A Rua das Pedras Alvas ou das Pedralvas

Freguesia de Benfica
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

A Rua das Pedralvas guarda a memória da Quinta das Pedralvas, que por seu lado retira o nome do Sítio das Pedralvas, topónimo que parece nascer da junção de pedras alvas numa única palavra e por isso, uma lembrança de património geológico de Lisboa, sendo certo que os topónimos derivados de «pedra» são bastante frequentes na Galiza e em Portugal.

O lugar das Pedralvas está referenciado em Benfica desde o século XVIII. A construção do Aqueduto das Águas Livres provocou em Lisboa um constante  aumento demográfico e Benfica viu nascer novos lugares como Adeão de Baixo, Adeão de Cima, Alfarrobeira, Bom Nome, Borel, Buraca, Calhau, Correia, Estrada da Luz,  Feiteira, Mira, Penedo, Porcalhota, Presa, Salgado, Venda Nova e Pedralvas. Em dezembro de 1887, o sítio das Pedralvas tal como a Estrada de Benfica, a Estrada da Luz, a Estrada de Carnide e a Estrada de Alfarrobeira, foram repavimentados. No início do século XX, as Pedralvas tinha também um afamado retiro «fora de portas» onde se cantava fado.

Por escritura de 18 de março de 1950, a edilidade comprou a Quinta das Pedralvas a Bernardino José Borges e durante dez anos, de 1963 a 1973, nesse espaço do Sítio das Pedralvas foi construído o Bairro da Quinta das Pedralvas, ao abrigo do Programa PER (Programa Especial de Realojamento), tendo sido contratados pela edilidade para esse efeito os empreiteiros José Matias, António da Silva, SOTEPREL – Sociedade Técnica de Projectos e Empreitadas Lda., Socite – Sociedade Técnica de Construções e Empreitadas Lda., José Ribeiro, João Cândido da Silva Júnior, Francisco Filipe Coelho e António Augusto Freire.

Em 1967, por Edital municipal de 14 de junho foram atribuídos topónimos a dois dos seus arruamentos, cabendo à Rua A da Quinta das Pedralvas a denominação Rua das Pedralvas e à Rua B a designação Rua Almirante Campos Rodrigues.

Em 1978 a Rua das Pedralvas cresceu de tamanho por lhe ter sido acrescentada o arruamento que fazia a ligação desta Rua com a Rua E.

Em Portugal, as Pedralvas surgem também como topónimo de uma Rua e de uma Travessa em Almargem do Bispo (Sintra), asssim como da Horta das Pedralvas no Corval (em Reguengos de Monsaraz). No singular, o topónimo surge no sítio da Pedralva em Vila do Bispo, numa Rua e numa Travessa de Vila Nova de Paiva (Viseu), numa Escadaria da Nazaré, num Caminho de Afife (Viana do Castelo) e numa freguesia de Braga.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua da Cascalheira das pedreiras de calcário

Freguesia de Alcântara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Esta Rua da Cascalheira, que deve ter nascido em  Alcântara do século XIX e hoje encontramos a unir a Rua da Cruz a Alcântara à Travessa dos Surradores, revela o património geológico da zona com as suas pedreiras de calcário.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Este topónimo foi fixado na memória de Lisboa em data que se desconhece mas que se deve situar no final do século XIX. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa de Filipe Folque, de 1857, aparece pela primeira vez mapeada uma Travessa da Cascalheira, sobre a qual encontramos nos anos de 1891 a 1893, documentos de expropriação de terrenos para o alargamento desta artéria. Ora como no documento de 11 de setembro de 1891 se refere mesmo «alargamento da Travessa da Cascalheira, próximo à Rua do Alvito e Travessa dos Surradores», fica-nos a certeza de que é este o mesmo arruamento que se passará a designar por Rua da Cascalheira.

O nome gerou-se por via das pedreiras de calcário cretácicos – a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa – que existiam no vale de Alcântara e que favoreceram a instalação de fornos de cal nesta zona, a partir do séc. XVIII. O Sítio da Cascalheira surge como topónimo num documento  de 6 de dezembro de 1890, «plantas com indicação de várias ruas particulares, integradas na viação pública por deliberação camarária»  e estendia-se até à atual freguesia de Campolide, na qual encontramos num roteiro de ruas de 1941 o Alto da Cascalheira, no fim da Rua do Garcia. Refira-se que esta Rua do Garcia teve mais tarde o seu topónimo acrescentado com «à Cascalheira» e na qual, desde 1934 estava sediado o Clube Atlético da Cascalheira, cuja qualidade na prática do futebol terá originado a frase «Não jogas nada! Vai mas é pró Cascalheira!»

