A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Cecília e Dinah, duas escritoras brasileiras na toponímia de Lisboa

Rua Cecília Meireles – Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

Cecília Meireles em 1964 e Dinah Silveira de Queiroz em 1984, são duas escritoras brasileiras que a partir dessas datas ficaram inscritas na toponímia de Lisboa, em São Domingos de Benfica e em Marvila.

A Rua Cecília Meireles nasceu do Edital de 28/12/1964 nas Ruas A e B à Travessa de São Domingos de Benfica, pouco mais de um mês após o seu falecimento, e a Rua Dinah Silveira de Queiroz foi através do Edital de 28/02/1984, na Rua L1 da Zona L de Chelas, quase 2 anos após a sua morte, em resultado de uma moção aprovada por unanimidade na reunião de Câmara de 11 de julho de 1983.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro/07.11.1901 – 09.11.1964/Rio de Janeiro), neta de açorianos, foi uma professora, cronista e poetisa brasileira que iniciou a sua carreira literária com a publicação do livro de poesia Espectro (1919). A sua vasta produção literária de poesia, teatro, romance e ensaio, conta com títulos como por exemplo, Nunca mais… e Poema dos Poemas (1923); Baladas para El-Rei (1925); o ensaio O Espírito Vitorioso (1929); publica em Lisboa uma apologia do Simbolismo, a Saudação à menina de Portugal (1930), assim como o ensaio Batuque, Samba e Macumba (1935) com ilustrações de sua autoria; Viagem ( 1939) que lhe valeu o Prémio de Poesia Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras; Olhinhos de Gato, publicado em capítulos na revista Ocidente (1939-1940); uma biografia de Rui Barbosa para crianças Rui — Pequena História de uma Grande Vida (1949); Romanceiro da Inconfidência (1953) que foi adaptado para filme por Joaquim Pedro de Andrade com o título Os inconfidentes (1972); os ensaios Panorama Folclórico de Açores (1955), A Bíblia na Literatura Brasileira (1957) , Ou Isto ou Aquilo (1964) ou Solombra (1964) que foi Prémio Jabuti de Poesia.

Paralelamente, enquanto professora do magistério primário desde 1917, em escolas oficiais do antigo Distrito Federal do Rio de Janeiro, espelhou a sua vertente de pedagoga em crónicas sobre educação, como a página diária no Diário de Notícias em 1930 e 1931, ensaios sobre educação e obras para crianças. Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, no Bairro de Botafogo, no Centro Infantil que dirigia. Aposentou-se em 1951 como diretora de escola, trabalhando a partir de então como produtora e redatora de programas culturais, na Rádio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.

Foi ainda docente de Literatura Luso-Brasileira e de Técnica e Crítica Literária, na Universidade do Distrito Federal (hoje UFRJ), de 1935 a 1938, assim como de Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas em 1940. Proferiu ainda conferências na Europa, Estados Unidos, África e Ásia sobre Literatura, Educação e Folclore e colaborou também, de 1936 a 1938, no jornal A Manhã e na revista Observador Econômico. 

Cecília Meireles recebeu as distinções de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Deli (1953) e Oficial da Ordem de Mérito do Chile (1952), para além do Prémio de Tradução/Teatro da Associação Paulista de Críticos de Arte (1962), do Prémio Jabuti de Tradução de Obra Literária da Câmara Brasileira do Livro (1963),  do Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra (1965),  e da sua efígie ser posta na nota de cem cruzados do  Banco Central do Brasil (1989).

O seu nome foi dado à Escola Municipal de Primeiro Grau do Bairro de Cangaíba em São Paulo (1963), à Escola Municipal de Educação Infantil, no Jardim Nove de Julho em São Paulo (1974), à Biblioteca de Valparaiso no Chile (1964), ao grande salão de concertos e conferências do Largo da Lapa no Rio de Janeiro (1965), à Biblioteca Infanto-Juvenil no Bairro Alto da Lapa de São Paulo (1991), assim como foi consagrada em artérias de Ponta Delgada, do Porto, Curitiba, Itajaí, Ilha Comprida, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Xinguara do Pará, entre outras.

