Jorge Luis Borges dá o seu nome ao Jardim do Arco do Cego

na Freguesia de Nª Srª de Fátima - na futura Freguesia das Avenidas Novas

Freguesia das Avenidas Novas                                                             (Foto: Artur Matos)

Jorge Luis Borges dá nome ao Jardim do Arco do Cego, situado entre a Avenida João Crisóstomo, Rua Dona Filipa de Vilhena e a Avenida Duque d’Ávila, desde 2009 (Edital de 16/09/2009) que – quando então passava o 110º aniversário deste escritor argentino- Lisboa acolheu neste espaço verde  um Memorial a Borges, da autoria de Federico Brook, doado pela Casa da América Latina, estendendo o seu nome a todo o espaço.

De seu nome completo, Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires/24.08.1899 – 14.06.1986/Genebra), o mais universal dos escritores argentinos, era oriundo de uma família portuguesa por parte do pai, com um bisavô oriundo de Torre de Moncorvo, como refere no seu poema “Os Borges”, para além de na sua obra salientar vivências e memórias dos seus antepassados lusos. Este escritor cujo primeiro livro foi de poesia e publicado em 1923 (Fervor de Buenos Aires), reclamava-se portador do modo português de sentir o universo e, em 1984 foi galardoado em Portugal com a Ordem de Santiago da Espada e, como Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra em reconhecimento pela sua obra, com títulos de que se destacam História Universal da Infâmia (1935), Ficções (1944), O Aleph (1949), Manual de zoologia fantástica em colaboração com Margarita Guerrero (1957) ou O relatório de Brodie (1970).

Não obstante a sua carga genética ter determinado a sua cegueira total a partir de 1956, Borges para além da sua prosa aparentemente despojada mas carregada de de fantástico e de fina ironia, foi também poeta, ensaísta, tradutor, crítico literário, professor universitário, presidente da Associação Argentina de Escritores e, diretor da Biblioteca Nacional da Argentina (1955 – 1973), tanto mais mais adequado ao autor do conto “Biblioteca de Babel” quanto ele afirmou que “Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca”.

Refira-se ainda que foi vencedor do primeiro prémio Formentor, instituído em 1961, ex-aequo com Samuel Beckett, e visitou Lisboa em 1929, bem como  em 1980, com a sua companheira inseparável, Maria Kodama.

Do conjunto de cerca de 8 dezenas de personalidades estrangeiras que integram a toponímia de Lisboa, Jorge Luis Borges é o único argentino.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

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O Príncipe dos Poetas Brasileiros numa Praça de Arroios

A Praça Olegário Mariano em 1964
(Foto: Artur João Goulart, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Olegário Mariano foi um topónimo sugerido à edilidade lisboeta pelo Diário de Notícias, na sua edição de 15 de dezembro de 1958, para homenagear o poeta brasileiro que vinte anos antes fora eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, igualmente conhecido como Poeta das Cigarras e como João da Avenida, enquanto cronista.

O Edital municipal de 4 de maio de 1959 colocou o topónimo na artéria até aí era identificada como Praceta da Rua Pascoal de Melo, cinco anos após o homenageado deixar de ser o embaixador do Brasil em Portugal.

Óleo sobre tela de 1928, por Candido Portinari, na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife/24.03.1889- 28.11.1958/Rio de Janeiro) foi um poeta, político e diplomata brasileiro que em 1938 foi eleito, num  concurso promovido pela revista Fon-Fon,  como Príncipe dos Poetas Brasileiros. Inicialmente parnasianista e simbolista, iniciou a sua vida literária aos 22 anos com Angelus, publicado em 1911. Depois, nos 23 livros seguintes adquiriu uma tendência intimista e ficou conhecido como o Poeta das Cigarras  por serem um de seus temas favoritos. Além da obra poética editada em livros a partir de 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), Olegário Mariano também publicou sob o pseudónimo de João da Avenida, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos,  crónicas mundanas em versos humorísticos que mais tarde foram reunidas em dois livros sob os títulos Ba-ta-clan (1924) e Vida, caixa de brinquedos (1937). Em 23 de dezembro de 1926 sucedeu a Mário de Alencar na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

