O emissor do Porto Alto, a Casa da Moeda e a Avenida de António José de Almeida

A partir das 3H15, uma coluna de nove viaturas militares da EPE de Tancos segue para Lisboa, para ocupar a Casa da Moeda, onde chega cerca das 18 horas, depois de horas a defender o emissor do Rádio Clube Português no Porto Alto.

Cerca das 3:15 do dia 25 de abril de 1974 uma coluna motorizada da EPE- Escola Prática de Engenharia saiu de Tancos com destino a Lisboa e a intenção de ocupar a Casa da Moeda. Contudo, cerca das 8:50, estacionou no centro emissor de Onda Média de 120 kw do Rádio Clube Português, no Porto Alto, para reforçar a sua defesa, pelo que só por volta das 18 horas ocupou a Casa da Moeda, na Avenida de António José de Almeida nº 42.

As Companhias de Caçadores 4241 e 4246 do Campo de Instrução Militar de Santa Margarida encontraram-se na Ponte da Golegã com a coluna da Escola Prática de Engenharia de Tancos e entregaram-lhe munições. A 4246 seguiu para a Ponte de Vila Franca de Xira e as outras duas, comandadas pelo capitão miliciano Luís Pessoa, acorreram a defender as instalações do Porto Alto, onde estavam as antenas do Rádio Clube Português, garantindo assim a transmissão. Às 8 horas da manhã, o governo do Estado Novo ainda  ordenou o corte de energia elétrica e dos telefones ao Rádio Clube Português, tanto nos estúdios da Rua Sampaio Pina como nas antenas do Porto Alto, situação que só foi normalizada às 19:00 horas e assim entraram em funcionamento geradores automáticos que asseguraram a emissão e a EPE permaneceu mais tempo no local e apenas às 18 horas ocupou a Casa da Moeda -Imprensa Nacional.

Desde 1972 que a Casa da Moeda havia tido uma fusão com a Imprensa Nacional sendo em 25 de abril de 1974 a INCM – Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Cerca de 30 anos antes,  sob o traçado de 1933 do Arqº Jorge Segurado, abriu em 1941 a nova sede da Casa da Moeda na Avenida de António José de Almeida, oriunda da Rua de São Paulo, onde estava desde 1720 estando essa memória guardada no local através do Beco e da Rua da Moeda.

Já a Avenida de António José de Almeida nasceu do Edital municipal de 18 de julho de 1933. Quatro anos mais tarde,  em 31 de dezembro de 1937, foi inaugurada nesta artéria uma estátua a homenagear este Presidente da República, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida e do Arqº Pardal Monteiro. E quatro anos depois abriu a Casa da Moeda.

Cerca de quinze dias após o falecimento de António José de Almeida determinou a edilidade, através do Edital de 12/11/1929 que a  a Avenida 12 do Novo Bairro no seguimento da Avenida Almirante Reis (hoje, Avenida Guerra Junqueiro) se denominasse Avenida Dr. António José de Almeida. Mas em 1933, a autarquia mudou o topónimo para o prolongamento da Avenida Miguel Bombarda, entre a Avenida dos Defensores de Chaves e a Avenida de Manuel da Maia, onde ainda hoje a encontramos.

António José de Almeida (Penacova – Vale da Vinha/27.07.1866 – 31.10.1929/Lisboa), formado em 1895 em Medicina pela Universidade de Coimbra, aderiu logo nessa época ao Partido Republicano e ao longo da sua vida exerceu medicina em Angola, São Tomé e Príncipe e Lisboa. Fez a sua vida como político: deputado pelo círculo oriental de Lisboa (1906); Ministro do Interior do Governo Provisório (1910-1911), fundou o Partido Republicano Evolucionista (24 de fevereiro de 1912); defendeu a participação de Portugal na Guerra logo em 1914; foi Chefe do Governo da União Sagrada e Ministro das Colónias (1916-1917); foi o único Presidente da I República a cumprir integralmente o seu mandato, de 1919 a 1923. Refira-se ainda que António José de Almeida proferiu um discurso no funeral de Rafael Bordalo Pinheiro (1905), e postumamente, em 1934, foram coligidos os seus principais artigos e discursos e publicados em 3 volumes sob o título Quarenta anos de vida literária e política.