 

As Ruas dos rios do Bairro Padre Cruz, em Carnide

A inauguração oficial do Bairro Padre Cruz
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Inúmeros rios portugueses, ou partilhados com Espanha, estão ainda hoje presentes na toponímia da freguesia de Carnide, por via do Bairro Padre Cruz, desde a publicação municipal do Edital municipal de 8 de agosto de 1961.

Foi o Decreto nº 4137, de 25 de maio de 1918 que iniciou em Portugal a prática do Estado ter a incumbência de promover habitação social. A I República designou-os Bairros Sociais e o Estado Novo tornou-os Bairros de Casas Económicas. Ao longo do século XX, estes bairros foram construídos principalmente em zonas periféricas da cidade, na periferia do tecido urbano consolidado. A sua toponímia, maioritariamente numérica, contribuiu para solidificar a sua identidade de bairro social ao definir «fronteiras» interiores e exteriores: as primeiras criavam um sentimento de inclusão entre os seus habitantes mas as segundas, estigmatizavam-os  relativamente aos restantes lisboetas, fomentando uma lógica de exclusão.

Entre 1958 e 1960, a Câmara Municipal de Lisboa adquiriu a Quinta da Pentieira ou do Alto da Pentieira, no extremo norte da freguesia de Carnide, para criar o Bairro Municipal Padre Cruz. Começou por ser um bairro de casas desmontáveis, conhecido como Bairro de Lusalite, para realojar algumas famílias oriundas do bairro da Quinta da Calçada e  atingidas pelas obras da Cidade Universitária, neste local que era considerado um bairro provisório até à construção das casas de alvenaria. Depois,  na primeira metade da década de 60, iniciou-se a construção do Bairro de Alvenaria para realojar os moradores que já moravam nas casas de lusalite e também para alojar funcionários da Câmara Municipal de Lisboa.

Neste caso, em vez de toponímia numérica que até aí era característica dos bairros sociais de Lisboa este Bairro Antigo, de ruas direitas e paralelas, recebeu nos seus 37 arruamentos antes nomes de rios, fixados pelo Edital municipal nº 150/61.

Conforme se pode ler na ata da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa, de 24 de julho de 1961, este órgão consultivo propôs denominar os 37 arruamentos do «Bairro de Casas para Pobres em Carnide» com geotopónimos, concretamente com nomes de rios portugueses, como então se aprendiam a decorar na escola primária frente a um mapa de Portugal.

Seis anos depois, em 1967, foi colocado em frente à Igreja do Bairro Padre Cruz, um busto do Padre Cruz, da autoria do escultor Martins Correia, e procedeu-se à inauguração oficial do Bairro Municipal Padre Cruz, com a presença do então Presidente da Câmara, António Vitorino França Borges.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A Rua do Alviela a lembrar a Estação Elevatória dos Barbadinhos

Freguesia de São Vicente
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No dia seguinte à inauguração do Reservatório de Água dos Barbadinhos, abastecido pelo rio Alviela, a Câmara Municipal deliberou atribuir a Rua do Alviela junto à Calçada dos Barbadinhos, o que se concretizou dois dias depois através da publicação do Edital Municipal de 6 de outubro de 1880, assinado pelo presidente José Gregório Rosa Araújo e que refere claramente «(…) que a communicação ultimamente aberta entre a calçada dos Barbadinhos e o edificio da companhia das aguas, onde se acha o deposito das aguas do Alviella, seja denominada RUA DO ALVIELLA«.

Freguesia de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

No séc. XIX, o aumento demográfico na cidade de Lisboa com população que emigrou para a capital em busca de trabalho fez com a água do  Aqueduto das Águas Livres se tornasse insuficiente. Por isso, de  1871 e 1880, foi construído o aqueduto do Alviela, preparado para transportar água captada a 114 km a norte de Lisboa, originária das nascentes dos Olhos de Água do rio Alviela. No extinto Convento dos Barbadinhos Italianos foi instalado o Reservatório final da água transportada, que tomou o nome do mosteiro. Junto do Reservatório dos Barbadinhos foi construída uma estação elevatória a vapor, destinada a bombear água do aqueduto do Alviela para a cidade de Lisboa,  inaugurada no dia 3 de outubro de 1880. No dia seguinte, 4 de outubro, a edilidade lisboeta deliberou atribuir o topónimo Rua do Alviela e no dia 6, publicou o respetivo Edital.

