A Rua dos Sapateiros do «Animatógrafo do Rocio»

O Animatógrafo na Rua dos Sapateiros, no ano da inauguração em 1907 (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Animatógrafo na Rua dos Sapateiros, no ano da inauguração em 1907
(Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Sapateiros surgiu com esta configuração espacial na reconstrução da Baixa Pombalina de traçado retilíneo e ortogonal, após o terramoto de 1 de novembro de 1755, e como topónimo nasce por via da Portaria de D. José I de 5 de novembro de 1760, o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica em Lisboa.

Cinegrafia, 2 de maio de 1929

Cinegrafia, 2 de maio de 1929

Nesta artéria foi inaugurado 147 anos depois, em 8 de dezembro de 1907, o  Animatógrafo do Rossio,  a primeira sala de cinema com arquitetura da então novel Arte Nova de autor anónimo e então o Salão mais luxuoso da capital, propriedade da Correia & Correia. A partir de 1994 passou a funcionar como peep show e ainda hoje sobrevive enquanto espaço comercial de uma sex-shop.

A Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760, assinada por D. José I,  atribuiu as 14 denominações das ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e o  Rossio, na sequência da reconstrução da zona após o terramoto de 1755. A nomenclatura toponímica atribuída correspondeu também à fixação de artes e ofícios pelos arruamentos: Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Princeza [hoje, Rua dos Fanqueiros] , Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Travessa de Santa Justa [hoje, Rua de Santa Justa]».

Sobre os ofícios para a Rua dos Sapateiros define o diploma o seguinte: « Nesta Rua he a que medeia entre a Rua Augusta, e a Rua Aurea. Em hum lado della se devem arruar os sapateiros, porque só costumaõ arrar-se os que servem a Plebe; e o outro lado se deixar livre para os Misteres do Povo assima referidos.»

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Fado Armandinho

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Armando Freire, guitarrista de fado e criador do Fado Armandinho, que Artur Paredes muito considerava usando para isso a imagem de que era uma renda tudo o que ele tocava, está desde 2005 presente na toponímia de Lisboa a partir de uma proposta de Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

A proposta de Appio Sottomayor foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 2 de maio de 2005, tendo ainda a Comissão emitido parecer de que a homenagem se estendesse aos fadistas Fernando Farinha e Fernando Maurício, e assim estas propostas foram aprovadas em sessão de câmara de 20 de maio de onde resultou o consequente Edital municipal de 01/08/2005 que fixou a Rua Armandinho na   Via 2 à Rua do Vale Formoso de Cima, junto com a Rua Fernando Farinha (Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima)  e a Rua Fernando Maurício (Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima), todos próximos e todos na freguesia de Marvila onde já estava colocado o primeiro fadista a aparecer na toponímia de Lisboa: Alfredo Duarte (Marceneiro).

armandinho_0001-2Armandinho tinha como nome de registo civil Armando Augusto Salgado Freire (Lisboa/11.10.1891-21.12.1946/Lisboa)  e nasceu no Pátio do Quintalinho junto à Rua das Escolas Gerais, tendo-se distinguido como excelente executante da guitarra portuguesa, criador de estilos e compositor de fados que se tornaram imortais tais como o Fado Armandinho (a sua primeira composição, de 1910), o Fado do Bacalhau (para teatro de revista), o Fado do Cívico (para a  revista Torre de Babel em 1917), o Fado Conde da Anadia, o Fado Estoril, o Fado Fontalva, o Fado Peniche (que se tornou um hino para os que aí estavam presos), o Fado Mayer ou o Fado São Miguel (composto nos Açores no Natal de 1933), entre muitos outros. Armandinho fez a ponte entre duas eras do Fado: a do séc. XIX de conotação marginal e trágica e a do séc. XX de grande popularidade do género.

Em 1914, já Armandinho tocava de ouvido e tornou-se discípulo do célebre Luís Petrolino após o que se estreou como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, embora tenha mantido em paralelo outros trabalhos  como sapateiro, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira.

O seu estilo fez escola e nela se filiaram outros grandes nomes como Carvalhinho, Fontes Rocha, Jaime Santos, José António Sabrosa, José Marques Piscalareta,  José Nunes, Raúl Nery ou Salvador Freire. As suas interpretações na guitarra tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

A guitarra – alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.
Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.