Na sua vida pessoal, casou-se em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, mas 5 anos após o suicídio deste casou-se com o professor e engenheiro agrónomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

Dinah Silveira de Queiroz (São Paulo/09.11.1911 – 27.11.1982/Rio de Janeiro) foi uma escritora brasileira que abarcou diversos géneros, desde o romance, contos e crónicas, à literatura infantil. Escreveu Pecado (1937); a novela Sereia Verde (1938); Floradas na Serra (1939) que recebeu o Prémio Antônio de Alcântara Machado da Academia Paulista de Letras e foi transposto para o cinema em 1955; os romance Margarida La Roque (1950) e A Muralha (1954); a peça bíblica O oitavo dia (1956); os contos Eles herdarão a terra (1960); Os invasores (1964); A Princesa dos Escravos (1965); Verão do Infiéis (1965) distinguido com o prémio de ficção da Prefeitura do Distrito Federal; Comba Malina (1969); O Livro dos Transportes (1969) dedicado ao público infantil e Memorial de Cristo (1974-1977). Foi laureada em 1954, com o Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, pela Academia Brasileira de Letras.

Na sua vida pessoal casou-se em 1929 com o desembargador Narcélio de Queiroz, tendo enviuvado e em 1962, foi nomeada Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Madrid, casando novamente nesse mesmo ano com o embaixador Dario Castro Alves (1927-2010), com quem residiu em Lisboa durante largos anos, e nesta cidade escreveu o seu último livro Guida, caríssima Guida (1981).

Dinah Silveira de Queiroz ainda escreveu artigos e crónicas para a Rádio Nacional, a Rádio Ministério da Educação e Jornal do Commercio no Brasil, para além de um programa semanal na Rádio do Vaticano.

Foi a 2ª mulher membro da Academia Brasileira de Letras (1980), para além de ter integrado a Academia Paulista de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa, e ter sido distinguida com o seu nome em artérias do Balneário Camboriú, Campinas, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, entre outras.

Rua Dinah Silveira de Queiroz - Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Rua Dinah Silveira de Queiroz – Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid

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Rua Cervantes - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cervantes – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

A ligar a Avenida João XXI à Avenida de Madrid encontramos hoje a Rua Cervantes, atribuída em 1948, hoje paralela ao Autoparque Madrid, um topónimo de 2001.

A Rua Cervantes resultou da publicação do Edital municipal de 29 de julho de 1948, fixada no arruamento identificado então como Rua D2 da Zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a Linha Férrea de Cintura. Este Edital resultou da procura da edilidade lisboeta de imprimir algum cosmopolitismo à cidade, com doze topónimos, todos ligados a personalidades de cariz internacional ou a cidades europeias e brasileiras, onde couberam os nomes dos cientistas europeus Pasteur e Marconi, do inventor americano Edison, dos escritores Vítor Hugo (francês), Afrânio Peixoto e João do Rio (brasileiros), bem como Avenidas para Madrid, Paris e Rio de Janeiro, uma praça para Londres, para além da Avenida João XXI que homenageia o único Papa português.

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cervantes e o Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O castelhano Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares/29(?).09.1547 – 22 ou 23 (?).04.1616/Madrid) foi um romancista, dramaturgo, poeta, soldado e cobrador de impostos, autor do famoso D. Quixote de la Mancha, considerado o primeiro romance moderno, que teve licença de impressão em 26 de setembro de 1604 e alcançou um êxito enorme com 9 edições em 1605: duas em Madrid, três em Lisboa (sem o consentimento do autor) e duas em Valência.

Cervantes enquanto soldado, lutou em Itália (1569), combateu na Batalha de Lepanto (1571), nas Jornadas de Tunes e da Goleta (1573), foi feito cativo por corsários em Argel (1575 – 1580), onde conheceu Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa), de quem aliás narrou os amores em Trabajos de Pérsiles y Sesinanda (1616). Regressado a Espanha passou a ser cobrador de impostos e veio para Portugal em 1581 para conseguir entrar na corte de Filipe II de Espanha e I de Portugal, tendo ficado em Lisboa até 1583 e escrito  a ideia «Para festas Milão, para amores Lusitânia».

Em 2001, pelo Edital municipal de 3 de janeiro, o espaço compreendido entre a Avenida de Madrid, Rua Cervantes e Avenida João XXI passou a denominar-se Autoparque Madrid, referindo-se o topónimo à artéria onde se abre o Autoparque, uma nova categoria de via pública essencialmente destinada ao parqueamento automóvel cuja denominação corresponde sempre ao nome da artéria que lhe dá acesso.

