Sete Rios e Humberto Delgado

Palhavã e Sete Rios em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Sítio de Sete Rios, do antigo Termo de Lisboa, ganhou quatro anos após o 25 de Abril – em 1979 – uma Praça de homenagem a Humberto Delgado, o General Sem Medo assassinado pela PIDE em 1965, embora ainda hoje essa artéria seja conhecida como Largo ou Praça de Sete Rios, ou apenas Sete Rios, topónimo que foi reforçado na memória dos lisboetas de 1959 a 1995 pela estação de Metropolitano de Sete Rios.

Raúl Proença, no seu  volume inaugural do seu Guia de Portugal, publicado em novembro de 1924, escreve que «O lugar de Sete Rios surge então na confluência de duas estradas, uma para Oeste, chamada hoje rua de Campolide, que leva à estrada deste nome, e outra para Este, que constitui a travessa das Laranjeiras.» Refira-se que pelo menos até à década de quarenta do séc. XX o sítio de Sete Rios era ocupado  maioritariamente por quintas e terrenos de cultura.

A origem do topónimo pode estar relacionada com a presença de um braço da  Ribeira de Alcântara no local, misturado com o mágico número sete,  um número de perfeição, presente na toponímia galego-portuguesa em bicho de sete cabeças, no sete fôlegos do gato, nos sete ofícios, sete ventos, sete mares ou sete partidas do mundo, tanto mais que a maior quinta do sítio de Sete Rios se denominava Quinta dos Milagres. Esta Quinta ligava-se à Quinta das Furnas pela Azinhaga dos Milagres.

Certo é que no séc. XVIII já encontramos Sete Rios em diversos documentos municipais : num Aviso para que se consertem as calçadas que dão acesso a Nossa Senhora das Necessidades, à ponte de Alcântara e à de Sete Rios (1727); na petição de João do Outeiro, mestre calceteiro, que consertara a estrada que vai de Sete Rios para Belas, para que lhe paguem o que se encontra em falta (1743); num pedido de  Silvestre de Faria Lobo para ser autorizado a fazer o prolongamento de um muro na sua quinta em Sete Rios (1779).

No séc. XIX, em 1838 aparece já mencionada a Estrada de Sete Rios que vai para Campolide. Em 1904 foi em Sete Rios instalado o Jardim Zoológico de Lisboa, no antigo parque do Palácio Farrobo ou seja, em grande parte da Quinta das Laranjeiras e inaugurado em maio do ano seguinte. Em 1927 e 1928 foi delineado um plano de novos arruamentos no Casal de Sete Rios, que era da Casa Cadaval, entre a Estrada e a Travessa das Laranjeiras, Estrada de Benfica e Linha Férrea de Cintura que aprovado na sessão de Câmara de 1 de novembro de 1928. Vinte anos depois, a planta da cidade de 1948 assinala Sete Rios como um dos pontos de referência da cidade. Em  1959 foi inaugurada a estação do Metropolitano Sete Rios que só em 1995 seria remodelada e mudado o nome para Jardim Zoológico. Nos anos cinquenta foi elaborado um projeto de canalização da Ribeira de Alcântara, entre Campolide e a Travessa de São Domingos de Benfica, incluindo o braço de Sete Rios sendo em 1961 construído o Caneiro de Alcântara – Sete Rios, ano em que também foi tirado algum terreno ao Jardim Zoológico para a construção de uma praça em Sete Rios. Nessa praça foi instalada a partir de 1963 a central de camionagem de Sete Rios, e no ano seguinte a autarquia adjudicou a instalação de bocas de rega nas placas ajardinadas da Praça.

A Praça Marechal Humberto Delgado – Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas

Após o 25 de Abril de 1974 a Câmara recebeu diversas solicitações para que Humberto Delgado, morto há 9 anos atrás, fosse nome de rua e assim, Humberto da Silva Delgado (Torres Novas – Brogueira/05.05.1906 – 13.02.1965/Villanueva del Fresno -Espanha), que fora assassinado por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco, passou através do Edital municipal de Edital de 02/02/1979, após o parecer favorável do Estado-Maior General das Forças Armadas, a estar na Praça General Humberto Delgado, oficialmente  inaugurada em outubro desse ano. Mais tarde, em 1990, quando ocorreu a promoção póstuma de Humberto Delgado a Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional, no dia 5 de outubro, também o topónimo foi atualizado para Praça Marechal Humberto Delgado, através do Edital municipal de 13 de dezembro de 1990, ocorrendo a cerimónia de inauguração das novas placas toponímicas em 18 de janeiro do ano seguinte.

Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

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O Alto das Conchas e conchinhas miocénicas

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Alto das Conchas, em Marvila, artéria que liga a Calçada do Perdigão  à Azinhaga da Salgada, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas, topónimo que se fixou na memória do local por nele abundarem vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico lisboeta, ou seja, entre cerca de 20 e 7 milhões de anos atrás.

Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, local onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas.  No séc. XVIII é construída a casa de morada da Quinta das Conchas e sua ermida da invocação de Santo António com a data de 1763, tendo nas proximidades a Quinta do Perdigão do século anterior e de Manuel Sequeira Perdigão, um cavaleiro da Ordem de Cristo. E no séc. XIX, um documento municipal de 1899 regista o alinhamento da Calçada do Perdigão e a sua proximidade ao  Alto das Conchas, Quinta das Conchas e Quinta das Conchinhas.

Na planta de 1908 de Silva Pinto, para além do Alto das Conchas também surge uma Azinhaga das Conchas e uma Quinta das Conchas, sendo que a Azinhaga corresponde ao espaço que hoje designamos Alto das Conchas. Já na planta municipal de 1950 , o Alto das Conchas de 1908 passou a Quinta das Conchinhas e o que hoje designamos como Alto das Conchas era o Largo das Conchas, que assim surge desde 1971 nas plantas do Plano Diretor Municipal.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Do Desfiladeiro de pedra à Calçada de Carriche

Freguesias do Lumiar  e de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Desfiladeiro de Carriche, denominação já do tempo da ocupação romana, deu lugar à Calçada de Carriche, topónimo derivado de pedra qualquer que seja a sua origem e no século XX até mereceu honra de ser o título de um poema de António Gedeão, de 1958.

Esta passagem natural no Norte de Lisboa já se denominava Desfiladeiro de Carriche no tempo da ocupação romana da Península Ibérica, pelo menos desde o séc. III. Na ocupação muçulmana que se seguiu – nos séculos VIII a XII – o topónimo permaneceu e não se apagou. Sobre a sua origem etimológica há quem defenda que derivará do céltico carr, que quer dizer pedra, enquanto outros apontam que radicará no árabe qarix, que significa pedra miúda e cascalho. Em qualquer das opções, a pedra maior ou mais pequena do desfiladeiro original ficou para sempre na toponímia lisboeta.

Esta Calçada tem vestígios de ocupação humana pré-histórica, desde o Paleolítico. De 1852 a 1885, como as freguesias do Lumiar e da Ameixoeira, assim com as outras do Termo, integrava o concelho dos Olivais. Depois foi incorporada no território de Lisboa em 18 de julho de 1885, altura em que foi estabelecida uma nova estrada da circunvalação, que aproveitou parte da Estrada Militar desde Benfica ao Forte da Ameixoeira (edificado sobre um povoado Calcolítico), e demorou a ser construída de 1886 a 1900, com 3 postos fiscais (ou portas): o Vale do Forno, Alcoutins e Carriche. Na planta de Júlio Silva Pinto de 1906 estão referenciados a Calçada de Carriche, as Portas da Calçada de Carriche e o Posto de Carriche.

Hoje a Calçada de Carriche começa na Rua do Lumiar e termina no limite do concelho de Lisboa, no Senhor Roubado de Olival Basto, já do concelho de Odivelas.

Freguesias do Lumiar  e de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja, em Campo de Ourique, é um dos termos geológicos presentes na toponímia da cidade, relacionados com a existência de pedreiras de calcários cretácicos, a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa.

De igual forma, a toponímia de Lisboa comporta ainda a Rua da Cascalheira (Alcântara), a Rua da Pedreira do Fernandinho (Campolide), a Rua das Pedreiras (Belém), as Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira (Santa Maria Maior) e ainda, o Largo, a Rua e a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas, Arroios e Santo António).

Já Caneja é um termo de origem desconhecida mas poderia ter sido uma alcunha ou até um apelido da proprietária, sendo certo que caneja é o nome vulgar de um peixe semelhante ao cação, assim designado nomeadamente na Ericeira, embora caneja também denomine o rego entre dois compartimentos de uma salina.