Armandinho, considerado génio da guitarra portuguesa pelo seu dedilhar exímio, acompanhou inúmeras vozes fadistas das décadas de vinte e trinta do séc. XX, quer em palcos, quer em casas de fado como o Solar da Alegria ou o Café Luso, quer em gravações discográficas, como Adelina Ramos, Alberto Costa,  Ângela Pinto, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Maria do Carmo Torres, Maria Vitória ou a Santa do Fado Ercília Costa.  Foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora de Portugal nos anos 20 do séc. XX e percorreu também  casas particulares, como as da Família Burnay, Fontalva ou Castelo Melhor.

Em 1926, Armandinho fez a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel, tendo gravado 6 composições. E dois anos depois, gravou um conjunto de Fados, variações em tons diferentes e uma marcha, no Teatro São Luiz, para um 78 rpm. Refira-se ainda que Armandinho foi em 1927  um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, onde procedeu à  recolha de muitas melodias de Fado indexadas pelos seus autores o que permite nos nossos dias termos acesso a essas melodias. Em 1930, Armandinho também abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados, onde tocou durante alguns anos.

Armandinho faleceu na sua casa, na Travessa das Flores, junto ao Campo de Santa Clara, tendo o  jornal Guitarra de Portugal feito capa do sucedido sob a ideia do Fado de luto.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

O fado de Marceneiro ou Ti Alfredo numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Cerca de um mês e meio após o seu falecimento, o considerado Rei do Fado, Alfredo Marceneiro, foi inscrito como Alfredo Duarte (Marceneiro) na Rua J5 da Zona J de Chelas, por  Edital municipal de 12/08/1982, a partir de uma sugestão do cidadão Manuel Gonçalves Rosa endereçada à edilidade, sendo a primeira vez que o Fado se fixou na toponímia de Lisboa.

O fadista alfacinha Alfredo Rodrigo Duarte (Lisboa/29.02.1888 – 26.06.1982/Lisboa), o primeiro filho do casal Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, nascido na Travessa de Santa Quitéria, que ficou mais conhecido como Alfredo Marceneiro ou Ti Alfredo para os amigos, trabalhou como aprendiz de encadernador logo aos  13 anos, após o falecimento do seu pai, numa oficina da Rua da Trindade. Nas cegadas de rua conheceu Júlio Janota que era marceneiro e lhe arranjou lugar como seu aprendiz numa oficina em Campo de Ourique, de onde transitou para as oficinas de Diamantino Tojal na Vila Berta e depois para as Construções Navais no Arsenal do Alfeite, tendo Alfredo apenas deixado a profissão em 1946, para se tornar profissional do fado em exclusivo,  conservando porém em casa o banco de marceneiro e as ferramentas com que se entretinha a fazer trabalhos, um dos quais, A Casa da Mariquinhas,  inspirado na letra de Silva Tavares, e que está exposta no Museu do Fado.

Paralelamente, era cantador em festas de beneficência e em verbenas, entre os 14 e aos 17 anos. Depois começou a cantar em festas de solidariedade e nos retiros do Caliça e do Bacalhau em Benfica, José dos Pacatos na Estrada de Sacavém, Cachamorra ao Campo Grande, Baralisa e Romualdo, mas foi no 14 do Largo do Rato que se tornou mais conhecido, não dispensando a forma aprumada de vestir com gravata ou laço, sendo  por isso conhecido como Alfredo Lulu. Em 1924, participou num Concurso de Fados do Sul-América, na Rua da Palma e  ganhou a Medalha de Ouro. Nesse mesmo ano cantou durante dois meses no Chiado Terrasse para animar as noites de cinema. Só em 1930, por ocasião de uma festa no Club Montanha (no nº57 da Rua da Glória), seria lançado com o nome artístico de Alfredo Marceneiro, lançando a moda de cantar de pé e à luz das velas que ele próprio cantou no poema de Armando Neves:

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro

Ao longo da sua vasta carreira, em que se torna um dos fadistas maiores por dividir os versos cantados de forma a não permitir que as pausas musicais interrompessem o sentido das orações, Marceneiro que acabou por tornar o lenço de seda ao pescoço e as mãos nos bolsos a sua imagem de marca, exibiu-se em casas como o Nova Sintra (Calçada de Carriche), o Ferro de Engomar (na Estrada de Benfica), o Clube Olímpia, onde esteve com Armandinho, a Boémia (na Rua dos Correeiros no troço que foi conhecido como Travessa da Palha),  a Viela (na Rua das Taipas), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, 56), a Márcia Condessa (Praça da Alegria, 38), o Júlio das Farturas no Parque Mayer,  A Parreirinha de Alfama (Beco do Espírito Santo),  A Cesária  e O Timpanas (Rua Gilberto Rola),  o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso), o Café Mondego, A Severa (Rua das Gáveas), o Faia (Rua da Barroca), a Adega Machado e A Tipóia (Rua do Norte), a Adega Mesquita (Rua Diário de Notícias),  ou o Solar da Hermínia ( Rua da Misericórdia).  Chega mesmo a ter a sua própria casa no final da década de 1940, o Solar do Marceneiro, ao fundo da Calçada de Carriche, sem nunca se cingir apenas a cantar diariamente nesse espaço, sendo mesmo consagrado Rei do Fado no Café Luso ( Travessa da Queimada), a 3 de janeiro de 1948.

Gravou o primeiro disco em 1930 para a Casa Cardoso e passou depois a a ser artista privativo da Valentim de Carvalho, onde lançou 4 LP’s e 3 EP’s.  O seu estilo ficou vincado na Marcha do Alfredo Marceneiro, como em A minha freguesiaAmor de Mãe, Bêbado Pintor, Cabecita Louca, É tão bom ser pequenino,  Fado BailadoFado Balada, Fado Cravo, Fado CUF, Fado Laranjeira, Fado Pierrot, Foi na Velha Mouraria, O Pagem, Há Festa na Mouraria,  IroniaLembro-me de ti, Mocita dos Caracóis, Mouraria, Quadras SoltasSenhora do Monte.

Alfredo Marceneiro cantou também no Teatro, subindo ao palco do Coliseu dos Recreios, em 1930, na opereta História do Fado, com Beatriz Costa e Vasco Santana e passou depois também pelas tábuas do São Luiz, do Avenida, do Apolo, do Éden – Teatro, do Capitólio, do Politeama, ou do Maria Vitória. Para o cinema, gravou em 1939, atuações com Berta Cardoso, no Teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado, para o filme  Feitiço do Império de António Lopes Ribeiro (que esteve em exibição de 1940 a 1952). Para a  televisão, o fadista também só apareceu esporadicamente: uma reportagem em 1969,  um programa gravado para  a RTP em 1979 e editado 28 anos depois em DVD.

A 25 de maio de 1963, realizou-se  no Teatro S. Luiz A Madrugada do Fado – Consagração e despedida do Grande Artista Alfredo Duarte Marceneiro e todavia, Alfredo Marceneiro continuou a cantar durante quase mais duas décadas. Em junho de 1980 foi homenageado no Teatro de S. Luiz  pela Câmara Municipal de Lisboa, recebendo a Medalha de Ouro da Cidade. A título póstumo, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1984) e em  1991, no centenário do seu nascimento, foi lançado o duplo álbum O melhor de Alfredo Marceneiro e foi exibido na RTP o documentário Alfredo Marceneiro é só Fado.

Alfredo Marceneiro passou os últimos anos da sua vida na que foi a sua casa desde novo, no nº2 do pátio da Rua da Páscoa, nº 49.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do poeta setecentista Domingos dos Reis Quita

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O cabeleireiro e poeta setecentista Domingos dos Reis Quita, que viria a ser uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana, foi perpetuado na Rua 8 do Bairro dos Aliados, na sua 2ª fase de colocação de topónimos neste Bairro, no ano de 1932.

Pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, haviam sido colocados no Bairro dos Aliados o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3, o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6, o magistrado José Acúrcio das Neves na Rua 7 e Domingos dos Reis Quita na Rua 5, onde desde 12 de junho de 1926 estava o mecenas republicano das Escolas Móveis, Casimiro Freire, pelo que houve necessidade de corrigir  a situação, o que aconteceu pela deliberação camarária de 7 de abril e Edital de 12 de abril de 1932 sendo o poeta recolocado na Rua 8, a ligar a Rua B entre a Rua Barão de Sabrosa e a Praça Elíptica projetada (depois, Rua Veríssimo Sarmento) à Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta Domingos dos Reis Quita (Lisboa/06.01.1728 –  26.08.1770/Lisboa) exerceu desde os 13 anos o seu ofício de cabeleireiro mas também se revelou um autodidata empenhado na literatura, tendo começado por recitar versos aos fregueses, até que  com o apoio dos seus amigos Correia Garção e Cruz e Silva, sob o nome pastoril de Alcino Micénio  se tornou uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana (fundada em 1756 em Lisboa)  e ganhou como mecenas o Conde de São Lourenço.