A Casa da Moeda na Avenida de António José de Almeida, nos anos 50 do séc. XX
(Foto: António Passaporte, Arquivo Municipal de Lisboa)

© CML | DPC | NT e GEO | 2019

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Rua Alberto MacBride

Olisipo nº 62, abril de 1953

 

Rua Alberto MacBride, topónimo atribuído por Edital de 20 de Janeiro de 1998 a um arruamento da freguesia dos Olivais

Alberto Mac-Bride Fernandes (1886-1953), médico, escritor, coleccionador e olisipógrafo. Formou-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (1909) começando a sua carreira hospitalar com o pediatra Salazar de Sousa, no Hospital de São José, mas optou por seguir cirurgia, desenvolvendo uma notável carreira como cirurgião hospitalar ao longo dos 40 anos em que permaneceu neste Hospital, chegando a Director do Banco e Director do Serviço de Cirurgia dos Hospitais Civis de Lisboa. Durante a I Grande Guerra Mundial, serviu como cirurgião militar em diversos hospitais da frente de batalha. Ao mesmo tempo, sempre que pode, participa em diversos encontros médicos em França, com outros colegas de diversas nacionalidades, aprofundando a sua formação. No entanto, o seu interesse pela Medicina era bem mais vasto do que uma única especialidade. Debruçou-se sobre a organização hospitalar, apresentando ao Governo várias propostas nesse sentido, e reformando os serviços hospitalares de S. José incluindo os de Laboratório, de Enfermagem e os Serviços de Apoio (por exemplo, as cozinhas e as farmácias hospitalares). Pugnou pela reabertura do Regime de Internato Médico que permitia aos estudantes de Medicina um contacto mais directo com a prática hospitalar. Propôs uma profunda alteração na rede hospitalar da cidade, com o encerramento dos Hospitais de Arroios e Desterro, e sugerindo a criação de 3 grandes hospitais (Norte, Ocidental e Oriental), numa antevisão daquilo a que hoje a cidade assiste. E dedicou-se à história da Medicina, quer como investigador, quer fazendo conferências, quer ainda como coleccionador de objetos ligados ao passado da Medicina (pintura, utensílios, livros). A partir desta sua colecção, um ano após a sua morte, foi realizada uma exposição no Hospital de Santa Marta, sobre História da Medicina. O êxito da exposição levou a que fosse criado o Museu de História dos Hospitais Civis de Lisboa – Dr. Alberto Mac-Bride, o qual funcionou entre 1957 e os anos 70 do século XX, procurando corresponder ao seu desejo de criar um museu dedicado à história da Medicina, ideia à qual se dedicara desde 1911. Dirigiu a Associação dos Médicos Portugueses, antecessora da Ordem dos Médicos e presidiu à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Foi autor de largas dezenas de artigos médicos em publicações periódicas da especialidade e redactor e secretário da Medicina Contemporânea.

Para além da sua actividade médica Alberto Mac-Bride foi sócio fundador da Associação dos Arqueólogos Portugueses, quando esta instituição se reestruturou em 1911. Participou na fundação da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, em 1923, organismo criado para dar apoio aos militares vítimas da guerra e suas famílias, da qual chegou a ser presidente. Fez parte do Grupo Pró-Évora (fundado em 1919), onde incentivou a criação de um curso para cicerones. Em 1938, foi sócio fundador do Grupo Amigos de Lisboa. Em 1938, em conjunto com Gustavo de Matos Sequeira assinou um relatório sobre a reabilitação do Castelo de S. Jorge. Na década de 30 veio a público referir-se ao estado da higiene em Lisboa, procurando fazer um levantamento das condições das habitações particulares (escuras, sem esgotos centrais e sem água canalizada) e das infraestruturas municipais (deficiente rede de esgotos, ausência de jardins e balneários públicos). Mas a sua iniciativa mais interessante terá sido o inovador Bosque de Lisboa. O seu interesse pela qualidade de vida da cidade de Lisboa leva-o a estudar e a apresentar, em conjunto com seu irmão Eugénio (também ele médico), e com o General Vicente de Freitas (que viria a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa de 1928 a 1933), em 1925, uma proposta para a criação de um grande parque arbóreo na cidade. O projecto incluía ainda novas e amplas vias de comunicação, áreas de lazer, e procurava estruturar os novos bairros a serem desenvolvidos. Estender-se-ia desde a Serra de Monsanto, à época, sem arborização, até Benfica, Carnide, Telheiras e Campo Grande, e seria servido por uma ampla rede de vias de forma a permitir que o lisboeta pudesse dele usufruir. A ideia deste parque, tendo em vista melhores condições sanitárias, será retomada numa dimensão menor com a gestão de Duarte Pacheco e a florestação de Monsanto, dotando a cidade de um pulmão verde.

© CML | DPC | Gabinete de Estudos Olisiponenses | 2019

Trinta anos da Avenida Presidente Wilson em Lisboa, de 1918 a 1948

A Avenida Presidente Wilson em 1919
(Ilustração Portuguesa, 16 de Junho de 1919)

A Avenida Presidente Wilson existiu em Lisboa durante 30 anos, de 1918 a 1948, em homenagem ao Presidente dos Estados Unidos da América que declarou guerra à Alemanha em 1917, Thomas Woodrow Wilson.

