A Rua da fadista Maria do Carmo Torres no Bairro das Marias

Freguesia do Lumiar
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

Maria do Carmo Torres foi uma  das cantadeiras mais queridas do público nos anos 30 e 40 do século passado e está perpetuada desde o ano 2000 no Bairro da Cruz Vermelha, popularmente conhecido como Bairro das Marias, em resultado da sua toponímia.

Através do edital camarário de 5 de julho de 2000 Maria do Carmo Torres ficou na Rua A à Rua Maria Carlota, juntamente com mais duas outras fadistas: Maria Alice (Ruas B e C) e Maria José da Guia (Rua com início na Rua Pedro Queirós Pereira e fim na Rua Maria Carlota), todos por sugestão de Appio Sottomayor enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia.

O Bairro da Cruz Vermelha ganhou o epíteto de Bairro das Marias, dado a sua toponímia comportar o nome das senhoras da secção auxiliar feminina da Cruz Vermelha de cuja iniciativa nasceu em janeiro de 1967 o Bairro Municipal da Cruz Vermelha, para albergar as famílias cujas barracas tinham ardido em 1962, todas Marias de primeiro nome e a que ainda se juntou a Rua das Duas Marias, a Rua das Três Marias, a Rua das Quatro Marias, a Rua das Cinco Marias e o Largo das Seis Marias.

Freguesia do Lumiar
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Maria do Carmo Alves Torres foi uma cantadeira do fado nascida na piscatória vila algarvia da Fuzeta (Olhão), no dia 8 de janeiro de um dos primeiros anos do século XX,  que ainda em bebé foi morar para Setúbal e seguiu o percurso de trabalhar numa fábrica de conservas de peixe, que como ela conta no jornal Guitarra de 21/08/1934 «(…) fui para o trabalho, nas conservas, onde cheguei a ser alguém, com muita gente sob as minhas ordens. Quantas vezes aos serões, para entreter o pessoal, que escabeceava com sono, me sentava a um canto da fábrica cantando o Fado, entretendo o pessoal e patrões, entretendo-me a mim própria, que já tanto adorava o Fado».

Mas, em paralelo, fazia teatro amador e foi assim que aos 19 anos ( supõe-se que seja à roda de 1926) se estreou como intérprete  do garoto das filhoses numa revista de amadores levada à cena no Salão Recreio do Povo, em Setúbal, de onde seguiu para outra revista no Casino de Setúbal, onde imitou o conhecido pescador António Gouga, tendo sido obrigada pelos aplausos a cantar 7 vezes seguidas e depois, passou para outra no Casino Estoril.

Após o suicídio do seu filho de 16 anos a castiça intérprete acabou por fixar-se em Lisboa, no 2º andar do n.º 119 da Travessa dos Fiéis de Deus, para esquecer  essa perda. Teve depois uma filha a que chamou Maria Carolina Relvas. Na capital, trabalhava como empregada de balcão no Café-Restaurante Sul-América e um dia em que acabou por substituir a cantadeira Maria Virgínia, o diretor Mendes Leal e Alfredo Madeira proporcionaram-lhe a aquisição do carteira profissional.

A partir daí, cantou o fado em todos os retiros da capital, nas esperas de touros do Campo Pequeno, nos teatros e salões de festas dos cinemas, em festas de caridade e nas particulares como as da Condessa de Ficalho, bem como até na então denominada Emissora Nacional. Ficou célebre a sua presença nas peças Adeus, Artur! no Teatro Variedades ou O Chico do Intendente exibida em 1936 no Teatro Apolo. Do seu reportório foram sucessos O SonhoMaria da Graça,  Não Me PersigasMaria da EsperançaCarta em Verso, Fado da Amora e O Que é de Mais Faz Mal, sendo Adriano Reis o seu letrista favorito. A partir de 1934, integrou a Embaixada do Fado, organizada por Maria do Carmo Alta e dirigida por Alberto Reis, que se exibiu no Porto e fez uma digressão pelo Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo o guitarrista Armandinho, Berta Cardoso, Branca Saldanha, Lina Duval, Filipe Pinto, Joaquim Pimentel e Eugénio Salvador, entre outros.