Nascido no mesmo ano da Proclamação da República (1889), filho de Olegária Carneiro da Cunha e de José Mariano Carneiro da Cunha, ambos heróis pernambucanos da Abolição da Escravatura e da República, também Olegário Mariano se sentiu motivado pela política tendo sido deputado à Assembleia Constituinte de 1934 e em 1937 à Câmara dos Deputados.

A sua ligação a Portugal começou em 1940, como ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, seguida da sua nomeação como delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadémica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945 e finalmente, foi o embaixador do Brasil em Portugal nos anos de 1953 e 1954.

Na sua carreira desempenhou ainda as funções de inspetor do ensino secundário e censor de Teatro, de secretário de embaixada na Bolívia, de tabelião de  notas e oficial do 4.° Ofício de Registro de Imóveis do Rio de Janeiro.

E resta-nos deixar um poema do seu tema predileto:

Cigarra

Figurinha de outono!
Teu vulto é leve, é sensitivo,
Um misto de andorinha e bogari.
Num triste acento de abandono,
A tua voz lembra o motivo
De uma canção que um dia ouvi.

Quando te expões ao sol, o sol te impele
Para o rumor, para o bulício e tu, sorrindo,
Vibras como uma corda de guitarra…
É que o sol, quando queima a tua pele,
Dá-te o grande desejo boêmio e lindo
De ser flor, de ser pássaro ou cigarra

Cigarra cor de mel. Extraordinária!
Cigarra! Quem me dera
Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,
E tu, nessa alegria tumultuária,
Viesses pousar sobre o meu tronco
Ainda tonta do sol da primavera.

Terias glórias vegetais sendo vivente.
Mas um dia de lívidos palores,
Tu, cigarra, que vieste não sei donde,

Morrerias de fome lentamente
No teu leito de liquens e de flores
No aconchego sutil da minha fronde.

E eu, na dor de perder-te, no abandono,
Sem ter roubado dessa mocidade,
Do teu corpo de flor um perfume sequer,
Morreria de tédio e de saudade…
Figurinha de Outono!
Cigarra que o destino fez mulher!

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

 

A Rua do 1º Presidente da República Popular de Angola, Agostinho Neto

Freguesia do Lumiar
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC)

Agostinho Neto, o  1º Presidente da República Popular de Angola, está homenageado na Freguesia do Lumiar, no que era o arruamento B do Plano de Urbanização da Quinta do Lambert, como Rua Agostinho Neto, com a legenda «Político/1922 – 1979», desde a publicação do Edital municipal de 22 de abril de 1983, o mesmo que também colocou Amílcar Cabral na toponímia de Lisboa.

Refira-se que este artigo sobre este topónimo surge em representação dos vários membros de movimentos de libertação de países que foram colónias portuguesas que estão na toponímia de Lisboa, como acontece na Rua Amílcar Cabral e na Praça Eduardo Mondlane.

Associação de Amizade Portugal – República Popular de Angola solicitou a consagração de Agostinho Neto num arruamento de Lisboa e a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia entendeu, em 18/02/1982, que de entre os arruamentos por denominar nenhum existia que pudesse servir para o efeito. No ano seguinte, na  reunião de 19/04/1983, a  Comissão de Toponímia face à Moção dos vereadores da APU (Aliança Povo Unido)  aprovada em reunião camarária de 31/01/1983, propondo a atribuição do nome de Agostinho Neto a uma rua ou avenida de Lisboa,  sugeriu o arruamento que foi fixado pelo Edital de 22/04/1983.

