A quinhentista Travessa da Espera dos antigos joalheiros da Coroa e do Farta-Brutos

Freguesia da Misericórdia
(Foto: Sérgio Dias)

A quinhentista Travessa da Espera, no Bairro Alto, ainda nos dias de hoje alberga diversos comércios, de que se destacam o  restaurante Farta Brutos desde 1904, bem como uma loja  dos antigos joalheiros da Coroa – Leitão & Irmão – que desde 1887 se estabeleceram em Lisboa.

Sobre o significado do topónimo desta artéria que liga a  Rua da Misericórdia à Rua da Atalaia, ou seja, que faz a ligação do exterior ao interior do Bairro Alto, e que assim aparece denominada logo nas suas primeiras plantas, apenas se podem fazer suposições. Seria este arruamento o escolhido como ponto de encontro para se entrar neste Bairro implantado extra-muros mas adjacente à cerca fernandina, a partir da Rua Larga de São Roque [hoje, Rua da Misericórdia]?…

Recorde-se que o Bairro Alto de São Roque, de 1513, resulta da expansão urbana quinhentista próxima de uma porta da muralha fernandina e caracteriza-se por traçado quase ortogonal, com um esquema hierarquizado de ruas e travessas, em que as primeiras são eixos estruturantes perpendiculares ao rio e as travessas, os eixos secundários paralelos ao Tejo. A definição clara dos limites do Bairro em relação à cidade envolvente, manteve-o inalterado, único e original até aos nossos dias. Talvez a Travessa da Espera fosse o ponto de encontro para entrar nesse mundo íntimo do Bairro Alto de São Roque.

Na década de trinta do séc. XX, o olisipógrafo Norberto de Araújo caracterizou esta Travessa de uma forma que parece indiciar a predisposição para ponto de encontro: «A Travessa da Espera – pela qual vamos sair do interior do Bairro Alto – e que liga a Rua da Atalaia com a Rua Larga de S. Roque, é das serventias do Bairro mais movimentadas e tradicionais de turbulência. Porquê? – perguntas tu. Pela circunstância de ser uma saída natural do íntimo do sítio bairrista para o exterior, por S. Roque. Foi sempre servida por baiúcas de esquina, que desapareceram; hoje possue dois restaurantes pequenos, bem frequentados, de fundação recente em relação à antiguidade do sítio, mas sem nenhuma característica típica: o “Primavera“, e o “Farta-Brutos”, respectivamente nos nºs 45 e 53, êste mais antigo».

O Farta Brutos, no segundo quarteirão da Travessa da Espera, conforme Esculápio afirmou em 1941 numa conferência no Grupo Amigos de Lisboa, era uma «baiúca instalada em uma loja para a qual se descia por dois degraus, e administrada por um galego hercúleo, antigo cosinheiro de bordo, casado com uma mulher muito franzina que servia às mesas. Chamam-me o Farta Brutos, dizia o galego, para me chamarem bruto, quando, afinal, os brutos são êles. A casa era muito bem freqüentada por gente de jornais e de teatros. »

Já no primeiro quarteirão, nos 8 a 14, encontramos hoje a loja da oficina da joalharia Leitão & Irmão, ocupando parte do espaço onde foi a Imprensa Minerva – nos nºs 12 a 14 – em que se imprimia o António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro, e no qual Esculápio trabalhou.

A portuense Casa Leitão, na altura do cerco do Porto (1832 -1833), ocasionou relações do proprietário José Teixeira da Trindade com D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, que cinquenta anos depois lhe concedeu o título de Ourives da Casa Imperial do Brasil. Cerca de 15 anos depois, em 1 de dezembro de 1887, D. Luís I,  nomeou-os Joalheiros da Coroa Portuguesa, pelo que a Casa Leitão  se transferiu do Porto para Lisboa nesse ano e estabeleceu a sua primeira loja no então conhecido popularmente Largo das Duas Igrejas [hoje, Largo do Chiado]. Referia-se que a ourivesaria produziu uma baixela criada por Columbano Bordalo Pinheiro e em 1917, um faqueiro de prata com peças desenhadas por Jaime de Castro Leitão e René Lalique.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

 

Da estrada que vai para Cata que Farás à seiscentista Rua do Alecrim da Fábrica de Sant’Anna

Rua do Alecrim, no cruzamento com o Largo do Barão de Quintela, em 1965
(Foto: Armando Serôdio, Arquivo Municipal de Lisboa)

A quatrocentista Estrada que vai ter a Cata que Farás tornou-se na setecentista Rua do Alecrim e desde 1916, acolhe no seu nº 95 a loja da Fábrica de Sant’Anna,  que comercializa produtos de cerâmica portuguesa.

