A Rua Elina Guimarães, Mulher de Liberdade

Freguesia de Santa Clara

Apelidada «Mulher de Liberdade», a jurista Elina Guimarães foi durante toda a sua vida uma incansável defensora dos Direitos da Mulher e está perpetuada na Freguesia de Santa Clara, no que era o Impasse B à Estrada do Desvio, como Rua Elina Guimarães, com a legenda «Jurista – Escritora/1904 – 1991», desde a publicação do Edital municipal de 12 de novembro de 1991, cerca de cinco meses após a sua morte.

Neste particular artigo sobre a Rua Elina Guimarães, este topónimo surge em representação de tantas mulheres que defenderam os direitos das mulheres e integraram o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, estando também presentes na toponímia de Lisboa.

Elina Júlia Pereira Guimarães da Palma Carlos (Lisboa/08.08.1904 – 24.06.1991/Lisboa) aderiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas desde os seus 20 anos, então a  única associação feminista do país e que o Estado Novo encerrou em 1947. Elina Guimarães lá desempenhou as funções de Secretária-geral (1927), Vice-Presidente da Direção (1928, 1929 e 1931), Vice-Presidente da Assembleia Geral (1946), responsável pela Seções Jurídica e do Sufrágio e diretora do Alma Feminina, órgão do CNMP,  entre 1929 e 1930. No decorrer da sua vida integrou também a International Council of Women, a International Aliance of Women’s Sufrage, e a Fédération Internationale des Femmes Diplomées en Droit, tendo recebido o epíteto de «Mulher de Liberdade», também considerando a sua participação em inúmeras conferências a favor da liberdade de expressão tanto no nosso país como no estrangeiro. Elina é uma precursora do chamado feminismo jurídico que segundo a própria se define como «Nome que afoitamente podemos dar àquela corrente doutrinária que impõe e preconiza a igualdade dos sexos perante a lei.»

Elina Guimarães escreveu em diversos jornais e revistas sobre assuntos referentes aos direitos das mulheres, tanto quanto a censura o permitia, assim como sobre questões jurídicas nas revistas especializadas, para além de ter publicado os seus livros  O poder maternal (1933),  A lei em que vivemos – noções de direito usual relativo à vida feminina (1937), Guilherme de Azevedo em família (1940), A condição jurídica da mulher no direito de família perante as Nações Unidas (1962), Coisas de Mulheres (1975) e Mulheres portuguesas ontem e hoje (1979). Os seus conhecimentos dos direitos das mulheres do ponto de vista jurídico foram essenciais para despertar e informar muitas gerações de mulheres sobre os seus direitos. Ficou célebre o seu artigo de 1922 no  jornal Vida Académica a contradizer o sexismo e machismo de Júlio Dantas.

Na prática também interveio filiando-se no MUD – Movimento de Unidade Democrática em 1945; participando no Congresso Republicano e Democrático de Aveiro  em 1969 e no Congresso da Oposição Democrática em 1973, integrando a sua Comissão Nacional. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974 assumiu a presidência da Liga de Direitos Cívicos da Mulher e foi membro de honra da Federação Internacional das Mulheres (FDIM).

Elina era filha de  Alice Pereira, sobrinha do poeta Guilherme de Azevedo, e de Vitorino Máximo Guimarães, oficial do Exército, professor universitário e ainda deputado e ministro durante a Primeira República. Estudou em casa, depois no Liceu e licenciou-se na Faculdade de Direito de Lisboa em 1926, com 18 valores, tendo dois anos depois casado com o seu condiscípulo Adelino da Palma Carlos, com quem teve dois filhos, Antero e Guilherme.

Em 1985, foi condecorada pelo Presidente da República, António Ramalho Eanes, com a Ordem da Liberdade,  por ocasião do encerramento da Década Internacional da Mulher juntamente com outras 6 mulheres que «promovendo a melhoria e a dignificação da condição feminina, melhoraram e dignificaram a condição humana». Também o Conselho Geral da Ordem dos Advogados, entidade que detém o Fundo Drª Elina Guimarães, criou em 2016 o prémio Elina Guimarães, para distinguir anualmente personalidades e/ou entidades nacionais que se tenham destacado na defesa dos direitos das mulheres e na defesa da igualdade de género.

Freguesia de Santa Clara
(Planta: Sérgio Dias | NT do DPC )

A Avenida do autor da Lei de abolição da pena de morte, Barjona de Freitas

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Avenida Conselheiro Barjona de Freitas perpetua o nome do ministro da Justiça que elaborou a proposta de Lei para abolição da pena de morte em 1867 – e cujos 150 anos se comemoram justamente neste mês -, atribuída ainda em vida do legislador e 30 anos após a promulgação dessa Lei.

