A Rua dos Correeiros

Freguesia de Santa Maria Maior

Esta Rua dos Correeiros que hoje vemos a unir a Rua da Conceição à Praça da Figueira nasceu da Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760, que atribuiu denominações às ruas da reconstruída Baixa lisboeta após o terramoto de 1755 – entre a Praça do Comércio e o então designado Rossio -,  bem como determinou que «nella terão arruamento os Officios de Corrieiro, de Seleiro, e de Torneiro.»

Este decreto régio de 1760 foi o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica e a nomenclatura toponímica atribuída correspondeu também à fixação de artes e ofícios pelos arruamentos, tendo sido a «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Princesa [hoje Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa».

A Rua dos Correeiros sofreu alterações à sua dimensão no decorrer do século XX. O Edital municipal de 6 de novembro de 1920, acrescentou-lhe a vulgarmente chamada Rua das Galinheiras assim como a Rua Nova de São Domingos. Mais ou menos trinta anos volvidos, o Edital municipal de 28 de agosto de 1950 retirou-lhe o troço entre a Rua do Amparo e o Largo de São Domingos para fazer nascer a Rua Dom Antão de Almada.

Nesta artéria conhecida vulgarmente como Travessa da Palha e  onde na segunda metade do século XIX surgiram muitas casas de pasto de galegos, quando estes emigraram em massa para Portugal, também foi o local de nascimento de  Rosa Araújo, em 17 de novembro de 1840, o presidente de Câmara responsável pela abertura da Avenida da Liberdade.

Freguesia de Santa Maria Maior    (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

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Olarias em beco, escadinhas, largo e rua

Rua das Olarias –
Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O sítio das Olarias guarda a memória dos oleiros desta zona, reforçada ainda por quatro topónimos:  o Beco das Olarias (freguesia de Santa Maria Maior ), as Escadinhas das Olarias ( freguesias de Santa Maria Maior e de  Arroios ), o Largo das Olarias (freg. de Santa Maria Maior e São Vicente ) e a Rua das Olarias ( freg. de Santa Maria Maior , São Vicente e Arroios ).

Por ordem cronológica, o Largo das Olarias que vai do Largo do Terreirinho à Rua dos Lagares, bem com a Rua das Olarias que une o  Largo das Olarias às Escadas do Monte, são os primeiros topónimos que se fixaram no local. A meio do século XIX, por Edital de 1 de setembro de 1859, o Governo Civil de Lisboa resolveu substituir a denominação Beco das Amoreiras por Beco das Olarias, considerando que o arruamento começa junto ao nº 54 do Largo das Olarias. E no último quartel do séc. XIX, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1883 colocou o topónimo Escadinhas das Olarias para substituir o  Beco dos Emprenhadores, o qual de acordo com Luís Pastor de Macedo, «(…) desde 1748 [ visto no Prazo nº 64 da Freguesia dos Anjos], pelo menos, esta serventia denominou-se beco dos Empenhadores», a ligar a Rua das Olarias à Rua do Benformoso.