Essa artéria foi somando topónimos ao logo do tempo. Foi a Rua Duque de Terceira que nascia na Rua 24 de Julho e pelo Edital municipal de 28 de Dezembro de 1889 passou a ser denominada Rua Dom Carlos I, ainda em vida do homenageado. Após a implantação da República, por Edital de 5 de novembro de 1910, passou a ser a Avenida das Cortes, em louvor deste  órgão de representação nacional, o órgão do poder legislativo.  Depois, o Presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Wilson, fez a entrada formal do seu país na I Guerra Mundial, com a declaração de guerra à Alemanha em abril de 1917 e logo no ano seguinte, por deliberação camarária de 19 de setembro e consequente Edital de 24 de setembro de 1918, a edilidade lisboeta trocou o nome da Avenida das Cortes por Avenida do Presidente Wilson, em vida do presidente homenageado que faleceria cerca de 6 anos depois.

Thomas Woodrow Wilson (E.U.A. – Staunton/28.12.1856-03.02.1924/Washington – E.U.A.), foi o Presidente dos Estados Unidos da América de 1912 a 1921 e enquanto tal, foi o responsável pela declaração de guerra à Alemanha em 1917. Cerca de dois meses após o Presidente Wilson ser um topónimo lisboeta foi assinado o Armistício, em Compiègne, em 11 de novembro de 1918, e a Ilustração Portuguesa noticiou na sua edição seguinte, de dia 18 de novembro , «Acabou a guerra, acabou a guerra! Foi o grito unanime, vibrante de entusiasmo, louco de alegria, que reboou no dia 11 por toda a cidade, ao saber-se que o ‘Seculo’ afixára, no seu placard e nos placards das suas sucursaes, o radiograma recebido ás 10 horas sobre a assinatura do armisticio que, finalmente, se realizará às 5 horas da madrugada d’esse dia.

Em 1919, este presidente dos Estados Unidos da América  recebeu o Prémio Nobel da Paz, pelo seu papel crucial na fundação da Sociedade das Nações, também conhecida por Liga das Nações, cujo papel seria o de assegurar a paz e por isso se extinguiu após deflagrar a II Guerra Mundial, tomando depois o seu papel a ONU – Organização das Nações Unidas.

Voltando à Avenida Presidente Wilson, passados 30 anos sobre o seu Edital de atribuição, em 1948, a edilidade lisboeta decidiu alterar este topónimo para Avenida D. Carlos I, ao mesmo tempo que atribuía ao Presidente Wilson uma Rua – a Rua D1 do plano de urbanização da zona compreendida entre a Alameda Dom Afonso Henriques e a linha férrea de cintura – na então freguesia de São João de Deus (hoje, freguesia do Areeiro), tudo através do Edital municipal de 23 de dezembro de 1948.

A Avenida Presidente Wilson em 1930
(Foto: Ferreira da Cunha, Arquivo Municipal de Lisboa)

A Praça Afonso do Paço, do militar por profissão e arqueólogo por paixão

Freguesia de Campo de Ourique
(Foto: Google Maps editada pelo NT do DPC)

No ano seguinte ao seu falecimento, pelo Edital de 29 de janeiro de 1969, a edilidade lisboeta homenageou na sua toponímia o militar de carreira e arqueólogo por paixão Afonso do Paço, responsável pela escavação da estação calcolítica de Monsanto na década de quarenta, através de uma Praça situada na confluência da Rua Pereira e Sousa e da Rua Francisco Metrass, vulgarmente conhecida por Praceta da Vila Benitez, em Campo de Ourique.

Afonso do Paço em 1969
(Foto: João Marques de Oliveira, Arquivo Municipal de Lisboa)

Manuel Afonso do Paço (Viana do Castelo – Outeiro/30.11.1895 – 29.10.1968/Estoril) foi um militar de carreira que se apaixonou pela arqueologia, área pela qual ainda hoje é  evocado, muito pelo estudo das estações paleolíticas e epipaleolíticas do litoral, domínio de estudos que continuou a tratar ao longo dos anos, sobretudo com o padre Eugénio Jalhay. Em 1944, ambos e o Dr. Leonel Ribeiro, fizeram em Lisboa a escavação da estação calcolítica de Monsanto, recolhendo um enorme espólio cerâmico (sobretudo, campaniforme) e lítico, de machados polidos e pontas de sílex. Ainda com Eugénio Jalhay, procedeu à escavação  do povoado calcolítico fortificado de Vila Nova de São Pedro, iniciada por ambos em 1937 até ao falecimento de Jalhay – em 1950 – e depois prosseguida apenas por Afonso do Paço até falecer, mesmo se as autoridades oficiais da época jamais tivessem reconhecido como relevante a investigação daquele morro pré-histórico, mesmo se os resultados publicados a nível internacional fizessem acorrer às escavações os mais importantes pré-historiadores da época. Também pesquisou em Sanfins (Paços de Ferreira) e participou em duas expedições arqueológicas (1958 e 1960) ao sítio onde se deu a Batalha de Aljubarrota, Campo de São Jorge, em que se identificaram cerca de 830 estruturas denominadas covas de lobo, armadilhas para a cavalaria, junto à Capela de São Jorge. Destas escavações resultaram as publicações Necrópole de Alapraia (1955), Tesouro Monetário da Citânia de Sanfins (1955) e Castro de Vila Nova de S. Pedro : campanha de escavações de 1956.

