Muzai na Escola Nuno Cordeiro da Avenida David Mourão-Ferreira, no MURO’19

Muzai na Escola Nuno Cordeiro: A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira
(Foto: © José Vicente| CML| DPC| 2019

No âmbito do MURO’19 foi Muzai o escolhido para deixar a sua intervenção artística – A Balada de Seu Ciro e Dona Elvira – na empena da Escola Básica Nuno Cordeiro, sediada na Avenida David Mourão-Ferreira, nesta 3ª edição Festival de Arte Urbana de Lisboa em que a arte urbana se une à música e à literatura presente no espaço, quer através da toponímia, quer de concertos e peças artísticas que unem a pintura a sonoridades.

O brasileiro Muzai usa o fio condutor da simplicidade do seu traço e de cores puras, fortes e contrastadas, para produzir arte urbana. Procura uma poética visual de fantasia e sonho, como que resgatando a criança interior do interior do homem. Nascido em Minas Gerais, em 1968, como Fabrício Alves, desde criança que era apaixonado por banda desenhada e licenciou-se pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia. Desde 2009 que se tornou o artista Muzai, após ter visitado São Paulo e ter ficado impressionado com o impacto da arte urbana na cidade em contraste com as antigas ruas cinzentas. Começou o seu percurso pela arte urbana mural na sua cidade natal.

David Mourão-Ferreira, escritor romancista, novelista, contista, dramaturgo e poeta que também escreveu para fado, professor universitário de literatura, ensaísta, jornalista e cronista, tradutor e crítico literário é o homenageado nesta longa Avenida onde se encontra a Escola Básica Nuno Cordeiro em cuja empena Muzai pintou a sua obra de caras, guitarra e ternura.

A Avenida David Mourão-Ferreira foi o topónimo dado à Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar através da publicação do Edital municipal de 22 de julho de 2005 e que encontramos desde a rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves até ao Eixo Central (no troço entre Rotunda 2 e a Av. Nuno Krus Abecassis). Com a Rua José Cardoso Pires e a Avenida Carlos Paredes define quase um círculo em cujo espaço interior decorre o MURO’19.

O escritor David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, homem de múltiplas facetas notabilizou-se como poeta do amor e da sensualidade, como uma personalidade que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras. Nasceu e viveu até aos 15 anos no Bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo – Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Com Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, em que se destacam Barco Negro (1954), Abandono, Solidão,  Espelho Quebrado, Primavera, Anda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, também produziu letras para Simone de Oliveira ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação, assim como de um processo judicial por  ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia (em 1965), bem como por no ano seguinte ter prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e a antologia erótica Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) que conquistaram o Prémio Ricardo Malheiros e são topónimo de uma artéria do Parque das Nações, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) galardoada com prémio da Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) – que recebeu o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras -, Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras.

Colaborou também em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a revista Seara Nova (onde em 1945 publicara os seus primeiros poemas), para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954) que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na década de sessenta do séc. XX também foi o autor do programa Música e Poesia na Emissora Nacional e de Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia na RTP, tendo nos anos setenta criado também O Dom de Contar para a televisão.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo seu o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e depois, presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao Pen Club Português (1991).

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Rua Norberto de Araújo

Revista Municipal nº 55, 4º trimestre de 1952

Rua Norberto Araújo, topónimo atribuído a uma arruamento da freguesia de Santa Maria Maior por Edital de 22 de Junho de 1956

Norberto Moreira de Araújo (1889 -1952), jornalista, funcionário do Ministério das Finanças, poeta, escritor e olisipógrafo. Em 1904, entra na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo, tendo sido o melhor aluno do seu curso, ao mesmo tempo que prossegue os seus estudos. Frequenta o Curso Superior de Letras, mas não concluiu a licenciatura. Iniciou-se como jornalista, em 1913, colaborando no jornal Sport Lisboa. Profere algumas conferências na Imprensa Nacional sobre a arte tipográfica, posteriormente publicadas, e que lhe valeram a recomendação do então director da Imprensa, Luís Derouet, para ingressar na redacção de O Mundo, em 1916. Como jornalista, colaborou, entre outros, no Repórter X: semanário de grandes reportagens, no Animatógrafo, na Ilustração Portuguesa, no A Manhã, no Diário de Notícias, no Século da Noite, e no Diário de Lisboa, jornal onde se manteve desde 1922 até à sua morte e onde assinava a coluna “Páginas de quinta feira”, dedicada a temas variados que iam desde a cultura, os casos de rua até à cidade de Lisboa e à defesa do seu património. Através dos seus artigos defendeu a manutenção e a renovação do Bairro de Alfama contra a campanha higienista que propunha a sua demolição, bateu-se pela realização anual da Feira do Livro, pela regularidade das exposições de Arte na Sociedade Nacional de Belas Artes, apoiou a iniciativa de Leitão de Barros para a realização das marchas populares, e a 31 de Agosto de 1934, propôs a abertura de uma cadeira de Estudos Olisiponenses na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ideia que Pastor de Macedo transforma em proposta apresentada em Sessão de Câmara a 6 de Setembro e que é aprovada, funcionando a cadeira durante alguns anos das décadas de 30-40. A par deste interesse pela sua cidade natal, Norberto de Araújo fez reportagens de grande fôlego, como o acompanhamento de duas visitas presidenciais (de António José de Almeida ao Brasil em 1922 e de Carmona a Espanha em 1929), a do Ano Santo de 1925 em Roma (onde entrevista o Papa Pio IX e Mussolini), a do julgamento de Alves dos Reis (1839) e a da visita da Rainha D. Amélia ao Panteão de S. Vicente (1945).