Da Arcádia Lusitana fizeram parte  Correia Garção (1724-1772), Cruz e Silva (1731-1799),  Francisco José Freire (1719-1773), a que se seguiu a Nova Arcádia com Bocage (1765-1805), Filinto Elísio (1734-1819), a Marquesa de Alorna (1750-1839) e Nicolau Tolentino (1740-1811).

Enquanto representante do bucolismo, Domingos dos Reis Quita além da profícua obra poética que publicou em 2 volumes em 1766 ( Obras Poéticas), ainda escreveu  o drama pastoril Licore e mais quatro tragédias:  Mégara, Hermíone, Astarto e a sua versão de A Castro.

Faleceu de tuberculose passando os seus últimos dias aos cuidados da filha de um amigo seu e aquela que havia amado e cantado em versos de um lirismo pungente, sob o pseudónimo de Tirceia, Teresa Teodora de Aloim, mulher que casada, viúva, e recasada, sempre protegeu e recolheu o poeta.

Deixamos um soneto de Domingos Reis Quita:

Ao longo de uma praia um triste dia,/Já quando a luz do sol se desmaiava,/O saudoso Alcino caminhava/Com seus cuidados só por companhia. 

Os olhos pelas águas estendia,/Porque alívio a seu mal nelas buscava,/E entre os tristes suspiros que exalava,/Em lágrimas banhado assim dizia:

Os suspiros, as lágrimas que choro/Levai, ondas, levai, ligeiro vento,/Para onde me levastes quem adoro.

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,/Que me torneis o bem, só vos imploro,/Que pusestes em longo afastamento.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O Beco e a Travessa da Ferrugenta

A Travessa da Ferrugenta - Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

A Travessa da Ferrugenta – Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Na Ajuda, um Beco e uma Travessa colocam uma mulher, Ferrugenta de alcunha, na toponímia desta Freguesia.

A Travessa foi herdada do Concelho de Belém após a sua extinção, em 18 de junho de 1885, e que a Câmara Municipal de Lisboa oficializou 31 anos depois, pelo Edital de 26/09/1916, embora num documento municipal de 10/11/1897 sobre a canalização de esgoto na zona da Ajuda já apareça mencionada como Travessa da Ferrugenta. O Beco pode ter surgido depois e assimilado a mesma denominação por proximidade.

De acordo com Teresa Sancha Pereira, na sua comunicação «A Toponímia durante a I República» apresentada nas II Jornadas de Toponímia de Lisboa, a Ferrugenta era uma antiga moradora do local, Leonor Maria, padeira de Sua Majestade, que assim ficou conhecida por ter enviuvado de um homem cujo apelido era Ferrugento. A proximidade destas artérias à Real Barraca de 1755, ao Paço velho (onde em 1777 faleceu D. José I) e depois Palácio da Ajuda (a partir do plano de 1802) também parece ajudar a revelar porque foram aqui fixados estes topónimos.

Se analisarmos os registos paroquiais da Ajuda encontramos três Leonor Maria no final do séc. XVIII : uma que casou em 1798 com João Simões (Livro: 12-C, Folha: 46), outra que casou em 1798 com José Rodrigues (Livro: 12-C, Folha: 68) e uma terceira que em 1799 casou com Joaquim António da Silva (Livro: 12-C, Folha: 96).

Certo é que o topónimo existia como Travessa da Ferrugenta em 1832 já que o jornal  Gazeta de Lisboa de 28 de abril desse ano, publicitou uma arrematação de propriedades da artéria que faz quina para a travessa da Ferrugenta , nº 24 a 27.

