Filinto Elísio

 

Filinto Elísio, pintado por António Nunes Júnior nos Paços do Concelho de Lisboa

O sacerdote Francisco Manuel do Nascimento que enquanto poeta neoclássico usou o pseudónimo de Filinto Elísio, é o topónimo de uma Rua da freguesia de Alcântara desde o final do séc. XIX.

A Rua Filinto Elísio nasceu na Rua nº 2 do Bairro Rolão pela deliberação camarária de 8 de julho de 1892, na presidência do Conde de Ottolini na edilidade lisboeta. E nessa mesma deliberação mais artérias do Bairro Rolão tiveram também topónimos de escritores atribuídos: João de Barros ficou na Rua n.º 1, Soares dos Passos na Rua n.º 4, Bocage nas Ruas n.º 7 e 8 (que é a Rua Amadeu de Sousa Cardoso desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 29/02/1988), Gil Vicente na Rua n.º 9, e o botânico Avelar Brotero ficou na Rua n.º 6 (que é a Rua Pedro Calmon desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 07/09/1987).

Na década de trinta do século XX a Rua Rua A, situada no prolongamento da Rua Filinto Elísio passou também a ser parte integrante da primeira, conforme Edital municipal em 20 de junho de 1938 e este arruamento dedicado ao poeta arcádico, com dimensão aumentada passou assim a ligar a Rua da Indústria à Rua Soares de Passos.

O homenageado Filinto Elísio é Francisco Manuel do Nascimento (Lisboa/23.12.1734 – 25.02.1819/Paris) de seu nome. Nasceu na freguesia de São Julião, como filho de um casal de Ílhavo, um fragateiro e uma peixeira, que sempre viveram com João Manuel, um Mestre das Fragatas Reais e depois, Patrão-mor da Ribeira das Naus, que Filinto sempre considerou seu pai.

Francisco Manuel do Nascimento tornou-se sacerdote ordenado em 1754 e o Filinto Elísio poeta arcádico. Quando Leonor de Almeida Portugal, a futura Marquesa de Alorna, estava presa no Mosteiro de São Félix, em Chelas, com a sua irmã Maria, antes da Viradeira, ele começou a ser visita do local e também como era moda na época começou a cortejar uma das reclusas, Maria, a quem deu o nome árcade Daphne e à sua irmã, Leonor, o de Alcípe. Leonor retribuiu-lhe esse gesto dando-lhe o nome de Filinto Elísio, para substituir o pseudónimo de Niceno que usara até então no círculo poético do Grupo da Ribeira das Naus.

Este poeta neoclássico compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras, tendo as suas poesias sido publicadas ainda em vida, em Paris, em 11 volumes, entre 1817 e 1819, mas só após a sua morte foram editadas em Lisboa as suas Obras Completas, num total de 22 tomos, entre 1836 e 1840, sendo a sua obra considerada precursora do Romantismo. Também os seus restos mortais foram transladados do Père Lachaise para o claustro da Sé de Lisboa em 1843, e mais tarde, para o cemitério do Alto de São João.

Refira-se que a partir de 1778 se refugiou em França, com Avelar Brotero, e foi lá que acabou por falecer, tendo nesses 41 anos conhecido o poeta Lamartine, que até lhe dedicou um poema. As suas ideias enciclopedistas e liberais levaram a que fosse denunciado à Inquisição em 22 de junho de 1778, por leituras heréticas proibidas e afirmações blasfemas, o que somado a uma forte amizade que o ligava a Félix da Silva de Avelar tornou-os a ambos suspeitos para o Santo Ofício, pelo que exilaram em Paris. E para sobreviver na capital francesa fez trabalhos de tradução: Os Mártires de Chateaubriand, As Fábulas de La Fontaine, Púnica de Sílio Itálico e o Elogio do Doutor António Nunes Ribeiro Sanches de M. Vicq-d’Azyr para português e verteu as Cartas de Mariana Alcoforado para francês como Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado. A ida para França de Filinto Elísio permitiu-lhe contactar com personalidades relevantes da cultura francesa o que foi decisivo para a obra e para a sua defesa dos ideais enciclopedistas e iluministas e, também, das revoluções francesa e americana.

Filinto Elísio está também como topónimo nos concelhos de Ílhavo, Almada, Barreiro, Caldas da Rainha, Gondomar, Odivelas, Oeiras, assim como Francisco Manuel do Nascimento surge em dois topónimos da Charneca da Caparica, no concelho de Almada.

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Poeta Bocage

Litogravura de Bocage
(Foto: José Leitão Bárcia © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa)

Manuel Maria Barbosa du Bocage, conhecido pelo seu espírito irónico e satírico, tem na sua relação com a toponímia de Lisboa também uma histórica algo jocosa que o fez migrar de Alcântara para a zona de Carnide-Lumiar.