Cantou nas diversas casas especializadas de fado lisboetas como o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso, n.º 5), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, n.º 56, num prédio já desaparecido), o Café Luso (no n.º 27 da Avenida da Liberdade, de onde passou em 01/11/1939 para o n.º 131 da mesma Avenida e ainda mais tarde, para a Travessa da Queimada, n.º 8), o Café Mondego (Rua da Barroca, 124), o Retiro dos Marialvas (Rua da Barroca, 122 a 126), a Adega da Lucília (Rua da Barroca, 54) antes de se chamar O Faia e o Solar do Marceneiro (ao fundo da Calçada de Carriche).

No final de 1944 apadrinhou a estreia artística de Deolinda Rodrigues e cerca de 7 anos depois,  após 1951, e acordo com o estudioso do fado Eduardo Sucena retirou-se do fado, para casa de uma irmã, e faleceu nessa mesma década em Leça do Bailio.

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A Rua dos Correeiros

Freguesia de Santa Maria Maior

Esta Rua dos Correeiros que hoje vemos a unir a Rua da Conceição à Praça da Figueira nasceu da Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760, que atribuiu denominações às ruas da reconstruída Baixa lisboeta após o terramoto de 1755 – entre a Praça do Comércio e o então designado Rossio -,  bem como determinou que «nella terão arruamento os Officios de Corrieiro, de Seleiro, e de Torneiro.»

Este decreto régio de 1760 foi o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica e a nomenclatura toponímica atribuída correspondeu também à fixação de artes e ofícios pelos arruamentos, tendo sido a «Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Princesa [hoje Rua dos Fanqueiros], Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Rua de Santa Justa».

A Rua dos Correeiros sofreu alterações à sua dimensão no decorrer do século XX. O Edital municipal de 6 de novembro de 1920, acrescentou-lhe a vulgarmente chamada Rua das Galinheiras assim como a Rua Nova de São Domingos. Mais ou menos trinta anos volvidos, o Edital municipal de 28 de agosto de 1950 retirou-lhe o troço entre a Rua do Amparo e o Largo de São Domingos para fazer nascer a Rua Dom Antão de Almada.

Nesta artéria conhecida vulgarmente como Travessa da Palha e  onde na segunda metade do século XIX surgiram muitas casas de pasto de galegos, quando estes emigraram em massa para Portugal, também foi o local de nascimento de  Rosa Araújo, em 17 de novembro de 1840, o presidente de Câmara responsável pela abertura da Avenida da Liberdade.

Freguesia de Santa Maria Maior    (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

 

 

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Olarias em beco, escadinhas, largo e rua

Rua das Olarias –
Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O sítio das Olarias guarda a memória dos oleiros desta zona, reforçada ainda por quatro topónimos:  o Beco das Olarias (freguesia de Santa Maria Maior ), as Escadinhas das Olarias ( freguesias de Santa Maria Maior e de  Arroios ), o Largo das Olarias (freg. de Santa Maria Maior e São Vicente ) e a Rua das Olarias ( freg. de Santa Maria Maior , São Vicente e Arroios ).

Por ordem cronológica, o Largo das Olarias que vai do Largo do Terreirinho à Rua dos Lagares, bem com a Rua das Olarias que une o  Largo das Olarias às Escadas do Monte, são os primeiros topónimos que se fixaram no local. A meio do século XIX, por Edital de 1 de setembro de 1859, o Governo Civil de Lisboa resolveu substituir a denominação Beco das Amoreiras por Beco das Olarias, considerando que o arruamento começa junto ao nº 54 do Largo das Olarias. E no último quartel do séc. XIX, o Edital municipal de 4 de dezembro de 1883 colocou o topónimo Escadinhas das Olarias para substituir o  Beco dos Emprenhadores, o qual de acordo com Luís Pastor de Macedo, «(…) desde 1748 [ visto no Prazo nº 64 da Freguesia dos Anjos], pelo menos, esta serventia denominou-se beco dos Empenhadores», a ligar a Rua das Olarias à Rua do Benformoso.