Contudo, Appio Sottomayor no seu artigo «Toponímia de Lisboa, essa nossa familiar», publicado na revista Aldraba de 29 de novembro de 2014, defende antes que «Assim, existiu há muito na Ajuda uma loja de ferro-velho. O povo chamava-lhe o ferrugento. Como o proprietário morresse e ficasse a viúva a gerir, a Ferrugenta ganhou foros de personalidade e ainda hoje lá existem a travessa e o beco da Ferrugenta.» E nos registos paroquiais da Ajuda encontramos um Joaquim de Abreu Ferrugento que em 7 de março de 1812 casou com D. Maria Rita (Livro: 13-C, Folha: 344).

Fica-nos a pergunta : seria a Ferrugenta uma padeira ou a herdeira de uma loja de ferro-velho?…

Freguesia da Ajuda (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa do Pasteleiro da Madragoa

Freguesia da Estrela - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Pasteleiro, no Bairro da Madragoa, liga a Rua da Esperança à Rua do Machadinho e presume-se que nela tenha residido um mestre deste ofício para gerar tal topónimo.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés-a-Lés, defende a antiguidade da artéria por já aparecer referida no Livro IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho de 1695, mas até admite que possa ser anterior a esta data. Filipe Folque, no seu Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1856, já incluiu a Travessa do Pasteleiro e cinco anos depois, com datas de 23 de março a 10 de abril de 1861 já encontramos os planos de dois prédios que Francisco Machado pretendia construir no n.º 50 a 52 desta Travessa, tal como datado de 1875 aparece um parecer da Comissão de Obras e Melhoramentos da CML para o alargamento da artéria.

Este arruamento foi encurtado em 1859 já que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro determinou que a parte da Travessa do Pasteleiro compreendida entre as esquinas do Caminho Novo (denominação setecentista que desde a publicação do Edital municipal de 28/08/1950 identificamos como Rua das Francesinhas) e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas, fosse englobada nesta última Rua.

Ainda segundo Pastor de Macedo, morou nesta artéria José Maria Anchieta, pai de José Alberto de Oliveira Anchieta que dá nome a uma rua do Chiado e teve aqui a sua barbearia o poeta Domingos dos Reis Quita. Sabe-se também que na esquina da Travessa do Pasteleiro com a hoje Rua das Francesinhas foi inaugurado em 1852 um Lavadouro Municipal.

E finalmente, também a ligar esta artéria à gastronomia temos ainda nos nossos dias, no nº 32, a Torrefação de Cafés Flor da Selva, ali instalada desde 1966, com torra a lenha.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do fundador da 1ª associação mutualista portuguesa, Fernandes da Fonseca

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

A antiga Carreirinha do Socorro passou no final do século XIX, através do Edital municipal de 20/07/1888, a designar-se Rua Fernandes da Fonseca para, de acordo com Norberto de Araújo, perpetuar «a memória do fundador da Sociedade de socorro mútuo dos Artistas Lisbonenses» ou Associação dos Artistas Lisbonenses, uma associação operária mutualista que foi a primeira no nosso país, fundada  em 3 de fevereiro de 1839 por Alexandre Fernandes da Fonseca e 19 operários, com o intuito de apoiar os operários na velhice, na doença e no desemprego.

Em 1851, por ocasião do 12º aniversário da Sociedade dos Artistas Lisbonenses, os seus estatutos foram publicados na Revista Universal Lisbonense, publicação que contou mesmo entre os seus colaboradores  com alguns membros da associação. No ano seguinte, o jornal fez também notícia do aniversário da associação e deu conta que a mesma somava já 448 sócios, sendo presidente o Sr. Chaves, serralheiro de profissão.

Diário Ilustrado, 28.02.1898

Diário Ilustrado, 28.02.1898

Alexandre Fernandes da Fonseca (Aldeia do Bispo- Guarda/28.02.1798- 05.05.1860/Lisboa), o impulsionador da Sociedade dos Artistas Lisbonenses, a que ele chamava a sua «filha querida» e que mais tarde tomou o seu nome, viera para Lisboa em 1823, tendo trabalhado num dos 4 estabelecimentos de António Marrare em Lisboa – eram cafés junto ao Teatro de São Carlos, no Cais do Sodré, no Chiado e na Rua dos Sapateiros -, para no ano de 1832 se estabelecer por conta própria. Findas as guerras liberais foi nomeado fiscal dos trabalhos da Casa Real (em 1834) e depois, apontador-geral das obras feitas para a Câmara dos Pares em São Bento e para o Paço das Necessidades. A partir de 3 de abril de 1855 desempenhou as funções de porteiro e de almoxarife no Palácio de Queluz. Fernandes da Fonseca foi sepultado no túmulo de Veríssimo José Baptista, no Cemitério dos Prazeres.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do Pacheco que foi Custódio e Brás