Em 8 de julho de 1892 a Câmara Municipal de Lisboa deliberou na sua sessão de câmara a atribuição do topónimo Rua Bocage às Ruas nºs 7 e 8 do Bairro do Casal do Rolão. Na mesma deliberação e no mesmo bairro de Alcântara decidiram também fixar Gil Vicente (na Rua nº 9) e Filinto Elísio (Rua nº 2 ). Todavia, no final dos anos 80 supôs-se que a Rua Bocage e a Avenida Barbosa du Bocage, dedicada a um primo em segundo grau do poeta sadino, se referiam à mesma pessoa e resolveu-se eliminar do mapa alfacinha a Rua Bocage transformando-a pelo Edital de 29/02/1988 em Rua Amadeu de Sousa Cardoso.

E assim ficou Lisboa sem o seu Bocage mais de 8 anos, até o Edital de 24/09/1996 o recolocar no Impasse FG da Quinta dos Inglesinhos, à Avenida das Nações Unidas, desta feita para evitar equívocos e, por proposta de Appio Sottomayor na Comissão Municipal de Toponímia, como Rua Poeta Bocage/1765 – 1805.

Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal/15.09.1765 – 21.12.1805/Lisboa), «Magro, de olhos azuis, carão moreno», também conhecido como Elmano Sadino da Nova Arcádia (Academia literária fundada em 1790), viveu em Goa, Damão e Macau, até regressar a Lisboa em 1790, frequentar o Café Nicola no Rossio da cidade e, viver a partir de 1801 no n.º 25 da Travessa André Valente, ao Bairro Alto.

Bocage publicou apenas os três volumes das suas Rimas, de 1791 a 1804, embora os seus versos eróticos e burlescos tenham circulado abundantemente em edições clandestinas. As suas temáticas predominantes fixaram-se na desilusão amorosa e nas dificuldades materiais e pode Bocage ser considerado o maior poeta português do séc. XVIII.

Não é também menor a sua obra como tradutor, mesmo que menos conhecida. As suas versões de textos clássicos latinos, de autores como Virgílio e Ovídio, caracterizam-se por rigor e originalidade, o que também sucedeu nas suas traduções da língua francesa de escritores da época, como Voltaire, La Fontaine, Lesage, Florian, Lacroix, d’Arnaud, Delille e Castel.

Em 7 de agosto de 1797, o Intendente Pina Manique mandou-o prendê-lo por desrespeito ao rei e à Igreja, primeiro no Limoeiro (até 14 de novembro), depois nos calabouços da Inquisição no Rossio e a partir de 17 de fevereiro de 1798 no Real Hospício das Necessidades, a cargo dos Oratorianos, de onde só saiu em liberdade no último dia desse ano.

Autor unanimemente considerado como um vulto maior do arcadismo em Portugal, a produção literária de Bocage foi influenciada pelos ideais Iluministas, sobretudo de influência francesa, com os quais tomou contacto quando, com 18 anos, chegou a Lisboa. Integrou, assim, o Arcadismo, escola literária que reagiu aos excessos estilísticos e ao virtuosismo do barroco, trazendo novos temas (mais simples e acessíveis), redigidos numa linguagem mais clara e significativa, adequada ao público leitor a que se pretende dirigir, nomeadamente à burguesia urbana. Tal como em outros domínios, também a literatura foi permeável às “Luzes” e, influenciada pela razão, pela experiência e pelo espírito científico, contribuiu para perspectivar uma nova visão do mundo.

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José Anastácio da Cunha

José Anastácio da Cunha (Lisboa, 11/05/1744-Lisboa, 01/01/1787), foi militar, matemático e poeta. Fez a sua formação académica em Lisboa, no Convento de Nossa Senhora das Necessidades que pertencia à Congregação do Oratório, onde, até aos 19 anos, aprendeu Gramática, Retórica e Lógica, desenvolvendo como autodidata o seu gosto pela Física e Matemática.

A sua nomeação como Tenente do Regimento de Artilharia do Porto (1764) levou-o a desenvolver outras áreas de interesse, dedicando-se ao estudo da História, das Línguas (latim, grego, inglês, francês e italiano) e das Belas Artes, o que em parte ficou a dever-se ao seu convívio com oficiais protestantes ingleses. Cruzando os seus conhecimentos com a atividade militar, em 1769, redigiu a Carta Fisico-Mathematica sobre a Theoria da Polvora em geral e a determinação do melhor comprimento das peças em particular (editada em 1838, no Porto), na qual eram identificados erros em trabalhos anteriores sobre artilharia.

No âmbito da reforma da Universidade empreendida pelo Marquês de Pombal, em 1773, Anastácio da Cunha foi nomeado professor de geometria da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra, sendo-lhe concedido o título de doutor. Porém, cerca de cinco anos depois, com a subida ao trono de D. Maria I e com a alteração do contexto político que deu origem ao período conhecido como “Viradeira”, foi denunciado à Inquisição (1778), sendo acusado de ler autores que defendiam ideais iluministas (como Rousseau, Voltaire e Hobbes) e de exercer uma influência nefasta junto dos seus alunos através da apologia do racionalismo e da liberdade de consciência.