República, 2 de maio de 1974

António Agostinho Neto (Angola – Kaxikane/17.09.1922 – 10.09.1979/Moscovo – Rússia),  filho do pastor metodista Agostinho Neto e da professora Maria da Silva Neto,  terminado o Liceu tornou-se funcionário dos serviços de saúde de Luanda até vir para Portugal onde estudou em Coimbra e se licenciou em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1958, tendo em ambas as cidades participado nas atividades culturais e políticas da Casa dos Estudantes do Império .

Cedo se embrenhou na política e foi por isso preso em 1952 e em 1955. Em 1951 era representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD – Juvenil (Movimento de Unidade Democrática – Juvenil). Em Lisboa, com Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro formou o Centro de Estudos Africanos (encerrado pelo Estado Novo em 1954) e com trabalhadores marítimos angolanos criou o Club Marítimo Africano. Em 1958, tomou parte na fundação do Movimento Anticolonialista (MAC), que congregava elementos das cinco colónias portuguesas – Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique, S. Tomé e Príncipe – para promoverem uma ação revolucionária conjunta.  Quando foi instituído MPLA – Movimento Popular para Libertação de Angola, em 10 de dezembro de 1956, Agostinho Neto estava preso em Lisboa mas veio a liderá-lo a partir de 1959, quando regressou a Luanda e abriu um consultório médico. Logo em junho do ano seguinte foi preso pela PIDE e encaminhado para a cadeia do Aljube em Lisboa, de onde foi deportado para o Tarrafal em Cabo Verde (então com o nome de Campo de Trabalho de Chão Bom) e, em julho, foi  eleito Presidente Honorário do MPLA. A 4 de fevereiro de 1961 é desencadeada a luta armada pelo MPLA e Agostinho Neto é transferido da  cidade da Praia para a prisão do Aljube, onde deu entrada a 17 de outubro de 1962, decorrendo em paralelo uma Campanha internacional em prol da sua libertação, com notícias nas revistas Présence Africaine ou Times. Também a Peguin Books editou Persecution 1961, de Peter Benenson, denunciado a situação de 9 prisioneiros políticos, onde se incluía Agostinho Neto. Saiu da prisão em março de 1963 mas obrigado a residência fixa  em Lisboa. Contudo, Agostinho Neto acabou por se evadir em junho, com a mulher e os dois filhos,  para Léopoldville (hoje, Kinshasa), onde o MPLA tinha a sua Sede Exterior e foi eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento. Ainda nesse ano o MPLA muda-se para Brazaville  (República do Congo), em consequência da sua expulsão do Zaire que passara a apoiar a FNLA. Cinco anos depois, em 1968, Agostinho Neto transfere-se com a sua família para Dar-es-Salaam (Tanzânia) onde permanecerá até 1975, regressando a Luanda no dia 4 de fevereiro de 1975, para em 11 de novembro de 1975 proclamar a independência Nacional, tendo sido nessa altura investido no cargo de 1º Presidente da República Popular de Angola, continuando Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, Presidente do MPLA e Reitor da Universidade, de 11 de novembro de 1975 a 10 de setembro de 1979.

Enquanto poeta, Agostinho Neto publicou Quatro Poemas de Agostinho Neto (1957, Póvoa do Varzim), Poemas (1961, Lisboa: Casa dos Estudantes do Império), Sagrada Esperança (1974,  Sá da Costa) e o póstumo A Renúncia Impossível (1982, Luanda: INALD ), tendo sido agraciado com o Prémio Lótus da Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos (1970) e o Prémio Nacional da Literatura da República Popular de Angola (1981). Nesta qualidade foi membro fundador da União dos Escritores Angolanos, criada em 10 de dezembro de 1975 e Presidente da sua Assembleia Geral até à data do seu falecimento.