Esta Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos funcionou entre 1880 e 1928. Em 2010, o edifício da estação elevatória a vapor foi classificado como CIP – Conjunto de Interesse Público e nele se preservam as antigas máquinas a vapor e bombas, testemunhos do património industrial. A Estação dos Barbadinhos hoje acolhe a exposição permanente do Museu da Água e o Arquivo Histórico da EPAL.

Para além deste Rua do Alviela na freguesia de São Vicente, existiu também uma Rua do Rio Alviela, na Freguesia de Carnide, atribuída como a toponímia das restantes artérias do antigo Bairro Padre Cruz pelo Edital municipal de 8 de agosto de 1961, na Rua 2 do Bairro Municipal Padre Cruz.  Em vez da tradicional toponímia numérica que se usava para distinguir os Bairros Sociais de Lisboa neste caso usou-se o nome dos rios portugueses. Desde o ano 2000 que este arruamento foi extinto por via das remodelações da zona.

A Rua da Boavista da Fábrica do Gás

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua da Boavista, abaixo do Monte de Belver ou Alto da Boavista, dotada de um bica para melhoras dos olhos, que hoje encontramos a unir a Rua de São Paulo ao Largo do Conde Barão, albergou entre 1847 e 1914 a Fábrica do Gás da Boavista.

Fábrica de Gás da Boavista foi inaugurada em 1847 e segundo Norberto de Araújo, ainda cerca de 1860 se encontrava de frente para a Praia da Boavista e os Boqueirões da Moeda e dos Ferreiros, tendo assim sucedido ao antigo Quartel da Brigada Real da Marinha o edifício da Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás, estando nos terrenos por detrás deste a primeira Fábrica de Gás, de Cláudio Adriano da Costa e do francês José Detry, que por privilégio concedido em 3 de maio de 1846 detinham o monopólio da produção e comercialização de gás. A  junção desta Fábrica do Gás com a Central Tejo, a partir de 1909, permitiu fornecer eletricidade a Lisboa e a toda a faixa costeira até ao Estoril.

O traçado de elevação da fachada da Fábrica do Gás na Rua da Boavista, aprovada pela CML em 16 de maio de 1850

Em 1887 foi fundada uma concorrente, a Companhia do Gás de Lisboa, com fábrica em Belém, junto à Torre, em terrenos cedidos pela CML e, em 1891, as duas companhias acabaram por se fundir. Em 1914, deu-se na Fábrica da Boavista uma formidável explosão que originou 19 mortos e um incêndio, tendo então o fabrico do gás passado, inteiramente, para o sítio do Bom Sucesso, na proximidade da Torre de Belém, tendo Norberto de Araújo adiantado mais tarde que «a fábrica deve estar instalada, no ano próximo, no ocidente da Cidade, na Quinta da Mantinha, ao Poço do Bispo (se a guerra, que rebentou em 3 de Setembro dêste ano de 1939, não vier impedir a realização do projecto).»

A Rua da Boavista já existia como topónimo antes do Terramoto de 1755 como o registam as memórias paroquiais de Lisboa.  Ao Alto de Santa Catarina com quem a Rua da Boavista se relaciona na toponímia semelhante, também se chamava Alto do Belver, ou Belveder ou Alto da Boavista. Contudo, o nome de Boavista está também especialmente relacionado com a Bica dos Olhos, a Bica de Duarte Belo, construída em 1675 e muito popular pela sua eficácia no tratamento de doenças dos olhos, tendo até um médico de D. João V referido a sua água como medicinal na sua obra  Aquilégio Medicinal de 1726. E assim, durante muito tempo, acorreram a esta bica muitas pessoas para lavar os olhos com o propósito de manter uma boa visão ou curar outros males dos olhos.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

Sete Rios e Humberto Delgado

Palhavã e Sete Rios em 1940
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Sítio de Sete Rios, do antigo Termo de Lisboa, ganhou quatro anos após o 25 de Abril – em 1979 – uma Praça de homenagem a Humberto Delgado, o General Sem Medo assassinado pela PIDE em 1965, embora ainda hoje essa artéria seja conhecida como Largo ou Praça de Sete Rios, ou apenas Sete Rios, topónimo que foi reforçado na memória dos lisboetas de 1959 a 1995 pela estação de Metropolitano de Sete Rios.

