Rua da Pedreira do Fernandinho

Freguesia de Campolide – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Pedreira do Fernandinho perpetua no local a memória de um proprietário local do final do séc. XIX, conhecido como Fernandinho, que ali teve uma grande quinta e uma pedreira.

Foi em 1986 que a Secção de Escrivania da CML informou a edilidade da necessidade de dar nomenclatura própria aos arruamentos da Quinta da Bela-Flor, à Cascalheira, o que se concretizou pelo publicação do Edital municipal de 8 de julho de 1986, ficando a Rua A como Rua da Bela-Flor e a Rua C como Rua da Pedreira do Fernandinho.

Freguesia de Campolide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Se corrermos as várias plantas disponíveis no Arquivo Municipal, percebemos que o espaço hoje ocupado pela Rua da Pedreira do Fernandinho era campo até na planta de Silva Pinto, de 1911, ser mencionada a Quinta do Fernandinho. Depois da construção da linha-férrea de Alcântara a Campolide (1886) e do túnel do Rossio ou da Rabicha (1890) aumentou o desenvolvimento urbano de Campolide e em 1889, a condessa do Paço do Lumiar vendeu, em lotes, as antigas terras dos Braamcamps, ao preço de 6 a 25 tostões o metro quadrado, o que permitiu a construção do chamado Bairro Novo de Campolide mas também que um tal António Fernandes dos Reis, conhecido como o Fernandinho, fosse quem mais terreno comprou –  2600 m2-, em toda a zona mais próxima de Alcântara, e que assim deu o seu nome à sua Quinta, bem como à pedreira  que ele deve ter explorado ou os seus herdeiros. Esta pedreira terá funcionado até metade do século XX,  já que o Santana Futebol Clube – fundado em 1920 – teve o seu segundo campo de futebol no espaço desta pedreira no decorrer dos anos 50 e depois foi soterrado.

A alcunha do proprietário terá passado para a toponímia de sítios próximos como o  Alto do Fernandinho (junto à Rua Vítor Bastos) que surge em processos de obras de 1893 e 1912 requeridos por Gertrudes Rosa Fernandes  e Fernando Manuel Fernandes;  o Casal do Fernandinho (na Calçada da Quintinha) que está registado em documento de 1925 e as Terras do Fernandinho, que surgem em 1951, para fornecer a localização da barraca 24-B à Rua do Garcia.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua das Pedras Negras ou do templo da deusa Cibele

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua das Pedras Negras terá tido pedras dessa cor, impressionantes ao ponto de ficarem guardadas na memória do local mas talvez essas pedras negras sejam a referência à Lisboa Romana que teria aqui um templo da deusa Cibele.

A Rua das Pedras Negras dos dias de hoje liga a Rua Augusto Rosa à Rua Madalena mas, de acordo com Norberto de Araújo, teria sido um arruamento mais encaracolado antes do Terramoto que «há cêrca de duzentos anos [mais ou menos 1744] começando num ângulo, exactamente na vértice das Travessas do Almada e das Pedras Negras, e descrevendo uma larga curva » ao qual «Os arquitectos de Pombal, e os que se lhes seguiram, arrazaram, terraplanaram e abriram um xadrez regular, que é aquele que estamos passeando. Esta actual Rua das Pedras Negras não corresponde de maneira alguma à do século XVII.»

Norberto de Araújo defende ainda que «A designação é antiquíssima, pois aparece já em 1299; não se lhe conhece a origem ou fundamento, e tudo quanto se disser – e já disse – não vai além da fantasia.»

Todavia, a Drª Salete Salvado, na sua comunicação às  4ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa -«Alfama e Rua das Pedras Negras – Reflexões sobre um Topónimo»- defende que este topónimo perpetua na memória de Lisboa o  culto da deusa bétilo da Olisipo Romana :