A Rua do Alecrim que nasce na Praça Duque de Terceira e sobe até à Praça Luís de Camões, de acordo com o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, era no final do séc. XV «a estrada que vay ter a Cata que farás», para ser no séc. XVII a Rua do Conde ou a Rua Direita do Conde, «aparecendo pela primeira vez em 1693 a denominação da rua Direita do Alecrim». Após o terramoto de 1755, segundo Júlio de Castilho, foi conhecida como a Rua das Duas Igrejas. No Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1856, de Filipe Folque, surge como Rua do Alecrim, topónimo floral que vingou até aos nossos dias, nesta artéria paralela à também floral Rua das Flores.

A Fábrica de Sant’Anna produz azulejos e faianças artesanais, mantendo os mesmos processos desde 1741, data da sua fundação nas terras de Sant’Anna, próximas da Basílica da Estrela, numa pequena olaria de barro vermelho. Após o Terramoto de 1755 e dada a necessária reconstrução de Lisboa,  o azulejo tornou-se moda, já que  quando comparado com outros revestimentos como a pedra tinha um preço mais  baixo e assim se generalizou na decoração das fachadas de muitos prédios em Lisboa aumentando a produção da Fábrica de Sant’Anna. No início do século XX a fábrica teve de ser deslocada para a Rua da Junqueira, de onde vinte anos depois partiu para a Calçada da Boa-Hora. Em 1916 abriu também uma loja na Rua do Alecrim, no rés-do-chão de um palácio registado no Inventário Municipal do Património.

Sobre o topónimo Alecrim falta referir que existe também a Travessa do Alecrim, a ligar a Rua do Alecrim à Rua das Flores, desde a publicação do Edital municipal de 31/12/1885 , que veio substituir a Travessa do Cata que Faraz que até 09/02/1882 fora denominada como Travessa do Catefaraz.

Freguesia da Misericórdia
(Planta: Sérgio Dias)

O boticário, o barbeiro e o vendedor de pastéis de Belém na toponímia da Ajuda

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

O boticário Horta e Silva, o barbeiro José Maria Preto e o vendedor ambulante de bolos da zona, Zé Pincel, figuras locais do séc. XIX, integram a toponímia da Ajuda, no Bairro do Caramão e na Calçada da Ajuda, os dois primeiros desde a publicação do Edital municipal de 18/12/1989 e o terceiro, por nomeação popular.

A Rua Horta e Silva perpetua a memória do boticário – hoje seria o farmacêutico – da Ajuda, que também fabricava graxa, muito procurada pelos quartéis da zona. A sua fábrica de graxa funcionava no Pátio Zé Pincel, que se localizava no nº 246 da Calçada da Ajuda, pelo que também era conhecido como Pátio da Graxa. Nesse pátio oriundo do séc. XVIII e de denominação popular, vivia Zé Pincel, um conhecido vendedor ambulante de bolos: de pastéis de Belém e de raivas do Bom Sucesso. A Rua Horta e Silva, com a legenda «Boticário», deu nome à Rua 5 do Bairro do Caramão da Ajuda, e hoje liga a Rua Hermínia Silva e a Rua da Preta Constança.

José Maria Preto, foi um topónimo atribuído com a legenda «Barbeiro Popular», o que indica que o seu comércio era uma barbearia. Deu nome à Rua 11 do Bairro do Caramão da Ajuda, que começa na Rua Horta e Silva.