Agostinho Neto foi ainda galardoado com a Medalha da Paz Frédéric Joliot-Curie do Conselho Mundial da Paz (1967) e com o Prémio Lenine para o fortalecimento da Paz entre os Povos (1977). Em Angola, a data do seu nascimento está consagrada como o Dia do Herói Nacional, a Universidade tem o seu nome desde 24 de janeiro de 1985 e existe ainda em Luanda uma Fundação com o seu nome.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Rua do sentimento dum poeta e comerciante ocidental do final do séc. XIX

Freguesia da Penha de França - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

Cesário Verde, autor do poema em 4 partes «O Sentimento dum Ocidental» e também comerciante no negócio familiar da Rua dos Fanqueiros, é topónimo da Penha de França desde o ano de 1933, quarenta e sete anos após o seu falecimento.

Foi pelo Edital municipal de 18 de julho de 1933 que Cesário Verde passou a dar o seu nome à Rua nº 2 do Olival do Monte Alperche à Penha de França, entre a Avenida General Roçadas e a Rua da Penha de França. O mesmo Edital colocou  nos restantes arruamentos o poeta alentejano Conde de Monsaraz (na Rua nº 1),  o estudioso de Camões Visconde de Juromenha (Rua nº 7), o Padre Sena de Freitas que foi o primeiro biógrafo de Camilo Castelo Castelo Branco (nº 8), os geólogos Carlos Ribeiro ( na Rua nº 3) e Nery Delgado (nº 6), bem como os arqueólogos  Estácio da Veiga (na nº 4) e Martins Sarmento (na nº 5).

Por Columbano, na 1ª edição do seu Livro

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa/25.02.1855 – 19.09.1886/Lisboa), nascido no dia de São Cesário no nº 16 da Rua da Padaria, na antiga Freguesia da Madalena, e falecido devido a tuberculose na Estrada do Paço do Lumiar , era filho do lavrador ( foreiro do Marquês de Pombal na zona de Caxias ) e comerciante ( da loja de ferragens e quinquilharias da Rua dos Fanqueiros n.ºs 2-8) José Anastácio Verde e de sua mulher Maria da Piedade David dos Santos.  Aos 18 anos de idade, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras mas apenas o frequentou alguns meses , embora aí tenha conhecido Silva Pinto,  que ficou sempre seu amigo, garantindo a publicação das suas poesias em diversos jornais, bem como a organização de uma compilação de poemas no ano seguinte à morte do poeta, publicada em 1887 com o título de O Livro de Cesário Verde.

Cesário Verde frequentava a tertúlia dos novos no Martinho dos escritores, no Largo do Camões (hoje, Praça D. João da Câmara), por detrás do teatro D. Maria II e ainda em vida publicou inúmeras poesias no Diário de Notícias, no Diário da Tarde, na Tribuna de Lisboa, A Folha Nova, O Porto, nos semanários A HarpaBranco e Negro e nas revistas O Ocidente e Renascença, bem como na coimbrã Mosaicos, em quantidade a dobrar do que se encontra no seu livro póstumo. Cesário retratou o campo mas também a cidade de Lisboa, partilhando as impressões das suas ruas e situações quotidianas, num realismo de imagens extremamente visuais.

Começou a  ter sintomas de tuberculose em 1877, uma doença então incurável, que já lhe vitimara o irmão e a irmã  e assim lhe serviu de inspiração para o poema «Nós» (1884).

De índole republicana, Cesário foi durante a I República homenageado em Lisboa, nos anos vinte, com  o Jardim Cesário Verde na Praça Ilha do Faial, na Freguesia de Arroios, a que em 1955 foi acrescentado um busto do poeta, da autoria de Maximiano Alves.

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Cecília e Dinah, duas escritoras brasileiras na toponímia de Lisboa

Rua Cecília Meireles – Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Cecília Meireles em 1964 e Dinah Silveira de Queiroz em 1984, são duas escritoras brasileiras que a partir dessas datas ficaram inscritas na toponímia de Lisboa, em São Domingos de Benfica e em Marvila.