Beco das Olarias –
Placa de azulejo
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O jornalista e olisipógrafo Norberto de Araújo retrata este sítio da seguinte forma : «Olarias – a palavra o diz – corresponde ao aglomerado de fabricantes de louças de barro, de que esta raiz ou encosta do Monte era fértil. (…) Quando Afonso Henriques tomou Lisboa já por aqui andavam, é claro, os mouros pois deles eram a Cidade e os subúrbios. Por este sítio cultivavam-se terras, em hortas frescas (as almuinhas) e em olivais, que haviam de dar os Lagares (de azeite e não de vinho), e abriam-se barrocais de greda, no desenvolvimento da arte de olaria e cerâmica seguimos para o vale que deu a Mouraria , e da passagem que havia de ser dos Cavaleiros para nascente, isto é: para o sopé da encosta da praça e do Monte, numa planície de relativa extensão, ficou um subúrbio de oleiros, e de cujas primeiras dinastias há vagas noticias, as suficientes para se saber que existiram. No século XVI, no seu começo, o sítio era caracterizadamente dos oleiros, certo como era que pelo primeiro Foral dado a Lisboa em 1179, tempos finais do primeiro Afonso era livre o fabricar “ollas” tanto como o fabricar pão. (…) A urbanização do sitio começou por 1498, em arrabalde definido, depois de D. Manuel tomar conta do “Almocovar” ou cemitério dos mouros (na encosta do Monte do lado da Bombarda), (…) Os lagares foram desaparecendo lei inevitável da urbanização lenta; as olarias resistiram e chegavam no tempo dos Felipes, de Espanha, e, pelo século XVII dentro, ao seu apogeu. Na terceira década de seiscentos havia por aqui oitenta artífices oleiros. Só no século XVIII, com a criação de fábricas já em grande, “modernas”, e com outros horizontes industriais, as olarias entraram em declínio (…)  Presentemente, e desde há três dezenas de anos [Norberto de Araújo escreve em 1938-1939], das olarias do sítio das Olarias não restam vestígios, sendo delas uma reminiscência, aliás importante, a, já citada atrás, Fábrica da Viúva Lamego, no Intendente, que, encostada à Bombarda, fazia parte da área; em 1885 havia ainda duas ou três olarias na Calçada Agostinho de Carvalho, e que agonizavam no começo do nosso século [século XX].»

Freguesias de Santa Maria Maior, de Arroios e de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro

A Rua Áurea no Cartulário Pombalino de 1760
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A pombalina Rua Áurea de 1760, topónimo oficial nascido do  primeiro diploma de toponímia de Lisboa, é pela maioria chamada como Rua do Ouro por ser de pronúncia mais fácil mas também porque outrora existiram ruas do Ouro alfacinhas.

No séc. XV,  os vereadores da cidade de Lisboa proibiram o lançamento de esterco e outras sujidades na rua do Ouro, que era a Betesga, estipulando pena por incumprimento, conforme lavrou o escrivão da Câmara Gomes Eanes de Monte Agraço.

A partir da 2ª metade do século XVI, Lisboa começa a apresentar uma Rua Nova dos Ourives do Ouro, também designada Rua da Ourivesaria do Ouro (em 1577 e em 1700), aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar, talvez situada na área hoje ocupada pelas Ruas de São Nicolau e de São Julião, ou ainda, como Rua dos Ourives do Ouro (por exemplo, em 1577, 1600, 1602, 1619, 1663, 1686, 1688, 1692, 1702, 1704, 1705, 1707, 1719).

Após o Terramoto de 1755 nasceu a nova Rua Áurea, rasgada e integrada no todo simétrico da Baixa Pombalina, em resultado da Portaria de 5 de novembro de 1760, de D. José I, que atribuiu toponímia a todos os novos 14 arruamentos entre a Praça do Rossio (hoje Praça D. Pedro IV) e a Praça do Comércio, bem como regulamentou a distribuição dos vários artesãos e comércios por eles.

No séc. XIX, seguramente a partir de 1849 passou a ser conhecida vulgarmente como Rua do Ouro, tanto mais que em 1906 circulavam postais com o Banco de Portugal e Rua do Ouro na legenda. Aliás, nos postais da primeira década do séc. XX era comum encontrar-se a imagem dos estabelecimentos bancários que a artéria albergava: o Monte Pio dos Empregados Públicos (1840), o Banco de Portugal (na última metade do séc. XIX), o Banco Lisboa & Açores (1907), como mais tarde, também aconteceu com a Agência Havas (1931).

A Rua Áurea em 2012 –
Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A Rua do fadista humorístico Joaquim Cordeiro

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Cinco anos após o seu falecimento,  o fadista humorístico Joaquim Cordeiro passou a dar o seu nome a uma artéria do Bairro dos Sete Céus, na freguesia de Santa Clara, em 1987, a partir de uma sugestão de um munícipe.