Raúl Proença, no seu  volume inaugural do seu Guia de Portugal, publicado em novembro de 1924, escreve que «O lugar de Sete Rios surge então na confluência de duas estradas, uma para Oeste, chamada hoje rua de Campolide, que leva à estrada deste nome, e outra para Este, que constitui a travessa das Laranjeiras.» Refira-se que pelo menos até à década de quarenta do séc. XX o sítio de Sete Rios era ocupado  maioritariamente por quintas e terrenos de cultura.

A origem do topónimo pode estar relacionada com a presença de um braço da  Ribeira de Alcântara no local, misturado com o mágico número sete,  um número de perfeição, presente na toponímia galego-portuguesa em bicho de sete cabeças, no sete fôlegos do gato, nos sete ofícios, sete ventos, sete mares ou sete partidas do mundo, tanto mais que a maior quinta do sítio de Sete Rios se denominava Quinta dos Milagres. Esta Quinta ligava-se à Quinta das Furnas pela Azinhaga dos Milagres.

Certo é que no séc. XVIII já encontramos Sete Rios em diversos documentos municipais : num Aviso para que se consertem as calçadas que dão acesso a Nossa Senhora das Necessidades, à ponte de Alcântara e à de Sete Rios (1727); na petição de João do Outeiro, mestre calceteiro, que consertara a estrada que vai de Sete Rios para Belas, para que lhe paguem o que se encontra em falta (1743); num pedido de  Silvestre de Faria Lobo para ser autorizado a fazer o prolongamento de um muro na sua quinta em Sete Rios (1779).

No séc. XIX, em 1838 aparece já mencionada a Estrada de Sete Rios que vai para Campolide. Em 1904 foi em Sete Rios instalado o Jardim Zoológico de Lisboa, no antigo parque do Palácio Farrobo ou seja, em grande parte da Quinta das Laranjeiras e inaugurado em maio do ano seguinte. Em 1927 e 1928 foi delineado um plano de novos arruamentos no Casal de Sete Rios, que era da Casa Cadaval, entre a Estrada e a Travessa das Laranjeiras, Estrada de Benfica e Linha Férrea de Cintura que aprovado na sessão de Câmara de 1 de novembro de 1928. Vinte anos depois, a planta da cidade de 1948 assinala Sete Rios como um dos pontos de referência da cidade. Em  1959 foi inaugurada a estação do Metropolitano Sete Rios que só em 1995 seria remodelada e mudado o nome para Jardim Zoológico. Nos anos cinquenta foi elaborado um projeto de canalização da Ribeira de Alcântara, entre Campolide e a Travessa de São Domingos de Benfica, incluindo o braço de Sete Rios sendo em 1961 construído o Caneiro de Alcântara – Sete Rios, ano em que também foi tirado algum terreno ao Jardim Zoológico para a construção de uma praça em Sete Rios. Nessa praça foi instalada a partir de 1963 a central de camionagem de Sete Rios, e no ano seguinte a autarquia adjudicou a instalação de bocas de rega nas placas ajardinadas da Praça.

A Praça Marechal Humberto Delgado – Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas

Após o 25 de Abril de 1974 a Câmara recebeu diversas solicitações para que Humberto Delgado, morto há 9 anos atrás, fosse nome de rua e assim, Humberto da Silva Delgado (Torres Novas – Brogueira/05.05.1906 – 13.02.1965/Villanueva del Fresno -Espanha), que fora assassinado por um comando da PIDE liderado por Rosa Casaco, passou através do Edital municipal de Edital de 02/02/1979, após o parecer favorável do Estado-Maior General das Forças Armadas, a estar na Praça General Humberto Delgado, oficialmente  inaugurada em outubro desse ano. Mais tarde, em 1990, quando ocorreu a promoção póstuma de Humberto Delgado a Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão Nacional, no dia 5 de outubro, também o topónimo foi atualizado para Praça Marechal Humberto Delgado, através do Edital municipal de 13 de dezembro de 1990, ocorrendo a cerimónia de inauguração das novas placas toponímicas em 18 de janeiro do ano seguinte.