A Rua Cecília Meireles nasceu do Edital de 28/12/1964 nas Ruas A e B à Travessa de São Domingos de Benfica, pouco mais de um mês após o seu falecimento, e a Rua Dinah Silveira de Queiroz foi através do Edital de 28/02/1984, na Rua L1 da Zona L de Chelas, quase 2 anos após a sua morte, em resultado de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 11 de julho de 1983.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro/07.11.1901 – 09.11.1964/Rio de Janeiro), neta de açorianos, foi uma professora, cronista e poetisa brasileira que iniciou a sua carreira literária com a publicação do livro de poesia Espectro (1919). A sua vasta produção literária de poesia, teatro, romance e ensaio, conta com títulos como por exemplo, Nunca mais… e Poema dos Poemas (1923); Baladas para El-Rei (1925); o ensaio O Espírito Vitorioso (1929); publica em Lisboa uma apologia do Simbolismo, a Saudação à menina de Portugal (1930), assim como o ensaio Batuque, Samba e Macumba (1935) com ilustrações de sua autoria; Viagem ( 1939) que lhe valeu o Prémio de Poesia Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras; Olhinhos de Gato, publicado em capítulos na revista Ocidente (1939-1940); uma biografia de Rui Barbosa para crianças Rui — Pequena História de uma Grande Vida (1949); Romanceiro da Inconfidência (1953) que foi adaptado para filme por Joaquim Pedro de Andrade com o título Os inconfidentes (1972); os ensaios Panorama Folclórico de Açores (1955), A Bíblia na Literatura Brasileira (1957) , Ou Isto ou Aquilo (1964) ou Solombra (1964) que foi Prémio Jabuti de Poesia.

Paralelamente, enquanto professora do magistério primário desde 1917, em escolas oficiais do antigo Distrito Federal do Rio de Janeiro, espelhou a sua vertente de pedagoga em crónicas sobre educação, como a página diária no Diário de Notícias em 1930 e 1931, ensaios sobre educação e obras para crianças. Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, no Bairro de Botafogo, no Centro Infantil que dirigia. Aposentou-se em 1951 como diretora de escola, trabalhando a partir de então como produtora e redatora de programas culturais, na Rádio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.

Foi ainda docente de Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literária, na Universidade do Distrito Federal (hoje UFRJ), de 1935 a 1938, assim como de Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas em 1940. Proferiu ainda conferências na Europa, Estados Unidos, África e Ásia sobre Literatura, Educação e Folclore e colaborou também, de 1936 a 1938, no jornal A Manhã e na revista Observador Econômico. 

Cecília Meireles recebeu as distinções de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Deli (1953) e Oficial da Ordem de Mérito do Chile (1952), para além do Prémio de Tradução/Teatro da Associação Paulista de Críticos de Arte (1962), do Prémio Jabuti de Tradução de Obra Literária da Câmara Brasileira do Livro (1963),  do Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra (1965),  e da sua efígie ser posta na nota de cem cruzados do  Banco Central do Brasil (1989).

O seu nome foi dado à Escola Municipal de Primeiro Grau do Bairro de Cangaíba em São Paulo (1963), à Escola Municipal de Educação Infantil, no Jardim Nove de Julho em São Paulo (1974), à Biblioteca de Valparaiso no Chile (1964), ao grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa no Rio de Janeiro (1965), à Biblioteca Infanto-Juvenil no Bairro Alto da Lapa de São Paulo (1991), assim como foi consagrada em artérias de Ponta Delgada, do Porto, Curitiba, Itajaí, Ilha Comprida, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Xinguara do Pará, entre outras.