No final do processo, Anastácio da Cunha foi condenado a três anos de reclusão na Casa das Necessidades da Congregação do Oratório e a quatro anos de degredo em Évora, tendo sido afastado dos seus cargos universitários e confiscados os seus títulos e bens. Nos finais de 1780, foi aceite pela Inquisição o seu pedido de perdão. Porém, eram já muitas as dificuldades económicas, a par da sua perda de prestígio social. Neste difícil período da sua vida foi apoiado pelo Intendente Pina Manique que nomeou Anastácio da Cunha como professor de Matemática, na recém-criada Casa Pia (1781).

Anastácio da Cunha traduziu para português obras de autores como Voltaire, Pope, Rousseau e Holbach publicadas ainda durante a sua vida, mas as suas obras científicas e poéticas só foram editadas postumamente. Entre as primeiras, refiram-se: Principios mathematicos para instrucção dos alunos do Colegio de S. Lucas da Real Casa Pia do Castello de S. Jorge (terminada em 1786; publicada em 1790, em Lisboa), considerada a sua obra mais importante pela reformulação da Geometria de Euclides e que foi traduzida para francês (publicada em 1811, em Bordéus); e, Ensaio sobre os Principios de Mechanica que deu um contributo decisivo para o desenvolvimento das ciências físico-matemáticas (publicado em 1807, em Londres).

A sua obra poética, considerada como precursora do romantismo, só deu à estampa em 1839, por iniciativa de Inocêncio da Silva, com o título Composições poéticas do Doutor José Anastácio da Cunha, cujos exemplares foram depois apreendidos e apenas reeditados em 1930.

Foram necessários mais de dois séculos após a sua morte para que fosse reconhecida a importância e valor de José Anastácio da Cunha como matemático e como poeta que, partilhando os princípios da Europa das Luzes, defendia um ensino voltado para a experiência, aliando a teoria à prática e às demonstrações, aspetos que, entre os anteriormente referidos, o levariam a ser condenado pela Inquisição.

Em Lisboa, foram também necessários 202 anos após a sua morte, para que através do Edital municipal de 28 de dezembro de 1989 se tornasse o topónimo da Rua Dois do Bairro do Alto da Serafina, como Rua Anastácio da Cunha. No ano seguinte, num processo de remodelação da toponímia do Bairro da Serafina a pedido dos seus moradores, passou a Rua José Anastácio da Cunha, pelo Edital municipal de 14 de dezembro de 1990 e assim continua.

 

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A Praça de Luís de Camões de 1860

A Praça de Luís de Camões antes de 1893
(Foto: Francesco Rocchini, © CML | DPC | Arquivo Municipal de Lisboa )

A Praça de Luís de Camões nasceu por força do Edital do Governo Civil de Lisboa de 12 de outubro de 1860, no espaço formado pela demolição dos prédios e ruínas compreendidas entre o Largo das Duas Igrejas (hoje Largo do Chiado), Rua Larga de São Roque (hoje Rua da Misericórdia), Rua do Loreto, Travessa dos Gatos e Rua da Horta Seca, apontando esse Edital as seguintes razões da atribuição:

«Existindo o projecto de se erigir n’esta cidade um monumento á memoria de Luiz de Camões, que atteste o reconhecimento da nação ao cantor immortal dos feitos gloriosos dos portuguezes; e havendo a commissão central promotora da subscripção para esta obra patriotica, em requerimento que me dirigiu, manifestado o desejo de que ao largo já destinado para n’elle se elevar o projectado monumento se dê uma denominação indicativa de tão nobre objecto; accedendo a este louvavel pensamento, e depois de ouvir a Camara Municipal de Lisboa, que com elle se conformou; (…)»

De acordo com o olisipógrafo Norberto de Araújo, esta artéria foi ganhando a sua configuração entre 1859 e 1863, com a execução da terraplanagem, do empedrado e do erguer do monumento que nela foi inaugurado em 9 de outubro de 1867, da autoria do escultor Vítor Bastos. O modelo em gesso fora aprovado em 1860 por D. Pedro V e o lançamento da 1ª pedra ocorreu em 28 de junho de 1862. Mais tarde, no âmbito das comemorações do 3º Centenário da morte de Luís Vaz de Camões, a 10 de junho de 1880, foi na Praça de Luís de Camões que desfilou o grande cortejo cívico do Centenário do poeta.

Freguesia da Misericórdia

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José Régio e a Rua António Botto

Estudo de José Régio sobre a obra de António Botto, publicado em 1938

José Régio saudou a edição de Ciúme de António Botto em artigo publicado no Diário de Lisboa de 21 de julho de 1934 e quatro anos mais tarde publicaria um ensaio sobre este escritor intitulado António Botto e o Amor, significativamente dedicado a Fernando Pessoa que foi o primeiro a descobrir aquele poeta e a mostrar a sua originalidade poética.

Em Lisboa, António Botto só será fixado na toponímia da cidade 42 anos após o seu falecimento, por Edital de 29 de agosto de 1991, na Rua C da Urbanização do Alto do Chapeleiro, quando foram dados nomes aos arruamentos desta urbanização.