Afonso do Paço também estudou do património etnográfico de Viana do Castelo, centrando-se  no traje, sendo assim autor das obras Contribuição para o estudo do trajo popular dito «à lavradeira» no concelho de Viana do Castelo (1925), O trajo “à lavradeira” (de Outeiro a Perre em especial e das outras aldeias em geral) (1930), Mordomarias (1932) e O trajo popular do Minho – Do trajo “à lavradeira” em geral e do de “Santa Marta” em especial. De igual modo, interessou-se pelo estudo e recolha da tradição oral, sobretudo do cancioneiro popular português, com recolha de quadras populares que compilou no Cancioneiro de Viana do Castelo (1928), Lisboa no Cancioneiro Ribatejano (1948) e no Cancioneiro popular ribatejano: Contribuição de Vila Nova de S. Pedro (1952).

Afonso do Paço estudara Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e em 1917 foi também oficial de infantaria, tendo mesmo combatido na Flandres  no decorrer da I Guerra Mundial- integrado no 4.º Grupo de Metralhadoras Pesadas – e sido feito prisioneiro pelos alemães na Batalha de La Lys, em 9 de abril de 1918. Alcançou o posto de Tenente Coronel e chegou a ser condecorado com a Cruz de Guerra de 2.ª Classe, duas “fourragères” da Cruz de Guerra e a medalha da Victória. Regressou a Portugal a 16 de janeiro de 1919 e a partir de 1924, estava colocado como funcionário da Administração Militar e foi como oficial do Exército que assegurou o seu sustento e o de sua família. Em 1925 foi professor provisório do Colégio Militar e depois, Tesoureiro da Inspeção do Serviço Telegráfico Militar e Chefe da Contabilidade do Batalhão de Telegrafistas (Braga). Também produziu estudos sobre a história e a vida militar como Linguagem da Malta (1924), Gírias Militares Portuguesas (1926), Cartas às Madrinhas de Guerra (1929), Da Influência da Guerra no Léxico Português (1931), A vida Militar no Rifoneiro Português (1934-1936) ou As Comunicações Militares de Relação em Portugal – Subsídios para a sua história (1938).

Em 1969, Afonso do Paço foi homenageado  na Associação dos Arqueólogos Portugueses com a Câmara Municipal de Lisboa. Está também na toponímia de Paços de Ferreira, de Sanfins de Ferreira, de Cascais, do Estoril, da Sobreda (Almada) e de Setúbal como Afonso do Paço, bem como surge como  Tenente Coronel Afonso do Paço no nomes das artérias da sua terra natal, tanto em Outeiro como em Viana do Castelo.

Freguesia de Campo de Ourique
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

A Rua Francisco Cortês Pinto, do Laboratório Sanitas e da AIP

Freguesia de Carnide
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Por sugestão da Lispolis, os arruamentos do Pólo Tecnológico de Lisboa receberam nomes de industriais, banqueiros e investigadores, sendo assim que a Rua G do Pólo Tecnológico de Lisboa foi denominada Rua Francisco Cortês Pinto, com a legenda «Industrial/1885 – 1974», pelo Edital municipal de 24 de setembro de 2009, para homenagear o fundador do Laboratório Sanitas e Presidente da AIP.

Pelo mesmo Edital, assim também como pelo Edital municipal de 02/10/2009, a edilidade colocou nas restantes Ruas do local os nomes dos industriais António Champalimaud (Rua A) e Carlos Alves (Rua I),  do banqueiro Cupertino de Miranda (Ruas C e D), do  precursor das modernas teorias de economia e finanças Carlos Morato Roma (Rua J ) e das médicas Cesina Adães Bermudes (Ruas E e F) e Laura Ayres (Rua H).

Francisco Cortez Pinto (Leiria/12.02.1885 – 30.07.1974/Lisboa) foi um major médico de carreira, que teve consultório no nº 24 da Rua Dom João V e que em 1911 fundou, com o farmacêutico Horácio Pimentel,  a firma Cortês Pinto Pimentel, Lda., a proprietária do Laboratório Sanitas que sempre teve sede em Lisboa e se tornou uma importante indústria de produtos farmacêuticos.  Nesta área, a partir de 1939, foi também o 1º Presidente da Direção do Grémio Nacional dos Industriais de Especialidades Farmacêuticas.

Como industrial, Cortez Pinto exerceu cargos dirigentes em empresas dos setores metalúrgico, elétrico, do papel, do mobiliário metálico, da banca e dos seguros tendo também até aos seus 89 anos de vida desempenhado vários funções na direção da AIP  – a Associação Industrial Portuguesa cujos primeiros estatutos datam de 1837 – a partir do triénio de 1924- 1926, tendo sido Presidente da AIP no período de 1941 a 1960, qualidade em que logo no primeiro mandato a AIP adquiriu uma nova sede na Avenida da Liberdade. Em 1949, recuperou os pavilhões da Exposição do Mundo Português e transformou-os na FIP – Feira das Indústrias Portuguesas, a antecessora da Feira Internacional de Lisboa de 1957 , construída de raiz na Junqueira segundo o traço dos arqºs  Francisco Keil do Amaral, Alberto José Pessoa e Hernâni Gandra, de que mais tarde será Presidente.