Na sua vida pessoal, casou-se em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, mas 5 anos após o suicídio deste casou-se com o professor e engenheiro agrónomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

Dinah Silveira de Queiroz (São Paulo/09.11.1911 – 27.11.1982/Rio de Janeiro) foi uma escritora brasileira que abarcou diversos géneros, desde o romance, contos e crónicas, à literatura infantil. Escreveu Pecado (1937); a novela Sereia Verde (1938); Floradas na Serra (1939) que recebeu o Prémio Antônio de Alcântara Machado da Academia Paulista de Letras e foi transposto para o cinema em 1955; os romance Margarida La Roque (1950) e A Muralha (1954); a peça bíblica O oitavo dia (1956); os contos Eles herdarão a terra (1960); Os invasores (1964); A Princesa dos Escravos (1965); Verão do Infiéis (1965) distinguido com o prémio de ficção da Prefeitura do Distrito Federal; Comba Malina (1969); O Livro dos Transportes (1969) dedicado ao público infantil e Memorial de Cristo (1974-1977). Foi laureada em 1954, com o Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, pela Academia Brasileira de Letras.

Na sua vida pessoal casou-se em 1929 com o desembargador Narcélio de Queiroz, tendo enviuvado e em 1962, foi nomeada Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Madrid, casando novamente nesse mesmo ano com o embaixador Dario Castro Alves (1927-2010), com quem residiu em Lisboa durante largos anos, e nesta cidade escreveu o seu último livro Guida, caríssima Guida (1981).

Dinah Silveira de Queiroz ainda escreveu artigos e crónicas para a Rádio Nacional, a Rádio Ministério da Educação e Jornal do Commercio no Brasil, para além de um programa semanal na Rádio do Vaticano.

Foi a 2ª mulher membro da Academia Brasileira de Letras (1980), para além de ter integrado a Academia Paulista de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa, e ter sido distinguida com o seu nome em artérias do Balneário Camboriú, Campinas, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, entre outras.

Rua Dinah Silveira de Queiroz - Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Rua Dinah Silveira de Queiroz – Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

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Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

A Rua do poeta Gonçalves Crespo

Capa da revista Occidente, 21 de junho de 1883

Capa da revista Ocidente, 21 de junho de 1883

Junto à Rua do Conde de Redondo está desde 1902, através da publicação do Edital de 11 de dezembro, a Rua Gonçalves Crespo, que 19 anos após o seu falecimento perpetuou o poeta nascido no Brasil, filho de uma escrava mulata (Francisca Rosa da Conceição) e de um negociante português (António José Gonçalves Crespo), cujos poemas chegaram a ser reproduzidos em postais e leques, em Portugal e no Brasil, como o seguinte:

Amar e ser amado, que ventura!
Não amar, sendo amado, triste horror:
Mas na vida há uma noite mais escura,
É amar alguém que não nos tenha amor!

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro/11.03.1846 – 11.06.1883/Lisboa)  veio residir para Portugal a partir dos 10 anos de idade. Seguiu para Coimbra onde se formou em Direito e nessa cidade também se iniciou na literatura, como colaborador de A Folha, fundada em 1868 por João Penha, onde colheu a sua influência parnasiana. Foi o autor de Miniaturas (1870) e Nocturnos (1882), expressando-se em poemas com reminiscências da vida familiar e cenas do quotidiano. Quatorze anos após o seu falecimento, em 1897, foram também editadas as suas Obras Completas, que em 1942 tiveram reedição com honras de prefácio de Afrânio Peixoto e capa de Maria Helena Vieira da Silva.

Gonçalves Crespo foi ainda deputado pela Índia, nas legislaturas de 1879 e 1882, e trabalhou no Diário da Câmara dos Pares, assim como colaborou no Jornal do Comércio, Artes e Letras, Cenáculo e na revista Ocidente.

Ainda estudante, casou-se com Maria Amália Vaz de Carvalho em 1874, que conhecera por um diálogo literário mantido por correspondência. Em conjunto com ela escreveu Contos para os Nossos Filhos que publicaram em 1886. O casal viveu a partir de 1875 no nº 7 da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, onde Gonçalves Crespo faleceu vítima de tuberculose, e a Câmara Municipal de Lisboa colocou em outubro de 1934 uma lápide evocativa de ambos na fachada do prédio.