O munícipe Manuel Cabaço, indicou vários nomes para se preencher a toponímia do Bairro dos Sete Céus e assim, o Impasse 4 do Bairro dos Sete Céus passou a ser a Rua Joaquim Cordeiro pelo Edital municipal de 30 de janeiro de 1987. Pelo mesmo edital a Câmara lisboeta atribuiu mais 5 topónimos nesse Bairro, sendo quatro provenientes da sugestão já referida: os dedicados ao poeta Vasco de Lima Couto (Impasse 3) cujos poemas serviram muitos fados, ao poeta popular Rua António Aleixo (Impasse 6), à cantora lírica Maria Júdice da Costa (Impasse 5) e ao músico setecentista João Lourenço Rebelo (Impasse 2). Somou-se ainda o poeta Ruy Cinatti (Impasse 1) para denominar o arruamento restante já que da sugestão inicial do munícipe não foi aproveitado o nome de Adriano Correia de Oliveira.

Joaquim dos Anjos Cordeiro (Lisboa/20.03.1903 ou 1904-18.11.1982/Faro), por alguns considerado o fadista mais popular de Lisboa, impôs-se no fado da década de quarenta do séc. XX ao mudar-se  do fado castiço para o fado humorístico e jocoso,  com um estilo próprio, por influência de Vasco Santana. Cantava fados como Belchior no JapãoBendito seja o descansoBom Conselho, Casa Bera (versão cómica de Uma Casa Portuguesa), Estranha Vida do Diabo (reformulação de Estranha Forma de Vida), Guitarra não os acordes,  O Homem que sabia demaisNão me falem da SeveraÓ Rita Volta p’ra Casa ( uma hilariante versão de O Tempo Volta para Trás), No Tasco do Zé Pinguinhas (versão da Casa da Mariquinhas), Reza-te a sina, Trabalho, vai-te embora ( a partir da Saudade vai-te embora de Tony de Matos),  O vinho mora em LisboaZé Caloteiro (uma versão jocosa do  Fado do Cacilheiro) ou Zé Vigarista.

Joaquim Cordeiro começou a cantar fado em retiros e tascas alfacinhas com 11 anos de idade, mas após a morte da mãe, foi viver com o seu tio Carlos Cordeiro, sapateiro e poeta popular, que lhe ensinou o ofício e lhe deu algumas das  letras que depois virá a cantar em fado. Cumprido o serviço militar no país e em Angola (1927-1929) começou a sua carreira profissional de fadista em 1929, no Bar Anjos e no Café Luso. Em 1931, mudou-se para Olhão embora em 1943 tenha regressado a Lisboa. Ganhou o epíteto de «Rei do Riso» e apresentou-se em várias casas de fado, como o Retiro dos Marialvas e o Café Latino, contando com António Chainho e Carlos Gonçalves entre os guitarristas que o acompanharam. Nos letristas, usou mais Aureliano Lima da Silva, Armando Coutinho Dias e Domingos Gonçalves Costa. Colaborou com a Emissora Nacional nos Serões para Trabalhadores, assim como com a RTP, tendo ainda integrado os agrupamentos Estrelas de Portugal e Caravana de Vedetas que promoveram espetáculos em Portugal, Angola e Moçambique.

Numa outra faceta, Joaquim Cordeiro coordenava uma festa de beneficência da Associação Os Amigos do Minho, para angariar fundos para as crianças necessitadas, que se realizava anualmente no dia 8 de dezembro e em cujo elenco artístico costumava incluir Fernando Maurício, Amélia Maria, David José, Fernando Manuel, Joaquim Silveirinha, José Gomes e Tristão da Silva (pai). Sabe-se também que foi ele que em 1955 inscreveu Julieta Estrela no concurso Rainhas das Cantadeiras e Ases do Fado, organizado pelo jornal A Voz de Portugal, que ela ganhou (ex-aqueo com Florinda Maria) e assim também a carteira profissional.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do Britinho da revista, do fado e da Canção do Mar

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Frederico de Brito, conhecido como Britinho, nome de autor do teatro de revista e do fado e  figura muito querida em Lisboa, tem desde 2009 o seu nome perpetuado numa Rua da freguesia de Santa Clara, com a legenda «Compositor e Poeta/1894 – 1977», a partir da proposta de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

A Rua Frederico de Brito foi fixada na Rua A à Azinhaga da Cidade (junto à Estrada de São Bartolomeu) pelo Edital municipal de 16/09/2009, que colocou também nesta área do Vale da Ameixoeira mais dois nomes ligados ao teatro, a saber, a actriz Glicínia Quartin e o encenador Artur Ramos.