Norberto de Araújo dedicou à cidade muito do seu tempo e saber, tendo feito parte da Comissão Executiva das Festas de Lisboa de 1935 e organizado o Cortejo das Marchas Populares (tendo chegado a redigir a letra de para algumas delas); sendo sócio fundador do Grupo Amigos de Lisboa e assumindo a responsabilidade da decoração do Pavilhão de Lisboa na Exposição do Mundo Português, em 1940.

Como jornalista, os seus colegas e críticos são unânimes em afirmar que Araújo trouxe um novo estilo ao jornalismo, “repórter de frase curta, palavra solta, liberta da ganga da retórica” (palavras de Baptista Bastos), sem se prender em compromissos políticos. Como olisipógrafo, manteve estas mesmas características, que lhe granjearam grande número de leitores. Para além de milhares de artigos, e de algumas dezenas de conferências, foi autor das pequenas monografias Lisboa, o Castelo de S. Jorge e Itinerários turísticos de Lisboa, destinadas aos turistas. Escreveu ainda Legendas de Lisboa (1943), reunindo diversos textos sobre locais típicos de Lisboa; Casas da Câmara de Lisboa, em co-autoria com Pastor de Macedo, e que é um dos estudos mais completos sobre a câmara e os locais onde se estabeleceu; e de Inventário de Lisboa (1944-1956), concluído por Durval Pires de Lima, onde se pretendia fazer o levantamento de todo o património lisboeta.

Mas a sua obra mais conhecida intitula-se Peregrinações em Lisboa, editada a partir de 1938, resultado do seu profundo conhecimento físico da cidade e de um intenso labor de pesquisa documental. Como o título indica, Norberto de Araújo, traça percursos por Lisboa, descrevendo-os, narrando as suas histórias, desvendando os seus segredos. Num tom muito coloquial, como em conversa com o seu “dilecto Amigo”, figura imaginária a quem ele narra tudo o que sabe, e na qual o leitor se revê, as Peregrinações são ainda hoje, uma obra incontornável para quem quer conhecer a cidade.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses| 2019

Júlio de Castilho duas vezes topónimo lisboeta: em Largo e em Jardim

Júlio de Castilho com o fotógrafo José Artur Leitão Bárcia
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

No último dia desta semana, 8 de fevereiro de 2019, completam-se cem anos da morte do Mestre da Olisipografia Júlio de Castilho, o autor  de obras tão importantes e pioneiras como Lisboa antiga – Primeira parte: 0 Bairro Alto (1879) – que teve uma 2ª edição ampliada em 5 tomos-,  Lisboa antiga – Segunda parte: Bairros orientais (1884 – 1890) – em 7 tomos – ou A Ribeira de Lisboa, descrição histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos o Velho (1893), pelo que foi considerado o fundador dos estudos olisiponenses.

De acordo com Raquel Henriques da Silva, na sua palestra de abertura de «Uma casa em Lisboa – Homenagem a José Sarmento Matos» no passado dia 22 de janeiro – dia de São Vicente, o padroeiro de Lisboa – , Lisboa tem uma disciplina própria que mais nenhuma cidade tem que é a Olisipografia que Júlio de Castilho inventou. Por isso mesmo, recomendou a reedição anotada de toda a obra de Mestre Castilho.

Júlio de Castilho (Lisboa/30.04.1840- 08.02.1919/Lisboa), era filho do escritor António Feliciano de Castilho que nascera no Bairro Alto, e por isso ao investigar para escrever as memórias de seu pai acabou por escrever a sua primeira obra sobre a história da cidade de Lisboa, dedicada a esse Bairro. Também por essa condição de nascimento foi o 2º visconde de Castilho e viveu a maior parte da sua vida no Lumiar, vindo a ter o seu nome consagrado no Largo contíguo à artéria onde morava, já que residente do n.º 11 da Travessa do Prior ( hoje n.º 26 da Rua Pena Monteiro),  junto ao Largo da Duquesa, este último topónimo passou a ser o Largo Júlio de Castilho, por Edital municipal de 2 de março de 1925, com a legenda «Erudito Escritor e Historiador/1840 – 1919».

Logo no ano do seu falecimento, havia sido  homenageado com a colocação de uma lápide na sua casa no Lumiar, por iniciativa dos seus amigos José Artur Leitão Bárcia, Miguel Trancoso e António César Mena Júnior.

Largo da Duqueza, depois Largo Júlio de Castilho
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

E quatro anos após a atribuição do Largo com o seu nome, o fundador da Olisipografia, foi também homenageado com a criação do Jardim de Júlio de Castilho, onde a Comissão Administrativa da CML inaugurou  um busto do olisipógrafo, da autoria do escultor Costa Mota (sobrinho), no dia 25 de julho de 1929, integrado num miradouro sobre Alfama, conhecido como Miradouro de Santa Luzia, cerimónia a que compareceram outros olisipógrafos como Gustavo de Matos Sequeira ou o Engº Augusto Vieira da Silva, assim como o fotógrafo José  Artur Leitão Bárcia.

Em 1939, a Câmara Municipal de Lisboa lançou ainda o Prémio Júlio de Castilho e no ano seguinte (1940), no centenário do nascimento de Júlio de Castilho,  promoveu no Palácio Galveias uma Exposição ilustrativa da obra deste olisipógrafo.

