Da Rua do Lambaz à Rua de Belver do Alto de Santa Catarina

Rua de Belver, em data entre 1898 e 1908
(Foto: Machado & Souza, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

No Alto de Santa Catarina, a Rua do Lambaz passou a denominar-se Rua de Belver por Edital do Governo Civil de 16 de abril de 1867, sendo justificado no próprio Edital que tal sucedia por solicitação de «moradores da rua do Lambaz, freguesia de Santa Catharina, districto do Bairro da mesma denominação, o desejo que teem de que á mesma rua seja restituido o nome de Belver, que teve antigamente, e de que fôra desapossada por motivos que se ignoram».

A Rua do Lambaz está registada nas plantas e descrições da freguesia de Santa Catarina de acordo com a remodelação paroquial de 1770 como Rua do Lambas e Rua do Lambaz, assim como mais tarde surge na planta de 1856 de Filipe Folque, sendo a sua origem derivada de uma alcunha de um morador da zona segundo Júlio de Castilho, até o Governador Civil de Lisboa por este Edital de 1867 passar a identificá-la com o nome do sítio: Belver. O olisipógrafo  Gomes de Brito afirma que «Antigamente chamada “Rua do Lambaz”, alcunha, veja Castilho, Tomo V, e substituída esta denominação pela actual, a instâncias do conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando adquiriu a morada de casas em que residiu e faleceu, nº de polícia 12. Ao Monte de Santa Catarina, antes da fundação da igreja que o coroava, se chamou o monte de Belver, pitoresca denominação de todo o ponto conforme ao excelente panorama que dali se disfruta. José Silvestre Ribeiro aproveitou, pois, e mui naturalmente, a circunstancia, para ver deferida a sua pretensão.»

Norberto de Araújo , como olisipógrafo avançou que «O Alto de Santa Catarina, designação que foi simultânea com a de Belver, mas resistiu, deve a designação à circunstância de neste sítio – exactamente onde está êsse Palacete n.º 2, com pátio guarnecido de gradeamento – ter existido a Igreja paroquial de Santa Catarina do Monte Sinai» e acrescenta que «No Alto dêste cabeço havia, como atrás se disse, desde o século XV uma enorme Cruz de madeira, que servia de guia aos mareantes» que ficou na toponímia como Rua da Cruz de Pau (depois, Rua Marechal Saldanha). O local foi também denominado Pico da Boavista, Pico ou Monte de Belver ou Belveder.

No ano anterior ao novo topónimo dado pelo Governo Civil de Lisboa, entre 28 de março e 5 de abril de 1866, Luís de Almeida de Albuquerque (Serpa/02.06.1819 – 03.03.1906) apresentou à Câmara para autorização  o traçado do prédio que acabou por edificar na rua do Lambaz, n.º 5 onde depois residiu. Por Edital municipal de 20 de julho de 1920, a Rua de Belver passou a designar-se Rua Dr. Luís de Almeida e Albuquerque. Norberto de Araújo relata ainda que Luís de Almeida e Albuquerque foi proprietário e diretor do Jornal do Comércio, que também sede nesta artéria.

Freguesia da Misericórdia

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A Calçadinha da Figueira para o Arraial do Adicense nas Festas de Lisboa’19

A Calçadinha da Figueira, algures entre 1950 e 1969
(Foto: Artur Pastor, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Calçadinha da Figueira é o palco para o arraial do Grupo Sportivo Adicense ecoar em Alfama, também com tardes e noites de fado, nesta edição de 2019 das Festas de Lisboa.

Com mais de 100 anos de serviço em prol da comunidade nas áreas do desporto, da cultura e do recreio, o Grupo Sportivo Adicense foi fundado em 26 de janeiro de 1916 – como Club Sportivo Adicense -, derivando o seu nome da antiga Rua da Adiça. Segundo Júlio de Castilho, a Rua da Adiça era um topónimo de Alfama pelo menos desde 1470, mas no final do séc. XIX o Edital municipal de 19 de abril de 1893 transformou-a na Calçada de São João da Praça.  Passados 63 anos, o Edital municipal de 22 de junho de 1956, pegou nessa Calçada e dividiu-a em duas artérias: desde o seu início até aos n.ºs 51 e 68 (inclusive) voltou a denominar-se Rua da Adiça, enquanto o troço restante até ao Largo das Portas do Sol  ficou como Rua Norberto de Araújo. O Adicense ficou então na Rua Norberto Araújo mas já tem sede no nº 20 da Rua de São Pedro.