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Por proposta do Vogal da Câmara Júlio César de Carvalho Teixeira, aprovada na sessão de câmara de 12/01/1933, foi o nome de Custódio Pacheco atribuído à Rua U do Bairro do Arco Cego, mas o Edital  de 21/01/1933 tornou-a Rua Brás Pacheco, sendo vontade manifesta da edilidade lisboeta homenagear nesta artéria Custódio Brás Pacheco, figura muito ligada ao movimento associativo desta cidade.

Pelo mesmo edital de 1933 foram atribuídos mais os seguintes topónimos no Bairro Social do Arco do Cego: Rua Bacelar e Silva (Rua B),  Rua Cardoso de Oliveira, Rua Costa Goodolfim (Rua A), Rua Desidério Beça (Rua V) , Rua Gomes da Silva (Rua D) e Rua Ladislau Piçarra (Rua C). Este Bairro Social foi construído na antiga Quinta das Cortes ao abrigo do Decreto 4137 de 25 de abril de 1918, tendo a a obra começado em 1919 mas apenas sido concluída na década de trinta, com inauguração oficial do Bairro em 10 de março de 1935.

bras pacheco

Custódio Braz Pacheco (Vila Nova de Milfontes/27.11.1828 –  dezembro de 1883/Lisboa) foi um operário da indústria tabaqueira lisboeta que enquanto tal foi fundador com Júlio Maria da Costa, Joaquim Augusto Dias, Pedro José de Carvalho, José Bento de Oliveira, Agostinho Alves de Sousa, Eusébio Luís da Paula e João António Alves do jornal A Voz do Operário, do qual foi também redator principal  tendo assinado o editorial do 1º número, em 11 de outubro de 1879. Foi a partir daqui que mais tarde, em  13 de fevereiro de 1883, nasceu a Sociedade A Voz do Operário. Brás Pacheco também colaborou com mais associações como o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas, a Associação Fraternidade Operária de José Fontana e fundou em 1863 a União Fraternal dos Operários da Fabricação dos Tabacos, da qual foi até dirigente durante alguns anos.

Considerado um elemento moderado, Brás Pacheco foi ainda, em 1878 candidato pelo Partido Republicano Federal às eleições.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do sindicalista Mário Castelhano, último coordenador da CGT

Freguesia das Avenidas Novas (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Foto: Sérgio Dias)

Mário Castelhano, que foi o último coordenador do secretariado da Confederação Geral do Trabalho e morreu em 1940 no Tarrafal, teve passados quase 39 anos, desde a publicação do Edital de 19/06/1979, uma artéria que o homenageia, na Freguesia das Avenidas Novas, no que era um troço da Avenida António Augusto de Aguiar entre as Ruas Dr. Álvaro de Castro e Cardeal Mercier, com a legenda «Sindicalista/1896 – 1940». A sugestão aceite pela edilidade partiu de Emídio Santana, outro sindicalista libertário.

Mário dos Santos Castelhano (Lisboa/31.05.1896 – 12.10.1940/Tarrafal-Cabo Verde) foi um operário ferroviário e militante prestigiado do movimento operário e sindical que desempenhou as funções de secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e de diretor do jornal diário A Batalha, órgão da confederação de sindicatos portugueses, a partir de 1926 e por isso o último antes da CGT ser ilegalizada e o jornal proibido no ano de 1927.

Mário Castelhano começou a trabalhar aos 14 anos começou a trabalhar na Companhia Portuguesa do Caminhos-de-Ferro e assim participou na greve de 1911 e esteve envolvido na organização das greves de 1918 e 1920, o que lhe custou o despedimento. Passou então a ocupar-se na escrituração do Sindicato de Ferroviários de Lisboa, da Federação Ferroviária e da Confederação Geral do Trabalho. Foi depois membro da comissão executiva da Federação Ferroviária, com o pelouro das relações internacionais e a responsabilidade de redator-principal do jornal A Federação Ferroviária. Dirigiu também os jornais O Ferroviário e O Rápido.