« No panorama da toponímia antiga de Lisboa, Pedras Negras é aquilo que eu, por graça, chamo “um topónimo absoluto”. Quer isto dizer que é único em Lisboa, e se manteve sempre no mesmo lugar da cidade, apesar da passagem do tempo e do reordenamento espacial. Esse é também o único local da cidade onde foram inequivocamente encontrados monumentos epigráficos dedicados a Cibele, juntamente com restos arquitectónicos de notável grandeza. Esse é também um local onde o “quarteirão” anterior ao Terramoto descreve um rectângulo cujos dois lados maiores e um lado menor apresentam uma silhueta estranhamente regular, estando o seu eixo maior orientado a Ocidente, como se subjacente se encontrasse uma sólida estrutura, compatível com a de um templo.» acrescentando que « Como o derrube do templo é antigo (séc. IV D.C.) e está inevitavelmente ligado à consagração do Cristianismo como religião oficial do Estado romano e à construção da muralha tardo-romana que defendeu a cidade, é perfeitamente natural a relativa dispersão dos seus materiais (…) Embora desconheça o seu paradeiro, não tenho qualquer dúvida de que existiram e foram encontradas, num momento que não consigo determinar, mas que terá a ver com a retoma da utilização do espaço , muito depois da construção da muralha defensiva tardo-romana, pedras negras, em número ou forma tão extraordinárias que fixaram a utilização deste nome como referência determinante do local e elemento orientador» para assim poder concluir que « (…) Descartadas as infundamentadas teorias da origem do topónimo incluindo a da existência de uma floramento basáltico ou da modificação da cor do calcário da bancada de Lisboa naquele preciso local, parece-me poder avançar com a hipótese de trabalho que atrás desenvolvi, esperando apenas que escavações arqueológicas, dignas desse nome, a realizar no local possam trazer uma nova luz sobre este assunto. Até lá reflictamos na espantosa coincidência do topónimo corresponder ao local de culto oficial da deusa bétilo, pedra negra, a quem chamamos Cibele.»

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas, no Lumiar,  é um topónimo que deriva da proximidade à Quinta do mesmo nome, sendo que esta, por seu turno, é uma denominação que advém de vestígios aí encontrados, provavelmente fósseis calcários do Miocénico lisboeta ( ou seja, entre cerca de 20 a 7 milhões de anos atrás), como sucedeu no Alto das Conchas, em Marvila.

Esta artéria inicialmente designada por Rua F à Quinta das Conchas passou a ser a Rua David Mourão-Ferreira por Edital municipal de 18 de novembro de 2003. Todavia, ao pretender-se que o nome do escritor designasse um arruamento de maior extensão passou este homenageado a deter uma Avenida também na freguesia do Lumiar e a Rua passou a denominar-se Rua da Quinta das Conchas, tudo conforme o Edital nº 56/2005 de 22 de julho de 2005.

A Quinta das Conchas – que hoje é um Parque – nasceu como uma estrutura agrícola concebida e desenvolvida em meados do século XVI por Afonso de Torres, sabendo-se que já em 1520 era um morgadio deste rico negociante de origem espanhola. Ao longo do tempo teve vários proprietários, dos quais se destacou no final do séc. XIX Francisco Mantero – que dá nome a uma Rua dos Olivais tal como seu filho, Mantero Belard, dá a uma Rua de Santa Clara -, após se ter tornado um dos grandes exploradores das roças de café de São Tomé na qual restaurou e ampliou a casa da Quinta dos Lilases, dando-lhe um carácter de mansão colonial e, em 1897, comprou a parte rústica da Quinta das Conchas, não sendo assim de estranhar que tenha mandado fazer um grande lago artificial,  com duas pequenas ilhas nas quais plantou palmeiras, em homenagem às ilhas de São Tomé e Príncipe.

Contudo, no século XX, a área desta Quinta foi mais utilizada pela então muito recente indústria cinematográfica, uma vez que  em 1920 foi nela fundada  a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor e doze anos depois, em 1932, foi a vez da Tobis Portuguesa adquirir parte da Quinta para aí edificar os seus estúdios. Em 1966, os descendentes de Francisco Mantero transferiram para a Câmara Municipal de Lisboa a gestão da Quinta que recebeu obras de requalificação em 2005 que mereceram o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura desse ano.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua das Pedras Alvas ou das Pedralvas

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua das Pedralvas guarda a memória da Quinta das Pedralvas, que por seu lado retira o nome do Sítio das Pedralvas, topónimo que parece nascer da junção de pedras alvas numa única palavra e por isso, uma lembrança de património geológico de Lisboa, sendo certo que os topónimos derivados de «pedra» são bastante frequentes na Galiza e em Portugal.