Sobre a data da fixação do Beco da Pedreira da Caneja pode supor-se que seja do século XX.  Na planta de remodelação paroquial de 1780 como na de 1807 de Duarte Fava o topónimo não surgia e a zona apresentava apenas terrenos de cultivo, situação que continua em  1850, apenas acrescida de moinhos de vento nas imediações. O topónimo Beco da Pedreira da Caneja aparece apenas no séc. XX, no Guia das Ruas de Lisboa de 1941, da Tipografia Gonçalves, como um beco sem saída, tal como vemos na planta municipal de 1950 e ainda, no Roteiro actualizado da cidade de Lisboa, Algés, Amadora, Dafundo, Damaia, Moscavide, Pontinha e Venda Nova da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, de 1970/71.  Só em 1988, com a denominação de uma Rua Particular como Rua Bombeiro Catana Ramos, para homenagear este bombeiro vítima do incêndio do Chiado, o Beco da Pedreira da Caneja passou à dimensão que hoje lhe encontramos da Rua de Campo de Ourique à Rua Bombeiro Catana Ramos.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A seiscentista Rua Fresca aos Poiais de São Bento

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia da Misericórdia, a ligar a Rua de Caetano Palha à Rua de São Bento, está a seiscentista Rua Fresca, parecendo o topónimo advir das condições climatéricas próprias da artéria.

O olisipógrafo Gustavo Matos Sequeira apontou que a Rua Fresca dos nossos dias não deve ser a primitiva artéria seiscentista, « A rua Frêsca, citada na demarcação de 1632, não devia corresponder à actual. A própria orientação que se lhe marca – de perlongo para o norte até à quinta de Francisco Soares – dá a entender isso mesmo » e argumenta que «Quanto a mim tal designação correspondia à moderna rua de Caetano Palha e mais anteriormente à junção desta com a rua da Cruz dos Poiais, como o atestam as denominações de rua Fresca abaixo dos Poiais e rua Fresca que vai para os Poiais, citadas respectivamente em 1641 e 1644, nos Livros de Óbitos de Santa Catarina, e, ainda a circunstância de, desde 1630 a 1637, aparecer incluída na área das Mercês», acrescentando Luís Pastor de Macedo que  «O Sr. [ Gustavo]  Matos Sequeira tem razão. A rua de Caetano Palha foi a antiga Rua Fresca, como o demonstram as formas que em determinadas alturas serviram para designá-la – Rua Fresca do Poço dos Negros (1760) e Rua Fresca de Caetano Palha (1802) – e o facto de Manuel Palha Leitão, não sabemos se pai de Caetano Palha da Silva Leitão, mas decerto da sua família, ter morado na Travessa Fresca, onde faleceu em 1 de Maio de 1725.»

Pastor de Macedo adianta ainda que « O nome de Rua de Caetano Palha aparece pela primeira vez dois anos antes do terramoto [1753] , mas anteriormente a esta denominação, e juntamente com a de Rua Fresca, deu-se também a esta serventia o nome de Rua do Veloso, nome já usado em 1621.»

Nas descrições e plantas paroquiais após 1755 e 1780 a Rua Fresca surge na Freguesia de Santa Catarina. No século XIX, a planta do Duque de Wellington de 1812 coloca a Rua Fresca a unir a Rua de Caetano Palha à Rua da Flor da Murta ( que em 1859 será incluída na Rua de São Bento), tal como aparece ainda em 1856 na planta de Filipe Folque. Já em 1883 o levantamento topográfico de Francisco Goullard traça a Rua Fresca já como a encontramos hoje, a ligar a Rua de Caetano Palha à Rua dos Poiais de São Bento. Sabe-se ainda que em julho de 1892 a artéria teve obras no pavimento.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Rio que foi Seco

Freguesias de Ajuda e Alcântara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Largo do Rio Seco guarda a memória do rio que em tempos ali correu ladeado por dois grandes desfiladeiros, com o seu leito aberto pela força das águas ao longo do tempo, até ser aterrado para acabar com focos de infecção.

Localizado na confluência das Rua Dom João de Castro, Rua do Rio Seco, Rua Rui de Pina, Rua Silva Porto, Rua Aliança Operária e Rua Diogo Cão, está o Largo do Rio Seco que como a Rua e a Travessa do mesmo topónimo foram atribuídos pela deliberação camarária de 3 de agosto de 1911 e Edital de 7 de agosto, pouco depois do rio ter sido aterrado para arruamento.