Esta proposta de abolição da pena de morte foi aprovada por 90 votos contra dois  nas cortes gerais, no âmbito de uma reforma penal e das prisões, em 26 de junho de 1867, tendo sido promulgada pelo rei D. Luís I cinco dias mais tarde, em 1 de julho de 1867, tornando assim o ministro e o monarca os dois principais responsáveis políticos pela abolição da pena de morte em Portugal. A Carta de Lei de 1 de julho de 1867 aboliu a pena de morte para todos os crimes civis em Portugal, tendo sido o primeiro Estado soberano da Europa a fazê-lo. Para os crimes políticos, tinha sido já abolida em 1852.

Barjona de Freitas, o reformador do Código Penal sem pena de morte em 1867, desde 1897 que passou a dar o seu nome à  «a avenida que conduz da estrada de Bemfica, ao apeadeiro de S. Domingos, na via ferrea de Cintra, no 3º bairro d’esta cidade», através do Edital municipal de 10 de setembro, como Avenida Conselheiro Barjona de Freitas. A legenda «Jurisconsulto/1834 – 1900» foi acrescentada já no séc. XX, mais de 50 anos depois da atribuição do topónimo, na sequência de um parecer da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, emitido na sua reunião de 4 de junho de 1957.

O Ocidente, 15 de fevereiro de 1878

Augusto César Barjona de Freitas (Coimbra/13.01.1834 – 23.07.1900/Lisboa), nasceu filho de Maria Leocádia Barjona e de Justino António de Freitas e tornou-se catedrático de Direito da Universidade de Coimbra embora tenha acabado por trocar o ensino pela política. Filiou-se no Partido Regenerador e foi eleito deputado em 1864. Entrou no Governo da Fusão de Joaquim António de Aguiar (1865-1868), tomando posse da pasta da Justiça que também deteve mais tarde com Fontes Pereira de Melo (1871-1876) e, ainda mais duas vezes, em 1878 e em 1885, para além de ter sido Ministro do Reino de 24 de outubro de 1883 a 20 de fevereiro de 1886.

Como legislador, para além da reforma do Código Penal com a abolição da pena capital, trabalhou também nas novas Bases Municipais, na reorganização judicial e administrativa do país, na dotação do Clero e, ainda estabeleceu a representação por maioria na Lei eleitoral.

Barjona de Freitas desempenhou ainda os cargos de Conselheiro do Rei (1885) com D. Luís I, ministro plenipotenciário em Londres para negociar o diferendo sobre o mapa cor-de-rosa (1890), Presidente da Câmara dos Pares (de 1892 a 1894), Presidente do Conselho Administrativo da Companhia do Gás, advogado da Companhia dos Tabacos e da Exploração das Obras do Porto de Lisboa.

Freguesia de São Domingos de Benfica                                            (Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Praça António Sardinha que não passou a Praça Maria Pimentel Montenegro

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

O poeta e rosto do Integralismo Lusitano António Sardinha, colocado como topónimo lisboeta em 1932, e numa Praça desde 1951, recebeu após o 25 de Abril  um pedido para que fosse substituído pela poetisa Maria Pimentel Montenegro, que já era topónimo desde março de 1974 numa rua de Benfica pelo que não sucedeu modificação alguma.

O caso ocorreu logo na 1ª reunião da 1ª Comissão Municipal de Toponímia pós-25 de Abril, em 15 de novembro de 1974, a partir de uma carta de Branca Alvarez Lopes a propor à edilidade a troca do topónimo Praça António Sardinha para Praça Maria Pimentel Montenegro. Como desde a publicação do Edital municipal de 4 de março de 1974, a artéria que ligava a Rua Dr. João de Barros a uma parte da Rua K já era a Rua Maria Pimentel Montenegro, a Comissão entendeu «que o pedido não é de considerar, porquanto, o nome de Maria Pimentel Montenegro está já consagrado num arruamento da zona de Benfica e quanto à substituição do nome de António Sardinha, deverá aguardar-se maior manifestação popular nesse sentido.»

António Sardinha havia sido consagrado pelo Edital de 31 de março de 1932  na Rua H do plano de  arruamentos da Quinta da Marquesa de Abrantes, em Marvila, aprovado em sessão de 15 de maio de 1930, mas o arruamento nunca chegou a ser executado, como os outros que integravam o plano, pelo que o seu nome voltou a ser dado à Praceta nº 1 da Rua da Penha de França, compreendida entre os nºs 150 e 152 da Rua da Penha de França, através do Edital municipal de 10/01/1951, onde permaneceu até aos dias de hoje.