Busto de Júlio de Castilho
(Foto: José A. Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

© CML | DPC | Núcleo de Toponímia | 2019

Pedro Bandeira Freire, fundador do Quarteto, numa Rua do Lumiar

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Com a legenda «Fundador do Cinema Quarteto/1939 – 2008», ficou Pedro Bandeira Freire a ser o topónimo da Rua Particular à Alameda das Linhas de Torres, desde a publicação do Edital municipal de 17 de março de 2017.

O cinéfilo Pedro Bandeira Freire, que fundou o Cinema Quarteto em 1975, ficou assim perpetuado na artéria da Freguesia do Lumiar que une a Alameda das Linhas de Torres à Rua Fernando Vaz, nas proximidades de diversos topónimos ligados ao Cinema, que ali foram sendo atribuídos desde que a Rua da Tobis Portuguesa ali nasceu em 1993.

Pedro Bandeira Freire (Lisboa/02.08.1939 – 16.04.2008/Lisboa), aluno do Colégio Militar, foi uma figura marcante da cultura lisboeta, que com o escritor Almeida Faria como sócio  fundou o cinema Quarteto, o primeiro complexo de quatro salas em Lisboa e no país,  com 716 lugares, em 21 novembro de 1975, no nº 16 da Rua Flores do Lima, traçado pelo Arqt.º Nuno San-Payo.

O Quarteto que usava  justamente o slogan «4 Salas / 4 Filmes», graças à programação de Pedro Bandeira Freire divulgou o mais importante cinema europeu e americano dos anos 70 e deu a conhecer em Portugal realizadores como Scorsese, Godard ou Fassbinder. Na memória dos lisboetas ficaram a exibição de A Religiosa (1967) de Jacques Rivette, um dos mais espantosos sucessos cinematográficos do pós 25 de Abril e o 2º maior êxito do Quarteto; a estreia de Martin Scorcese em Portugal com  Taxi Driver  , a partir de 15 de abril de 1977; o All That Jazz (1980) de Bob Fosse, em exclusivo e nas quatro salas, o maior êxito de sempre do Quarteto; até às maratonas de 24 horas de cinema.

Sempre amante de cinema, Pedro Bandeira Freire realizou a curta-metragem Os Lobos (1978) e o episódio televisivo O Lobisomem (1979); foi ator no Passarinho da Ribeira (1959) de Augusto Fraga e em A Bela e a Rosa (1983) de Lauro António, assim como em A Crónica dos Bons Malandros (1984), de Fernando Lopes, a partir do livro homónimo de Mário Zambujal; bem como argumentista de A Balada da Praia dos Cães (1987) de José Fonseca e Costa, a partir do romance de José Cardoso Pires; para além de ter sido crítico de cinema a partir dos anos 60,  jurado em festivais de cinema nacionais e estrangeiros, como o Internationale Filmfestspiele Berlin, colaborador da imprensa, rádio e televisão – escreveu textos para o concurso da RTP A Visita da Cornélia (1977)-, tendo exercido inclusivamente funções de consultor de cinema na RTP.

Sempre ligado à cultura de Lisboa e conhecido pelo seu sentido de humor, Pedro Bandeira Freire também  fundou a Livraria Opinião e escreveu vários livros de poesia –  como A Cidade e a Criação (1973), A linguagem do gesto (1974), Do Olhar à Palavra (1975) -, o romance Boca a boca (1998), e peças de teatro, publicadas quase na totalidade na colecção de teatro da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) – como O Embaixador Sem Medo (1974), As Lágrimas e os Tubarões Assinalados (1975)-Teatro, Nome de Jogo (1975) que foi Prémio Nacional da SPA ou a comédia musical Felizardo e Companhia. Modas e Confecções (1978) com Raul Solnado -, escreveu letras de canções para nomes como Simone de Oliveira e ainda deixou o volume de memórias Entrefitas e Entretelas (2007).

Pedro Bandeira Freire foi pai de Diogo, a criança que todos lembramos num cartaz do 25 de Abril a colocar um cravo no cano de uma G3.

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A Rua do poeta neoclássico Filinto Elísio

Rua Filinto Elísio, algures entre os anos 50 e 60 do séc. XX
(Foto: Arquivo Municipal de Lisboa)

O sacerdote  Francisco Manuel do Nascimento que enquanto poeta neoclássico usou o pseudónimo de Filinto Elísio, é o topónimo de uma Rua da freguesia de Alcântara desde o final do séc. XIX.

A Rua Filinto Elísio nasceu na Rua nº 2 do Bairro Rolão pela deliberação camarária de 8 de julho de 1892, na presidência do Conde de Ottolini na edilidade lisboeta. E nessa mesma deliberação mais artérias do Bairro Rolão tiveram também topónimos de escritores atribuídos:  João de Barros ficou na Rua n.º 1, Soares dos Passos na Rua n.º 4, Bocage nas Ruas n.º 7 e 8 (que é a Rua Amadeu de Sousa Cardoso desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 29/02/1988), Gil Vicente na Rua n.º 9,  e o botânico Avelar Brotero ficou na Rua n.º 6 (que é a Rua Pedro Calmon desde os anos oitenta do séc. XX, pelo Edital municipal de 07/09/1987).

Na década de trinta do século XX a Rua Rua A, situada no prolongamento da Rua Filinto Elísio passou também a ser parte integrante da primeira, conforme Edital municipal em 20 de junho de 1938 e este arruamento dedicado ao poeta arcádico, com dimensão aumentada passou assim a ligar a Rua da Indústria à Rua Soares de Passos.