Acresce que Francisco Cortez Pinto, licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, chefiou o Laboratório de Bacteriologia e Análises do Hospital Militar da Estrela, assim como os serviços de saúde da coluna enviada a Cassinga e Evale (1915-1916),  tal como foi diretor do Hospital-Ambulância de Fauquembergues e dos serviços de saúde do Batalhão de Infantaria 24, ambos na  Flandres (1917).

Refira-se ainda que este leiriense foi membro do Rotary Club of Lisbon e doou à sua cidade-natal no 4º Centenário de Elevação a cidade (1945) o grupo escultórico A caminho da feira de Anjos Teixeira , tendo sido distinguido  em 5 de outubro de 1932 com o grau de Comendador da Ordem do Mérito (Classe do Mérito Industrial), bem como em 1975, a título póstumo,  foi condecorado pelo governo polaco pelo seu apoio aos judeus  polacos perseguidos pelo nazismo ao disponibilizar uma casa-refúgio em Caxias.

Freguesia de Carnide
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

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A Rua Maestro Raúl Ferrão da popular tendinha

Freguesia de Benfica
(Foto: Sérgio Dias| NT do DPC)

Raúl Ferrão, o compositor da lisboeta A tendinha celebrizada por Hermínia ou Amália, está perpetuado numa Rua do Bairro de Santa Cruz de Benfica, desde 1969 e dezasseis anos após a morte do maestro.

A sugestão de topónimo partiu do próprio Presidente da CML de então, António Vitorino França Borges, tendo o  Edital municipal de 10 de abril de 1969 atribuído a Rua Maestro Raúl Ferrão à Rua 6 do Bairro de Santa Cruz. O mesmo Edital também deu topónimo às restantes ruas do Bairro de Santa Cruz, correspondendo à solicitação da Junta de Freguesia de Benfica já feita em 25 de março de 1966, tendo sido escolhidos para o efeito o nome de 2 militares, 4 atores, 7 jornalistas e escritores, um escultor, um médico e um benemérito, a saber: a Rua Comandante Augusto Cardoso, a Rua Coronel Campos Gonzaga, a Rua Actor Alves da Cunha, a Rua Actor Estêvão Amarante, a Rua Actor Nascimento Fernandes, a Rua Actor Vasco Santana, a Rua Alfredo Pimenta, a Rua Dr. Cunha Seixas, a Rua Eduardo Schwalbach, a Rua Helena de Aragão, a Rua Irene Lisboa, a Rua Jaime Brasil, a Rua Moreira de Almeida, a Rua Júlio Vaz Júnior, a Rua Dr. José Alberto de Faria e a Rua Albino Sousa Cruz.

Raul Ferrão (Lisboa/25.10.1890 – 30.04.1953/Lisboa) era um oficial de artilharia que em paralelo desenvolveu uma carreira de compositor e maestro de música ligeira produzindo para centenas de revistas, operetas, marchas populares e até para alguns filmes como a Canção de Lisboa (1933), a Maria Papoila (1937), Aldeia da Roupa Branca e Varanda dos Rouxinóis (ambos de 1939). Os seus dois temas mais populares foram o fado «A Tendinha» e a canção «Coimbra» (também conhecida como «Avril au Portugal»), que ainda hoje nos assomam à memória. Todavia, também foram êxitos na época inúmeros fados ou canções da sua autoria como «Adeus», «O Balãozinho»«Campino», «Canção de Alcântara», «Carta de um Soldado», «O Cochicho»«Fado das Caldas», «Fado do Marinheiro», «Fado da Melancia», «Lá vai Lisboa»«Lisboa não sejas francesa»«Madragoa», «Maldito Fado», «Maria Severa», «Não Gosto de Ti», «Rosa Enjeitada», «Só à noitinha»ou «Velho Friagem» .  Somou também as vozes de Alberto Ribeiro, Amália, Beatriz Costa, Carlos Ramos, Fernando Farinha, Hermínia, José Pracana, Júlia Barroso, Lucília do Carmo, Maria Clara, Maria da Fé, Maria Teresa de Noronha, Max, Nuno da Câmara Pereira ou Vicente da Câmara, como intérpretes das suas composições.

Raúl Ferrão foi um militar de carreira que frequentou o Colégio Militar e alcançou o posto de tenente-coronel do Exército, tendo sido ainda professor na Escola de Guerra (1917 e 1918), depois de ter cumprido comissões de serviço em África durante a I Guerra Mundial. Foi agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito Industrial (1932) e a Comenda da Ordem Militar de Avis (1935), assim como recebeu em 1945/1946 o Prémio Filipe Duarte do SNI  por «Menina Lisboa» da opereta A Invasão (juntamente com José Galhardo e Mirita Casimiro) e em 1946/1947, o Prémio Del Negro por «Trapeiras de Lisboa» incluída na revista Canções Unidas, para além de em Coimbra existir uma Rua Raúl Ferrão.

