, Estoril e Fernão Ferro.

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)