Política, 10 de janeiro de 1930

O homenageado é António Maria de Sousa Sardinha (Monforte/09.09.1887-10.01.1925/Elvas), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, época em que defendeu a implantação da República em Portugal,  para a partir de 1912 se tornar o mentor do Integralismo Lusitano assim como deputado monárquico durante o consulado de Sidónio Pais. A sua obra de cariz doutrinário, define o Integralismo Lusitano como um pensamento político que conjuga a defesa da monarquia, do nacionalismo e do catolicismo, como mostram os seus ensaios O Valor da Raça (1915), A Questão Ibérica (1916), Ao Princípio Era o Verbo A Aliança Peninsular (ambos em 1924), Ao Ritmo da Ampulheta e Teoria das Cortes Gerais (ambos em 1925).

O seu pensamento político teve como órgãos de divulgação as revistas Nação Portuguesa (1914) e A Monarquia (1917), ambas co-fundadas por António Sardinha, com Alberto de Monsaraz, Hipólito Raposo, Luiz de Almeida Braga e Pequito Rebelo no primeiro caso. O seu pensamento antirrepublicano e nacionalista encontrou eco em alguns dos defensores do Estado Novo.

Como poeta, António Sardinha fundiu saudosismo com os valores integralistas lusitanos, tendo publicado Tronco Reverdecido (1910), A Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1921), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), para além dos póstumos Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931) e Pequena Casa Lusitana (1937).

Após a morte de Sidónio Pais e o fracasso do movimento da Monarquia do Norte António Sardinha exilou-se em Espanha, no período de 1919 a 1921. De volta a Portugal dirigiu o diário A Monarquia e colaborou no quinzenário A Farça e na revista Lusitania, até falecer aos 37 anos.

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua do poeta Gonçalves Crespo

Capa da revista Occidente, 21 de junho de 1883

Capa da revista Ocidente, 21 de junho de 1883

Junto à Rua do Conde de Redondo está desde 1902, através da publicação do Edital de 11 de dezembro, a Rua Gonçalves Crespo, que 19 anos após o seu falecimento perpetuou o poeta nascido no Brasil, filho de uma escrava mulata (Francisca Rosa da Conceição) e de um negociante português (António José Gonçalves Crespo), cujos poemas chegaram a ser reproduzidos em postais e leques, em Portugal e no Brasil, como o seguinte:

Amar e ser amado, que ventura!
Não amar, sendo amado, triste horror:
Mas na vida há uma noite mais escura,
É amar alguém que não nos tenha amor!

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro/11.03.1846 – 11.06.1883/Lisboa)  veio residir para Portugal a partir dos 10 anos de idade. Seguiu para Coimbra onde se formou em Direito e nessa cidade também se iniciou na literatura, como colaborador de A Folha, fundada em 1868 por João Penha, onde colheu a sua influência parnasiana. Foi o autor de Miniaturas (1870) e Nocturnos (1882), expressando-se em poemas com reminiscências da vida familiar e cenas do quotidiano. Quatorze anos após o seu falecimento, em 1897, foram também editadas as suas Obras Completas, que em 1942 tiveram reedição com honras de prefácio de Afrânio Peixoto e capa de Maria Helena Vieira da Silva.

Gonçalves Crespo foi ainda deputado pela Índia, nas legislaturas de 1879 e 1882, e trabalhou no Diário da Câmara dos Pares, assim como colaborou no Jornal do Comércio, Artes e Letras, Cenáculo e na revista Ocidente.

Ainda estudante, casou-se com Maria Amália Vaz de Carvalho em 1874, que conhecera por um diálogo literário mantido por correspondência. Em conjunto com ela escreveu Contos para os Nossos Filhos que publicaram em 1886. O casal viveu a partir de 1875 no nº 7 da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, onde Gonçalves Crespo faleceu vítima de tuberculose, e a Câmara Municipal de Lisboa colocou em outubro de 1934 uma lápide evocativa de ambos na fachada do prédio.

Como curiosidades, refira-se que a Sociedade Portuguesa de Autores tem sede na Rua Gonçalves Crespo e que existe uma artéria homónima da lisboeta no Bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Freguesia de Arroios (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Arroios
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua do republicano João de Menezes

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

João de Menezes, deputado e ministro da República, deu nome à Rua 4 do Bairro dos Aliados em 1926, com a legenda «Precursor do Regime Republicano/Século XIX» devido ao seu envolvimento no 31 de Janeiro.

Foi pela deliberação da Comissão Executiva da Câmara de 12 de junho de 1926  e Edital municipal de dia 26 do mesmo mês que assim foi fixado, junto com a Rua Casimiro Freire na Rua 5, com a legenda «Apóstolo da instrução popular/Século XIX». Já antes, por deliberação camarária de 30 de dezembro de 1925 e Editais de 16 de janeiro e de 27 de janeiro de 1926 haviam sido colocados no Bairro dos Aliados Egas Moniz  na Rua 2 e o Actor João Rosa na Rua 1.