António Botto em O Domingo Ilustrado, 30 de agosto de 1925

António Tomás Botto (Abrantes/17.08.1897 – 16.03.1959/Rio de Janeiro) distinguiu-se como poeta, a partir da publicação de Canções, em 1921. Desde 1908 que António Botto vivia em Lisboa com a família, no bairro de Alfama, razão para um poema seu estar afixado junto à Fonte do Poeta na Rua da Judiaria, no qual se pode ler «esta fonte que fala na surdina de qualquer coisa que eu não sei ouvir».

Botto começou por trabalhar em algumas livrarias e desde os tempos da Orpheu que participava em tertúlias da capital onde Pessoa circulava e avançou para o mundo da literatura, com as coletâneas poéticas Trovas (1917), Cantigas de Saudade (1918), Cantares (1919), Canções do Sul (1920) embora seja Canções, de 1921, a sua obra mais polémica pelo carácter abertamente homossexual e que também o tornou mais conhecido, com várias edições revistas e acrescentadas pelo autor entre 1921 e 1932. Fernando Pessoa gostou desta obra e até publicou a 2ª edição na sua efémera editora Olisipo, para além de a ter traduzido para inglês em 1930.

Entretanto, Botto conseguiu trabalho como funcionário público e começou por ser colocado em Angola em 1924, para regressar no ano seguinte para exercer funções no Governo Civil de Lisboa, de onde transitará em 1937 para o Arquivo Geral de Registo Criminal e Policial, do qual será demitido, conforme o Diário do Governo de 9 de novembro de 1942, de acordo com um conceito de «falta de idoneidade moral». Contudo, entre 1923 e 1959, Botto publicou  13 livros de poesia como Motivos de Beleza (1923), Dandismo (1928), Ciúme (1934), Fátima – Poema do Mundo (1955) e Ainda Não se Escreveu (1959). Além da poesia, António Botto produziu também ficção, em obras como António (1933), Isto Sucedeu Assim (1940), Ele Que Diga se Eu Minto (1945),  assim como literatura infantil em Os Contos de António Botto (1942) e a peça de teatro Alfama (1933), a que acresce ter colaborado com Fernando Pessoa numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos.

Emigrou para o Brasil em agosto de 1947, com a sua mulher de sempre Carminda Silva, depois de realizar vários recitais de poesia em Lisboa e no Porto para angariar o dinheiro necessário para a viagem. Nesse país, sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais portugueses e brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia até que em 4 de março de 1959 foi atropelado por um automóvel do governo quando atravessava a Avenida Copacabana (no Rio de Janeiro), em consequência do qual acabou por falecer alguns dias mais tarde.

Na sua vida pessoal, apesar de assumido homossexual, Botto foi casado com Carminda Rodrigues até ao final da sua vida e escreveu « O casamento convém a todo o homem belo e decadente».

Em 29 de outubro de 1965 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa por via aérea, mas só em 11 de novembro de 1966 foram depositados no Cemitério do Alto de São João, cerimónia a que assistiram  José Régio, Ferreira de CastroDavid Mourão-Ferreira, Luís Amaro e Natália Correia, entre outros, encontrando-se no jazigo 1285.

Freguesia de Santa Clara

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O Fado Português de José Régio e o Jardim Amália Rodrigues

Manuscrito do « Fado Português» de José Régio
(Imagem: © CER)

 

O «Fado Português» de José Régio foi musicado por Alain Oulman para ser interpretado por Amália Rodrigues que em Lisboa dá nome a um Jardim nas Avenidas Novas, no topo do Parque Eduardo VII.

José Régio publicara esse poema no seu Fado, obra de 173 páginas editadas em Coimbra em 1941, com desenhos do seu irmão Júlio. Alain Oulman musicou esse poema de Régio para a voz de Amália e juntou outros poetas portugueses para criar aquilo que se veio a denominar novo fado, do que resultou o disco Fado Português da fadista, editado internacionalmente em junho de 1965 e em Portugal, apenas em 1970, pela Valentim de Carvalho.

Amália nascida em Lisboa no mês de julho, oficialmente no dia 23 embora ela festejasse mais o dia 1 como seu aniversário, logo sete dias após o seu falecimento recebeu uma deliberação de Câmara para que o seu nome designasse uma via de Lisboa, o que se concretizou com a publicação do Edital de 18 de abril de 2000, que atribuiu o topónimo Jardim Amália Rodrigues a um espaço de 5,7 ha da autoria do arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, que é parte integrante do Corredor Verde, que une o Parque Eduardo VII a Monsanto.

Em 1958
(Foto: Amadeu Ferrari, Arquivo Municipal de Lisboa)

De seu nome completo Amália da Piedade Rebordão Rodrigues (Lisboa/23.07.1920 – 06.10.1999/Lisboa), por muitos considerada a maior voz portuguesa pela interpretação única e invulgar, nasceu na Rua de Martim Vaz, em casa dos seus avós maternos. Aos seis anos mudou-se com os avós para Alcântara, bairro onde viveria até aos 19 anos.

Como cantora profissional estreou-se em 1939, no Retiro da Severa, para rapidamente virar cabeça de cartaz  no Café Luso, com um cachet de valor nunca antes pago a uma fadista. Como nome artístico começara por usar Amália Rebordão mas, por  sugestão de Filipe Pinto, diretor artístico do Solar da Alegria, mudou para Amália Rodrigues. A carismática Amália também ousará a singularidade de reinventar a  postura da fadista, à frente e não atrás dos guitarristas, a que ainda somou um inovador estilo de vestidos e xailes negros.