Já a artéria onde decorre o arraial do Adicense, a Calçadinha da Figueira, é um nome que advém da tradição de os topónimos georreferenciarem os locais pela flora local ou por outras circunstâncias que fossem distintivas de outros locais, bem como da outra tradição de usar diminutivos nas categorias dos topónimos para transmitir ora a proximidade dos moradores ao local ora o tamanho exíguo do arruamento ou então, ambas as coisas sendo assim de supor que terá existido um figueira no local.

Na estrutura urbana da Alfama medieval  desde o final do séc. XII que São João da Praça era uma freguesia urbana vizinha da freguesia Regueira do Salvador e então a Rua da Adiça era rua principal, a par da Rua de São Pedro e da de São Miguel. A urbanização de Alfama completou-se no séc. XVI com a construção sistemática de habitações ao longo das Ruas de São Pedro, de São Miguel, da Judiaria e da Regueira. Na descrição corográfica da cidade antes do terramoto de 1755 encontramos mencionadas uma Rua da Figueira próxima de uma Rua da Adiça, na então freguesia de São Miguel e quinze anos depois, na remodelação administrativa de 1770, deparamos com um Beco da Figueira a desembocar na Rua da Adiça.

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O arraial da ADCEO na Rua da Quinta de Santa Maria e Circular Norte do Bairro da Encarnação

Freguesia dos Olivais

No Bairro da Encarnação, o arraial das Festas de Lisboa 2019 faz-se na Rua Quinta de Santa Maria e na Circular Norte, por serem a morada da ADCEO – Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais que desde a sua fundação em 10 de março de 1990 tem a sua sede no lote 7 da Rua da Quinta de Santa Maria e Circular Norte e assim participa nas festas da cidade.

A ADCEO nasceu da fusão do Centro de Recreio Popular do Bairro da Encarnação (fundado em 16 de maio de 1946), do Clube Atlético e Recreativo da Encarnação (fundado em 28 de fevereiro de 1948) e do Centro de Cultura e Desporto da Quinta do Morgado (fundado em 1 de junho de 1975) e investe na promoção da cultura, da educação, do desporto e do recreio.

O Arraial da ADCEO em 2019
(Foto: José António Estorninho)

A maioria dos topónimos do Bairro da Encarnação, urbanização da autoria do Arqº Paulino Montez, construída de 1940 a 1943 – numa área de cerca de 47 ha de terrenos do então Ministério das Obras Públicas e Comunicações -, nasceram pelo Edital municipal de 15 de março de 1950. No quinhentista sítio da Panasqueira – cuja memória ainda se mantinha em 1939 numa Azinhaga da Panasqueira – foi inaugurado em 1946 o Bairro da Encarnação, o qual procurou reproduzir um pretenso modelo de aldeia portuguesa, mas com a forma de uma borboleta que pode ser admirada por vista aérea, sendo a Alameda da Encarnação o eixo principal das duas asas simétricas de borboleta do Bairro-Jardim da Encarnação.

A Rua da Quinta de Santa Maria, que faz a ligação da Circular Norte à Avenida Cidade do Porto, é uma das doze do Bairro da Encarnação que hoje encontramos a fugir à regra de ter toponímia numérica como era uso nos bairros sociais de então, e se pode ver justamente no Edital municipal de 15/03/1950 também aplicada nos Bairros de Casas Económicas do Alto da Ajuda, do Alto da Serafina, da Calçada dos Mestres, de Caselas e das Terras do Forno. O Bairro da Encarnação, cuja arquitetura já continha  princípios das cidades-jardim que então se iam construindo noutros países europeus, além da toponímia numérica que era tradicional nestes bairros, recebeu alguns topónimos, mesmo se todos esses são referências de localização, conforme se pode ser na ata da reunião da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia de 19 de dezembro de 1949: «Praça do Norte, Praça das Casas NovasRua dos Lojistas, Rua da Portela, Rua da Quinta de Santa Maria, Rua da Quinta do Morgado, Rua da Quinta da Fonte, e ruas números: 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20, 22, 24, 26 e 28, e 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27 e 29,  aos arruamentos situados, respectivamente, à direita e à esquerda da Alameda da Encarnação.» Pelo Edital foram ainda atribuídos os topónimos Rua dos Eucaliptos e Rua das Escolas. A Rua da Quinta de Santa Maria foi arborizada entre 1956 e 1971.