Freguesia de Benfica
(Planta: Sérgio Dias| NT do DPC)

Bolivar, o «pai» da Bolívia numa rua em papel

O político e militar venezuelano Simón Bolívar, «pai» da Bolívia e de outras nações sul-americanas tornadas independentes da colonização espanhola, foi consignado em papel como topónimo de uma rua do Bairro América, na Freguesia de São Vicente, que nunca chegou a ser fisicamente aberta.

A Rua Bolivar nasceu de uma deliberação camarária de 25 de novembro de 1918, com mais 6 topónimos, todos referentes a figuras ligadas ao continente americano, no novo bairro que estava a ser construído na Quinta das Marcelinas e que a edilidade denominou a pedido dos proprietários como Bairro América, quando tinham passado 14 dias após a assinatura do armistício de Compiègne que pôs fim à  I Guerra Mundial e, no ano seguinte ao da entrada dos Estados Unidos da América no conflito.

Aliás, a ata dessa sessão camarária ainda mais elucida que «Os Srs. Manuel José Martins Contreiras, Dr. João José da Silva e Fernão Boto Machado, proprietários da Quinta das Marcelinas, na Rua Vale de Santo António, 30, requereram a esta Câmara que lhes fosse dado ao Bairro que ali estão construindo, a denominação de Bairro da América, a exemplo do que já foi feito para os bairros da Bélgica e da Inglaterra e que os arruamentos tivessem as seguintes denominações: nº 1:Rua Franklin, nº 2: Washington, nº 3: Rui Barbosa, nº 4: Bolívar, nº 5: Dos Cortes Reais, nº 6: de Fernando de Magalhães, nº 7:de Álvaro Fagundes.»

O correspondente Edital municipal só foi publicado em 17 de 0utubro de 1924 e os arruamentos Rua Bolivar e Rua Álvaro Fagundes nunca tiveram execução prática na urbanização do Bairro América , embora em 1971, o nome de Álvaro Fagundes tenha regressado para a toponímia lisboeta para dar nome à Rua C à Rua General Justiniano Padrel, também na Freguesia de São Vicente.

Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco (Venezuela – Caracas/24.07.1783 – 17.12.1830/Colômbia),  conhecido como Simón Bolívar, destacou-se como militar desde janeiro de 1797 e político sul-americano que quis libertar a América da colonização espanhola. Com José de San Martín (1778 -1850) desempenhou um papel fulcral nas guerras de independência da América espanhola, tendo nesse processo contribuído para lançar as bases ideológicas democráticas na maioria da América hispânica e conseguido o epíteto de O Libertador.

Nos seus 46 anos de vida, Bolívar foi Presidente da Venezuela, de 6 de agosto de 1813 a a 7 de julho de 1814 bem como de 15 de fevereiro de 1819 a 17 de dezembro de 1819, sendo este país desde 1999 denominado República Bolivariana da Venezuela; do Peru, de 17 de fevereiro de 1824 a 28 de janeiro de 1827; da  Bolívia, de 12 de agosto de 1825 a 29 de dezembro de 1825; para além de ter participou na fundação da primeira união de nações independentes na América Latina, a Grã-Colômbia, que integrava a Colômbia, o Equador , a Venezuela e o Panamá, da qual foi Presidente de 17 de dezembro de 1819 a 4 de maio de 1830.

Edital municipal de 17 de outubro de 1924

A Avenida dos Combatentes da Grande Guerra atribuída em 1971

Freguesias das Avenidas Novas, de São Domingos de Benfica e de Alvalade

Em 1938,  a Liga dos Combatentes solicitou à Câmara de Lisboa a atribuição da denominação de «Combatentes da Grande Guerra» a um largo, praça ou avenida da capital  mas a questão foi sendo protelada por falta de arruamento considerado condigno para o efeito e só pelo Edital municipal de 15 de março de 1971 foi atribuída a Avenida dos Combatentes, para englobar todos os combatentes incluindo os da Guerra Colonial que já decorria há 10 anos, na Avenida que era prolongamento da Avenida António Augusto de Aguiar e hoje percorre as Freguesias das Avenidas Novas, São Domingos de Benfica e Alvalade.

O processo municipal era o nº 18905/38, a que se juntou mais tarde o processo nº 17175/55, e foi analisado sucessivamente nas reuniões da Comissão Municipal de Toponímia de 11 de novembro de 1955, 4 de maio de 1956 e 21 de janeiro de 1958, com a resposta de se aguardar oportunidade de novas artérias. A Liga dos Combatentes voltou a insistir pelo ofício nº 4087 sugerindo para o efeito a Avenida do Aeroporto ou o troço da Avenida Almirante Reis, entre a Praça do Chile e a Praça do Areeiro, a que a Comissão na sua reunião de 15 de outubro de 1958 respondeu «que a alteração das nomenclaturas dos arruamentos referidos implicaria profundas despesas e transtornos aos proprietários e moradores dos prédios das mesmas vias públicas, além de que a Comissão, tem por norma recorrer, o menos possível a este sistema, pelo que mantém os seus anteriores pareceres, isto é, deverá aguardar-se que haja uma artéria condigna para atribuição da referida nomenclatura».