Entre os seus inúmeros êxitos musicais, para além do novo fado musicado por Oulman, no período de 1962 a 1975, onde cantou José Régio, podem também destacar-se  Ai, Mouraria,  Barco negro, Casa portuguesaEstranha forma de vida, Nem às paredes confesso, Foi DeusGostava de ser quem eraPovo que lavas no rio ou Vou dar de beber à dor.  Ela própria acabou por escrever as letras de alguns dos seus temas como é o caso de Gostava de ser quem era e, estes poemas foram editados pela Cotovia, em 1997, com o título Versos. Amália foi também considerada a maior embaixatriz de Portugal no mundo, por ter levado o nome de Portugal ao resto do mundo, dada a sua permanente e constante exibição pelos cinco continentes, ao longo da sua carreira. Data de  1943 a sua primeira vez no estrangeiro, em Madrid, a que se seguiram por ordem cronológica Brasil, Paris, Londres, Berlim, Roma, Dublin, Moscovo, Nova Iorque, e depois muitas outras cidades e países.

Amália Rodrigues foi ainda a voz de fados e canções de sucesso no teatro, de 1940 a 1947, tendo começado no palco do Teatro Maria Vitória. Passou também pelo cinema, a partir do  filme Capas Negras (estreado no cinema Condes a 16 de maio de 1947), a que se seguiram Fado – História de Uma Cantadeira (1947), Sol e Toiros (1949), Vendaval Maravilhoso (1949), Os Amantes do Tejo (1955), April in Portugal (1955), Sangue Toureiro (1958), Fado Corrido (1964), As Ilhas Encantadas (1965), Via Macau (1965) e ainda, curtas-metragens de Augusto Fraga.

A fadista foi agraciada com a Ordem de Santiago de Espada (Cavaleiro em 1958, Oficial em 1970 e  Grã-Cruz em 1990), a Grande Medalha de Prata da Cidade de Paris (1959), a Ordem do Infante D. Henrique (1980), a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (1980), o Grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras (1985), a Medalha de Ouro da Cidade do Porto (1986), a Legião de Honra francesa (1991),  uma homenagem pública num espetáculo na Expo’98 e, a 8 de julho de 2001, o seu corpo foi trasladado do Cemitério dos Prazeres para a Sala da Língua Portuguesa no Panteão Nacional.

Na toponímia portuguesa, o nome de Amália Rodrigues está presente em Abrantes, Alcabideche, Almada, Amadora, Arruda dos Vinhos, Beja, Bobadela, Braga, Bragança, Campo Maior, Carvoeiro-Lagoa, Cascais, Celorico de Basto, Celorico da Beira, Cuba, Entroncamento, Estoril, Fafe, Faro, Figueira da Foz, Fundão, Gaeiras, Gondomar, Ílhavo, Lagos, Leiria, Marco de Canaveses, Mem Martins, Mirandela, Moita, Montijo, Moura, Odemira, Odivelas, Olival Basto, Paço de Arcos, Palmela, Paredes, Pegões, Peniche, Queluz, Reguengos de Monsaraz, Salvaterra de Magos, Santa Iria de Azóia, São Domingos de Rana, Seixal, Setúbal, Sintra, Tavira, Trancoso, Unhos, Vendas Novas, Vila Franca de Xira, Vila Nova de Famalicão, Vila Nova de Poiares e Vizela.

Freguesia das Avenidas Novas

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Os correspondentes José Régio e Jorge de Sena na toponímia de Lisboa

Na Livraria Leitura, no Porto, (da esquerda para a direita) Eugénio de Andrade, José Régio e Jorge de Sena (Foto: © CER)

José Régio tinha mais 18 anos que Jorge de Sena (que na Presença assinava como Teles de Abreu) mas tal não impediu que os dois escritores tivessem trocado inúmera correspondência ao longo da vida de ambos, que foi reunida por Mécia de Sena e editada pela primeira vez em 1986, tal como ambos se encontram homenageados na toponímia de Lisboa através da Avenida José Régio e da Rua Jorge de Sena.

Cinco meses após o seu falecimento, Jorge de  Sena  foi colocado como topónimo da Rua A da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, na  Freguesia de Santa Clara, enquanto na Rua B ficava Vitorino Nemésio, ambos através de Edital municipal de 20 de novembro de 1978.

De seu nome completo Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Abreu de Sena (Lisboa/02.11.1919 – 04.06.1978/Santa Barbara – E.U.A.), que este ano cumpre o centenário de nascimento, foi um engenheiro de formação que se distinguiu com escritor e professor universitário, ensaísta e historiador da cultura, pelo que desde 2009 os seus restos mortais passaram a repousar em Lisboa, num jazigo do Cemitério dos Prazeres.