Mário Castelhano foi preso em outubro de 1927 e deportado para Angola, onde ficou dois anos. Em setembro de 1930, foi enviado para os Açores e em Abril de 1931, para a Madeira, participando na insurreição desta ilha contra o Governo mas após a derrota fugiu da ilha embarcando clandestinamente no porão do navio Niassa e, em 1933, estava de novo à frente do secretariado da CGT e do grupo que organiza o movimento revolucionário e grevista do 18 de janeiro de 1934, mostrando sempre o seu carácter íntegro, uma grande tolerância e ser um defensor acérrimo de ideias anarco-sindicalistas, razões pelas quais acumulou  o ter sido várias vezes preso e deportado, com a última a acontecer três dias antes do 18 de janeiro e acabando por falecer aos 44 anos, vítima de infecção intestinal contraída enquanto estava preso no campo de concentração do Tarrafal e para a qual lhe foi negada qualquer assistência médica.

Mário Castelhano publicou Os Meios de Transportes e a Transformação Social (1932), e postumamente, Quatro Anos de Deportação (1975) como volume 19 da Coleção Seara Nova. A 30 de Junho de 1980 foi galardoado como Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Freguesia das Avenidas Novas (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia das Avenidas Novas
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua António Albino Machado da Cooperativa de Habitação e do SAAL

Freguesias de Alvalade e, São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesias de Alvalade e de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

A Rua António Albino Machado nasceu do pedido dos moradores do Bairro das Fonsecas/Calçada com o intuito de homenagear aquele que foi o fundador e 1º Presidente da Cooperativa de Habitações Económicas 25 de Abril (C.H.E. 25 de Abril). A autarquia lisboeta concordou e pelo Edital de 03/08/1984 fixou o topónimo na artéria identificada como Rua 6 do Novo Bairro das Fonsecas (ou Fonsecas/Calçada).

O Bairro das Fonsecas/Calçada foi construído como resultado do empenho das Cooperativas de Habitação 25 de Abril (Bairro das Fonsecas) e Unidade do Povo (Quinta da Calçada) e o SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local). No bairro das Fonsecas foram construídos três blocos – A, B e C – com 82, 156 e 97 fogos.

Rua António Albino Machado face

António Albino Machado (S. Cipriano/1915 – 08.03.1984) foi o 1º Presidente da C.H.E. 25 de Abril e esteve na vanguarda da luta dos bairros pobres da cidade de Lisboa por melhor habitação.

António Albino Machado foi um homem dos sete instrumentos tendo sido pastor (dos 9 aos 13 anos), pintor e tropa (dos 15 aos 21) , até ter sido preso por causa da revolta anti-militarista. Nessa sua 1ª vez na prisão começou a escrever poesia e conheceu revolucionários. Em 1936 foi detido pela PIDE, em Bragança, acusado de ser comunista, o que lhe viria a acontecer mais 8 vezes. Depois, entre 1940 e 1960 trabalhou como pescador, caçador profissional, vendedor ambulante, bem como na extracção do minério e colaborou empenhadamente nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Chegou a Lisboa em 1960 e foi trabalhar como telefonista nos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, passando depois a vendedor ambulante e a escrever e vender versos alusivos a acontecimentos que tocavam de perto o povo.  E a 11 de maio de 1974 a população do Bairro das Fonsecas, um bairro de barracas clandestino, onde não havia água canalizada, eletricidade nem esgotos e cuja população era originária do norte do país, elegeu em plenário uma comissão de moradores onde António Albino Machado se incluía. Esta comissão de moradores fez a primeira manifestação a pé até Belém reivindicando uma habitação condigna e participou na 1ª Assembleia Popular formada na região de Lisboa, a Assembleia Popular da Pontinha, assim como colaborou para a formação da Intercomissão dos bairros de lata e bairros pobres da cidade.

António Albino Machado dedicou toda a sua vida, segundo as suas próprias palavras, à «construção da sociedade justa, que todos – operários, povo trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros e todos os outros explorados – temos que construir.» Num dos seus poemas reivindica o direito à habitação e à dignidade: «Mas a Luta continua, quer eles queiram, quer não; o trabalhador tem direito à sua habitação.»

Freguesias de Alvalade e de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias de Alvalade e de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)