Autoparque Madrid - Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Autoparque Madrid – Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

 

A Rua do poeta Gonçalves Crespo

Capa da revista Occidente, 21 de junho de 1883

Capa da revista Ocidente, 21 de junho de 1883

Junto à Rua do Conde de Redondo está desde 1902, através da publicação do Edital de 11 de dezembro, a Rua Gonçalves Crespo, que 19 anos após o seu falecimento perpetuou o poeta nascido no Brasil, filho de uma escrava mulata (Francisca Rosa da Conceição) e de um negociante português (António José Gonçalves Crespo), cujos poemas chegaram a ser reproduzidos em postais e leques, em Portugal e no Brasil, como o seguinte:

Amar e ser amado, que ventura!
Não amar, sendo amado, triste horror:
Mas na vida há uma noite mais escura,
É amar alguém que não nos tenha amor!

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro/11.03.1846 – 11.06.1883/Lisboa)  veio residir para Portugal a partir dos 10 anos de idade. Seguiu para Coimbra onde se formou em Direito e nessa cidade também se iniciou na literatura, como colaborador de A Folha, fundada em 1868 por João Penha, onde colheu a sua influência parnasiana. Foi o autor de Miniaturas (1870) e Nocturnos (1882), expressando-se em poemas com reminiscências da vida familiar e cenas do quotidiano. Quatorze anos após o seu falecimento, em 1897, foram também editadas as suas Obras Completas, que em 1942 tiveram reedição com honras de prefácio de Afrânio Peixoto e capa de Maria Helena Vieira da Silva.

Gonçalves Crespo foi ainda deputado pela Índia, nas legislaturas de 1879 e 1882, e trabalhou no Diário da Câmara dos Pares, assim como colaborou no Jornal do Comércio, Artes e Letras, Cenáculo e na revista Ocidente.

Ainda estudante, casou-se com Maria Amália Vaz de Carvalho em 1874, que conhecera por um diálogo literário mantido por correspondência. Em conjunto com ela escreveu Contos para os Nossos Filhos que publicaram em 1886. O casal viveu a partir de 1875 no nº 7 da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, onde Gonçalves Crespo faleceu vítima de tuberculose, e a Câmara Municipal de Lisboa colocou em outubro de 1934 uma lápide evocativa de ambos na fachada do prédio.

Como curiosidades, refira-se que a Sociedade Portuguesa de Autores tem sede na Rua Gonçalves Crespo e que existe uma artéria homónima da lisboeta no Bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

O centenário Bairro de Inglaterra nascido em 29 de agosto de 1916

O Bairro de Inglaterra (Planta: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra
(Planta: Sérgio Dias)

Há cem anos, pelo Edital municipal de 29 de agosto de 1916, nasceu nas encostas nascentes do Monte Agudo e colinas da Penha de França o Bairro de Inglaterra, com topónimos todos relacionados com esse país, a saber: a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Newton (que esteve para ser Lord Byron) e a Rua Poeta Milton.

A Rua Cidade Cardiff (Foto: Sérgio Dias)

A Rua Cidade Cardiff
(Foto: Sérgio Dias)

O Bairro de Inglaterra passou a ser a denominação do Bairro de Brás Simões, já que o proprietário desta urbanização e grande comerciante de Lisboa era José Brás Simões de Sousa, que em 13 de outubro de 1913 entregou os seus arruamentos particulares à Câmara Municipal de Lisboa. O antigo nome do bairro derivava do nome do seu proprietário e os topónimos das suas artérias homenageavam familiares do mesmo, como já acontecera no Bairro Andrade e era costume na época. O novo nome espelhou as alianças que Portugal firmou no contexto da I Grande Guerra: ao incluir modernas cidades inglesas na toponímia da capital portuguesa reforçava diplomaticamente a antiga aliança de Portugal com Inglaterra.

Rua Cidade de Liverpool (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Liverpool
(Foto: Sérgio Dias)

Recorde-se que em fevereiro de 1916 a Inglaterra, país aliado de Portugal desde o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre (em 1387), pediu ao nosso país que fizesse o apresamento de todos os navios alemães que estavam ancorados na costa portuguesa, e assim feito a Alemanha respondeu com uma declaração oficial de guerra a Portugal, em 9 de março de 1916, não obstante os combates entre Portugal e a Alemanha já ocorrerem desde setembro de 1914, tanto na fronteira sul de Angola como na fronteira norte de Moçambique.

Rua Cidade de Manchester (Foto: Sérgio Dias)

Rua Cidade de Manchester
(Foto: Sérgio Dias)

Foi neste contexto que cinco meses volvidos após a declaração de guerra, na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916, por proposta dos vereadores Santos Neto e Feliciano de Sousa, foi deliberado atribuir topónimos relacionados com Inglaterra.