O lugar das Pedralvas está referenciado em Benfica desde o século XVIII. A construção do Aqueduto das Águas Livres provocou em Lisboa um constante  aumento demográfico e Benfica viu nascer novos lugares como Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Alfarrobeira, Bom Nome, Borel, Buraca, Calhau, Correia, Estrada da Luz,  Feiteira, Mira, Penedo, Porcalhota, Presa, Salgado, Venda Nova e Pedralvas. Em dezembro de 1887, o sítio das Pedralvas tal como a Estrada de Benfica, a Estrada da Luz, a Estrada de Carnide e a Estrada de Alfarrobeira, foram repavimentados. No início do século XX, as Pedralvas tinha também um afamado retiro «fora de portas» onde se cantava fado.

Por escritura de 18 de março de 1950, a edilidade comprou a Quinta das Pedralvas a Bernardino José Borges e durante dez anos, de 1963 a 1973, nesse espaço do Sítio das Pedralvas foi construído o Bairro da Quinta das Pedralvas, ao abrigo do Programa PER (Programa Especial de Realojamento), tendo sido contratados pela edilidade para esse efeito os empreiteiros José Matias, António da Silva, SOTEPREL – Sociedade Técnica de Projectos e Empreitadas Lda., Socite – Sociedade Técnica de Construções e Empreitadas Lda., José Ribeiro, João Cândido da Silva Júnior, Francisco Filipe Coelho e António Augusto Freire.

Em 1967, por Edital municipal de 14 de junho foram atribuídos topónimos a dois dos seus arruamentos, cabendo à Rua A da Quinta das Pedralvas a denominação Rua das Pedralvas e à Rua B a designação Rua Almirante Campos Rodrigues.

Em 1978 a Rua das Pedralvas cresceu de tamanho por lhe ter sido acrescentada o arruamento que fazia a ligação desta Rua com a Rua E.

Em Portugal, as Pedralvas surgem também como topónimo de uma Rua e de uma Travessa em Almargem do Bispo (Sintra), asssim como da Horta das Pedralvas no Corval (em Reguengos de Monsaraz). No singular, o topónimo surge no sítio da Pedralva em Vila do Bispo, numa Rua e numa Travessa de Vila Nova de Paiva (Viseu), numa Escadaria da Nazaré, num Caminho de Afife (Viana do Castelo) e numa freguesia de Braga.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Cascalheira das pedreiras de calcário

Freguesia de Alcântara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Esta Rua da Cascalheira, que deve ter nascido em  Alcântara do século XIX e hoje encontramos a unir a Rua da Cruz a Alcântara à Travessa dos Surradores, revela o património geológico da zona com as suas pedreiras de calcário.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Este topónimo foi fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas que se deve situar no final do século XIX. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, aparece pela primeira vez mapeada uma Travessa da Cascalheira, sobre a qual encontramos nos anos de 1891 a 1893, documentos de expropriação de terrenos para o alargamento desta artéria. Ora como no documento de 11 de setembro de 1891 se refere mesmo «alargamento da Travessa da Cascalheira, próximo à Rua do Alvito e Travessa dos Surradores», fica-nos a certeza de que é este o mesmo arruamento que se passará a designar por Rua da Cascalheira.

O nome gerou-se por via das pedreiras de calcário cretácicos – a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa – que existiam no vale de Alcântara e que favoreceram a instalação de fornos de cal nesta zona, a partir do séc. XVIII. O Sítio da Cascalheira surge como topónimo num documento  de 6 de dezembro de 1890, «plantas com indicação de várias ruas particulares, integradas na viação pública por deliberação camarária»  e estendia-se até à atual freguesia de Campolide, na qual encontramos num roteiro de ruas de 1941 o Alto da Cascalheira, no fim da Rua do Garcia. Refira-se que esta Rua do Garcia teve mais tarde o seu topónimo acrescentado com «à Cascalheira» e na qual, desde 1934 estava sediado o Clube Atlético da Cascalheira, cuja qualidade na prática do futebol terá originado a frase «Não jogas nada! Vai mas é pró Cascalheira!»

 

As Ruas dos rios do Bairro Padre Cruz, em Carnide

A inauguração oficial do Bairro Padre Cruz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Inúmeros rios portugueses, ou partilhados com Espanha, estão ainda hoje presentes na toponímia da freguesia de Carnide, por via do Bairro Padre Cruz, desde a publicação municipal do Edital municipal de 8 de agosto de 1961.