Joaquim Frederico de Brito (Oeiras-Carnaxide/15.09.1894-24.03.1977/Lisboa) foi um poeta e compositor famoso pela sua rapidez de composição que escreveu mais de um milhar de letras e compôs algumas centenas de músicas. Distinguia-o também a alcunha carinhosa de Britinho, usada sobretudo no mundo do fado, ao qual se ligara desde os 8 anos de idade, quando morava com a família em Alcântara,  já que após ler Lira do Fado de Avelino de Sousa, escreveu versos que o seu irmão mais velho – João de Brito – cantava em festas de amadores. São êxitos seus a Canção do MarCanoas do Tejo cantada por Carlos do Carmo, a Janela virada para o Mar celebrizada por Tristão da Silva, ou ainda Carmencita interpretada por Amália, para além do Fado do Britinho, Fado dos Sonhos, Biografia do Fado, Não digam ao fado, em vozes como as de Beatriz da Conceição, Carlos RamosFernanda Maria ou Lucília do Carmo. Em paralelo, Frederico de Brito também colaborou intensamente com o jornal Guitarra de Portugal assim como foi diretor e editor do jornal O Galarim.

Por outro lado, de 1934 a 1969, tornou-se também autor de marchas para os bairros de Lisboa, de que são exemplo maiores É raparigas, com música de Raul Ferrão para a Marcha de Benfica de 1934 ou a Marcha de Marvila de 1964, com música de Ferrer Trindade. O Britinho produziu poemas para as marchas dos bairros da Ajuda, Alcântara, Alfama, Alto do Pina, Bairro Alto, Benfica, Bica, Campo de Ourique, Campolide, Castelo, Graça, Madragoa, Marvila, Mouraria, Olivais, Santa Catarina e São Vicente.

Frederico de Brito foi também  o autor de inúmeras músicas e poemas para o teatro de revista, onde se estreou em 1935, no Anima-te Zé, no palco do Teatro Maria Vitória, onde ficou famoso o tema Soldado do Fado, com letra sua e música de Frederico Valério. Além deste palco a sua obra também passou no Éden, no Variedades e no ABC. Refira-se ainda que  participou como cantor na opereta História do Fado de Avelino de Sousa, tal como Alfredo Marceneiro.

E durante muitos anos, juntou à sua paixão uma ocupação: de estucador, de motorista de táxi em Lisboa e ainda, de empregado da Companhia de Petróleos Atlantic que viria a ser a BP. O táxi também o inspirou para em 1930 publicar Musa ao Volante: quadras, com prefácio de Albino Forjaz de Sampaio.  Dois anos depois também lançou Terra Brava: versos, desta feita com uma carta prefácio de Teixeira de Pascoais.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do guitarrista Jaime Santos das unhas postiças

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Nascido em Alfama, escolheu o nome artístico de Jaime Santos e este guitarrista  a quem é atribuída a invenção das unhas postiças está desde 20o8 inscrito na toponímia de Lisboa, numa Rua da freguesia de Santa Clara.

Por via do Edital municipal de 3 de julho de 2008 Jaime Santos ficou na Rua 4 (arruamento projetado ao Bairro das Galinheiras), zona onde já estavam a fadista Berta Cardoso (na Rua 3) e a pintora Maluda (Rua 1) a quem Carlos Zel dedicou um fado – pelo anterior Edital de 27 de abril de 2007 -, levando como companhia no seu Edital os compositores Wenceslau Pinto  (Rua 5) e Carlos Rocha (Rua 6), este último o autor de Sempre que Lisboa canta.

Jaime Tiago dos Santos (Lisboa/01.06.1909 – 04.07.1982/Lisboa), nasceu na então freguesia de Santa Engrácia, em Alfama, e escolheu o nome artístico de Jaime Santos, sendo um popular guitarrista sobretudo nas década de quarenta e cinquenta do séc. XX e sendo-lhe atribuída a invenção das unhas postiças que permitiram maior resistência e melhor sonoridade.

