A Rua Santos Pinto, compositor do Hino a Saldanha

Freguesia da Estrela (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Foto: Sérgio Dias)

Com a legenda «Escritor Musical/1815 – 1860» foi fixado em 1925 o nome do alfacinha Francisco dos Santos Pinto na Rua nº 3 do então Novo Bairro da Lapa, um compositor, violinista e trompista  que politicamente era um liberal ferrenho tendo por isso composto um Hino ao Marechal Saldanha em 1851.

Por esse mesmo Edital municipal de 8 de junho de 1925 foram também dados nomes de compositores às Ruas nº 1 e nº 2 do mesmo Bairro, a saber, a Rua Joaquim Casimiro – homenageando neste caso um miguelista ferrenho de meados do século XIX e rival de Santos Pinto-, e a Rua Maestro António Taborda, que desenvolveu a sua carreira na Banda de Música da Guarda Nacional Republicana.

Santos Pinto Francisco dosFrancisco António Norberto dos Santos Pinto (Lisboa/06.06.1815 – 30.01.1860/Lisboa) começou desde cedo a ganhar a vida através da música, recebendo para cantar em festas de igreja. Aprendeu a tocar violino, trompa e clarim. Iniciou os seus estudos musicais com Teotónio Rodrigues, cantor da Capela da Bemposta, estudou violino com José Maria Morte e trompa com Justino José Garcia, mestre de banda das Reais Cavalariças, a que Santos Pinto viria também a pertencer em 1830, com apenas 15 anos. No início das guerras civis de 1832 era Francisco santos Pinto primeiro corneta na Banda da Guarda Real da Polícia. Estudou Harmonia com Eleutério Franco Leal, e mais tarde, com Manuel Joaquim Botelho. Pela mesma altura, mas um pouco depois, integrou a orquestra do Teatro de São Carlos até que em 1838 se estreou como compositor do bailado Adoração do Sol e no ano seguinte, era clarim supranumerário na orquestra da Real Câmara.

A partir de 1845 ficou como o compositor (mais ou menos permanente) do recém-inaugurado Teatro de D. Maria, para o qual irá compor cinco anos depois, A casa misteriosa, uma espécie de ópera cómica. Ainda nesse ano, aquando da visita do pianista Franz Lizt a Lisboa, Santos Pinto dedicou-lhe a sua 8ª Sinfonia (ou Abertura), fazendo-se mesmo retratar com a partitura num quadro que hoje se encontra no Museu da Música em Lisboa. A partir de 1849 iniciou também funções de docente do Real Conservatório de Lisboa, onde foi seu discípulo Guilherme Cossoul, como professor de Instrumentos de Latão e, em 1857, alcançou a  coroa de glória da sua carreira ao passar a ser o maestro diretor do São Carlos.

Francisco dos Santos Pinto foi um autor sobretudo de teatro cómico, de opereta, de teatro musical, de revista, fundando a sua carreira no entretenimento musical de grande apelo público. Compôs música para mais de 20 bailados e musicou cerca de 30 peças teatrais, tal como escreveu 35 aberturas para orquestra e algumas peças de música sacra e hinos patrióticos como a Marcha que compôs em homenagem aos voluntários da Carta (1844). Santos Pinto foi bastante interventivo na vida social e política do seu tempo, manifestando-se como simpatizante do Cartismo e da Maçonaria, não apenas ao compor hinos alusivos a ambos, para além das  Odes Maçónicas, o que se prende também com o ter sido fundador de duas importantes instituições musicais paramaçónicas: a Associação Musica 24 de Junho e a Academia Melpomenense.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

Maria Albertina, voz do vira Tricanas de Ovar e do fado de Lisboa, numa rua do Bairro da Cruz Vermelha

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

A partir de uma solicitação do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar,  a edilidade promoveu a junção da Rua  C com o Largo C do Bairro Municipal da Cruz Vermelha, na freguesia do Lumiar, para fazer nascer a Rua Maria Albertina, cerca de três meses após o falecimento desta cantora, conhecida tanto por interpretar viras como As Tricanas de Ovar como por fado de Lisboa, mas também  famosa em Lisboa por integrar o elenco de operetas e revistas.