Os arruamentos do Bairro Social do Caramão da Ajuda foram cunhados com toponímia numérica pelo Edital municipal de 8 de fevereiro de 1949, como na época se usava fazer para os bairros sociais. Mas 40 anos mais tarde passaram a ter outras denominações no seguimento de uma resolução da Comissão Municipal de Toponímia para recuperar figuras populares e tradicionais para a toponímia da zona ocidental de Lisboa, conforme se pode ler na Ata da reunião: «Aberta a reunião, o presidente da Comissão informou ter recebido do Gabinete de Estudos Olisiponenses o estudo sobre a antiga toponímia dos arruamentos dos bairros do Caramão da Ajuda, Serafina e da G.N.R. que, a seu pedido, foi elaborado pela Dr.ª Eunice Relvas. A Comissão manifestou o seu apreço pelo valioso estudo apresentado, revelador de um trabalho de pesquisa que muito engrandece a sua autora e que contribuirá para uma desejável recuperação da toponímia mais tradicional de Lisboa.»  Assim, para além dos topónimos já referidos do boticário e do barbeiro, nos restantes arruamentos do Bairro ficaram a Rua da Preta Constança, a Rua Rainha das Ilhas das Cobras, a Rua Rainha do Congo, a Rua de Nossa Senhora da Ajuda, a Rua das Chaminés d’El-Rei, a Rua dos Vaga-Lumes, a Rua dos Archeiros, a Rua José Pinto Bastos e a Rua Pedro Augusto Franco.

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua dos Sapateiros do «Animatógrafo do Rocio»

O Animatógrafo na Rua dos Sapateiros, no ano da inauguração em 1907 (Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

O Animatógrafo na Rua dos Sapateiros, no ano da inauguração em 1907
(Foto: José Leitão Bárcia, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Rua dos Sapateiros surgiu com esta configuração espacial na reconstrução da Baixa Pombalina de traçado retilíneo e ortogonal, após o terramoto de 1 de novembro de 1755, e como topónimo nasce por via da Portaria de D. José I de 5 de novembro de 1760, o primeiro diploma que tratou exclusivamente de matéria toponímica em Lisboa.

Cinegrafia, 2 de maio de 1929

Cinegrafia, 2 de maio de 1929

Nesta artéria foi inaugurado 147 anos depois, em 8 de dezembro de 1907, o  Animatógrafo do Rossio,  a primeira sala de cinema com arquitetura da então novel Arte Nova de autor anónimo e então o Salão mais luxuoso da capital, propriedade da Correia & Correia. A partir de 1994 passou a funcionar como peep show e ainda hoje sobrevive enquanto espaço comercial de uma sex-shop.

A Portaria pombalina de 5 de novembro de 1760, assinada por D. José I,  atribuiu as 14 denominações das ruas da Baixa lisboeta, entre a Praça do Comércio e o  Rossio, na sequência da reconstrução da zona após o terramoto de 1755. A nomenclatura toponímica atribuída correspondeu também à fixação de artes e ofícios pelos arruamentos: Rua Nova d’El Rey [hoje, Rua do Comércio], Rua Augusta, Rua Áurea, Rua Bella da Rainha [hoje, Rua da Prata], Rua Nova da Princeza [hoje, Rua dos Fanqueiros] , Rua dos Douradores, Rua dos Correeiros, Rua dos Sapateiros, Rua de S. Julião, Rua da Conceição, Rua de S. Nicolau, Rua da Victoria, Rua da Assumpção e Travessa de Santa Justa [hoje, Rua de Santa Justa]».

Sobre os ofícios para a Rua dos Sapateiros define o diploma o seguinte: « Nesta Rua he a que medeia entre a Rua Augusta, e a Rua Aurea. Em hum lado della se devem arruar os sapateiros, porque só costumaõ arrar-se os que servem a Plebe; e o outro lado se deixar livre para os Misteres do Povo assima referidos.»

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do criador do Fado Armandinho

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Armando Freire, guitarrista de fado e criador do Fado Armandinho, que Artur Paredes muito considerava usando para isso a imagem de que era uma renda tudo o que ele tocava, está desde 2005 presente na toponímia de Lisboa a partir de uma proposta de Appio Sottomayor, enquanto membro da Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa.