A Rua Cidade de Cardiff tomou o lugar da Rua Maria Gouveia, fixando uma cidade portuária, como Liverpool ou Lisboa, que em 1916 detinha a maioria do trânsito de carvão no mundo.

A Rua Cidade de Liverpool era antes a Rua José de Sousa, trazendo a memória da cidade inglesa cujo porto prosperou graças à presença de inúmeros mercadores oriundos de Londres, após esta ter sofrido a  grande peste de 1664 e o grande incêndio de 1666.

Já a Rua Cidade de Manchester tinha sido a Rua Isabel Leal até este Edital de 1916 trazer para Lisboa esta cidade do Noroeste da Inglaterra, próspera desde a  Revolução Industrial já que nela se aplicou a máquina a vapor na indústria têxtil logo desde 1789, o que a tornou a segunda cidade inglesa ainda no séc. XIX.

Rua Newton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Newton
(Foto: Sérgio Dias)

À Rua Aurora foi dado o nome de Rua Lord Byron na proposta apresentada na reunião de Câmara de 17 de agosto de 1916. Mas na reunião da semana seguinte, a 24 de agosto, foi decidido mudar o topónimo para Rua Newton, já que conforme a Ata dessa reunião «Lord Byron, que sendo uma gloria de Inglaterra e um dos cantores das belezas de Cintra, e da propria capital do nosso paiz, tinha comtudo, devido ao seu temperamento, sido um poeta que agravara os portuguezes, como aliás havia procedido pela mesma forma para com os proprios inglezes. Por esse motivo a resolução da Comissão Executiva sofrera reparos por parte de alguns municipes e de um jornal importante da capital.» Assim, o Edital dos topónimos deste Bairro de Inglaterra só foi publicado a 29 de agosto, sendo a Rua Aurora desde aí designada Rua Newton, resultando assim que as duas personalidades inglesas escolhidas fossem uma da área das letras e outra da área das letras.

À Rua Margarida foi atribuído o topónimo Rua Poeta Milton, que além de ser poeta foi também um defensor da República Inglesa.

Passados 18 anos, em 1934, foram de novo pavimentadas a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Cardiff e a Rua Newton. O mesmo aconteceu com a Rua Poeta Milton, cuja obra foi adjudicada a Artur Fernandes Alves Ribeiro.

Rua Poeta Milton (Foto: Sérgio Dias)

Rua Poeta Milton
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua do poeta setecentista Domingos dos Reis Quita

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O cabeleireiro e poeta setecentista Domingos dos Reis Quita, que viria a ser uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana, foi perpetuado na Rua 8 do Bairro dos Aliados, na sua 2ª fase de colocação de topónimos neste Bairro, no ano de 1932.

Pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, haviam sido colocados no Bairro dos Aliados o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3, o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6, o magistrado José Acúrcio das Neves na Rua 7 e Domingos dos Reis Quita na Rua 5, onde desde 12 de junho de 1926 estava o mecenas republicano das Escolas Móveis, Casimiro Freire, pelo que houve necessidade de corrigir  a situação, o que aconteceu pela deliberação camarária de 7 de abril e Edital de 12 de abril de 1932 sendo o poeta recolocado na Rua 8, a ligar a Rua B entre a Rua Barão de Sabrosa e a Praça Elíptica projetada (depois, Rua Veríssimo Sarmento) à Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta Domingos dos Reis Quita (Lisboa/06.01.1728 –  26.08.1770/Lisboa) exerceu desde os 13 anos o seu ofício de cabeleireiro mas também se revelou um autodidata empenhado na literatura, tendo começado por recitar versos aos fregueses, até que  com o apoio dos seus amigos Correia Garção e Cruz e Silva, sob o nome pastoril de Alcino Micénio  se tornou uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana (fundada em 1756 em Lisboa)  e ganhou como mecenas o Conde de São Lourenço.

Da Arcádia Lusitana fizeram parte  Correia Garção (1724-1772), Cruz e Silva (1731-1799),  Francisco José Freire (1719-1773), a que se seguiu a Nova Arcádia com Bocage (1765-1805), Filinto Elísio (1734-1819), a Marquesa de Alorna (1750-1839) e Nicolau Tolentino (1740-1811).