A Rua Maria Albertina, foi atribuída pelo Edital municipal de 25 de junho de 1985, com a legenda «Cantadeira/1909 – 1985», e  nos dias de hoje liga a Rua Maria Margarida à Avenida David-Mourão Ferreira. Na época da atribuição deste topónimo, o Bairro Municipal da Cruz Vermelha – nascido em janeiro de 1967- era conhecido popularmente como o Bairro das Marias já que contava em exclusivo com topónimos com «Maria»: a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias, bem como as Ruas Maria Emília, Maria Teresa, Maria Helena, Maria Ribeiro, Maria Carlota e Maria Margarida, de que hoje apenas restam estas duas últimas. Mantendo a tradição, a edilidade lisboeta acrescentou no ano 2000 mais três topónimos com Maria, e todos ligados ao Fado: Rua Maria Alice, Rua Maria do Carmo Torres e Rua Maria José da Guia.

A fadista  Maria Albertina Soares de Paiva (Ovar/05.01.1909- 27.03.1985/Lisboa),   conhecida simplesmente como Maria Albertina, viveu grande parte da sua vida na capital, onde o seu talento de cançonetista e de intérprete de opereta e de revista atingiu assinalável êxito.

Maria Albertina começou por cantar Fado de Coimbra ainda na sua terra natal e após ter sido descoberta pelo maestro Macedo de Brito, estreou-se como cantadeira em Lisboa, em 16 de julho de 1931,  no Teatro Maria Vitória, na opereta História do Fado,  ao lado de Berta Cardoso e Maria das Neves. Logo no ano seguinte ganhou em julho o prémio Guitarra de Ouro, num concurso organizado pelos jornais Diário de Notícias e O Século no Capitólio tal como em setembro alcançou o prémio  Capacete de Ouro; em 1936 venceu o concurso Qual a mais famosa artista do teatro português? e ainda conseguiu o título de Melhor cantadeira  num concurso da Rádio Luso. Ainda nos anos 30 inaugurou o Retiro da Severa no Luna Parque e em 1934 tornou-se também atriz na revista Vista Alegre, na qual encenou com Carlos Ramos o célebre quadro de Malhoa O Fado, a que se seguiram em 1935 os sucessos de Viva a folia!,  Bola de neveO RapaSardinha assada e no ano seguinte, À vara largaFeira de Agosto, a opereta Coração de AlfamaHá festa na MourariaMaria RitaÁgua vai em 1937.

Cantou também nos teatros Ginásio, Maria Vitória, no Grémio Alentejano e no Maxim’s, no Solar da Alegria e no Salão de Chá do Café Chave d’Ouro, em esperas de touros em Vila Franca de Xira, e também em casas particulares como a da Duquesa de Palmela, do banqueiro Ricardo Espírito Santo e nos palácios do Conde da Torre e de Fontalva, para além de digressões pelo Brasil, Argentina, Espanha, E.U.A, Canadá e Paris.

Os seus maiores sucessos musicais foram Voz do Povo,  Fado Meu Filho e Bailarico Saloio e sobretudo,o vira  Tricanas de Ovar (de Aníbal de Nazaré e de Lopes Costa) criado para o teatro de revista e que em 1966 o  locutor Jorge Alves exibiu no programa da RTP Melodias de Sempre.  Em 1998, foi editado em CD uma compilação de 16 faixas  das suas músicas.

Em 1941 Maria Albertina entrou na Grande Marcha de Lisboa e a partir da década 60, e durante mais de 20 anos, cantou no Restaurante Típico O Faia, na Rua da Barroca nºs 54-56, no Bairro Alto.

No cinema, participou em A Canção de Lisboa (1933) de Cottinelli Telmo, cantando o fado mouraria Fado dos beijos quentes; em Bocage (1936) para cantar Bailarico Saloio e ainda integrou o elenco de Vendaval Maravilhoso (1949), ambos filmes de Leitão de Barros.