Em  março de 1938 era Jorge de Sena um Cadete da Escola Naval quando em foi demitido da Marinha por motivos políticos, tema que ele abordará em Sinais de fogo. Em 1944 concluiu a sua licenciatura em Engenharia Civil na Universidade do Porto e foi depois trabalhar para a Junta Autónoma de Estradas, de 1948 a 1959. Mas nesse mesmo ano de 1959, por causa da ditadura, partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal a não ser para participação em eventos. Fixou-se no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de março desse ano, em que esteve envolvido.

No Brasil, Jorge de Sena exerceu como engenheiro e professor de engenharia  em algumas universidades, mas em paralelo doutorou-se em Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (em São Paulo) em 1964, momento a partir do qual fez uma reconversão profissional e se dedicou ao ensino da literatura. Em 1965, partiu com Mécia de Sena e os nove filhos de ambos, para os Estados Unidos da América, por temor do golpe militar ocorrido no Brasil no ano anterior e aí foi docente na Universidade de Wisconsin, onde se tornou  professor catedrático em 1967, passando depois para a Universidade de Santa Barbara (1970), onde também exerceu funções do diretor do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada.

Na sua obra literária estreou-se em 1942  com Perseguição e construiu uma obra multifacetada que soma mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de 30 contos, uma novela e um romance, cerca de 40 volumes dedicados à crítica e ao ensaio – com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa-, à história e à teoria literária e cultural -com trabalhos pioneiros sobre o Maneirismo-, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer que traduziu duas antologias gerais de poesia, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX assim como autores de ficção como Faulkner, Hemingway, Graham Greene, teatro de Eugene O’Neill e ensaios de Chestov. Do conjunto da sua obra, destacamos os títulos As evidências (1955), Metamorfoses (1963), Peregrinatio ad loca infecta (1969), O Indesejado (1951), Novas andanças do demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), O físico prodigioso(1977) e Sinais de fogo (1979). O seu espólio foi doado pela família à Biblioteca Nacional em 2009.

Jorge de Sena foi ainda cofundador do grupo de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico Romance Policial, no Rádio Clube Português; conferencista; crítico de teatro e de literatura em diversos jornais e revistas; comentador de cinema; diretor de publicações como os Cadernos de Poesia e coordenador editorial da revista Mundo Literário; consultor literário da Livros do Brasil (em Lisboa) e da Editora Agir (no Rio de Janeiro).

 

Rua Jorge de Sena na Freguesia de Santa Clara

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Nascidos em 1901: Nemésio e Régio em ruas lisboetas

Freguesia de Santa Clara

Vitorino Nemésio e José Régio, que ao longo das suas vidas se vão corresponder, nasceram no mesmo ano de 1901 e partilharam também a participação em revistas comuns: Nemésio pontificou na Presença de Régio a partir de 1930 e Régio publicou na Revista Portugal  de Nemésio. Refira-se ainda que Vitorino Nemésio publicou no jornal académico Gente Nova, em abril de 1927, uma crítica favorável ao primeiro livro de José Régio, Poemas de Deus e do Diabo.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Ilha Terceira-Praia da Vitória/19.12.1901 – 20.02.1978/Lisboa), filho de Vitorino Gomes da Silva e de Maria da Glória Mendes Pinheiro, notabilizou-se como professor universitário da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, escritor e autor do famoso programa televisivo Se bem me lembro, estando desde o ano do seu falecimento na toponímia de Lisboa, através do Edital municipal de 20 de novembro de 1978, na Rua B da Quinta de Santa Clara à Ameixoeira, tendo ficado na Rua A o também escritor e professor universitário Jorge de Sena.

Na sua carreira académica, Vitorino Nemésio foi também diretor da Faculdade de Letras de Lisboa, de 1956 a 1958, bem como agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e do Ceará. Cumprido o serviço militar, como voluntário, a partir de 1919, concluiu o liceu em Coimbra, em 1921 e inscreveu-se no curso de Direito. Passados  três anos,  trocou pelo curso de Ciências Histórico-Filosóficas, e no ano seguinte voltou a mudar, desta feita para o curso de Filologia Românica, que concluiu em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde começou desde logo a ensinar Literatura Italiana e, mais tarde, Literatura Espanhola. Doutorou-se em 1934 com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Nemésio foi também professor na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1937 e 1939, assim como no Brasil, em 1958. Publicou diversos ensaios de que se salientam Sob os Signos de Agora (1932), Relações Francesas do Romantismo Português (1936) ou Conhecimento de Poesia (1958).

Na carreira literária, Nemésio tanto foi poeta como prosador de crónicas ou romances. Se o seu primeiro livro publicado, como Régio, foi de poesia –Canto Matinal (1916) -, ele é o autor de obras incontornáveis como o romance Mau Tempo no Canal (1944) –  galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros – ou as crónicas de Corsário das Ilhas (1956), para além da ficção Varanda de Pilatos (1926) ou Quatro prisões debaixo de armas (1971). Na poesia, destaquem-se as suas obras Eu, Comovido a Oeste (1940), Limite de idade (1972), Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas (1976) e o póstumo Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003).