Já as Circulares do Bairro da Encarnação, são atribuídas depois, através do Edital municipal de 27 de novembro de 1957, cabendo à  Rua K e à Rua J passarem a ser a Circular Norte e a Circular Sul, georreferências à Praça do Norte e à Praça das Casas Novas.

A Rua da Quinta de Santa Maria e a Circular Norte

 

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Do Alto das Pulgas às Escadinhas do Mirador de 17 de novembro de 1917

Freguesia da Ajuda
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O Alto das Pulgas na Ajuda, através do Edital municipal de 17 de novembro de 1917, passou a ter Escadinhas do Mirador como topónimo, por sugestão da Junta local.

Conforme se pode ler na Ata da Comissão Executiva da CML de 15 de novembro de 1917, a Junta de Paróquia da Ajuda pelo seu ofício nº 208, de 4 de setembro de 1917, solicitou à edilidade «que parte da rua do Mirador e uma parte da rua do Machado, vulgarmente conhecida pelo Alto das Pulgas, passe a denominar-se Escadinhas do Mirador e à Travessa de Sant’Ana, Travessa Aliança.» A Câmara deliberou a pretensão favoravelmente e assim foi publicado o Edital municipal de 17 de novembro de 1917 que atribuiu o topónimo Escadinhas do Mirador, arruamento que hoje podemos encontrar a ligar a  Rua do Mirador à Travessa do Moinho de Vento.

 

Este novo topónimo segue outros dois da zona, a Rua e a Travessa do Mirador que foram oficializados pelo Edital da CML de 26 de setembro de 1916, e sobre ele, o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo defendeu, na sua Lisboa de Lés a Lés, que «Não há dúvida que o nome devia ser Miradouro e não Mirador. Vejamos por exemplo um passo das “Artes e Indústrias em Portugal no século XVIII”, de Vítor Ribeiro, onde se faz referência a uma notícia da “Gazeta de Lisboa” que fala na rua do Miradoiro, em Belém, e onde nos é apresentada uma célebre bordadora que morava nessa mesma rua (…) A mudança do nome de Miradouro para Mirador foi feita depois de 1890.»

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Rua da Pedreira do Fernandinho

Freguesia de Campolide – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Pedreira do Fernandinho perpetua no local a memória de um proprietário local do final do séc. XIX, conhecido como Fernandinho, que ali teve uma grande quinta e uma pedreira.

Foi em 1986 que a Secção de Escrivania da CML informou a edilidade da necessidade de dar nomenclatura própria aos arruamentos da Quinta da Bela-Flor, à Cascalheira, o que se concretizou pelo publicação do Edital municipal de 8 de julho de 1986, ficando a Rua A como Rua da Bela-Flor e a Rua C como Rua da Pedreira do Fernandinho.

Freguesia de Campolide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Se corrermos as várias plantas disponíveis no Arquivo Municipal, percebemos que o espaço hoje ocupado pela Rua da Pedreira do Fernandinho era campo até na planta de Silva Pinto, de 1911, ser mencionada a Quinta do Fernandinho. Depois da construção da linha-férrea de Alcântara a Campolide (1886) e do túnel do Rossio ou da Rabicha (1890) aumentou o desenvolvimento urbano de Campolide e em 1889, a condessa do Paço do Lumiar vendeu, em lotes, as antigas terras dos Braamcamps, ao preço de 6 a 25 tostões o metro quadrado, o que permitiu a construção do chamado Bairro Novo de Campolide mas também que um tal António Fernandes dos Reis, conhecido como o Fernandinho, fosse quem mais terreno comprou –  2600 m2-, em toda a zona mais próxima de Alcântara, e que assim deu o seu nome à sua Quinta, bem como à pedreira  que ele deve ter explorado ou os seus herdeiros. Esta pedreira terá funcionado até metade do século XX,  já que o Santana Futebol Clube – fundado em 1920 – teve o seu segundo campo de futebol no espaço desta pedreira no decorrer dos anos 50 e depois foi soterrado.