E em 1971, a Comissão Consultiva Municipal de Toponímia na sua reunião de 5 de março, finalmente escolheu a «avenida (em projecto) que constitui prolongamento da Avenida António Augusto de Aguiar, seja atribuído o topónimo: Avenida dos Combatentes», a que se deu existência pelo Edital municipal de 15 de março de 1971.

Refira-se que um pouco por todo o país, embora sem sabermos a data de atribuição e a que combatentes se destinava a homenagem, e mesmo que de forma não completamente exaustiva, encontramos muitas artérias – Avenidas, Ruas, Praças, Largos, Travessas, Becos e Rotundas –  com o topónimo «dos Combatentes» em Abrunheira (Sintra), Alcácer do Sal, Aldeia das Dez (Oliveira do Hospital), Alfândega da Fé, Alhandra, Almargem do Bispo, Almeida, Almeirim, Alverca do Ribatejo, Amares, Anadia, Azambuja, Barcelos, Braga, Bucelas,  Cabeceiras de Basto, Carrazeda de Ansiães, Cartaxo, Constância, Ermesinde, Espinho, Esposende, Forte da Casa, Fronteira, Lagoa, Loulé, Lourinhã, na Madeira, Maia,  Mangualde, Marco de Canavezes, Milharado (Mafra), Moita, Oliveira de Azeméis, Oliveira de Frades, Ourém, Ovar, Paços de Ferreira, Parede, Paredes, Pero Pinheiro, Ponte de Sor, Portimão, Póvoa de Varzim, Rio Maior, Rio de Mouro, Sacavém,  Salvaterra de Magos, São João da Talha, na ilha de São Miguel (Açores), Santa Maria da Feira, Santa Maria de Lamas, Santa Marta de Penaguião, Santarém, Santo Tirso, Sátão, Serra d’El-Rei (Peniche), Sesimbra, Setúbal, Terrugem (Sintra), Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Vialonga, Vila do Conde, Vila Franca de Xira, Vila Nova da Barquinha, Vila Nova de Famalicão, Vila Nova de Gaia,Vilar Formoso e Viseu.                                .

E algo semelhante se passa com o topónimo «Combatentes do Ultramar», que em Avenidas, Jardins, Largos,  Ruas e Travessas surge em Almargem do Bispo, Almoçageme, Amarante, Beja, Cadafaz (Góis), Cadaval, Cartaxo, Cascais, Cucujães (Oliveira de Azeméis), Esposende, Guardizela (Guimarães), Lordelo (Guimarães), Louredo (Santa Maria da Feira), Lousada, Loures, Mata de Lobos (Figueira de Castelo Rodrigo), Matosinhos, Monchique, Moreira de Cónegos, Muge (Salvaterra de Magos), Nazaré, Odivelas, Paços de Ferreira, Paredes, Parede, Pedrógão Grande, Penafiel, Penalva do Castelo,  Pero Pinheiro, Ponta Delgada, Ribeirão (Vila Nova de Famalicão), Rio Maior, Rio de Moinhos (Borba), São João da Caparica (Almada), São João da Madeira, Sintra, Tondela, Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Poiares e Vila Verde.

Freguesias das Avenidas Novas, de São Domingos de Benfica e de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesias das Avenidas Novas, de São Domingos de Benfica e de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

 

A Rua dedicada ao Alferes Malheiro, do 31 de janeiro de 1891 para capitão do exército brasileiro

Freguesia de Alvalade                                                                                             (Foto: Sérgio Dias)

Após desempenhar um papel importante na insurreição de 31 de janeiro de 1891 o Alferes Malheiro teve de fugir para o Brasil, onde foi reconhecido como capitão honorário do exército brasileiro, teve na toponímia de Lisboa a consagração em dois locais distintos.

Primeiro, por Edital municipal de 8 de junho de 1925, cerca de 6 meses após o seu falecimento, deu nome à Avenida do Parque ao Campo Grande, como Avenida Alferes Malheiro e a legenda «Precursor do regime Republicano». Assim se manteve até o Edital de 23 de dezembro de 1948 transformar esta artéria em Avenida do Brasil e o Alferes  Malheiro ficar num limbo durante quase 23 anos para voltar à toponímia como Rua, pelo Edital municipal de 9 de agosto de 1971, no arruamento de ligação entre a Avenida do Brasil e o prolongamento da Rua Marquês do Soveral, tendo como legenda apenas os anos de nascimento e morte.