Aos 12 anos era aprendiz de marceneiro mas já dava os primeiros passos na viola, bandolim e violino, em festas populares. Porém, o seu sogro Georgino de Sousa terá influenciado a trocar para a guitarra, instrumento onde teve como referência Armandinho, por quem tinha uma enorme admiração, e com o qual manteve amizade. Em 1944, foi convidado a fazer parte do Conjunto Português de Guitarras de Martinho da Assunção, de que também faziam parte António Couto (guitarra), Alberto Correia (baixo) e o próprio Martinho da Assunção (viola). Por volta de 1945 acompanhou Amália Rodrigues no início da sua carreira internacional, tanto em Portugal, como nos E.U.A. e México, até ao ano de 1955, tendo ainda participado com ela no filme O Fado (1947), assim como na produção francesa, Les Amants du Tage (1954). Além disso, protagonizou ainda com Amália uma das curta-metragens de Augusto Fraga sobre Fado, que tomou como base o famoso quadro de 1910 do pintor José Malhoa dedicado ao Fado (1948).

Jaime Santos trabalhou em conjunto com grandes nomes da poesia popular, como João Linhares Barbosa, Francisco Radamanto ou Frederico de Brito criando muitos fados clássicos, interpretados por nomes como Amália, Carlos Ramos, Carlos do Carmo, Estela Alves, Fernanda Maria,  Lucília do Carmo   e Manuel de Almeida.

A partir de 1963 começou a construir os seus próprios instrumentos e deixou uma profícua discografia de instrumentais. Foi ainda o principal guitarrista de algumas das melhores casas de fado lisboetas como a Adega Machado (de Armando Machado), a Adega Mesquita, O Faia (de Lucília do Carmo), Lisboa à Noite (de Fernanda Maria), o Luso, A Tipoia (de Adelina Ramos) ou A Toca (de Carlos Ramos).

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua do ourives e arquiteto alemão do Convento de Mafra, João Frederico Ludovice

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias | NT do DPC )

O arquiteto alemão a quem se atribui o traçado do Convento de Mafra está desde 1964 perpetuado numa artéria de Benfica, a Rua João Frederico Ludovice, com a legenda «Arquitecto-Mor/1670 – 1752».

Foi a Rua 75 – 78 da Célula 4 de Benfica escolhida pela edilidade alfacinha para acolher a Rua João Frederico Ludovice e fixada pelo Edital municipal de 26/11/1964, que também colocou na mesma freguesia, mas no Bairro de Santa Cruz, a Rua da Venezuela. Na década seguinte a Rua João Frederico Ludovice recebeu o Mercado de Benfica.

Refira-se que alguns estudiosos contestam a autoria de João Frederico Ludovice para o Convento de Mafra, atribuindo-lhe apenas o papel de mestre das obras do mesmo, mas vamos neste artigo manter a explicação usual até ser provada outra.

Johann Friedrich Ludwig ( Alemanha – Castelo de Honhardt/19.03.1670 – 18.01.1752/Lisboa) ficou a cargo de seu tio e padrinho que o familiarizou com a arquitetura quando contava 14 anos, após a morte do seu pai. Aos 19 anos começou a estudar  com o Mestre Ourives N. A. Kienle de Jugeren. Quatro anos depois, em 1693,  assentou praça e tomou parte na Guerra de Pflaz, tendo feito campanha até ao fim da guerra (1697), como oficial de Engenharia e assim orientou trabalhos de engenharia em Regensburg e adquiriu conhecimentos e experiência no campo da arquitetura militar e artilharia.

Em 1697 emigrou  para Itália, onde em Roma estudou escultura e arquitetura  e alterou o seu apelido para Ludovici. A sua vasta erudição granjeou-lhe a simpatia dos jesuítas que o converteram ao Catolicismo, ao mesmo tempo que trabalhava ao serviço Companhia de Jesus,  na Igreja del Gesú em Roma, na fundição e cinzelagem da imagem do Santo Inácio de Loyola (da autoria de Groos) e de várias alfaias litúrgicas.