A alcunha do proprietário terá passado para a toponímia de sítios próximos como o  Alto do Fernandinho (junto à Rua Vítor Bastos) que surge em processos de obras de 1893 e 1912 requeridos por Gertrudes Rosa Fernandes  e Fernando Manuel Fernandes;  o Casal do Fernandinho (na Calçada da Quintinha) que está registado em documento de 1925 e as Terras do Fernandinho, que surgem em 1951, para fornecer a localização da barraca 24-B à Rua do Garcia.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua das Pedras Negras ou do templo da deusa Cibele

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua das Pedras Negras terá tido pedras dessa cor, impressionantes ao ponto de ficarem guardadas na memória do local ou essas pedras negras serão uma referência à Lisboa Romana que teria aqui um templo da deusa Cibele?…

A Rua das Pedras Negras dos dias de hoje liga a Rua Augusto Rosa à Rua Madalena mas, de acordo com Norberto de Araújo, teria sido um arruamento mais encaracolado antes do Terramoto que «há cêrca de duzentos anos [mais ou menos 1744] começando num ângulo, exactamente na vértice das Travessas do Almada e das Pedras Negras, e descrevendo uma larga curva » ao qual «Os arquitectos de Pombal, e os que se lhes seguiram, arrazaram, terraplanaram e abriram um xadrez regular, que é aquele que estamos passeando. Esta actual Rua das Pedras Negras não corresponde de maneira alguma à do século XVII.»

Norberto de Araújo defende ainda que «A designação é antiquíssima, pois aparece já em 1299; não se lhe conhece a origem ou fundamento, e tudo quanto se disser – e já disse – não vai além da fantasia.»

Todavia, a Drª Salete Salvado, na sua comunicação às  4ªs Jornadas de Toponímia de Lisboa -«Alfama e Rua das Pedras Negras – Reflexões sobre um Topónimo»- defende que este topónimo perpetua na memória de Lisboa o  culto da deusa bétilo da Olisipo Romana :

« No panorama da toponímia antiga de Lisboa, Pedras Negras é aquilo que eu, por graça, chamo “um topónimo absoluto”. Quer isto dizer que é único em Lisboa, e se manteve sempre no mesmo lugar da cidade, apesar da passagem do tempo e do reordenamento espacial. Esse é também o único local da cidade onde foram inequivocamente encontrados monumentos epigráficos dedicados a Cibele, juntamente com restos arquitectónicos de notável grandeza. Esse é também um local onde o “quarteirão” anterior ao Terramoto descreve um rectângulo cujos dois lados maiores e um lado menor apresentam uma silhueta estranhamente regular, estando o seu eixo maior orientado a Ocidente, como se subjacente se encontrasse uma sólida estrutura, compatível com a de um templo.» acrescentando que « Como o derrube do templo é antigo (séc. IV D.C.) e está inevitavelmente ligado à consagração do Cristianismo como religião oficial do Estado romano e à construção da muralha tardo-romana que defendeu a cidade, é perfeitamente natural a relativa dispersão dos seus materiais (…) Embora desconheça o seu paradeiro, não tenho qualquer dúvida de que existiram e foram encontradas, num momento que não consigo determinar, mas que terá a ver com a retoma da utilização do espaço , muito depois da construção da muralha defensiva tardo-romana, pedras negras, em número ou forma tão extraordinárias que fixaram a utilização deste nome como referência determinante do local e elemento orientador» para assim poder concluir que « (…) Descartadas as infundamentadas teorias da origem do topónimo incluindo a da existência de uma floramento basáltico ou da modificação da cor do calcário da bancada de Lisboa naquele preciso local, parece-me poder avançar com a hipótese de trabalho que atrás desenvolvi, esperando apenas que escavações arqueológicas, dignas desse nome, a realizar no local possam trazer uma nova luz sobre este assunto. Até lá reflictamos na espantosa coincidência do topónimo corresponder ao local de culto oficial da deusa bétilo, pedra negra, a quem chamamos Cibele.»

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua da Quinta das Conchas, no Lumiar,  é um topónimo que deriva da proximidade à Quinta do mesmo nome, sendo que esta, por seu turno, é uma denominação que advém de vestígios aí encontrados, provavelmente fósseis calcários do Miocénico lisboeta ( ou seja, entre cerca de 20 a 7 milhões de anos atrás), como sucedeu no Alto das Conchas, em Marvila.

Esta artéria inicialmente designada por Rua F à Quinta das Conchas passou a ser a Rua David Mourão-Ferreira por Edital municipal de 18 de novembro de 2003. Todavia, ao pretender-se que o nome do escritor designasse um arruamento de maior extensão passou este homenageado a deter uma Avenida também na freguesia do Lumiar e a Rua passou a denominar-se Rua da Quinta das Conchas, tudo conforme o Edital nº 56/2005 de 22 de julho de 2005.