Enquanto representante do bucolismo, Domingos dos Reis Quita além da profícua obra poética que publicou em 2 volumes em 1766 ( Obras Poéticas), ainda escreveu  o drama pastoril Licore e mais quatro tragédias:  Mégara, Hermíone, Astarto e a sua versão de A Castro.

Faleceu de tuberculose passando os seus últimos dias aos cuidados da filha de um amigo seu e aquela que havia amado e cantado em versos de um lirismo pungente, sob o pseudónimo de Tirceia, Teresa Teodora de Aloim, mulher que casada, viúva, e recasada, sempre protegeu e recolheu o poeta.

Deixamos um soneto de Domingos Reis Quita:

Ao longo de uma praia um triste dia,/Já quando a luz do sol se desmaiava,/O saudoso Alcino caminhava/Com seus cuidados só por companhia. 

Os olhos pelas águas estendia,/Porque alívio a seu mal nelas buscava,/E entre os tristes suspiros que exalava,/Em lágrimas banhado assim dizia:

Os suspiros, as lágrimas que choro/Levai, ondas, levai, ligeiro vento,/Para onde me levastes quem adoro.

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,/Que me torneis o bem, só vos imploro,/Que pusestes em longo afastamento.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Marcelino de Mesquita na 2ª fase do Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O médico, dramaturgo e jornalista Marcelino de Mesquita  foi perpetuado numa artéria do Bairro dos Aliados na sua 2ª fase de atribuição de topónimos, através do Edital municipal de 31 de março de 1932.

Marcelino de Mesquita ficou na Rua nº 6 do Bairro dos Aliados, a ligar a Rua Egas Moniz à Rua Barão de Sabrosa, e o mesmo Edital fixou o nome do jornalista e escritor Alberto Pimentel (Rua nº 3) e do diretor da Real Fábrica das Sedas José Acúrcio das Neves (Rua nº 7).

Já antes, por uma deliberação camarária de 1925 que nunca teve Edital, o Jardim das Amoreiras passou a designar-se Jardim Marcelino Mesquita, já que o homenageado vivera e falecera na Rua das Amoreiras.

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

O Branco e Negro, 18 de março de 1899

Marcelino António da Silva Mesquita (Cartaxo/01.09.1856 – 07.07.1919/Cartaxo) aos 15 anos morava num quarto na Rua da Rosa e estudou na Escola Académica, na Politécnica e tendo morado também num hotel do Largo de São Paulo acabou por se formar em Medicina em 1885 na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa mas apesar de ter publicado um livro de poemas intitulado Meridionais (1882) sempre dedicou particular atenção foi ao teatro, tendo começado com a comédia em cinco actos Pérola – Episódio da vida académica (1885), que  por ter a prostituição e  a boémia como tema provocou escândalo, a que se seguiram O Senhor Barão (1887) e  o drama histórico Leonor Teles (1889), que foi o seu primeiro êxito, e posteriormente transformou num romance histórico, sendo ainda de destacar A Noite do Calvário (1903) impedida pela comissão de censura de subir a palco, Margarida do Monte (1910) prefaciado por Teófilo Braga e os inúmeros êxitos de crítica e de público que conseguiu, quer em Portugal quer no Brasil.

Em 1886, ano do seu 1º casamento, fixou-se no Cartaxo onde exerceu clínica e comprou a tipografia Cartaxense e o jornal O Povo do Cartaxo, mudando-lhe o nome para O Cronista, vendendo tudo dois anos depois para vir residir em Lisboa, para a Rua das Amoreiras nº 198, e nesta cidade fundou e dirigiu o jornal satírico A Comédia Portuguesa (1888) e o diário Portugal (1891), bem como foi o diretor literário da Parodia: comedia portugueza (1903- 1907), que em 1903 se fundiu  com a A Paródia (1900-1902) de Rafael Bordalo Pinheiro, para além de ter colaborado em Ribaltas e Gambiarras, Jornal do Domingo, O Branco e Negro, A Imprensa, Serões, Revista do Conservatório Real de Lisboa e Revista de turismo.

Da sua participação política recorde-se que foi deputado do Partido Regenerador pelo Círculo da Guarda (1890 a 1892), participou no movimento do opositor ao Ultimatum de 1890, recusou a condecoração proposta pelo rei D. Carlos (1899) informando ser republicano, ministrou um curso de Ciências Naturais no Centro Escolar Republicano do Cartaxo (1907) e em em 1918, integrou  a embaixada de intelectuais enviada por Portugal ao Brasil.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do republicano poeta Milton de Paraíso Perdido

Freguesias de Arroios e Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua Poeta Milton, no Bairro de Inglaterra, nasceu há 100 anos na Rua Margarida do antigo Bairro Brás Simões –  referindo o nome do comerciante e proprietário daquelas terras e daquela urbanização -, pelo Edital de 29 de agosto de 1916, que também atribuiu a Rua Cidade de Cardiff, a Rua Cidade de Liverpool, a Rua Cidade de Manchester e a Rua Newton.