João de Menezes em 1900

João de Menezes em 1900

João Duarte de Menezes (Lisboa/22.04.1868 – 08.04.1918/Lisboa), formou-se em Direito na Universidade de Coimbra entre 1886 e 1895 e foi advogado em Lisboa e Porto, jornalista e deputado, sendo  desde 1881 um dos vultos importantes do partido republicano. Manifestou-se contra o Ultimato inglês, nas páginas do jornal A Pátria e participou no 31 de Janeiro, no Porto, tendo mesmo por causa dos seus ideais políticos sido preso por três meses no Limoeiro, em Lisboa. Pertenceu ainda à Maçonaria, iniciado em 1892 na loja Simpatia, com o nome de Oberdank.

Colaborou em vários jornais republicanos, como nos periódicos portuenses Voz Pública (de 1896 a 1899) e O Norte, que fundou em 1900.  Em 1903 fundou em Lisboa O Debate e foi secretário da redação do  A Luta (1910), dirigido por Brito Camacho. Foi eleito deputado  em 1906, 1908, 1910 e 1911 bem como Diretor-geral da instrução secundária em 1910 e 1911, para além de ter sido Ministro da Marinha (3 de setembro a 12 de novembro de 1911) no governo de João Chagas e em 1914, presidente do Supremo Tribunal Administrativo.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua Cândido de Figueiredo do Novo Dicionário da Língua Portuguesa

Cândido de Figueiredo em 1925 (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Cândido de Figueiredo em 1925
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Cândido de Figueiredo, o autor do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, que teve a sua primeira edição em 1899 e múltiplas reedições até à 25ª, enviou para Paul0 Plantier incluir no seu Cozinheiro dos Cozinheiros a receita de «Triunfos do tomate», e teve direito a ser nome de rua lisboeta cerca de sete anos após o seu falecimento.

Com a legenda «Filólogo e Escritor/1846 – 1925», Cândido de Figueiredo passou a topónimo de uma artéria da Freguesia de São Domingos de Benfica identificada como Rua B do projecto aprovado em sessão de 19/04/1928, no então «projectado bairro novo de Benfica», através da publicação do Edital municipal de 31 de março de 1932, acompanhado na Rua A pelo filólogo Gonçalves Viana e na Rua E pelo bibliógrafo Inocêncio Francisco da Silva ( estas Ruas A e E ainda em 1941  eram indicadas como a construir pelo que anos mais tarde este dois topónimos foram novamente atribuídos noutras artérias já executadas).

Freguesia de São Domingos de Benfica (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Foto: Sérgio Dias)

António Cândido de Figueiredo (Tondela- Lobão da Beira/19.09.1846 – 16.09.1925/Lisboa) foi um poeta, escritor e jornalista, que se distinguiu sobretudo como filólogo e lexicólogo, tendo sido o autor de um dos mais reputados dicionários da língua portuguesa, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, publicado em 1899 e que alcançou 25 edições sendo a última em 1996. Também fez parte da comissão que em 1911 definiu as bases ortográficas da língua portuguesa, junto com Carolina Michaëlis  e Leite de Vasconcelos.

Concluído o curso de Teologia (1867) no Seminário de Viseu, Cândido de Figueiredo formou-se em Direito (1874) em Coimbra, e acabou por fixar residência em Lisboa em 1876, onde foi advogado e professor do Liceu Central de Lisboa (1882) e chegou a subdirector-geral do Ministério da Justiça. Para além da sua obra poética e em prosa, de que destacarmos a sua Lisboa no ano 3000, obra de crítica social e institucional (1892), também publicou regularmente em revistas e jornais, sobretudo crónicas para abordar o uso correto da língua portuguesa. Fundou e dirigiu o periódico A Capital e foi redator do diário Globo, do jornal humorístico A Paródia de Rafael Bordalo Pinheiro sob o pseudónimo «O Caturra», e do  Diário de Notícias  com o pseudónimo de «Cedef».

Também traduziu numerosas obras de filologia e linguística e foi um dos sócios fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1876, para além de na Academia das Ciências de Lisboa ter sido eleito sócio correspondente (1874), eleito sócio efetivo (1915) e presidente até à data do seu falecimento.

Enquanto político, Cândido de Figueiredo foi Presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal (1875), governador civil do Distrito de Vila Real (1892-1893), secretário particular de Bernardino Machado como Ministro das Obras Públicas (1893), para além de ter sido eleito vogal do Conselho Superior de Instrução Pública (1887) em representação do professorado de ensino livre e nomeado  membro da comissão encarregada de rever a nomenclatura geográfica portuguesa pelo Ministério de Reino (1890).