A Quinta das Conchas – que hoje é um Parque – nasceu como uma estrutura agrícola concebida e desenvolvida em meados do século XVI por Afonso de Torres, sabendo-se que já em 1520 era um morgadio deste rico negociante de origem espanhola. Ao longo do tempo teve vários proprietários, dos quais se destacou no final do séc. XIX Francisco Mantero – que dá nome a uma Rua dos Olivais tal como seu filho, Mantero Belard, dá a uma Rua de Santa Clara -, após se ter tornado um dos grandes exploradores das roças de café de São Tomé na qual restaurou e ampliou a casa da Quinta dos Lilases, dando-lhe um carácter de mansão colonial e, em 1897, comprou a parte rústica da Quinta das Conchas, não sendo assim de estranhar que tenha mandado fazer um grande lago artificial,  com duas pequenas ilhas nas quais plantou palmeiras, em homenagem às ilhas de São Tomé e Príncipe.

Contudo, no século XX, a área desta Quinta foi mais utilizada pela então muito recente indústria cinematográfica, uma vez que  em 1920 foi nela fundada  a Caldevilla Film, que produziu por exemplo, Os Faroleiros e As Pupilas do Senhor Reitor e doze anos depois, em 1932, foi a vez da Tobis Portuguesa adquirir parte da Quinta para aí edificar os seus estúdios. Em 1966, os descendentes de Francisco Mantero transferiram para a Câmara Municipal de Lisboa a gestão da Quinta que recebeu obras de requalificação em 2005 que mereceram o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura desse ano.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua das Pedras Alvas ou das Pedralvas

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua das Pedralvas guarda a memória da Quinta das Pedralvas, que por seu lado retira o nome do Sítio das Pedralvas, topónimo que parece nascer da junção de pedras alvas numa única palavra e por isso, uma lembrança de património geológico de Lisboa, sendo certo que os topónimos derivados de «pedra» são bastante frequentes na Galiza e em Portugal.

O lugar das Pedralvas está referenciado em Benfica desde o século XVIII. A construção do Aqueduto das Águas Livres provocou em Lisboa um constante  aumento demográfico e Benfica viu nascer novos lugares como Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Alfarrobeira, Bom Nome, Borel, Buraca, Calhau, Correia, Estrada da Luz,  Feiteira, Mira, Penedo, Porcalhota, Presa, Salgado, Venda Nova e Pedralvas. Em dezembro de 1887, o sítio das Pedralvas tal como a Estrada de Benfica, a Estrada da Luz, a Estrada de Carnide e a Estrada de Alfarrobeira, foram repavimentados. No início do século XX, as Pedralvas tinha também um afamado retiro «fora de portas» onde se cantava fado.

Por escritura de 18 de março de 1950, a edilidade comprou a Quinta das Pedralvas a Bernardino José Borges e durante dez anos, de 1963 a 1973, nesse espaço do Sítio das Pedralvas foi construído o Bairro da Quinta das Pedralvas, ao abrigo do Programa PER (Programa Especial de Realojamento), tendo sido contratados pela edilidade para esse efeito os empreiteiros José Matias, António da Silva, SOTEPREL – Sociedade Técnica de Projectos e Empreitadas Lda., Socite – Sociedade Técnica de Construções e Empreitadas Lda., José Ribeiro, João Cândido da Silva Júnior, Francisco Filipe Coelho e António Augusto Freire.

Em 1967, por Edital municipal de 14 de junho foram atribuídos topónimos a dois dos seus arruamentos, cabendo à Rua A da Quinta das Pedralvas a denominação Rua das Pedralvas e à Rua B a designação Rua Almirante Campos Rodrigues.

Em 1978 a Rua das Pedralvas cresceu de tamanho por lhe ter sido acrescentada o arruamento que fazia a ligação desta Rua com a Rua E.