Como curiosidades, refira-se que a Sociedade Portuguesa de Autores tem sede na Rua Gonçalves Crespo e que existe uma artéria homónima da lisboeta no Bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

O centenário Bairro de Inglaterra nascido em 29 de agosto de 1916

O Bairro de Inglaterra (Planta: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra
(Planta: Sérgio Dias)

Há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, nasceu nas encostas nascentes do Monte Agudo e colinas da Penha de França o Bairro de Inglaterra, com topónimos todos relacionados com esse país, a saber: a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton (que esteve para ser Lord Byron) e a Rua Poeta Milton.

A Rua Cidade Cardiff (Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade Cardiff
(Foto: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra passou a ser a denominação do Bairro de Brás Simões, já que o proprietário desta urbanização e grande comerciante de Lisboa era José Brás Simões de Sousa, que em 13 de outubro de 1913 entregou os seus arruamentos particulares à Câmara Municipal de Lisboa. O antigo nome do bairro derivava do nome do seu proprietário e os topónimos das suas artérias homenageavam familiares do mesmo, como já acontecera no Bairro Andrade e era costume na época. O novo nome espelhou as alianças que Portugal firmou no contexto da I Grande Guerra: ao incluir modernas cidades inglesas na toponímia da capital portuguesa reforçava diplomaticamente a antiga aliança de Portugal com Inglaterra.

Rua Cidade de Liverpool (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Liverpool
(Foto: Sérgio Dias)

Recorde-se que em fevereiro de 1916 a Inglaterra, país aliado de Portugal desde o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre (em 1387), pediu ao nosso país que fizesse o apresamento de todos os navios alemães que estavam ancorados na costa portuguesa, e assim feito a Alemanha respondeu com uma declaração oficial de guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, não obstante os combates entre Portugal e a Alemanha já ocorrerem desde setembro de 1914, tanto na fronteira sul de Angola como na fronteira norte de Moçambique.

Rua Cidade de Manchester (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Manchester
(Foto: Sérgio Dias)

Foi neste contexto que cinco meses volvidos após a declaração de guerra, na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916, por proposta dos vereadores Santos Neto e Feliciano de Sousa, foi deliberado atribuir topónimos relacionados com Inglaterra.

A Rua Cidade de Cardiff tomou o lugar da Rua Maria Gouveia, fixando uma cidade portuária, como Liverpool ou Lisboa, que em 1916 detinha a maioria do trânsito de carvão no mundo.

A Rua Cidade de Liverpool era antes a Rua José de Sousa, trazendo a memória da cidade inglesa cujo porto prosperou graças à presença de inúmeros mercadores oriundos de Londres, após esta ter sofrido a  grande peste de 1664 e o grande incêndio de 1666.

Já a Rua Cidade de Manchester tinha sido a Rua Isabel Leal até este Edital de 1916 trazer para Lisboa esta cidade do Noroeste da Inglaterra, próspera desde a  Revolução Industrial já que nela se aplicou a máquina a vapor na indústria têxtil logo desde 1789, o que a tornou a segunda cidade inglesa ainda no séc. XIX.

Rua Newton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Newton
(Foto: Sérgio Dias)

À Rua Aurora foi dado o nome de Rua Lord Byron na proposta apresentada na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916. Mas na reunião da semana seguinte, a 24 de agosto, foi decidido mudar o topónimo para Rua Newton, já que conforme a Ata dessa reunião «Lord Byron, que sendo uma gloria de Inglaterra e um dos cantores das belezas de Cintra, e da propria capital do nosso paiz, tinha comtudo, devido ao seu temperamento, sido um poeta que agravara os portuguezes, como aliás havia procedido pela mesma forma para com os proprios inglezes. Por esse motivo a resolução da Comissão Executiva sofrera reparos por parte de alguns municipes e de um jornal importante da capital.» Assim, o Edital dos topónimos deste Bairro de Inglaterra só foi publicado a 29 de agosto, sendo a Rua Aurora desde aí designada Rua Newton, resultando assim que as duas personalidades inglesas escolhidas fossem uma da área das letras e outra da área das letras.