E finalmente, temos os «Triunfos do tomate», receita de um vizinho de Cândido de Figueiredo:

«Diz o prolóquio que não há boa cozinha sem tomates, e diz um vizinho meu, a flor dos gulosos, que onde mais triunfa aquele belo fruto é no doce. E exemplifica: deitem-se tomates, bem lisos e pouco maduros, num alguidar, um quilograma deles, pouco mais ou menos. Escaldem-se e pelem-se com água a ferver, cortem-se em gomos, tire-se-lhes a pevide e ponham-se os gomos a escorrer. 

Num tacho que tenha meio litro de água, deite-se um quilograma de açúcar e deixe-se ferver até ao ponto de espadana. Seguidamente, deitem-se no mesmo tacho os gomos do tomate, bem escorridos, e deixem-se chegar ao ponto de doce de conserva. Quando este manjar tenha arrefecido, deite-se em pires e sirva-se.

Os paladares mais finos e mais autorizados são unânimes em que é uma delícia aquele pitéu. É de comer e chorar por mais.

Em testemunho de verdade, Cândido de Figueiredo »

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de São Domingos de Benfica
(Planta: Sérgio Dias)

Conde de Monsaraz, o poeta alentejano da Salada Primitiva, numa rua da Penha de França

Conde de Monsaraz em 1908 (de lenço sobre o casaco) (Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

Conde de Monsaraz em 1908 (de bigode branco)
(Foto: Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa)

António de Macedo Papança, o  poeta alentejano que para o Cozinheiro dos Cozinheiros de Paulo Plantier enviou a sua «Salada Primitiva», na sua qualidade de  Conde de Monsaraz dá nome a uma artéria da Penha de França, antes identificada como Rua nº 1 do Olival do Monte Alperche, desde que o Edital Municipal foi publicado em 18/07/1933, atribuindo também a legenda «Poeta/ 1852 – 1913».

António de Macedo Papança (Reguengos de Monsaraz/18.07.1852-17.07.1913/Lisboa), 1º visconde (decreto de 17/01/1884) e depois 1º conde de Monsaraz (decreto de 03/05/1890),  foi um poeta e político que ingressou no Partido Progressista em 1886, ao tempo liderado por Anselmo José Braamcamp e foi deputado eleito por Évora (1886), Par do Reino (1898) e embaixador-delegado ao Congresso da Paz em 1900, sendo em 1906 comendador de Santiago de Espada e no ano seguinte agraciado com a a grã-cruz da Ordem de Afonso XII de Espanha.

Freguesia da Penha de França (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Foto: Sérgio Dias)

Filho de um rico proprietário rural, o maior do concelho de Reguengo de Monsaraz, e formado bacharel de Direito em 1874 exerceu advocacia mas cedo se dedicou antes à poesia, de pendor naturalista, na qual já se iniciara enquanto estudante universitário. Privou com João Penha e Cesário Verde  e escolheu uma estética parnasiana que progressivamente foi passando para um exacerbado nacionalismo que é quase um prelúdio de António Sardinha. De entre as suas várias obras, destacam-se Crepusculares (1876), Catarina de Athayde (1880), Telas históricas (1882) e sobretudo, Musa Alentejana (1908).

Colaborou ainda em diversos jornais e revistas, como Brasil-Portugal, A Evolução, A Folha,  Ilustração Portuguesa, Renascença, Ribaltas e Gambiarras. Também traduziu diversas obras para o teatro e escreveu obras historiográficas de estilo naturalista e nacionalista. Foi sócio eleito da Academia Real das Ciências (1886) por proposta de Bulhão Pato, Pinheiro Chagas, Visconde de Benalcanfor e Vilhena Barbosa; da Academia Brasileira de Letras (1910),  da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Instituto de Coimbra.

Em 1888 casou com Amélia Augusta Fernandes Coelho Simões, filha de um grande proprietário e negociante da Figueira da Foz e membro do Partido Progressista, com quem teve um único filho, o jornalista e político Alberto de Monsaraz. Proclamada a República exilou-se na Suíça e depois em Paris voltando a Portugal em 1913 para depois falecer na véspera do seu 61º aniversário.

Em Lisboa, o Conde de Monsaraz viveu  na Rua Vítor Cordon, onde veio a falecer, e a Câmara Municipal de Lisboa no ano do seu centenário homenageou-o nesse prédio com o nº7, através de uma lápide evocativa,  descerrada em 18 de julho de 1952 numa cerimónia presidida pelo Vice-Presidente da CML, Luís Pastor de Macedo.