Sabe-se também as ruas Poeta Milton, dos Remédios, de São Gens, de Santiago, da Saudade, Barão de Sabrosa, Cavalheiro de Oliveira e Calçada da Graça foram de novo pavimentadas em 1934, graças a adjudicação da edilidade  a Artur Fernandes Alves Ribeiro em 24 de maio desse ano.

John Milton (Londres/09.12.1608 – 08.11.1674/Londres), poeta e defensor da República Inglesa é o inscrito nesta rua do Bairro de Inglaterra, paralela à Rua Newton, entre a Rua Cidade de Liverpool e a Rua Cidade de Manchester.

John Milton foi um poeta, polemista republicano, intelectual e funcionário público da Comunidade da Inglaterra sob Oliver Cromwell, servindo como ministro de línguas estrangeiras.  Licenciado pela Christ’s College da Universidade de Cambridge em 1629 e com mestrado de artes em 1632, escreveu panfletos de controversas teológicas (1639) mas 15 dias após a implantação da República publicou uma defesa do acto de execução de Carlos I e outros panfletos que lhe valeram a fama europeia de polemista (1649). Ainda em 1649, foi nomeado Secretário de línguas estrangeiras do Conselho de Estado e apesar de cegar em 1652, cumpriu os seus deveres até à abdicação de Ricardo Cromwell em 1659.  Após a Restauração (1661)  continuou a defender a república e a criticar a monarquia para além de se dedicar ao trabalho literário, com elegias latinas, opúsculos, alegações a favor da liberdade de Imprensa, alguns sonetos e o grande  poema épico Paradise Lost (1667), publicado em 10 volumes.

Freguesias de Arroios e Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Arroios e Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

Conde de Monsaraz, o poeta alentejano da Salada Primitiva, numa rua da Penha de França

Conde de Monsaraz em 1908 (de lenço sobre o casaco) (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Conde de Monsaraz em 1908 (de bigode branco)
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

António de Macedo Papança, o  poeta alentejano que para o Cozinheiro dos Cozinheiros de Paulo Plantier enviou a sua «Salada Primitiva», na sua qualidade de  Conde de Monsaraz dá nome a uma artéria da Penha de França, antes identificada como Rua nº 1 do Olival do Monte Alperche, desde que o Edital Municipal foi publicado em 18/07/1933, atribuindo também a legenda «Poeta/ 1852 – 1913».

António de Macedo Papança (Reguengos de Monsaraz/18.07.1852-17.07.1913/Lisboa), 1º visconde (decreto de 17/01/1884) e depois 1º conde de Monsaraz (decreto de 03/05/1890),  foi um poeta e político que ingressou no Partido Progressista em 1886, ao tempo liderado por Anselmo José Braamcamp e foi deputado eleito por Évora (1886), Par do Reino (1898) e embaixador-delegado ao Congresso da Paz em 1900, sendo em 1906 comendador de Santiago de Espada e no ano seguinte agraciado com a a grã-cruz da Ordem de Afonso XII de Espanha.

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Filho de um rico proprietário rural, o maior do concelho de Reguengo de Monsaraz, e formado bacharel de Direito em 1874 exerceu advocacia mas cedo se dedicou antes à poesia, de pendor naturalista, na qual já se iniciara enquanto estudante universitário. Privou com João Penha e Cesário Verde  e escolheu uma estética parnasiana que progressivamente foi passando para um exacerbado nacionalismo que é quase um prelúdio de António Sardinha. De entre as suas várias obras, destacam-se Crepusculares (1876), Catarina de Athayde (1880), Telas históricas (1882) e sobretudo, Musa Alentejana (1908).

Colaborou ainda em diversos jornais e revistas, como Brasil-Portugal, A Evolução, A Folha,  Ilustração Portuguesa, Renascença, Ribaltas e Gambiarras. Também traduziu diversas obras para o teatro e escreveu obras historiográficas de estilo naturalista e nacionalista. Foi sócio eleito da Academia Real das Ciências (1886) por proposta de Bulhão Pato, Pinheiro Chagas, Visconde de Benalcanfor e Vilhena Barbosa; da Academia Brasileira de Letras (1910),  da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Instituto de Coimbra.