Na Ilustração Portuguesa em 1905

O homenageado Filinto Elísio é Francisco Manuel do Nascimento (Lisboa/23.12.1734 – 25.02.1819/Paris) de seu nome. Nasceu na freguesia de São Julião, como filho de um casal de Ílhavo, um fragateiro e uma peixeira,  que sempre viveram com João Manuel, um Mestre das Fragatas Reais e depois, Patrão-mor da Ribeira das Naus, que Filinto sempre considerou seu pai.

Francisco Manuel do Nascimento tornou-se sacerdote ordenado em 1754 e o Filinto Elísio poeta arcádico. Quando Leonor de Almeida Portugal, a futura Marquesa de Alorna, estava presa no Mosteiro de São Félix, em Chelas, com a sua irmã Maria, antes da Viradeira,  ele começou a ser visita do local e também como era moda na época começou a cortejar uma das reclusas, Maria, a quem deu  o nome árcade Daphne e à sua irmã, Leonor, o de Alcípe. Leonor retribuiu-lhe esse gesto dando-lhe o nome de Filinto Elísio, para substituir o pseudónimo de Niceno que usara até então no círculo poético do Grupo da Ribeira das Naus.

Este poeta neoclássico compôs odes, epístolas, epigramas e sátiras, tendo as suas poesias sido publicadas ainda em vida, em Paris, em 11 volumes, entre 1817 e 1819, mas só após a sua morte foram editadas em Lisboa as suas Obras Completas, num total de 22 tomos, entre 1836 e 1840, sendo a sua obra considerada precursora do Romantismo. Também os seus restos mortais foram transladados do Père Lachaise para o claustro da Sé de Lisboa em 1843, e mais tarde, para o cemitério do Alto de São João.

Refira-se que a partir de 1778 se refugiou em França, com Avelar Brotero, e foi lá que acabou por falecer, tendo nesses 41 anos conhecido o poeta Lamartine, que até lhe dedicou um poema. As suas ideias enciclopedistas e  liberais  levaram a que fosse denunciado à Inquisição em 22 de junho de 1778, por leituras heréticas proibidas e afirmações blasfemas, o que somado a uma forte amizade que o ligava a Félix da Silva de Avelar tornou-os a ambos suspeitos para o Santo Ofício, pelo que exilaram em Paris. E para sobreviver na capital francesa fez trabalhos de tradução: Os Mártires de Chateaubriand, As Fábulas de La Fontaine, Púnica de Sílio Itálico e o Elogio do Doutor António Nunes Ribeiro Sanches de M. Vicq-d’Azyr para português e verteu as Cartas de Mariana Alcoforado para francês como Lettres Portugaises de Mariana Alcoforado.

Filinto Elísio está também como topónimo nos concelhos de Ílhavo, Almada, Barreiro, Caldas da Rainha, Gondomar,  Odivelas, Oeiras, assim como Francisco Manuel do Nascimento surge em dois topónimos da Charneca da Caparica, no concelho de Almada.

Freguesia de Alcântara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Ruy Cinatti, de Uma Sequência Timorense e dos Cadernos de Poesia

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O autor de Uma Sequência Timorense e editor dos Cadernos de Poesia, Ruy Cinatti, que viveu 20 anos em Timor e nos últimos vinte da sua vida residiu em Lisboa, está desde 1997 perpetuado na toponímia do Bairro dos Sete Céus, com a legenda «Poeta/1915 – 1986», a unir a Rua dos Sete Céus à  Rua João Lourenço Rebelo.

Ruy Cinatti foi fixado no Impasse 1 do Bairro dos Sete Céus pelo Edital municipal de 30 de janeiro de 1987, o mesmo que colocou em outros arruamentos do Bairro os nomes do músico João Lourenço Rebelo, do fadista Joaquim Cordeiro, da cantora lírica Maria Júdice da Costa e dos poetas Vasco de Lima Couto e António Aleixo.

Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes  (Londres/08.03.1915 – 12.10.1986/Lisboa), estudou no Liceu Passos Manuel e formou-se como engenheiro agrónomo, tendo fixado-se  definitivamente em Lisboa a partir de 1963. Entre 1943 e 1945 desempenhara o cargo de meteorologista aeronáutico da Pan-American Airways e, de 1946 a 1948, exercera a função de chefe de gabinete do governador de Timor (que desde 2002 é a República Democrática de Timor-Leste ou  Timor Loro Sae ), mantendo-se depois no território como chefe dos serviços agronómicos e aí realizando também estudos de arqueologia, ecologia, fitogeografia e antropologia cultural, tendo mesmo feito um doutoramento em Antropologia Geral e Social, em Oxford, em 1958.

Como escritor e poeta estreou-se aos 21 anos, em 1936, com o conto Ossobó, seguindo-se a edição do seu primeiro livro de poesia Nós Não somos deste mundo (1941). São ainda de destacar entre muitas das suas obras,  Anoitecendo, a vida recomeça (1942), Poemas Escolhidos (1951), O Livro do Nómada, Meu Amigo (1958), Manhã Imensa (1967), Cancioneiro para Timor (1968), Sete Septetos (1968), Borda D’ Alma (1969), Uma Sequência Timorense (1970), Memória Descritiva (1971), Conversa de Rotina (1973), Paisagens Timorenses com Vultos (1974), Cravo Singular (1974), Import-Export (1976), 56 Poemas (1981). Em 1967, sob o pseudónimo de Júlio Celso Delgado também publicou Crónica Caboverdeana.