Refira-se finalmente que Maria Albertina foi mãe do locutor Cândido Mota.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua da fidalga fadista Maria Teresa de Noronha

Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

A fidalga Maria Teresa de Noronha que cedo se fez fadista e pela rádio foi divulgada e conhecida como voz do fado aristocrático,  deu nome à Rua 18 do Bairro do Caramão da Ajuda, por Edital de 16/01/1995, a partir da sugestão de uma moção de pesar da Câmara de Lisboa de 7 de julho de 1994,  juntando-se neste bairro à Rua Hermínia Silva, que desde o Edital de 31/08/1993 tinha passado a ser o topónimo da antiga Rua 15.

A escassez de novas artérias em Lisboa no início da década de noventa do séc. XX, fez com que a edilidade aproveitasse as ruas de denominação numérica e as renomeasse. Assim, a Rua Teresa de Noronha foi atribuída na Rua 18 do Bairro do Caramão da Ajuda, sendo acompanhada no mesmo Edital pela Rua Irene Isidro – Actriz/1907 – 1993  (Rua 16), a Rua Jorge Brum do Canto – Cineasta/1910 – 1994  (Rua 19) e a Rua dos Cravos de Abril (Rua 17), uma homenagem ao 25 de Abril de 1974.

Maria Teresa do Carmo de Noronha de Guimarães Serôdio (Lisboa/07.11.1918 – 04.07.1993/Sintra) foi uma fadista do fado clássico e castiço, sendo considerada uma voz do fado aristocrático, que se notabilizou arredada do circuito das casas de fado mas antes transmitida ao vivo pela rádio.  Decidiu retirar-se da vida artística em 1962 com uma grandiosa festa de homenagem mas pontualmente, terá feito aparições públicas sendo a última  em 1974, em Cascais, onde fora ouvir Manuel de Almeida e este lhe pediu que cantasse.

Maria Teresa de Noronha (ou Baté para os amigos) teve educação musical de piano e canto e desde nova cantava em festas da família e de amigos. Era descendente dos Condes de Paraty, filha de D. António Maria Sales do Carmo de Noronha e de D. Maria Carlota Appleton de Noronha Cordeiro Feio e pelo casamento, a 17 de dezembro de 1947, com o conde José António Barbosa de Guimarães Serôdio, guitarrista amador e compositor, tornou-se Condessa de Sabrosa. Pelo seu irmão foi tia do fadista Vicente da Câmara.

Em 1938, a fadista começou a fazer-se ouvir num programa quinzenal na Emissora Nacional que se manteve em emissão durante 23 anos consecutivos. Era apresentado pelo seu irmão D. João da Câmara e composto por quatro fados e uma guitarrada. Maria Teresa de Noronha era acompanhada pelo guitarrista Fernando Freitas e pelo violista Abel Negrão. Com o seu timbre peculiar ousou cantar temas do fado de Coimbra numa altura em que apenas as vozes masculinas eram suposto fazê-lo. Entre os diversos instrumentistas que a acompanharam nos seus programas, destaque-se o guitarrista Raúl Nery que com ela colaborou ao longo de vinte anos, nomeadamente na deslocação a Espanha em junho de 1946, no Festival da Feira do Livro de Barcelona e em Madrid, no Hotel Ritz, a convite do Governo espanhol . Em 1949, Maria Teresa de Noronha também viajou até ao Brasil, por ocasião da voo de inauguração entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Em 6 de maio de 1957,  cantou no banquete oferecido ao Prefeito da Baía, no Castelo de São Jorge, pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Álvaro Salvação Barreto. Na década de sessenta interpretou fado para a família real do Principado do Mónaco e em 1964, deslocou-se a Londres para espetáculos na Embaixada e na Casa de Portugal, bem como na BBC (rádio e televisão), acompanhada pelo conjunto de guitarras de Raúl Nery.

O primeiro álbum de Maria Teresa de Noronha,  O Fado dos Cinco Estilos, foi gravado em 1939 na antiga Emissora Nacional, seguindo-se com alguma regularidade mais alguns exemplares no formato 78 RPM,  até editar o seu último LP em 1972. Duas das apresentações de Maria Teresa de Noronha em programas da RTP (em 1959 e em 1968) foram editados mais tarde  numa cassete video sob o título Recordando Maria Teresa de Noronha e um álbum dos seus maiores êxitos saiu na Valentim de Carvalho em 1993.