Foi o Decreto nº 4137, de 25 de maio de 1918 que iniciou em Portugal a prática do Estado ter a incumbência de promover habitação social. A I República designou-os Bairros Sociais e o Estado Novo tornou-os Bairros de Casas Económicas. Ao longo do século XX, estes bairros foram construídos principalmente em zonas periféricas da cidade, na periferia do tecido urbano consolidado. A sua toponímia, maioritariamente numérica, contribuiu para solidificar a sua identidade de bairro social ao definir «fronteiras» interiores e exteriores: as primeiras criavam um sentimento de inclusão entre os seus habitantes mas as segundas, estigmatizavam-os  relativamente aos restantes lisboetas, fomentando uma lógica de exclusão.

Entre 1958 e 1960, a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu a Quinta da Pentieira ou do Alto da Pentieira, no extremo norte da freguesia de Carnide, para criar o Bairro Municipal Padre Cruz. Começou por ser um bairro de casas desmontáveis, conhecido como Bairro de Lusalite, para realojar algumas famílias oriundas do bairro da Quinta da Calçada e  atingidas pelas obras da Cidade Universitária, neste local que era considerado um bairro provisório até à construção das casas de alvenaria. Depois,  na primeira metade da década de 60, iniciou-se a construção do Bairro de Alvenaria para realojar os moradores que já moravam nas casas de lusalite e também para alojar funcionários da Câmara Municipal de Lisboa.

Neste caso, em vez de toponímia numérica que até aí era característica dos bairros sociais de Lisboa este Bairro Antigo, de ruas direitas e paralelas, recebeu nos seus 37 arruamentos antes nomes de rios, fixados pelo Edital municipal nº 150/61.

Conforme se pode ler na ata da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, de 24 de julho de 1961, este órgão consultivo propôs denominar os 37 arruamentos do «Bairro de Casas para Pobres em Carnide» com geotopónimos, concretamente com nomes de rios portugueses, como então se aprendiam a decorar na escola primária frente a um mapa de Portugal.

Seis anos depois, em 1967, foi colocado em frente à Igreja do Bairro Padre Cruz, um busto do Padre Cruz, da autoria do escultor Martins Correia, e procedeu-se à inauguração oficial do Bairro Municipal Padre Cruz, com a presença do então Presidente da Câmara, António Vitorino França Borges.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Alviela a lembrar a Estação Elevatória dos Barbadinhos

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No dia seguinte à inauguração do Reservatório de Água dos Barbadinhos, abastecido pelo rio Alviela, a Câmara Municipal deliberou atribuir a Rua do Alviela junto à Calçada dos Barbadinhos, o que se concretizou dois dias depois através da publicação do Edital Municipal de 6 de outubro de 1880, assinado pelo presidente José Gregório Rosa Araújo e que refere claramente «(…) que a communicação ultimamente aberta entre a calçada dos Barbadinhos e o edificio da companhia das aguas, onde se acha o deposito das aguas do Alviella, seja denominada RUA DO ALVIELLA«.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

No séc. XIX, o aumento demográfico na cidade de Lisboa com população que emigrou para a capital em busca de trabalho fez com a água do  Aqueduto das Águas Livres se tornasse insuficiente. Por isso, de  1871 e 1880, foi construído o aqueduto do Alviela, preparado para transportar água captada a 114 km a norte de Lisboa, originária das nascentes dos Olhos de Água do rio Alviela. No extinto Convento dos Barbadinhos Italianos foi instalado o Reservatório final da água transportada, que tomou o nome do mosteiro. Junto do Reservatório dos Barbadinhos foi construída uma estação elevatória a vapor, destinada a bombear água do aqueduto do Alviela para a cidade de Lisboa,  inaugurada no dia 3 de outubro de 1880. No dia seguinte, 4 de outubro, a edilidade lisboeta deliberou atribuir o topónimo Rua do Alviela e no dia 6, publicou o respetivo Edital.

Esta Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos funcionou entre 1880 e 1928. Em 2010, o edifício da estação elevatória a vapor foi classificado como CIP – Conjunto de Interesse Público e nele se preservam as antigas máquinas a vapor e bombas, testemunhos do património industrial. A Estação dos Barbadinhos hoje acolhe a exposição permanente do Museu da Água e o Arquivo Histórico da EPAL.

Para além deste Rua do Alviela na freguesia de São Vicente, existiu também uma Rua do Rio Alviela, na Freguesia de Carnide, atribuída como a toponímia das restantes artérias do antigo Bairro Padre Cruz pelo Edital municipal de 8 de agosto de 1961, na Rua 2 do Bairro Municipal Padre Cruz.  Em vez da tradicional toponímia numérica que se usava para distinguir os Bairros Sociais de Lisboa neste caso usou-se o nome dos rios portugueses. Desde o ano 2000 que este arruamento foi extinto por via das remodelações da zona.