Beco das Olarias –
Placa de azulejo
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

O jornalista e olisipógrafo Norberto de Araújo retrata este sítio da seguinte forma : «Olarias – a palavra o diz – corresponde ao aglomerado de fabricantes de louças de barro, de que esta raiz ou encosta do Monte era fértil. (…) Quando Afonso Henriques tomou Lisboa já por aqui andavam, é claro, os mouros pois deles eram a Cidade e os subúrbios. Por este sítio cultivavam-se terras, em hortas frescas (as almuinhas) e em olivais, que haviam de dar os Lagares (de azeite e não de vinho), e abriam-se barrocais de greda, no desenvolvimento da arte de olaria e cerâmica seguimos para o vale que deu a Mouraria , e da passagem que havia de ser dos Cavaleiros para nascente, isto é: para o sopé da encosta da praça e do Monte, numa planície de relativa extensão, ficou um subúrbio de oleiros, e de cujas primeiras dinastias há vagas noticias, as suficientes para se saber que existiram. No século XVI, no seu começo, o sítio era caracterizadamente dos oleiros, certo como era que pelo primeiro Foral dado a Lisboa em 1179, tempos finais do primeiro Afonso era livre o fabricar “ollas” tanto como o fabricar pão. (…) A urbanização do sitio começou por 1498, em arrabalde definido, depois de D. Manuel tomar conta do “Almocovar” ou cemitério dos mouros (na encosta do Monte do lado da Bombarda), (…) Os lagares foram desaparecendo lei inevitável da urbanização lenta; as olarias resistiram e chegavam no tempo dos Felipes, de Espanha, e, pelo século XVII dentro, ao seu apogeu. Na terceira década de seiscentos havia por aqui oitenta artífices oleiros. Só no século XVIII, com a criação de fábricas já em grande, “modernas”, e com outros horizontes industriais, as olarias entraram em declínio (…)  Presentemente, e desde há três dezenas de anos [Norberto de Araújo escreve em 1938-1939], das olarias do sítio das Olarias não restam vestígios, sendo delas uma reminiscência, aliás importante, a, já citada atrás, Fábrica da Viúva Lamego, no Intendente, que, encostada à Bombarda, fazia parte da área; em 1885 havia ainda duas ou três olarias na Calçada Agostinho de Carvalho, e que agonizavam no começo do nosso século [século XX].»

Freguesias de Santa Maria Maior, de Arroios e de São Vicente
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Áurea a que todos chamam Rua do Ouro

A Rua Áurea no Cartulário Pombalino de 1760
(Arquivo Municipal de Lisboa)

A pombalina Rua Áurea de 1760, topónimo oficial nascido do  primeiro diploma de toponímia de Lisboa, é pela maioria chamada como Rua do Ouro por ser de pronúncia mais fácil mas também porque outrora existiram ruas do Ouro alfacinhas.

No séc. XV,  os vereadores da cidade de Lisboa proibiram o lançamento de esterco e outras sujidades na rua do Ouro, que era a Betesga, estipulando pena por incumprimento, conforme lavrou o escrivão da Câmara Gomes Eanes de Monte Agraço.

A partir da 2ª metade do século XVI, Lisboa começa a apresentar uma Rua Nova dos Ourives do Ouro, também designada Rua da Ourivesaria do Ouro (em 1577 e em 1700), aberta sobre um antigo esteio do Tejo que D. João II mandou parcialmente tapar, talvez situada na área hoje ocupada pelas Ruas de São Nicolau e de São Julião, ou ainda, como Rua dos Ourives do Ouro (por exemplo, em 1577, 1600, 1602, 1619, 1663, 1686, 1688, 1692, 1702, 1704, 1705, 1707, 1719).

Após o Terramoto de 1755 nasceu a nova Rua Áurea, rasgada e integrada no todo simétrico da Baixa Pombalina, em resultado da Portaria de 5 de novembro de 1760, de D. José I, que atribuiu toponímia a todos os novos 14 arruamentos entre a Praça do Rossio (hoje Praça D. Pedro IV) e a Praça do Comércio, bem como regulamentou a distribuição dos vários artesãos e comércios por eles.

No séc. XIX, seguramente a partir de 1849 passou a ser conhecida vulgarmente como Rua do Ouro, tanto mais que em 1906 circulavam postais com o Banco de Portugal e Rua do Ouro na legenda. Aliás, nos postais da primeira década do séc. XX era comum encontrar-se a imagem dos estabelecimentos bancários que a artéria albergava: o Monte Pio dos Empregados Públicos (1840), o Banco de Portugal (na última metade do séc. XIX), o Banco Lisboa & Açores (1907), como mais tarde, também aconteceu com a Agência Havas (1931).