A proposta de Appio Sottomayor foi aprovada por unanimidade na reunião da Comissão Municipal de Toponímia de 2 de maio de 2005, tendo ainda a Comissão emitido parecer de que a homenagem se estendesse aos fadistas Fernando Farinha e Fernando Maurício, e assim estas propostas foram aprovadas em sessão de câmara de 20 de maio de onde resultou o consequente Edital municipal de 01/08/2005 que fixou a Rua Armandinho na   Via 2 à Rua do Vale Formoso de Cima, junto com a Rua Fernando Farinha (Via 5 à Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima)  e a Rua Fernando Maurício (Via 3 à Rua do Vale Formoso de Cima), todos próximos e todos na freguesia de Marvila onde já estava colocado o primeiro fadista a aparecer na toponímia de Lisboa: Alfredo Duarte (Marceneiro).

armandinho_0001-2Armandinho tinha como nome de registo civil Armando Augusto Salgado Freire (Lisboa/11.10.1891-21.12.1946/Lisboa)  e nasceu no Pátio do Quintalinho junto à Rua das Escolas Gerais, tendo-se distinguido como excelente executante da guitarra portuguesa, criador de estilos e compositor de fados que se tornaram imortais tais como o Fado Armandinho (a sua primeira composição, de 1910), o Fado do Bacalhau (para teatro de revista), o Fado do Cívico (para a  revista Torre de Babel em 1917), o Fado Conde da Anadia, o Fado Estoril, o Fado Fontalva, o Fado Peniche (que se tornou um hino para os que aí estavam presos), o Fado Mayer ou o Fado São Miguel (composto nos Açores no Natal de 1933), entre muitos outros. Armandinho fez a ponte entre duas eras do Fado: a do séc. XIX de conotação marginal e trágica e a do séc. XX de grande popularidade do género.

Em 1914, já Armandinho tocava de ouvido e tornou-se discípulo do célebre Luís Petrolino após o que se estreou como guitarrista profissional no Olímpia Club, na Rua dos Condes, embora tenha mantido em paralelo outros trabalhos  como sapateiro, operário da Companhia Nacional de Fósforos, servente do Casão Militar ou fiscal do Mercado da Ribeira.

O seu estilo fez escola e nela se filiaram outros grandes nomes como Carvalhinho, Fontes Rocha, Jaime Santos, José António Sabrosa, José Marques Piscalareta,  José Nunes, Raúl Nery ou Salvador Freire. As suas interpretações na guitarra tinham tal força que inspiraram ao poeta Silva Tavares as seguintes quadras:

A guitarra – alma da raça,
Amante do meu carinho,
Tem mais perfume e desgraça
Nas mãos do nosso Armandinho.
Benditos os dedos seus
Que arrancam assim gemidos
Tal como se a voz de Deus
Falasse aos nossos ouvidos.

Armandinho, considerado génio da guitarra portuguesa pelo seu dedilhar exímio, acompanhou inúmeras vozes fadistas das décadas de vinte e trinta do séc. XX, quer em palcos, quer em casas de fado como o Solar da Alegria ou o Café Luso, quer em gravações discográficas, como Adelina Ramos, Alberto Costa,  Ângela Pinto, Berta Cardoso, Madalena de Melo, Maria do Carmo Torres, Maria Vitória ou a Santa do Fado Ercília Costa.  Foi dos primeiros a realizar digressões artísticas fora de Portugal nos anos 20 do séc. XX e percorreu também  casas particulares, como as da Família Burnay, Fontalva ou Castelo Melhor.

Em 1926, Armandinho fez a primeira gravação em Portugal em microfone de bobine eléctrica móvel, tendo gravado 6 composições. E dois anos depois, gravou um conjunto de Fados, variações em tons diferentes e uma marcha, no Teatro São Luiz, para um 78 rpm. Refira-se ainda que Armandinho foi em 1927  um dos membros fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, onde procedeu à  recolha de muitas melodias de Fado indexadas pelos seus autores o que permite nos nossos dias termos acesso a essas melodias. Em 1930, Armandinho também abriu o seu próprio espaço no Parque Mayer, o Salão Artístico de Fados, onde tocou durante alguns anos.

Armandinho faleceu na sua casa, na Travessa das Flores, junto ao Campo de Santa Clara, tendo o  jornal Guitarra de Portugal feito capa do sucedido sob a ideia do Fado de luto.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

O fado de Marceneiro ou Ti Alfredo numa rua de Marvila

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

Cerca de um mês e meio após o seu falecimento, o considerado Rei do Fado, Alfredo Marceneiro, foi inscrito como Alfredo Duarte (Marceneiro) na Rua J5 da Zona J de Chelas, por  Edital municipal de 12/08/1982, a partir de uma sugestão do cidadão Manuel Gonçalves Rosa endereçada à edilidade, sendo a primeira vez que o Fado se fixou na toponímia de Lisboa.