Em 1888 casou com Amélia Augusta Fernandes Coelho Simões, filha de um grande proprietário e negociante da Figueira da Foz e membro do Partido Progressista, com quem teve um único filho, o jornalista e político Alberto de Monsaraz. Proclamada a República exilou-se na Suíça e depois em Paris voltando a Portugal em 1913 para depois falecer na véspera do seu 61º aniversário.

Em Lisboa, o Conde de Monsaraz viveu  na Rua Vítor Cordon, onde veio a falecer, e a Câmara Municipal de Lisboa no ano do seu centenário homenageou-o nesse prédio com o nº7, através de uma lápide evocativa,  descerrada em 18 de julho de 1952 numa cerimónia presidida pelo Vice-Presidente da CML, Luís Pastor de Macedo.

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

E finalmente, deixamos a receita da sua

SALADA PRIMITIVA

Leitor, se amas o campo e a natureza,
Se és bucólico e rude,
E na tua rudeza
Só respeitas a força e a saúde;
Se às convenções da sociedade opões
O desdém pelas normas e preceitos,
Que trazem pelo mundo contrafeitos
Cérebros e corações;
Se detestas o luxo e se preferes,
Francamente, às senhoras as mulheres,
E tens, como um pagão da velha Esparta,
Pulso rijo, alma ingénua e pança farta;
Se és algo panteísta e tens bem vivo
Esse afagado ideal
Do retrocesso ao homem primitivo,
Que nos tempos pré-históricos vivia
Muito perto do lobo e do chacal;
Se um ligeiro perfume de poesia
Que se ergue das campinas
Na paz, no encanto das manhãs tranquilas,
Te dilata as narinas
E enche de gozo as húmidas pupilas,
Leitor amigo, se assim és, vou dar-te
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Uma antiga receita,
Que os rústicos instintos te deleita
E frémitos te põe na grenha hirsuta.

Leitor amigo, escuta:
Vai, como o padre-cura, cabisbaixo
Pelos vergéis da tua horta abaixo
Quando no mês de Abril, de manhã cedo,
O sol cai sobre as franças do arvoredo,
Para sorver aqueles bons orvalhos
Chorados pelos olhos das estrelas
Nos corações dos galhos;
Passarás pelas couves repolhudas
– Cuidado não te iludas,
Nem te importes com elas!
Vai andando…
Mas logo que tu passes
Ao campo das alfaces,
Pára, leitor amigo,
E faz o que te digo:
Escolhe dentre todas a mais bela,
Folhas finas, tenrinhas e viçosas
Como as folhas das rosas,
E enchendo uma gamela
De água pura e corrente,
Lava-a, refresca-a cuidadosamente.
Logo em seguida (e é o principal)
Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite
Um fiozinho de azeite,
Vinagre forte e sal,
E ouvindo em roda o lúbrico sussurro
Da vida ansiosa a propagar-se, que erra
Em vibrações no ar,
Atira-te de bruços sobre a terra
E come-a devagar,
Filosoficamente, como um burro!

De uma Rua do Campo Grande para Alvalade foi Lopes de Mendonça

Henrique Lopes de Mendonça (Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça
(Foto: s/d, s/a, Arquivo Municipal de Lisboa)

Nascido lisboeta na então Rua dos Calafates, Henrique Lopes de Mendonça foi o autor da letra de uma Marcha contra o Ultimatum inglês, com música de Alfredo Keil, intitulada A Portuguesa, que após a implantação da República veio a ser o Hino Nacional  e, por duas vezes, o seu nome foi pensado para ruas de Lisboa, primeiro no Campo Grande (em 1932) e depois, no ano do centenário do seu nascimento, em 1956, ficou em definitivo numa artéria de Alvalade.

A sua ligação à gastronomia prende-se com a sua participação no livro Cozinheiro dos Cozinheiros (1870), de Paulo Plantier, para o qual enviou a receita de uma sopa que lhe lembrava Urbano de Castro, também membro do Corpo Redatorial da Revista do Conservatório Real de Lisboa, com o desejo «que os seus leitores a alcunhem de deliciosa».