A Rua da Boavista da Fábrica do Gás

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Boavista, abaixo do Monte de Belver ou Alto da Boavista, dotada de um bica para melhoras dos olhos, que hoje encontramos a unir a Rua de São Paulo ao Largo do Conde Barão, albergou entre 1847 e 1914 a Fábrica do Gás da Boavista.

Fábrica de Gás da Boavista foi inaugurada em 1847 e segundo Norberto de Araújo, ainda cerca de 1860 se encontrava de frente para a Praia da Boavista e os Boqueirões da Moeda e dos Ferreiros, tendo assim sucedido ao antigo Quartel da Brigada Real da Marinha o edifício da Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás, estando nos terrenos por detrás deste a primeira Fábrica de Gás, de Cláudio Adriano da Costa e do francês José Detry, que por privilégio concedido em 3 de maio de 1846 detinham o monopólio da produção e comercialização de gás. A  junção desta Fábrica do Gás com a Central Tejo, a partir de 1909, permitiu fornecer eletricidade a Lisboa e a toda a faixa costeira até ao Estoril.

O traçado de elevação da fachada da Fábrica do Gás na Rua da Boavista, aprovada pela CML em 16 de maio de 1850

Em 1887 foi fundada uma concorrente, a Companhia do Gás de Lisboa, com fábrica em Belém, junto à Torre, em terrenos cedidos pela CML e, em 1891, as duas companhias acabaram por se fundir. Em 1914, deu-se na Fábrica da Boavista uma formidável explosão que originou 19 mortos e um incêndio, tendo então o fabrico do gás passado, inteiramente, para o sítio do Bom Sucesso, na proximidade da Torre de Belém, tendo Norberto de Araújo adiantado mais tarde que «a fábrica deve estar instalada, no ano próximo, no ocidente da Cidade, na Quinta da Mantinha, ao Poço do Bispo (se a guerra, que rebentou em 3 de Setembro dêste ano de 1939, não vier impedir a realização do projecto).»

A Rua da Boavista já existia como topónimo antes do Terramoto de 1755 como o registam as memórias paroquiais de Lisboa.  Ao Alto de Santa Catarina com quem a Rua da Boavista se relaciona na toponímia semelhante, também se chamava Alto do Belver, ou Belveder ou Alto da Boavista. Contudo, o nome de Boavista está também especialmente relacionado com a Bica dos Olhos, a Bica de Duarte Belo, construída em 1675 e muito popular pela sua eficácia no tratamento de doenças dos olhos, tendo até um médico de D. João V referido a sua água como medicinal na sua obra  Aquilégio Medicinal de 1726. E assim, durante muito tempo, acorreram a esta bica muitas pessoas para lavar os olhos com o propósito de manter uma boa visão ou curar outros males dos olhos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Sete Rios e Humberto Delgado

Palhavã e Sete Rios em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Sítio de Sete Rios, do antigo Termo de Lisboa, ganhou quatro anos após o 25 de Abril – em 1979 – uma Praça de homenagem a Humberto Delgado, o General Sem Medo assassinado pela PIDE em 1965, embora ainda hoje essa artéria seja conhecida como Largo ou Praça de Sete Rios, ou apenas Sete Rios, topónimo que foi reforçado na memória dos lisboetas de 1959 a 1995 pela estação de Metropolitano de Sete Rios.

Raúl Proença, no seu  volume inaugural do seu Guia de Portugal, publicado em novembro de 1924, escreve que «O lugar de Sete Rios surge então na confluência de duas estradas, uma para Oeste, chamada hoje rua de Campolide, que leva à estrada deste nome, e outra para Este, que constitui a travessa das Laranjeiras.» Refira-se que pelo menos até à década de quarenta do séc. XX o sítio de Sete Rios era ocupado  maioritariamente por quintas e terrenos de cultura.

A origem do topónimo pode estar relacionada com a presença de um braço da  Ribeira de Alcântara no local, misturado com o mágico número sete,  um número de perfeição, presente na toponímia galego-portuguesa em bicho de sete cabeças, no sete fôlegos do gato, nos sete ofícios, sete ventos, sete mares ou sete partidas do mundo, tanto mais que a maior quinta do sítio de Sete Rios se denominava Quinta dos Milagres. Esta Quinta ligava-se à Quinta das Furnas pela Azinhaga dos Milagres.