O fadista alfacinha Alfredo Rodrigo Duarte (Lisboa/29.02.1888 – 26.06.1982/Lisboa), o primeiro filho do casal Gertrudes da Conceição e Rodrigo Duarte, nascido na Travessa de Santa Quitéria, que ficou mais conhecido como Alfredo Marceneiro ou Ti Alfredo para os amigos, trabalhou como aprendiz de encadernador logo aos  13 anos, após o falecimento do seu pai, numa oficina da Rua da Trindade. Nas cegadas de rua conheceu Júlio Janota que era marceneiro e lhe arranjou lugar como seu aprendiz numa oficina em Campo de Ourique, de onde transitou para as oficinas de Diamantino Tojal na Vila Berta e depois para as Construções Navais no Arsenal do Alfeite, tendo Alfredo apenas deixado a profissão em 1946, para se tornar profissional do fado em exclusivo,  conservando porém em casa o banco de marceneiro e as ferramentas com que se entretinha a fazer trabalhos, um dos quais, A Casa da Mariquinhas,  inspirado na letra de Silva Tavares, e que está exposta no Museu do Fado.

Paralelamente, era cantador em festas de beneficência e em verbenas, entre os 14 e aos 17 anos. Depois começou a cantar em festas de solidariedade e nos retiros do Caliça e do Bacalhau em Benfica, José dos Pacatos na Estrada de Sacavém, Cachamorra ao Campo Grande, Baralisa e Romualdo, mas foi no 14 do Largo do Rato que se tornou mais conhecido, não dispensando a forma aprumada de vestir com gravata ou laço, sendo  por isso conhecido como Alfredo Lulu. Em 1924, participou num Concurso de Fados do Sul-América, na Rua da Palma e  ganhou a Medalha de Ouro. Nesse mesmo ano cantou durante dois meses no Chiado Terrasse para animar as noites de cinema. Só em 1930, por ocasião de uma festa no Club Montanha (no nº57 da Rua da Glória), seria lançado com o nome artístico de Alfredo Marceneiro, lançando a moda de cantar de pé e à luz das velas que ele próprio cantou no poema de Armando Neves:

Orgulho-me de ser em toda a parte
Português e fadista verdadeiro,
Eu que me chamo Alfredo, mas Duarte
Sou para toda a gente o Marceneiro

Ao longo da sua vasta carreira, em que se torna um dos fadistas maiores por dividir os versos cantados de forma a não permitir que as pausas musicais interrompessem o sentido das orações, Marceneiro que acabou por tornar o lenço de seda ao pescoço e as mãos nos bolsos a sua imagem de marca, exibiu-se em casas como o Nova Sintra (Calçada de Carriche), o Ferro de Engomar (na Estrada de Benfica), o Clube Olímpia, onde esteve com Armandinho, a Boémia (na Rua dos Correeiros no troço que foi conhecido como Travessa da Palha),  a Viela (na Rua das Taipas), o Solar da Alegria (Praça da Alegria, 56), a Márcia Condessa (Praça da Alegria, 38), o Júlio das Farturas no Parque Mayer,  A Parreirinha de Alfama (Beco do Espírito Santo),  A Cesária  e O Timpanas (Rua Gilberto Rola),  o Retiro da Severa (Rua António Maria Cardoso), o Café Mondego, A Severa (Rua das Gáveas), o Faia (Rua da Barroca), a Adega Machado e A Tipóia (Rua do Norte), a Adega Mesquita (Rua Diário de Notícias),  ou o Solar da Hermínia ( Rua da Misericórdia).  Chega mesmo a ter a sua própria casa no final da década de 1940, o Solar do Marceneiro, ao fundo da Calçada de Carriche, sem nunca se cingir apenas a cantar diariamente nesse espaço, sendo mesmo consagrado Rei do Fado no Café Luso ( Travessa da Queimada), a 3 de janeiro de 1948.