Em 1700 veio para Lisboa, a convite dos jesuítas e instalou-se na Rua dos Canos (nas traseiras da Rua da Palma), relativamente próxima do Colégio dos Jesuítas de Santo Antão – onde é hoje o Hospital de São José – com um contrato de exclusividade por 7 anos com os Jesuítas, comprometendo-se a elaborar um novo sacrário bem como várias outras alfaias. Contudo, em 1701, é pronunciada uma sentença contra Ludovice, pelo não cumprimento do contrato de exclusividade para com a Companhia de Jesus, sendo D. Pedro II que intercedeu a seu favor, pagando as custas da sentença, e convencendo os Jesuítas a permitir que Ludovice trabalhasse pontualmente para algumas Igrejas do Padroado Real, ou mesmo do Paço. Como ourives são atribuídas a Ludovice a autoria dos Sacrário de Prata da Igreja de Santo Antão; da Custódia da Sé de Lisboa e da Capela da Bemposta; do Frontal e Banqueta de prata do Convento do Carmo; do conjunto de Peanhas da Sé de Coimbra; de alfaias várias para a Capela Real do Paço da Ribeira, para a Igreja de São Vicente de Fora e Convento de Mafra.

João Frederico Ludovice começou também a fazer trabalhos de arquitetura. Trabalhou para D. João V na reestruturação do antigo Paço da Ribeira e transformou a sua antiga Capela Manuelina na Igreja Patriarcal. O Decreto de 26 de setembro de 1711 deste monarca prometeu a a construção de um Mosteiro em Mafra e abriu algo semelhante a um concurso público para o efeito, que Ludovice ganhou, apesar da concorrência de alguns famosos arquitectos italianos como Filipo Juvara e Antonio Canevari. Assim, entre 17 de novembro de 1717 e 1730, Ludovice dirigiu as obras de construção do Convento e a Casa do Risco, que servia a obra e se encontrava instalada no local, tendo-lhe sucedido no cargo o seu filho. Quase vinte depois, por decreto régio de 14 de setembro de 1750, e já com D. José I, foi nomeado Arquiteto-mor do Reino,  com patente, soldo e graduação de Brigadeiro de Infantaria.

São também obra sua em Lisboa a ornamentação das ruas – com pórticos, colunas e arcarias  – para a Procissão do Corpo de Deus (em diversos anos à volta de 1719); o Altar-Mor de São Vicente de Fora, tendo sido nomeado em 1720 Arquiteto das Obras de São Vicente de Fora;  o traçado de umas Portas de Santo Antão mais altas e largas (1727); a capela-mor (1748) da lisboeta Igreja de São Domingos, a qual resistiu ao terramoto;  bem como para si construiu em Benfica a Quinta de Alfarrobeira – hoje na Rua António Saúde -, concluída em 1727, mas em cuja capela já em 1720 contraíra segundas núpcias com a irmã de Luís António Verney. Também na Rua Direita de São Pedro de Alcântara, ao cimo da Calçada da Glória, ergueu em 1747 um palácio de cinco pisos e janelas avarandadas para sua residência, onde veio a falecer e foi sepultado na Igreja de São Roque.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

Os antigos campos de forca no Campo da Lã e no de Santa Clara

Sobreposição da planta de Carlos Mardel de 1756 sobre a dos nosso dias, para se visualizar o Campo da Lã sobre o Largo do Terreiro do Trigo

O Campo da Lã – antes de ser Largo do Terreiro do Trigo – e o Campo de Santa Clara foram ambos campos lisboetas onde se ergueram forcas.

Em 1725, a escrava Antónia Gomes, acusada de matar o seu amo com veneno misturado num caldinho de galinha, foi queimada com uma tenaz (atazanada) antes de ser enforcada no Campo da Lã. Também lá foram enforcadas uma mulher Setúbal e a sua filha cega de 25 anos, por matarem o homem que era o marido e padrasto, com a agravante das suas cabeças terem ficado expostas na forca.