A partir de 1940 dirigiu a publicação Cadernos de Poesia – na 1ª série com Tomás Kim (pseudónimo de Joaquim Monteiro Grilo), João Cabral do Nascimento e José Blanc de Portugal e na 2ª série, com Jorge de Sena, José Blanc de Portugal e  José-Augusto França – com o objetivo de «arquivar a actividade da poesia actual sem dependências de escolas ou grupos literários, estéticas ou doutrinas, fórmulas ou programas». Ruy Cinatti também fundou e dirigiu a revista Aventura, cinco números publicados de 1942 a 1944.

Em 1950 também publicou estudos científicos relacionados com Timor: «Reconhecimento em Timor», «Esboço histórico do Sândalo no Timor Português», «Explorações Botânicas em Timor»e «Reconhecimento Preliminar das Formações Florestais no Timor Português».

Foi Prémio Antero de Quental 1958, Prémio Nacional de Poesia 1968, Prémio Camilo Pessanha 1971 e Prémio P.E.N. de Poesia 1982 e o seu nome está também presente na toponímia dos concelhos da Amadora, Oeiras, Seixal e Sintra.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Delfim de Brito Guimarães, o escritor e editor da Guimarães Editores

Freguesia de Campolide
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

O escritor e editor Delfim de Brito Guimarães está como topónimo de uma rua Campolide desde 1995, passados 62 anos sobre a sua morte, tendo a edilidade seguido a proposta da Casa do Concelho de Ponte Lima, já que o homenageado se afirmava limiano de afeição.

A Casa do Concelho de Ponte Lima solicitou que o nome de Delfim Guimarães, filho de um limiano e que muito tempo viveu nela, fosse atribuído a um arruamento de Campolide, nas imediações da sua sede, proposta com que a Câmara Municipal de Lisboa concordou e assim atribuiu a Rua Delfim de Brito Guimarães ao troço da Rua A à Avenida José Malhoa, compreendido entre a Rua Basílio Teles e a Avenida José Malhoa, pelo Edital municipal de 17 de fevereiro de 1995.

Na Ilustração Portuguesa de 17 de janeiro de 1910

Delfim de Brito Monteiro Guimarães (Porto/04.08.1872 – 06.07.1933/Amadora), nascido na Rua do Bonjardim nº 184 como terceiro dos seis filhos do limiano, comerciante e jornalista Delfim José Monteiro Guimarães Júnior e de Maria Júlia Moreira de Brito Barreiros, foi um poeta, novelista, dramaturgo, crítico, tradutor,  investigador literário, e o fundador com Libânio da Silva, em 1899, da Livraria-Editora Guimarães Editores na Rua da Misericórdia, que assim começou por designar-se Guimarães, Libânio e C.ª.

Com dezoito anos, em 1890, veio para Lisboa, acompanhando a mudança da família, e começou a trabalhar como guarda-livros – hoje diríamos contabilista-,  n’ O Século e aí se manteve dez anos mas foi obrigado a retirar-se por à Administração desagradar a sua atividade literária. Fundou então a Guimarães Editores que grande serviço prestou à cultura portuguesa, nomeadamente pelos autores estrangeiros que trouxe aos portugueses em cuidadas traduções, construindo uma chancela que ainda hoje existe integrada no grupo Babel.

Lançou-se como escritor em 1893, com poemas em Alma Dorida, Poemas em Prosa dedicado à sua mãe, bem como com Lisboa Negra, versos que dedicou à Capital e à sua difícil adaptação a ela. No ano seguinte, por morte do pai, heróico soldado liberal, jornalista e editor de Alberto Pimentel, administrou e reorganizou a revista Mala da Europa, para mais tarde ter a sua Arquivo Literário, de 1922 a 1928.

Publicou ainda, entre outros, a poesia de Confidências (1894) e Evangelho (1895), Sonho Garrettiano” (1899), o poema inspirado em ambientes medievais e de cariz romântico intitulado A Virgem do Castelo (1901), a peça escrita com D. João da Câmara Aldeia na Corte (1901), a comédia Juramento Sagrado (1902), bem como Outonais  (1903), o romance O Rosquedo: scenas da vida da província – Ponte do Lima – Minho (1904),  o livro de contos Ares do Minho (1908), A Alma  Portuguesa (1913), O Livro do Bebé (1917) ilustrado por Raquel Roque Gameiro, Aos Soldados Sem Nome (1921), Asas de Portugal (1922), A Paixão de  Soror Mariana (1926) ou a peça em um ato em verso Sol da nossa terra (1932).

Chegou a usar o pseudónimo Castro Monteiro para as publicações literárias e como investigador e crítico literário, foi inovador e polémico. Desde «A Viagem por Terra do Sr. João Penha» (1892), passando por  Saudades: história de menina e moça (1905), até quando escreveu sobre os poetas limianos Diogo Bernardes e Agostinho Pimenta, tendo-se confrontado com o seu amigo João Gomes d’Abreu sobre o primeiro ou quando publicou Trovas de Crisfal, de Bernardim Ribeiro (1908) que o fez entrar em polémica com Teófilo Braga.  Também evocou os os poetas limianos da sua eleição, sobretudo Diogo Bernardes, Frei Agostinho da Cruz e António Feijó em Ponte de Lima – Minha Avozinha.

Como tradutor produziu Flores do mal: interpretação em verso de poesias de Carlos Baudelaire (1909), parte da  Graziella de Lamartine, A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho e o Romance duma rapariga russa de Henry Gréville.