Gravou o primeiro disco em 1930 para a Casa Cardoso e passou depois a a ser artista privativo da Valentim de Carvalho, onde lançou 4 LP’s e 3 EP’s.  O seu estilo ficou vincado na Marcha do Alfredo Marceneiro, como em A minha freguesiaAmor de Mãe, Bêbado Pintor, Cabecita Louca, É tão bom ser pequenino,  Fado BailadoFado Balada, Fado Cravo, Fado CUF, Fado Laranjeira, Fado Pierrot, Foi na Velha Mouraria, O Pagem, Há Festa na Mouraria,  IroniaLembro-me de ti, Mocita dos Caracóis, Mouraria, Quadras SoltasSenhora do Monte.

Alfredo Marceneiro cantou também no Teatro, subindo ao palco do Coliseu dos Recreios, em 1930, na opereta História do Fado, com Beatriz Costa e Vasco Santana e passou depois também pelas tábuas do São Luiz, do Avenida, do Apolo, do Éden – Teatro, do Capitólio, do Politeama, ou do Maria Vitória. Para o cinema, gravou em 1939, atuações com Berta Cardoso, no Teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado, para o filme  Feitiço do Império de António Lopes Ribeiro (que esteve em exibição de 1940 a 1952). Para a  televisão, o fadista também só apareceu esporadicamente: uma reportagem em 1969,  um programa gravado para  a RTP em 1979 e editado 28 anos depois em DVD.

A 25 de maio de 1963, realizou-se  no Teatro S. Luiz A Madrugada do Fado – Consagração e despedida do Grande Artista Alfredo Duarte Marceneiro e todavia, Alfredo Marceneiro continuou a cantar durante quase mais duas décadas. Em junho de 1980 foi homenageado no Teatro de S. Luiz  pela Câmara Municipal de Lisboa, recebendo a Medalha de Ouro da Cidade. A título póstumo, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1984) e em  1991, no centenário do seu nascimento, foi lançado o duplo álbum O melhor de Alfredo Marceneiro e foi exibido na RTP o documentário Alfredo Marceneiro é só Fado.

Alfredo Marceneiro passou os últimos anos da sua vida na que foi a sua casa desde novo, no nº2 do pátio da Rua da Páscoa, nº 49.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do poeta setecentista Domingos dos Reis Quita

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O cabeleireiro e poeta setecentista Domingos dos Reis Quita, que viria a ser uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana, foi perpetuado na Rua 8 do Bairro dos Aliados, na sua 2ª fase de colocação de topónimos neste Bairro, no ano de 1932.

Pela deliberação camarária de 23 de março de 1932 e edital de 31 do mesmo mês, haviam sido colocados no Bairro dos Aliados o jornalista Alberto Pimentel na Rua 3, o escritor Marcelino de Mesquita na Rua 6, o magistrado José Acúrcio das Neves na Rua 7 e Domingos dos Reis Quita na Rua 5, onde desde 12 de junho de 1926 estava o mecenas republicano das Escolas Móveis, Casimiro Freire, pelo que houve necessidade de corrigir  a situação, o que aconteceu pela deliberação camarária de 7 de abril e Edital de 12 de abril de 1932 sendo o poeta recolocado na Rua 8, a ligar a Rua B entre a Rua Barão de Sabrosa e a Praça Elíptica projetada (depois, Rua Veríssimo Sarmento) à Rua Egas Moniz.

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta Domingos dos Reis Quita (Lisboa/06.01.1728 –  26.08.1770/Lisboa) exerceu desde os 13 anos o seu ofício de cabeleireiro mas também se revelou um autodidata empenhado na literatura, tendo começado por recitar versos aos fregueses, até que  com o apoio dos seus amigos Correia Garção e Cruz e Silva, sob o nome pastoril de Alcino Micénio  se tornou uma das maiores figuras da Arcádia Lusitana (fundada em 1756 em Lisboa)  e ganhou como mecenas o Conde de São Lourenço.

Da Arcádia Lusitana fizeram parte  Correia Garção (1724-1772), Cruz e Silva (1731-1799),  Francisco José Freire (1719-1773), a que se seguiu a Nova Arcádia com Bocage (1765-1805), Filinto Elísio (1734-1819), a Marquesa de Alorna (1750-1839) e Nicolau Tolentino (1740-1811).

Enquanto representante do bucolismo, Domingos dos Reis Quita além da profícua obra poética que publicou em 2 volumes em 1766 ( Obras Poéticas), ainda escreveu  o drama pastoril Licore e mais quatro tragédias:  Mégara, Hermíone, Astarto e a sua versão de A Castro.