Maria Teresa de Noronha baseou o seu repertório nos fados castiços que mais apreciava, em detrimento do fado canção, interpretando poemas muitas vezes recolhidos no seu universo familiar, como é o caso dos temas Fado das Horas, Fado da Verdade, Sete Letras e Fado de Rio Maior, todos da autoria de D. António de Bragança. A fadista tornou grandes êxitos populares o Fado Corrido,  o Fado Hilário e o Fado Anadia, que na sua voz e dicção perfeita ganhavam uma qualidade de interpretação que rivalizava com os temas mais populares do seu repertório, caso de Minhas Penas ou Pintadinho.

Freguesia da Ajuda (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

O fado de Marceneiro ou Ti Alfredo numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Cerca de um mês e meio após o seu falecimento, o considerado Rei do Fado, Alfredo Marceneiro, foi inscrito como Alfredo Duarte (Marceneiro) na Rua J5 da Zona J de Chelas, por  Edital municipal de 12/08/1982, a partir de uma sugestão do cidadão Manuel Gonçalves Rosa endereçada à edilidade, sendo a primeira vez que o Fado se fixou na toponímia de Lisboa.

O fadista alfacinha Alfredo Rodrigo Duarte (Lisboa/29.02.1888 – 26.06.1982/Lisboa), o primeiro filho do casal Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, nascido na Travessa de Santa Quitéria, que ficou mais conhecido como Alfredo Marceneiro ou Ti Alfredo para os amigos, trabalhou como aprendiz de encadernador logo aos  13 anos, após o falecimento do seu pai, numa oficina da Rua da Trindade. Nas cegadas de rua conheceu Júlio Janota que era marceneiro e lhe arranjou lugar como seu aprendiz numa oficina em Campo de Ourique, de onde transitou para as oficinas de Diamantino Tojal na Vila Berta e depois para as Construções Navais no Arsenal do Alfeite, tendo Alfredo apenas deixado a profissão em 1946, para se tornar profissional do fado em exclusivo,  conservando porém em casa o banco de marceneiro e as ferramentas com que se entretinha a fazer trabalhos, um dos quais, A Casa da Mariquinhas,  inspirado na letra de Silva Tavares, e que está exposta no Museu do Fado.

Paralelamente, era cantador em festas de beneficência e em verbenas, entre os 14 e aos 17 anos. Depois começou a cantar em festas de solidariedade e nos retiros do Caliça e do Bacalhau em Benfica, José dos Pacatos na Estrada de Sacavém, Cachamorra ao Campo Grande, Baralisa e Romualdo, mas foi no 14 do Largo do Rato que se tornou mais conhecido, não dispensando a forma aprumada de vestir com gravata ou laço, sendo  por isso conhecido como Alfredo Lulu. Em 1924, participou num Concurso de Fados do Sul-América, na Rua da Palma e  ganhou a Medalha de Ouro. Nesse mesmo ano cantou durante dois meses no Chiado Terrasse para animar as noites de cinema. Só em 1930, por ocasião de uma festa no Club Montanha (no nº57 da Rua da Glória), seria lançado com o nome artístico de Alfredo Marceneiro, lançando a moda de cantar de pé e à luz das velas que ele próprio cantou no poema de Armando Neves:

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro

Ao longo da sua vasta carreira, em que se torna um dos fadistas maiores por dividir os versos cantados de forma a não permitir que as pausas musicais interrompessem o sentido das orações, Marceneiro que acabou por tornar o lenço de seda ao pescoço e as mãos nos bolsos a sua imagem de marca, exibiu-se em casas como o Nova Sintra (Calçada de Carriche), o Ferro de Engomar (na Estrada de Benfica), o Clube Olímpia, onde esteve com Armandinho, a Boémia (na Rua dos Correeiros no troço que foi conhecido como Travessa da Palha),  a Viela (na Rua das Taipas), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, 56), a Márcia Condessa (Praça da Alegria, 38), o Júlio das Farturas no Parque Mayer,  A Parreirinha de Alfama (Beco do Espírito Santo),  A Cesária  e O Timpanas (Rua Gilberto Rola),  o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso), o Café Mondego, A Severa (Rua das Gáveas), o Faia (Rua da Barroca), a Adega Machado e A Tipóia (Rua do Norte), a Adega Mesquita (Rua Diário de Notícias),  ou o Solar da Hermínia ( Rua da Misericórdia).  Chega mesmo a ter a sua própria casa no final da década de 1940, o Solar do Marceneiro, ao fundo da Calçada de Carriche, sem nunca se cingir apenas a cantar diariamente nesse espaço, sendo mesmo consagrado Rei do Fado no Café Luso ( Travessa da Queimada), a 3 de janeiro de 1948.

Gravou o primeiro disco em 1930 para a Casa Cardoso e passou depois a a ser artista privativo da Valentim de Carvalho, onde lançou 4 LP’s e 3 EP’s.  O seu estilo ficou vincado na Marcha do Alfredo Marceneiro, como em A minha freguesiaAmor de Mãe, Bêbado Pintor, Cabecita Louca, É tão bom ser pequenino,  Fado BailadoFado Balada, Fado Cravo, Fado CUF, Fado Laranjeira, Fado Pierrot, Foi na Velha Mouraria, O Pagem, Há Festa na Mouraria,  IroniaLembro-me de ti, Mocita dos Caracóis, Mouraria, Quadras SoltasSenhora do Monte.

Alfredo Marceneiro cantou também no Teatro, subindo ao palco do Coliseu dos Recreios, em 1930, na opereta História do Fado, com Beatriz Costa e Vasco Santana e passou depois também pelas tábuas do São Luiz, do Avenida, do Apolo, do Éden – Teatro, do Capitólio, do Politeama, ou do Maria Vitória. Para o cinema, gravou em 1939, atuações com Berta Cardoso, no Teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado, para o filme  Feitiço do Império de António Lopes Ribeiro (que esteve em exibição de 1940 a 1952). Para a  televisão, o fadista também só apareceu esporadicamente: uma reportagem em 1969,  um programa gravado para  a RTP em 1979 e editado 28 anos depois em DVD.

A 25 de maio de 1963, realizou-se  no Teatro S. Luiz A Madrugada do Fado – Consagração e despedida do Grande Artista Alfredo Duarte Marceneiro e todavia, Alfredo Marceneiro continuou a cantar durante quase mais duas décadas. Em junho de 1980 foi homenageado no Teatro de S. Luiz  pela Câmara Municipal de Lisboa, recebendo a Medalha de Ouro da Cidade. A título póstumo, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1984) e em  1991, no centenário do seu nascimento, foi lançado o duplo álbum O melhor de Alfredo Marceneiro e foi exibido na RTP o documentário Alfredo Marceneiro é só Fado.

Alfredo Marceneiro passou os últimos anos da sua vida na que foi a sua casa desde novo, no nº2 do pátio da Rua da Páscoa, nº 49.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua da voz do Hino do Benfica, Luís Piçarra

Freguesia do Lumiar (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias)

O cantor Luís Piçarra, ainda hoje reconhecido por dar a sua voz ao Hino do Sport Lisboa e Benfica, tem desde 2003 o seu nome gravado nas placas toponímicas de uma artéria do Lumiar, por sugestão da Casa do Artista (APOIARTE).

Este arruamento que liga a Rua José Cardoso Pires à Rua Helena Vaz da Silva teve o seu topónimo fixado pelo Edital municipal de 15/12/2003, na Rua 3.1 da Malha 15 do Alto do Lumiar, junto com mais 6 arruamentos próximos com nomes de cantores, instrumentistas e maestros – Arminda Correia, Adriana de Vecchi, Tomás Del Negro, Nóbrega e Sousa, Shegundo Galarza e Belo Marques –, e que em conjunto com a Alameda da Música, permitiu criar um Bairro da Música no Alto do Lumiar que significativamente teve a sua inauguração no Dia Mundial da Música de 2004.

luis-picarra

Luís Raul Janeiro Caeiro de Aguilar Barbosa Piçarra Valdeterazzo y Ribadenayra (Moura/23.06.1917 – 22.09.1999/Lisboa)  deixou gravadas 999 canções, tendo ele próprio escrito dezenas delas e a sua voz é reconhecida por todos na interpretação do segundo e atual hino do Sport Lisboa e Benfica, intitulado Ser Benfiquista, para além de ter sido ele o criador da famosa Granada, que lhe foi oferecida pelo compositor mexicano Agustin Lara.