Também a artéria que hoje conhecemos como Rua Dom João de Castro, fixada pelo mesmo Edital de 7 de agosto de 1911, foi até esta data a Estrada do Rio Seco que em 1890 era registada como Estrada dos Fornos de El-Rei ou Estrada dos Fornos de El-Rei no Rio Seco.

No espaço deste Largo do Rio Seco foi instalado em 1821 um chafariz. E 37 anos depois, na planta Filipe Folque de 1858, ainda podemos ver o  Rio Seco a correr entre a Calçada da Boa-Hora e o Tejo. E logo no início de 1887 encontramos os planos e orçamentos da canalização regular do ribeiro do Rio Seco para debelar os focos de infecção, sendo que em 1909 é já uma arruamento como mostra a planta de Júlio Silva Pinto e Alberto Sá Correia.

Freguesias de Ajuda e Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Manutenção da Rua Direita de Marvila em 1916

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A edilidade lisboeta por deliberação camarária de 17 de agosto de 1916, publicou um edital em 21 de agosto para dar a saber que mantinha como topónimo a Rua Direita de Marvila, entre a Rua Zófimo Pedroso e a Rua Pereira Henriques, no que constituía a oficialização de uma denominação antiga.

Esta situação decorreu de uma proposta do vereador Magalhães Peixoto redigida nos seguintes termos: «Tendo a Camara deliberado, em suas sessões de 18 de Maio e 1 de Junho de 1889, alterar os nomes de diversas ruas e entre elas, a Rua Direita de Marvila, que passou a designar se Rua de Marvila e mantendo esta, ainda hoje, aquela nomenclatura, conforme o letreiro ali existente, proponho que a rua compreendida entre as ruas Zofimo Pedroso e Pereira Henriques, passe a denominar-se Rua Direita de Marvila, ficando, nesta parte, revogada a deliberação acima citada.

Rua Direita era uma designação comum usada para a rua principal de um lugar. E antes de Lisboa se expandir como cidade para os lugares vizinhos já lá existiam as antigas Ruas Direitas, de que hoje ainda sobrevivem quatro – a Rua Direita da Ameixoeira, a Rua Direita ao Lumiar, a Rua Direita de Palma e a Rua Direita de Marvila – todas na coroa periférica da cidade o que deve ser a razão para ter sobrevivido até aos nossos dias. Na zona mais central de Lisboa as Ruas Direitas ficaram sem esse qualificativo ainda no séc. XIX, como a Rua Direita da Boavista, a Rua Direita de São Lázaro, a Rua Direita do Loreto, a Rua Direita do Salitre, a Rua Direita de São Paulo, a Rua Direita da Junqueira, a Rua Direita de São Sebastião da Pedreira, a Rua Direita da Esperança, a Rua Direita do Arsenal ou a Rua Direita das Escolas Gerais.

A Rua Direita de Marvila, então parte integrante da Freguesia do Beato António, já aparece como tal num documento municipal de 2 de novembro de 1891, um termo assinado por Joaquim dos Santos Junior, obrigando-se a não exigir maior indemnização do que o valor de 500 réis o m2, quando a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa resolver expropriar um seu terreno sito na rua Direita de Marvila, para alargamento da mesma.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

Combros de Lisboa

Calçada do Combro - Freguesia da Misericórdia (Foto: José Pascoal)

Calçada do Combro – Freguesia da Misericórdia
(Foto: José Pascoal)

Combro é sinónimo de cômoro e ambos significam pequena elevação isolada de terreno ou cumeada. Na toponímia de Lisboa ainda encontramos dois combros, um em calçada e outro numa travessa.

Quando o Bairro Alto começava a nascer nos idos do séc. XVI, a Calçada do Combro era parte da Estrada de Santos ou da Horta Navia. Gomes de Brito identifica-a como a calçada da «Bella Vista» referida por Cristóvão Rodrigues de Oliveira no seu Sumário de 1551. Mas no século seguinte, de acordo com o mesmo olisipógrafo e também segundo Norberto de Araújo, aparecia como «Calçada do Congro» em documentos camarários e até numa denúncia feita à Inquisição, ou ainda como «do Congo» por deturpação da lógica toponímica de cômoro, combro ou cumeada. Mais tarde, este arruamento aparece já como Calçada do Combro, nomeadamente numa postura municipal de 26 de maio de 1704, nas plantas das freguesias de Lisboa após o terramoto de 1755 e até num pedido de licença ao Supremo Senado municipal, de 7 de maio de 1792, de José António morador na Calçada do Combro, para vender água do Chafariz da Esperança.