Na comunicação social, Vitorino Nemésio construiu uma história longa: fundou e dirigiu as revistas  Estrela d’Alva (1916) e a Revista Portugal (1937); dirigiu o jornal O Dia (entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976); fundou a revista Tríptico (1924) com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, assim como a Gente Nova. Jornal Republicano Académico (1927) com Paulo Quintela, Cal Brandão e Sílvio Lima; foi redator de A Pátria, A Imprensa de Lisboa, Última Hora (1921), do Humanidade de Coimbra (1925); e ainda colaborou na revista Bizâncio (1923), na Seara Nova (1928), na Presença ( a partir de 1930), em O Diabo (1935), no Diário Popular (1946) com uma rubrica regular, na revista Vértice (1947) e na revista Observador (1971).

Na televisão ficou célebre pelo seu programa semanal Se bem me lembro, de meia hora em horário nobre, onde com uma postura descontraída, de 1970 a 1975, discorria sobre mentalidades e cultura em geral.

Vitorino Nemésio foi galardoado com o Grande Oficialato da Ordem da Infante D. Henrique (1961), o Prémio Nacional de Literatura (1965), o Prémio Montaigne (1974), a Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1967) de que também recebeu,  a título póstumo, a Grã-Cruz (1978).

Freguesia de Santa Clara

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A criação da Avenida Miguel Torga, que com Régio esteve na «Presença»

Freguesia de Campolide

Alunos da mesma Universidade de Coimbra, Régio e Torga foram elementos participativos da revista Presença, fundada nessa cidade em 1927 pelo primeiro, sendo ambos os poetas também topónimos de Avenidas lisboetas.

Em torno da Presença desenvolveu-se a segunda geração do Modernismo português, com a pretensão de prosseguir os ideais modernistas iniciados pela revista Orpheu, sem compromisso com correntes políticas ou religiosas e por uma arte livre e original. Aliás, se pegarmos em poemas emblemáticos de Pessoa, Régio e Miguel Torga –  «Lisbon Revisited» de Álvaro de Campos, «Cântico Negro» de José Régio  e «Livro de Horas» de Miguel Torga – podemos notar o tema comum do olhar relativo sobre a existência, da poesia que opõe a consciência individual à submissão coletiva, da reflexão sobre a condição humana quer pela negação dos sistemas predeterminados quer pela constatação da liberdade de escolha.

A Avenida Miguel Torga, com a legenda «Escritor/1907 – 1995», pelo Edital municipal de 19 de junho de 1995, consagrou no próprio ano do falecimento do escritor, na toponímia de Lisboa e na Freguesia de Campolide, Adolfo Correia da Rocha que escolheu Miguel Torga como pseudónimo, no ano de 1934, em homenagem a Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno a que uniu torga, uma planta da montanha que sobrevive com as usas raízes cravadas na rocha.

Adolfo Coelho da Rocha (São Martinho da Anta, Sabrosa, Trás-os-Montes/12.08.1907 – 17.01.1995/Coimbra), filho de Francisco Correia da Rocha e Maria da Conceição de Barros, que se fixou em Coimbra com consultório médico mas que ficou mais na memória dos portugueses pelos livros que escreveu, estudou na Faculdade de Medicina de Coimbra a partir de 1928, o mesmo ano em que publicou o seu primeiro livro, de poesia, Ansiedade. No ano seguinte, começou a colaborar na Presença, com o poema «Altitudes» mas em 1930 rompeu com a revista modernista e assumiu uma posição independente.  Em 1932, com Branquinho da Fonseca, funda a revista Sinal, e com Albano Nogueira, o periódico Manifesto, em 1936.

A sua vasta obra, de mais de cinquenta livros ao longo de seis décadas, inclui títulos de que se destacam na poesia como Rampa (1930), Abismo (1931), O Outro Livro de Job (1936), Cântico do Homem (1950),  Orfeu Rebelde (1958), Poemas Ibéricos (1965),e na ficção Pão Ázimo (1931), as colectâneas Bichos (1940), Contos da Montanha (1941), Novos Contos da Montanha (1944), o romance Vindima (1945), a  série de 5 volumes do romance autobiográfico A Criação do Mundo –  começada em 1937 – e os 16 volumes do seu Diário, cujo primeiro foi publicado em 1941, para além do teatro de Terra Firme (1941) e Mar (que acabou por refundir numa peça só) ou Sinfonia (1947) e O Paraíso (1949). Por isto, Miguel Torga foi agraciado, entre outros galardões, com o Prémio Diário de Notícias (1969), o Prémio Camões (1989) , o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1992) e várias vezes foi o indicado para Prémio Nobel da Literatura.

Em 1917, com dez anos, no Porto, servia de porteiro e moço de recados numa casa apalaçada mas foi despedido um ano passado por constante insubmissão e foi então enviado para o Seminário de Lamego, onde estudou português, latim, geografia e história. Em 1920, com treze anos, emigrou para o Brasil para trabalhar na fazenda do tio, em Minas Gerais, mas passados quatro anos o tio coloca-o a estudar no Ginásio Leopoldinense, onde se distingue. Depois, o  o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e a concluir os estudos liceais para vir a ser doutor em Coimbra, o que concretizou em 1933.