Filho do produtor de vinho Luís da Costa de Aguilar Barbosa Piçarra e de Luísa Maria Caeiro, frequentou os dois primeiros anos de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa mas interrompeu o curso em 1937 para se dedicar a uma carreira musical. Estudou  canto com Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim e estreou-se na ópera O Barbeiro de Sevilha levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa. A partir daqui  fez uma carreira de sucesso, cantando pelo mundo inteiro, com espetáculos no Brasil, Argentina, México, Egito, Chipre, Líbano, Síria, Grécia, Turquia, Itália ou Paris. Refira-se especialmente que foi cantor privativo no palácio do rei Faruk (1947/48), parceiro de Edith Piaf numa série de programas do show This is Europe organizado pela ECA (agência encarregada de aplicar o Plano Marshall), tenor da Orquestra de Paul Durand e membro da digressão ao Brasil de A Rosa Cantadeira, com Amália Rodrigues. Na rádio e televisão francesas ficou conhecido como Lou Pizarra e aí estreou nos anos 50 do séc. XX temas como Avril au Portugal, Granada ou Luna Lunera. Na década seguinte também gravou programas para diversas televisões incluindo a NBC norte –americana.

Em Portugal, Luís Piçarra distinguiu-se  como tenor oficial da Emissora Nacional, bem como interpretando ópera, opereta e teatro de revista. No cinema, também cantou pela primeira vez O Meu Alentejo no filme Pão Nosso (1940)  de Armando Miranda. Depois da morte da sua primeira esposa em 1968, Luís Piçarra escolheu viver em Angola até 1975, onde foi diretor do Centro de Preparação de Artistas da Rádio e professor de canto teatral na Academia de Música. Após o regresso a Portugal, publicou  em edição de autor Luís Piçarra instantâneos da minha vida (1987) e em 1996 foi lançada uma compilação de temas seus com Granada, Avril Au Portugal, Canção do Ribatejo, Caminho Errado, Anda Cá, Aninhas, Batalha, Guitarra da Mouraria, Morena da Raia, Santa Maria dos Mares, Ser Benfiquista e  O Meu Alentejo.

No dia 23 de abril de 1964 foi homenageado no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, pelos seus 25 anos de carreira e, a 9 de novembro de 1985, foi-lhe atribuída a comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Luís Piçarra faleceu em Lisboa, na Casa do Artista, onde passou os últimos meses de vida.

Freguesia do Lumiar (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias)

Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny na toponímia e em edição municipal

As brochuras editadas pela Câmara Municipal de Lisboa referentes a Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny, distribuídas a partir deste momento, no decorrer da inauguração das artérias com os seus nomes, já estão on-line.

É só carregar nas capas abaixo e poderá ler.

Caso queira conhecer publicações anteriores poderá ir às Publicações Digitais do site da CML e escolher o separador Toponímia.

capa Adriano Ernesto Matos

capa Lyon de Castro Ernesto Matos

Capa Cesariny Ernesto Matos

Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny na arte urbana e na toponímia de Lisboa

9 Lyon de Castro © CML DMC DPC José Vicente 2016 Smile

Obras de Smile (Foto: © CML | DPC | José Vicente, 2016)

Obras artísticas de Smile
(Foto: © CML | DPC | José Vicente, 2016)

Adriano Correia de Oliveira, Francisco Lyon de Castro e Mário Cesariny dão nome a três ruas da freguesia das Avenidas Novas, no Loteamento das Avenida das Forças Armadas, que serão inauguradas amanhã, dia 15 de setembro, às 17:30 horas, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, bem como da Vereadora da Cultura e Presidente da Comissão Municipal de Toponímia, Catarina Vaz Pinto, e ainda familiares e amigos dos homenageados.