Esta calçada tem no nº 38 o Palácio Marim-Olhão, dos Condes de Castro Marim e dos Marqueses de Olhão, construído no 2º quartel do séc. XVIII, onde mais tarde se instalou o Correio Geral (1801-1881), o jornal Revolução de Setembro (1849-1890), uma conservatória do Registo Civil (no início da República), a Confederação Geral do Trabalho, o jornal A Batalha e as Juventudes Monárquicas. Logo a seguir encontra-se o Palácio  seiscentista do desembargador André Valente de Carvalho que foi também vereador da CML e dá o seu nome a uma Travessa próxima. Ainda do mesmo lado e descendo, encontramos o Convento dos Paulistas ali nascido em 1647 e que após 1834 passou a Sociedade Promotora da Indústria e depois, sucessivamente, a quartel da Guarda Nacional de Lisboa, da Guarda Municipal e desde 1910, da Guarda Nacional Republicana.

E da Calçada do Combro, na freguesia da Misericórdia, vamos para a Estrela, ao encontro da Travessa do Combro, que liga a Rua dos Navegantes à Travessa dos Ferreiros à Lapa, artéria que de acordo com Luís Pastor de Macedo já aparece citada em 1758 mas com a categoria de rua. Na documentação municipal encontra-se ainda uma planta com indicação da venda de um terreno municipal a Guilherme de Oliveira Martins na Travessa do Combro nº 41, em 29 de janeiro de 1903.

 

Travessa do Combro em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Travessa do Combro em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua da Margem e o Largo Ocidental

Freguesia do Beato - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Beato – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Já no século XX, dois novos topónimos das décadas de quarenta e cinquenta, ainda usaram a localização geográfica para denominação toponímica, ambos em bairros sociais: o Largo Ocidental no Bairro do Caramão da Ajuda e a Rua da Margem do Novo Bairro do Grilo.

Rua da Margem, no Bairro Novo do Grilo, na freguesia do Beato, foi a denominação gerada pelo Edital municipal de 17/11/1954 para a Rua A do novo Bairro do Grilo, ficando na Rua B a Rua da Quinta da Aduela. A explicação da origem destes topónimos encontra-se na ata da reunião Comissão Municipal de Toponímia de 22 de outubro de 1954:
«Ofício nº 2724, da Repartição de Obras Municipais, datado de 27 de Agosto último, solicitando que sejam atribuídas denominações aos dois arruamentos do novo Bairro do Grilo (presentemente conhecidas por Ruas A e B). Depois de várias considerações acerca da toponímia do local, a Comissão emitiu o parecer de que a Rua A, que margina o referido bairro do lado da linha do Caminho de Ferro, se denomine: “Rua da Margem”, e que a rua B se denomine: “Rua da Quinta da Aduela” nome por que era conhecida a quinta onde foi construído aquele Bairro.»

Largo Ocidental, junto à Rua Preta Constança, no Bairro do Caramão, na freguesia da Ajuda, nasceu do Edital municipal de 02/04/1949, a marcar a sua posição mais ocidental na estrutura do Bairro. Os topónimos do Bairro do Caramão da Ajuda foram sugeridos pela Comissão Municipal de Toponímia, após uma visita ao local em 18/02/1949, sendo a todas as ruas atribuída uma designação numérica, como era habitual fazer nos bairros sociais, salvo este Largo Ocidental,  mais os Largos Pedro Teixeira, da Igreja e do Casal do Gil e ainda a Praça do Caramão. Mais tarde, em 1989, pelo Edital de 18 de dezembro, 10 das artérias numeradas passaram a ter toponímia que recuperou figuras populares e tradicionais da zona ocidental de Lisboa.

Largo Ocidental - Freguesia de Belém

Largo Ocidental – Freguesia da Ajuda

As Ruas Direitas

A Rua Direita da Ameixoeira em 1966 (Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Direita da Ameixoeira em 1966
(Foto: João H. Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Direita era uma designação comum usada para a rua principal de um lugar. E antes de Lisboa se expandir como cidade para os lugares vizinhos já lá existiam as antigas Ruas Direitas, de que hoje ainda sobrevivem quatro: a Rua Direita da Ameixoeira, a Rua Direita ao Lumiar, a Rua Direita de Palma e a Rua Direita de Marvila.