Em Portugal, as Pedralvas surgem também como topónimo de uma Rua e de uma Travessa em Almargem do Bispo (Sintra), asssim como da Horta das Pedralvas no Corval (em Reguengos de Monsaraz). No singular, o topónimo surge no sítio da Pedralva em Vila do Bispo, numa Rua e numa Travessa de Vila Nova de Paiva (Viseu), numa Escadaria da Nazaré, num Caminho de Afife (Viana do Castelo) e numa freguesia de Braga.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Cascalheira das pedreiras de calcário

Freguesia de Alcântara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Esta Rua da Cascalheira, que deve ter nascido em  Alcântara do século XIX e hoje encontramos a unir a Rua da Cruz a Alcântara à Travessa dos Surradores, revela o património geológico da zona com as suas pedreiras de calcário.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Este topónimo foi fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas que se deve situar no final do século XIX. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, aparece pela primeira vez mapeada uma Travessa da Cascalheira, sobre a qual encontramos nos anos de 1891 a 1893, documentos de expropriação de terrenos para o alargamento desta artéria. Ora como no documento de 11 de setembro de 1891 se refere mesmo «alargamento da Travessa da Cascalheira, próximo à Rua do Alvito e Travessa dos Surradores», fica-nos a certeza de que é este o mesmo arruamento que se passará a designar por Rua da Cascalheira.

O nome gerou-se por via das pedreiras de calcário cretácicos – a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa – que existiam no vale de Alcântara e que favoreceram a instalação de fornos de cal nesta zona, a partir do séc. XVIII. O Sítio da Cascalheira surge como topónimo num documento  de 6 de dezembro de 1890, «plantas com indicação de várias ruas particulares, integradas na viação pública por deliberação camarária»  e estendia-se até à atual freguesia de Campolide, na qual encontramos num roteiro de ruas de 1941 o Alto da Cascalheira, no fim da Rua do Garcia. Refira-se que esta Rua do Garcia teve mais tarde o seu topónimo acrescentado com «à Cascalheira» e na qual, desde 1934 estava sediado o Clube Atlético da Cascalheira, cuja qualidade na prática do futebol terá originado a frase «Não jogas nada! Vai mas é pró Cascalheira!»

 

As Ruas dos rios do Bairro Padre Cruz, em Carnide

A inauguração oficial do Bairro Padre Cruz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Inúmeros rios portugueses, ou partilhados com Espanha, estão ainda hoje presentes na toponímia da freguesia de Carnide, por via do Bairro Padre Cruz, desde a publicação municipal do Edital municipal de 8 de agosto de 1961.

Foi o Decreto nº 4137, de 25 de maio de 1918 que iniciou em Portugal a prática do Estado ter a incumbência de promover habitação social. A I República designou-os Bairros Sociais e o Estado Novo tornou-os Bairros de Casas Económicas. Ao longo do século XX, estes bairros foram construídos principalmente em zonas periféricas da cidade, na periferia do tecido urbano consolidado. A sua toponímia, maioritariamente numérica, contribuiu para solidificar a sua identidade de bairro social ao definir «fronteiras» interiores e exteriores: as primeiras criavam um sentimento de inclusão entre os seus habitantes mas as segundas, estigmatizavam-os  relativamente aos restantes lisboetas, fomentando uma lógica de exclusão.

Entre 1958 e 1960, a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu a Quinta da Pentieira ou do Alto da Pentieira, no extremo norte da freguesia de Carnide, para criar o Bairro Municipal Padre Cruz. Começou por ser um bairro de casas desmontáveis, conhecido como Bairro de Lusalite, para realojar algumas famílias oriundas do bairro da Quinta da Calçada e  atingidas pelas obras da Cidade Universitária, neste local que era considerado um bairro provisório até à construção das casas de alvenaria. Depois,  na primeira metade da década de 60, iniciou-se a construção do Bairro de Alvenaria para realojar os moradores que já moravam nas casas de lusalite e também para alojar funcionários da Câmara Municipal de Lisboa.

Neste caso, em vez de toponímia numérica que até aí era característica dos bairros sociais de Lisboa este Bairro Antigo, de ruas direitas e paralelas, recebeu nos seus 37 arruamentos antes nomes de rios, fixados pelo Edital municipal nº 150/61.

Conforme se pode ler na ata da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, de 24 de julho de 1961, este órgão consultivo propôs denominar os 37 arruamentos do «Bairro de Casas para Pobres em Carnide» com geotopónimos, concretamente com nomes de rios portugueses, como então se aprendiam a decorar na escola primária frente a um mapa de Portugal.

Seis anos depois, em 1967, foi colocado em frente à Igreja do Bairro Padre Cruz, um busto do Padre Cruz, da autoria do escultor Martins Correia, e procedeu-se à inauguração oficial do Bairro Municipal Padre Cruz, com a presença do então Presidente da Câmara, António Vitorino França Borges.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)