A Rua Áurea em 2012 –
Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Artur Matos)

A Rua do fadista humorístico Joaquim Cordeiro

Freguesia de Santa Clara
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Cinco anos após o seu falecimento,  o fadista humorístico Joaquim Cordeiro passou a dar o seu nome a uma artéria do Bairro dos Sete Céus, na freguesia de Santa Clara, em 1987, a partir de uma sugestão de um munícipe.

O munícipe Manuel Cabaço, indicou vários nomes para se preencher a toponímia do Bairro dos Sete Céus e assim, o Impasse 4 do Bairro dos Sete Céus passou a ser a Rua Joaquim Cordeiro pelo Edital municipal de 30 de janeiro de 1987. Pelo mesmo edital a Câmara lisboeta atribuiu mais 5 topónimos nesse Bairro, sendo quatro provenientes da sugestão já referida: os dedicados ao poeta Vasco de Lima Couto (Impasse 3) cujos poemas serviram muitos fados, ao poeta popular Rua António Aleixo (Impasse 6), à cantora lírica Maria Júdice da Costa (Impasse 5) e ao músico setecentista João Lourenço Rebelo (Impasse 2). Somou-se ainda o poeta Ruy Cinatti (Impasse 1) para denominar o arruamento restante já que da sugestão inicial do munícipe não foi aproveitado o nome de Adriano Correia de Oliveira.

Joaquim dos Anjos Cordeiro (Lisboa/20.03.1903 ou 1904-18.11.1982/Faro), por alguns considerado o fadista mais popular de Lisboa, impôs-se no fado da década de quarenta do séc. XX ao mudar-se  do fado castiço para o fado humorístico e jocoso,  com um estilo próprio, por influência de Vasco Santana. Cantava fados como Belchior no JapãoBendito seja o descansoBom Conselho, Casa Bera (versão cómica de Uma Casa Portuguesa), Estranha Vida do Diabo (reformulação de Estranha Forma de Vida), Guitarra não os acordes,  O Homem que sabia demaisNão me falem da SeveraÓ Rita Volta p’ra Casa ( uma hilariante versão de O Tempo Volta para Trás), No Tasco do Zé Pinguinhas (versão da Casa da Mariquinhas), Reza-te a sina, Trabalho, vai-te embora ( a partir da Saudade vai-te embora de Tony de Matos),  O vinho mora em LisboaZé Caloteiro (uma versão jocosa do  Fado do Cacilheiro) ou Zé Vigarista.

Joaquim Cordeiro começou a cantar fado em retiros e tascas alfacinhas com 11 anos de idade, mas após a morte da mãe, foi viver com o seu tio Carlos Cordeiro, sapateiro e poeta popular, que lhe ensinou o ofício e lhe deu algumas das  letras que depois virá a cantar em fado. Cumprido o serviço militar no país e em Angola (1927-1929) começou a sua carreira profissional de fadista em 1929, no Bar Anjos e no Café Luso. Em 1931, mudou-se para Olhão embora em 1943 tenha regressado a Lisboa. Ganhou o epíteto de «Rei do Riso» e apresentou-se em várias casas de fado, como o Retiro dos Marialvas e o Café Latino, contando com António Chainho e Carlos Gonçalves entre os guitarristas que o acompanharam. Nos letristas, usou mais Aureliano Lima da Silva, Armando Coutinho Dias e Domingos Gonçalves Costa. Colaborou com a Emissora Nacional nos Serões para Trabalhadores, assim como com a RTP, tendo ainda integrado os agrupamentos Estrelas de Portugal e Caravana de Vedetas que promoveram espetáculos em Portugal, Angola e Moçambique.

Numa outra faceta, Joaquim Cordeiro coordenava uma festa de beneficência da Associação Os Amigos do Minho, para angariar fundos para as crianças necessitadas, que se realizava anualmente no dia 8 de dezembro e em cujo elenco artístico costumava incluir Fernando Maurício, Amélia Maria, David José, Fernando Manuel, Joaquim Silveirinha, José Gomes e Tristão da Silva (pai). Sabe-se também que foi ele que em 1955 inscreveu Julieta Estrela no concurso Rainhas das Cantadeiras e Ases do Fado, organizado pelo jornal A Voz de Portugal, que ela ganhou (ex-aqueo com Florinda Maria) e assim também a carteira profissional.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)