Estas ruas contam com um muro de 300 m2 – em bloco de esferovite armada revestido a betão – com intervenções artísticas alusivas aos homenageados nas ruas da autoria de Smile, de Murta e Uivo e de Miguel Brum, em resultado de um projeto vencedor do Orçamento Participativo de 2015, proposto pela Associação de Moradores de Entrecampos e que contou com a execução e coordenação do Departamento de Património Cultural da CML através da GAU – Galeria de Arte Urbana e que desde 15 de maio  último está no local,  no âmbito MURO – Festival de Arte Urbana Lx_2016.

Obra artística de Uivo e Murta © CML DMC DPC José Vicente

Obra artística de Murta e Uivo
© CML| DMC| DPC | José Vicente

9 Cesariny © CML DMC DPC José Vicente 2016 Uivo e Murta 4 9 Cesariny © CML DMC DPC José Vicente 2016 Uivo e Murta

Obra artística de Miguel Brum © CML| DMC| DPC | José Vicente

Obra artística de Miguel Brum
© CML| DMC| DPC | José Vicente

9 Lyon de Castro © CML DMC DPC José Vicente 2016 Miguel Brum 2

O MURO nas Avenidas Novas, junto à Rua Adriano Correia de Oliveira

Jose Vicente tralala

© CML | DPC | José Vicente 2016

Na freguesia das Avenidas Novas, na Rua Adriano Correia de Oliveira, junto à Rua Francisco Lyon de Castro e Rua Mário Cesariny, está a nascer uma intervenção artística de Smile1artt, Miguel Brum, e MURTA e UIVO, evocando os autores presentes na toponímia local, no âmbito MURO – Festival de Arte Urbana Lx_2016  que está a decorrer até 15 de maio.

Esta intervenção artística é o resultado de um projeto vencedor do Orçamento Participativo de 2015, proposto pela Associação de Moradores de Entrecampos. O muro com uma superfície de 300 m2,  foi construído em bloco de esferovite armada, revestido a betão.

Toda a informação diária do Festival pode ser encontrada na página da GAU-Galeria de Arte Urbana.

José Vicente tralala

© CML | DPC | José Vicente 2016

Trova da Rua de Adriano

Adriano

Adriano Correia de Oliveira, intérprete emblemático da canção de protesto e da Trova do Vento que Passa, bem como das campanhas de Dinamização Cultural do MFA após o 25 de Abril, deu nome a uma artéria de Lisboa vinte e sete anos anos após o seu falecimento.

A Rua Adriano Correia de Oliveira, com a legenda «Músico/1942 – 1982», nasceu com o Edital municipal de 24/09/2009, na Rua C Projectada à Avenida das Forças Armadas, no loteamento da EPUL na Freguesia das Avenidas Novas, a partir de uma proposta aprovada na reunião de Câmara de 15 de outubro de 2007, fundamentada no «contributo de Adriano Correia de Oliveira para a cultura portuguesa e o seu empenhamento na construção de um Portugal democrático.»

Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira (Porto/09.04.1942 – 16.10.1982/Avintes) estudou Direito em Coimbra e, para além de intérprete do fado da cidade dos estudantes, foi também em conjunto com José Afonso, António Portugal, António Goês, Durval Moreirinha e José Niza, entre outros, membro de uma nova vaga de intérpretes e criadores musicais que procuraram aliar a tradição musical popular e a poesia portuguesa ao movimento de contestação estudantil ao regime fascista vigente, dando origem à canção de protesto, que conheceu um extraordinário desenvolvimento nos últimos anos da década de 60 do século XX. Foi através deles que a música desempenhou um papel fundamental no movimento estudantil, em particular nos Dias do Estudante de 1960/61 e na Crise Académica desencadeada pela sua proibição em 1962.