Como médico começou por exercer a profissão em terras transmontanas, em São Martinho da Anta, logo em 1933, para no ano seguinte se mudar para Vila Nova do concelho de Miranda do Corvo. Depois, já como otorrinolaringologista, vai estabelecer-se em Leiria, de 1939 a 1942, antes de se fixar em definitivo em Coimbra, com consultório no Largo da Portagem.

Na sua vida pessoal, casou-se com Andrée Crabbé em 27 de julho de 1940, que conhecera na casa de Vitorino Nemésio de Coimbra, de quem teve uma filha em 1955, Clara Rocha. Era  avesso à agitação e manteve-se sempre distante de movimentos políticos e literários, embora em 1979 tenha surgido a apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República.

O último poema de Torga publicado na Presença – Remendo – no nº 23, de dezembro de 1929                                                  (Imagem: © CER)

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Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro na tese de licenciatura de Régio e na toponímia de Lisboa

A Avenida Fernando Pessoa na Freguesia do Parque das Nações

José Régio licenciou-se em Filologia Românica,  na Faculdade de Letras de Coimbra, em 1925, com a tese intitulada As correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, o primeiro trabalho que faz a apologia dos poetas da revista Orpheu, sobretudo dos seus fundadores, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro que também se encontram na memória das ruas lisboetas, sendo a tese  regiana inovadora a ponto de nela apresentar Fernando Pessoa como nome cimeiro da poesia contemporânea, quando este autor ainda não possuía nenhuma edição em livro mas apenas poemas publicados em publicações periódicas.

Tanto Fernando Pessoa como Mário de Sá Carneiro passaram a ser nome de rua em Alvalade pelo mesmo Edital municipal de 19 de julho de 1948, junto com mais escritores nas restantes artérias do Bairro. Pessoa passou a ser também topónimo de uma Avenida do Parque das Nações no ano de 2009.

As Ruas Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro na Freguesia de Alvalade

Mário de Sá Carneiro planeou com Fernando Pessoa o lançamento da Orpheu, com financiamento «involuntário» do seu pai, como ele próprio dizia e, esta revista foi a base para o nascimento do primeiro grupo modernista português. Os poemas de Mário Sá Carneiro no nº 1 da Orpheu deram logo brado e viriam a constituir a obra Indícios de Ouro. Mário de Sá Carneiro (Lisboa/19.05.1890 – 26.04.1916/Paris), nascido no 1º andar do nº 93/95 da Rua da Conceição, foi um poeta e contista que apesar de matriculado em Direito – em Coimbra e em Paris, na Sorbonne-, sempre preferiu a literatura. Conheceu Fernando Pessoa em 1912 e nesse mesmo ano publicou pela 1ª vez , a peça Amizade (em colaboração com Tomás Cabreira Júnior, seu colega do Liceu Camões), bem como as novelas Princípio. Entre 1913 e 1914 vinha de Paris a Lisboa com uma certa regularidade e deu ainda a lume Memórias de Paris (1913),  A Confissão de Lúcio (1914), o volume de poesia Dispersão (1914) e  as novelas Céu em Fogo (1915).  Nas cartas que escreveu  de Paris a Pessoa manifestou uma crescente angústia e, em 1915, informou-o de que o seu pai já não dispunha do dinheiro de outrora e já não poderia «involuntariamente» financiar o nº 3 da Orpheu. Depois, a menos de um mês de completar 26 anos, suicidou-se com veneno, num hotel parisiense de Montmartre.

A Rua nº 11 do Sítio de Alvalade foi a primeira a receber o nome do poeta Fernando Pessoa mas como na realização da Expo 98 o nome de Fernando Pessoas também designou uma Avenida do evento, mais tarde, pelo Edital de 2 de setembro de 2009, a Câmara Municipal de Lisboa oficializou esta e mais outros 102 arruamentos do Parque das Nações cujos topónimos tinham a mesma génese.

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa/13.06.1888 – 30.11.1935/Lisboa), nascido no 4º andar direito do nº 4 do Largo de São Carlos, pode ser biografado brevemente como o poeta português dos heterónimos – Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e o semi-heterónimo Bernardo Soares – , que em vida foi galardoado com o Prémio Antero de Quental pela Mensagem (1934), o seu único livro publicado em vida. De 1903 a 1909, Pessoa escrevera poemas em inglês e em dezembro de 1904, publicou um ensaio literário sobre Macauly na revista da Durban High School. Em 1912, começou a colaborar com as revistas  A Águia e a Renascença Portuguesa, sendo nesta última que em 1913 publicou o seu primeiro poema em língua portuguesa, «Pauis», o qual marca o início do modernismo nas letras portuguesas. E depois, para além da revista Orpheu, também colaborou nas revistas Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926) e Atena (1924-1925). Fernando Pessoa deixou  inédita a maioria da sua obra literária, que tem vindo a ser editada paulatinamente desde 1942, uma vez que deixou de espólio mais de 25 mil folhas com texto, à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal.

A Rua Fernando Pessoa em 1955
(Foto: Claudino Madeira, Arquivo Municipal de Lisboa)

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