Politicamente, Delfim Guimarães era de filiação republicana e maçónica, tendo participado no debate das cores e dos símbolos da bandeira nacional. No início do século XX, foi Administrador do Concelho de Ponte de Lima e depois de se fixar na Amadora foi um dos principais impulsionadores da Liga dos Melhoramentos da Amadora.

Na sua vida particular, casou em 1895,  aos 23 anos, com Rosina Vieira da Cruz e foi pai de oito filhos, tendo sepultou uma sua filha, precocemente falecida, no cemitério de Ponte de Lima.

Foi feito Cavaleiro (1908) e Comendador (1919) da Ordem de Santiago da Espada  e retratado em carvões de Carlos Reis e de Veloso Salgado, aguarelas de Alfredo Morais e de Roque Gameiro, e ainda em caricaturas de Francisco Valença e de Sebastião Sanhudo. Para além de Lisboa, Delfim de Brito Guimarães está também na toponímia da Amadora ( Parque Delfim Guimarães, atribuído em 1937), no Porto e em Ponte de Lima.

Freguesia de Campolide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua José Gomes Ferreira para quem está espantado de existir

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Aquele que no seu Panfleto Mágico ousou avisar  «É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir» – o escritor José Gomes Ferreira -, desde o próprio ano da sua morte que está perpetuado na artéria de Campo de Ourique que liga a  Rua Joshua Benoliel à Avenida Engº Duarte Pacheco.

Falecido a 8 de fevereiro de 1985, José Gomes Ferreira, diplomata, compositor, escritor e poeta recebeu três dias depois da sua morte uma deliberação da edilidade alfacinha para ser um topónimo lisboeta, sendo fixado pelo Edital de dia 21 desse mês no arruamento construído no prolongamento da Rua D. João V, entre a Rua Silva Carvalho e a Avenida Engº Duarte Pacheco, também identificado como Rua A da Urbanização das Amoreiras.

José Gomes Ferreira (Porto/09.06.1900-08.02.1985/Lisboa), nasceu na portuense Rua das Musas, filho do empresário e benemérito Alexandre Ferreira, que chegou a ser vereador republicano na Câmara lisboeta na Primeira República, veio morar para Lisboa aos 4 anos de idade. O seu pai estabeleceu-se no Lumiar e foi quem doou as suas propriedades para a construção da Casa de Repouso dos Inválidos do Comércio. José estudou nos liceus Camões e Gil Vicente e também se dedicou a ser compositor, chegando a ter a sua obra Idílio Rústico estreada pela orquestra de David de Sousa, no Politeama. Em 1919 integrou o Batalhão Académico Republicano e depois de licenciado em Direito em 1924 seguiu carreira como Cônsul de Portugal na Noruega,  em Kristiansund, até 1930.

De regresso a Lisboa colaborou em inúmeras publicações como a Presença, a Seara NovaDescobrimentoGazeta Musical e de Todas as Artes, Imagem,  Ilustração Senhor Doutor,  para além de sob o pseudónimo de  Álvaro Gomes ter traduzido filmes. Em 1945-1946, colaborou com outros poetas neorrealistas no álbum das Heróicas compostas por Fernando Lopes Graça, sendo sua a letra de «Jornada».

Para a sua carreira literária é um marco o dia 8 de maio de 1931 em que de rajada escreveu o poema «Viver sempre também cansa», que João Gaspar Simões fez publicar logo na Presença. Já antes, na juventude, editara os livros de poesia  Lírios do Monte (1919) e Longe (1921) mas foi depois de 1931 que se dedicou ao ofício de ser escritor.  Na escrita poética salientamos do que deu a lume Poesia I (1948), Poesia III (1961) que foi Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, Poesia V (1973), Poeta Militante I, II e III (1978) com prefácio de Mário Dionísio.Também gravou discos com a sua poesia: Poesia (1969) e Poesia IV (1971) na Philips, Poesia V (1973) na Decca / Valentim de Carvalho e Entrevista 12 – José Gomes Ferreira (1973) na Guilda da Música/Sassetti.

Na prosa, José Gomes Ferreira publicou entre outros, O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens (1950), O Mundo Desabitado (1960),  Os segredos de Lisboa (1962), o panfleto mágico As Aventuras de João Sem Medo (1963) do Plano Nacional de Leitura, os contos Tempo Escandinavo (1969), O Irreal Quotidiano – histórias e invenções (1971), Gaveta de Nuvens – tarefas e tentames literários (1975), O sabor das Trevas – Romance-alegoria (1976), as crónicas Intervenção Sonâmbula (1977), Coleccionador de Absurdos (1978), Caprichos Teatrais (1978) e O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial (1980).  Somou ainda livros de memórias como A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim (1965) que recebeu o Prémio da Casa da Imprensa, Imitação dos Dias – Diário Inventado (1966), Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II (1980), Passos Efémeros – Dias Comuns I (1990) ou Dias Comuns – Derrota Pairante (2018).

Como cidadão exerceu funções de Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores em 1978 e no ano seguinte,  nas eleições legislativas intercalares, foi candidato da APU- Aliança Povo Unido pelo círculo de Lisboa e no ano de 1980 tornou-se militante do PCP. Nesta cidade, ficou ligado à Rua Heliodoro Salgado assim como às suas moradas na Rua Marquês de Fronteira e na Avenida Rio de Janeiro e na sua vida pessoal, foi pai do arquiteto Raul Hestnes Ferreira e do poeta Alexandre Vargas.