Na toponímia alfacinha, Henrique Lopes de Mendonça foi primeiro colocado na Rua A do projecto aprovado em sessão camarária de 13/10/1927 delimitado entre a Rua Ocidental do Campo Grande e o Hipódromo, através do Edital de 12/03/1932, como Rua Lopes de Mendonça, ficando na Rua B, Francisco Mantero (hoje na Freguesia dos Olivais); na C, Ernesto Vasconcelos e, na D, Aires de Ornelas (hoje numa Praça da Penha de França). Mas só se fixou em definitivo através do Edital de 26/05/1956 na Rua 31 do Sítio de Alvalade, a que foi acrescentada a legenda «Escritor/1856 – 1931», seguindo o parecer da Comissão de Toponímia da sua reunião de 15/05/1970, homologado pelo Presidente da Câmara municipal de Lisboa.

Refira-se ainda que o jardim da Praça José Fontana, também é conhecido como Jardim Henrique Lopes de Mendonça, provavelmente a partir de uma deliberação de câmara de 1925 mas a edilidade não terá oficializado este topónimo com Edital.

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956 (Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua Henrique Lopes de Mendonça em 1956
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa/12.02.1856 – 24.08.1931/Lisboa) foi um alfacinha nascido no Bairro Alto, oficial da Armada Portuguesa, escritor e dramaturgo que fez a letra do Hino Nacional e casou em 1880 com Maria Amélia, uma das quatro irmãs de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Foi oficial embarcado entre 1874 e 1886, tendo navegado por Cabo Verde, São Tomé e Angola, e até apresentado a sua candidatura a Deputado por Luanda por força dos seus ideais republicanos.

Ingressou em 27 de Outubro de 1871  na Armada Portuguesa e aí alcançou o posto de Capitão de Mar-e-Guerra, para além de se ter dedicado à história naval e publicado Estudos sobre Navios Portugueses nos Séculos XV e XVI (1892) ou O Padre Fernando Oliveira e a sua obra náutica (1898). Em 1887 coadjuvou Andrade Corvo na publicação dos estudos sobre as possessões ultramarinas e foi ainda membro das Comissões Oficiais dos Centenários de Colombo e de Vasco da Gama.

Foi também professor da Escola Prática de Artilharia Naval, então instalada a bordo da Fragata D. Fernando II e Glória, assim como das cadeiras de Geografia, História e Literatura da Escola de Belas Artes de Lisboa (entre 1901 e 1929) e entre 1897 e 1901 foi ainda Bibliotecário da Escola Naval.

Como escritor e dramaturgo, Lopes de Mendonça iniciou a sua carreira em 1884 com a peça A Noiva, no palco do teatro D. Maria II, a que se seguiu A Morta (1888), que foi  galardoada com o prémio D. Luís I da Academia de Ciências de Lisboa. Deixou quase uma centena de obras literárias de teatro como Afonso de Albuquerque (1897) ou A crise do teatro português (1901). Também escreveu poesia, por vezes com os pseudónimos Lusos ou Ele, e romances como Os orfãos de Calecut (1894). Por ocasião do Ultimato Inglês de 1890, escreveu para a música de Alfredo Keil, a marcha A Portuguesa que, em 1910 o Governo da República adoptou como Hino Nacional, trocando apenas a palavra «bretões» por «canhões». Em 1916 foi também nomeado pelo Governo para a comissão que propôs as versões definitivas e oficiais para piano, canto, orquestra e banda do Hino Nacional. Refira-se ainda que Lopes de Mendonça era  membro eleito da Academia das Ciências de Lisboa desde 1900 e veio a ser seu presidente em 1915 , tal como dez anos depois,  em 1925, integrou o grupo de fundadores da Sociedade Portuguesa de Autores.

No ano do centenário do seu nascimento foi homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa  não apenas com a atribuição do seu nome a uma rua de Alvalade mas também através da colocação de uma lápide no prédio nº 120 da Rua do Diário de Notícias, onde nascera,  e uma exposição comemorativa no  Palácio Galveias.

E se quiserem experimentar a sopa de Lopes de Mendonça é seguir a sua receita:

«Coza-se uma porção de batatas. Faça-se um refogado com azedas, e misture-se-lhe a água em que se cozeu peixe. Junte-se-lhe o polme de batata, e deixe-se ferver um pedaço. Tem-se já pronto ovo cozido, cortado aos quadradinhos, azeitonas sem caroços, ervilhas ou feijão verde (havendo), camarão cozido e, já se sabe, convenientemente descascado. Isto tudo se junta ao caldo, depois de tirado do lume. E, em seguida, come-se.»

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)