Certo é que no séc. XVIII já encontramos Sete Rios em diversos documentos municipais : num Aviso para que se consertem as calçadas que dão acesso a Nossa Senhora das Necessidades, à ponte de Alcântara e à de Sete Rios (1727); na petição de João do Outeiro, mestre calceteiro, que consertara a estrada que vai de Sete Rios para Belas, para que lhe paguem o que se encontra em falta (1743); num pedido de  Silvestre de Faria Lobo para ser autorizado a fazer o prolongamento de um muro na sua quinta em Sete Rios (1779).

No séc. XIX, em 1838 aparece já mencionada a Estrada de Sete Rios que vai para Campolide. Em 1904 foi em Sete Rios instalado o Jardim Zoológico de Lisboa, no antigo parque do Palácio Farrobo ou seja, em grande parte da Quinta das Laranjeiras e inaugurado em maio do ano seguinte. Em 1927 e 1928 foi delineado um plano de novos arruamentos no Casal de Sete Rios, que era da Casa Cadaval, entre a Estrada e a Travessa das Laranjeiras, Estrada de Benfica e Linha Férrea de Cintura que aprovado na sessão de Câmara de 1 de novembro de 1928. Vinte anos depois, a planta da cidade de 1948 assinala Sete Rios como um dos pontos de referência da cidade. Em  1959 foi inaugurada a estação do Metropolitano Sete Rios que só em 1995 seria remodelada e mudado o nome para Jardim Zoológico. Nos anos cinquenta foi elaborado um projeto de canalização da Ribeira de Alcântara, entre Campolide e a Travessa de São Domingos de Benfica, incluindo o braço de Sete Rios sendo em 1961 construído o Caneiro de Alcântara – Sete Rios, ano em que também foi tirado algum terreno ao Jardim Zoológico para a construção de uma praça em Sete Rios. Nessa praça foi instalada a partir de 1963 a central de camionagem de Sete Rios, e no ano seguinte a autarquia adjudicou a instalação de bocas de rega nas placas ajardinadas da Praça.

A Praça Marechal Humberto Delgado – Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas

Após o 25 de Abril de 1974 a Câmara recebeu diversas solicitações para que Humberto Delgado, morto há 9 anos atrás, fosse nome de rua e assim, Humberto da Silva Delgado (Torres Novas – Brogueira/05.05.1906 – 13.02.1965/Villanueva del Fresno -Espanha), que fora assassinado por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco, passou através do Edital municipal de Edital de 02/02/1979, após o parecer favorável do Estado-Maior General das Forças Armadas, a estar na Praça General Humberto Delgado, oficialmente  inaugurada em outubro desse ano. Mais tarde, em 1990, quando ocorreu a promoção póstuma de Humberto Delgado a Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional, no dia 5 de outubro, também o topónimo foi atualizado para Praça Marechal Humberto Delgado, através do Edital municipal de 13 de dezembro de 1990, ocorrendo a cerimónia de inauguração das novas placas toponímicas em 18 de janeiro do ano seguinte.

Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Alto das Conchas e conchinhas miocénicas

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Alto das Conchas, em Marvila, artéria que liga a Calçada do Perdigão  à Azinhaga da Salgada, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas, topónimo que se fixou na memória do local por nele abundarem vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico lisboeta, ou seja, entre cerca de 20 e 7 milhões de anos atrás.

Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, local onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas.  No séc. XVIII é construída a casa de morada da Quinta das Conchas e sua ermida da invocação de Santo António com a data de 1763, tendo nas proximidades a Quinta do Perdigão do século anterior e de Manuel Sequeira Perdigão, um cavaleiro da Ordem de Cristo. E no séc. XIX, um documento municipal de 1899 regista o alinhamento da Calçada do Perdigão e a sua proximidade ao  Alto das Conchas, Quinta das Conchas e Quinta das Conchinhas.

Na planta de 1908 de Silva Pinto, para além do Alto das Conchas também surge uma Azinhaga das Conchas e uma Quinta das Conchas, sendo que a Azinhaga corresponde ao espaço que hoje designamos Alto das Conchas. Já na planta municipal de 1950 , o Alto das Conchas de 1908 passou a Quinta das Conchinhas e o que hoje designamos como Alto das Conchas era o Largo das Conchas, que assim surge desde 1971 nas plantas do Plano Diretor Municipal.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)