Em 1978 foi agraciado com a atribuição do seu nome à Escola Secundária de Benfica projectada pelo seu filho arquiteto e a CML colocou uma placa evocativa no prédio da sua última morada em 1990, deu o seu nome dado à Mata de Alvalade e no ano do centenário do seu nascimento, através da Videoteca produziu o documentário Um Homem do Tamanho do Século. José Gomes Ferreira recebeu também o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981) e da Ordem da Liberdade (1985), a distinção de cidadão de mérito de Odemira (1981) e o seu nome consta também da toponímia dos concelhos do Porto, Almada (Charneca da Caparica, Laranjeiro), Amadora (Reboleira), Barreiro (Lavradio, Santo António da Charneca), Beja, Benavente (Samora Correia), Braga, Cascais (São Domingos de Rana), Coimbra, Entroncamento, Gondomar (Baguim do Monte), Évora, Loures (Santo Antão do Tojal, São João da Talha, Unhos), Moita (Alhos Vedros, Baixa da Banheira, Moita, Vale da Amoreira), Montemor-o-Novo, Montijo, Odivelas (Famões, Póvoa de Santo Adrião), Oeiras (Algés), Portimão, Seixal (Arrentela, Corroios), Sesimbra, Setúbal, Sintra (Agualva-Cacém, Mem Martins), Trofa, Vila Franca de Xira ( Forte da Casa, Póvoa de Santa Iria) e Vila Nova de Gaia.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

O seu poema escrito na noite de 8 de maio de 1931 foi:

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

 

A Rua Correia Garção, o homem do teatro novo da Arcádia Lusitana

A Rua Correia Garção em 1938
(Foto: Eduardo Portugal, Arquivo Municipal de Lisboa)

Em 1912, por deliberação camarária de 12 de setembro e consequente Edital de dia 20, foi atribuído o topónimo Rua Correia Garção no arruamento «sem denominação que liga a Calçada da Estrela com a Rua de S. Bento, no ponto da muralha de suporte de terraplano do Parlamento» para homenagear um dos fundadores da Arcádia Lusitana.

Pelo mesmo Edital municipal foi-lhe dada a legenda «Poeta Arcádico do século XVIII» mas 34 anos depois, em reunião de 16 de dezembro de 1946, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia foi de parecer que esta fosse suprimida e o Presidente da CML concordou e homologou essa decisão no dia 20 de dezembro desse mesmo ano.

Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Pedro António Correia Garção (Lisboa/29.04.1724-10.11.1772/Lisboa) teve como pai um alto funcionário dos Negócios Estrangeiros (Filipe Correia da Serra) e uma mãe descendente de franceses (Luísa Maria da Visitação Dorgier Garção de Carvalho). Estudou no Colégio dos Jesuítas de Lisboa e a partir de 1742 frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra mas regressado à sua terra natal, em Lisboa se tornou escrivão na Casa da Índia, e entre 1760 e 1762, redator da Gazeta de Lisboa, um importante registo da vida da corte e da sociedade de setecentos.

Correia Garção foi um dos fundadores em 1756 da Arcádia Lusitana, onde usava o pseudónimo de Corydon Erimantheo e  nela teve um papel de relevo na defesa do modelo de composição clássica inspirada. Garção procurou manter aceso o espírito de inovação e modernidade com que a Arcádia fora criada, bem como apostar na renovação do teatro, para o que escreveu duas dissertações sobre o carácter da tragédia e assinou duas peças: Teatro Novo e a Assembleia ou Partida. A primeira, quando  subiu à cena do Teatro do Bairro Alto em 1766 não foi bem acolhida. A segunda, foi reposta em Lisboa várias vezes no século XX: em 1933, pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro e em 1965, pelo GTL – Grupo de Teatro de Letras, bem como em 1982, o Teatro da Cornucópia usou esta peça e outros textos de Correia Garção no espectáculo O Labirinto de Creta. Ambas as comédias de Garção fizeram  parte da campanha árcade para a criação de um teatro nacional fundado em modelo clássico, para uma depuração do gosto artístico por oposição ao barroco e uma  aproximação da literatura ao real quotidiano e à vida social.

As obras completas de Correia Garção foram publicadas postumamente pelo seu irmão, em 1778, incluindo Obras Poéticas e Discursos Académicos.

Foi casado desde 1751 com uma senhora de grande fortuna, Maria Ana Xavier Fróis Mascarenhas de Xande Salema, e faleceu aos 48 anos na prisão do Limoeiro, onde estava desde 1771, por ordem do Marquês de Pombal, por motivos até hoje não explicados.

Correia Garção está também homenageado na toponímia de Custóias (Matosinhos), Charneca da Caparica (Almada), Damaia (Amadora), Odivelas, Queijas e São Brás (Amadora).

Freguesias da Misericórdia e da Estrela
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

David Mourão-Ferreira, o «escrevivente» do amor feliz, na toponímia de Lisboa

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Poeta, romancista, novelista, contista, dramaturgo, professor, ensaísta, cronista, tradutor e crítico literário, assim era David Mourão-Ferreira que tanto na vida como na escrita celebrou o amor, o erotismo e o corpo em palavras porque, como ele dizia, tinha «o ofício de escreviver»: precisava de viver para escrever e de escrever para viver.