Freguesias de São Domingos de Benfica, Campolide e Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Alto das Conchas e conchinhas miocénicas

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Alto das Conchas, em Marvila, artéria que liga a Calçada do Perdigão  à Azinhaga da Salgada, georrefencia a posição altaneira do lugar de Conchas, topónimo que se fixou na memória do local por nele abundarem vestígios fósseis de conchas de moluscos do Miocénico lisboeta, ou seja, entre cerca de 20 e 7 milhões de anos atrás.

Já em documentos do séc. XII aparece referido o sítio de Concha, local onde o Mosteiro de São Vicente de Fora e a Ordem do Templo tinham vinhas. E no séc. XIII são mencionados os lugares de Chelas e Conchas.  No séc. XVIII é construída a casa de morada da Quinta das Conchas e sua ermida da invocação de Santo António com a data de 1763, tendo nas proximidades a Quinta do Perdigão do século anterior e de Manuel Sequeira Perdigão, um cavaleiro da Ordem de Cristo. E no séc. XIX, um documento municipal de 1899 regista o alinhamento da Calçada do Perdigão e a sua proximidade ao  Alto das Conchas, Quinta das Conchas e Quinta das Conchinhas.

Na planta de 1908 de Silva Pinto, para além do Alto das Conchas também surge uma Azinhaga das Conchas e uma Quinta das Conchas, sendo que a Azinhaga corresponde ao espaço que hoje designamos Alto das Conchas. Já na planta municipal de 1950 , o Alto das Conchas de 1908 passou a Quinta das Conchinhas e o que hoje designamos como Alto das Conchas era o Largo das Conchas, que assim surge desde 1971 nas plantas do Plano Diretor Municipal.

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Do Desfiladeiro de pedra à Calçada de Carriche

Freguesias do Lumiar  e de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Desfiladeiro de Carriche, denominação já do tempo da ocupação romana, deu lugar à Calçada de Carriche, topónimo derivado de pedra qualquer que seja a sua origem e no século XX até mereceu honra de ser o título de um poema de António Gedeão, de 1958.

Esta passagem natural no Norte de Lisboa já se denominava Desfiladeiro de Carriche no tempo da ocupação romana da Península Ibérica, pelo menos desde o séc. III. Na ocupação muçulmana que se seguiu – nos séculos VIII a XII – o topónimo permaneceu e não se apagou. Sobre a sua origem etimológica há quem defenda que derivará do céltico carr, que quer dizer pedra, enquanto outros apontam que radicará no árabe qarix, que significa pedra miúda e cascalho. Em qualquer das opções, a pedra maior ou mais pequena do desfiladeiro original ficou para sempre na toponímia lisboeta.

Esta Calçada tem vestígios de ocupação humana pré-histórica, desde o Paleolítico. De 1852 a 1885, como as freguesias do Lumiar e da Ameixoeira, assim com as outras do Termo, integrava o concelho dos Olivais. Depois foi incorporada no território de Lisboa em 18 de julho de 1885, altura em que foi estabelecida uma nova estrada da circunvalação, que aproveitou parte da Estrada Militar desde Benfica ao Forte da Ameixoeira (edificado sobre um povoado Calcolítico), e demorou a ser construída de 1886 a 1900, com 3 postos fiscais (ou portas): o Vale do Forno, Alcoutins e Carriche. Na planta de Júlio Silva Pinto de 1906 estão referenciados a Calçada de Carriche, as Portas da Calçada de Carriche e o Posto de Carriche.

Hoje a Calçada de Carriche começa na Rua do Lumiar e termina no limite do concelho de Lisboa, no Senhor Roubado de Olival Basto, já do concelho de Odivelas.

Freguesias do Lumiar  e de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O Beco da Pedreira da Caneja, em Campo de Ourique, é um dos termos geológicos presentes na toponímia da cidade, relacionados com a existência de pedreiras de calcários cretácicos, a pedra ornamental mais usada na cidade de Lisboa.