Sobreposição da planta de Guilherme de Menezes de 1761 sobre a dos nosso dias para se visualizar o Campo da Lã sobre o Largo do Terreiro do Trigo

O Campo da Lã, deve o seu nome à seca de curtumes que no seu espaço tinha lugar, antes de na época pombalina ser denominado como Largo do Terreiro do Trigo.  Nos documentos municipais encontramos um Auto de 1588 sobre umas casas no Campo de Lã, em frente do chafariz d’El Rei, que estavam devendo foro à cidade; uma vistoria em 1709 às casas de Luís Nunes no Campo da Lã; uma petição de 1710, de Manuel Pires Quaresma, a solicitar licença para fazer uma varanda numas casas ao Campo da Lã, na entrada do beco de Alfama;  um aviso  ao senado municipal de 1739 para se tratar do arrendamento das naves nos armazéns do Terreiro do Paço, do Rossio e do Campo da Lã para se guardar a colunata da procissão do Corpo de Deus; um Decreto  de 1747, de doação de um chão no Campo da Lã a Tomé Furtado, sujeito que em março de 1755 encontramos com umas lojas no Campo de Lã, delimitadas por serem em frente da forca e perto do tanque onde se lavam as peles; e em novembro de 1755, o prior da freguesia de São Pedro de Alfama requereu autorização para continuar a ocupar o armazém do senado municipal no Campo da Lã.

Já o Campo de Santa Clara, por mor do Convento de Santa Clara,  deve estar fixado na memória do local desde cerca de 1294. Este Campo ainda no séc. XVI era vulgarmente conhecido por Campo da Forca por nele se realizarem execuções capitais.

Sobreposição da planta de Tinoco de 1650 sobre a dos nosso dias para se visualizar o Campo de Santa Clara nas duas épocas

 

 

 

A quinhentista Travessa da Espera dos antigos joalheiros da Coroa e do Farta-Brutos

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Travessa da Espera, no Bairro Alto, ainda nos dias de hoje alberga diversos comércios, de que se destacam o  restaurante Farta Brutos desde 1904, bem como uma loja  dos antigos joalheiros da Coroa – Leitão & Irmão – que desde 1887 se estabeleceram em Lisboa.

Sobre o significado do topónimo desta artéria que liga a  Rua da Misericórdia à Rua da Atalaia, ou seja, que faz a ligação do exterior ao interior do Bairro Alto, e que assim aparece denominada logo nas suas primeiras plantas, apenas se podem fazer suposições. Seria este arruamento o escolhido como ponto de encontro para se entrar neste Bairro implantado extra-muros mas adjacente à cerca fernandina, a partir da Rua Larga de São Roque [hoje, Rua da Misericórdia]?…

Recorde-se que o Bairro Alto de São Roque, de 1513, resulta da expansão urbana quinhentista próxima de uma porta da muralha fernandina e caracteriza-se por traçado quase ortogonal, com um esquema hierarquizado de ruas e travessas, em que as primeiras são eixos estruturantes perpendiculares ao rio e as travessas, os eixos secundários paralelos ao Tejo. A definição clara dos limites do Bairro em relação à cidade envolvente, manteve-o inalterado, único e original até aos nossos dias. Talvez a Travessa da Espera fosse o ponto de encontro para entrar nesse mundo íntimo do Bairro Alto de São Roque.

Na década de trinta do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo caracterizou esta Travessa de uma forma que parece indiciar a predisposição para ponto de encontro: «A Travessa da Espera – pela qual vamos sair do interior do Bairro Alto – e que liga a Rua da Atalaia com a Rua Larga de S. Roque, é das serventias do Bairro mais movimentadas e tradicionais de turbulência. Porquê? – perguntas tu. Pela circunstância de ser uma saída natural do íntimo do sítio bairrista para o exterior, por S. Roque. Foi sempre servida por baiúcas de esquina, que desapareceram; hoje possue dois restaurantes pequenos, bem frequentados, de fundação recente em relação à antiguidade do sítio, mas sem nenhuma característica típica: o “Primavera“, e o “Farta-Brutos”, respectivamente nos nºs 45 e 53, êste mais antigo».