Freguesia da Penha de França (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia da Penha de França
(Planta: Sérgio Dias)

E finalmente, deixamos a receita da sua

SALADA PRIMITIVA

Leitor, se amas o campo e a natureza,
Se és bucólico e rude,
E na tua rudeza
Só respeitas a força e a saúde;
Se às convenções da sociedade opões
O desdém pelas normas e preceitos,
Que trazem pelo mundo contrafeitos
Cérebros e corações;
Se detestas o luxo e se preferes,
Francamente, às senhoras as mulheres,
E tens, como um pagão da velha Esparta,
Pulso rijo, alma ingénua e pança farta;
Se és algo panteísta e tens bem vivo
Esse afagado ideal
Do retrocesso ao homem primitivo,
Que nos tempos pré-históricos vivia
Muito perto do lobo e do chacal;
Se um ligeiro perfume de poesia
Que se ergue das campinas
Na paz, no encanto das manhãs tranquilas,
Te dilata as narinas
E enche de gozo as húmidas pupilas,
Leitor amigo, se assim és, vou dar-te
“Se a tanto me ajudar engenho e arte”
Uma antiga receita,
Que os rústicos instintos te deleita
E frémitos te põe na grenha hirsuta.

Leitor amigo, escuta:
Vai, como o padre-cura, cabisbaixo
Pelos vergéis da tua horta abaixo
Quando no mês de Abril, de manhã cedo,
O sol cai sobre as franças do arvoredo,
Para sorver aqueles bons orvalhos
Chorados pelos olhos das estrelas
Nos corações dos galhos;
Passarás pelas couves repolhudas
– Cuidado não te iludas,
Nem te importes com elas!
Vai andando…
Mas logo que tu passes
Ao campo das alfaces,
Pára, leitor amigo,
E faz o que te digo:
Escolhe dentre todas a mais bela,
Folhas finas, tenrinhas e viçosas
Como as folhas das rosas,
E enchendo uma gamela
De água pura e corrente,
Lava-a, refresca-a cuidadosamente.
Logo em seguida (e é o principal)
Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite
Um fiozinho de azeite,
Vinagre forte e sal,
E ouvindo em roda o lúbrico sussurro
Da vida ansiosa a propagar-se, que erra
Em vibrações no ar,
Atira-te de bruços sobre a terra
E come-a devagar,
Filosoficamente, como um burro!

A Rua Luís de Sttau Monteiro d’ «A Melga no Prato»

Freguesia de Marvila (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Foto: Sérgio Dias)

O escritor Luís de Sttau Monteiro, assinou crónicas gastronómicas sob os pseudónimos de Inspector Gourmet e  Manuel Pedrosa, e o seu nome faz o topónimo de uma rua de Marvila desde a publicação do Edital municipal de 26/12/2001, ligando a Rua António Gedeão à Rua João José Cochofel, com a legenda «Escritor 1926 – 1993».

Entre 1969 e 1975, sob o pseudónimo de Manuel Pedroso ou Pedrosa, Sttau Monteiro assinou crónicas gastronómicas no suplemento semanal A Mosca, do Diário de Lisboa, mesmo se com frequência eram mais um exercício literário do que uma verdadeira e rigorosa crítica de restaurantes. Já desde 1959 e até 1961, na revista mensal Almanaque, o escritor havia redigido crónicas sobre a mesma temática, desta feita sob o pseudónimo de Inspector Gourmet, podendo assim ser considerado um pioneiro neste tema. Luís de Sttau Monteiro ainda teve uma coluna sobre gastronomia em O Jornal, a partir de 1975, retomando o pseudónimo Manuel Pedrosa.

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Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro (Lisboa/03.04.1926 – 23.07.1993/Lisboa), filho do embaixador Armindo Monteiro que foi demitido por Salazar em 1943, é um dramaturgo incontornável do século XX português cujo carisma literário também se impôs no romance, na crónica e no jornalismo. Sttau escritor ergue uma obra literária em que critica, de uma forma impressiva e satírica, as contradições sociais e históricas da sociedade portuguesa das décadas de sessenta e setenta do século XX, com os romances Um Homem não Chora (1960), Angústia para o Jantar (1961), E se For Rapariga Chama-se Custódia, e o inédito Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão, a partir do qual foi produzida a telenovela Chuva na Areia, mais 9 peças: Felizmente há Luar! (de 1961 e Grande Prémio de Teatro da então Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses), Todos os Anos pela Primavera (1963), O Barão (adaptação da novela homónima de Branquinho da Fonseca em 1965), Auto da Barca do Motor Fora de Borda (1966), todas as quatro com representação proibida pela Censura; as peças satíricas A Guerra Santa e A Estátua que levaram a PIDE a prender o autor em 1967; e ainda As Mãos de Abraão Zacut (1968), Sua Excelência (1971) e Crónica Aventurosa do Esperançoso Fagundes (1978), concebida propositadamente para o Grupo 4 (Teatro Aberto).