Faleceu de tuberculose passando os seus últimos dias aos cuidados da filha de um amigo seu e aquela que havia amado e cantado em versos de um lirismo pungente, sob o pseudónimo de Tirceia, Teresa Teodora de Aloim, mulher que casada, viúva, e recasada, sempre protegeu e recolheu o poeta.

Deixamos um soneto de Domingos Reis Quita:

Ao longo de uma praia um triste dia,/Já quando a luz do sol se desmaiava,/O saudoso Alcino caminhava/Com seus cuidados só por companhia. 

Os olhos pelas águas estendia,/Porque alívio a seu mal nelas buscava,/E entre os tristes suspiros que exalava,/Em lágrimas banhado assim dizia:

Os suspiros, as lágrimas que choro/Levai, ondas, levai, ligeiro vento,/Para onde me levastes quem adoro.

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,/Que me torneis o bem, só vos imploro,/Que pusestes em longo afastamento.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

O Beco e a Travessa da Ferrugenta

A Travessa da Ferrugenta - Freguesia da Ajuda (Foto: Sérgio Dias)

A Travessa da Ferrugenta – Freguesia da Ajuda
(Foto: Sérgio Dias)

Na Ajuda, um Beco e uma Travessa colocam uma mulher, Ferrugenta de alcunha, na toponímia desta Freguesia.

A Travessa foi herdada do Concelho de Belém após a sua extinção, em 18 de junho de 1885, e que a Câmara Municipal de Lisboa oficializou 31 anos depois, pelo Edital de 26/09/1916, embora num documento municipal de 10/11/1897 sobre a canalização de esgoto na zona da Ajuda já apareça mencionada como Travessa da Ferrugenta. O Beco pode ter surgido depois e assimilado a mesma denominação por proximidade.

De acordo com Teresa Sancha Pereira, na sua comunicação «A Toponímia durante a I República» apresentada nas II Jornadas de Toponímia de Lisboa, a Ferrugenta era uma antiga moradora do local, Leonor Maria, padeira de Sua Majestade, que assim ficou conhecida por ter enviuvado de um homem cujo apelido era Ferrugento. A proximidade destas artérias à Real Barraca de 1755, ao Paço velho (onde em 1777 faleceu D. José I) e depois Palácio da Ajuda (a partir do plano de 1802) também parece ajudar a revelar porque foram aqui fixados estes topónimos.

Se analisarmos os registos paroquiais da Ajuda encontramos três Leonor Maria no final do séc. XVIII : uma que casou em 1798 com João Simões (Livro: 12-C, Folha: 46), outra que casou em 1798 com José Rodrigues (Livro: 12-C, Folha: 68) e uma terceira que em 1799 casou com Joaquim António da Silva (Livro: 12-C, Folha: 96).

Certo é que o topónimo existia como Travessa da Ferrugenta em 1832 já que o jornal  Gazeta de Lisboa de 28 de abril desse ano, publicitou uma arrematação de propriedades da artéria que faz quina para a travessa da Ferrugenta , nº 24 a 27.

Contudo, Appio Sottomayor no seu artigo «Toponímia de Lisboa, essa nossa familiar», publicado na revista Aldraba de 29 de novembro de 2014, defende antes que «Assim, existiu há muito na Ajuda uma loja de ferro-velho. O povo chamava-lhe o ferrugento. Como o proprietário morresse e ficasse a viúva a gerir, a Ferrugenta ganhou foros de personalidade e ainda hoje lá existem a travessa e o beco da Ferrugenta.» E nos registos paroquiais da Ajuda encontramos um Joaquim de Abreu Ferrugento que em 7 de março de 1812 casou com D. Maria Rita (Livro: 13-C, Folha: 344).

Fica-nos a pergunta : seria a Ferrugenta uma padeira ou a herdeira de uma loja de ferro-velho?…

Freguesia da Ajuda (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Ajuda
(Planta: Sérgio Dias)

A Travessa do Pasteleiro da Madragoa

Freguesia da Estrela - Placa Tipo II (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela – Placa Tipo II
(Foto: Sérgio Dias)

A Travessa do Pasteleiro, no Bairro da Madragoa, liga a Rua da Esperança à Rua do Machadinho e presume-se que nela tenha residido um mestre deste ofício para gerar tal topónimo.

O olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, na sua Lisboa de Lés-a-Lés, defende a antiguidade da artéria por já aparecer referida no Livro IV de Óbitos da Freguesia de Santos-o-Velho de 1695, mas até admite que possa ser anterior a esta data. Filipe Folque, no seu Atlas da Carta Topográfica de Lisboa, de 1856, já incluiu a Travessa do Pasteleiro e cinco anos depois, com datas de 23 de março a 10 de abril de 1861 já encontramos os planos de dois prédios que Francisco Machado pretendia construir no n.º 50 a 52 desta Travessa, tal como datado de 1875 aparece um parecer da Comissão de Obras e Melhoramentos da CML para o alargamento da artéria.

Este arruamento foi encurtado em 1859 já que o Edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro determinou que a parte da Travessa do Pasteleiro compreendida entre as esquinas do Caminho Novo (denominação setecentista que desde a publicação do Edital municipal de 28/08/1950 identificamos como Rua das Francesinhas) e Rua do Machadinho e a extremidade superior que entesta com a Rua do Quelhas, fosse englobada nesta última Rua.

Ainda segundo Pastor de Macedo, morou nesta artéria José Maria Anchieta, pai de José Alberto de Oliveira Anchieta que dá nome a uma rua do Chiado e teve aqui a sua barbearia o poeta Domingos dos Reis Quita. Sabe-se também que na esquina da Travessa do Pasteleiro com a hoje Rua das Francesinhas foi inaugurado em 1852 um Lavadouro Municipal.

E finalmente, também a ligar esta artéria à gastronomia temos ainda nos nossos dias, no nº 32, a Torrefação de Cafés Flor da Selva, ali instalada desde 1966, com torra a lenha.

Freguesia da Estrela (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Estrela
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do fundador da 1ª associação mutualista portuguesa, Fernandes da Fonseca

Freguesia de Santa Maria Maior (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Foto: Sérgio Dias)

A antiga Carreirinha do Socorro passou no final do século XIX, através do Edital municipal de 20/07/1888, a designar-se Rua Fernandes da Fonseca para, de acordo com Norberto de Araújo, perpetuar «a memória do fundador da Sociedade de socorro mútuo dos Artistas Lisbonenses» ou Associação dos Artistas Lisbonenses, uma associação operária mutualista que foi a primeira no nosso país, fundada  em 3 de fevereiro de 1839 por Alexandre Fernandes da Fonseca e 19 operários, com o intuito de apoiar os operários na velhice, na doença e no desemprego.

Em 1851, por ocasião do 12º aniversário da Sociedade dos Artistas Lisbonenses, os seus estatutos foram publicados na Revista Universal Lisbonense, publicação que contou mesmo entre os seus colaboradores  com alguns membros da associação. No ano seguinte, o jornal fez também notícia do aniversário da associação e deu conta que a mesma somava já 448 sócios, sendo presidente o Sr. Chaves, serralheiro de profissão.

Diário Ilustrado, 28.02.1898

Diário Ilustrado, 28.02.1898

Alexandre Fernandes da Fonseca (Aldeia do Bispo- Guarda/28.02.1798- 05.05.1860/Lisboa), o impulsionador da Sociedade dos Artistas Lisbonenses, a que ele chamava a sua «filha querida» e que mais tarde tomou o seu nome, viera para Lisboa em 1823, tendo trabalhado num dos 4 estabelecimentos de António Marrare em Lisboa – eram cafés junto ao Teatro de São Carlos, no Cais do Sodré, no Chiado e na Rua dos Sapateiros -, para no ano de 1832 se estabelecer por conta própria. Findas as guerras liberais foi nomeado fiscal dos trabalhos da Casa Real (em 1834) e depois, apontador-geral das obras feitas para a Câmara dos Pares em São Bento e para o Paço das Necessidades. A partir de 3 de abril de 1855 desempenhou as funções de porteiro e de almoxarife no Palácio de Queluz. Fernandes da Fonseca foi sepultado no túmulo de Veríssimo José Baptista, no Cemitério dos Prazeres.

Freguesia de Santa Maria Maior (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Santa Maria Maior
(Planta: Sérgio Dias)