O Farta Brutos, no segundo quarteirão da Travessa da Espera, conforme Esculápio afirmou em 1941 numa conferência no Grupo Amigos de Lisboa, era uma «baiúca instalada em uma loja para a qual se descia por dois degraus, e administrada por um galego hercúleo, antigo cosinheiro de bordo, casado com uma mulher muito franzina que servia às mesas. Chamam-me o Farta Brutos, dizia o galego, para me chamarem bruto, quando, afinal, os brutos são êles. A casa era muito bem freqüentada por gente de jornais e de teatros. »

Já no primeiro quarteirão, nos 8 a 14, encontramos hoje a loja da oficina da joalharia Leitão & Irmão, ocupando parte do espaço onde foi a Imprensa Minerva – nos nºs 12 a 14 – em que se imprimia o António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, e no qual Esculápio trabalhou.

A portuense Casa Leitão, na altura do cerco do Porto (1832 -1833), ocasionou relações do proprietário José Teixeira da Trindade com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, que cinquenta anos depois lhe concedeu o título de Ourives da Casa Imperial do Brasil. Cerca de 15 anos depois, em 1 de dezembro de 1887, D. Luís I,  nomeou-os Joalheiros da Coroa Portuguesa, pelo que a Casa Leitão  se transferiu do Porto para Lisboa nesse ano e estabeleceu a sua primeira loja no então conhecido popularmente Largo das Duas Igrejas [hoje, Largo do Chiado]. Referia-se que a ourivesaria produziu uma baixela criada por Columbano Bordalo Pinheiro e em 1917, um faqueiro de prata com peças desenhadas por Jaime de Castro Leitão e René Lalique.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

Da estrada que vai para Cata que Farás à seiscentista Rua do Alecrim da Fábrica de Sant’Anna

Rua do Alecrim, no cruzamento com o Largo do Barão de Quintela, em 1965
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A quatrocentista Estrada que vai ter a Cata que Farás tornou-se na setecentista Rua do Alecrim e desde 1916, acolhe no seu nº 95 a loja da Fábrica de Sant’Anna,  que comercializa produtos de cerâmica portuguesa.

A Rua do Alecrim que nasce na Praça Duque de Terceira e sobe até à Praça Luís de Camões, de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, era no final do séc. XV «a estrada que vay ter a Cata que farás», para ser no séc. XVII a Rua do Conde ou a Rua Direita do Conde, «aparecendo pela primeira vez em 1693 a denominação da rua Direita do Alecrim». Após o terramoto de 1755, segundo Júlio de Castilho, foi conhecida como a Rua das Duas Igrejas. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1856, de Filipe Folque, surge como Rua do Alecrim, topónimo floral que vingou até aos nossos dias, nesta artéria paralela à também floral Rua das Flores.

A Fábrica de Sant’Anna produz azulejos e faianças artesanais, mantendo os mesmos processos desde 1741, data da sua fundação nas terras de Sant’Anna, próximas da Basílica da Estrela, numa pequena olaria de barro vermelho. Após o Terramoto de 1755 e dada a necessária reconstrução de Lisboa,  o azulejo tornou-se moda, já que  quando comparado com outros revestimentos como a pedra tinha um preço mais  baixo e assim se generalizou na decoração das fachadas de muitos prédios em Lisboa aumentando a produção da Fábrica de Sant’Anna. No início do século XX a fábrica teve de ser deslocada para a Rua da Junqueira, de onde vinte anos depois partiu para a Calçada da Boa-Hora. Em 1916 abriu também uma loja na Rua do Alecrim, no rés-do-chão de um palácio registado no Inventário Municipal do Património.

Sobre o topónimo Alecrim falta referir que existe também a Travessa do Alecrim, a ligar a Rua do Alecrim à Rua das Flores, desde a publicação do Edital municipal de 31/12/1885 , que veio substituir a Travessa do Cata que Faraz que até 09/02/1882 fora denominada como Travessa do Catefaraz.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)