Luís de Sttau Monteiro colaborou com inúmeros jornais sendo de destacar no Diário de Lisboa, a sua coordenação do suplemento dos sábados A Mosca, ou a sua coluna de crítica intitulada «Redacções da Guidinha», onde numa linguagem deliberadamente infantil e sem pontuação escrevia redações como uma miúda lisboeta de classe média-baixa  sobre a sua vida quotidiana embora versassem mesmo sobre o estado da nação e que foram publicadas em livro em 2002.

Viveu em Londres e em Lisboa, na Rua Coelho da Rocha nº 105.

Freguesia de Marvila (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

A Avenida Afonso Costa do Parque Eduardo VII para o Areeiro

 

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Afonso Costa que foi um dos Primeiros Ministros da I República e nessa qualidade acompanhou o Presidente da República, Bernardino Machado, em 1917, na visita às tropas portuguesas em França, ficou desde 1976 fixado numa Avenida lisboeta, embora no decorrer desse ano tenha passado do topo do Parque Eduardo VII para o Areeiro.

A Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, na sua reunião de 29 de junho de 1976, sugeriu  que Avenida Afonso Costa fosse o topónimo para o arruamento situado a Norte do Parque Eduardo VII, entre a Avenida Sidónio Pais e a Rua Castilho, artéria que hoje conhecemos por Alameda Cardeal Cerejeira (Edital municipal de 14/04/1982). No entanto, duas reuniões depois, em 30 de dezembro de 1976 passou o topónimo para «o arruamento que, partindo da Praça do Areeiro segue para Nascente e é vulgarmente designada por prolongamento da Avenida João XXI», com a legenda «Professor e estadista/1871 – 1937» e assim ficou registado pelo edital municipal desse mesmo dia. No ano seguinte, no dia 6 de março, o próprio Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Aquilino Ribeiro Machado, procedeu à inauguração desta Avenida que nos dias de hoje faz a ligação da Praça Francisco Sá Carneiro à Rotunda das Olaias.

Atlântida, 15.09.1916

Atlântida, 15.09.1916

Afonso Costa  foi Presidente do Ministério (hoje diríamos Primeiro Ministro) desde 1913 e assim continuava em 1917, tendo visitado as tropas do Corpo Expedicionário Português em França, de 8 a 25 de outubro, com o Presidente da República Bernardino Machado, quando Portugal tinha mais de 100 mil homens a combater  na I Guerra Mundial, sendo que cerca de metade defendiam as fronteiras de Angola e Moçambique desde  o verão de 1914, enquanto os outros 50 mil portugueses combatiam na Flandres.  Em dezembro de 1917, foi destituído como a tomada do poder por Sidónio Pais, mas em 28 de junho de 1919 chefiou a delegação portuguesa à Conferência de Paz e assinou em representação de Portugal o Tratado de Versalhes e recebeu a 10 de Julho a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada.

Afonso Augusto da Costa (Seia/06.03.1871 – 11.05.1937/Paris) licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra e  doutorado com a tese «A Igreja e a Questão Social» (1895), foi um advogado de prestígio e um dos juristas mais respeitados do seu tempo devido ao rigor da argumentação e a fundamentação das suas teses. Desenvolveu também uma carreira académica como professor na Universidade de Coimbra (de Economia Política e Organização Judiciária), na Escola Politécnica de Lisboa, na Faculdade de Direito de Lisboa – que fundou em 1913 e de que foi o primeiro diretor – e ainda, no Instituto Superior de Comércio (1915).

A sua participação política começara antes da proclamação da República, no Partido Republicano, tendo em 1890 publicado com António José de Almeida o jornal anti-monárquico Ultimatum e  participado na organização das revoltas de 31 de janeiro de 1891 e de 28 de janeiro de 1908 (em que foi preso). Distinguiu-se pelo ímpeto dos seus discursos contra o regime monárquico e como deputado pelo Partido Republicano (1899, 1906-1907, 1908 e 1910). Após a implantação da República  foi também deputado (de 1911 a 1926) e assumiu funções governativas como Ministro da Justiça (1910 e 1911), Ministro das Finanças (1913-1914 e 1915-1917) e Presidente do Ministério (1913-1914, 1915-1916 e 1917). Refira-se ainda que para além do contributo que deu à Constituição Republicana (1911), devem-se-lhe as iniciativas políticas que conduziram à elaboração de leis, como a Lei da Família, a Lei do Registo Civil, a Lei do Divórcio, a Lei da Separação do Estado e das Igrejas (1911), a Lei do Inquilinato, a Lei da Reorganização Judiciária, a Lei da Reforma Monetária ou a Lei da Expulsão das Ordens Religiosas. Foi afastado pelo golpe de Sidónio Pais mas depois dele, Afonso Costa foi nomeado presidente da delegação portuguesa na Conferência de Paz de Versalhes e mais tarde, presidente da delegação portuguesa junto da Sociedade das Nações, cargo de que foi demitido logo após o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. Exilado em Paris, fundou em fevereiro de 1927,  a Liga da Defesa da República com Álvaro de Castro, António Sérgio , Jaime Cortesão e José Domingues dos Santos. Foi agraciado postumamente com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1980).