De igual forma, a toponímia de Lisboa comporta ainda a Rua da Cascalheira (Alcântara), a Rua da Pedreira do Fernandinho (Campolide), a Rua das Pedreiras (Belém), as Escadinhas do Santo Espírito da Pedreira (Santa Maria Maior) e ainda, o Largo, a Rua e a Travessa de São Sebastião da Pedreira (Avenidas Novas, Arroios e Santo António).

Já Caneja é um termo de origem desconhecida mas poderia ter sido uma alcunha ou até um apelido da proprietária, sendo certo que caneja é o nome vulgar de um peixe semelhante ao cação, assim designado nomeadamente na Ericeira, embora caneja também denomine o rego entre dois compartimentos de uma salina.

Sobre a data da fixação do Beco da Pedreira da Caneja pode supor-se que seja do século XX.  Na planta de remodelação paroquial de 1780 como na de 1807 de Duarte Fava o topónimo não surgia e a zona apresentava apenas terrenos de cultivo, situação que continua em  1850, apenas acrescida de moinhos de vento nas imediações. O topónimo Beco da Pedreira da Caneja aparece apenas no séc. XX, no Guia das Ruas de Lisboa de 1941, da Tipografia Gonçalves, como um beco sem saída, tal como vemos na planta municipal de 1950 e ainda, no Roteiro actualizado da cidade de Lisboa, Algés, Amadora, Dafundo, Damaia, Moscavide, Pontinha e Venda Nova da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, de 1970/71.  Só em 1988, com a denominação de uma Rua Particular como Rua Bombeiro Catana Ramos, para homenagear este bombeiro vítima do incêndio do Chiado, o Beco da Pedreira da Caneja passou à dimensão que hoje lhe encontramos da Rua de Campo de Ourique à Rua Bombeiro Catana Ramos.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

A seiscentista Rua Fresca aos Poiais de São Bento

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Na freguesia da Misericórdia, a ligar a Rua de Caetano Palha à Rua de São Bento, está a seiscentista Rua Fresca, parecendo o topónimo advir das condições climatéricas próprias da artéria.

O olisipógrafo Gustavo Matos Sequeira apontou que a Rua Fresca dos nossos dias não deve ser a primitiva artéria seiscentista, « A rua Frêsca, citada na demarcação de 1632, não devia corresponder à actual. A própria orientação que se lhe marca – de perlongo para o norte até à quinta de Francisco Soares – dá a entender isso mesmo » e argumenta que «Quanto a mim tal designação correspondia à moderna rua de Caetano Palha e mais anteriormente à junção desta com a rua da Cruz dos Poiais, como o atestam as denominações de rua Fresca abaixo dos Poiais e rua Fresca que vai para os Poiais, citadas respectivamente em 1641 e 1644, nos Livros de Óbitos de Santa Catarina, e, ainda a circunstância de, desde 1630 a 1637, aparecer incluída na área das Mercês», acrescentando Luís Pastor de Macedo que  «O Sr. [ Gustavo]  Matos Sequeira tem razão. A rua de Caetano Palha foi a antiga Rua Fresca, como o demonstram as formas que em determinadas alturas serviram para designá-la – Rua Fresca do Poço dos Negros (1760) e Rua Fresca de Caetano Palha (1802) – e o facto de Manuel Palha Leitão, não sabemos se pai de Caetano Palha da Silva Leitão, mas decerto da sua família, ter morado na Travessa Fresca, onde faleceu em 1 de Maio de 1725.»

Pastor de Macedo adianta ainda que « O nome de Rua de Caetano Palha aparece pela primeira vez dois anos antes do terramoto [1753] , mas anteriormente a esta denominação, e juntamente com a de Rua Fresca, deu-se também a esta serventia o nome de Rua do Veloso, nome já usado em 1621.»

Nas descrições e plantas paroquiais após 1755 e 1780 a Rua Fresca surge na Freguesia de Santa Catarina. No século XIX, a planta do Duque de Wellington de 1812 coloca a Rua Fresca a unir a Rua de Caetano Palha à Rua da Flor da Murta ( que em 1859 será incluída na Rua de São Bento), tal como aparece ainda em 1856 na planta de Filipe Folque. Já em 1883 o levantamento topográfico de Francisco Goullard traça a Rua Fresca já como a encontramos hoje, a ligar a Rua de Caetano Palha à Rua dos Poiais de São Bento. Sabe-se ainda que em julho de 1892 a artéria teve obras no pavimento.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)