Refira-se que na zona do Campo Grande havia sido fundado a 7 de dezembro de 1908 o Centro Escolar Republicano Alferes Malheiro, cuja  primeira sede foi na Rua Oriental do Campo Grande, nº 111, passando depois para a Rua Ocidental, nº 225, onde esteve durante 18 anos, para em 1930 mudar novamente, desta feita para o Campo Grande nº 290.

alferes-malheiroAugusto Rodolfo da Costa Malheiro (Porto/19.01.1869-09.12.1924/Lisboa), foi um oficial do Exército português desde 1886, que incorporado no Batalhão de Caçadores 9, teve um papel importante na insurreição de 31 de janeiro de 1891, no Porto, o primeiro movimento para implantação da República em Portugal. Gorada a revolta fugiu para Espanha e daí partiu de Vigo para o Brasil, tendo sido julgado como desertor por um Tribunal Militar. Instalou-se em Minas Gerais onde frequentou o curso de Engenharia e após o concluir envolveu-se na revolução brasileira surgindo na chefia dos alunos da Escola Militar com a intenção de pôr termo à acção dos revoltosos sob o comando de Saldanha da Gama. Foi ferido em combate e, fruto do reconhecimento do Governo brasileiro pelos serviços prestados tornou-se capitão honorário do exército brasileiro. A sua reintegração no Exército Português foi decretada após a Proclamação da República, e dela teve conhecimento o Alferes Malheiro a 22 de novembro de 1910, na cidade da Baía, de onde escreveu uma carta de agradecimento ao então Ministro da Guerra, o General Correia Barreto, e ao Governo Provisório Republicano.

Regressado a Portugal, ocupou o posto de capitão no Regimento de Infantaria 16. Insistiu em acompanhar o batalhão expedicionário a Angola como voluntário, durante a Primeira Guerra Mundial e no pós-guerra,  comandou  em 1919 a Coluna Negra, destinada a combater a Monarquia do Norte,  em Monsanto e no Norte do País.

Deixou parte dos seus bens para o Centro Escolar Eleitoral Republicano Alferes Malheiro, que em 1910 tinha já uma Escola Primária, para ambos os sexos. Em 11 de novembro de 1987, este Centro foi agraciado com a Comenda da Ordem da Liberdade, Grau Membro Honorário, pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares.

Para além de Lisboa, o Alferes Malheiro também está consagrado na toponímia do Porto, com uma Rua do Alferes Malheiro, em Beja, com uma Travessa e na Charneca da Caparica como Rua Augusto da Costa Malheiro.

Freguesia de Alvalade (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia de Alvalade
(Planta: Sérgio Dias)

A Rua de Casimiro Freire, o mecenas das Escolas Móveis João de Deus, no Bairro dos Aliados

Freguesia do Areeiro (Foto: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Foto: Sérgio Dias)

Casimiro Freire, o mecenas republicano que em 1882 fundou a  Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, dá nome a uma rua do Bairro dos Aliados, com a legenda «Apóstolo da Instrução Popular/Século XIX», desde junho de 1926.

Casimiro Freire foi fixado na Rua nº 5 do Bairro dos Aliados à Rua Carvalho Araújo, nos terrenos do antigo Areeiro também conhecido como Quinta do Bacalhau, pela deliberação camarária de 12 de junho de 1926 e edital de dia 25 do mesmo mês. Pelo mesmo edital foi também homenageado, na Rua nº 4,  João de Menezes , um «Precursor do Regime Republicano/Século XIX».

Casimiro Freire (Sertã – Pedrogão Pequeno/08.10.1843 – 20.10.1918/Lisboa) era um comerciante e industrial cuja prosperidade o tornou num mecenas da alfabetização. Assim, publicou em 29 e 30 de março de 1881, no jornal O Século, um artigo intitulado «A instrução do povo e a monarquia», onde se insurgia contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propunha que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Numa época em que 80% da população portuguesa era iletrada, Casimiro Freire fundou em 18 de maio de 1882, com João de Deus, a Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus e em 1897 publicou também em folheto uma representação à Câmara dos Deputados intitulada A Instrução do Povo e o Método de João de Deus. Acompanharam-no nessa iniciativa personalidades, como João de Barros, Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros. Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Mais tarde, em 1915, por decreto de 5 de junho do Ministro da Instrução Pública, Sebastião Magalhães Lima, foi encarregue da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu em 30 de junho de 1916. E por decreto de 23 de dezembro de 1916, também lhe foi destinada a guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus, na Avenida Álvares Cabral.

Republicano desde 1862, foi em 1876 um dos fundadores do primeiro Centro Republicano com Oliveira Marreca e Sousa Brandão entre outros, e em 1899, a partir da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel foi eleito para o diretório do Partido Republicano Português. Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação mas já em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano. Colaborou também na imprensa republicana, nomeadamente no Democracia (1873) – jornal dirigido por Elias Garcia -, e no Vanguarda.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus, no segundo casamento desta, e com ela residiu nº 20 C-1º da Rua das Gaivotas.

Freguesia do Areeiro (Planta: Sérgio Dias)

Freguesia do Areeiro
(Planta: Sérgio Dias)