À Rua Margarida foi atribuído o topónimo Rua Poeta Milton, que além de ser poeta foi também um defensor da República Inglesa.

Passados 18 anos, em 1934, foram de novo pavimentadas a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Cardiff e a Rua Newton. O mesmo aconteceu com a Rua Poeta Milton, cuja obra foi adjudicada a Artur Fernandes Alves Ribeiro.

Rua Poeta Milton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Poeta Milton
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do poeta setecentista Domingos dos Reis Quita

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O cabeleireiro e poeta setecentista Domingos dos Reis Quita, que viria a ser uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana, foi perpetuado na Rua 8 do Bairro dos Aliados, na sua 2ª fase de colocação de topónimos neste Bairro, no ano de 1932.

Pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, haviam sido colocados no Bairro dos Aliados o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3, o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6, o magistrado José Acúrcio das Neves na Rua 7 e Domingos dos Reis Quita na Rua 5, onde desde 12 de junho de 1926 estava o mecenas republicano das Escolas Móveis, Casimiro Freire, pelo que houve necessidade de corrigir  a situação, o que aconteceu pela deliberação camarária de 7 de abril e Edital de 12 de abril de 1932 sendo o poeta recolocado na Rua 8, a ligar a Rua B entre a Rua Barão de Sabrosa e a Praça Elíptica projetada (depois, Rua Veríssimo Sarmento) à Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta Domingos dos Reis Quita (Lisboa/06.01.1728 –  26.08.1770/Lisboa) exerceu desde os 13 anos o seu ofício de cabeleireiro mas também se revelou um autodidata empenhado na literatura, tendo começado por recitar versos aos fregueses, até que  com o apoio dos seus amigos Correia Garção e Cruz e Silva, sob o nome pastoril de Alcino Micénio  se tornou uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana (fundada em 1756 em Lisboa)  e ganhou como mecenas o Conde de São Lourenço.

Da Arcádia Lusitana fizeram parte  Correia Garção (1724-1772), Cruz e Silva (1731-1799),  Francisco José Freire (1719-1773), a que se seguiu a Nova Arcádia com Bocage (1765-1805), Filinto Elísio (1734-1819), a Marquesa de Alorna (1750-1839) e Nicolau Tolentino (1740-1811).

Enquanto representante do bucolismo, Domingos dos Reis Quita além da profícua obra poética que publicou em 2 volumes em 1766 ( Obras Poéticas), ainda escreveu  o drama pastoril Licore e mais quatro tragédias:  Mégara, Hermíone, Astarto e a sua versão de A Castro.

Faleceu de tuberculose passando os seus últimos dias aos cuidados da filha de um amigo seu e aquela que havia amado e cantado em versos de um lirismo pungente, sob o pseudónimo de Tirceia, Teresa Teodora de Aloim, mulher que casada, viúva, e recasada, sempre protegeu e recolheu o poeta.

Deixamos um soneto de Domingos Reis Quita:

Ao longo de uma praia um triste dia,/Já quando a luz do sol se desmaiava,/O saudoso Alcino caminhava/Com seus cuidados só por companhia. 

Os olhos pelas águas estendia,/Porque alívio a seu mal nelas buscava,/E entre os tristes suspiros que exalava,/Em lágrimas banhado assim dizia:

Os suspiros, as lágrimas que choro/Levai, ondas, levai, ligeiro vento,/Para onde me levastes quem adoro.

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,/Que me torneis o bem, só vos imploro,/Que pusestes em longo afastamento.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)