Trova do Tempo que Passa, a emblemática música  de Adriano (com letra de Manuel Alegre e música de António Portugal), publicada em disco em 1963, foi estreada numa festa de acolhimento aos caloiros na Faculdade de Medicina de Lisboa (no Hospital de Santa Maria), em que também participaram José Afonso, Rui Pato, António Portugal e Manuel Alegre. Conta-se que a sala estava repleta e Adriano teve que repetir a música 6 vezes, e que os estudantes saíram para a rua a cantá-la em coro.

Militante do PCP desde 1960, já antes do 25 de Abril Adriano Correia de Oliveira levava a sua música a coletividades e associações populares, atuando em salas um pouco por todo o país, embora tenha ficado para a história sobretudo a sua participação no histórico espetáculo do Coliseu dos Recreios, na companhia de José Afonso e outros, em 29 de março de 1974, onde se cantou a Grândola Vila Morena em coro.

Após o 25 de Abril de 1974 Adriano empenhou-se na educação cultural e política das populações, tendo integrado as campanhas de Dinamização Cultural do MFA, cantado em comícios de várias organizações e associações, e participado na criação do CAC – Colectivo de Acção Cultural (1974) e da Cooperativa Cantar Abril (1979).

Dos temas emblemáticos de Adriano recordem-se Fala do Homem Nascido (a partir de poema de António Gedeão), Cantar de Emigração (poema de Rosalia de Castro), Menina dos Olhos Tristes (poema de Reinaldo Ferreira), Tejo que levas as águas (poema de Manuel da Fonseca).

A título póstumo, Adriano Correia de Oliveira foi feito Comendador da Ordem da Liberdade (24 de setembro de 1983) e Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (24 de abril de 1994), bem como mereceu  a Medalha de Honra da Cidade de Lisboa, e o seu nome foi dado à Escola do 1º Ciclo nº 181, na Rua Cidade Vila Cabral, na Freguesia dos Olivais.

Freguesia das Avenidas Novas

Freguesia das Avenidas Novas

 

 

António Aleixo numa artéria dos Sete Céus

antónio aleixo

António Aleixo, poeta popular de quadras de cariz moral e muitas vezes humorístico, tem o seu nome numa rua do Bairro dos Sete Céus desde o ano de 1987.

O topónimo nasceu por sugestão de uma carta de Manuel Cabaço, sugerindo os nomes de António Aleixo, Adriano Correia de Oliveira, João Lourenço Rebelo, Joaquim Cordeiro, Maria Júdice da Costa,  e Vasco de Lima Couto  para identificarem os arruamentos do Bairro dos Sete Céus. O Edital de 30/01/1987 fixou nos arruamentos do Bairro, para além António Aleixo (no Impasse 6) , os nomes do compositor João Lourenço Rebelo, do fadista Joaquim Cordeiro, da cantora Maria Júdice da Costa e dos poetas Ruy Cinatti e Vasco de Lima Couto.

António Aleixo (Vila Real de Santo António/18.02.1889 – 16.11.1949/Coimbra) foi um poeta popular,  cauteleiro e cantor popular de feira em feira, que nos deixou quadras sentenciosas e satíricas como : Sei que pareço um ladrão/Mas há muitos que eu conheço/Que sem parecer o que são/São aquilo que eu pareço ou Uma mosca sem valor/poisa, c’o a mesma alegria,/na careca de um doutor/como em qualquer porcaria.

A poesia daquele que ficou conhecido como poeta cauteleiro caracteriza-se por um tom dorido, irónico e até um pouco puritano de moralista, com a grande espontaneidade de quem sabendo ler não detinha qualquer  outra formação literária e trabalhou em inúmeros lugares como cantor popular de feira em feira (a partir de 1912), tecelão (1912 a 1919) , polícia (1922),  cauteleiro e vendedor de gravatas (1931-1933) e até servente de pedreiro (1928- 1930) em França.

O seu primeiro livro, Quando Começo a Cantar, começou-se a vender no dia 25 de abril de 1943, então domingo de Páscoa, por iniciativa do Circulo Cultural do Algarve e, as suas quadras encontram-se reunidas em mais três  livros:   Auto da Vida e da Morte (1948), Este Livro que Vos Deixo (1969) e Inéditos de António Aleixo (1978).

Freguesia de Santa Clara (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Clara

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