Já no séc. XV, um documento de 11 de setembro de 1420 elaborado pelo escrivão da Almotaçaria Pedro Anes, em nome de Gonçalo Vaz, informava que os almotaçés da cidade de Lisboa ordenavam a proibição de lançar águas sujas na Rua Direita, no caminho que vai desde o forno de Afonso Anes até à porta da Judiaria, assim como obrigavam os moradores da dita rua a mantê-la limpa, sob pena de pagamento de coimas.

Se consultarmos documentação municipal, como projetos de construção ou alteração de prédios, ainda no séc. XIX deparamos com o rasto de muitas ruas direitas: em 1838, a Rua Direita da Boavista; em 1845, a Rua Direita de São Lázaro, a Rua Direita do Loreto e a Rua Direita do Salitre; em 1846, a Rua Direita de São João dos Bem Casados (hoje, Rua Silva Carvalho); em 1847, a Rua Direita da Boa Morte (hoje, Rua do Possolo); em 1848, a Rua Direita de São Paulo; em 1851, a Rua Direita da Junqueira, a Rua Direita do Limoeiro e a Rua Direita de São Sebastião da Pedreira; em 1852, a Rua Direita da Esperança e em 1880, a Rua Direita de São Vicente.

Também a planta de Filipe Folque, produzida entre 1856 e 1858, indica ainda a Rua Direita do Arsenal, a Rua Direita das Escolas Gerais, a Rua Direita da Madre de Deus e a Rua Direita dos Quartéis.

Rua Direita ao Lumiar em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Direita ao Lumiar em 1961
(Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Depois, pelo Edital municipal de 22/08/1881, foi retirada a palavra «direita» às artérias que hoje conhecemos como Rua dos Anjos, Rua de Arroios,  Rua da Costa, Rua das Janela Verdes, Rua da Lapa, Rua das Necessidades, Rua do Sacramento a Alcântara, Rua de Santos-o-Velho. Seguiu-se o  Edital municipal de 08/06/1889 que procedeu de igual forma para firmar a Rua do Açúcar, a Rua de Alcântara, a Rua do Beato, a Rua de Belém, a Rua do Cruzeiro, a Rua da Graça, a Rua do Grilo, a Rua do Lumiar, a Rua de Pedrouços, a Calçada de São Vicente, a Rua do Vale Formoso, a Rua de Xabregas, bem como a Rua do Bom Sucesso (hoje, Rua Bartolomeu Dias)  e a já extinta Rua de Chelas.

Nas que ainda hoje constam das placas toponímicas de Lisboa surge na freguesia de Santa Clara  a Rua Direita da Ameixoeira, entre a Calçada do Poço e o Largo do Terreiro, e que assim era denominada vulgarmente até ser oficializada na toponímia da cidade pelo Edital municipal de 16/06/1928. A Rua Direita da Ameixoeira foi sendo a via de ligação ao Lumiar e a Lisboa.

Na freguesia do Lumiar encontramos a Rua Direita ao Lumiar, que  já existia no séc. XVI como Rua Direita e assim surge na Planta Topográfica de Lisboa de 1907, de Júlio Silva Pinto e Alberto de Sá Correia. Em 1944, a Comissão Municipal de Toponímia procedeu a um levantamento de todos os topónimos em uso na cidade e decidiu que este arruamento se passasse a denominar Rua Direita ao Paço do Lumiar. Em 1950, a Comissão propôs novamente um indicador de localização : Rua Direita do Lumiar.

A Rua Direita de Palma em 1967 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Direita de Palma em 1967
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Na freguesia de São Domingos de Benfica temos a Rua Direita de Palma, junto ao Caminho de Palma de Cima, surgindo o  sítio de Palma já em 1208, associado a uma transacção de compra e venda de vinhas que eram abundantes no local. Os traços rurais só se foram perdendo com a instalação de primeiras fábricas no sítio de Palma de que se destaca a Sociedade Cerâmica de Palma,  em 1931, que pertenceu à Cerâmica Viúva Lamego e deixou de laborar em 1991.

Finalmente, na freguesia de Marvila está a Rua Direita de Marvila, a ligar a Rua Zófimo Pedroso à Rua Pereira Henriques, oficializada pelo Edital municipal de 21/08/1916.

Rua Direita de Marvila em 1966 (Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)

Rua Direita de Marvila em 1966
(Foto: Augusto de Jesus Fernandes, Arquivo Municipal de Lisboa)