David Mourão-Ferreira começou por ser o topónimo de uma Rua lisboeta através do Edital Municipal de 18 de novembro de 2003, aquela que hoje conhecemos como Rua da Quinta das Conchas, mas por se entender que o escritor devia estar consignado num arruamento de maior extensão passou o seu nome para uma Avenida – que era a Rua 3 da Malha 14,6,1,2 e 3 do Alto do Lumiar, também na freguesia do Lumiar, pelo Edital de 22 de julho de 2005, ficando a unir a Rotunda onde confluem a Avenida Carlos Paredes e a Rua General Vasco Gonçalves ao Eixo Central. 

Com David Mourão-Ferreira são dez os escritores que estão homenageados em Avenidas de Lisboa: Carlos Pinhão, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, Guerra Junqueiro, José Régio, Júlio Dinis, Miguel Torga, o Poeta Mistral e Vergílio Ferreira.

David de Jesus Mourão-Ferreira (Lisboa/24.02.1927-16.06.1996/Lisboa), filho de David Ferreira – secretário do diretor da Biblioteca Nacional – e de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira, apesar das suas múltiplas facetas ficou mais conhecido como o poeta do amor  e da sensualidade. Nasceu e viveu até aos 15 anos no bairro da Lapa, frequentou o Colégio Moderno e já nas brincadeiras de infância fazia peças de teatro e jornais que o seu irmão mais novo –  Jaime Alberto – ilustrava. Licenciou-se em 1951 em Filologia Românica, na Faculdade de Letras de Lisboa,  onde veio a ser professor e catedrático de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa.

Começou a sua vida literária na poesia com a A Viagem (1950) a que somou, entre outros, Tempestade de Verão (1954) que foi Prémio Delfim Guimarães, Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Meae ou A Arte de Amar (1962), Cancioneiro de Natal (1971) que foi Prémio Nacional de Poesia, Matura Idade  (1973),  Sonetos do Cativo (1974), Os Ramos e os Remos (1985), No Veio de Cristal (1988) que foi Grande Prémio Inasset de Poesia, Nos Passos de Pessoa (1988) que ganhou o Prémio Jacinto Prado Coelho e uma antologia erótica: Música de Cama (1994).

São também de destacar as novelas Gaivotas em Terra (1959) com o Prémio Ricardo Malheiros, a peça O Irmão (1965) que foi Prémio de Teatro da Casa da Imprensa, os contos Os Amantes (1968), As Quatro Estações (1980) premiada pela Associação Internacional dos Críticos Literários, o romance Um Amor Feliz (1986) que recebeu o  Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, o Prémio de Ficção Município de Lisboa, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores e a Medalha Oskar Nobiling da Academia Brasileira de Letras. Refira-se ainda  Duas Histórias de Lisboa (1987) e o CD Um Monumento de Palavras que David Mourão-Ferreira gravou com a sua voz.

Com o contributo determinante de Alain Oulman, David Mourão-Ferreira levou os seus poemas também para o fado e para a voz de Amália, destacando-se Barco Negro (1954), AbandonoEspelho Quebrado, SombraAnda o Sol na Minha Rua, Nome de Rua ou Maria Lisboa (1961). Depois, fez também letras para  Simone de Oliveira, Francisco Pessoa, Mercês da Cunha Rego, Dário de Barros ou Luís Cília, apesar de ter sido alvo de uma campanha de difamação e de um processo judicial, por ter subscrito a apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e prefaciado a tradução de A Filosofia da Alcova do Marquês de Sade.

Colaborou em jornais e revistas, como o Diário Popular ou a Seara Nova onde em 1945 publicou os seus primeiros poemas-, para além de ter sido um dos fundadores da revista literária Távola Redonda (1950-1954)  que dirigiu com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo. Em 1967, tinha a rubrica «Poesia para Todos» no Diário de Lisboa e após o 25 de Abril dirigiu A Capital e foi diretor-adjunto de O Dia. Na Emissora Nacional foi o autor de Música e Poesia nos anos 60, década em que para a RTP fez Hospital das Letras e Imagens da Poesia Europeia, assim como nos anos 70, O Dom de Contar.

Desempenhou ainda as funções de Secretário de Estado da Cultura (nos anos de 1976, 1977 e 1979), sendo dele o despacho que criou a Companhia Nacional de Bailado. A partir de 1981 dirigiu o Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian e presidiu à Associação Portuguesa de Escritores (1984 – 1986) e ao  Pen Club Português (1991).

Do primeiro casamento nos anos 50, com Maria Eulália , sobrinha de Valentim de Carvalho, teve dois filhos: David João e Adelaide Constança. Em 1966 voltou a casar, com Maria do Pilar de Jesus Barata.

Foi agraciado como Chevalier de L´Ordre des Arts et des Lettres (1973), a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1976), como Grande Oficial (1981) e a Grã-Cruz (1996) da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, o título de Cidadão Honorário de Cascais e a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Oeiras (1996), o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (1996) e a abertura da Cátedra David Mourão-Ferreira na Universidade italiana de Bari (2005).

Em Lisboa, dá também o seu nome a uma biblioteca na freguesia do Parque das Nações. O escritor integra também a toponímia de Alcabideche, Alhos Vedros, Amadora, Amora (Seixal), Barcarena, Beja, Braga, Caparica, Cascais, Corroios, Eixo (Aveiro), Évora, Fafe, Faro, Odivelas, Pombal (Leiria), Portimão, Póvoa de Santa Iria, Prior Velho, Quinta do Anjo, Regadas (Braga), Rio Tinto, Santa Iria de Azóia, Santarém, Santo António dos Cavaleiros, São Domingos de Rana, São Julião do Tojal, Sesimbra, Sobreda (Almada), Vialonga e Vila Nova da Barquinha.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)