 

Freguesia de São Domingos de Benfica (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)

Magalhães Lima na Avenida Central do Arco do Cego

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Magalhães Lima que pugnou pelo apoio claro aos Aliados na I Guerra e pelo envio de tropas para França, teve o seu nome perpetuado na cidade de Lisboa menos de quatro anos após o seu falecimento, com a Avenida Dr. Magalhães Lima na Avenida Central do Bairro Social do Arco do Cego, através do Edital municipal de 12 de março de 1932, a que a edilidade juntou no ano seguinte no mesmo Bairro, pelo Edital de 21 de janeiro de 1933, mais topónimos de outras figuras republicanas: Costa Goodolfim na Rua A, Bacelar e Silva na  Rua B, Ladislau Piçarra na Rua C,  Gomes da Silva na Rua D, Braz Pacheco na Rua U e Desidério Beça na Rua V.

O título de «Doutor» foi retirado do topónimo em 1948, por parecer  da Comissão de Toponímia emitido de 19/08/1948 e homologação em 13/12/1948 do Presidente da edilidade, Álvaro Salvação Barreto.

Galeria Republicana, outubro de 1882

Galeria Republicana, outubro de 1882

Sebastião de Magalhães Lima (Rio de Janeiro/30.05.1850 – 07.12.1928/Lisboa) pugnou para que o governo português tivesse uma política clara de apoio aos Aliados e enviasse tropas para França, tendo até realizado um conjunto de conferências em Itália e França sobre a Guerra e o envolvimento de Portugal, tendo partido de Lisboa a 8 de maio de 1916 e discursado na Sorbonne a 13 de junho. A Junta Patriótica de Arroios realizou até uma manifestação pública de reconhecimento pela campanha de Magalhães Lima em defesa da Guerra, em 5 de maio de 1917. Ainda em 1923, na cerimónia de colocação da primeira pedra do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Avenida da Liberdade, Magalhães Lima foi orador.

Licenciado em Direito na Universidade de Coimbra (1875), Magalhães Lima ingressou nessa época na Maçonaria (1874), organização na qual veio a ser o grão-mestre a partir de 22 de março de 1907 sendo depois sucessivamente reeleito até à data da sua morte em 1928. Fixou-se em Lisboa e dedicou-se à defesa do ideal republicano, com uma participação importante em momentos cruciais da afirmação republicana, como na comissão executiva da imprensa do Centenário de Camões (1880) ou durante o Ultimatum (1890), como membro do Directório do Partido Republicano Português  e enquanto vereador eleito em 1886 pela lista republicana para a Câmara de Lisboa,  deputado às Constituintes de 1911 ou  enquanto Ministro da Instrução (de 17 de maio a 19 de junho de 1915) do governo de José Ribeiro de Castro instituído após a revolução de 14 de maio de 1915 que pôs termo à ditadura do general Pimenta de Castro.

No jornalismo, foi fundador do Distrito de Aveiro, Comércio de Portugal (1879) e de O Século (1881), assim como diretor dos jornais A Folha do Povo (1896-1898) e Vanguarda (1898-1911), para além de ter sido dirigente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras de Lisboa, instituição que representou em congressos de jornalismo em Estocolmo, Paris, Lisboa, Roma e Viena. Da sua obra publicada destaque-se A Actualidade (1872), Padres e Reis (1873), o romance A Senhora Viscondessa (1875), o opúsculo A questão do Banco Nacional Ultramarino (1879 ou 80), Pela Pátria e pela República (1891), O Socialismo na Europa (1892), O Primeiro de Maio (1894), Da monarquia à república: história da implantação da república em Portugal (1910)  e os dois volumes de Episódios da Minha Vida.

Este tribuno republicano que foi o primeiro presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem, em 1922, na sua última mensagem como Grão-Mestre, em 1928, condenou a opressão do regime ditatorial imposto a Portugal desde 1926 contrapondo «Pátria» e «Liberdade» como sinónimos e nesse mesmo ano o seu funeral reuniu dezenas de milhar de pessoas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)